Terça-feira, 2 de Novembro de 2010

RAÍZES - 3.- Rincão e lar da minha infância

Estes são os calços da minha infância.

É bem verdade o que Pina de Morais, já referido no post anterior, e na mesma obra, dizia: "O homem duriense, de boa cepa, mal descobre na ilharga de um monte, dois palmos de terra xistosa, sobranceira ao rio, que lhe pareça propícia ao fabrico de um ou dois geios, aí está ele com a pica e o ferro do monte a esfarelar, a erguer o socalco e a espetar no custoso degrau duas dúzias de bacelos, que serão o seu melhor cuidado, até à morte, como se fossem as mais finas roseiras da Pérsia".

E Sant'Anna Dionísio, ainda na mesma obra: "Olhando os vinhedos que recortam os flancos enormes até ao cimo, é difícil deixar de exclamar em silêncio: - «Quantas vidas!... ilusões... heranças! - estratificadas, em silêncio nesta obra grandiosa e anónima, ao mesmo tempo gigantesca e liliputiana, que se chama o vale vinhateiro do Douro! Quantos trabalhos e quantas jornas, anónimas e invisíveis!» (...) Os montes alcantilados parecem querer escalar os céus. Há neles algo de titânico. Fraguedos e mais fraguedos".

 

 

Ora, foi no intervalo do labor quotidiano da jorna na vinha, à sombra de uma figueira, entre calços de vinhedo, em tarde tórrida de Agosto que, com cinco anos, aprendi as primeiras letras com meu pai.

 

 

Com pouco mais de sete anos fui arrancado deste rincão da minha infância.

 

e, a cada passo, me dou a ler estas quadras de Casimiro Abreu:

 

Eis meu lar, minha casa, meus amores,

A terra onde nasci, meu tecto amigo,

A gruta, a sombra, a solidão, o rio

Onde o amor me nasceu – cresceu comigo.

 

Os mesmos campos que eu deixei criança,

Árvores novas … tanta flor no prado!...

Oh! Como és linda, minha terra d’alma,

- Noiva enfeitada para o seu noivado! –


Foi aqui, foi além, ali … mais longe,

Que eu sentei-me a chorar no fim do dia;

- Lá vejo o atalho que vai dar na várzea –

Lá o barranco por onde eu subia!...


Como eu me lembro dos meus dias puros!

Nada me esquece!... e esquecer quem há-de?...

- Cada pedra que eu apalpo, ou tronco ou folha,

Fala-me ainda dessa doce idade!


E ali … naquele canto … o berço armado!

E minha mana, tão gentil, dormindo!

E mamãe a contar-me histórias lindas

Quando eu chorava e a beijava rindo!

 

Oh! primavera! Oh! minha mãe querida!

Oh! mana! - anjinho que eu amei com ânsia –

Vinde ver-me, em soluços – de joelhos –

Beijando em choros este pó da infância!

 


 

 


publicado por andanhos às 23:43
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