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andanhos

13
Out18

Versejando com imagem - Carta, Mia Couto

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VERSEJANDO COM IMAGEM

 

CARTA

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Tenho demasiado sono para alimentar crenças.

Das casas vou preferindo os cantos interiores,

obsessivas sombras em que vou julgando.

Se me acerco  das janelas é apenas para ver o longe,

as ténues linhas do azul inatingível.

As portas, fechadas ou abertas, pouco valem.

Desfaleceram com o desencanto do caminho.

Vou ficando pela distracção de desejos mansos,

sem guardar réstia de glória nem consolo.

Assim, dou feriado à minha existência.

 

Sofro a fadiga das viagens que nunca ousei.

Mas não me dedico nenhum desalento.

Porque mantenho dos índios o preceito

de envolver com panos os cascos dos cavalos guerreiros.

Assim protejo a gravidez da terra.

Fica a esperança:

outros farão vencer as nossas pequenas razões.

Saberemos então do seu tamanho, da sua pressa de ser cedo.

 

De tanto pensarmos fomos ficando sós.

De amarmos venceremos o cerco dessa solidão.

Que este cansaço sirva, ao menos,

para não culparmos nada nem ninguém.

 

(Mia Couto)

21
Set18

Vesejando com imagem - Amor, de Hilda Hilst

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VERSEJANDO COM IMAGEM

 

AMOR

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Que este amor não me cegue nem me siga.

E de mim mesma nunca se aperceba.

Que me exclua de estar sendo perseguida

E do tormento

De só por ele me saber estar sendo.

Que o olhar não se perca nas tulipas

Pois formas tão perfeitas de beleza

Vêm do fulgor das trevas.

E o meu Senhor habita o rutilante escuro

De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente

E farta de fadigas.

E de fragilidades tantas

Eu me faça pequena.

E diminuta e tenra

Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

 

(Hilda Hilst)

30
Ago18

Versejando com imagem - Versos íntimos, de Augusto dos Santos

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VERSEJANDO COM IMAGEM

 

VERSOS ÍNTIMOS

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Vês?! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão - esta pantera -

Foi tua companheira inseparável!

 

Acostuma-te a lama que te espera!

O Homem que, nesta terra miserável,

Mora entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera

 

Toma um fósforo, acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro.

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

 

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga

Apedreja essa mão vil que te afaga.

Escarra nessa boca de que beija!

 

(Augusto dos Anjos)

 

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Este é um dos poemas mais conhecidos do poeta brasileiro paraibano, considerado um dos percursores do movimento simbolista no país. Seus versos são cheios de críticas ao egocentrismo da sociedade de seu tempo, e são admirados tanto pelos críticos literários como por meros leigos.

 

07
Ago18

Versejando com imagem - Amor, Álvares de Azevedo

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VERSEJANDO COM IMAGEM

 

AMOR

 

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Amemos! Quero de amor 
Viver no teu coração! 
Sofrer e amar essa dor 
Que desmaia de paixão! 
Na tu’alma, em teus encantos 
E na tua palidez 
E nos teus ardentes prantos 
Suspirar de languidez! 

Quero em teus lábios beber 
Os teus amores do céu, 
Quero em teu seio morrer 
No enlevo do seio teu! 
Quero viver d’esperança, 
Quero tremer e sentir! 
Na tua cheirosa trança 
Quero sonhar e dormir! 

Vem, anjo, minha donzela, 
Minha’alma, meu coração! 
Que noite, que noite bela! 
Como é doce a viração! 
E entre os suspiros do vento 
Da noite ao mole frescor, 
Quero viver um momento, 
Morrer contigo de amor!

 

(Álvares de Azevedo)

 

NB - Considerado um ultrarromântico, Álvares de Azevedo é um poeta típico da segunda fase do Romantismo Brasileiro, também conhecido como o “Mal do Século”.

Mesmo abordando o lado mais trágico e pessimista do amor, o autor não deixa de conquistar os corações e almas daqueles que leem a sua curta, mas intensa obra (Álvares de Azevedo morreu com apenas 21 anos, vítima de tuberculose).

06
Ago18

Versejando com imagem - José, Carlos Drummond de Andrade

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VERSEJANDO COM IMAGEM

 

JOSÉ

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E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, Você?

Você que é sem nome,

que zomba dos outros,

Você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?

 

Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?

