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16
Jun20

Memórias de um andarilho - Caminhadas nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor 1ª etapa - Destaque II - Património de Torre de Moncorvo

andanhos

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

 

DESTAQUE II – PATRIMÓNIO DE TORRE DE MONCORVO

 

“O abandono como plenitude. A consciência de um mundo em ruínas revela a possibilidade

de realização por meio de osmose com a natureza. A ruína como a plenitude da arquitetura.

A ruína como o tempo submerso. A ruína como flor. A ruína como resistência. O calcário

raspado, desgastado, a ferrugem, o descascado e seus teoremas. A ruína como a arquitetura

submersa. Isto foi, ali estava, viveu aqui e seus impossíveis correspondentes. O naufrágio

revela a inutilidade de qualquer projeto e da beleza desta inutilidade. A beleza do que é. A

invasão da natureza nas ruínas. Estabelecimento de uma democracia da luz na interseção

entre a arquitetura e o reino das folhas. A Casa retorna à natureza. Então a ruína deixa de

ser ruína, porque é da natureza novamente.”

Poesia da Lentidão, de Andres Ibañez

01.- Logo Torre de Moncorvo II

Corroborando o que já adiantámos no post anterior, a propósito da Igreja Matriz de Torre de Moncorvo, diz-nos o sítio da internet ««360º Torre de Moncorvo»   queAs origens do concelho de Torre de Moncorvo remontam à Idade Média. Inicialmente em S.ta Cruz da Vilariça. O foral da Vilariça ficou a dever-se a D. Sancho II, que o outorgou, em 6 de Junho de 1225, dando origem ao concelho de Santa Cruz da Vilariça, cuja sede aí permaneceu até que D. Dinis a transferiu para Moncorvo, por carta de foral, outorgada, em Lisboa, em 12 de Abril de 1285, e a vila foi dotada com muralhas e um castelo. A riqueza agrícola do vale da Vilariça potencia um período de prosperidade económica durante os séculos XV a XVII. A expansão da cultura do linho cânhamo, da vinha, azeite, seda, lã, amêndoa e cereais, a exploração do ferro, o dinamismo comercial da sua importante feira, aliados à sua posição geográfica, que fazia de Moncorvo um importante nó de comunicações entre Trás-os-Montes e a Beira, constituem os fatores mais importantes do seu crescimento demográfico.

Na sequência da nova divisão administrativa do Reino, no seculo XVI, Torre de Moncorvo, passa a sede de uma das quatro comarcas de Trás-os-Montes então constituídas, abrangendo um extenso território e a sede de provedoria. E sob o ponto de vista eclesiástico, constituía uma das cinco comarcas em que o vastíssimo arcebispado de Braga se dividia.

A produção do linho cânhamo faz surgir, em finais do século XVI, os armazéns reais de cordoaria. Derivada da grande produção de azeite, instala-se uma fábrica de sabão. Esta prosperidade económica explica a renovação urbanística de Moncorvo no século XVI, marcada pela construção da sua majestosa igreja [e, ao longo dos séculos XV a XVIII, de grandes casas senhoriais]. O papel negativo da Inquisição entre os séculos XVI e XVIII no tecido comercial progressista de Trás-os-Montes e a Guerra da Restauração 1640-1668, com invasões, cercos e saques de localidades vão fazer entrar em decadência todo Trás-os-Montes. Os conflitos ocorridos com a Espanha, entre 1640-1763, contribuíram poderosamente para um acentuado processo de despovoamento e mesmo de desertificação do Nordeste Trasmontano, incluindo Moncorvo.

A comarca de Moncorvo, da Coroa, não era, quer demográfica, quer economicamente, a mais populosa ou a mais próspera de Trás-os-Montes, uma vez que tanto a comarca de Bragança como a comarca de Vila Real a superavam nos planos referidos. Mas, sendo a mais extensa e a de maior continuidade territorial, gozava de um lugar central na província, atravessando-a de norte a sul, desde a fronteira com a Galiza até ao rio Douro, e detinha uma das portas mais importantes de Trás-os-Montes, a estrada da Beira que, pelo Pocinho – onde servia a barca de maior rendimento do rio Douro – e Moncorvo, ligava a Bragança e a Miranda”.

Apresentamos, da obra de Eugénio Cavalheiro e Nelson Rebanda – «A Igreja Matriz de Torre de Moncorvo» - uma infografia que representa a planta da vila de Torre de Moncorvo.

02.- Planta de Torre de Moncorvo antiga

Como podemos ver, as duas primitivas igrejas – de Santiago e Santa Maria – estavam extramuros ou extra muralhas da vila, não chegando ao nosso conhecimento a razão pela qual, de um modo especial a igreja de Santa Maria, sobre a qual se ergueu a atual Igreja Matriz, ficou fora das muralhas.

Se bem observarmos a foto, em 360º, exibida no sítio acima referido, da vila de Torre de Moncorvo, agora sem castelo erguido e praticamente sem muralhas, e comparando com a infografia acima exibida, vemos claramente ainda o casario disposto em conformidade com o antigo perímetro da muralha medieval da vila.

O mesmo acontece no vídeo que agora exibimos, no qual se destacam a imponente Igreja Matriz, fora das antigas muralhas, a Igreja da Misericórdia e o Castelo, no antigo perímetro amuralhado.

TORRE DE MONCORVO – PANORAMICAS 360º

Fora das muralhas, e à volta delas e da Igreja Matriz, dispunham-se solares e capelas, pelos seus arruamentos e casario, e que vão dar à Praça Francisco António Meireles, onde impera um bonito Chafariz filipino.

03.- 2020.- Moncorvo (76)

(Perspetiva I)

04.- 2020.- Moncorvo (77)

(Perspetiva II)

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(Perspetiva III)

Uma vez que, no post anterior já falámos do ex-libris da vila de Torre de Moncorvo – a sua Igreja Matriz – comecemos, então, pelo seu antigo Castelo, hoje apenas ruínas.

CASTELO DE TORRE DE MONCORVO

Segundo a «Nota Histórica-Artística», da Direção Geral do Património Cultural, "O castelo de Torre de Moncorvo começou a edificar-se logo após a atracão dos primeiros moradores, vindos de Santa Cruz da Vilariça, ou em data muito próxima. Em 1295, dez anos depois do documento de criação, o próprio rei faz referência ao castelo, pressupondo-se, assim, que as obras já estariam em curso (…). Apesar das múltiplas fases de destruição por que a fortaleza passou, é ainda possível reconstituir o seu aspeto geral original. Assim, a cerca definia um povoado de perfil oval, tão característico das vilas muralhadas góticas, que integrava quer a povoação, quer o castelo [Como acima se evidenciou].Três portas permitiam o acesso ao interior da cerca, de que se destaca a inexistência de qualquer abertura no final da Rua Direita, que terminava num grande torreão quadrangular (…). As principais portas situavam-se a Norte e a Nascente (São Bartolomeu e Nossa Senhora dos Remédios, ou da Vila) e eram flanqueadas por duas torres circulares. Uma terceira, localizada do lado Sul, estava anexa ao castelo, sendo defendida diretamente por este e dando serventia ao principal reduto defensivo da vila.

O castelo propriamente dito era de planta quadrangular algo irregular, e integralmente construído em granito, por oposição ao xisto da muralha, o que denota uma maior preocupação pela qualidade e durabilidade da construção. Localizava-se no topo poente da povoação e as suas muralhas interiores estavam livres de quaisquer edificações, o que lhe assegurava total independência em caso de invasão da povoação.(…).

Com efeito, foram várias as fases de reconfiguração e destruição da fortaleza medieval (…) Em 1721 noticia-se o derrube de algumas portas e partes da cerca e o século XIX foi desastroso para a sua história.

Em 1842, a Câmara Municipal já o considerava irrecuperável e, porque se localizava entre a vila velha e a nova, cujo acesso só era possível por uma estreita e íngreme artéria, o município projetou a sua demolição (…). Toda a zona foi, então, rebaixada e construídos novos edifícios públicos, demonstrando-se, desta forma, a modernidade do projeto camarário, que englobava ainda a constituição de um quartel, nunca efetivada".

Reputamos de algum interesse a leitura de «Castelo de Moncorvo», em Fortalezas.org.

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IGREJA DA MISERICÓRDIA

Diz-nos, em 2006, Catarina Oliveira, do IPPAR que “A data de fundação da irmandade da Misericórdia de Torre de Moncorvo permanece desconhecida, sabendo-se no entanto que terá ocorrido na primeira metade do século XVI. O templo da confraria foi edificado na antiga Rua Direita da vila, junto ao local onde foi também, na época, edificada a cadeia feminina local.

06.- 2020.- Moncorvo (71)

Desconhece-se o autor da traça da igreja, no entanto o edifício destaca-se pela graciosidade das formas e harmonia de proporções.

De planta longitudinal, composta pelos volumes da nave única e da capela-mor, a igreja apresenta uma fachada de gosto renascentista de linhas eruditas, onde ao centro foi rasgado um portal de volta perfeita inserido num alfiz alteado, com dois medalhões sobre o extradorso do arco.

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(S.Pedro)

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(S. Paulo)

O conjunto é rematado por frontão triangular com friso, ladeado por pináculos e dois óculos.

Ao centro do remate foi rasgado, em época posterior, um nicho com imagem. O registo inferior da fachada é rematado com friso e duas gárgulas, e sobre este foi edificado um frontão, rasgado em 1864 para inserir a sineira.

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Do lado esquerdo da fachada foi construído o consistório da Misericórdia, com entrada lateral e uma janela de canto no registo superior.

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O interior, [a que não tivéssemos acesso] um espaço unificado coberto por abóbada de berço com caixotões de madeira, possui um programa decorativo diversificado, fruto de diferentes campanhas de obras. O templo possui dois púlpitos, um deles colocado junto à tribuna dos mesários, no registo superior. O outro, edificado do lado da Epístola,

09.- Igreja da Misericórdia de Moncorvo - Interior púlpito (DGAC, 1974)

(Fonte:- Direção-geral do Património Cultural – Igreja da Misericórdia de Moncorvo com todo  o seu recheio […])

é uma obra quinhentista, sendo considerado "um dos mais belos púlpitos da renascença portuguesa, talhado num só bloco de granito, em forma de cálice com a imagem de um santo da Igreja em baixo relevo em cada uma das faces (…)”.

Conforme se pode por esta foto antiga, este púlpito estava colocado no exterior da Igreja, na fachada principal.

