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andanhos

17
Jan20

Ocasionais - Livro de Horas, Miguel Torga

andanhos

 

OCASIONAIS

 

LIVRO DE HORAS

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No 25º aniversário da morte de Adofo Correia da Rocha, fala-nos o grande poeta transmontano Miguel Torga:

 

Aqui diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas
O dos facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.

E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!

 

Miguel Torga,

in 'O Outro Livro de Job'

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15
Jan20

Por terras da Ibéria - Norte de Portugal - Tongobriga (Freixo-Marco de Canaveses)

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01.- PTI - Norte de Portugal - Tongóbriga 01

TONGOBRIGA – FREIXO

MARCO DE CANAVESES

 

Comecemos por apresentar o nosso tema, visionando este pequeno vídeo, ínsito no Jornal de Notícias digital, (JN), de 6 de julho de 2018.

 

FESTIVAL ROMANO APRESENTA DOCUMENTÁRIO TONGOBRIGA – GENIUS LOCI

Vejamos agora o significado do nome Tongobriga e como esta Estação Arqueológica foi «ressuscitada». Para o efeito, sirvamo-nos deste vídeo, edição da Porto Canal.

 

MARCO CIDADE ROMANA DE TONGOBRIGA

 

e do «Guia Arqueológico Visual  - Tongobriga . O espírito do lugar», editado em 2018, aquando ao Festival romano, realizado na Estação Arqueológica do Freixo, e ao lançamento do Documentário - «Tongobriga: Genius Loci» .

 

Seria de todo fastidioso neste post repetirmos o que o «Guia Arqueológico Visual - Tongobriga. O espírito do lugar» nos relata. Basta, para os(as) leitores(as) que se interessam por estas coisas, lerem atentamente este documento tão bem feito e apresentado – que, para além da edição digital, se apresenta também em livro, e que se pode adquirir na receção da Estação Arqueológica do Freixo (Tongobriga).

 

Vamos, contudo chamar a atenção, e realçar aos nossos leitores(as), os seguintes aspetos:

  • Em primeiro lugar, a Estação Arqueológica do Freixo (Tongobriga) - as ruínas da cidade romana de Tongobriga, segundo o artigo «Estação Arqueológica do Freixo – Tongobriga», jazem sob a aldeia de Santa Maria do Freixo, lugar/aldeia integrante da cidade e concelho de Marco de Canaveses;
  • Em segundo lugar, esta cidade romana foi construída sobre o território e a par das construções de um povoamento castrejo já existente, conforme se pode ler nas páginas 10 e 11 do «Guia Arqueológico Visual – Tongonbriga. O espírito do lugar», que, daqui para a frente, passaremos sempre a referir por «Guia». 
  • Em terceiro lugar, e ainda o mesmo «Guia», nas páginas 12 e 13, refere-nos que o nome de Tongobriga é tipicamente celta e deriva do sufixo «briga», que quer dizer colina fortificada e do nome «Tongo», nome indígena, que tanto se pode referir a uma divindade, como a um líder da comunidade, o que propiciou a fundação do povoado, ou ainda qualquer outro. Não é, assim, um nome cujos romanos tenham inventado ou atribuído: ele já existia e, quando cá chegaram, não o alteraram.
  • Em quarto lugar, as ruínas que foram descobertas pelos arqueólogos e que podem ser visitadas são:
    • O perímetro amuralhado com cerca de 13 hectares, abrangendo toda a área do Freixo, dentro do qual são visíveis bairros de habitação pré-romana

02.- 2019.- Marco de Canaveses  (155)

(Trecho da estrutura de uma construção castreja)

02a.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (80)

(Sobreposição de uma estrutura castreja com uma romana)

  • e romana

03.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (70)

(Uma perspetiva parcial da estrutura urbana)

03a.- 2019.- Marco de Canaveses  (153)

(Uma perspetiva mais em pormenor da estrutura urbana)

(veja-se pág.s 14 e 15 – A Estrutura do povoamento castrejo e pag.s 42 e 43 – A Estrutura urbana, construído entre os séculos I e V d. C., do «Guia»).

04.- 2019.- Marco de Canaveses  (161)

Para se ir da Receção ao Forum e Balneário pré-românico e românico, que fica na parte sul da Estação Arqueológica, tem de se atravessar parte da aldeia, onde podemos encontrar construções/habitações como esta:

04a.- 2019.- Marco de Canaveses  (169)

  • O balneário castrejo pré-romano Balneário da «Pedra Formosa»

05.- 2019.- Marco de Canaveses  (182)

(Aspeto geral)

06.- 2019.- Marco de Canaveses  (178)

(Mais em pormenor)

(veja-se, mais em detalhe, o que se diz sobre este balneário, a pág.s 22 e 23 do «Guia»). 

  • O Fórum

07.- 2019.- Marco de Canaveses  (177)

(Perspetiva da entrada)

08.- 2019.- Marco de Canaveses  (191)

(Aspeto da área central e envolvente)

(veja-se o que o «Guia»  nos diz, nas pág.s 32 e 33, quanto a esta estrutura invulgar.

  • As termas romanas, termas públicas, que constituem o ex-libris deste lugar arqueológico

09.- 2019.- Marco de Canaveses  (200)

(Perspetiva I)

10.- 2019.- Marco de Canaveses  (204)

(Perspetiva II)

11.- 2019.- Marco de Canaveses  (194)

(Perspetiva III – Piscina)

12.- 2019.- Marco de Canaveses  (176)

(Perspetiva IV - Palaestra ou ginásio)

13.- 2019.- Marco de Canaveses  (189)

(Latrinas ou WC)

(veja-se também, mais detalhadamente, as pág.s 54 e 55 do «Guia»). 

  • A necrópole,

14.- 2019.- Marco de Canaveses  (174)

(Perspetiva I - Terreno contíguo à necrópole, onde se vê parte da muralha)

15.- 2019.- Marco de Canaveses  (208)

(Perspetiva II - Terreno contíguo à necrópole, onde se vê parte da muralha)

16.- 2019.- Marco de Canaveses  (206)

(Lugar da necrópole)

já fora da muralha da cidade, e,

  • finalmente, quatro (4) estruturas construídas na modernidade para apoio aos visitantes deste sítio:
    • Receção/Centro Interpretativo, com uma exposição permanente dedicada a mudança de vida dos habitantes de Tongobriga aquando da sua integração no império romano;
    • Um auditório, no qual se pode visualizar o documentário acima referido sobre este recinto arqueológico;
    • Uma pequena vitrina com exposição de alguns achados.

16.- 2019.- Marco de Canaveses  (151)

(Achado I)

17.- 2019.- Marco de Canaveses  (152)

(Achado II)

18.- 2019.- Marco de Canaveses  (220a)

(Ara votiva à deusa Fortuna - Imagem-marca de Tongobriga)

Na própria aldeia do Freixo, que integra a rede de «Aldeias de Portugal», destaca-se a sua Igreja Paroquial de Santa Maria,

19.- 2019.- Marco de Canaveses  (168)

(Uma perspetiva geral)

20.- 2019.- Marco de Canaveses  (144)

(Uma outra mais em pormenor)

sob a qual jazem ruínas de casas romanas com mosaicos (veja-se pág.s 70 e 71 do «Guia»); os edifícios relacionados com uma das maiores feiras do Norte de Portugal, extinta nos inícios do século XX – a chamada «Feira da Quaresma» - e o Solar mandado construir pelo capitão-mor de Canaveses, António Serpa Pinto, na época das Invasões Francesas.

21.- 2019.- Marco de Canaveses  (171)

(Perspetiva frontal do Solar)

21a.- 2019.- Marco de Canaveses  (211)

(Portão de entrada)

Dos quatro núcleos de ruínas arqueológicas visitáveis, destaquemos a «Casa do Poço»

22.- 2019.- Marco de Canaveses  (162)

(Uma perspetiva mais ampla)

23.- 2019.- Marco de Canaveses  (164)

(Outra perspetiva mais em pormenor)

 e a «Casa do Impluvium»,

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(Imagem obtida a partir do «Guia»)

pela sua qualidade construtiva e geometria (veja-se pág. 46 e seguintes do «Guia») 

 

Este povoado, então castrejo, da antiga Callaecia, foi integrado plenamente no Império Romano (consulte-se pág. 26 e seguintes do «Guia»), no  tempo da dinastia Júlio-Cláudia e, particularmente, no tempo dos Flávios, em que Tongobriga sofre uma modificação radical, sendo Tongobriga promovida a civitas, destinando-se a esta cidade a instalação de todas as infraestruturas necessárias à vida quotidiana de um espaço urbano.

 

  • Em quinto e último lugar, queríamos referir as circunstâncias ou razões do «investimento» dos romanos nesta civitas. A resposta é-nos dada nas pág.s 8, 28 e 29 do «Guia» quando nos fala da afirmação deste lugar como central em relação a um espaço regional mais vasto.

Na verdade, só se percebe o desenvolvimento urbano impar de Tongobriga a nível regional – dado que não se lhe conhece, no seu território mais próximo quaisquer recursos naturais, como jazidas minerais, aptidões agrícolas, silvícolas ou cinegéticas – se não pela sua importância estratégica como nó viário e ponto de integração entre rotas fluviais e terrestres, entre o litoral e o interior (veja-se pág.s 38 e 39 do «Guia»). Realce-se, particularmente aqui, a importância do rio Douro, que já Plínio O Velho considerava «um dos maiores rios de Hispania». A navegabilidade do Douro ao longo de 145 Km, entre a Foz e o célebre Cachão da Valeira – obstáculo que foi destruído em finais do século XVIII – já é reconhecida desde a época clássica. A este assunto se refere também Estrabão quando nos diz que o rio é capaz de ser navegado por grandes navios por uma distância de quase 800 estádios, correspondendo com exatidão àqueles 145 Km referidos.

 

Assim, o rio Douro neste território e, em conjunto com os seus principais afluentes, nomeadamente o Tâmega e o Corgo, constituiu, desde uma época anterior à romanização, uma via de penetração, a partir do oceano Atlântico, mas também um canal de escoamento de produtos do hinterland e de contactos – comerciais e também culturais – entre as duas margens.

 

Alain Tranoy  [página 9 do «Guia»] chega a considerar o Tâmega como uma via de comunicação essencial para o escoamento de produtos minerais do interior (nomeadamente da zona de Vila Pouca de Aguiar/Jales/Tresminas) e para o desenvolvimento do território da cidade romana de Aquae Flaviae (Chaves).

 

25.- 2019.- Marco de Canaveses  (217)

(Escola Profissional de Arqueologia – Única no país – ao lado da Igreja Paroquial)

08
Jan20

Ocasionais - Miguel de Unamuno e Sanábria - Valverde de Lucerna

andanhos

 

OCASIONAIS

 

UNAMUNO E SANABRIA

 

VALVERDE DE LUCERNA  

Laguna dos Peces e Lago de Sanabria (GOPRO) (21)

No sítio «San Manuel Bueno, mártir», escrito por Abel Sánchez, em El Rincón de Sanabria, este autor refere-nos que há um famoso livro que fala sobre Valverde de LucernaSan Manuel Bueno, mártir – de Miguel de Unamuno.

 

Unamuno mostra-nos, através desta novela, um espaço no qual assentam os símbolos chave da dialética entre fé e dúvida, o lago, a montanha, a neve, a aldeia submersa.

 

A novela contém duas paisagens: uma, natural – a aldeia de Valverde de Lucerna; outra, espiritual, a aldeia que, segundo a lenda, está submersa no Lago de Sanabria. A paisagem natural é símbolo da vida real e terrena, embora a segunda nos mostre o desejo ou anseio da imortalidade.

 

Miguel de Unamuno escreveu esta obra em 1930, quando estava hospedado no Balneário de Bouzas, localizado num lugar emblemático, embora recôndito, nas margens do Lago.

zamora-sanabria-balneario-bouza-2

As impressionantes vistas deste «enclave» cativaram e inspiraram Miguel de Unamuno, numa altura em que vivia um profunda crise de fé.

 

Deixamos aos nossos (as) leitores(as) uma das duas poesias que Unamuno, o grande amigo e apreciador de Miguel Torga, escreveu logo que que este bilbaíno se hospeda em Sanabria.

 

Se bem que «Valverde de Lucerna» assente profundamente na lenda da aldeia de Valverde submersa,

para nós, contudo, parece-nos premonitória ao trágico evento que, cerca de 29 anos depois, haveria de acontecer com o colapso da barragem de Veja do Tera, a 9 de janeiro de 1959, e que, quase por inteiro, a mole das suas águas revoltas, submerge no Lago grande parte das gentes de Ribadelago (144 vítimas mortais, das quais só se recuperaram 28 corpos).

 

Ay, Valverde de Lucerna,

hez del lago de Sanabria,

no hay leyenda que dé cabría

de sacarte a luz moderna.

Se queja en vano tu bronce

en la noche de San Juan,

tus hornos dieron su pan,

la historia se está en su gonce.

Servir de pasto a las truchas

es, aun muerto, amargo trago;

se muere Riba del Lago,

orilla de nuestras luchas.

Miguel de Unamuno

03
Jan20

Ano Novo... Renovando

andanhos

 

ANO NOVO... RENOVANDO

 

Nasci com os olhos postos na Fraga do Marão.

Comecei a olhar e a aprender o mundo

tendo sempre omnipresente aquele cenário,

rodeado de casas brancas,

dispersas pela paisagem,

e pelos socalcos de vinhedos;

ao fundo, como chamando por nós para outras paragens,

o rio Douro.

                                                                              ***                                      

Vi a sombra antes de ver a luz.

Há uma tarde de novembro que ficou,

em mim para sempre.

É num fundo roxo e dourado,

que o meu perfil de criança

me aparece, ao longe,

tão triste

mais um sentimento vago

que uma forma definida.

Nos primeiros tempos,

vivemos mas não existimos.

Eu era então uma alma

a esvoaçar um corpo,

e tudo era alma,

diante de meus olhos.

Teixeira de Pascoaes

 

Quando escrevíamos o primeiro post deste blogue, a certa altura, dizíamos que, após o capítulo “RAÍZES”, desenvolveríamos os seguintes blocos temáticos:

  • Memórias da minha infância;
  • Gallaecia, dividida nas seguintes rubricas:
    • Por Terras da Gallaecia
    • Pelos Caminhos de Santiago na Galiza
    • O Douro dos meus encantos
    • Por terras do Alto Tâmega e Barroso
  • Por terras de Portugal
  • Encontros com a História e o Património
  • Áreas Naturais
  • Eventos e Passeios
  • Férias.

 

Convenhamos que, para um autor só – sem qualquer colaborador – era deveras um projeto ambicioso!

 

A 25 de janeiro de 2016, decorridos mais de cinco anos da criação deste blogue, no post «Renovando», decidimos, face à demasiada ambição do desenvolvimento das temáticas que nos propúnhamos desenvolver neste blogue, renová-lo, tendo em conta a avaliação do trabalho que, neste mesmo blogue, tínhamos realizado até àquele momento. E, assim, a partir daquela altura, foram estas as rubricas que começaram a aparecer:

  • Reino Maravilhoso, com os seguintes subtemas:
    • Douro
    • Barroso
    • Alto Tâmega
    • Trás-os-Montes
  • Palavras Soltas
  • Memórias de um andarilho
  • Ao Acaso…
  • Chaves através da Imagem
  • Versejando com a imagem.

Entretanto, em 2012, criámos mais dois blogues: Voilá é Zassu, cujo objetivo da sua criação era o que se apresentava no seu primeiro post «Encontros(s) - Cena zero - Encontro prévio» mas que, também, ao longo da sua existência, foi sofrendo alterações, conforme escrevíamos no post «Poesia e Arte 79 – Poemas nos Diários de Miguel Torga – Epílogo»; e nona, um blogue subordinado às rubricas mais frequentes deste Andarilho de Andanhos, mas, exclusivamente, dedicado à apresentação das nossas fotografias.

 

É agora, passados quase mais de cinco anos, de proceder a nova renovação.

 

Desta feita, este blogue passará a contar apenas com reportagens de passeios e escapadas no nosso

 

  • Reino Maravilhoso, que continuará a contar com os subtemas: 
    • O Douro dos meus encantos
    • Barroso
    • Alto Tâmega e
    • Alto Trás-os-Montes. 

Faremos reportagens das nossas caminhadas em:

  • Memórias de um andarilho.

Faremos também reportagens de passeios e escapadas levadas a efeito em

  • Por Terras da Ibéria, quer sejam levadas a cabo em Portugal, com exclusão do Reino Maravilhoso, quer nas diferentes províncias e/ou regiões da nossa vizinha Espanha, na nossa Península Ibérica (Ibéria).

Finalmente, uma última rubrica,  

  • Ocasionais, quando o tema não se enquadre em nenhuma das reportagens acima mencionadas.

 

O blogue nona continuará a dedicar-se à exposição das nossas fotografias, segundo o esquema temático deste blogue, que, abreviadamente, designamos de Andanhos.

 

O blogue Voilá é Zassu, ou simplesmente Zassu, «viverá» a custa das restantes rubricas que faziam parte deste blogue, ou seja,

  • Palavras Soltas
  • Ao Acaso…
  • Versejando com imagem.

 

Como os leitores(as) dos nossos três blogues já repararam, alterámos o visual, «cabeçalho» dos mesmos.

 

Agradecemos ao nosso grande amigo Fernando DC Ribeiro, autor do blogue «CHAVES», que nesta data cumpre 15 anos de existência, o trabalho de «design» que neles realizou. Quer o nona, quer o Voilá é Zassu apresentam «caras» totalmente novas.

 

Andarilho de Andanhos, embora mantenha a sua matriz essencial, sofreu também algumas alterações. A primeira tem a ver com uma citação, da autoria de Miguel Torga, de que muito gostamos; a segunda, com a junção, na imagem base, da Ponte Romana de Chaves e o rio Tâmega.

 

É de todo justo que Chaves aqui apareça. Vão para mais de 55 anos que aqui residimos e fizemos vida nesta cidade e concelho. Aqui nasceram os amores da nossa vida, nesta terra onde «ganhámos» o pão de cada dia, simbolizado numa espiga, no canto direito do «cabeçalho».

 

Mas se Chaves, a Aquae Flaviae antiga, é «A Terra dos Meus Amores», tal como o título do pequeno opúsculo – uma coletânea de poesias -, de Artur Maria Afonso, pai de Nadir Afonso, que a Camara Municipal de Chaves deu à estampa, quando éramos responsável pelo Pelouro da Cultura, em 1993, e que aqui transcremos um dos poemas:

 

AQUAE FLAVIAE

AQUAE FLAVIAE é no Mundo

Uma estrela rutilante!

Teu ar alegre e jocundo

Cantasse-o Camões ou Dante!

 

De graça e sonho me inundo

Ao contemplar teu semblante.

Teu valor não tem segundo

Por toda a Terra adiante.

 

Eu ando enamorado

Há muito, desde o passado,

Por ti, Princesa d’Honor!

 

Faz espelho do teu rio,

Panteia as tranças com brio,

E dá-me um beijo d’amor.

Maio de 1957

Do livro de poesias “ORAÇÕES AO VENTO” (1982),

acompanhado de uma ilustração de seu filho, Nadir Afonso,

Aquae Flaviae

(Ilustração de Nadir Afonso)

contudo, a terra onde nascemos, (Santa Maria de) Oliveira, concelho de Mesão-Frio, onde o Alto Douro Vinhateiro – a mais antiga região vinhateira demarcada do Mundo – começa, continuará a ser a terra a que o nosso coração pertence e reside, ao longo da diáspora da nossa vida.

 

Ela aqui está, guardada pela imponente Serra do Marão, com a Fraga da Ermida a protegê-la e, por vezes, ameaçando-a.

 

Por esta circunstância, uma vez mais, não resistimos a citar um pequeno excerto do grande poeta da saudade, na sua obra Marânus:

 

SERRA DO MARÃO

Amo-te, ó serra, em tudo do que tu és!

Amo-te, desde a rocha que em ti sofre

Ao tojo bravo e à urze tão mesquinha

De que sempre te revestes, porque, enfim,

Tu és grande e, portanto, pobrezinha!