 

E agora, José?

sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio, - e agora?

 

Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?

 

Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse,

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse...

Mas você não morre,

você é duro, José!

 

Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja do galope,

você marcha, José!

José, para onde?

 

(Carlos Drummond de Andrade)

 

NB - Graças ao poema de Drummond de Andrade - outro que está no rol dos mais populares da literatura nacional – surgiu a famosa gíria “e agora, José?”, utilizada ainda hoje para expressar a indecisão perante situações difíceis.

02
Ago18

Versejando com imagem - Canção do exílio, de Gonçalves Dias

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VERSEJANDO COM IMAGEM

 

CANÇÃO DO EXÍLIO

 

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Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar — sozinho, à noite —

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

 

Gonçalves Dias

21
Jul18

Versejando com imagem - Via Láctea, de Olavo Bilac

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VERSEJANDO COM IMAGEM

 

 

VIA LÁCTEA

 

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“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto

A Via Láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas.

 

(Olavo Bilac)

11
Jul18

Versejando com imagem - Timidez, Cecília Meireles

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VERSEJANDO COM IMAGEM

 

TIMIDEZ

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Basta-me um pequeno gesto,

feito de longe e de leve,

para que venhas comigo

e eu para sempre te leve…

- mas só esse eu não farei.

 

Uma palavra caída

das montanhas dos instantes

desmancha todos os mares

e une as terras mais distantes…

- palavra que não direi.

 

Para que tu me adivinhes,

entre os ventos taciturnos,

apago meus pensamentos,

ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

 

E, enquanto não me descobres,

os mundos vão navegando

nos ares certos do tempo,

até não se sabe quando…

e um dia me acabarei.

 

Cecília Meireles

25
Jun18

Versejando com imagem - Sou um homem só, Benjamim Ferreira

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VERSEJANDO COM IMAGEM

 

SOU UM HOMEM SÓ

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tenho a alma reumática de amargura
tenho o corpo hirto
cansado de aventura

caminho
sonolento
tropeçando em cada passo
em neve dura

que quero?

Talvez uma vida cheia de ternura
A balbuciar da criança só e nua
a alegria das gentes lá da rua

isso que tu sabes
só isso
a vida
mas é tua

 


benjamim ferreira,

Corpo Quebrado

12
Jun18

Versejando com imagem - A uma oliveira, de António Cabral

andanhos

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

A UMA OLIVEIRA

 

Manuel Sánchez

 (Foto de Manuel Sánchez)

 

 

Velha oliveira, ó irmã do tempo e do silêncio,

algo de ti se me tornou hoje perceptível;

algo que eu não conhecia e me fez parar

na ténue sombra que teces no caminho;

algo que é uma doce corola de contacto.

 

Já os passos da luz se afastam na colina

e um rumor de pérolas quebradas

desce, lentamente desce por toda a serrania.

Já as aves tuas amigas procuram na folhagem

a doçura acumulada nos favos da noite.

E também já são horas

de nós os homens, nós os que passamos,

suspendermos as cítaras do pensamento.

 

Entretanto, ó canção do crepúsculo, velha oliveira,

eu paro sob os longos cílios da tua ramagem.

Paro e, ao sentir nas mãos o teu enrugado tronco,

e, nos olhos, a serenidade das tuas folhas,

começo a entender uma bela mensagem:

a paz, ah a paz!, a rosa da paz.

 

É como se uma gota de azeite descesse,

Brandamente descesse pelas coisas.

 

 

António Cabral

«Poemas Durienses»

29
Mai18

Versejando com imagem - Soneto de Fidelidade, de Vinicius de Moraes

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VERSEJANDO COM IMAGEM

 

 

OS SETE POEMAS MAIS LINDOS E MARCANTES DA POESIA BRASILEIRA

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SONETO DE FIDELIDADE

 

De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.


Quero vivê-lo em cada vão momento

E em louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.


E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama


Eu possa me dizer do amor (que tive): 

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

 

Vinicius de MoraVinicius de Moraes

 

Diz o Pensador: "Sem dúvida um dos poemas mais famosos e lindos da literatura brasileira! O eterno “poetinha” (Vinicius detestava o seu apelido) se transformou em sinônimo da figura tradicional do boêmio apaixonado.

 

Ouçamos o próprio Vinicius de Moraes a declamar seu poema, acompanhado ao piano por Tom Jobim:

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