10.- Púlpito

(Fonte:- «Memórias e outras coisas… Bragança – “Moncorvo – Porta e púlpito da Igreja da Misericórdia"»

Na capela-mor foi edificado um retábulo de talha dourada barroca, num modelo em estilo nacional.

Está classificado como Imóvel de Interesse Público e integra o Museu de Arte Sacra da vila de Torre de Moncorvo.

A PRAÇA FRANCISCO MEIRELES E O CHAFARIZ FILIPINO

O Chafariz filipino, situado na praça Francisco António Meireles, no centro da vila,  é datado de 1636. Foi construído durante a Dinastia Filipina, tendo levado dez anos a ser terminado. No ano de 1887, e por ordem do então Presidente da Câmara, o chafariz foi desmantelado e os elementos que o constituíam foram espalhados por vários locais, inclusivamente alguns foram enterrados num campo chamado da Corredoura no início do século XX.

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Por ironia talvez, no último ano do século XX, também o Presidente da Câmara, recorrendo a fotografias e plantas antigas, debruçou-se na reconstrução do chafariz, tendo recuperado do original três peças que estavam na sua posse, como a taça e a base.

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O chafariz insere-se numa tipologia de tanque sobre uma base quadrada. No primeiro pano, forma um depósito bolboso decorado com uma carranca jorrando água e, sobre este, foi construído um pináculo que termina a estrutura.

CONVENTO DE SÃO FRANCISCO

Apenas resta a Capela do convento e o antigo Asilo.

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Segundo «Portugal.SOS - Estudo e Projeto de Arquitetura de Recuperação de antigo Asilo e Capela do Convento de S. Francisco» “No dia 2 de Maio, foi assinado no Salão Nobre do Reitor da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa um protocolo tripartido entre a mesma Faculdade, o Município de Torre de Moncorvo e a Fundação Francisco António Meireles com vista ao estudo e projeto de recuperação do antigo Asilo e da Capela do Convento de S. Francisco.

O protocolo tem por objeto a prestação de serviços relacionada com a realização de um projeto interdisciplinar de investigação científica aplicada, dividido em várias fases e tempos de execução cujo objeto de estudo será o edifício do antigo Asilo da Fundação Francisco António Meireles e a Capela do Convento de S. Francisco da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, tendo como objetivo último a execução de um projeto de arquitetura que permita a recuperação de ambos os edifício plenamente integrados um no outro (…)”.

14.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 204

E, para quê?

Segundo a «Radio Brigantia», de 15.04.2016, “O município de Torre de Moncorvo e a fundação Francisco António Meireles pretendem criar um Hotel com Spa no antigo Asilo e Capela do Convento de S. Francisco. Com esse objetivo foi apresentado um projeto de arquitetura, numa parceria com a Universidade de Lisboa.

No antigo asilo, propriedade da fundação, será implementado o hotel que terá a particularidade de ser constituído por apartamentos, quartos em grupo e quartos com acesso facilitado a pessoas com mobilidade reduzida. Já na Capela do Convento de S. Francisco, que pertence à autarquia, será instalado um spa. Um projeto hoteleiro que pretende abranger vários públicos e valorizar um edifício emblemático da localidade, como refere o presidente do município Nuno Gonçalves.

«O espaço está sobranceiro à vila e pensou-se recuperar esses dois edifícios, por forma a fazer ali uma unidade para pessoas com mais idade e também para pessoas jovens, com várias vertentes», frisa.

Pretende-se criar, associado ao vetor do bem-estar, um conceito que englobe o enoturismo e a produção vinícola. O projeto contempla ainda a criação de um edifício, inserido na arquitetura existente, onde ficará uma adega com parte destinada à produção, ao estágio do vinho e de venda ao público. Um sector já presente na instituição.

«Apostamos também muito no vinho e o spa e hotel teria muito a ver com isso», explica António Moreira, presidente da fundação Francisco António Meireles.

O próximo passo do projeto, apresentá-lo a operadores turísticos que possam ter interesse em investir, mas Nuno Gonçalves não exclui para já a hipótese de a própria Fundação Francisco António Meireles ser a entidade impulsionadora do investimento”.

Que seja do nosso conhecimento, o projeto, ainda nesta data, está em «banho maria»…

SOLARES E CAPELAS

Ana Celeste Glória, na sua obra «Solares e casas nobres em Torre de Moncorvo (séculos xvii-xviii», afirma:

A vila de Torre de Moncorvo possui um vasto património material e imaterial que contempla diversos períodos da História e da Arte. De facto, é nesta vila que encontramos um importante testemunho da evolução da arquitetura civil erudita, destacando-se os solares e casas nobres edificadas entre o período maneirista e barroco, num arco cronológico do século xvi a xviii. As características e especificidades de cada uma destas casas torna imperativo a sua análise, caso a caso, para o entendimento e valor deste património, que abarca não só o património artístico, mas também, o património religioso.

A edificação destas casas prende-se à necessidade de habitação dos seus proprietários, diferindo das restantes pelo tratamento arquitetónico e decorativo, proporcionado pelas condições económicas, sociais e políticas de cada família.

Atente-se ainda para o facto de, no século xvi, Moncorvo ser sede de Comarca, conhecendo uma considerável prosperidade económica que se manteve até ao século xvii,  por consequência da intensa atividade industrial da região, nomeadamente, da exploração das sedas, linho, cordoarias, manufaturas de sabão, minas de ferro, agricultura, entre outras. Como afirmou Luís Alexandre Rodrigues, referindo-se ao comércio, circulação de artistas e, por consequência, às famílias que os contratavam; aquelas

«(…) atividades alimentavam o tráfico comercial que usava as estradas e vias fluviais para fazer chegar os produtos ao Porto, donde eram embarcados para Lisboa e ultramar, à Beira, à Galiza e a Castela. Os artistas não ficavam de fora desta corrente até porque a construção de novos edifícios civis e religiosos, assim como o investimento decorativo que se lhes associa, resultou da labuta e dos quadros de mentalidade em que se moviam e afirmavam tanto o pequeno lavrador, como o artesão e o comerciante Assim se povoou o território de homens e de algumas das realizações materiais que mais enalteciam o orgulho dos indivíduos e das comunidades».

Assim, a necessidade de fixação no território por consequência das profissões ligadas aos negócios, ao comércio, mas também à política e ao exército, levaram à fixação de inúmeras famílias, algumas delas abastadas, que recorriam a artistas locais ou de grandes centros urbanos para lhes construírem novas casas. Estas novas edificações representavam um meio de afirmação social, económica e até mesmo cultural, traduzido pelo grande investimento construtivo e decorativo que as famílias impunham nas suas habitações, destacando-se da malha urbana, pela presença de determinados elementos que as caracterizavam e particularizavam. No que concerne ao período já mencionado, séculos xvii e xviii, salientamos seis casas nobres na vila de Moncorvo. São elas :

* Solar dos Távoras;

* Solar dos Doutéis e Capela de Nossa Senhora dos Prazeres;

* Solar dos Tenreiros;

* Casa do Cacao” / Casa da Família Vasconcelos;

* Solar dos Pimentéis;

* Casa do Morgado Leopoldo Henriques.

Estas casas localizam-se, na sua maioria, no interior do centro histórico, no designado núcleo renascentista, algumas delas, à sombra das muralhas do castelo medieval, classificado como monumento de interesse público. Relativamente às suas características históricas, artísticas e arquitetónicas, diferem entre si, dadas as especificidades de cada uma, e da data em que foram construídas. Somente o estudo de cada uma nos permite conhecer os solares e casas senhoriais de Moncorvo, bem como a evolução da arquitetura maneirista e barroca nesta localidade”.

Solar dos Távoras - Biblioteca Municipal e Arquivo Histórico da Torre de Moncorvo

O edifício da Biblioteca é um solar do séc. XVIII, que pertenceu à família Caetano de Oliveira.

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Desde 1997 que está instalada neste solar a Biblioteca Municipal.

No edifício anexo funciona o Arquivo Histórico.

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Solar dos Doutéis e Capela de Nossa Senhora dos Prazeres

Casa nobre com fachada principal formando ângulo, adaptando-se ao perfil do quarteirão e de três panos, um correspondendo à capela, e dois à casa, tendo no menor porta mais larga de acesso às lojas. De tipologia maneirista tardia, caracteriza-se pela sobriedade, sobretudo da ala residencial, interrompida apenas no eixo da entrada principal, onde apresenta cornijas, reta sobre o portal e contracurvada sobre a janela do segundo piso.

É no pano da capela que se concentra maior decoração, tendo no portal pilastras com o terço inferior de caneluras distintas, o friso do entablamento decorado com elementos geométricos relevados, o central com data da edificação da capela, encimado pela pedra de armas da família que mandou construir o solar, e coroado por sineira com alguns apontamentos do barroco inicial, como elementos volutados estilizados.

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Não entrámos no interior do solar e da capela, contudo, pelo que pesquisámos, "O retábulo é já do pleno estilo nacional, com profusa decoração de acantos, pâmpanos, fénices, anjos, querubins, e concha perfeita, tendo ao centro painel pintado, com dossel fingido e lambrequim joanino. A gramática decorativa existente nos estuques do solar, assemelha-se à existente na sala da música do Solar dos Pimentéis (…) e na sala das quatro estações do Solar dos Tenreiros (…), assim como a iconografia, que também aparece na Casa do Sr. Leopoldo Henriques, levando Liliana Pereira a pensar na possibilidade do estucador ter sido o mesmo nas várias casas”.

Segundo Catarina Oliveira (GIF/IPPAR/18 de setembro de 2006), em «Nota Histórica-Artística»  “A Capela do solar, dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres, terá sido edificada nos primeiros anos do século XVIII do lado esquerdo do corpo do solar, demarcando-se pela disposição de contrafortes.

Embora tenha sido construída em Setecentos e apresente um programa decorativo de gosto plenamente barroco, este pequeno templo vai ainda utilizar linhas estruturais com evidentes influências maneiristas, possivelmente decorrentes da tratadística.

De planta retangular e nave única, a capela possui fachada com portal de moldura retangular flanqueado por pilastras jónicas, cujo friso é decorado com motivos de ponta de diamante e tem ao centro gravada a data 1714, que indica possivelmente a data de conclusão das obras. O conjunto é rematado por frontão interrompido, encimado por pedra de armas dos encomendantes. Sobre o edifício foi colocada uma sineira decorada com motivos de relevo.

O interior é coberto por teto de madeira de caixotões com moldura de talha e pinturas de florões. No topo da nave foi colocado o retábulo de estilo nacional de talha dourada e policroma com fundo pintado e albergando ao centro mísula com a imagem da padroeira”.