Teixeira de Pascoaes

 

O cacho de uvas que aparece neste novo «cabeçalho», do lado esquerdo, e sobre (Santa Maria de) Oliveira representa todo o Douro, feito de trabalho árduo, suor e pelas mãos ossudas e calosas do Homem que trabalhou aqueles montes de geios e pedra dura, numa atividade que teve o seu quê não só  de grandioso como de trágico, tal como tão bem o nosso saudoso e querido António Cabral o cantava neste poema:

 

AQUI, O HOMEM

Nem Baco nem meio Baco!:

                Aqui é o homem,

desde as mãos ossudas e calosas,

desde o suor

ao sonho que transpõe as nebulosas.

 

Montes de pedra dura,

               gólgotas

onde os geios são escadas!

Venham ver como sobe o desespero

 e a esperança, de mãos dadas.

 

É o homem.

         Isso é o homem.

– Nem sátiro nem fauno –

Uma vontade erguida em rubro gládio

que ganha a terra, palmo a palmo.

 

Vinhas que são o inferno,

                    o único

em que o fogo é a taça da alegria!

Venham ver um senhor

grandioso como o sol ao meio-dia.

 

Nem Baco nem meio Baco!:

           Aqui é o homem

que nada há que não suporte

mas suporta e persiste.

Aqui é o homem até à morte.

António Cabral, Poemas Durienses., 1963

 

E é tudo por hoje.

 

A todas as nossas amigas e amigos leitores(as) deste blogue,

 

UM BOM ANO 2020

 

25
Dez19

Por terras da Galiza - Allariz - A bonita vila galega vista ao por do sol no Penedo da Vela

andanhos

 

POR TERRAS DA GALIZA

 

ALLARIZ

 

A BONITA VILA GALEGA VISTA AO POR DO SOL NO PENEDO DA VELA

 

01.- 2019.- Allariz (3)

Como raiano, vivendo em Chaves, Allariz, uma vila perto de Ourense e as escassos 76 Km da nossa residência, não nos podia ficar indiferente.

 

E, é tanto verdade, que já são as vezes sem conta aquelas que por lá passámos – a pé, a caminho de Santiago, e, essencialmente, de carro. Passeando, apreciando-a, fazendo compras e, até, pernoitarmos.

 

Porque é bem verdade que se trata de uma vila bem bonita. Que nos encanta. Que nos suscita desejo de a visitar periodicamente. E por variadas razões.

 

Estamos com Iván Vânjira, quando, a 31 de julho de 2018, no seu artigo «Los pueblos más bonitos de Galicia: Allariz», dizia que, na verdade, é um dos povos mais bonitos da Galiza.

 

Trata-se, naturalmente de uma opinião. Mas que, com a qual, concordamos, estamos inteiramente de acordo.

 

Esta opinião é também partilhada no artigo «10 razones para visitar Allariz» quando também afirma que é um dos povos com mais encanto da Galiza. A nós, encanta-nos. Muito. Como andarilho dos principais Caminhos de Santiago, conhecemos muito canto, recanto e andanhos desta nossa vizinha e encantada Galiza. Allariz é, positivamente, um desses andanhos, com lugares encantados – e que nos fascinam!

 

E são vários os motivos que fazem desta bonita e pacata – em certos momentos já buliçosa – vila galega um lugar de eleição para ser visitado.

 

Não vamos exaustivamente enumera-los e desenvolvê-los. Para isso, deixamos aqui aos nossos leitores(as) os seguintes sítios da web, onde, consultando-os, podem aquilatar do que afirmamos:

 

De todos eles, como sejam:

  • Ser um Conjunto Histórico Artístico reconhecido desde 19712 e ter recebido, em 1994, o Prémio Europeu de Urbanismo;
  • Ser o sítio ideal para visitar com crianças, de forma cómoda, tendo em conta os seus amplos espaços verdes, com jardins e piscinas municipais ao ar livre;
  • Ser, a par de com Ponte de Lima, Portugal, o lugar onde se realiza o Festival Internacional de Jardins, e que teve início em 2010;
  • Ser nela que se realiza a Festa do Boi, conhecida internacionalmente, e que tem mais de 700 anos de existência;
  • Ser a capital galega do outlet ao ar livre, representando, assim, um importante destino comercial, levando a que grandes marcas ali tenha as suas lojas;
  • Ser uma vila que possui mais museus em toda a província de Ourense;
  • Ser uma vila bem conhecida pela sua famosa gastronomia.

 

E tudo isto, já para não falar em dois sítios nos seus arredores, que não se podem deixar de visitar – o Eco espaço do Rexo (Centro de Educação Ambiental) e Santa Mariña de Augas Santas10 razones para visitar Allariz».

 

Estamos de acordo com o autor(es) do sítio acima referido quando nos elucida, entre as suas dez razões, ser Allariz um lugar de paz e sossego.

 

Já não podemos infirmar a opinião deste mesmo(s) autor(es) quando nos diz ser o meio quilómetro – entre a Alameda e a Ponte romana de Vilanova – o mais bonito de Espanha.

 

Que é um dos lugares mais bonitos da Galiza, com certeza; de Espanha, não podemos afirmar, porquanto não conhecemos suficientemente bem toda a Espanha para nos darmos a esse luxo de o poder afirmar. Seria demasiada veleidade da nossa parte!

 

Para além de tudo quanto dissemos – e o que ficou por dizer, mas que pode ser colmatado com a leitura dos sítios a que fizemos referência – quanto a Allariz, queríamos apenas deixar aqui não só o que, para nós, quanto apreciamos o seu Conjunto Histórico Artístico quanto a História que ele representa.

 

A importância de Allariz é longeva, dos tempos pré-históricos e, mais particularmente, advém do período da Idade Média, com a formação e consolidação dos reinos católicos da Península Ibérica.

 

Foi nesta época histórica que Allariz foi promovida a Vila e local da Corte, com a presença de numerosos príncipes, o mais importante dos quais aquele que, mais tarde seria o rei D. Afonso X, o Sábio.

 

Foi em Allariz que D. Afonso X aprendeu o galego, advindo do português.

 

Pena que o seu castelo, sito no Penedo da Vela, tenha desaparecido!...

 

Foi deste Penedo da Vela, junto ao antigo bairro judeu, vindo de uma caminhada pelas lagoas areeiras de Xinzo de Limia, para irmos à Feira do Outono de Allariz, que, daqui, presenciámos o casario da vila e seu entorno.

02.- 2019.- Allariz (9)

(Panorama I)

03.- 2019.- Allariz (11)

(Panorama II)

04.- 2019.- Allariz (22)

(Panorama III)

 

Quando subíamos ao Penedo da Vela, passámos pela Igreja de Santo Estêvão.

05.- 2019.- Allariz (7)

Num muro desta igreja, acompanhado pelo nosso “cicerone” para as coisas da «pátria» galega, fizemos uma pequena pausa.

06.- 2019.- Allariz (5)

Pablo explicou-nos que é daqui, preso, que o boi (da Festa do Boi) sai para dar “brilho” ao evento do dia do Corpus Christi, reativando uma tradição ou história entre judeus e cristãos, passada nesse dia.

07.- 2019.- Allariz (4)

Pablo ainda nos contou que o boi do evento, até há bem pouco tempo, não era de Allariz. Vinha de Aliste (província de Zamora), sendo da raça alistana; agora o boi do Corpus é criado nos montes de Allariz. Creio ter percebido assim…

 

Do Conjunto Monumental de Allariz, o que mais sobressai, do alto do monte do Penedo da Vela, é o Real Convento de Santa Clara, no Campo da Barreira, tendo ao lado a Igreja barroca, do século XVIII, de São Bieito (São Bento) e, à sua frente dois belíssimos cruzeiros.

08.- 2019.- Allariz (19)

Este mosteiro, segundo Victor Gómez, em 2 de março de 2015, em «Conociendo allariz, un bonito Pueblo de Ourrense», alberga, no seu interior, o maior claustro barroco de Espanha.

09.- 2019.- Allariz (2)

Por outro lado – e veja-se a importância do trabalho das freiras que aqui trabalham! Ciciava-me ao ouvido amigo Pablo Serrano que daqui partem, para as cozinhas do Vaticano e para as mesas dos altos dignatários da Santa Madre Igreja Católica, devidamente criados e tratados, os perus que os irão saciar. Verdade ou peta do meu amigo, ela aqui fica…

 

Para além do Real Mosteiro de Santa Clara, outras igrejas, no meio do casario, se distinguem:

  • A Igreja de Santa Maria de Vilanova, com seu cemitério e, ao lado, a ponte romana, ex-libris de allariz;

10.- 2019.- Allariz (15)

  • A Igreja de São Pedro, do século XII, românica;

11.- 2019.- Allariz (20)

  • A Igreja de Santiago, matriz, tendo em frente o edifício do concello e, ao lado, a célebre Casa da Paneira.

12.- 2019.- Allariz (23)

Num outro ângulo de visão, destaca-se, a seguir aos telhados do casario, um dos elementos do Parque Etnográfico de AllarizPortovello, (antiga fábrica de couro), albergando um restaurante e o Museu do Couro Família Nogueiras; em último plano, o lugar onde se realiza o Festival Internacional de Jardins.

13.- 2019.- Allariz (26)

No outono os dias são pequenos e anoitece cedo. Havia que nos despacharmos para nos dirigirmos ao local onde se realiza a Feira de Outono de Allariz.

14.- 2019.- Allariz (27)

Mas não abandonámos o lugar sem captar este lindo por do sol,

15.- 2019.- Allariz (28)

enquanto deixávamos para trás estes companheiros que, deste local com história, captavam o «seu» por do sol também.

16.- 2019.- Allariz (31)

22
Dez19

Adriano Sousa Lopes - O pintor soldado na Grande Guerra

andanhos

 

ADRIANO SOUSA LOPES

 

O PINTOR SOLDADO NA GRANDE GUERRA

 

Bacalhau à Sousa Lopes,

– O fiel, com batatinhas,

Ao nosso Pintor da Guerra,

Que é fiel, pois veio às linhas

 

(recolha de Jaime Cortesão,

saída do convívio de Natal nas trincheiras) 

Fonte:- https://portugal1914.org/portal/pt/historia/a-guerra-1914-1918/item/6922-sousa-lopes-pintor-da-grande-guerra

 

 

01.- Adriano de Sousa lopes

Está patente ao público, de 30 de novembro de 2019 a 29 de março de 2020, no Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso (MACNA), em Chaves, a pintura impressionista do pintor Adriano Sousa Lopes (numa sala) bem assim algumas obras de autores modernistas portugueses (noutra sala).

 

Todas as obras expostas pertencem ao Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC), com sede em Lisboa, de quem, aliás, Adriano de Sousa Lopes, desde 1929 e até à sua morte, foi diretor.

 

A presente exposição resulta de uma parceria firmada entre o MACNA e o MNAC.

 

Mas não é desta parceria, nem dos pintores modernistas expostos que, neste post, vamos falar.

 

Vamo-nos, tão somente, cingir a Adriano de Sousa Lopes. Daremos a conhecer, naturalmente, aos(às) nossos(as) leitores(as) a obra deste autor exposta, mas não ficaremos por aqui.

 

Quando, em 2015, nos dirigimos a Lisboa ao Arquivo Histórico Militar, em frente à Estação de Caminhos de Ferro de Santa Apolónia, para fazermos recolha de documentação/material para a elaboração do nº 50 da Revista Aquae Flaviae, numa das tardes, fomos visitar o Museu Militar, que ocupa dependências do mesmo edifício onde se localiza o Arquivo Histórico Militar.

 

Quando entrámos nas duas  Salas da Grande Guerra, ficámos verdadeiramente impressionados com a pintura dos painéis/telas monumentais que cobriam suas paredes.

Adriano de Sousa lopes 01

Procurámos descobrir quem seria o autor destes enormes painéis pintados e nossa atenção dirigiu-se para ADRIANO DE SOUSA LOPES.

Adriano de Sousa Lopes 50

Tanto nos fascinou aquela obra deste pintor que não hesitámos em usar um pormenor de um dos painéis para capa não só da Revista nº 50 do Grupo Cultural Aquae Flaviae como do livro que posteriormente demos à estampa sob a designação «Grande Guerra – Enquadramento Internacional». Pormenor esse cuja imagem abre este post.

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Afinal de contas, quem foi Adriano de Sousa Lopes?

Segundo o artigo «Sousa Lopes, pintor da Grande Guerra» Adriano Sousa Lopes formou-se “em pintura histórica nas escolas de belas-artes de Lisboa e de Paris, onde fixou residência em 1903, a sua arte de inspiração literária desenvolveu temas da história de Portugal, tendo sido um expositor regular nos salões da prestigiada Sociedade dos Artistas Franceses. Vivendo em França até meados da década de 1920, a sua pintura absorveu estilos como o Simbolismo e sobretudo a técnica colorista dos Impressionistas,  apurada nas paisagens executadas em Veneza, Saint-Tropez e na Costa de Caparica.

Testemunhando a mobilização da sociedade francesa em 1914 e inspirado pelo trabalho de artistas oficiais nas revistas de grande circulação como a L’Illustration, Sousa Lopes propôs o seu plano ao Ministério da Guerra português em Abril de 1917”.

 

(…) “Capitão do serviço artístico do Corpo Expedicionário Português, [nomeado em agosto de 1917] Adriano de Sousa Lopes (1879-1944) foi o único pintor oficial do Exército em França em 1917-18”.

 

(…) Antes de partir para a Flandres [francesa], o artista anunciou nos jornais a sua missão de propaganda do esforço militar do país mas, como aconteceu com tantos dos seus pares europeus, o testemunho da frente ocidental mudou seus planos. Confrontado com a realidade cruel das trincheiras e o quotidiano dos “lãnzudos” portugueses, a sua missão inicial transformou-se numa visão mais pessoal da guerra, destinada a imortalizar a ação e drama humano da Flandres”.

 

Durante mais de duas décadas Sousa Lopes desenvolveu o seu trabalho em diferentes técnicas: centenas de desenhos de campo, cobrindo desde os combates na primeira linha até à instrução militar nos campos da retaguarda, uma série de quinze gravuras a água-forte (…)”.

 

(…) “[Nos painéis/telas monumentais das duas Salas da Grande Guerra, no Museu Militar], As figuras dos soldados maiores que o natural, vestindo pelicos e safões dos pastores alentejanos, são dignificadas no seu esforço dispondo-as como num friso antigo. (…)

 

Nestes trabalhos do Museu Militar de Lisboa, nas salas da Grande Guerra, contruídas na década de 1930, (…) “o visitante pode ver cenas de perigosas operações na frente, como o renunciamento das baterias de artilharia debaixo de fogo inimigo, episódios dramáticos da batalha do Lys ou a luta desigual da Marinha contra os submarinos no Atlântico.

 

Uma pungente homenagem é encenada em As Mães do Soldado Desconhecido, episódio testemunhado nas cerimónias fúnebres de 1921 no mosteiro gótico da Batalha.

 

Mais tarde Sousa Lopes foi executando uma série de águas-fortes a partir dos seus cadernos de campo, consideradas por Raquel Henriques da Silva como  de um conjunto raro que, além de valor testemunhal, manifesta, nos melhores casos, a emergência de uma poética expressionista, justificada pelo confronto com tão dura realidade, como sejam o 9 de Abril; o Capitão Beleza dos Santos atravessa uma densíssima barragem de artilharia e consegue salvar a sua bateria de 75; os soldados de pé ao parapeito, vigiando um inimigo invisível; uma patrulha de reconhecimento rastejando na terra de ninguém, iluminada pela luz dos very-lights; os defensores de La Couture bombardeados na manhã da batalha do 9 de Abril 1918; ou simbólicas evocações da guerra, como a sepultura de um soldado português desconhecido perdida na planície húmida da Flandres.

 

Estas obras de Sousa Lopes são consideradas justamente como as melhores e mais autênticas pinturas de batalha da arte portuguesa.

 

O friso monumental A Rendição e a notável coleção de gravuras estão entre as obras-primas da sua carreira.

Adriano de Sousa Lopes 51

(Pormenor da Rendição)

 

Para que os nossos(as) leitores(as) tenham uma visão mais precisa do que acima afirmamos, deixamos ao seu visionamento estes elucidativos vídeos

 GRANDES QUADROS PORTUGUESES

https://www.rtp.pt/play/p1102/e423468/grandes-quadros-portugueses

 

ADRIANO SOUSA LOPES

POSTAL DA GRANDE GUERRA

VISITA GUIADA T2 – EPISÓDIO 5

Arte Portuguesa Sobre a Primeira Grande Guerra, Museu Militar

Feita esta justíssima menção ao nosso grande pintor expressionista da Grande Guerra, falemos agora do autor impressionista, o qual, “durante a década de 1920 realiza pinturas «em que a explosão do colorido tem um sentido novo na pintura portuguesa. São pescadores […] e outras marinhas expostas em 1927, tal como o retrato de ‘Madame Sousa Lopes’ […], um dos melhores retratos da pintura nacional dos Anos 20»”.

 

Lembre-se, a propósito, que uma exposição de Adriano Sousa Lopes, com um nome parecido – Reflexos de Lua – esteve exposta, em 2015, no Museu do Chiado em Lisboa.

Vale a pena termos uma retrospetiva da mesma, lendo o artigo «O Trespassar da Espada Impressionista», escrito, em 3 de novembro de 2015, no «Reactor».

 

Apreciemos agora as obras impressionistas do nosso pintor Sousa lopes expostas no Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso (MACNA) nesta sala.

00-2019

A apresentação das obras que se segue vai da esquerda para a direita da sala. Na parede do fundo, em frente A porta de entrada, estão as obras - Retrato de M-me Sousa Lopes; A blusa azul e Efeito de luz.

2019.- Registos de Luz (MACNA) (5)

(Auto-retrato)

2019

(Céu da Caparica, 1922-1926, Óleo sobre tela)

05---2019

(Areal, 1922-1926, Óleo sobre tela)

06---2019

(Areal, 1908, Óleo sobre madeira)

07-2019

(Manhã na praia da Caparica, 1922-1926, Óleo sobre cartão)

08-2019

(Lua no mar, 1922-1926, Óleo sobre madeira)

09-2019

(Caparica, 1927, óleo sobre tela)

10-2019

(Luz na praia, 1922-1926, Óleo sobre madeira)

11-2019

(Efeito da luz, 1922-1926, Óleo sobre madeira)

12-2019

(Efeito de uma nuvem, 1922-1926, óleo sobre madeira)

13-2019

(Luz na água, 1922-1926, óleo sobre madeira)

14-2019

(Mar revolto, 1922-1926, óleo sobre tela)

15-2019

(Efeito de mar, 1922-1926, Óleo sobre madeira)

16-2019

(Vagas, 1922-1926, óleo sobre tela)

17-2019

(Luta com as vagas, 1022-1926, Óleo sobre madeira)

18-2019

(Lançando o barco ao mar, 1922-1926, Óleo sobre madeira)

19-2019

(Puxando a rede, 1922-1926, óleo sobre madeira)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (22)

(A saída do barco, 1922-1926, Óleo sobre madeira)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (23)

(Velas na luz, 1927, Óleo sobre madeira)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (24)

(Moliceiros ao sol, 1927, Óleo sobre madeira)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (25)

(Retrato de M.me Sousa Lopes, 1927, Óleo sobre tela)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (26)

(A blusa azul, 1927, Óleo sobre tela)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (27)

(Efeito de luz, 1914, Óleo sobre tela)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (30)

(O cinzelador, 1905, óleo sobre tela)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (31)

(O caçador de águias, 1905, óleo sobre tela)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (32)

(As Ondinas (Heine), 1908, óleo sobre tela)

- Veja-se história deste quadro em «O Trespassar da Espada Impressionista».

