Sábado, 13 de Outubro de 2018

Versejando com imagem - Carta, Mia Couto

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

CARTA

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Tenho demasiado sono para alimentar crenças.

Das casas vou preferindo os cantos interiores,

obsessivas sombras em que vou julgando.

Se me acerco  das janelas é apenas para ver o longe,

as ténues linhas do azul inatingível.

As portas, fechadas ou abertas, pouco valem.

Desfaleceram com o desencanto do caminho.

Vou ficando pela distracção de desejos mansos,

sem guardar réstia de glória nem consolo.

Assim, dou feriado à minha existência.

 

Sofro a fadiga das viagens que nunca ousei.

Mas não me dedico nenhum desalento.

Porque mantenho dos índios o preceito

de envolver com panos os cascos dos cavalos guerreiros.

Assim protejo a gravidez da terra.

Fica a esperança:

outros farão vencer as nossas pequenas razões.

Saberemos então do seu tamanho, da sua pressa de ser cedo.

 

De tanto pensarmos fomos ficando sós.

De amarmos venceremos o cerco dessa solidão.

Que este cansaço sirva, ao menos,

para não culparmos nada nem ninguém.

 

(Mia Couto)


publicado por andanhos às 10:47
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Sexta-feira, 12 de Outubro de 2018

Versejando com imagem - Pequeninura do morto e do vivo, Mia Couto

 

 

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PEQUENINURA DO MORTO E DO VIVO

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O morto

abre a terra: encontra um ventre

 

O vivo

abre a terra: descobre um seio.

 

(Mia Couto)


publicado por andanhos às 10:43
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Quarta-feira, 10 de Outubro de 2018

Versejando com imagem - Identidade, Mia Couto

 

 

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IDENTIDADE

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Preciso ser outro

para ser eu mesmo

 

Sou grão de rocha

Sou o vento que a desgasta

 

Sou pólen sem insecto

 

Sou areia sustentando

o sexo das árvores

 

Existo onde me desconheço

aguardando pelo meu passado

ansiando a esperança do futuro

 

No mundo que combato

morro

no mundo por que luto

nasço.

 

 

Mia Couto

 


publicado por andanhos às 11:22
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Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018

Vesejando com imagem - Amor, de Hilda Hilst

 

 

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AMOR

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Que este amor não me cegue nem me siga.

E de mim mesma nunca se aperceba.

Que me exclua de estar sendo perseguida

E do tormento

De só por ele me saber estar sendo.

Que o olhar não se perca nas tulipas

Pois formas tão perfeitas de beleza

Vêm do fulgor das trevas.

E o meu Senhor habita o rutilante escuro

De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente

E farta de fadigas.

E de fragilidades tantas

Eu me faça pequena.

E diminuta e tenra

Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

 

(Hilda Hilst)


publicado por andanhos às 12:29
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Quinta-feira, 30 de Agosto de 2018

Versejando com imagem - Versos íntimos, de Augusto dos Santos

 

 

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VERSOS ÍNTIMOS

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Vês?! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão - esta pantera -

Foi tua companheira inseparável!

 

Acostuma-te a lama que te espera!

O Homem que, nesta terra miserável,

Mora entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera

 

Toma um fósforo, acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro.

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

 

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga

Apedreja essa mão vil que te afaga.

Escarra nessa boca de que beija!

 

(Augusto dos Anjos)

 

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Este é um dos poemas mais conhecidos do poeta brasileiro paraibano, considerado um dos percursores do movimento simbolista no país. Seus versos são cheios de críticas ao egocentrismo da sociedade de seu tempo, e são admirados tanto pelos críticos literários como por meros leigos.

 


publicado por andanhos às 16:55
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Terça-feira, 7 de Agosto de 2018

Versejando com imagem - Amor, Álvares de Azevedo

 

 

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AMOR

 

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Amemos! Quero de amor 
Viver no teu coração! 
Sofrer e amar essa dor 
Que desmaia de paixão! 
Na tu’alma, em teus encantos 
E na tua palidez 
E nos teus ardentes prantos 
Suspirar de languidez! 

Quero em teus lábios beber 
Os teus amores do céu, 
Quero em teu seio morrer 
No enlevo do seio teu! 
Quero viver d’esperança, 
Quero tremer e sentir! 
Na tua cheirosa trança 
Quero sonhar e dormir! 

Vem, anjo, minha donzela, 
Minha’alma, meu coração! 
Que noite, que noite bela! 
Como é doce a viração! 
E entre os suspiros do vento 
Da noite ao mole frescor, 
Quero viver um momento, 
Morrer contigo de amor!

 

(Álvares de Azevedo)

 

NB - Considerado um ultrarromântico, Álvares de Azevedo é um poeta típico da segunda fase do Romantismo Brasileiro, também conhecido como o “Mal do Século”.

Mesmo abordando o lado mais trágico e pessimista do amor, o autor não deixa de conquistar os corações e almas daqueles que leem a sua curta, mas intensa obra (Álvares de Azevedo morreu com apenas 21 anos, vítima de tuberculose).


publicado por andanhos às 11:22
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Segunda-feira, 6 de Agosto de 2018

Versejando com imagem - José, Carlos Drummond de Andrade

 

 

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JOSÉ

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E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, Você?

Você que é sem nome,

que zomba dos outros,

Você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?

 

Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?

 

E agora, José?

sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio, - e agora?

 

Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?

 

Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse,

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse...

Mas você não morre,

você é duro, José!

 

Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja do galope,

você marcha, José!

José, para onde?

 

(Carlos Drummond de Andrade)

 

NB - Graças ao poema de Drummond de Andrade - outro que está no rol dos mais populares da literatura nacional – surgiu a famosa gíria “e agora, José?”, utilizada ainda hoje para expressar a indecisão perante situações difíceis.


publicado por andanhos às 19:25
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Quinta-feira, 2 de Agosto de 2018

Versejando com imagem - Canção do exílio, de Gonçalves Dias

 

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CANÇÃO DO EXÍLIO

 

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Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar — sozinho, à noite —

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

 

Gonçalves Dias


publicado por andanhos às 11:41
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Sábado, 21 de Julho de 2018

Versejando com imagem - Via Láctea, de Olavo Bilac

 

 

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VIA LÁCTEA

 

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“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto

A Via Láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas.

 

(Olavo Bilac)


publicado por andanhos às 16:56
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Quarta-feira, 11 de Julho de 2018

Versejando com imagem - Timidez, Cecília Meireles

 

 

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TIMIDEZ

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Basta-me um pequeno gesto,

feito de longe e de leve,

para que venhas comigo

e eu para sempre te leve…

- mas só esse eu não farei.

 

Uma palavra caída

das montanhas dos instantes

desmancha todos os mares

e une as terras mais distantes…

- palavra que não direi.

 

Para que tu me adivinhes,

entre os ventos taciturnos,

apago meus pensamentos,

ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

 

E, enquanto não me descobres,

os mundos vão navegando

nos ares certos do tempo,

até não se sabe quando…

e um dia me acabarei.

 

Cecília Meireles


publicado por andanhos às 10:59
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