Solar dos Tenreiros e Capela de Jesus Maria José

Conforme se pode constatar, à data que consultámos o sítio da internet – «Portas do Sol e da Lua – Imóveis com História»   encontra(va)-se em ruínas.

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(Fonte:- «Portas do Sol e da Lua – Imóveis com História»)

A capela está inserida no solar. 

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(Fonte:- «Portas do Sol e da Lua – Imóveis com História»)

O solar está próxima da fonte das Aveleiras.

“Casa do Cacao” / Casa da Família Vasconcelos e Capela do Sagrado Coração de Jesus

Segundo Rosário Carvalho, no sítio da Direção-geral do Património Cultural, “A capela do Sagrado Coração de Jesus pertencia ao já demolido solar da família Carneiro Vasconcelos, tendo sido erguida, ao que tudo indica, no decorrer da primeira metade do século XVIII. Certo é que o órgão remonta a ano de 1743.

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O portal principal é formado por pilastras e encimado por frontão de volutas interrompido pelo Sagrado Coração de Jesus, ao qual a capela é dedicada.

O século XVIII correspondeu, em Torre de Moncorvo, a um crescimento considerável da vila, quer em termos populacionais, quer em termos de superfície e de novos imóveis. Também o património religioso conheceu um crescimento, contando-se duas igrejas, um convento de frades, um recolhimento feminino, a igreja da Misericórdia, a capela do hospital e quinze capelas, oito das quais do padroado da câmara e sete de particulares (…). Estas, encontravam-se, como a capela do Sagrado Coração de Jesus, integradas nos solares setecentistas erguidos nesta centúria e que documentam o desenvolvimento da vila e da nobreza aí residente”.

Solar dos Pimentéis

Segundo a Direção-geral do Património Cultural –«Solar dos Pimentéis» -, trata-se de umaCasa unifamiliar barroca, de planta retangular

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com duas alas adossadas perpendicularmente à fachada posterior.

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Fachada principal, de dois pisos e dois panos definidos por pilastras toscanas, terminadas em friso e cornija e regularmente rasgada por vãos sobrepostos de verga abatida, tendo no primeiro piso portais e uma janela de peitoril e no segundo janelas de peitoril, com molduras recortadas, encimadas por cornija contracurvada sobreposta por concha, orelhas laterais e avental recortado com volutas".

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Vejamos o pormenor de uma das janelas.

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Este solar pertenceu à família Oliveira Pimentel e foi aqui que nasceu o General Claudino Pimentel e o Visconde de Vila Maior.

Casa do Morgado Leopoldo Henriques

Trata-se de um edifício histórico cuja construção terá sido iniciada no 1º quartel do século XVIII, certamente pensado para ser um vasto palácio, mas cujo projeto inicial terá sido condicionado pela falta de recursos por parte dos proprietários, a família Botelho de Magalhães. Mesmo assim, foi construída aos "bochechos" e nela terá nascido o pai de um dos fundadores da República do Brasil, Benjamin Constant Botelho de Magalhães.

Para mais detalhes sobre este cofundador da República do Brasil, consulte-se «Torre de Moncorvo in Blog». 

Em 25 de Abril de 2013, este edifício, no seu rés-do-chão, onde entretanto se encontrava um Jardim de Infância, tendo por cima a antiga agência do Banco Espírito Santo, hoje Novo Banco, foi utilizado para sede do Projeto Arqueológico da Região de Moncorvo (PARM).

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(Fachada Poente da Casa Leopoldo Henriques - sede do PARM no r/c)

A autora acima citada, Ana Celeste Glória, no seu trabalho, que vimos acompanhando, refere apenas os solares e capelas dos Távoras; dos Doutéis (e Capela de Nossa Senhora dos Prazeres); dos Tenreiros; a “Casa do Cacao” / Casa da Família Vasconcelos; dos Pimentéis e a Casa do Morgado Leopoldo Henriques.

Mas existem mais. Sem sermos exaustivos no que respeita aos edifícios que foram (e alguns ainda são, como o antigo Cineteatro; a Casa da Família Félix; o edifício do Tribunal, na praça Francisco António Meireles, a Capela de São Sebastião; a Capela de Santa Leocádia, na serra do Reboredo; o Chafariz de Santo António, etc.) também emblemáticos na vila e concelho de Torre de Moncorvo.

Solar e Capela de Santo António

Ainda segundo Rosário Carvalho, da Direção-geral do Património Cultural - «Capela de Santo António» - “A capela de Santo António integra o solar da família Carvalho Castro, nobilitada desde 1880 com o título de Viscondes de Marmeleiro (por decreto do Rei D. Luís a favor de António de carvalho Castro Freire Cortês).

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A sua fachada inscreve-se no eixo central do alçado do solar, destacando-se pelas pilastras que definem este corpo, separando-o dos restantes, de dois pisos com janelas de sacada de verga reta no andar nobre. O portal, ladeado por pilastras que suportam um frontão triangular, é sobrepujado pelo brasão de armas da família, terminando em cornija reta, e apenas ganhando maior visibilidade em relação à casa pela sineira que coroa este eixo, já sobre a linha do telhado. O posicionamento do brasão segue a norma que se observa em boa parte dos solares de Torre de Moncorvo, surgindo na fachada da capela e não sobre a porta de entrada do edifício habitacional. Muito embora o alçado da capela, de linhas retas, seja bastante depurado, é ele quem confere maior animação à fachada da casa, sem qualquer elemento decorativo.

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Todo o conjunto foi edificado no decorrer do século XVIII, ainda que, certamente, sobre as ruínas ou vestígios de construções anteriores. Apesar dos poucos dados disponíveis sobre esta questão, a verdade é que a data de 1490 surge gravada nesta fachada, talvez aludindo à instituição da capela”.

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De acordo ainda com a nossa mesma fonte, e dado que também não podemos entrar no seu interior, “No interior, ganha especial destaque a abóbada de berço de caixotões, com episódios da vida de Santo António, a quem o templo era dedicado, e naturezas mortas.

A capela de Santo António e o solar dos Viscondes de Marmeleiro constituem um dos muitos testemunhos do desenvolvimento da vila no decorrer do século XVIII, verificável não apenas num crescimento populacional mas também na edificação de novos solares aos quais se encontravam anexas as respetivas capelas e que muito contribuíram para o número significativo de edifícios religiosos existente em Torre de Moncorvo nesta centúria: duas igrejas, um convento de frades, um recolhimento feminino, a igreja da Misericórdia, a capela do hospital e quinze capelas, oito das quais do padroado da câmara e sete de particulares (…)”.

Solar do Barão de Palme - Museu do Ferro & da Região de Moncorvo

Segundo o sítio da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo – «Museu do Ferro» - “O Museu do Ferro & da Região de Moncorvo encontra-se instalado no solar do Barão de Palme, séc. XVIII, no Largo Balbino Rego, em Torre de Moncorvo. Trata-se de um edifício de traça simples, com escadaria exterior e varanda de alpendre. O Museu dispõe dos seguintes espaço: edifício principal, jardim anexo, auditório e área para reserva e depósito. No 1º andar do edifício do museu, a que se acede por uma escadaria exterior, encontra-se o posto de receção que orienta o visitante para uma área de acolhimento denominada Oficina do Conhecimento. Aqui se indicam, em imagens-satélite, os dois principais acidentes geomorfológicos que influenciaram a história económica da região: o vale da Vilariça, particularmente fértil, e a serra do Roboredo, onde jazem mais de 670 milhões de toneladas de minérios de ferro (hematite e magnetite). O vale da Vilariça corresponde a uma falha tectónica irrigada pela ribeira do mesmo nome, que aqui se encontra com o rio Sabor, e este com o Douro, propiciando a ocupação humana desde remotas eras. Como prova disso, nesta sala é exibida uma estela-menir antropomórfica do período calcolítico (Idade do Cobre), com cerca de 1,57 m. Ainda neste espaço, podem-se ver outros aspetos do património da região, através de uma projeção audiovisual, ou, em alternativa, documentários breves, além de um filme da década de 50 do século passado, sobre o trabalho nas minas de Moncorvo. Ao lado da Oficina do Conhecimento está a sala destinada à arqueologia e história da região, mas que presentemente é utilizada para exposições temporárias”.

34.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 154

Capela do Espirito Santo e Hospital Velho

Em 1726 era considerada uma albergaria, que albergava e tratava dos visitantes mais desfavorecidos e pertencia ao hospital de Moncorvo. Em 1791 foi instituído em Moncorvo, sob a Invocação do Espírito Santo, o Hospital do Espírito Santo que era constituído por capela e casas anexas com serventia de hospital e hospedaria. Ostenta na fachada as armas de D. Manuel e a imagem de S. Mateus.

No interior subsiste um altar sumptuoso do séc. XVIII, em talha barroca e uma lápide em granito com as obrigações do antigo hospital.

Capela de Nossa Senhora dos Remédios

Foi edificada no séc. XVII, sobre o arco da porta do lado nascente da antiga vila de Torre de Moncorvo.

40.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 226

É um dos poucos vestígios que restam da antiga e exterior muralha. No seu interior, encontra-se um altar de talha dourada, onde ao centro se encontra a imagem da Senhora dos Remédios.

41.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 223

Edifício da Câmara Municipal

Edifício do séc. XIX, de estilo neoclássico.

42.- 2020.- Moncorvo (66)

Ostenta na fachada a heráldica municipal.

43.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 199

A fachada principal apresenta três panos definidos por pilastras toscanas, coroados por pináculos e dóricas.

44.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 198

O pano central é rasgado por um portal de arco abatido,

45.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 200

encimado por um friso e cornija com elementos fitomórficos, sobrepujado por janela de sacada com guarda de ferro. É coroado por frontão triangular com brasão no tímpano. Nos panos laterais, as portas são sobrepostas por voluta e janela de peitoril moldurada de arco abatido, e as janelas de arco também abatido encimados por cornija. As janelas do piso superior são em lintel retos.

46.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 206

Neste edifício funcionam alguns serviços da Câmara Municipal.

 

Não poderíamos acabar este post sem referir dois aspetos.

O primeiro deles tem a ver com o célebre Jorge Luís Borges, escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino.

O escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), segundo consta, teve origens portuguesas (pelo lado Borges, seu bisavô), que parece ter prezado bastante. Ora, o seu bisavô seria natural de Torre de Moncorvo.

 

A este propósito, o escritor escreveu o seguinte poema:

 

OS BORGES

Nada ou pouco sei dos meus ancestrais

Portugueses, os Borges: vaga gente

Que na minha carne, obscuramente,

Prossegue seus hábitos, temores e rituais.