2019.- Registos de Luz (MACNA) (33)

(O Palácio da Ventura – estudo –, 1906, óleo sobre tela)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (34)

(Veneza, 1907, Óleo sobre tela)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (35)

(Veneza, 1907, Óleo sobre madeira)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (36)

(Veneza – sol posto sobre a laguna -, 1907, óleo sobre madeira)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (37)

(Num jardim de Paris, 1904-1907, óleo sobre madeira)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (38)

(Le Moulin Rouge – noite -, 1904-1907, óleo sobre madeira)

16
Dez19

Versejando com imagem - Aqui, Douro, de António Cabral

andanhos

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

AQUI, DOURO

2019.- Solar da Rede (20)

 

Aqui Douro. O Paraíso do vinho e do suor.

Dum rio no Verão ossudo e magro

como as pessoas,

quando a alma se escoa pelos poros;

rio também barrento, a cor da terra,

para que a alma seja inteira;

rio das grandes cheias, do abraço final

de troncos de homens, de árvores e sonhos;

dum rio agora jovem: a água demora

o seu espelho nas barragens, e os barcos

cheios de olhos filmam a história

dum deus desconhecido.

 

Paraíso dos montes sobre montes,

agressivos mas belos,

montes que se agigantam, ombros vivos

dos violentos ventos e do sol,

e montes que se dobram e desdobram com os ribombos,

abrindo ribanceiras e fundões.

Oh Cachão da Valeira, sepultura de incêndios!

 

Paraíso das hortinhas e pomares:

a água é menos esquiva

para que os homens sujem bem as mãos

de encaixotar num sonho meia dúzia de laranjas,

enquanto os melros pintam a carvão

sua risada galhofeira e livre.

 

Paraíso dos nove meses de Inverno

e três de inferno:

Outubro a Junho, é o nevoeiro sanguessuga

que morde até aos ossos e às palavras;

Julho a Setembro, é o sol em lâmina

que fere os olhos até ao pensamento.

 

Paraíso do suor,

dos homens de camisas empastadas,

a terra a queimar os lábios

e a torcer-lhes a fala em raivas humaníssimas,

cavando, neles cavando o desespero

e o amor também

(a noite e o luar)

porque no fim de tudo

a terra é flor e corpo de mulher.

 

Paraíso da aguarela forte das vinhas

que entram em ondas verdes pelos olhos.

Vinhas que estão na vida desta gente

como grito nos lábios,

como flor no desejo,

como o olhar nos olhos,

vinhas, sei lá, que são a própria vida desta gente.

 

Paraíso dourado das vindimas!

Então o Douro é d’ouro.

Ouro no sol que põe tudo em labaredas:

os cachos e as nuvens de poeira

espantadas pelas patas dos cavalos

e dos camiões, ron-ron, ladeira acima.

Ouro na tagarelice das mulheres

que vindimam as uvas e as ideias;

um certo ouro no silêncio dos homens

que em fila e ferro transportam os cestos.

Ouro ainda no regresso do trabalho,

ao som dum bombo, duma concertina.

Ouro nos cestos, nos lagares, nas pipas,

ouro, ouro, suado de sangue, ouro!

Ouro talvez nos cálices de quem

veio de longe assistir da janela.

Ah Paraíso dourado das vindimas,

do vinho quente, vinho-gente, que cintila,

que é suor e sangue e sol engarrafado!

 

Paraíso também das romarias;

Da Senhora da Piedade, do Viso e dos Remédios:

gente de gatas como animais

porque a Senhora interveio

e ante o céu

somos uma coisa qualquer por acabar.

Há um homem que leva uma facada,

mas há também ex-votos,

estrelas a germinar nos olhos.

 

Paraíso das sete ermidas!

– o céu gotejando no cimo dos montes.

De castros e ruínas

– o vento do passado colando-se ao rosto.

Das minas que devassam o abismo

– fui à boca de uma em criança

e recuei como se tivesse visto

todos os dentes da bicha-das-sete-cabeças.

 

Paraíso dos caminhos tortuosos

pois Deus escreve direito por linhas tortas.

Dos duendes nocturnos

– ninguém chegue à janela quando passam.

Das mouras encantadas

– o afiançou minha avó: há uma

que se chama Maria

e é linda, linda como as manhãs de Junho.

 

Paraíso dos barrancos inconcebíveis,

das rogas e dos silêncios,

do grandioso silêncio das montanhas!

 

Paraíso! Paraíso!

Oh cântico de pedra à esperança!

 

António Cabral 

15
Dez19

Por terras da Ibéria - O souto do Santuário da Virgem de La Alcobilla

andanhos

 

POR TERRAS DA IBÉRIA

 

O SOUTO DO SANTUÁRIO DA VIRGEM DE LA ALCOBILLA

00.- 2019.- La Alcobilla (251)

Há dois anos, andando com o amigo Pablo Serrano e sua família, e o Florens, pelo norte de Espanha, província de Léon, percorrendo as terras vermelhas e laranja, provenientes das cicatrizes feitas nas entranhas da terra para extração do minério, feita pelos romanos, há mais de dois mil anos – em Las Médulas – enquanto fazíamos um pequeno percurso pedestre – Senda de las Valiñas (4 Km’s) – com os seus bons e bonitos castanheiros em período outonal, depois de termos estado no Miradouro de Orrellán, veio à conversa o souto do Santuário da Virgem de La Alcobilla.

 

Ficámos com curiosidade de o visitar. Mas, nem nesse ano, nem o ano passado, tivemos oportunidade de o fazer. Contudo, a curiosidade e o desejo de irmos a La Alcobilla ficou na nossa agenda de prioridades.

 

De há uns tempos a esta parte, instava Pablo para irmos até lá. Só que, apesar da vontade de ambos, a meteorologia, durante o mês de outubro, e parte de novembro passado, – com frio e neve – não nos propiciou o levarmos por diante o nosso intento.

 

Até que, certo dia, Pablo chama-nos para, finalmente, nos deslocarmos a La Alcobilla vermos o tão falado souto.

 

Acompanhou-nos, naquele dia, o amigo H. Raval.

 

Temos de esclarecer que este afamado souto fica no recinto de um Santuário – o Santuário da Virgem de Alcobilla.

01.- 2019.- La Alcobilla (180)

Santuário este que fica no município de San Justo, que é constituído por um conjunto de povoações ou lugares (e lugarejos), distribuídos montanha acima até à Serra de la Cabrera, em terras zamoranas de Sanábria (Espanha), a pequena distância do Parque Natural do Lago de Sanábria e Serras Segundera e do Porto, situando-se num cruzamento de caminhos que levam às povoações de San Justo, cabeça do município, Coso, Barrio de Rábano e Rábano de Sanábria.

 

Neste Santuário

02.- 2019.- La Alcobilla (198)

celebra-se, nos dia 8 e 9 de setembro de cada ano, uma das romarias mais importantes de toda a comarca de Sanábria, a qual conta com a participação da comunidade de San Justo, Barrio de Rábano e Rábano de Sanábria.

No dia 8, do povo de San Justo, sai a Virgem da Assunção; do Barrio de Rábano, a Virgem Peregrina e do Rábano de Sanábria, a Virgem do Rosário. Cada povo, com o seu pendão e estandartes, em procissão, e levando no andor a sua Virgem, sobe, ao ritmo das gaitas autóctones (sanabresas) e tambores, para honrar, na ermita, a Virgem de La Alcobilla.

 

Trata-se de uma festa tradicional, que vale a pena, pelo que vimos escrito e em vídeo, ao menos uma vez na vida, presenciar e, porque não, participar.

 

Deixamos aqui aos nossos leitores dois vídeos desta festa/romaria para poderem aquilatar da importância deste evento para os povos que nele são os atores principais e para todos aqueles (sanabreses ou não) que ali vão venerar a Virgem de La Alcobilla.

 

 VIRGEN ALCOBILLA 2019, SAN JUSTO DE SANABRIA

ROMERIA VIRGEN ALCOBILLA, RABANO DE SANABRIA

Não deixem, depois da Missa Solene, de apreciarem e saborearem, à sombra daqueles anciãos castanheiros,

03.- 2019.- La Alcobilla (25)

o célebre polvo à galega, ou não estivéssemos nós aqui tão perto da vizinha Galiza.

 

E dancem aos som das gaitas e dos tambores.

SANABRIA ALCOBILLA 2011

No dia 9, com igual cerimonial do dia anterior, as imagens das Virgens saem do Santuário

04.- 2019.- La Alcobilla (34)

em direção a cada um do seu povo.

 

A ermida ou Santuário da Virgem de La Alcobilla foi construída entre os séculos XVI e XVII, muito provavelmente, sobre edificações anteriores, onde, aqui, já se praticavam cultos.

05.- 2019.- La Alcobilla (255)

Segundo Ángel Esparza Arroyo, referido por Javier Bascu, em 5 de setembro de 2017, em «Virgen de La Alcobilla, Madre de Amores», este lugar, muito provavelmente, foi habitado desde o século VI a.C, tendo em vista os mais de 30 assentamentos encontrados entre Sanabria e Carballeda.

 

A igreja tem uma planta basilical, de três naves, destacando-se a do centro pela sua maior altura. É românica; contudo, o seu campanário é barroco, do século XVIII.

06.- 2019.- La Alcobilla (250)

No centro do altar está uma imagem, talhada em pedra, da Virgem e o Menino, cuja réplica podemos contemplar na fachada exterior principal da nave central.

07.- 2019.- La Alcobilla (46)

Antes de passarmos a apreciar os espécimes espalhados no souto, à volta do Santuário, dois últimos apontamentos.

 

O primeiro tem a ver com o nome de «Alcobilla».

 

Ainda, segundo «Virgen de La Alcobilla, Madre de Amores», há várias versões a propósito do nome, mas, apenas duas, praticamente idênticas nos são relatadas – a do pastor e a do lavrador. Fiquemos com a do pastor e deixemos a do lavrador. Trata-se, obviamente, de lendas. Mas é também a partir das lendas que a História se tece. Ou seja, os mais antigos transmitiram às gerações futuras que, desde tempos imemoriais, se conta que um pastor encontrou a imagem da Virgem debaixo (ou entre) as giestas (escobas). Nesse mesmo lugar, pelos vistos abundante em giestas, foi erguida uma eremita para a Virgem encontrada pelo pastor, a que lhe derem o nome de La Escubilla. Com o decorrer do tempo, como aliás acontece a muitos vocábulos, Escubilla derivou para Alcobilla.

 

O segundo apontamento tem a ver com a fonte existente no souto ou recinto do Santuário.

08.- 2019.- La Alcobilla (217)

Transcrevemos o relato de Ildefonso Vara, na sua Aula Ativa da Natureza, San Martín de Castañeda, Sanabria (Zamora), coligido por D. Pedro Ladoire, e que nos fala da origem milagrosa de um manancial, ou fonte, durante a construção da ermita:

Cuentan que en lejana época, durante la edificación del Santuario de Nuestra Señora de la Alcobilla próximo al pueblo de San Justo, la pizarra para dicho Santuario era transportada desde la cúspide del Testero Ciudad, inmediato a San Ciprián. Aquel trabajo rudimentario de transportar las losas, combinado con un insoportable calor, obligaba a los obreros a abastecerse de agua en el Río Trefacio, a 500 metros de desnivel de considerable inclinación, lo que resultaba agotador.

 

Rogaron entonces a la Virgen resolviera tan acuciante problema porque su deseo era terminar cuanto antes la construcción de la ermita, y aseguran que el milagro se realizó ya que en el lugar de la cantera, al levantar una piedra, brotó un potente surtidor de aguas fresquísimas. Desde esta fecha se denomina La Fuente de la Virgen”.

 

Estamos com o blogue «Desde Sanabria (Igual Te interessa) - Los Castaños de Nuestra Señora de la Alcobilla», cujo post foi publicado em 1 de agosto de 2009, quando nos diz que pese embora o interesse pela igreja/Santuário da Virgem de La Alcobilla, os verdadeiros monumentos encontram-se ao seu redor – a impressionante plantação de castanheiros antigos.

09.- 2019.- La Alcobilla (236)

Já, por outro lado, não sabemos se havemos de concordar com o autor deste mesmo blogue, quando nos afirma que os exemplares mais antigos têm entre 1700 e 1800 anos de idade.

 

Mostram-se alguns deles:

10.- 2019.- La Alcobilla (50)

(Exemplar I)

11.- 2019.- La Alcobilla (102)

(Exemplar II)

12.- 2019.- La Alcobilla (110)

(Exemplar III)

13.- 2019.- La Alcobilla (125)

(Pormenor do exemplar III)

14.- 2019.- La Alcobilla (92)

(Exemplar IV)

15.- 2019.- La Alcobilla (100)

(Exemplar V)

16.- 2019.- La Alcobilla (133)

(Exemplar VI – Perspetiva 1)

17.- 2019.- La Alcobilla (74)

(Exemplar VI – Perspetiva 2)

18.- 2019.- La Alcobilla (211)

(Exemplar VI – Perspetiva 3)

19.- 2019.- La Alcobilla (109)

(Exemplar VII)

20.- 2019.- La Alcobilla (16)

(Exemplar VIII)

21.- 2019.- La Alcobilla (167)

(Exemplar IX)

22.- 2019.- La Alcobilla (190)

(Exemplar X)

23.- 2019.- La Alcobilla (265)

(Pormenor do exemplar X)

 

Se não contestamos que o castanheiro tenha vindo da Ásia Menor para a Península Ibérica pelas mãos dos romanos, já, por outro lado,  ficam-nos sérias dúvidas que, alguns deles, remontem ao tempo do Imperador Diocleciano, o último grande perseguidor dos cristãos.

 

Cremos ser mais «cautelosa» a informação afixada no placar informativo, nas redondezas do recinto/souto do Santuário, quando nos diz que o conjunto dos castanheiros de La Alcobilla é composto principalmente por castanheiros centenários, alguns catalogados com mais de 900 anos.

24.- 2019.- La Alcobilla (224)

É pena que esta informação seja tão escassa pois, dado os instrumentos e os recursos existentes hoje em dia, quer pela ciência, quer pela tecnologia, seria de todo interessante saber-se exatamente a idade de cada um deles e, cada um deles, estar devidamente identificado. Particularmente aqueles que estão na cabeceira da Igreja/Santuário,

25.- 2019.- La Alcobilla (131)

(Perspetiva I)

25a.- 2019.- La Alcobilla (73)

(Perspetiva II)

25b.- 2019.- La Alcobilla (210)

(Perspetiva III)

e nas suas fachadas laterais,

26.- 2019.- La Alcobilla (202)

(Perspetiva I)

26a.- 2019.- La Alcobilla (205)

(Perspetiva II)

26b.- 2019.- La Alcobilla (235)

(Perspetiva III)

porquanto os que estão em frente da fachada principal, ainda segundo o mesmo placar informativo, não têm mais de 25 anos, são de propriedade privada e a sua função é mesmo a produção de castanha.

 

Do que já vamos conhecendo da Sanábria - em San Román, Vime, Rozas, Linarejos, entre outras povoações da Sanabria e Carvalleda -, há, manifestamente, muitos castanheiros que podem disputar a antiguidade aos mais velhos de La Alcobilla. Todavia, são árvores isoladas e não este conjunto monumental que La Alcobilla nos oferece.

 

O mesmo acontece em Portugal, no lugar de Vales, Treminas, Trás-os-Montes, (sítio onde os romanos fizeram exploração e extração de ouro) em que um castanheiro, com cerca de mil anos, e com 14 metros de perímetro no tronco e 21 metros de altura, foi eleito como a árvore para representar Portugal no concurso «Árvore Europeia do ano de 2020».

27.- Castanheiro de Vales, Tresminas

Foi uma manhã magnífica a que, no passado dia 21 de novembro, com um dia bonito de sol, usufruímos neste lugar de La Alcobilla, na sempre agradável e apreciada companhia de Pablo Serrano e H. Raval.

 

Para quem esteja interessado(a) em explorar um pouco mais este tema, deixamos aqui, entre muitos outros, os seguintes links:

 

Para finalizar este nosso post, deixamos à visualização dos nossos leitores(as) estes dois «deliciosos» vídeos, de Valentín E. S. B., Sanabria Mágica, In memoriam, de outubro de 2017,

 

SANTUARIO DE LA ALCOBILLA DESDE EL CIELO

UN PASEO OTOÑAL POR LA ALCOBILLA (SANABRIA)

e, obviamente, a imagem da Virgem de La Alcobilla.

28.- PicsArt_10-03-02.28.15

13
Dez19

Palavras soltas - Solo se muere una vez pero se vive a diario

andanhos

 

PALAVRAS SOLTAS

 

«SOLO SE MUERE UNA VEZ PERO SE VIVE A DIARIO»

 

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Fonte:- https://amenteemaravilhosa.com.br/o-que-e-a-vida/

Há meses que este pequeno vídeo, que abaixo exibimos, está aguardando que o publiquemos neste blogue.

 

Estivemos para o fazer no dia 2 de novembro. Desistimos. Julgamos que ficaria demasiado «colado» a uma data com um significado muito específico para aqueles que professam a fé católica.

 

Isto, por um lado; por outro, a sua mensagem nada, cremos, tem a ver essencialmente com a morte, outrossim «alertar-nos» para a vida, para o que fazemos da(s) nossa(s) vida(s).

 

E, para finalizar, deixo-os(as) com dois excertos da obra de Carlo Strenger - «O Medo da insignificância – Como dar sentido às nossas vidas no Século XXI» para reflexão:

«(…) enfrentar a mortalidade é uma das tarefas decisivas (…) qualquer discussão atual sobre a consciência e a aceitação da mortalidade deve ser relacionada com a tese (…) segundo a qual a negação da morte é uma das maiores motivações da espécie humana (…) Uma das formas desta negação é (…) a “atitude heroica”. Tentamos criar obras que nos imortalizem ou, pelo menos, nos tornem parte de um grupo que afirma que irá sobreviver durante milhares de anos (…)

Uma tese central do epicurismo é o modo como enfatiza que o medo da morte é irracional, porque a morte não é um acontecimento nas nossas vidas e, como tal, não é para ser temida (…)».

«A vida boa parece reduzir-se à questão de saber qual o nosso desempenho no mercado global do “eu” mercadoria. Será a nossa carreira suficientemente espetacular? Teremos atingido o reconhecimento que procurávamos? Será a nossa vida suficientemente multifacetada e terá estilo suficiente? Conseguimos manter uma imagem “fixe”, mesmo trabalhando de manhã a noite, para termos tudo o que os nossos vizinhos e amigos do mundo global têm».

«Confundimos demasiadas vezes viver uma vida com ter uma carreira. Somos obrigados a contar as nossas vidas como um curriculum vitae comercializável: com os graus académicos que adquirimos, com os lugares que ocupámos e com os êxitos que são comensuráveis(…)».

 

 

 

PS – Não fizemos a tradução do título do vídeo porque achamos ser mais «apelativo» no original.

 

nona

03
Dez19

Palavras Soltas - A antiga estação/apeadeiro de Loivos no contexto da construção da linha de caminho de ferro do Corgo

andanhos

 

PALAVRAS SOLTAS

 

A ANTIGA ESTAÇÃO/APEADEIRO DE LOIVOS

NO CONTEXTO DA CONSTRUÇÃO DA LINHA DE CAMINHO DE FERO DO CORGO

 

01.- 2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (14)

Durante os últimos anos, intentámos levar a efeito caminhadas nas vias férreas, no Douro e a norte do Douro, que foram desafetadas/abandonadas para o tráfego ferroviário.

 

Até ao momento, praticamente cumprimos este nosso objetivo. Falta-nos, porém, levar a cabo o troço entre Mirandela e Bragança, na Linha do Tua.

 

Provavelmente, se tudo nos correr bem, nesta próxima primavera, será o nosso primeiro desafio.

 

Mas não é das caminhadas nas vias férreas desativadas/abandonadas que hoje nos trouxe à fala com os nossos leitores(as).

 

É sobre o plano, de há 100 anos, que o Estado português, ou os seus proeminentes políticos, tinham para «ligar», por via férrea, todo o interior do país, conectando-o com o litoral.

