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17
Jan20

Ocasionais - Livro de Horas, Miguel Torga

andanhos

 

OCASIONAIS

 

LIVRO DE HORAS

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No 25º aniversário da morte de Adofo Correia da Rocha, fala-nos o grande poeta transmontano Miguel Torga:

 

Aqui diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas
O dos facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.

E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!

 

Miguel Torga,

in 'O Outro Livro de Job'

miguel-torga-e1537371852804

11
Out18

Ao Acaso...O espírito barrosão de antanho, por Miguel Torga

andanhos

 

 

AO ACASO…

 

O ESPÍRITO BARROSÃO DE ANTANHO, POR MIGUEL TORGA

 

Barroso-Boticas II (490)

 Foi, há pouco mais de dois meses, que, ao acaso, numa das nossas incursões pelas aldeias do Barroso, fomos ter a Carvalhelhos, no concelho de Boticas.

 

Na sua singela capelinha, na fachada principal, demos com uma placa de granito, tendo encrustada uma chapa de metal. Nela, uma introdução do Diário VIII, de Miguel Torga, com uma entrada, com data de 25 de junho de 1956 que rezava assim:

 

Carvalhelhos, 25 de Junho de 1956

 

Olho a serra. E diante desta natureza sem disfarces, aberta para todos os horizontes, sinto como que uma centrifugação do espírito. Ando, e parece que voo; tento localizar-me, e perco-me na indeterminação. Uma espécie de nomadismo de alma descentra-me e liberta-me das amarras mesquinhas da vida compartimentada. E compreendo de repente a força universal que impregna os gestos e as palavras destes barrosões, puros na impureza, que lavam as mãos no sangue dum semelhante e há mil anos que descobriram o cepticismo moderno. Homens para quem o absoluto é relativo clarificado, e que por isso entregam desta maneira a filha ao namorado que lha pede em casamento:

 

Pastora é,

Gado guardou;

Se sebe saltou;

Se nalguma se picou,

Tal como está

Assim vo-la dou…

 

(Miguel torga, in Diário VIII)

 

Dentro da rudeza destas gentes de antanho, quanta sinceridade e nobreza!

 

Hoje, dignidade, autenticidade, sinceridade, pureza e mais outros atributos de alma que agora não nos ocorrem, mas tão lídimos do que era ser barrosão e português, onde estão?...

 

Sinal dos tempos, dirão uns.

 

E que tempos tão espúrios os que por que passamos!!!

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