Ténues como se nunca houvessem existido

E alheios aos trâmites da arte,

Indecifravelmente fazem parte

Do tempo, da terra e do que é esquecido.

Melhor assim. Cumprida a odisseia,

São Portugal, são a famosa gente

Que forçou as muralhas do Oriente

E se deu ao mar e a outro mar de areia.

São o rei que no místico deserto

Se perdeu mas jura estar perto.

(Tradução de José Mário Silva)

 

O segundo, com um artista plástico, filho desta terra, que abalou para o Porto e, aqui, produz(iu) a sua obra – Dario Alves.

Deixamos à visualização dos nossos(as) leitores(as) uma das que mais gostamos.

47.- 1993-OB-15_MG_7204--

Que nos perdoem as figuras ilustres que foram ou partiram desta nobre vila transmontano. Tendo de fazer opções, pelo espaço que já vai comprido neste post, ficámos pelos mais coetâneos.

48.- 2020.- Moncorvo (81)

(Torre de Moncorvo - Terra do Ferro)

10
Jun20

Memórias de um andarilho - Caminhadas nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor 1ª etapa - Destaque I - Igreja Matriz de Torre de Moncorvo

andanhos

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

  

DESTAQUE I – IGREJA MATRIZ DE TORRE DE MONCORVO

01.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 190

 

Introdução

A Linha do Sabor passava na vila de Torre de Moncorvo, em Lagoaça, nas proximidades de Freixo de Espada à Cinta e Mogadouro e ficou a poucos quilómetros de Miranda do Douro – em Duas Igrejas.

 

Ao longo de oito reportagens, correspondentes às oito etapas que fizemos a pé nesta antiga e abandonada Linha, conforme íamos passando nas localidades ou nas suas respetivas estações mais importantes, fizemos destaques sobre cada uma delas.

 

Fazendo uma retrospetiva do trabalho que deixámos feito para trás, demo-nos conta que, em Destaque, não falámos de Torre de Moncorvo.

 

Contudo, bem vistas as coisas, não o fizemos por puro esquecimento. Quisemos seguir o aforismo ou máxima, que supomos de origem inglesa, quando diz «The last but not the least» que, traduzido em português, quer dizer «Por último, mas não menos importante»!

 

Na verdade, assim é. Diríamos até que, inconsciente e propositadamente, deixámos Torre de Moncorvo para último lugar por questões de natureza sentimental que nos ligam a esta terra transmontana.

 

Tivemos um irmão que, por via da sua profissão, do Peso da Régua, se deslocou para esta vila. Juntamente com a então sua família, e mais dois rebentos que, entretanto,  ali lhe nasceram – embora, infelizmente, só lhe tenha vingado um – ali viveu mais de uma dezena de anos, nas décadas de 60 e 70 do século passado.

 

Todos os anos, invariavelmente nas férias letivas, – pois éramos ainda estudante – ou íamos a Torre de Moncorvo ou ele, quando podia, com a sua família, se deslocava a Chaves. Até que assentou arraiais nesta terra fronteiriça.

 

Por esta circunstância, pela permanência e convivência com aquela terra e as suas gentes, ficámos-lhe muito ligado.

 

Em particular não nos podemos esquecer um casal, com duas filhas, muito amigo de nosso irmão – João e Idalina – com comércio na Praça. Gente boa. De coração puro. Amigo do amigo.

 

Quase todos se foram!…

 

E os peixinhos do rio que se comiam na «tasca», na antiga ponte do Sabor?!...

 

A ideia com que ficámos, naquele tempo, era de uma terra farta – onde não faltava a amêndoa, o azeite e o vinho, ombreando com as vilas vizinhas de Mogadouro, Macedo, Freixo e Foz Côa. Terra de Solares importantes e grandes proprietários que, só de vez em quando, é que passavam temporadas na terra. Gente com pergaminhos e de posses. Mas que, na voracidade dos tempos, «tudo o vento levou»!

 

Com o decorrer dos anos, aquela terra de fartura, foi decaindo. Como, aliás, já noutras ocasiões aconteceu. E, não fora o 25 de Abril, com a força do Poder Local, e o seu rico património construído, adrede às glórias passadas da sua  História, Moncorvo, que foi centro urbano importante no Nordeste transmontano e nevrálgico de comunicações para a Europa culta e para o interior do país, particularmente nos séculos XVI a XVIII, não passaria de um recanto esquecido nos confins deste nosso Reino Maravilhoso.

 

Simplesmente a sua altaneira e imponente Igreja Matriz, impondo-se no meio do atual casario, não deixa passar indiferente a quem a visita e por ela passa.

 

Por esta razão, vamos-lhe dedicar inteiramente um post. E, ao lhe dedicarmos um post a este património religioso, outra coisa mais não fazemos que prestar um justo contributo às sucessivas gerações antanhas desta vila que, aproximadamente, ao longo de um século, a construíram.

 

Apresentaremos, assim, aos nossos(as) leitores(as) a Igreja, depois de tecermos algumas considerações prévias quanto à razão da construção de uma igreja tão grande, numa vila (hoje) tão modesta, que, a nossos olhos, mais se aparenta com uma catedral.

 

1.- Breves considerações quanto à construção da atual Igreja Matriz de Torre de Moncorvo

Diz-nos Fernando de Sousa,  sob o título «Moncorvo. Uma reflexão em torno da sua identidade», na obra - «Moncorvo – Da tradição à modernidade», da qual foi coordenador:

As origens do concelho de Torre de Moncorvo remontam à Idade Média. Em finais do século XIII, D. Dinis concedeu-lhe carta de foral, e no século XIV a vila foi dotada com muralhas e um castelo.

Nos séculos XV a XVII, Moncorvo vai conhecer uma notável prosperidade económica, graças sobretudo à riqueza agrícola do vale da Vilariça, a região mais fértil de Trás-os-Montes.

A expansão da cultura do linho cânhamo, da vinha, azeite, seda, lã, amêndoa e cereais, a exploração do ferro, o dinamismo comercial da sua importante feira, aliados à sua posição geográfica, que fazia de Moncorvo um importante nó de comunicações entre Trás-os-Montes e a Beira, constituem os fatores explicativos mais importantes do seu crescimento demográfico (300 fogos em 1530), do seu desenvolvimento económico e da sua afirmação como um dos polos urbanos mais importantes no Nordeste Trasmontano, projetando a sua influência muito além do seu município.

Assim, o rabino da sinagoga de Moncorvo chegou a deter jurisdição sobre todos os judeus de Trás-os-Montes. Moncorvo, no século XVI, na sequência da nova divisão administrativa do Reino, passa a sede de uma das quatro comarcas de Trás-os-Montes então constituídas, abrangendo um extenso território e a sede de provedoria. E sob o ponto de vista eclesiástico, constituía também uma comarca, ou seja, uma das cinco comarcas em que o vastíssimo arcebispado de Braga se dividia.

Graças à produção do linho cânhamo vão surgir, em finais do século XVI, os armazéns reais de cordoaria. Devido à larga produção de azeite, instala-se uma fábrica de sabão.

Esta prosperidade económica explica a renovação urbanística de Moncorvo no século XVI, marcada pela construção da sua majestosa igreja, considerada a maior de Trás-os-Montes(…).

Ultrapassada a fase de maior prosperidade da sua história, Moncorvo, a partir da segunda metade do século XVIII vai sofrer, devido a vários fatores, uma desaceleração da sua economia, acompanhando a progressiva decadência que afeta todo o Nordeste Trasmontano”.

 

Esta perspetiva é também corroborada por Eugénio Cavalheiro e Nelson Rebanda na obra «A Igreja Matriz de torre de Moncorvo», de 1998, editada por João Azevedo Editor, Terra Transmontana quando, a propósito da construção da atual Igreja Matriz de Torre de Moncorvo nos dizem:

“(…) é preciso não esquecer a maior centralidade demográfica de Torre de Moncorvo em relação, por exemplo, a Freixo de Espada à Cinta, beneficiando do cruzamento de dois eixos viários muito importantes: um, no sentido Este-Oeste, vindo de Espanha, por Freixo de Espada à Cinta, em direção a Braga e ao litoral Norte; outro, no sentido Norte-Sul, que era economicamente significativo na época, ligado às grandes feiras da fronteira, de Trancoso a Miranda do Douro. A travessia do Douro, obrigatória no sítio do Pocinho, trazia ao concelho de torre de Moncorvo grandes rendimentos da barca de passagem, cujo monopólio se firmava em privilégios antigos.

A par desse fluxo mercantil, é preciso não esquecer o ainda muito concorrido Caminho de Santiago, responsável pela invocação (…) da primitiva matriz de Torre de Moncorvo (…).

Ainda no plano económico, é de referir que a feira de Torre de Moncorvo, criada por D. Dinis em 1284 ou 1285 e franqueada por D. João I em 1395, era uma das mais importantes da região. Desde cedo, Torre de Moncorvo se terá tornado uma vila de mercadores, onde naturalmente se destacavam os judeus, a ponte de existir aqui, no séc. XV, um «ouvidor» (rabí-mór) da comuna judaica. De resto, este carácter municipal e burguês explicaria bem o apoio ao partido do Mestre de Avis, na crise política de 1383-1385.

Para além do comércio de longo curso, com o inerente tráfego de mercadores e almocreves, é preciso não esquecer o comércio local, praticado no mercado semanal ou à porta, mantido pelos diversos artífices e inúmeros camponeses. Torre de Moncorvo era um centro de um vasto «hinterland» agrícola centrado no vale da Vilariça e, em certa medida, «industrial», com a pequena metalurgias praticada nas «aldeias ferreiras» da orla da serra do Reboredo, em particular Felgueiras. Este aproveitamento do ferro, não devendo ser de grande escala, deveria suprir, pelo menos, as necessidades regionais.

De maior importância neste período foi, decerto, a primeira grande cultura industrial desta região: o linho cânhamo do vale da Vilariça, a qual alcançou a maior progressão no século XVI, apesar de se encontrar documentado o linho alcânave , na Vilariça, já no séc. XV. As necessidades de abastecimento de cordame, para as naus da Índia, explicam este incremento, que culminaria na criação de uma cordoaria régia em torre de Moncorvo, em 1617 (…).

Sempre que se regista um certo florescimento económico, numa dada sociedade, a monumentalização surge como que espontaneamente, com o desejo de afirmação e consolidação do poder que se disfruta. Neste caso, a monumentalização procurava suportar a secreta aspiração a sede de diocese, dada a extensão da arquidiocese de Braga e ao movimento de criação de novas dioceses. Deve salientar-se que o estatuto de diocese obrigava à elevação a cidade da respetiva sede.