 

Sabemos que a história destes últimos 100 anos foi toda outra. Infelizmente…

 

O dito modernismo e o neoliberalismo, baseado na ciência e nas novas tecnologias, impulsionarem o aparecimento da vertente «individualista» do ser humano que, por sua vez, levou ao abandono da vertente comunitária do indivíduo e à exacerbada exploração e uso dos recursos, pondo em causa o equilíbrio dos ecossistemas fundamentais do nosso Planeta e a nossa vida nele.

 

Não é que estejamos contra a ciência e a tecnologia, outrossim quanto ao uso que delas fazemos…

 

Dois exemplos apenas para nossa reflexão.

 

Que fazemos com as redes sociais que nos poem em contacto com todos e todo o mundo e que nos fazem esquecer do «outro», nosso semelhante, amigo ou familiar, que vive e está ao nosso lado, com os corpos tão próximos, mas tão distantes uns dos outros?

 

Dois símbolos – o avião e o automóvel -, que deram origem a tantas rotas e levaram à construção de tantas vias de transporte. Unem mais ou cada vez mais nos separam, dividem, desestruturam territórios, reduzem e extinguem lugares, desarticulam e fazem desaparecer ou reestruturar verdadeiras comunidades humanas, acantonando as pessoas em grandes metrópoles ou megapolis, criadoras de tantas solidões e de tanta pobreza?

 

Falamos hoje dos prejuízos que este sistema de vida que criámos nos trouxe e apela-se a que a Humanidade mude de Rumo, mude de Vida.

 

É toda a problemática à volta da expressão «pegada ecológica», como um indicador de sustentabilidade ambiental, capaz que nos manter «vivos» neste Planeta Terra – tema tão pertinente e que deve estar constantemente em cima da mesa de todos nós – cidadãos e de todos aqueles a quem demos o legítimo direito de nos representarem.

 

Mas também não foi para falarmos desta questão que nos trouxe aqui hoje.

 

Quando, em 13 de fevereiro de 2016, neste blogue, sob a epígrafe «Memórias de um Andarilho – Caminhadas nas vias férreas abandonadas – Linha (de Caminho de Ferro) do Corgo (De Vidago ao limite do concelho de Chaves)», fazíamos a reportagem daquela etapa, a certa altura, dizíamos que “não compreendíamos muito bem da ou das razões de tal inflexão que a Linha tomava, a partir de Oura e até Sabroso de Aguiar: se questões técnicas; económicas ou quaisquer influência política de/ou proprietários que não queriam ver as suas propriedades retalhadas e invadidas pela Linha. Vá-se lá saber!... O certo é que o troço faz curvas e contracurvas para, depois, num cocuruto, em diagonal, torcer, definitivamente para sul, em direção a Sabroso”.

 

Para muita gente, possivelmente, continua a ser uma incógnita aquele serpenteado.

 

A 14 de novembro de 2018, nós, juntamente com Fernando DC Ribeiro e Humberto Ferreira, fomos ao encontro do Km 70, 557 daquela então Linha do Corgo – o Apeadeiro designado de Loivos.

02.- 2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (4)

Discorremos, naquele lugar, os três, a propósito de uma localização tão inóspita

03.-  2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (2)

embora com excelentes vistas para o seu entorno,

04.- 2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (37)

em particular os panoramas que daqui se avistam para o vale de Oura

05.- 2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (8)

(Panorama I)

06.- 2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (10)

(Panorama II)

07.- 2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (45)

(Panorama III)

08.- 2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (32)

(Panorama IV)

09.- 2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (7)

(Panorama V)

10.- 2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (11)

(Panorama VI)

Enquanto íamos tirando fotos

11.- 2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (25)

a estas agora ruínas

12.- 2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (23)

(Perspetiva I)

13.- 2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (20)

(Perspetiva II)

no meio do nada,

14.- 2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (22)

olhando para a beleza da natureza e para o abandono a que votamos certos territórios, tão cheios de histórias para contar,

15.- 2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (49)

cada um ia tecendo argumentos quanto à localização deste Apeadeiro e ao traçado desta Linha neste trecho entre Vidago e Sabroso de Aguiar.

 

Não nos pareceu que, cada um a seu jeito, tecesse argumentos consistentes. Daí que fomos incitado a fazer uma pequena pesquisa sobre a história desta Linha e deste seu traçado.

 

Mas não nos vamos delongar muito sobre esta história. Estamos num tempo, pelo que constantemente nos dizem, que devemos ser sóbrios, precisos e concisos nas palavras, sob pena de ninguém nos escutar, lendo.

 

Certo…

 

Estamos, naturalmente, de acordo: precisão e concisão!

 

Mas, cá para nós, à custa de tanta pressa e do uso de tão poucas palavras, sabe-se lá se um dia não deixaremos de articular corretamente a nossa língua materna!!!

 

Pelo que muita gente se queixa, já lá estamos bem perto!...

 

É bem verdade, como dizem, que uma imagem vale mais que mil palavras, mas, porventura, não foi pela palavras (linguagem) que nos tornámos «humanos»?

 

Definitivamente, vamos ao que efetivamente agora nos interessa falar, cingindo-nos ao essencial.

 

Nos finais do século XIX e princípios do século XX, estudaram-se e fizeram-se planos para a construção de vias férreas em todo o país, estruturando e ligando todo o território nacional.

 

A Norte, a Linha do Douro, via férrea estruturante da bacia do rio Douro, e dos seus principais afluentes, procurava ligar o interior transmontano entre si e deste com o litoral.

 

Deixando para trás as Linhas do Sabor e do Tua, concentremo-nos na do Corgo e na do Tâmega.

 

Demos a palavra à Wikipédia, sob o título «História da Linha do Corgo». A certa altura, diz-se:

“Desde a chegada da Linha do Douro à Régua, em 15 de Julho de 1879, que se planeou a construção de um caminho de ferro entre este ponto e as cidades de Vila Real e Chaves, passando pelo vale do Rio Corgo. Com efeito, nessa altura já se reconhecia a necessidade de construir uma ligação ferroviária entre a Régua e a fronteira, passando pelas importantes localidades de Vila Real e Vila Pouca de Aguiar, as estâncias termais nas Pedras Salgadas e em Vidago, e as planícies em redor de Chaves; esperava-se que a linha servisse, igualmente, a região de Verín, em Espanha, ligando-se à linha entre aquela localidade e Ourense”. (Confrontar Gazetas dos Caminhos de Ferro, de 16 de fevereiro de 1958, de 1 de março de 1903 e de 16 de abril de 1905.

 

Todavia, o projeto ferroviário a norte do rio Douro era mais ambicioso: pretendia ligar o litoral e todo o vale do Ave, Vizela e mesmo conectando a Linha do Minho até à fronteira norte (Vila Verde da Raia).

 

Leiamos o que do artigo citado, logo de seguida, diz:

“Junto a Vidago, terminaria a Linha do Tâmega, que se previa que fosse o mais importante caminho de ferro naquela região (…)”.

 

Bem assim o da Gazeta dos Caminhos de Ferro, de 1 de novembro de 1926, citada por Wikipédia, sob o título «Linha de Guimarães» quando diz que “A Companhia da Póvoa possuía um projeto para continuar a linha além de Famalicão, até Chaves, passando por Guimarães, Fafe e Pedras Salgadas, que chegou a ser aprovado”.

 

Do tão ambicioso projeto ferroviário para ligar o interior de Trás-os-Montes entre si e deste com o litoral e o Minho, principalmente no que concerne às três grandes vias férreas de ligação – já que a ligação por Chaves a Galiza não passou de um mero sonho – da Régua a Vidago (Linha do Corgo); de Livração a Vidago (Linha do Tâmega) e do Porto, Trindade, entroncando em Cavez, na Linha do Tâmega (Linha de Guimarães, drenando parte do tráfego da Linha do Minho para o interior transmontano), com o tempo, apenas se executou a ligação da Régua a Chaves (Linha do Corgo); a de Livração – da Linha do Douro – a Arco de Baúlhe (Linha do Tâmega) e a de Guimarães somente veio até Fafe.

 

Hoje, todas as três linhas estão encerradas, não efetuando qualquer tráfego. E, mesmo a Linha do Douro, só efetua tráfego até ao Pocinho, sem qualquer tipo de eletrificação ou de melhoria substancial na mesma linha.

 

Pelo contrário, no país, temos autoestradas por todos o lado, e, a norte do Douro, procurando seguir os passos das então vias de penetração férrea para o interior transmontano, como sejam, e nomeadamente a A24, a A7 e a A4, [e a ligação à Galiza/Espanha pela A75 - Chaves-Fronteira, a desembucar na A52 - Autovia das Rias Baixas, ligando toda a Galiza a Espanha. Isto para já não se falar do AVE (comboio de alta velocidade), com estação na A Gudiña!] pagas principalmente por todos nós, a peso de ouro!... Para os que têm carro, pois, porquanto os transportes públicos, agora com estes novos «arranjos» empresariais é o que se vê. Infelizmente…

 

E, com todo este arrazoado íamo-nos esquecendo do que aqui nos trouxe, em conformidade com o subtítulo deste post, ou seja, porquê o apeadeiro em Loivos, ao Km 70, 557?

 

Economizando tempo, porque o texto, sem querer, para o que pretendíamos, já vai longe diríamos que foram fatores de ordem técnica, económica e social que ditaram esta localização e seu traçado. Atentemo-nos ao que nos diz o título da Wikipédia acima citado «História da Linha do Corgo», com base na informação da Gazeta dos Caminhos de Ferro, de 16 de setembro de 1905:

“Em 1905, ainda faltava estudar o lanço seguinte, até à importante estância termal do Vidago, mas o local da estação já tinha sido definido pelo engenheiro Eleutério da Fonseca, num sítio com espaço para se poder fazer ali o planeado entroncamento com a Linha do Tâmega. Este troço deveria ser planeado de forma a evitar a realização de grandes terraplanagens junto às nascentes de águas termais, e a servir o melhor possível Loivos, localidade que era o principal centro da região, e um local obrigatório de passagem para o planalto que se compreende a Noroeste da Serra da Padrela. Para passar para a vertente da Ribeira de Oura, existem 3 portelas que se podiam usar: a de Sabroso [negrito nosso], onde passava a Estrada Real, a de Soutelinho [negrito nosso] e a de Valoura [negrito nosso]. A primeira tinha sido selecionada pelo engenheiro António Sarmento em 1888, quando estudou este lanço da Linha do Corgo, descendo por Reigaz para o Vidago, mas este trajeto tinha o defeito de servir apenas o Vidago; já a de Valoura foi mencionada noutro projeto, do engenheiro Gama Braga em 1877, quando a Companhia do Caminho de Ferro do Porto à Póvoa e Famalicão procurou prolongar a Linha da Póvoa até Chaves [Ia por Seixo e Alto de Lagarelhos, com Estação junto a atual Adega Cooperativa de Chaves, mas que não servia o importante polo termal de Vidago]. Para o troço da Linha do Corgo até Vidago, a mais indicada era a de Sabroso [negrito nosso], uma vez que oferecia as melhores condições de terreno [isto é, oferecia menos desnível, em comparação com os dois outros]”.

 

à vinda, regressámos a Chaves pela vertente de Valoura.

 

Uma traçado pela estrada com bem bonitas vistas/panoramas,

2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (51)

(Panorama I)

2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (61)

(Panorama II)

2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (64)

(Panorama III)

2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (81)

(Panorama IV)

2018.- Linha do Corgo - Estação de Loivos (83)

(Panorama V)

mas com uma pemdente um pouco bem mais acentuada do que a do traçado da a antiga e extinta Linha do Corgo nesta zona, vindo de Sabroso de Aguiar.

 

E pronto. Por aqui hoje ficamos, na esperança de termos sido esclarecedor para aqueles que se interessam por estas «mundividências»…

 

 

nona

01
Dez19

Ao Acaso... Divagações à volta da Igreja de Santa Maria do Marco de Canaveses

andanhos

 

AO ACASO…

 

DIVAGAÇÕES À VOLTA DA IGREJA DE SANTA MARIA

 

MARCO DE CANAVESES

 

01.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (64)

 

A casa de Deus está assente no chão
Os seus alicerces mergulham na terra
A casa de Deus está na terra onde os homens estão
Sujeita como os homens à lei da gravidade
Porém como a alma dos homens trespassada
Pelo mistério e a palavra da leveza

Os homens a constroem com materiais
Que vão buscar à terra
Pedra vidro metal cimento cal
Com suas mãos e pensamento a constroem
Mãos certeiras de pedreiro
Mãos hábeis de carpinteiro
Mão exacta do pintor
Cálculo do engenheiro
Desenho e cálculo do arquitecto
Com matéria e luz e espaço a constroem
Com atenção e engenho e esforço e paixão a constroem (...)

A Casa de Deus, Páscoa de 1990

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

Nos finais da década de 90 do século passado, falava-se muito desta igreja – o hoje continua a falar-se dado a quantidade de visitante que tem para a ir ver – cujo autor do projeto era um reputado arquiteto, formado na Escola Superior de Belas Artes do Porto, natural de Matosinhos, tendo recebido, nacional e internacionalmente, vários prémios, entre eles o PRITZKER (1992), equivalente ao Prémio Nobel da Arquitetura.

 

No meio eclesiástico nem todos estavam com o «modelo» proposto por aquele projeto. Contudo, uma franja significativa do clero, particularmente o nortenho, com quem tínhamos mais convivência, ou o aceitavam ou aplaudiam entusiasticamente aquele «edifício».

 

Não podemos deixar de ter em conta que Álvaro Siza Vieira, o autor do projeto, para além da fama que que vinha de além fronteiras, era, na altura, o arquiteto responsável pela reconstrução do Chiado (Lisboa), após o incêndio ocorrido a 25 de agosto de 1988 e que destruiu parte significativa daquela zona nobre lisboeta.

 

De tudo isto, o que nos espantava era, como uma população do interior, praticamente rural, habitualmente tão conservadora, tinha aceite – e a que preço ficou! – aquela tipologia de igreja, tão fora dos «cânones» a que sempre estiveram habituados, assente num modelo tradicional de um edifício da «Casa de Deus».

 

Vasculhando a génese da «obra»/igreja, já há muito sentida pela população de Marco de Canaveses, (desde a década de 70 do século passado), uma vez que a então igreja era demasiado pequena para, em certas ocasiões, acolher os fiéis em certas cerimónias e cultos, fomos dar com uma personalidade – diplomata e pedagogo – que funcionou como motor impulsionador deste «feito» - o então, e recente pároco na paróquia, Padre Nuno Higino; que contou com o entusiasmo e/ou complacência do então Bispo do Porto – D. Júlio Tavares Rebimbas.

 

Não fora o entusiasmo deste então pároco, com a sua cultura e visão – repare-se que Nuno Higino, hoje reduzido ao estado laico, conhecido poeta, escritor (contista) e especialista em filosofia estética – e a sua ligação pessoal a Siza Vieira, esta obra, estamos certo, não teria sido realizada.

 

Interrogamo-nos porque só passados 22 anos da sua inauguração é que fomos visitar a Igreja de Santa Maria de Marco de Canaveses...

 

I

 

E começa agora a nossa primeira divagação.

 

Aqui e ali vemos sensibilidade artística e cultural capaz de, face ao marasmo das coisas em que vivemos, representar uma lufada de ar fresco nas nossas vidas e comunidades em que nos inserimos. A sensibilidade artística e cultural não é manifestamente a «praia» da maioria de nós,  portugueses.

 

Pese embora algum esforço (individual) que vai aparecendo, o nosso sistema educativo não contém, e está minimamente preparado, para aceitar a(s) vertente(s) das artes, tão importante, ou mesmo igual, que o Português e Matemática, entre outras disciplinas, constantes dos nossos curricula escolares.

 

Não admira, por isso, já para não falarmos no cidadão médio, que vejamos tanto político, particularmente autarcas, com uma manifesta falta de gosto e sensibilidade para a gestão, (re)ordenamento, remodelação, requalificação e reclassificação dos espaços públicos dos lugares e cidades que os portugueses, através do voto, depositaram em suas mãos para dele cuidarem. E, porque não dizê-lo também, dos técnicos que os aconselham e elaboram os respetivos projetos.

 

Nós próprio fazemos a nossa «mea culpa» quanto a esta matéria, quando corresponsável pelo seu velamento, em que, não raras vezes, nos faltou a sensibilidade e a primazia da qualidade estética dos espaços públicos à nossa responsabilidade!

 

Infelizmente, quando se trata de gestão e ordenamento dos nossos espaços públicos e da estética dos edifícios que as autarquias têm de aprovar o seu licenciamento, fala, muitas vezes, mais alto o lucro da construção, certos compadrios e muita  especulação imobiliária, do que por em primeiro lugar o zelar por uma cidade que se quer agradável à vista de quem na habita, dando-lhe, também por esta via, boa qualidade de vida a quem dela faz a sua vida e de quem nos visitam.

 

II

 

Vejamos o que Siza Vieira nos diz, quando pegou na «obra» e sobre o local onde a mesma iria ser construída.

 

No seu livro «Imaginar a evidência», Edições 70, e no artigo «Igreja de Marco de Canaveses, de Siza Vieira, faz 15 anos» (2011), do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, o arquiteto explica a «teoria» da Igreja:

 

“A Igreja para Marco de Canaveses, é só uma parte de um conjunto religioso que prevê ainda um auditório, a escola de catequese e a habitação para o pároco.

 

A visita ao local pré-escolhido tinha-me perturbado profundamente: era um local dificílimo, com grandes diferenças de cota, sobranceiro a uma estrada com muito tráfego [Avenida Gago Coutinho].

02.- 2019.- Marco de Canaveses  (53)

Como se não bastasse, aquela zona estava marcada por edifícios de péssima qualidade. A construção deste centro paroquial é por isso e também a construção de um lugar, em substituição de uma escarpa muito acentuada.

 

A Igreja articula-se em dois níveis: um superior, da assembleia,

03.- 2019.- Marco de Canaveses  (124)

e um inferior, da capela mortuária.

04.- 2019.- Marco de Canaveses  (38)

Como mostram os percursos de acesso às duas cotas,

04a.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (67)

(Um dos que liga a capela mortuária à Igreja)

trata-se de espaços com características decisivamente diferentes. A capela mortuária é quase a fundação da própria igreja: cria uma cota estável, fixa, para que a igreja possa apoiar-se. Além disso, com os seus muros de granito e o claustro,

04b.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (48)

estabelece a distância em relação à estrada. Esta plataforma habitada devia portanto surgir como ‘natureza construída’.

05.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (61)

[Refira-se aqui o jardim, ao nível da Avenida Gago Coutinho e da casa mortuária, tendo defronte o jardim e as 12 simbólicas oliveiras].

05a.- 2019.- Marco de Canaveses  (137)

Mas é muito importante também a colocação, defronte do acesso principal,

06.- 2019.- Marco de Canaveses  (28)

do centro paroquial e da residência do pároco.

06a.- 2019.- Marco de Canaveses  (33)

Estes volumes definem um grande ‘U’ que se contrapõe ao pequeno ‘u’ formado pelas duas torres, a do campanário [do lado direito]

07.- 2019.- Marco de Canaveses  (22)

e a do batistério [do lado esquerdo da imagem].

07.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (40)

Cria-se, assim, o espaço necessário para o grande volume vertical da fachada.

08.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (9)

Ao mesmo tempo, torna-se possível uma relação com as construções de pequena escala que circundam esta acrópole. Fica, assim, demarcado o adro.

09.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (7)

A referência inicial foi uma construção pré-existente, uma residência para a terceira idade, de uma arquitetura correta e ordenada, situada na cota superior da escarpa e com uma extensão muito significativa em relação à estrada. A partir deste novo nível, tudo o resto se foi articulando, reagindo à complexidade das construções existentes e permitindo finalmente a criação de um adro, aberto sobre o belíssimo vale de Marco de Canaveses.

10.- 2019.- Marco de Canaveses  (142)

Esperemos que novas construções não se venham a encostar às péssimas que já lá existem e se mantenha a abertura sobre o vale, que é essencial. A própria grande porta da igreja, com os seus dez metros de altura, tem razão de existir exatamente em relação a esta vastíssima vista. A entrada faz-se, normalmente, através de uma porta de vidro, debaixo da torre da direita, enquanto a porta grande só é aberta em circunstâncias especiais.