Procurava-se por essa via, e por inerência, o alcance de um estatuto urbano que permitisse, como lugar central, controlar uma área mais vasta (…).

O facto de Torre de Moncorvo ser sede de almoxarifado e, depois, de comarca, alimentou necessariamente as suas pretensões a sede de diocese, procurando fazer coincidir, dessa forma, o poder civil e o religioso, num mesmo lugar. Nos meados do séc. XV, o almoxarifado de Torre de Moncorvo chegava a Bragança e às vilas de Bemposta, Algoso e Outeiro, a Norte, tendo Vila Flor e Ansiães, a Oeste. Por seu lado, a comarca judicial abarcava um território que chegaria a Chaves e à ponte de Amarante, chegando a ser considerada a maior do reino,

Nestas circunstâncias, não é de estranhar que nos finais do século XVII –inícios de XVIII, a população da vila de Torre de Moncorvo seja já de 460 vizinhos (entre 1800 e 2000 habitantes), um considerável aumento em relação a 1530”.

 [No «Numeramento de Trás-os-Montes», de 1530, indica-se para esta vila e seus arredores uma população de 245 moradores, o que equivale a cerca de um milhar de habitantes. Apesar de se encontrar, nesta altura de 1530, entre os núcleos urbanos mais expressivos de Trás-os-Montes, estava longe, segundo os autores que vimos citando, de ser o de maior peso. Na região transmontana, Bragança surge à cabeça com 481 moradores na cidade e 5649 no termo, seguindo-se Vila Real com 478 (sede) e 2976 (termo), Freixo de Espada à Cinta, com 447 (sede), Chaves, com 385 (sede) e 3389 (termo), Miranda do Douro com 287 (sede) e 1625 (termo). De acordo com o geógrafo Orlando Ribeiro, que explorou a mesma fonte, «mais nenhuma povoação ultrapassa 200 moradores (800 habitantes; Mirandela (…) apenas tinha 77»].

(…) A expulsão dos judeus da Espanha dos Reis Católicos, nos fis do século XV, teria beneficiado principalmente Freixo, visto ser lugar mais próximo da fronteira, aumentando os seus efetivos demográficos e acrescentando-lhe riqueza económica decorrente das atividades artesanais e mercantis da comunidade judaica, transformada depois em cristã-nova.

Com efeito, Freixo de Espada à Cinta era, nesta época, um importante entreposto comercial de fronteira, por onde passava uma das rotas europeias com destino a Portugal, utilizada por muitos peregrinos castelhanos, e mesmo do resto da Europa, em direção a Santiago da Galiza.

Tudo isto ajuda a explicar também a grandeza da igreja de Freixo de Espada à Cinta, cujo início de construção terá sido bastante anterior à de Torre de Moncorvo

[Assim] (…) se explica a tentativa de Freixo, nesse sentido, por volta de 1545, bem como Torre de Moncorvo, em 1617, neste caso já depois da criação da Diocese de Miranda do Douro, mas entretanto vaga. Como parece evidente, estas petições traem  o verdadeiro objetivo de edificações religiosas que de outra forma pareceriam algo megalómanas.

Acrescente-se ainda o caso de Bragança que, apesar de já possuir o título de cidade desde o século XV, razão pela qual terá descurado os «argumentos» construtivos, não deixou de se ressentir pela opção da catedral em Miranda. O máximo que Bragança conseguiu como contrapartida, foi, então, um auditório eclesiástico e a nomeação de um vigário geral. Mas, como se sabe, mais de duzentos anos depois, acabaria por beneficiar da transferência da sede de diocese, em 1764, agora com grande despeito dos mirandeses.

Numa região como a transmontana, de parcos recursos, de povoamento concentrado, de homens endurecidos por uma natureza adversa e pela pressão da fronteira, em que o municipalismo foi sempre uma imagem de marca, a emulação entre comunidades vizinhas era um dado adquirido. Isto é tanto mais verdadeiro quanto na «Europa rica» da Baixa Idade Média, se jogava no mesmo plano, como afirma o historiador Jean Gimpel: «Os monumentos de pedra edificados pelos arquitetos lisonjeavam a vaidade dos burgueses. As cidades rivalizavam em ambição, querendo cada uma possuir uma abóbada ou uma flecha mais alta do que a da cidade vizinha. Assim aqui, como na Europa do Gótico.

Imaginamos, por isso, a complexidade dos jogos de influências, junto do poder central, para obtenção de qualquer benesse, como sobejamente nos transmitem os Capítulos das Cortes.

No caso vertente, o poder central acabaria por favorecer a escolha de Miranda do Douro, como sede de nova diocese, a qual foi criada pela bula do papa Paulo III, em 1545. Não deixa, a propósito, de ser curiosa a explicação dada pelo Abade de Baçal: «Nada (…) justificava tal preferência dada a essa cidade em concorrência com Bragança, a não ser o capricho de D. Catarina, mulher de el-rei D. João III, em engrandecer com benefício perdurável a primeira terra por onde entrou ao vir assentar-se no trono de Portugal. Clima áspero, tristonho, insalubre, pouco fértil e, de mais a mais, deslocada num canto da diocese». É o bragançano a falar.

Na esteira do abade de Baçal, Veríssimo Serrão acrescenta que a essa fundação «não foi estranha a vontade da rainha  D. Catarina, desejosa de colocar ‘alguns sujeitos’ da sua casa», já que eram espanhóis o primeiro e o terceiro bispo.

Pela nossa parte, pensamos que havia também, da parte do rei e da igreja portuguesa, algum interesse em fortalecer um posto avançado da fronteira e limitar a influência dos mosteiros leoneses na região, ainda senhores de significativas rendas do lado de cá da fronteira. Além disso, Miranda era um importante polo comercial transfronteiriço.

Entretanto o início da construção da catedral mirandesa só ocorreria em 1552, num momento em que quer Freixo de Espada à Cinta, quer torre de Moncorvo já teriam as suas igrejas muito adiantadas.

Conforme notou, já no século passado, o historiador de arte Joaquim de Vasconcelos, num artigo sobre o cânhamo, «com o dinheiro que rendeu o linho, o cânhamo, e o modesto bicho da seda, levantou a gente de Moncorvo a sua majestosa catedral da Renascença. Se quanto à sericultura esta só vai ganhar expressão nesta região, bastante mais tarde, a partir do séc. XVIII, sobre o cânhamo parece-nos aceitável a opinião deste autor.

É ainda Joaquim de Vasconcelos que, no mesmo artigo, ressalta o carácter burguês e comunal de Torre de Moncorvo, na génese da Igreja matriz: «ao passo que nas outras catedrais do país se encontram em toda a parte, na frontaria, na abside, nos pilares das naves, na galeria do coro, na caixa do órgão, na talha dos altares e dos retábulos, por toda a parte, os escudos da nobreza e do clero, debalde procurareis a heráldica no templo de Moncorvo. Ali só pode haver um brasão, o da cidade, pois foi o município que o levantou. E é ainda hoje o município que conserva este templo num perfeito estado de conservação, dotando-o com a maior generosidade. O filho de Moncorvo já não pensa talvez na seda, no linho e cânhamo, mas cita com orgulho a sua igreja, hoje como no século XVI, perfeita, imaculada e pura em todas as suas linhas! Pois é preciso dizer-lhe que essa fábrica grandiosa tem em Moncorvo a significação que um burguês de Nuremberga, ou de Augsburgo, de Ulm e de Colónia, de Pisa e de Génova, reconhece nos seus monumentos religiosos e civis: são os padrões da grandeza de municípios independentes, compostos de homens livres, que souberam conservar a sua preciosa liberdade rodeados de instituições feudais; que o cimentaram com o suor e com o sangue da indústria e do comércio, no ardor da forja, no tumulto dos mares e no remanso do tear (…)

Em resumo, podemos considerar que as condições que determinaram a construção e o volume da atual igreja de Torre de Moncorvo, se deviam a um certo crescimento demográfico, e a condições económicas e sociais favoráveis, beneficiando de ser um lugar de passagem na rota dos mercados regionais e no Caminho de Santiago. O aro concelhio possuía excelentes terras de cultivo, com produções bastantes ao autoconsumo e venda para o exterior, sendo de destacar a primeira cultura «industrial» da região, a do linho cânhamo. A dinâmica comercial era impressa por uma classe mercantil enraizada, reforçada pelo elemento judaico, feito cristão-novo depois do século XV. Como tal, o seu contributo para a obra da igreja não deixaria de ser verificado, até como forma de afastar suspeitas decorrentes da conversão forçada.

Temos depois uma acentuada tradição municipalista, amplamente favorecida, no caso de Torre de Moncorvo, por vários reis portugueses, como D. Dinis, D. Fernando e D. João I, que fizeram desta vila um centro de poder e de prestígio. Paralelamente a uma elite local de homens-bons e herdeiros dos cavaleiros-vilãos de Santa Cruz da Vilariça, um funcionalismo administrativo e judicial relacionado com o almoxarifado e a sede da comarca, acentuavam o carácter mais ‘terciário’ e menos rural de Torre de Moncorvo.

No plano religioso, havia que reforçar a afirmar a presença da igreja católica, numa época de crise, marcada a nível europeu pelo movimento da Reforma e, a nível peninsular, pela expulsão dos judeus da Espanha dos Reis Católicos, os quais se deslocaram em grande número para a orla da fronteira portuguesa. Assim, a grandeza da igreja-edifício não deixaria de ser associada, também, à da ordem religiosa que representava”.

 

Para uma perspetiva mais alargada da história de torre de Moncorvo, veja-se o artigo de José Marques «Moncorvo e os seus antecedentes, no contexto transmontano, na Idade Média», na obra acima referida - «Moncorvo – Da tradição à modernidade».

 

2.- As antigas igrejas de Santiago e de Santa Maria

Continuando a citar a obra de Eugénio Cavalheiro e Nelson Rebanda:

A primeira igreja matriz de Torre de Moncorvo, dedicada a Sant’Iago, ficava situada à entrada do atual cemitério. Por esta razão, o arruamento lateral conserva ainda este topónimo, apesar da designação de Santo Cristo que essa igreja passou a ter, a partir do século XVIII. No entanto, a tradição de ter sido aí a primeira matriz e de a mesma ser de invocação de Santiago, estava ainda viva nesse século, conforme atestam diversos relatos da época. Foi destruída nos finais do século XIX, pelo alargamento do referido cemitério.

Com efeito, ainda Torre de Moncorvo não beneficiava do estatuto de vila, quando das Inquirições de Afonso III, de 1285, surge a referência a uma ecclesiam de Santiago de Turre de Menendo Curvo, a qual era anexa da de Santa Cruz da Vilariça, ao tempo, sede do julgado do mesmo nome. Esta vila de Santa Cruz, que recebera foral de D. Sancho II, em 1225, viria a despovoar-se nos inícios do século XIV, tendo o grosso da sua população passado para o lugarejo de Torre de Mem Corvo.

Certamente, com a transferência dos foros de Santa Cruz da Vilariça, para Torre de Mem Corvo, em 1285, a antiga igreja sufragânea passaria a ser a matriz da nova vila, enquanto se edificava a cintura de muralhas que passaria a circuitar o novo núcleo urbano.

Seria lógico que surgisse, então, uma nova igreja intramuros, em lugar central, como por exemplo onde hoje se encontra a igreja da Misericórdia, que é renascentista (Séc. XVI). Apesar da possível existência de uma capela, neste local, precedendo a igreja da Misericórdia, não nos parece que aqui se tenha localizado uma nova igreja, com este estatuto.

Chegamos, assim, à problemática do aparecimento e localização da igreja de Santa Maria.

De facto, em dado momento do séc. XIV, surge referida na documentação uma igreja denominada de Sancta Maria da Torre de Mencorvo, também de padroado real, tal como a de Santiago, como se vê pelas cartas de apresentação dos respetivos clérigos, emitidas pelo rei D. Pedro I.

(…) seria de esperar que tal igreja de Santa Maria se situasse na zona intramuros, visto que o perímetro muralhado era de construção recente, encontrando-se o castelo ainda em obras. Ora pouco provável, por isso, que já não houvesse espaço, no interior da cerca, para uma igreja que deveria ter sido aí planeada desde o início, se considerarmos o urbanismo típico das chamadas «vilas novas» medievais. No entanto, por razões desconhecidas, parece que a localização da igreja intramuros, não chegou a acontecer. Ou, pelo menos, não a de Santa Maria”.

(…) A importância da igreja de Santa Maria [localizada sensivelmente no mesmo local da atual Matriz] verifica-se ainda antes da construção da igreja atual, pois cedo se converte em paroquial. Passam então a coexistir duas Abadias na vila de Torre de Moncorvo: Santiago e Santa Marias (…).

A supremacia de Santa Maria nesta época sobre Santiago terá sido alcançada no final do século XV, na passagem para o XVI.

(…) Serão, porventura, [também] os rendimentos crescentes da igreja de Santa Maria, designadamente as doações de propriedades no vale da Vilariça, que levarão à decisão de se construir uma igreja maior, mais consentânea com um burgo florescente, no auge dos Descobrimentos”.

 

3.- Apresentação da Igreja Matriz de Torre de Moncorvo

Vejamos, primeiro, uma panorâmica geral, em vídeo, sobre a Igreja Matriz de Torre de Moncorvo, e um resumo, feito pelo historiador Nelson Rebanda, sobre o que acima vertemos.

 

Competição para Catedral: a candidata nº 2, Torre de Moncorvo

Socorremo-nos, agora, dos sítios da internet  «Igreja Matriz de Torre de Moncorvo – Guia Turístico do Douro»  , «Igreja de Nossa Senhora da Assunção, Matriz de Moncorvo – Visit Portugal»  e «Igreja Matriz de Torre de Moncorvo – Câmara Municipal de Torre de Moncorvo»  para darmos uma vista de olhos sobre o edifício em si e alguns dos seus elementos mais significativos, quer exteriores, quer interiores.

 

A Igreja Matriz de Torre de Moncorvo é um dos monumentos mais interessantes que o visitante pode, e deve, apreciar no nordeste transmontano. Construída sobre as ruínas da igreja medieval de Santa Maria, as obras na igreja matriz terão começado no início do século XVI (1544)  terminado um século mais tarde. Erguendo-se em torno da torre sineira e nos seus 30 metros de esplendor, é dedicada a Nossa Senhora da Assunção. 

02.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 185

Considerada uma das maiores igrejas paroquiais do país, é um imponente edifício de granito cuja verticalidade é acentuada pela grande torre saliente.

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A Fachada Principal do monumento é dominada pela torre axial, de planta quadrangular

e marcada pelo pórtico retabular maneirista, feito em arco e flanqueado por dois pares de colunas.

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Sobre o portal estão as imagens de S. Pedro e S. Paulo que ladeiam a de Nossa Senhora da Assunção.

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E acima destes ainda se pode observar uma janela em arco ladeada por dois óculos.

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Na parte superior da torre existem duas varandas e, acima destas, os sinos e também um relógio. A um nível mais elevado, nas laterais da Igreja, estão várias janelas e mais abaixo dois pórticos de estilo renascentista, um em cada lado.

08.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 160

Possui lateralmente, dois corpos salientes: a Sacristia, a norte;

09.- a-igreja-matriz

(Vista geral)

09a.- Sacristia-pormenor

(Pormenor)

e um Alpendre junto ao pórtico sul.

10.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 241

A Capela-mor de forma retangular é destacada do corpo principal.

11.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 145

No portal lateral Sul, em estilo renascentista, lê-se a data de 1567 numa inscrição. Ladeando o portal, podemos ver dois rostos esculpidos em baixo-relevo, em medalhões, que constituem um elemento decorativo característico do estilo e que alguns historiadores identificam como sendo o retrato dos arquitetos.

 

O portal lateral Norte, também renascentista, tem a data de 1566.

12.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 237

Os elementos decorativos que animam o exterior do templo merecem uma observação atenta, nomeadamente as gárgulas com formas zoomórficas,

13.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 157

antropomórficas e de seres híbridos em atitudes curiosas.

14.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 156

Repare-se na figura que puxa as orelhas ou nas que estão de boca aberta, simulando gritos, mas com a simples função de escoarem a água da chuva.

 

No interior do vasto templo, pode-se reparar que está dividido em três naves e em cinco tramos, estando cobertas por abóbada de múltiplas nervuras que saem de oito enormes pilares. É em estilo manuelino e está enriquecido por vários altares barrocos. Está organizado segundo o esquema das «igrejas-salão» com três naves, sendo os cinco tramos destas abobadados à mesma altura.

15.- 2020.- Moncorvo (39)

(Perspetiva I)

15a.- 2020.- Moncorvo (23)

(Perspetiva II)

16.- 020.- Moncorvo (41)

(Perspetiva III)

Na Capela-mor pode-se admirar um grande retábulo de talha dourada barroca, da autoria do escultor bracarense Jacinto da Silva, de 1752.

16a.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 286

(Vista geral ampla)

16b.- 2020.- Moncorvo (26)

(Vista geral I)

16c.- 2020.- Moncorvo (27)

(Vista geral II)

17.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 249

(Pormenor I)

17a.- 2020.- Moncorvo (38)

 (Pormenor II)

17b.- 2020.- Moncorvo (42)

(Cadeiral)

A abóbada é de berço.

17c.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 280

As pinturas murais do altar-mor e do corpo da igreja, atribuídos a Francisco Bernardo Alves, datam do séc. XVIII.

18.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 250

(Lado da Epístola)

19.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 251

(Lado do Evangelho)

Nas paredes laterais da mesma encontram-se frescos representando a Anunciação e a Última Ceia.

21.- 2020.- Moncorvo (44)

A Capela-mor é ladeada por dois absidíolos em semicírculo: a Capela do Santíssimo Sacramento,

23.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 294

(Vista geral)

24.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 276

(Pormenor)

que apresenta um retábulo com vários painéis alusivos à Vida e Paixão de Cristo, bem como esculturas dos evangelistas e doutores da Igreja

25.- 2020.- Moncorvo (34)

(Pormenor I)

26a.- 2020.- Moncorvo (35)

(Pormenor II)

26.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 268

(Pormenor III)

26b.- 2020.- Moncorvo (36)

(Pormenor IV)

26c.- 2020.- Moncorvo (37)

(Pormenor V)

 e a Capela das Chagas – que parece reaproveitar elementos de talha dourada rococó, provavelmente provenientes do desaparecido convento de S. Francisco.

 

Existem também outros quatro no resto do templo - o das Almas do Purgatório,

27.- 2020.- Moncorvo (51)

o de Nossa Senhora da Assunção,

28.-

o de Santo Cristo ou S. Pedro e S. Paulo

29.- 2020.- Moncorvo (50)

(Vista geral)

29b.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 290

(Pormenor I)

29a.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 291

(Pormenor II)

e o da Sagrada Família.

30.- 2020.- Moncorvo (47)

Na Sacristia pode-se também apreciar outra magnífica obra de talha, seiscentista e de tipologia maneirista.

 

A Sacristia é abobadada com nervuras de traça manuelina. O altar, proveniente do corpo da igreja, é atribuível ao séc. XVII.

 

No Batistério é de realçar o Santo Cristo, S. João Evangelista e Maria Madalena, de aspeto flamengo.

 

Na Capela do Santíssimo Sacramento há a realçar um tríptico flamengo - representando o «Casamento de Santa Ana e a Sagrada Parentela».

 

O Tríptico da Parentela de Santa Ana, está situado na Capela do Santíssimo Sacramento. É um precioso retábulo do séc. XVI, em estilo maneirista, proveniente de uma oficina de Antuérpia. É considerado uma das obras de arte mais valiosas da região transmontana.

31.-2020.- Moncorvo (29)

(Vista geral)

32.- 2020.- Moncorvo (31)

(Painel da esquerda – O casamento)

33.- 2020.- Moncorvo (32)

(Painel da direita - S. Joaquim com Santa Ana à entrada da Porta Dourada de Jerusalém)

34.-

(Painel central - Santa Ana rodeada dos três maridos e restante Parentela, já no Paraíso, sem ciúme nem pecado)

Santa Ana foi exaltada pelos humanistas a partir do século XV e largamente durante o século XVI, apontada como esposa ideal, opondo-se à feiticeira tentadora que leva o homem ao pecado”. In:- «Relações culturais internacionais de Torre de Moncorvo (séculos XV-XVII)» - Adriano V. Rodrigues e Maria da Assunção Carqueja.

 

O tríptico está autenticado nas costas com sinais da corporação dos escultores de Antuérpia.

 

No Coro Alto, que está num piso intermédio da torre, há a apreciar um soberbo órgão de tubos, datado do século XVIII.