11.- 2019.- Marco de Canaveses  (115)

Depois do movimento lateral de entrada, tem-se a perceção de uma janela baixa e comprida, do lado direito, que permite ainda a vista para o exterior.

12.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (34)

Naquele instante, não se sente a luz difusa que chega das altas aberturas na parede curva e inclinada, à esquerda: Veem-se, ainda e imediatamente, o vale e as construções em frente.

 

A janela contradiz o ambiente de recolhimento a que estamos habituados numa igreja e por este motivo gerou polémicas. O mesmo se deu com a colocação da estátua da Virgem, que é quase tão alta como os fiéis e não está assente em pedestal.

13.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (30)

Todavia curiosamente, um teólogo, muito estimado no Porto elogiou o respeito pelos atuais princípios da liturgia, que acentuam a função de mediação da Virgem entre Deus e os homens e por consequência entre os homens. De facto a estátua da Nossa Senhora tem uma posição intermédia: colocada na extremidade da janela e sujeita a uma luz muito intensa, introduz ao espaço do altar, que quem entra não nota imediatamente. Três degraus elevam o plano da celebração,

14.- 2019.- Marco de Canaveses  (5)

que conclui com duas portas, pelas quais entra luz clara, filtrada por uma alta chaminé.

15.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (39)

Esta disposição dialoga com o banho de luz sobre as formas curvas dos limites laterais da abside e sobre o espaço da igreja em geral. A iluminação natural varia com o tempo, dependendo da posição do sol, e vai desde a projeção do desenho do raio de luz até ao silêncio da aspersão: um grande intervalo, rigoroso e palpável. A montagem de todos os elementos é, evidentemente, coerente. Todavia esta ordem, caracterizada por algumas contradições existentes e desejadas, foi construída de maneira lenta e laboriosa. Não houve ideias pré-definidas, dadas à priori.

16.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (32)

Aquilo que é agora legível é o resultado da decantação de determinadas reflexões sobre o espaço, hoje tão difícil, da igreja. Esta dificuldade é devida a uma série de importantes alterações na liturgia: pense-se na celebração da missa, que agora encontra o sacerdote virado para a assembleia e não de costas. Uma tal mudança transforma por completo o caráter da celebração e anula o sentido de organização espacial tradicional, nas suas várias formas e na sua lenta e permanente evolução. Ao mesmo tempo, esta nova condição não justifica a interpretação da igreja como auditório. A quase totalidade dos projetos recentes não aprofunda devidamente este aspeto. Era indispensável, por conseguinte, uma reflexão sobre as condições, poderíamos dizer funcionais, do espaço da igreja.

 

E no entanto as discussões com os teólogos puseram em evidência a contradição que envolve hoje as diversas interpretações. Trata-se, por isso, de um programa instável, ainda por resolver. Todavia era evidente a necessidade de criar uma projeção do celebrante, uma comunhão com a assembleia, sem que, inevitavelmente, se criasse aquela distância própria de qualquer auditório. Por esta razão propus, para a abside, curvaturas já não côncavas mas antes convexas. E também neste caso não se trata de uma ideia pré-concebida, imediatamente derivada da variação da liturgia: é uma intuição, nascida de uma série de exigências, entre as quais a necessidade de conservar a relação entre os objetos e os movimentos que fazem parte da celebração.

17.- 2019.- Marco de Canaveses  (18)

No espaço em volta do altar [presbitério] existe uma série de elementos que participam no ritual: o ambão, o próprio altar, o sacrário, as cadeiras dos celebrantes e a cruz, os quais lentamente tomaram corpo e definiram depois o espaço, no respeito pelos movimentos, pré-estabelecidos, da missa. Assim a igreja adquiriu forma como uma escultura em negativo, na qual se foram estabelecendo relações de continuidade e de tensão entre várias partes.

18.- 2019.- Marco de Canaveses  (7)

Sempre me impressionou muito o obsessivo convite à meditação que se sente na maior parte das igrejas. Na realidade as aberturas são colocadas frequentemente a uma altura tal que não permite que se olhe para o exterior, ao mesmo tempo que a utilização dos vitrais elimina a continuidade e a transparência. Ao contrário, parece-me que as recentes modificações na liturgia contrastam com esta visão de espaço fechado e segregado.

 

Quando comecei a estudar o programa, depressa compreendi o enorme alcance desta rutura na continuidade secular da tradição. Todavia parece-me que este aspeto não tem qualquer paralelo na vida real da Igreja, na relação entre a igreja e a sociedade. Por esta razão, e não obstante as necessárias adaptações, procurei preservar a continuidade com a tradição. Assim, observando atentamente o caráter desta igreja, parece evidente que a sua conceção é substancialmente conservadora. Esta intenção emerge com clareza do desenho da planta que na realidade exprime uma rígida axialidade.

 

Contextualmente, a verticalidade do interior é muito forte. Na realidade, apesar da nave ser de secção quadrada, a articulação de determinados elementos, tais como as duas aberturas por trás do altar, dá o sentido de elevação. Diversas discussões viriam a reforçar esta ideia de continuidade com a espacialidade canónica. De resto, os conselhos dos teólogos foram constantes e determinantes. Assim, por exemplo, o batistério, inicialmente colocado ao lado do altar, foi posteriormente desviado para perto da entrada, para que anunciasse a presença da assembleia. Além disso, uma vez que o cortejo dos celebrantes tem de percorrer o eixo longitudinal da igreja, tornou-se necessária a presença de uma porta, na parede curva e inclinada. O ritual da celebração exige, evidentemente, determinadas opções no tratamento do espaço e na organização dos percursos. (…)”

19.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (36)

“O traçado do percurso que, no piso inferior, liga o exterior à capela mortuária é o resultado do estudo daquilo que acontece nestes espaços. Foi determinante, na realidade, o conhecimento do significado do funeral na região do Minho. Quando visitei o maravilhoso cemitério crematório do arquiteto holandês Pieter Oud, tive a possibilidade de assistir a uma cerimónia fúnebre. Verifiquei que a atmosfera e a relação das pessoas são decisivamente diferentes do que acontece em Portugal. Aqui, durante o funeral, a família e os amigos íntimos estão muito próximos do defunto, enquanto muitas outras pessoas, vizinhos e conhecidos, seguem a uma certa distância, naturalmente com menor dor e emoção. Tornou-se por isso necessária uma sequência de espaços com características diferentes.

 

E também por esta razão pensei num claustro, em que as pessoas vão fumar, conversar ou eventualmente, porque não, tratar de negócios: é uma maneira de reagir àquele relativo desconforto determinado pelo encontro, tão direto, com o problema da morte. Esta reação à dor não se encontra, por exemplo, nos funerais na Holanda, durante os quais domina o silêncio total.

20.- 2019.- Marco de Canaveses  (141)

Ao claustro segue-se uma primeira galeria, bastante ampla, marcada logo após a porta de entrada, pela parede curva que desce da abside. Poucos metros depois abre-se, à esquerda, uma outra galeria que tem, no fundo, uma janela vertical de onde se pode ver novamente a estrada. Não sei qual a conexão entre esta janela e a janela horizontal do nível superior, mas creio que a posição vertical da que está em baixo, no embasamento é devida à procura da sensação necessária do peso, da gravidade. O percurso termina na capela mortuária, que comunica com a primeira galeria graças a uma janela horizontal.

 

As pessoas que estão no interior têm, por isso, a perceção das que entram ou saem, exatamente como sucede no nível superior, termina aqui com uma abertura que permite a vista do claustro. Regressa-se então, uma vez mais, ao ponto de partida, com o rumor da água de uma fonte. No pátio impõe-se com relevo particular a presença de uma escada, que conduz de novo ao nível superior. Neste projeto, a unidade é conferida pelos percursos que terminam todos no ponto de partida, circularmente. A sensação final é realmente de um lugar fechado, bem delimitado”.

 

Deixamos aqui aos nossos leitores um espaço-localização não referido por Siza Vieira no texto acima citado – o pequeno coro e o lugar do órgão.

20a.- 2019.- Marco de Canaveses  (11)

 

III

 

A segunda divagação decorre das palavras supra de Siza Vieira quando nos fala da «sua» igreja e das conclusões a que chegam três Mestres quando abordam a obra do arquiteto da Igreja de Santa Maria de Marco de Canaveses.

 

Ricardo João Ramos Cerqueira, na sua dissertação «A importância do lugar para a implantação e conceção dos edifícios», diz-nos que “é impossível projetar sem se fazer um estudo sobre o lugar onde é pretendido implantar o edifício, pois como profere Norberg-Schulz, cada lugar contém um Genius Loci, que vai estipular as regras, as premissas segundo o qual aquele lugar se rege, tornando cada lugar tão próprio. Esquecer tudo o que está em volta apenas iria romper a harmonia criada pelo local e até mesmo um desfasamento com a sua história. A partir da abordagem às obras de Siza Vieira, Souto Moura e Fernando Távora, conseguimos compreender que todos eles têm em consideração todos os elementos presentes no lugar desde os alinhamentos dos edifícios já existentes, a exposição solar, as vistas, até mesmo às pedras, rochedos, que poderão lá ser encontrados de maneira a poderem ser incorporados no projeto. Assim sendo, é criada uma relação harmoniosa entre o construído e o pré-existente”.

 

Por sua vez, Cristiano Ferreira Rodrigues, em «O entendimento da arquitetura como referencial de paisagem na obra de Siza Vieira», enfatiza que “uma das características dos projetos de Álvaro Siza Vieira é a particularidade relação que os seus edifícios têm com a paisagem e cultura locais. Siza valoriza não só a conceção do edifício em si, como também o percurso exterior e interior de maneira que a área circundante crie no visitante o interesse em descobrir novos espaços. 

 

O conforto é outra das preocupações de Siza, uma vez que a obra só faz sentido se se tiver em conta as necessidades do Homem. Independentemente do que se estiver a construir, seja uma moradia, seja um museu ou uma biblioteca, o importante é fazer com que qualquer um se sinta bem naquele espaço.

 

Assim, o arquiteto considera que são importantes o espaço, o lugar, a paisagem, o percurso e o conforto, quer se trate de um projeto privado ou público. A história e a tradição dos lugares também são fatores a ter em conta. O autor tem ainda em consideração as limitações de ordem económica e social e as necessidades do Homem.

É certo que os elementos que mais se destacam na maioria dos seus edifícios são a paisagem e a luminosidade, conseguidos através quer da configuração dos edifícios, quer das janelas panorâmicas que estabelecem essa relação ao exterior, quer se trate de uma paisagem natural, urbana ou rural”.

 

E conclui que “para Siza, deve haver uma continuidade entre a obra arquitetónica e o espaço que a circunda, de modo que os lugares naturais perdurem no tempo”.

 

Por último, Maria Teresa Manso Captivo, em «Arquitetura de Espaços Religiosos Contemporâneos  - Análise Morfológica» frisa que a “arquitetura religiosa contemporânea responde ao seu propósito e revela uma maior assimilação dos princípios decorrentes do Movimento Litúrgico e uma maior aproximação ao modelo de igreja-casa, de forma integrada na cultura atual, e manifesta uma abertura da Igreja não só a nível artístico, como cultural e institucional”. E conclui que Siza Vieira para a elaboração do projeto se rodeou, entre outros, de iminentes teólogos, a Igreja de Santa Maria de Marco de Canaveses dá “resposta aos princípios decorrentes do Movimento Litúrgico (primeira metade do séc. XX) e do Concilio do Vaticano II (1961-1965) e que contribuem para desencadear a experiência religiosa. Assim, procurou-se descrever o ‘invólucro’ do espaço religioso e transpor para linguagem arquitetónica aquilo que se considera inefável, isto é, a dimensão espiritual e sagrada do lugar”.

 

Pese embora o custo desta obra, o certo é que esta Igreja dá corpo aquilo àquilo que preconiza o Movimento Litúrgico, ou seja, na sua forma ou expressão, Santa Maria é uma igreja sóbria e focada apenas no essencial da sua função, “um espaço que acolhe uma comunidade que, de forma ativa e em festa, se reúne em torno do altar. Assim, são reinventadas formas de identificar o sagrado e de expressar a devida dignidade do lugar, dissociadas da ostentação, do ornamento e da monumentalidade”.

 

IV

 

Diz-nos Arnaldo de Pinho, que supomos ter sido um teólogo conselheiro de Siza Vieira na elaboração do projeto da Igreja de Santa Maria de Marco de Canaveses, no prefácio à obra «Igreja de Santa Maria – Marco de Canaveses – Álvaro Siza», edição Cenateca, Associação Teatro e Cultura, do então pároco de Fornos, Marco de Canaveses, Nuno Higino, “A leitura da Igreja do Marco é aqui apresentada através dos grandes elementos que constituem um dos mais felizes espaços sagrados que conhecemos (…): a porta, o batistério, a nave, o presbitério, o altar, o ambão, o sacrário, a cruz, etc. Mas também não faltam aqui a parede curva, a fresta horizontal, a fachada noroeste, as outras fachadas, ou seja, os elementos mais abstratos e especificadamente menos funcionais, que integrando os elementos mais funcionais-litúrgicos, estão longe de ser um invólucro, constituindo isso sim, com em toda a grande arquitetura e em toda a grande arte, a configuração do espaço e do tempo num lugar”.

 

Esta passagem remete-nos para uma outra leitura desta igreja. Em que o simbólico e o método semiótico não devem estar ausentes. Aliás, o mesmo, implicitamente, nos é sugerido por Nuno Higino na obra acima referida quando, a propósito da parede curva da Igreja, nos diz que “A densidade do espaço sagrado é favorecida por esta parede grávida [sublinhado nosso] de mistério. Somos assim remetidos para o centro da Revelação, para aquele momento em que Deus compromete o Seu próprio Filho com a história, fazendo-o encarnar” (pág. 28).

 

E aqui vamos ao encontro da nossa terceira divagação, a propósito de uma «apresentação», que, vasculhando pela web, nos apareceu Ao Acaso...

 

Tendo feito uma pesquisa sobre esta Igreja, a páginas tantas, fomos confrontados com uma «apresentação» sobre a mesma, de 16 de julho de 2003, da autoria do ateliê de Alberto Costa-Macedo – Arquitetos, sob o título «Análise ao edifício Igreja do Marco de Canaveses – Igreja Paroquial de Santa Maria – Portugal/Europa – Método Semiótico Comportamentalista».

 

Trata-se de um Relatório em que o arquiteto Alberto Costa-Macedo aborda e analisa a metalinguagem usada pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira.

 

Na sua «apresentação», Alberto Costa-Macedo identifica a Igreja com uma «MULHER».

Apresentação (01)

Para este arquiteto, a personagem «MULHER» é a Igreja, cuja constituição é feita através de uma planta retangular.

Apresentação (02)

Num dos lados menores do retângulo encontra-se a «cabeça» (materializada através de uma caixa-de-luz, que ilumina o altar da Igreja e a capela mortuária, no piso inferior)

21.- 2019.- Marco de Canaveses  (39)

e os «ombros» (materializados pelas paredes curvas).

22.- 2019.- Marco de Canaveses  (37)

No lado oposto do retângulo, o arquiteto constrói as duas «pernas»

23.-

(materializadas com dois corpos, sendo um o batistério

24.- 2019.- Marco de Canaveses  (30)

[Pormenor do batistério visto do exterior]

25.- 2019.- Marco de Canaveses  (127)

[Veja-se o interior do batistério]

26.- 2019.- Marco de Canaveses  (14)

Enquanto um dos «braços» não é representado em planta, mas em alçado, que é através de uma janela baixa e comprida, que rasga horizontalmente a fachada,

27.- 2019.- Marco de Canaveses  (58)

já o outro «braço» é composto por um volume com a ampliação lateral do altar, sacristia, o registo e os confessionários. 28.- 2019.- Marco de Canaveses  (120)

Uma escadaria ligam estes dois corpos com a capela (mortuária) situada no piso inferior.

 

Alberto Costa-Macedo apresentou-nos o esquema da análise exterior.

 

Vejamos, agora,  a sua análise sintática formal.

Apresentação (03)

[Continuação da análise sintática formal]

Apresentação (04)

Prossegue o nosso arquiteto: “Embora a utilização de formas geométricas e as linhas retas sejam predominantes, [Siza Vieira] o arquiteto atribui a fisionomia de «MULHER», com o elemento de definição do sexo feminino – a vagina [a porta da fachada principal, de 10 metros de altura, que apenas se abre em eventos religiosos mais solenes].

29.- 2019.- Marco de Canaveses  (29)

Não ficando por aqui na sua definição, realça poeticamente, através das paredes curvas, os «ombros» da «MULHER» que elevam a «cabeça».

30.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (43)

No interior também nada é feito ao acaso. Atribui à parede inclinada a noção de gravidez que é atribuída à grande entrada de luz, que por sequência resultará mais tarde o «parto».

31.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (38)

Esquematizando – MULHER GRÁVIDA =MENSAGEM DA IGREJA

                                     ENTRADA DE LUZ+MÁQUINA DA CRIAÇÃO=SAÍDA DA BOA-NOVA”.

Apresentação (05)

 

32.- 2019.- Marco de Canaveses  (2)

Conclui, assim, o nosso arquiteto que Siza Vieira cria aqui [na Igreja de Santa Maria do Marco] uma das suas melhores obras, ao conseguir estabelecer, de forma inata, a relação do Universo:

 

NASCER

=

DAR À LUZ

 

Apresentação (06)

Apresentação (07)

33.- 2019.- Marco de Canaveses  (46)

(Igreja e Lar vistos desde a Av. Gago Coutinho)

34.- 2019.- Marco de Canaveses  (138)

Apetece-nos parafrasear um célebre jornalista e locutor português: "E esta, hein!".

29
Nov19

Palavras soltas - Reflexão a propósito da apresentação do livro «Poema infinito», de João Madureira

andanhos

 

PALAVRAS SOLTAS

 

REFLEXÃO A PROPÓSITO DA APRESENTAÇÃO DO LIVRO,

«POEMA INFINITO», DE JOÃO MADUREIRA

 

 

LINHA DE FÉ

É favor das estrelas nos convidar a falar,

Nos mostrar que não estamos sós,

Que a aurora tem um teto

E o meu fogo tuas mãos

 

René Chair

 

 

Não é nosso intento fazer qualquer apreciação a propósito da apresentação da obra «Poema Infinito» do amigo João Madureira, levada a cabo ontem no Auditório do Centro Cultural de Chaves; nem tão pouco fazer qualquer recensão crítica a este «Poema».

 

Apesar de, uma vez por outra, irmos lendo partes do mesmo, quando João o ia editando no seu blogue «TerçOLHO» [e atente-se que o livro dado à estampa não contempla toda a prosa poética editada naquele blogue], não temos qualquer veleidade de, aqui, repete-se, fazer qualquer apreciação crítica à obra.

 

Estamos com Kafka quando reconhecia ser um leitor atento. E um leitor atento tem de ser meticuloso, não ter pressa. Ao avançar-se no labirinto de um texto não se pode correr, sob pena de não se perceber a realidade nua, dura e crua que o mesmo contém.

 

Guimarães Rosa, citado por Gabriel Perissé, in Educação queixava-se dos leitores analfabetos para as entrelinhas, o leitor que corre para vencer parágrafos mas que perde na maratona da compreensão profunda. Ou, quando no mesmo sítio, se cita Nietzsche: “Não fui, em vão, filólogo, e ainda o sou talvez. Filólogo quer dizer mestre na leitura lenta”.

 

Face à obra que ontem nos foi apresentada, é forçoso que façamos uma pequena incursão sobre o designado «poema em prosa».

 

Então não há uma diferença entre prosa e poesia?

 

Prosa não será a forma natural de comunicação entre humanos, sendo o texto (em prosa) construído num discursos livre e direto?

 

E a poesia não será mais uma linguagem subjetiva, exprimindo emoções e sentimentos, num texto trabalhado esteticamente com elementos sonoros (ritmo, rima e verso) e, por isso, contendo ritmo e harmonia para manifestação de beleza?