35.- 2020.- Moncorvo (49)

(Vista geral do Coro Alto com o órgão)

36.- 2020.- Moncorvo (52)

(Órgão no Coro Alto)

De acordo com a tradição popular, chama-se a esta igreja «de figos e de mel»: por  uma figueira ter nascido a meio da fachada e de existir uma colmeia na parede exterior do lado direito que, após várias tentativas de limpeza, aí permanecem há muitos anos.

 

No Átrio da Igreja, à esquerda, abre-se uma grande inscrição em letras capitulares maiúsculas, com algumas abreviaturas, referentes à Capela de Assoreira (Nossa Senhora da Teixeira).

37.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 301

29
Mai20

Memórias de um andarilho - Caminhadas nas vias férreas portuguesas abandonadas - linha do Sabor - 6ª etapa - Mogadouro-Sanhoane

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

  

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

  

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

6ª ETAPA:- MOGADOURO-SANHOANE

(30.abril.2012)

01.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (12)

(Estação de Variz)

Como já demos conta, estamos a seguir esta Linha do Sabor no sentido ascendente, do Pocinho para Duas Igrejas. Embora esta etapa - de apenas 9 Km -, apareça como a , na verdade, em termos reais, ela foia a , depois de termos efetuado Pocinho-Torre de Moncorvo; Torre de Moncorvo- Freixo de Espada à Cinta e Freixo de Espada à Cinta-Lagoaça, feitas, respetivamente, de 2 a 4 de abril de 2012. As etapas Bruçó-Lagoaça e Mogadouro-Bruçó, feitas respetivamente a 28 e 27 de junho, no sentido descendente, mas que aparecem nas reportagens feitas em sentido ascendente, ou seja, Lagoaça-Bruçó e Bruçó-Mogadouro, pelas razões expostas nas respetivas reportagens neste blogue, embora aparecem como e , porque feitas posteriormente, deveriam aparecer com e , respetivamente.

 

Não acontece assim, porquanto – e como já explicámos – estamos a seguir a lógica da Linha percorrida em sentido ascendente, tal como a iniciámos.

 

Como também já demos conta, estas últimas três etapas, que percorremos de Mogadouro até Duas Igrejas, foram realizadas sozinho e com o apoio logístico de nosso filho que, nesta altura estava em serviço na Barragem de Picote e alojado em Miranda do Douro.

 

***

 

Foi uma caminhada feita em pleno Planalto mirandês na qual não  nos cruzámos com viv’alma de gente. Apenas a primavera em plena força.

 

Num silêncio profundo apenas quebrado pelos sons dos animais – principalmente aves – percorrendo os céus e embrenhando-se nas árvores e arvoredos.

 

Uma caminhada convidando à paz e tranquilidade de espírito. E a reflexão. Sobre a Natureza. Sobre o Homem. Sobre o que o homem faz na Natureza. Sobre o pouco respeito que temos pelo legado dos nossos antepassados. Pelo suor que tiveram de verter para que o dito Progresso aqui também chegasse, pago a peso de ouro pelos – sempre os mesmos – coitados. Os quais, a páginas tantas, em desespero de causa, outro remédio não tiveram senão que abandonar as poucas e parcas leiras que trabalhavam. Saíram do «berço» onde nasceram, procurando uma vida melhor noutras paragens por esse Mundo fora, principalmente dessa Europa dita rica, e que, invariavelmente, todos os anos aqui regressam para matar saudades da terra que deixaram e dos seus entes queridos – pouco e já idosos – que ainda aqui resistem em viver.

 

Pobre país este!

 

Cada quilómetro percorrido era como uma espécie de fita de cinema que, no nosso íntimo, íamos observando ao longo dos diferentes cenários por onde passávamos, depois de deixarmos a Estação de Mogadouro para trás

02.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (2)

e, à medida que dela nos afastávamos, a observávamos de longe.

03.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (18)

Em pouco tempo, e compenetrado nas nossas cogitações, só interrompidas por um ou outro obstáculo,

04.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (5)

passávamos pela estação de Variz.

 

Deixamos aqui quatro perspetivas desta bonita, embora singela, Estação,

05.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (6)

(Perspetiva I)

06.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (9)

(Perspetiva II)

07.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (11)

(Perspetiva III)

08.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (10)

(Perspetiva IV)

e mais dois pormenores da mesma, nos quais, aqui, é o bonito azulejo que sobressai.

09.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (15)

(Pormenor I)

10.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (16)

(Pormenor II)

Fizemos uma pequena paragem técnica em Variz para nos hidratarmos, comermos frutos secos e ver a sua Igreja.

11.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (17)

E continuámos: ora observando os diferentes cenários do planalto,

12.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (19)

(Cenário I)

13.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (24)

(Cenário II)

14.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (22)

(Cenário III)

15.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (27)

(Cenário IV)

16.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (23)

(Cenário V)

17.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (20)

(Cenário VI)

ora o trilho  percorrido do canal da Linha.

18.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (21)

(Trilho I)

19.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (25)

(Trilho II)

20.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (26)

(Trilho III)

21.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (28)

(Trilho IV)

O tempo das giestas floridas, por estas paragens, e nesta altura, já tinha passado.

 

No meio do silêncio do planalto, chegávamos a Sanhoane.

22.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (29)

Combinámos com o Tópê, nosso filho, que nos encontraríamos nesta paragem de autocarros.

23.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (30)

Enquanto Tópê não chegava, demos uma pequena volta à aldeia. Nela se destaca a sua Igreja Matriz.

24.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (32)

Observámos o seu velho e casario tipicamente transmontano,

25.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (34)

(Perspetiva I)

26.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (35)

(Perspetiva II)

despedindo-nos deste quadro rural, enquanto íamos para a «Paragem» ao encontro de nosso filho.

27.- 2012 - Linha do Sabor -Mogadouro-Sanhoane (36)

Foi, positivamente, uma caminhada suave, em pleno planalto, sentindo-nos do topo do mundo, e em completa reflexão sobre nós, a Natureza e a condição Humana.

 

Apresentamos o diaporama desta etapa realizado em março de 2013.

 

LINHA DO SABOR – 6ª ETAPA:- MOGADOURO-SANHOANE

27
Mai20

Memórias de um andarilho - Caminhadas nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor 5ª etapa - Destaque - Mogadouro

andanhos

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

 

5ª ETAPA:- BRUÇÓ-ESTAÇÃO DE MOGADOURO

DESTAQUE – MOGADOURO

 

(27.junho.2012)

01.- 2012 - Mogadouro 020

A antiga Estação de Caminho de Ferro de Mogadouro dista cerca de 5 Km da vila com o mesmo nome.

 

Enquanto fazíamos o percurso pela Linha, não tivemos oportunidade de a visitar.

 

Num nosso post, neste mesmo blogue, de 26 de janeiro de 2013, subordinado ao título «Gallaecia – Por terras da Gallaecia – Adeus à Ponte de Remondes e rio Sabor!», a determinada altura, dizíamos:

No passado 3 de Maio, vindo dos lados de Miranda do Douro, onde fomos visitar um familiar, depois de termos terminado, a pé, a antiga Linha de Caminho de Ferro do Sabor, passámos por aquele local em direcção a Izeda, onde nunca ainda tínhamos parado, apesar de por lá passarmos uma ou duas vezes (…).

Das nossas caminhadas pelas «Travessas e Linhas Abandonadas» deste nosso Reino Maravilhoso, para além de conhecermos o rio Douro, do Pocinho à Barca d’Alba, o rio Tua e o Corgo, que correm paralelos às respetivas linhas, estávamos ansioso também por conhecermos o Sabor. Razão pela qual nos aventurámos a fazer também aquela linha, desde o Pocinho até Duas Igrejas, término da mesma.

Mas, quando se percorre esta Linha, o rio anda muito afastado de nós, a não ser entre Pocinho e Torre de Moncorvo, nas proximidades daquela vila.

Para quem vinha de fazer uma Linha com o nome de um rio, ainda por cima com a fama, tal como o Tua, que corria em «estilo natural» e sem qualquer intervenção humana que o desfigurasse no seu aspeto e estrutura natural, mas que, praticamente, nunca o tínhamos visto, hoje entendemos aquela nossa atitude de pararmos ali à saída da Ponte de Remondes e «botar» pernas rio acima, num forte impulso para o melhor conhecermos e sentirmos, depois da frustração de termos feito a Linha que levava o seu nome e quase nem sequer termos visto - em toda a sua extensão - as suas águas”.

 

E, tal como já aconteceu em 26 de janeiro de 2013, deixamos aqui aos nossos(as) leitores(as) os excelentes cenários que, então, ali observámos.

02.- 2012 - Mogadouro 031

(Cenário I – Na descida de Mogadouro para Macedo de Cavaleiros pela EN 216)

03.- 2012 - Mogadouro 026

(Cenário II – Na descida de Mogadouro para Macedo de Cavaleiros pela EN 216)

04.- 2012 - Mogadouro 030

(Cenário III – Arquitetura tipicamente transmontana de uma casa)

05.- 2012 - Mogadouro 037

(Cenário IV – Rio Sabor nas proximidades da antiga Ponte de Remondes)

06.- 2012 - Mogadouro 041

(Cenário V – Foz do rio Azibo perto da antiga Ponte de Remondes e Ponte de Meirinhos sobre o rio Azibo)

07.-012 - Mogadouro 042

(Cenário VI – Ponte de Meirinhos sobre o rio Azibo)

07a.- 2012 - Mogadouro 061

(Cenário VII – Rio Sabor e antiga Ponte de Remondes ao fundo)

08.- 2012 - Mogadouro 062

(Cenário VIII – rio Sabor e antiga Ponte de Remondes)

08a.- 2012 - Mogadouro 044

(Cenário IX – Perspetiva I da antiga Ponte de Remondes)

09.- 2012 - Mogadouro 048

(Cenário X – Perspetiva II da antiga Ponte de Remondes)

10.- 2012 - Mogadouro 057

(Cenário XI – Perspetiva I pelo rio Sabor acima)

11.- 2012 - Mogadouro 078

(Cenário XII – Perspetiva II pelo rio Sabor acima)

Todas as imagens que acima foram exibidas foram tiradas em maio de 2012.

 

Atualmente, a antiga Ponte de Remondes, com a construção do Empreendimento Hidroelétrico do Baixo Sabor, ficou submersa e foi substituída por esta:

12.- 2012 - Mogadouro 049

(Perspetiva I da atual Ponte de Remondes)

13.- 2012 - Mogadouro 050

(Perspetiva II da atual Ponte de Remondes)

Desde janeiro de 2016 que deixou de ser possível atravessar a antiga Ponte de Remondes. A atual ponte foi construída a montante da antiga, permitindo desfrutar de todo o panorama a montante e a jusante.