 

Não serão, assim - poesia e prosa – dois géneros literários distintos?

 

Assim era. Todavia o escritor e o poeta têm liberdade, no trato da linguagem, para o uso dos diferentes instrumentos, que o levarão às suas próprias criações.

 

Pelo que sabemos, a partir de Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud e Stephane Mallarmé, assim como outros, a designação poesia em prosa, ou prosa poética, vem associada a estes autores, sendo, por isso, considerados os seus fundadores.

 

A história da prosa poética, como género literário, confunde-se com a trajetória da ascensão da modernidade poética, ao longo dos séculos XIX e XX.

 

Neste novo género literário, os princípios fundamentais da poesia, como a estética e o ritmo, bem assim a evocação de emoções são utilizados sem seguir a estrutura de verso e/ou estrofe: usa-se o texto direto e livre da prosa.

 

Sabemos que este novo género ainda é hoje controverso. Mas não é aqui o lugar para falar das ditas controvérsias acerca do caráter sui generis deste tipo de criação poética.

 

Mas quem goste de aprofundar este tema, entre muitos outros textos, recomenda-se a leitura de «Poesia ou prosa: Problemática (in)definição», de Fernando Paixão.

 

Feito este inciso quanto ao género literário que o nosso autor J. Madureira usa no seu «Poema Infinito», abordemos o tema que nos incitou para a escrita deste post.

 

Sartre, citado por Lúcia Lang Patriani de Carvalho, in «A relação entre escritor e leitor em "O que é a literatura"?», dizia que a finalidade da linguagem é comunicar.

 

Mas a função do escritor encontra-se em convergência com a própria função do homem, que é a de desvelar a realidade e o próprio ser humano.

 

Para Sartre, a atividade de um escritor configura-se, primacialmente, numa única palavra ou verbo – projeto, projetar.

 

Este autor, em 1946, na conferência «O existencialismo é um Humanismo» expressava como entender o papel do escritor:

“Porque o que nós queremos dizer é que o homem primeiro existe, ou seja, que o homem, antes de mais nada, é o que se lança para um futuro, e o que é consciente de se projetar no futuro. O homem é, antes de mais nada, um projeto que se vive subjetivamente, (...) nada existe anteriormente a este projeto; nada há no céu inteligível, o homem será antes de mais o que tiver projetado ser”.

 

E, logo a seguir, prossegue:

“Não é verdade, pois, que o escritor escreva para si mesmo: seria o pior fracasso; projetar as próprias emoções no papel resultaria, quando muito, em dar-lhe um prolongamento enlanguescido. O ato criador é apenas um momento incompleto e abstrato da produção de uma obra; se o escritor existisse sozinho, poderia escrever quanto quisesse, e a obra enquanto objeto jamais viria à luz: só lhe restaria abandonar a pena ou cair no desespero”.

 

E, entre estes dois passos, aparecem-nos a figuras de alteridade e de intersubjetividade.

 

No outro polo da criação poética (humana, pois), está a figura do leitor, como necessária para que a  objetividade da obra se dê. A partir do primeiro ato de criação do escritor podemos passar agora para o leitor e ao próprio ato de leitura, que completa o ato da escrita de um modo muito particular. 

 

“Ler implica prever, esperar. Prever o fim da frase, a frase seguinte, a outra página; esperar que elas confirmem ou infirmem essas previsões; a leitura se compõe de uma quantidade de hipóteses, de sonhos seguidos de despertar, de esperanças e deceções; os leitores estão sempre adiante da frase que leem, num futuro apenas provável, eu em parte se desmorona e em parte se consolida à medida que a leitura progride, um futuro que recua de uma página a outra e forma o horizonte móvel do objeto literário”, diz-nos Sarte.

 

A este processo Sartre denomina a «Dialética da Leitura».

 

Para Lúcia de Carvalho “Cada página a ser lida já possui uma proposta de caminho a se traçar, o caminho projetado pelo escritor, mas que ainda não é de pleno conhecimento do leitor em seu ato de leitura. Apenas posteriormente o leitor possuirá uma visão de todo o seu objeto, que a cada instante é resignificado a partir da expectativa do  [também] ‘projeto’ do leitor e do estabelecido pelo projeto do escritor”.

 

E, neste sentido, uma obra de arte só é uma «obra» como tal na medida em que “o escritor apela à liberdade do leitor para que esta colabore na produção de sua obra”.

 

Nas palavras de Lúcia de Carvalho, Sartre designa a leitura como um exercício de generosidade. Uma generosidade que parte do leitor em relação à obra e ao projeto do escritor, de um leitor que compromete a sua liberdade e doa a sua subjetividade para um projeto que lhe é alheio.

 

E a autora conclui: “Embora a liberdade do indivíduo ainda experimente suas delimitações (não  limitações) nas relações intersubjetivas, o conflito com o intuito de dominação não mais  se faz presente neste contexto literário, uma vez que a objetivação pretendida tem dependência mútua dos sujeitos”.

 

Ou seja, sem partilha das diferentes subjetividades e sem alteridade, não há verdadeira obra de arte.

 

Na senda de Elank Lewer, que o escritor que nos apresentou este texto («Poema infinito»), tenha muitos leitores fazendo o seu contexto, ou ainda, nas palavras de Roland Barth, em «Fragmentos de um discurso amoroso» que a linguagem do «Poema»  seja uma pele em que: “esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras".

Da ponta das palavras de J. Madureira:

“(…) Dizes: a beleza não existe. A beleza é pretérito. A beleza é sempre o instante que já passou. Sentimo-nos como os sons interrogativos de um fagote. Agora a morte vive nas aldeias abandonadas. A alma é exterior ao espanto. Aqui a escuridão é viva. E o ruído calamitoso do abandono ouve-se nas galáxias próximas dos teus olhos. São agora outra fisionomia dos corpos. A inocência atroz do passado é atualmente um sítio imóvel. Dizes gesticulando as palavras: ouves o grito dos mortos? Ao nosso lado a sombra da noite cobre a sombra da própria sombra. Sinto-me a atravessar o inferno”. Poema Infinito, poema «O passado apressado do silêncio»”,

 

a leitura saída da ponta dos nossos dedos, em jeito de imagem:

2019.- Hórreos de Congostro (51b)

É esta  imagem, tirada anteontem, de uma casa de uma aldeia galega, igual a tantas outras espalhadas pelo nosso rincão português transmontano, e não só, onde imperam sombras, noites sem fim... à espera da morte, fazendo-nos acreditar em outros «infernos», mercê da nossa incúria e falta de visão de encarar o futuro de todos nós, e que constantemente criamos, que aquele excerto do poema nos sugere.

 

nona

28
Nov19

Por terras da Gallaecia - A Carvalla da Rocha - A Saínza - Rairiz de Veiga

andanhos

 

POR TERRAS DA GALLAECIA

 

A CARVALLA DA ROCHA

 

(A SAÍNZA – RAIRIZ DE VEIGA)

 

 

01.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (28)

 

A.1.- CARACTERÍSTICAS DO QUERCUS ROBUR L.,

SEGUNDO O CARTAZ AFIXADO NAS PROXIMIDADES DA «CARVALLA DA ROCHA»

 

O carvalho Quercus robur L.,  ou Quercus pendunculata Ehrh, é uma árvores robusta, de porte majestoso, podendo superar os 40 metros de altura. Possui copa ampla, redondeada ou irregular e é de folha caduca.02.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (84)

Tem o tronco direito, curto e muito grosso nos exemplares isolados, com ramas grossas e algo tortuosas. Possui casca grisácea ou esbranquiçada, muito rachada e de tonalidade parda nos exemplares mais velhos.

01b.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (66)

Possui folhas grandes, simples, em disposição alternada, com estípulas alongadas que caiem muito cedo. São lampinhas pelas duas faces, de cor verde intensa pelo feixe e mais pálidas, com nervos bem marcados pela parte inferior. A sua forma é ovalada, com pecíolo muito curto (2 a 7 mm), com bordo mais ou menos profundamente lobulado, desiguais e redondeados, medindo uns 6 a 12 cm de comprimento por uns 3 a 6 cm de largura.

04.- 28814

Têm flores masculinas em amentos suspensos, verde-amarelados, que nascem solitários ou em grupos de raminhos do ano anterior.

28807

As sua bolotas são suspensas sobre um longo pedúnculo, ovado, com carapaça ou cascavilho de escamas quase planas, «empizarradas».

05a.- 28802

O nome específico «Linneo» para esta espécie de Robur era já utilizado pelos romanos, ao designarem os carvalhos e a qualquer tipo de madeira dura e de grande solidez.

 

A madeira deste carvalho é de cor pardo-leonado, muito dura, de grão fino, com anéis de crescimento bem marcados, bastante pesada e muito resistente à podridão, mesmo que debaixo de água.

 

O uso da sua madeira para tonéis e barricas de vinho ou licores é muito antiga. Também é utilizada a sua madeira para a construção de barcos e produção de carvão

 

Trata-se de uma árvore com longa vida. Alguns exemplares podem superar mais de mil anos.

 

Floresce muito tarde, por volta dos 40 a 50 anos.

 

Os seus nomes comuns são: carvalho-alvarinho, carvalho-comum, carvalho-roble, carvalheira, roble- alvarinho, alvarinho.

 

 

A.2.- CARACTERÍSTICAS DO QUERCUS ROBUR L.,

SEGUNDO O JARDIM BOTÂNICO DA UTAD (UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO)

 

Distribuição geral: Esta espécie ocupa uma extensa área na Europa, com especial relevo ao Norte e uma parte da região mediterrânica. Apresenta, contudo, alguma tendência à hibridação com outras espécies do mesmo género, o que dificulta o estabelecimento claro das suas áreas de distribuição.

 

Caracterização geral: No Inverno tolera baixas temperaturas e geadas tardias de certa intensidade. Abunda essencialmente em zonas de vales.

06a.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (19)

 Necessita geralmente de climas de tendência atlântica com um mínimo de precipitação anual de 600 mm, não tolerando secas estivais fortes (requer um mínimo de 150 mm de precipitação estival). É considerada uma espécie de luz. Tolera solos pesados e argilosos, inclusive com um certo encharcamento estacional. É uma espécie plástica quanto ao pH do solo, desde que haja algum fundo de fertilidade. Possui uma boa capacidade regenerativa por semente (apesar de irregular), ainda melhor por cepa, não rebentando ou rebentando mal de raiz. Inicia a frutificação aos 35-40 anos e regista safra e contrassafra.

 

Pode alcançar os 30-35 m de altura.

07.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (89)

Apresenta uma copa ampla e globosa, não muito densa.

08.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (50)

O fuste é regular nas formas, ausente de ramificações,

09.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (27)

chegando a atingir grandes diâmetros. O sistema radicular é forte e profundo com raiz principal pivotante e secundárias extensas.

10.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (61)

O crescimento é lento nas primeiras idades, e tem tendência a aumentar ligeiramente. Desenvolve produtividades de 4 a 6 m3/ha/ano. Poderá alcançar 500 a 600 anos de idade e já foram encontrados exemplares milenares. A regeneração é muito abundante e fácil de obter por via seminal. Frutifica a partir dos 25-30 anos e com abundância a partir dos 50 anos. Rebenta bem e vigorosamente por cepa, mesmo após um incêndio. Não rebenta de raiz.

 

Propriedades e utilizações: A madeira apresenta borne de cor branco amarelado, enquanto o cerne é mais escuro. Apresenta grão fino ou medianamente fino. O cerne é bastante resistente à intempérie, ao ataque de fungos de podridão e de insetos (salvo as térmitas), enquanto o borne é sensível. É uma madeira pouco estável e seca lentamente, pelo que, necessita de uma secagem ao ar ou artificial muito cuidadosa, de modo a evitar deformações e fendas. Regista uma grande duração dentro e fora de água. Em geral, o lenho é de muito boa qualidade quando a árvore foi bem conduzida. Utiliza se em marcenaria, revestimentos de excelência para a construção, tanoaria, folheados, soalhos e utensílios diversos, sendo também um combustível de excelente qualidade. A espécie tem interesse na proteção contra incêndios, sendo utilizada para compartimentação, essencialmente de resinosas.

 

Apresenta-se a Ficha desta espécie.

 

 

A.3.- CARACTERÍSTICAS DO QUERCUS ROBUR L.,

SEGUNDO  O SÍTIO DA WEB DA FUNDAÇÃO SERRALVES (PORTO)

 

Nome Comum: carvalho-alvarinho, carvalho-comum, carvalho-roble, carvalheira, roble- alvarinho, alvarinho.

 

Origem: Europa e Ásia Ocidental. É espontânea no norte e centro de Portugal e também em zonas do litoral. É a espécie de carvalho mais abundante em toda a Europa.

 

Descrição: O carvalho-alvarinho é uma árvore de grande porte, podendo atingir 35 a 40 m de altura. Possui ramos vigorosos, é monoica e caducifólia. O tronco é grosso, a casca cinzento‑acastanhada, escurecendo com a idade, com sulcos longitudinais profundos. Folhas alternas, simples, glabras e verde-claras quando jovens, penatifendidas ou sinuado-lobadas, com os segmentos obtusos e pecíolo curto.

11.- 28810

Inflorescência em amentilhos, os masculinos agrupados, pendentes, de 5 a 13 cm de comprimento, cada flor com um perianto de 4 a 7 lóbulos e 6 a 12 estames. Amentos femininos em grupos de 2 a 3 flores, sobre um largo pedúnculo e com um invólucro escamoso. Fruto, glande ovoide‑cilíndrica (bolota), de 2 a 4 cm de comprimento, encerrada numa cúpula com escamas planas e imbricadas.

05.- 28801

Espécie fitófila de raízes profundas.

 

Habitat: Dominante em carvalhais e acompanhante em bosques caducifólios, marginando matagais e linhas de água, de preferência em regiões de clima temperado, em solos profundos e secos.

 

Aplicações: Ao carvalho-alvarinho são atribuídas propriedades adstringentes (contrai os tecidos, os capilares, os orifícios e tende a diminuir as secreções das mucosas), antissépticas (destrói os germes ou inibe o seu desenvolvimento, serve para desinfetar as feridas e certos órgãos), febrífugas (combate a febre) e tónicas (exerce uma ação fortificante e estimulante sobre o organismo, diminuindo a fadiga).

 

A sua madeira, de excelente qualidade, é utilizada no fabrico de mobiliário e na construção civil (vigas e traves). As bolotas são usadas na alimentação do gado suíno.

 

Observações: A área natural de Quercus robur é muito vasta abrangendo o norte de Portugal e praticamente toda a Europa, tendo como limite a nascente os Montes Urais, a norte a Noruega e Suécia, e a sul da Sicília. Outrora ocupava vastas extensões contínuas, que a cultura agrícola e os derrubes para o aproveitamento das suas madeiras de ótima qualidade e duração, vieram a reduzir drasticamente a sua área. No entanto ainda existem povoamentos de uma certa grandeza, pela sua extensão e qualidade da sua madeira, como seja a floresta de Slovana, na Jugoslávia, no vale do rio Save (afluente do rio Danúbio), situada em terrenos de aluvião de grande fertilidade. Em Portugal, o carvalho-alvarinho, abrange praticamente o norte litoral, desde o rio Minho até ao rio Mondego, incluindo assim na sua quase totalidade as bacias hidrográficas destes 2 rios. Normalmente esta espécie aparece em pequenos povoamentos ou núcleos, raramente constituindo matas duma certa extensão, como se verifica no Parque Nacional da Peneda Gerês em pelo menos 2 locais.

 

Os “bugalhos” que aparecem vulgarmente nos ramos e folhas do carvalho, são excrescências produzidos por um desenvolvimento anormal dos tecidos vegetais em pontos que sofreram a picada de certos insetos. A forma, tamanho, cor e a composição dos bugalhos variam não só de acordo com as espécies de árvores afetadas, mas também consoante o tipo de inseto que as provoca. Muitos bugalhos são ricos em taninos, substância usada na curtição do couro e no fabrico de certas tintas. Por essa razão, muitos são exportados industrialmente. É a espécie de carvalho mais abundante em toda a Europa.

 

O vale da Limia, na nossa vizinha Galiza, outrora estava repleto desta espécie, constituindo um enorme bosque, em articulação com a Lagoa de Antela, hoje completamente desaparecida, pela drenagem das suas águas para fins agrícolas, nomeadamente o plantio da batata. A par deste tipo de agricultura, destinada, a maior parte da produção para as grandes multinacionais da alimentação, também parte significativa desta riquíssima extensão de território fértil foi apropriado pelos areeiros para fazerem extração (ilegal) de areais para diversos fins, fundamentalmente, a construção civil.

 

Quem percorra este enorme território rural da Limia é confrontado com mais de 40 lagoas, de diferentes dimensões, lugar habitado pelas mais diversas espécies de aves, que aqui vivem, umas, e outras, nidificam. Estas lagoas artificiais são agora objeto de proteção pelas diferentes autoridades que, de uma maneira ou de outra, são responsáveis e superintendem neste território.

 

 

 

B.- A «CARVALLA DA ROCHA» OU A «CARVALLA DA SAÍNZA»

 

Mas foi para ver uma espécie destas – o Quercus róbur L. - que, andando pelas Terras de Limia, e pelas bandas do traçado da Via Nove (romana), que, ontem, o nosso amigo Pablo Serrano nos levou até às terras de Rairiz de Veiga, onde há mais de 30 anos ali tínhamos estado, nas festas do 24 de Setembro, festas patronais, que acolhe uma importante romaria -  uma das poucas recriações na Galiza das batalhas entre mouros e cristãos - o denominado “ataque” -, representado no Campo do Castelo, declarada Festa de Interesse Turístico.

 

Mas, naquela altura não fui ver a célebre «CARVALLA».  Nem dela se falou e onde habitava.

 

O amigo Pablo levou-nos lá.

11a.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (12)

A «Carvalla da Rocha» ou também chamada «Carvalla da Saínza» está situada na Freguesia de Rairiz de Veiga (San Xoán), lugar de  A Saínza de Arriba. [Coordenadas:42º 04' 19.3" N - 7º 49' 51.7" W].

13.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (23)

 A Saínza, pertence à comarca de A Limia (Ourense).

 

A «Carvalla da Rocha» foi declarada monumento natural pelo Decreto 45/2007.

2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (105)

É uma árvores da espécie Quercus robur L.

14.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (36)

É um elemento da natureza constituído por uma formação arbórea de notória singularidade e beleza que merece, por isso, ser objeto de uma proteção especial, reunindo especial interesse científico, cultural e paisagístico. Trata-se de uma das árvores mais esplêndidas integrada num  mosaico constituído por prados, sebes e carvalhos mais novos,

15.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (68)

com grande valor florístico – veja-se que, à sombra dos carvalhos, abrigam-se azevinhos.

 

É pertença de particulares.

16.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (92)

Diz-se que é uma árvores «linde», ao estabelecer o limite – ser marco - dos terrenos de três proprietários, outrora desavindos, quanto aos limites dos seus terrenos.

 

Apresenta um fuste impressionante com um perímetro que vai de 1, 30 m a 6, 9 m. Aos 7 m.

17.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (99)

bifurca-se em dois galhos (hastes) de grandes dimensões até alcançar a excecional altura de 33 metros.

18.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (21)

Além do seu interesse botânico, a árvore de A Saínza possui um notável valor cultural. As suas raízes fundem-se na história onde está plantada,

19.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (78)

perto da capela da Virgem das Mercês, e em memória das pessoas do lugar.

 

Foi uma tarde bem passada na companhia do amigo Pablo.

 

E ainda se tem dúvidas que estamos em terras celtas, possuidores de verdadeiro sangue celta?...

 

Mas, em bom abono da verdade, os nossos irmãos galegos são mais devotos destas árvores autóctones do que nós portugueses, transmontanos…

20.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (83)

A «CARVALLA DA ROCHA» - A SAÍNZA-RAIRIZ DE VEIGA (OURENSE-GALIZA)

 

24
Nov19

Reino Maravilhoso - Vale Abraão - um romance, um filme, uma história tendo como protagonista o Douro

andanhos

 

 

REINO MARAVILHOSO - DOURO

 

VALE ABRAÃO

 

UM ROMANCE, UM FILME, UMA HISTÓRIA TENDO COMO PROTAGONISTA O DOURO

 

 

Vale Abraão parte da adaptação ao cinema da obra homónima de Agustina Bessa-Luís,

por sua vez um exercício literário inspirado na "Madame Bovary" de Flaubert,

que Manoel de Oliveira transforma num filme deslumbrante e portentoso.

De novo envolvido com o universo literário de Agustina e, sobretudo,

mais uma vez construindo uma história de amores frustrados,

tema dominante em toda a sua obra, Oliveira assina uma obra

de uma beleza plástica fulgurante, de uma espantosa sensibilidade poética e,

ao mesmo tempo, de uma subtil e ácida ironia.

Narrando de forma absolutamente irresistível a trajetória amorosa de uma bela mulher,

 vítima dos seus incongruentes desejos e paixões, Vale Abraão é, sem dúvida,

o filme mais ambicioso, deslumbrante e admirável do mestre Oliveira,

onde Leonor Silveira, a sua atriz emblemática, é simplesmente portentosa,

à cabeça de um grande elenco que conta com Luís Miguel Cintra, Rui de Carvalho,

Diogo Dória e João Perry. "Vale Abraão" é um dos mais importantes filmes

de toda a História do cinema português, que muito justamente os

"Cahiérs du Cinéma" consideraram como "um dos mais belos filmes do Mundo".

 

Fonte:- https://www.rtp.pt/programa/tv/p4555, acessado a 10 de novembro 2019)

 

 

00.-NOC4437

Somos verdadeiro amante da obra ficcional de Agustina Bessa-Luís e da fílmica, de Manoel de Oliveira.

 

Logo após a morte de Manoel de Oliveira, ocorrida a 2 de abril de 2015, tínhamos como projeto a elaboração de um post sobre a sua obra, em especial «Vale Abraão», rodada em pleno coração do Douro, sendo, talvez por esta circunstância, a que mais nos toca.

 

Por isso, em 2016, sendo amante da fotografia, procurámos averiguar e captar os locais que serviram de cenário às diferentes «ações» deste filme.

 

Circunstâncias várias não permitiram que, naquela ocasião, o post fosse editado.

 

No ano em que faleceu (3 de junho de 2019) a autora da obra literária «Vale Abraão», obra essa encomendada por Manoel de Oliveira à sua grande amiga para o orientar no guião do filme que também levou o mesmo nome, não podíamos deixar, finalmente, de publicar esse post.

 

São muitos e variados os autores que falam nestas duas verdadeiras obras de arte, desde artigos, entrevistas e até dissertações académicas.

 

Pela nossa parte, «apegámo-nos» a dois textos, cujos excertos aqui vamos deixar à leitura e consideração crítica dos nossos(as) leitores(as).

 

I

 

As incertezas do tempo

 

O primeiro é de Marco Livramento - «Vale Abraão: entre as incertezas dos tempos», que saiu na revista eletrônica de crítica e teoria de literaturas - Nau Literária. Dossiê: o romance português e o mundo contemporâneo PPG-LET-UFRGS – Porto Alegre – Vol. 05 N. 02 – jul/dez 2009.

 

Atentemo-nos no que este autor nos diz:

“O enredo que dá forma ao filme de Manoel de Oliveira em pouco difere daquele que constitui o romance de Agustina Bessa-Luís. [O que se torna compreensível, uma vez que a obra foi «encomendada» por Manoel de Oliveira para o seu filme homónimo]. Em ambos temos uma figura feminina central, Ema, cuja evolução psicológica constitui a linha orientadora do desenrolar da ação, possuindo ela uma beleza invulgar e ao mesmo tempo ameaçadora. Sem amor, casou com Carlos Paiva, médico incompetente e viúvo tristonho. Tiveram duas (e um filho, isto no romance) filhas, Lolota e Luisona, e não foram felizes.

É em torno do casal, com especial destaque para o seu elemento feminino, ou não fosse esta a predileção tanto de Agustina como de Manoel de Oliveira, que giram as outras personagens do enredo, estabelecendo sempre uma relação antitética entre o homem e a  mulher, por sinal ‘muito difíceis de harmonizar’, e que medem forças, querendo, cada um, sair daí vencedor.   A Tia Augusta, as criadas, a Maria Semblano. Quase todas elas apresentam uma  perversão que as corrompe e que as leva a viver uma submissão hipócrita e fingida, por vezes  agressiva e desregrada, cujo exemplo poderá ser a própria Ema. Só Simona era diferente:  obedecia e permanecia em silêncio.

Em redor desta constelação feminina gravitam, muitas vezes isolados, os homens: o  pai, Paulino Cardeano; o próprio Carlos, um ‘pobre homem’; Pedro Dossém e Pedro  Lumiares, confidentes de Ema; Fernando Osório, o grande amante; Nelson, o primeiro ‘poeta’  da ‘Bovarinha’; Fortunado, o jovem quase-mulher que foi seu amante; Caires, o mordomo  que quis passar a senhor; Semblano, um homem com muitas semelhanças com Ema, no que toca ao comportamento. 

Unem-se na mediocridade e no egoísmo. Passam de página para página do romance, andam para a frente e a para trás, ao sabor da intenção da autora; ou, seguindo a hierarquia temporal do passado, presente e futuro, imposta por Oliveira, ocupam o seu espaço no filme. 

 

(…)

 

“Diz-nos a própria Agustina, numa entrevista dada ao jornal Público, em relação ao espaço de Vale Abraão: ‘Ele [Manoel de Oliveira] queria situá-la [Ema, a bovarinha  portuguesa] no Porto, mas achei que era mais difícil. Porque na vida citadina atual é  inverosímil encontrar uma figura dessas, enquanto na nossa província ainda aguentava. Hoje  já não sei. Ele aceitou bem a minha sugestão’.

Se o romance se inicia com uma explicação da toponímia, o filme não é muito  diferente, porém, desta feita com imagens do rio que separa as margens e as vidas: ‘É o Vale  Abraão, com suas quintas e lugares de sombra que parecem acentuar a memória dum trânsito mourisco que de Granada trazia as mercadorias do Oriente (...)’, servindo de guarida a Carlos Paiva.

Associado que está à presença moçárabe na região, o vale transformar-se-ia, pela lenda, num lugar de reputação duvidosa, em parte pelo comportamento condenável de Abraão de Paiva: 

 

No Vale Abraão, lugar dum homem chamado inutilmente à consciência do seu orgulho, da vergonha, da cólera, passavam-se coisas que pertenciam ao mundo dos sonhos, o mundo mais hipócrita que há. O patriarca Abraão tinha um costume arcaico: o de usar a beleza da mulher, Sara, como solução das suas dificuldades. Para isso intitulava-a sua irmã, o que lhe deixava caminho para o desejo dos outros homens”.

 

Estas são as palavras iniciais, em voz off, o narrador, com que o filme começa, enquanto, com o rio, ouvimos o som de um comboio chiando pelos carris, percorrendo a paisagem tipicamente duriense.

 

“O trágico que poderá vir a acontecer vai sendo sugerido ao longo do texto, para que no final não fiquemos surpreendidos com morte da heroína nem tenhamos qualquer dificuldade em lidar com a morte do próprio Carlos. Ele não sobrevivia sem uma figura feminina que o suportasse, que o ajudasse a manter-se de pé. 

Note-se que poderemos até dizer que este romance de Agustina Bessa-Luís tem o seu quinhão de social, já que motivos como a incompatibilidade entre homens e mulheres, (…) e a presença de uma burguesia rural absurda e falida salpicam uma região cujas casas e grandes propriedades caem em ruínas a cada fracasso da colheita que se lhes soma.

Podemos até duvidar se cenários como este existem num Portugal coevo da publicação do livro e até do filme. Mas se dúvidas pudessem existir, é o narrador omnisciente que as vem esclarecer, opinando sobre o comportamento de Ema: ‘Dirão os leitores que uma mulher como Ema não existe. Eu direi que sim’.

Repare-se que este não é um narrador qualquer, é, sim, um narrador que cita as palavras das personagens, confundindo-as com as suas, penetra-lhes nos pensamentos, ou não fosse tão comum e frequente o uso do discurso indireto livre ou do mimetismo do discurso direto, em diálogos que ostentam um artificialismo socrático bastante evidente.

Tanto a história do romance como a do filme estão imbuídas de um erotismo sagaz e quase diabólico, que, de resto, era o que se poderia esperar de uma senhora como Ema. Para a autora do romance, as mulheres são seres muito poderosos, com quem se deve ter todo o cuidado. Essa mesma opinião, atribui-a à tia Augusta: 

 

Tia Augusta disse que as mulheres não liam livros. Não era coisa que lhes interessasse, e isto não as diminuía em nada. Eram muito poderosas mesmo sem ler o Amadis de Gaula e o Rolando Furioso que, no entanto, amavam senhoras sem letras e sem latim nenhum.

 (…)

Apesar da proteção do pai e das criadas, Ema não podia escapar ao insucesso, pois ‘uma mulher ao ser engendrada no ventre da mãe, está já marcada para o insucesso’. O casamento com Carlos Paiva não foi feliz, acabando ela por se refugiar nos braços dos amantes que lhe satisfaziam os desejos carnais e pouco mais do que isso. E era com hora marcada, qual expediente de trabalho, que ela se encontrava com os ditos. Nada de extraordinário acontecia.

Mas nesta história, tudo tem a sua razão de ser e de existir. Nada surge ao acaso. As complexas relações de causalidade entre o passado e o presente, e entre este e o futuro, apenas dão vazão ao determinismo que marca muitas das figuras do romance (em primeiro lugar) e do filme (logo depois e por consequência, digamos), com particular destaque para Ema:

‘Nada do que me possa acontecer me modifica, porque eu já esperava’.  Os passos dados em falso por esta personagem haviam de lhe sair caros. Foi no Baile das Jacas que começou a deslizar pela falésia do fim, acabando afogada na água de um rio que, desde miúda, se habituou a olhar pelo binóculo, depois de outro passo em falso dado nas tábuas de um pontão que o tempo foi apodrecendo. Fatalidade? Destino? Suicídio? Talvez, tudo é possível nesta história. 

Tudo gira, pois, em torno de uma mal casada (e mal-amada, por sinal) que vivia na obsessão de alcançar algo, servindo-se dos outros para ‘resolver a sua angústia de querer possuir, querer ser, querer valer’ que a sua dupla personalidade lhe causava.

Enquanto isso, Carlos, seu marido, que ‘passava por santo ou, pelo menos, pelo cornudo mais simpático e prestável que era possível conceber’, ia vivendo os restos de uma vida inóspita e infeliz.

A nós, leitores e espectadores, cabe-nos a tarefa de encontrarmos o fio condutor desta história, e ir de o ir ligando às pontas soltas que nos surgem pelo caminho. Dando dois passos em frente e um atrás, seguimos a um ritmo lento, na ânsia de tudo assimilarmos, atribuindo parentescos, firmando uma rede de relações proximais que são a chave de todo o enigma narrativo e que nos reenviam para um tempo ancestral, onde o abismo do passado molda comportamentos. Temos, pois, Agustina Bessa-Luís e Manoel de Oliveira numa simbiose programada e perfeita”. 

 

É no cenário vinhateiro do Douro, entre o Romesal (Aris, Godim), onde se localiza a casa de Paulino Cardeano, pai de Ema, o Vale Abraão (Quinta e Paço de Monsul), onde se localiza a casa de Carlos Paiva, marido de Ema, o Vale Abraão (hoje Six Senses) propriamente dito, e no romance e filme, a Quinta e Casa da Caverneira, do casal Semblano, da Casa das Jacas (Quinta da Pacheca), de Pedro Lumiares e Simona e o Vesúvio, por vezes  apresentados ao leitor com um tom marcadamente disfórico, claustrofóbico e provinciano,  que as personagens se movimentam. 

 

II

 

Os principais cenários do filme

 

Apresentemos estes lugares-cenário:

 

A.- Romesal

 

Romesal é um lugar fictício na obra de Agustina, que não o lugar de Romesal da freguesia de Loureiro, concelho do Peso da Régua. Já para Manoel de Oliveira, no seu filme, o Romesal é Aris, lugar da freguesia de Godim, Peso da Régua. Vejamos o entorno do Romesal do filme de Manoel de Oliveira.

01.- 2016 - Douro III - Aris-Casa Paulino Cardeano (5)

Nem deste Romesal, nem do ficcionada de Agustina, não se avista o rio Douro, nem tão pouco no aqui tratado Vale de Abraão. Para se o avistar, há que andar uma boa centena de metros por este caminho.

02.- 2016 - Douro III - Aris-Casa Paulino Cardeano (6)

A casa do filme de Manoel de Oliveira, do Paulino Cardeano, é esta,

03.- 2016 - Douro III - Aris-Casa Paulino Cardeano (4)

vista, ao longe, do já aludido caminho vicinal e vista de perto,

04.- 2016 - Douro III - Aris-Casa Paulino Cardeano (3)

com este portão de entrada – que só em momentos solenes se abria -  e

05.- 2016 - Douro III - Aris-Casa Paulino Cardeano (2)

esta perspetiva lateral.

06.- 2016 - Douro III - Aris-Casa Paulino Cardeano (1)

Do lado esquerdo da casa do Paulino Cardeano, a célebre varanda, onde Ema se exibia, provocando, com a sua beleza «provocatória», para quem ali passava, acidentes de viação no local. 

07.- 2016 - Douro III - Aris-Casa Paulino Cardeano (7)

Do lado direito, contíguo a um caminho público ou rampa, ficava uma casa pertença de Agustina Bessa-Luís, hoje já vendida a um empreiteiro da zona. Não sabemos se a contiguidade ou vizinhança da casa de Agustina Bessa-Luís ditou a escolha fílmica da casa do Paulino Cardeano por parte de Manoel de Oliveira.

 

B.- Solar do Viso

 

Estavamos a acabar este capítulo do post e, inopinadamente, lembrámo-nos que um dos cenários do filme não estava aqui a ser comtemplado. A razão de tal esquecimento também se justificava - apenas aparece uma vez no filme, ao longo daquelas sequencias todas de cenários e «ações».

 

Assim, numa tarde chuvosa deste mês de novembro porque passamos, dirigimo-nos até aquele local para obtermos algumas imagens para constarem «neste escrito» para memória futura.

 

É a Casa das irmãs Melos, que passavam o inverno em Cascais e que, no verão, vinham dar «saltadela» ao seu solar - o do Viso - ao Douro. Foi naquele salão nobre, enorme, com duas figuras estáticas, sentadas, numa das pontas do salão, amedrontando a adolescente Ema, que se apresentava a uma das famílias da sociedade nobre/burguesa duriense.

 

Temos gratas recordações desta Casa, palco de um evento importante da nossa vida. E a ideia que tínhamos do salão, onde Ema foi recebida pelas irmãs Melos,  era mais acolhedora, como esta,

04.- hotel-pousada-solar-da-rede-mesao-frio-zonasnobles-cdb30 (1)

e não o frio salão, que o filme nos mostra, e em que Ema foi recebida, embora ricamente ornado com belos azulejos, bons móveis e belas tapeçarias.

 

Trata-se do atual Solar da Rede,  sito no concelho de Mesão Frio, em pleno Baixo Corgo.

2019.- Solar da Rede (4)

De uma casa de família e depois transformada numa Pousada de luxo, de alto gabarito, possuidora de um importante brasão na sua frontaria principal,

2019.- Solar da Rede (7)

encerra em 2012.

 

Hoje em dia, encontra-se praticamente abandonada, sem «inquilinos», quer de natureza familiar ou turística.

2019.- Solar da Rede (11)

Repare-se no tanque na fachada principal, com bidons de água e barricas com azeitonas, recém-apanhadas, à face de uma construção em bonito estilo barroco, como mostra os pilares do portão da entrada para a Casa e seu logradouro,

2019.- Solar da Rede (15)

bem assim o pormenor de um dos seus pilares, trabalhado primorosamente.

2019.- Solar da Rede (16)

Do lagradouro da Casa, à nossa esquerda, vislumbra-se este magnífico panorâma, tendo como pano de fundo o rio Douro.

2019.- Solar da Rede (21)

E, do seu lado direito, idêntica e maravilhosa paisagem,

2019.- Solar da Rede (20)

com o omnipresente Douro e os seus infindáveis jardins em socalcos, repletos de vinhedos.

 

C.- Vale Abraão

 

O Vale Abraão, casa de Carlos Paiva, o marido de Ema, situa-se do outro lado do rio, já no concelho de Lamego, na designada Quinta e Paço de Monsul.

 

Fomos visitar o lugar, entrando por um portal não muito largo, mas que dá bem acesso a uma viatura, deslocando-nos por entre um bonito vinhedo, em que não faltam ruas com nomes próprios.

 

Vejamos uma perspetiva do nosso percurso para chegarmos à casa Vale Abraão.

08.- Paço de Monsul (29a)

A meio da subida para a casa, uma alameda de palmeiras.

09.- Paço de Monsul (30)

Vejamo-la, uma vez percorrida, já no cimo.

10.- Paço de Monsul (33)

Reparemos mais em pormenor.

11.- Paço de Monsul (42)

Observemos, dos arredores da casa de Carlos Paiva – o Paço de Monsul – o entorno, com os socalcos de vinhedo, as aldeias e as casas à sua volta.

12.- Paço de Monsul (42a)

(Perspetiva I)

13.- Paço de Monsul (43)

(Perspetiva II - com a silhueta dos prédios mais altos da cidade da Régua por detrás e a encosta de Loureiro)

14.- Paço de Monsul (44)

(Perspetiva III -  território próximo, de Lamego, e mais longínquo, da Régua, separados pelo rio Douro, que não se vê)

15.- Paço de Monsul (46)

(Perspetiva IV)

16.- Paço de Monsul (49)

(Perspetiva V)

17.- Paço de Monsul (45)

(Perspetiva VI – confinante com o Paço de Monsul, a Casa da Azenha)

18.- Paço de Monsul (29)

(Perspetiva VII)

19.- Paço de Monsul (47)

(Perspetiva VIII – já dentro da Quinta e da Casa de Monsul ou , no filme, Vale Abraão, casa de Carlos)

Ao atravessarmos o portão que dá acesso ao logradouro do Paço, à nossa esquerda, a capela, que foi palco do casamento de Carlos Paiva e Ema.

20.- Paço de Monsul (28)

A caseira, que nos facultou a entrada ao logradouro da casa, teve a amabilidade de nos mostrar o interior desta seiscentista capela.

21.- Paço de Monsul (28c)

(Perspetiva I)

22.- Paço de Monsul

(Perspetiva II)

Mal entrámos ao logradouro, o que mais se destaca é este tanque.

23.- Paço de Monsul (9d)

Num outro, de cimento e ao lado, tanto a Ritinha lavou!

 

E no tanque, este antigo fontenário.

24.- Paço de Monsul (8)

Veja-se agora o logradouro, do lado oposto à entrada,

25.- Paço de Monsul (7a)

o portal de acesso para o laranjal e horta,

26.- Paço de Monsul (10a)

um aspeto do lado lateral da casa

27.- Paço de Monsul (12b)

e outro das traseiras.

28.- Paço de Monsul (48)

E, finalmente, o exterior da casa.

29.- Paço de Monsul (9f)

 

D.-  A Quinta e Casa da Caverneira, dos Semblamos  - hoje Six Senses – o antigo Vale Abraão

 

A antiga Casa e Quinta «Vale Abraão», agora uma unidade hoteleira com renome internacional: de Casa e Quinta Vale Abraão, a Aquanatura e, agora, Six Senses, era dos Semblamos, onde imperava a figura de Maria (Loreto) Semblano.

 

São poucas as «ações» do filme que ali se desenrolaram, mesmo assim, apresentam-se algumas perspetivas exteriores desta hoje unidade hoteleira de requinte e renome.

30.- NOC1225

(Perspetiva I)

31.- NOC1231

(Perspetiva II)

32.- NOC1221

(Perspetiva III)

33.- NOC1242

(Perspetiva IV – vista do cimo da propriedade, tendo como pano de fundo o rio Douro e a cidade da Régua)

34.- NOC1162

(Perspetiva V – tendo à frente o rio Douro e, na margem direita, a linha de Caminho de Ferro do Douro)

35.- Paço de Monsul (5)

(Perspetiva VI – vista da margem direita, de quem desce Cederma, vindo de Fontelas)

 

E.- Casa das Jacas

 

É a casa de Pedro Lumiares e de Simona, onde acontece o evento que dá pelo nome de Baile das Jacas.

 

O cenário passa-se, nada mais nada menos do que na atual Casa e Quinta da Pacheca. Começamos por vê-la à noite, com o seu logradouro servindo de estacionamento para carros da época 90 do século passado.

35a.- 2019.- Anos Angélica (Quinta da Pacheca) (21)

De dia, é assim.

36.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (83)

(Perspetiva I)

37.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (85)

(Perspetiva II)

38.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (107)

(Um pormenor de uma janela da casa)

39.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (103)

(Uma outra dependência)

Foi nesta casa, como dependência principal que a maior parte dos diálogos («filosóficos» e existenciais) entre Lumiares e Ema se deram.

 

Por uma questão de curiosidade – passe embora a propaganda – mostra-se perspetivas da atual receção.

40.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (109)

Do restaurante,

41.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (118)

um pormenor das escadas de acesso ao restaurante,

42.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (111)

o hall de acesso ao restaurante e à e zona de alojamento,

43.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (114)

com mais um pormenor, no fim do seu corredor.

44.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (119)

Existem hoje, como zona de alojamento, no vinhedo contíguo à casa, as célebres pipas.

44a.- 2019.- Anos Angélica (Quinta da Pacheca) (3)

E, como se trata de uma quinta, onde se produz vinho, do fino e do consumo, não pode, naturalmente, faltar o armazém com os seu tonéis.

45.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (82)

Numa época em que o turismo impera por toda a região do Alto Douro Vinhateiro, este mesmo armazém é palco de eventos, essencialmente de natureza gastronómica.

45a.- 2019.- Anos Angélica (Quinta da Pacheca) (17)

 

F.- Vesúvio

 

Apresentemos agora um dos lugares mais emblemáticos do Douro, da ficção agostiniana e do filme.

46.- DSCF3672

Por ser o palco, lugar da maior parte dos encontros amorosos de Ema, primeiro, com Fernando Osório, dono do Vesúvio

47.- DSCF3683

e tetraneto da Senhora,

47a. Antónia_Adelaide_Ferreira_1

(Fonte:- https://de.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nia_Ferreira)

depois de Fortunato, sobrinho de Caires, o mordomo, o verdadeiro gestor da Casa,

48.- DSCF3685

a quem Ema não lhe era indiferente, tornando-se-lhe objeto de cobiça sensual e erótica por todas as dependências da Casa por onde passava e estava.

49.- DSCF3706

Em prolongada projeção, desde o lado da Senhora da Ribeira, do outro lado do rio,

50.- DSCF3716

a silhueta da Casa, com a sua capela,

51.- DSCF3698

Impõem-se imponentemente na paisagem,

52.- NOC4396

qual vulcão, fértil de uvas e despertador dos mais profundos sentimentos e prazeres.

53.- NOC4414

Mas o Vesúvio, com o seu rio de águas profundas,

54.- DSCF3654

ao mesmo tempo que representa a natureza e os sentimentos humanos no seu estado mais puro, foi, por sua vez, o palco final de um ser humano à procura de si mesmo, e que nunca se encontrou.

 

Foi o seu ocaso.

55- DSCF3728

 

III

 

 

A busca do absoluto no filme Vale Abraão, de Manoel de Oliveira

 

Diz-nos a Mestre Célia Maria Sousa Lopes na sua dissertação «O Bovarismo ou a busca do absoluto no filme Vale Abraão de Manoel de Oliveira», em dezembro de 2010:

“A busca do absoluto em Vale Abraão não é senão o ‘estado de alma em balouço’ com que a própria Ema se define. Se o bovarismo se caracteriza pelo desejo de se querer ser outra coisa que não se é e se as Emmas Bovary, nas adaptações em análise, sonhavam com amor e beleza, meios de aceder a uma plenitude, esta Ema tem, desde logo, esse acesso vedado. Primeiro, marcada pelo defeito físico que vai corromper a sua beleza e vai condicionar todo o seu comportamento; depois, o desejo de amor confundido com a multiplicação de amantes. Esse desejo de se identificar com um outro, característica universal, é inerente à condição humana. O bovarismo não é senão o mal da civilização, a fragmentação do ser humano, a sua permanente insatisfação em busca da felicidade infinita, que o faz balançar constantemente entre o que é e o que quer ser, entre realidade e sonho. Impossibilitada de atingir o absoluto, pela beleza e pelo amor, Ema é uma mulher repleta de contradições, numa sociedade conservadora e decadente, admiradora do ‘desordenado e atrevido’. No seu ‘estado de alma em balouço’ está sempre pronta para voar mais alto, como indicam os planos da mosca e da estátua de Canova, dois objetos com asas que são explícitos do seu desejo de voar. Para Ema, ‘o desejo de se querer ser outra coisa’ será o desejo de querer ser o outro sexo, recusando a submissão à sociedade patriarcal, assumindo o comportamento de uma mulher mais liberal, por vezes de mulher-fatal e gradualmente adotando um comportamento masculinizado, o que a aproxima de um ser andrógino.(…) Ema é marcada desde a infância por uma deformidade, uma mutilação, que a faz balançar, primeiro fisicamente, transformando-se depois em desequilíbrio e fragmentação mais de pendor psicológico, confrontada numa divisão entre ser e parecer. Quando ela define a rosa ao vento, que é e deixa de ser, para ser mais qualquer coisa, a rosa não consegue ser esse terceiro elemento, essa mais qualquer coisa e, tal como a rosa, Ema também não consegue, por isso só lhe resta a morte, constituindo esta definição da rosa a síntese do filme:

 

Tão breve imagem da flor na sua haste, tocada pelo vento, e prestes a deixar cair as suas folhas. Porquê a rosa? Se em contacto com o vento ela deixa de ser rosa. Mas no balouçar já é, e logo deixa de o ser

 

Naquele contexto social, ‘ancorada’ no Vale Abraão – enigmático e repleto de secretismos e de cumplicidades - incompreendida e inadaptada, Ema vai assumir uma postura teatral, vai dissimular. À medida que se vai movimentando nos lugares das casas labirínticas e algo sinistras e se vai aproximando do universo masculino, Ema vai ganhando maior determinação. A distância e a desconfiança com que é olhada e com que olha os que a rodeiam são o resultado de uma beleza que atrai mas marginaliza, é perturbadora e é uma ameaça. O seu comportamento de «Bovarinha» e de figura andrógina contribuem para acentuar a sua marginalização e isolamento. Embora se verifique uma maior hostilidade no seu relacionamento com as mulheres, é com alguns elementos do universo feminino que Ema procura a identificação, nomeadamente com a Senhora do Vesúvio, com a Ritinha e com a própria mãe, mas serão modelos inalcançáveis. Os homens são demasiado fugazes, desaparecem rapidamente; as mulheres permanecem, até as ausentes, pelos retratos. E, de facto, no final são as mulheres que saem vitoriosas, que atingem o absoluto, cada uma à sua maneira: Maria Semblano pela dissimulação constante, pelo jogo social, o que a leva a dizer ‘ninguém imita melhor do que eu uma bela vida’; Ritinha, pela servidão, pela entrega total ao outro, para servir o outro e Ema pela morte. Na conceção conservadora da mulher – tanto da escritora como do cineasta – Ema só poderia ter este caminho: não quer ser nem boa filha, nem boa dona de casa, nem boa esposa, nem boa mãe, então só pode ser uma ‘vadia’ e ter um fim trágico. Para o Lumiares de Agustina Bessa-Luís: ‘Ema era uma pessoa comum em busca de situações incomuns, o que podia produzir uma bela tragédia’. A escritora reforça ainda a pouca importância de Ema, o seu vazio: ‘Condenada pela sua insignificância. Não era só pobretona, aleijada, mal vestida mas era sobretudo marcada pela insuficiência do desejo’.

 

Ritinha surge, assim, como uma figura chave no filme, pois ela é o absoluto. Ela é a mulher perfeita que sabe tudo como um deus, ‘o conhecimento entra-lhe pelos olhos’. Todas são personagens insatisfeitas e, por isso, em movimento (movimento hegeliano), com exceção de Ritinha, que é deus e sabe tudo, é o estado perfeito, é capaz de negar-se, optando pela virgindade por uma questão quase metafísica e não moral. Ela não precisa de ninguém, transcende isso tudo, não precisa do encontro com o homem, com a outra metade, para se realizar. A importância de Ritinha explica o facto de Manoel de Oliveira a ter poupado à morte, sobrevive à sua patroa, o que não se verifica na história de Agustina.  Em oposição à personagem Ritinha, temos Narciso, o jovem Semblano, apaixonado por si próprio, tal como sugere o seu nome. Caires, também uma personagem em movimento na passagem de homem pobre para homem rico, na tentativa vã de conquistar Ema, representa o lado negativo destas personagens, pois ajoelha-se perante ela. Caires transforma-se no oposto de tudo isto. (…)

 

 A procura do belo, do novo, como meio de acesso ao absoluto. Pela beleza da obra que cria, o artista aproxima-se de Deus, atinge uma transcendência. No entanto, Oliveira ironiza com a escrita de Maria Semblano. Quando esta está em confidências com Carlos e lhe revela que ‘escrever é dar expressão à vida e à sociedade em que vivemos’, o racord utilizado para passar para a cena seguinte - as confidências de Ema a Lumiares - é um plano aproximado do livro Le poète assassiné, de Appollinaire, o que deixa transparecer uma crítica à promissora escritora. A falta de identidade fixa contribui para uma identidade andrógina. A ambiguidade e a intromissão entre os géneros, observáveis desde a génese com Flaubert, são acentuadas pela reescrita de Agustina Bessa-Luís e pela transposição de Manoel de Oliveira. O cineasta sublinha a temática da androginia em diálogos explícitos sobre o assunto e nas caraterísticas e atitudes das personagens. Há também um conjunto de elementos ambivalentes, que remetem para uma dualidade e até uma triplicidade e que reforçam as marcas andróginas deste contexto.

 

Sendo os andróginos identificados como filhos da Lua, Ema é um ser lunar por excelência, cambaleando, ao ritmo dos “Clair de Lune”. E este balouçar é a marca da sua imperfeição, da sua insatisfação e dualidade: é e não é; quer e não quer, hesita entre o ser e o parecer (…) O seu final deixa transparecer que a libertação dos costumes não é saída e que, naquele contexto social, os sentimentos se identificam mais com mecanismos de poder e influências sociais. O amor era um tráfico e quando Ema é tratada como mercadoria pelo mordomo Caires que, após enriquecer no estrangeiro, a quer comprar, Ema descobre que não vai conseguir escapar aos códigos sociais vigentes, que a única saída para se libertar daquele contexto opressor é a morte. Na sua crise de identidade, Ema procura os mesmos gestos de Ritinha, quando lava o chão no Vesúvio, pretendendo talvez atingir o mesmo estado da sua criada – o absoluto – mas é um absoluto que implica entrega total ao outro, que implica a anulação, a submissão e Ema era uma personagem demasiado venerada, demasiado central para se submeter a essa anulação. A constante recusa de aproximação à Bovary, poderia eventualmente ter permitido a Ema uma outra saída para a sua condição, como sugere Jean Baptiste Renault:

À sa façon, le film reflète ainsi le questionnement d‟Ema, cherche comme elle à établir une filiation critique : Val Abraham exprimerait cette lutte entre la répétition d‟un drame – la fatalité d‟une condition, le drame d‟Ema qui peut toujours se rejouer – et la possibilité d‟une issue, le rêve d‟une émancipation – réécrire sa vie.

Ema conhecia o drama da Bovary, não se identificava com ele, mas fatalmente terminou como ela. No entanto, há uma diferença considerável nos dois finais. Ema Paiva não comete suicídio num gesto desesperado e tresloucado. Há nela uma tranquilidade perturbadora, de tão encantadora, no travelling final qua

15
Nov19

Memórias de um andarilho - Caminhada pelas Termas de Ourense - Capital Termal da Galiza

andanhos

 

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADA PELAS TERMAS DE OURENSE – CAPITAL TERMAL DA GALIZA

 

 

Já lá vão mais de 9 anos! Foi em 24 de abril. E os adolescentes que, em 2012 me acompanharam nesta caminhada de cerca de 5 Km – Edu e Tonho – hoje já são dois homens feitos!

 

Descrevamos sumariamente a pequena caminhada, atendendo mais ao encanto e beleza do que encontrámos por aqueles escassos cinco quilómetros, paralelos ao rio Minho.

 

Partimos das proximidades da Ponte Milenuium,

02.-  2012 - Ourense 02 197

seguindo a rota cujo mapa, que se mostra, nos indica.

03.- ruta-termal-en-ourense

Saindo debaixo do trilho da ponte, subimos até à rotunda. A perspetiva da Ponte Milenium, com o casario da cidade de Ourense, é deveras bonita.

04.- 2012 - Ourense 02 261

Na rotunda, com um interessante arranjo escultórico em ferro,

05.-  2012 - Ourense 02 249

Deparámos com esta bonita escultura – «Príamo e Tisbe – Amor da Juventude».

06.- 2012 - Ourense 02 256

Voltando ao trilho, iniciámos aqui verdadeiramente o trilho das Termas de Ourense, mesmo junto a esta obra de Acisclo Manzano - «Os Maios».

01.- 2012 - Ourense 02 264

E, logo de imediato, aparece-nos as primeiras Termas e Pozas da Chavasqueira.

07.- 2012 - Ourense 02 269

Aqui, em frente do rio Minho, mais uma obra de arte, em bronze fundido, também de Acisclo Manzano - «A Vénus do Minho», recebendo em seu regaço um casal.

08.- 2012 - Ourense 02 271

Prosseguindo sempre em caminho plano,

09.-  2012 - Ourense 02 279

não largando as margens do rio Minho, onde os corvos marinhos também tomam sol em cima de penedos,

10.- 2012 - Ourense 02 287

chegámos à Fonte do Tinteiro.

11.- 2012 - Ourense 02 288

(Perspetiva I)

12.- 2012 - Ourense 02 290

(Perspetiva II)

O rio Minho neste lugar encanta-nos com a sua água e a sua vegetação ripícola.

13.-  2012 - Ourense 02 301

Como se vê, o trilho está bem tratado, convidando os jovens a agradáveis passeios de bicicleta.

14.- 2012 - Ourense 02 296

Quase sem darmos conta, apreciando a paisagem do nosso entorno, falando da beleza desta paisagem, estávamos nas Termas ou Pozas do Moiño da Vega.

15.- 2012 - Ourense 02 306

Estas foram as que mais nos encantaram.

16.- 2012 - Ourense 02 310

Vale a pena fazer aqui uma ligeira paragem e apreciarmos bem o lugar.

17.- 2012 - Ourense 02 314

Estas termas fazem justiça ao seu lindo moinho que, por isso, lhe dá o nome.

18.- 2012 - Ourense 02 316

(Perspetiva I)

19.- 2012 - Ourense 02 321

(Perspetiva II)

Prosseguindo a nossa pequena caminhada, logo logo passávamos nas Termas de Outariz, no complexo termal,

20.- 2012 - Ourense 02 324

E seguindo caminho

21.- 2012 - Ourense 02 335

 até às Pozas de Outariz que tem nas suas proximidades a designada «passarela» de Outariz, que outra coisa não é senão uma ponte pedonal, facilitando a passagem para a outra margem do Minho.

22.- 2012 - Ourense 02 340

Aqui fizemos, nas Pozas de Outariz, uma longa pausa e fomos até uma das «pozas»,

23.- 2012 - Ourense 02 348

Tomando um banho e experimentar as suas águas «calientes».

24.- 2012 - Ourense 02 341

No relvado contíguo, descansámos um pouco e tomámos sol.

25.- 2012 - Ourense 02 343

Restabelecidos das forças pelo banho, junto à «passarela», fomos apreciar o rio Minho.

26.- 2012 - Ourense 02 349

Mas as termas ou «pozas» de Ourense não acabam aqui. Percorridos meia dúzia de metros, por debaixo da «passarela», temos as Termas do Canedo.

27.- 2012 - Ourense 02 354

(Perspetiva I)

28.- 2012 - Ourense 02 353

(Perspetiva II)

Despedindo-nos da «passarela» de Outariz,

29.- 2012 - Ourense 02 360

fomos até à para até à paragem do comboio turístico que, daqui, vão até ao centro da cidade de Ourense, mais propriamente até à sua Praça Maior.

 

Como se vê, o trilho é espetacular

30.- 2012 - Ourense 02 368

e, enquanto refastelados nos macios assentos do comboio turístico, dávamos mais uma olhadela para as «Pozas» ou Termas do Moiño da Vega,

31.- 2012 - Ourense 02 373

apreciávamos os parques-merendeiros bem tratados e asseados.

32.- 2012 - Ourense 02 378

Sem darmos por ela, encontrávamo-nos no cruzamento das Termas com as «Pozas» da Chavasqueira.

33.- 2012 - Ourense 02 382

O pessoal continuava na relva, tomando banhos de sol primaveril,

34.- 2012 - Ourense 02 386

Enquanto outros, na «poza», tomavam banho.

35.- 2012 - Ourense 02 388

Desta vez,  «A Vénus do Minho» estava esperando que alguém se fosse encostar no seu regaço.

36.- 2012 - Ourense 02 387

Passámos ao lado das Termas,

37.- 2012 - Ourense 02 389

ultrapassámos a escultura «Os Maios» e fomos ao encontro da Ponte Milenium, passando, uma vez mais por debaixo dela.

38.- 2012 - Ourense 02 396

(Perspetiva I)

39.- 2012 - Ourense 02 397

(Perspetiva II)

No rio Minho exibiam-se aos passantes duas lindas gaivotas brancas.

40.- 2012 - Ourense 02 400

E, neste percurso, não podia deixar de se exibir a célebre Ponte Vella, a românica.

41.- 2012 - Ourense 02 402

(Perspetiva I)

42.- 2012 - Ourense 02 413

(Perspetiva II)

Ao passarmos pelo Parque da Ribeira do Canedo,

43.- 2012 - Ourense 02 411

vislumbrámos, em primeiro plano, a Ponte Nova.

44.- 2012 - Ourense 02 414

E, passando ao lado do Parque Minho,

45.- 245.- 012 - Ourense 02 426

não nos ficou desapercebida a escultura do «Homem em pé»,

46.- 2012 - Ourense 02 424

um pombal, no meio do seu relvado, visto ao longe,

47.- 2012 - Ourense 02 431

e, fazendo um pouco de zoom à objetiva, aproximando-o de nós.

48.- 2012 - Ourense 02 435

Num pequeno lago, minúscula,

49.- 2012 - Ourense 02 437

a escultura, em bronze fundido, da «Sereia aleitando um filho».

50.- 2012 - Ourense 02 436

Do Parque Minho, mais uma perspetiva da Ponte Nova.

51.- 2012 - Ourense 02 443

Em pouco tempo chegávamos ao nosso destino – a Praça Maior, de Ourense, onde impera a sua Casa do Concello ou, como nós em Portugal dizemos, edifício da Câmara Municipal.

52.- 2012 - Ourense 02 590

O périplo das Termas de Ourense não ficaria completo se não fossemos as célebres Burgas (Fontes Romanas),

53.- 2012 - Ourense 02 544

onde aqui é bem visível a passagem dos romanos, nestas duas «aras».

54.- 2012 - Ourense 02 545

E o nosso passeio termal acabou aqui.

 

Deixamos agora aos(às) nossos(as) leitores(as) uma perspetiva ou vista das pontes da cidade de Ourense.

55.- 2012 - Ourense 02 668

 

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