 

Contudo, para nós, não é a mesma coisa!...

 

***

 

Na nossa aproximação à vila de Mogadouro, ei-la alcandorada num morro do Planalto Mirandês.

14.- 2012 - Mogadouro 001

Quando, a 3 de maio de 2012, nos aproximámos do centro urbano de Mogadouro, deparámos logo com esta rotunda,

15.- 2012 - Mogadouro 006

ao lado da Capela da Senhora do Caminho,

16.- 2012 - Mogadouro 008

que fica situada no início da avenida com o mesmo nome. Este templo religioso foi edificado no século XVII, vindo a sofrer alterações no decorrer dos tempos.

 

A atual configuração foi obtida com as obras realizadas no século XIX.

 

De  Mogadouro vamos falar, principalmente, da sua história.

 

Mogadouro é um povoado antigo e anterior à fundação do Condado Portucalense. O topónimo Mogadouro, será de origem árabe - Macaduron.

 

É um concelho eminentemente rural. Agreste, mas doce. A sua gente é sã, afável e laboriosa. E herdeira de um carácter nobre e de uma história rica e antiga. Está situado no Nordeste Transmontano, no Planalto Mirandês, entre os rios Douro e Sabor. Está limitado pelos concelhos de Vimioso, Miranda do Douro, Alfândega da Fé, Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta. E também  pelos Ayuntamientos ribeirinhos do Douro, de Salamanca e Zamora.

 

Foi ocupado pelos Romanos. Dominada mais tarde pelos Visigodos, até à conquista por parte dos Muçulmanos.

 

Na Reconquista Cristã, na Península Ibérica, Mogadouro, ainda com D. Afonso Henriques, passa a integrar o Reino de Portugal. O nosso primeiro rei entrega esta terra de Mogadouro à Ordem dos Templários. Por volta de 1145.

 

Em 1272, D. Afonso III concedeu o primeiro foral a Mogadouro, tendo sido renovado no ano seguinte. Mais tarde, em 1512, D. Manuel concedeu novo foral. Em 1433, a vila de Mogadouro é doada a Álvaro Pires de Távora, passando a estar desde então ligada à família dos Távoras.

 

Contudo, só  a partir do século XVI é que Mogadouro teve algum progresso de relevância, quando a família dos Távoras toma o comando da vila e da sua fortaleza e coopera de tal forma que a vila desenvolve-se imenso.

 

Para tal feito contribuíram obras como a fundação da Santa Casa da Misericórdia e também do seu templo, renascentista, cuja portada principal é formada por duas pilastras dóricas

17.- 2012 - Mogadouro 021

e frontão tem sobre a arquitrave um nicho em forma de conha – onde se encontra uma bela pietá – e é ladeado por duas aletas,

18.- 2012 - Mogadouro 022

bem assim a ponte entre Valverde e Meirinhos ou a ponte de Remondes entre Mogadouro e Macedo de Cavaleiros, de que já acima falámos.

 

Diz-nos «Mogadouro, mais que imagina» que, na vila de Mogadouro, é indispensável uma visita ao seu Centro Histórico, onde encontramos o Castelo, do século XII,

20a.- 2012 - Mogadouro 019

(Torre do Castelo; ao lado, a Torre do Relógio)

e de que hoje, como podemos ver, do original, apenas existe uma das torres,

19.- 2012 - Mogadouro 013

[Sobre o Castelo de Mogadouro, e para quem queira aprofundar mais este tema, recomenda-se a leitura dos sítios da internet «Fortalezas.org – Castelo de Mogadouro» e «Viagem à Natureza – Castelo de Mogadouro» que nos dizem que Mogadouro, localizada na vertente norte da serra de Mogadouro, era uma antiga vila, que, juntamente com seu castelo, constituíram, nos alvores da nacionalidade, um importante ponto estratégico sobre a linha lindeira em Trás-os-Montes, juntamente com os castelos de Algoso, Miranda do Douro, Outeiro, Penas Róias e Vimioso. Comenda da Ordem do Templo, posteriormente foi sucedida pela Ordem de Cristo].

 

a Igreja Matriz, de S. Mamede, de origem românica, apesar de ter sido substituída pelo templo que hoje podemos apreciar

20.- 2012 - Mogadouro 012

e cuja fundação remete para as primeiras décadas do século XVII, devendo-se também a D. Luis Álvares de Távora, tal Igreja da Misericórdia (século XVI), o Convento de São Francisco (1620-1682),

22.- Convento de S. Francisco

contíguo à igreja com o mesmo nome, cuja fundação remete para as primeiras décadas do século XVII e, uma vez mais,  se deve a D. Luis Álvares de Távora,

23. Igreja do convento de S. Francisco

(Fonte:- «Mogadouro, mais que imagina»)

e o pelourinho.

24.- 2012 - Mogadouro 017

Embora estivéssemos no Castelo e no pelourinho da vila, na altura, não conseguimos, no meio daquelas ruínas, distinguir o antigo Solar dos Pegados, próximo do pelourinho.

DSC00115

(Fonte:- Viagem a Portugal [Janeiro - Trás-os-montes e alto Douro Vinhateiro - O início da aventura])

Se se quiser ver o que resta deste Solar, consulte-se o blogue «Mogadouro (ho mogadoyro)», de 26 de julho de 2011.

 

Diz-nos mais «Mogadouro, mais que imagina» que a Sala Museu de Arqueologia do Município de Mogadouro abriu nos finais década de 80 do século XX, resultante das campanhas arqueológicas realizadas no concelho durante a referida década, e que, no seu interior, conservam-se peças que mostram a história das culturas passadas, que habitaram no atual concelho de Mogadouro. Os artefactos expostos e guardados, antes de se converterem em peças de Museu, foram objetos do quotidiano dos nossos antepassados. E que, das primeiras formas de manifestações dos rituais funerários, chegaram até aos nossos dias os monumentos megalíticos da Pena Mosqueira e do Barreiro, dos quais foram recolhidos artefactos de índole quotidiano e de manifestações artísticas.

 

E continua: dispersos pelo concelho, os castros, as igrejas com, origens românicas, como Algosinho e Azinhoso, os pelourinhos, e as próprias construções tradicionais que podemos descobrir pelas aldeias do concelho são marcas indeléveis de um património vasto e extremamente rico.

 

O concelho vive principalmente da agropecuária.

 

Produz cereais e explora a amendoeira, a vinha, a oliveira, o castanheiro e o sobreiro. E cria gado para produção de carne – bovino, caprino e ovino  - para a produção de lã, leite e também carne.

 

Existem no concelho coutos onde se pode praticar a caça ao coelho, à lebre e à perdiz. O setor secundário é dominado principalmente pela construção civil e pelo fabrico de cerâmica.

 

O turismo começa agora a ganhar alguma relevância em relação a outras épocas, estando o concelho inserido na Região de Turismo do Nordeste Transmontano.

 

A gastronomia é uma das riquezas da região, assim como em todo o Planalto Mirandês, onde se destacam a posta mirandesa, o bulho com cascas, a feijoada à transmontana, a marrã, os chichos, o javali, o cabrito assado, as costeletas de borrego grelhadas, a caça, os peixinhos do rio de escabeche, as sopas de Xis e de Cegada, os queijos de ovelha, o mel e claro o fumeiro.

 

A ocasião ideal para visitar esta região é fevereiro/março, quando as amendoeiras estão em flor cobrindo os campos com um manto branco, podendo-se admirar as belíssimas paisagens, a partir da serra da Castanheira ou do castelo de Penas Róias, nas redondezas.

 

Os bordados e as rendas são sem dúvida o mais vulgarizado artesanato local dada a facilidade com que o podemos encontrar. Nas aldeias, frequentemente encontramos as senhoras sentadas na soleira da porta de suas casas fazendo os seus bordados e rendas, ao mesmo tempo que desfrutam do bom tempo.

 

Uma vez que Mogadouro fica junto do Parque Natural do Douro Internacional, podem-se realizar passeios de barco, num troço do rio Douro, que estabelece a fronteira entre Portugal e Espanha, observando-se as suas imponentes arribas - margens rochosas e abruptas que atingem, em alguns pontos, mais de 200 metros de altura.

 

Remata o sítio que vimos seguindo que, para além do português, nesta região, também se fala o mirandês. Quando por lá passámos não nos demos conta de tal!

 

No coração desta vila transmontana, ao lado do Convento e da torre da Igreja de S. Francisco,

25.- centro_vila_mgd_1_980_2500

está  erigido um monumento a um célebre escritor da terra – (José Francisco) Trindade Coelho.

26.- 2012 - Mogadouro 010

Quem quiser conhecer a detalhe a vida e obra de (José Francisco) Trindade Coelho, descarregue a dissertação de doutoramento de João dos Santos Cabrita de Encarnação - «Trindade Coelho: Estudo Crítico e Arquivo Documental de um polígrafo Finissecular», em pdf.

 

As suas duas obras principais são: o livro de contos - «Os Meus Amores» e «In illo tempore».

 

Do autor do blogue «Letras são papeis – Trindade Coelho», de 31 de março de 2009, a certa altura, diz-nos:

Porque vivi muito tempo a dois passos da casa onde ele nasceu e porque da minha janela, como da dele, se via a torre da igreja do Convento de S. Francisco, cedo despertou em mim o gosto pelo autor.

O primeiro contacto com as palavras do autor veio-me pela boca de uma amiga mais velha, que nos lia, aos que ainda não sabíamos ler, excertos da autobiografia do autor, inserta no volume de contos Os Meus Amores. Só na adolescência, li esse e outros títulos. Deliciei-me com O Senhor Sete, que constitui uma recolha de exemplares da cultura popular (adivinhas, provérbios, lengalengas, superstições), alguns dos quais relacionados com a simbologia do número sete.

Trindade Coelho foi considerado, por alguns homens de letras do seu tempo (e por alguns atuais), um escritor menor, sobretudo pela ruralidade que perpassa nas suas obras (temas, personagens e linguagem), talvez por isso as comemorações dos cem anos da sua morte, em 2008, não tenham tido o eco merecido".

 

É pena, porquanto, na sua obra, perpassa muito do espírito, tradições, usos e costumes do transmontano de antanho, do qual nós, os de cá do Marão, como seus legítimos herdeiros,  temos entranhado(s) no nosso «ADN».

 

Deixamos aqui um pequeno excerto da obra «Os Meus amores» de Trindade Coelho (que não devemos confundir com «Amores Novos», de seu filho, Henrique Trindade Coelho):

 "Desembarcaram num largo. Era o ponto mais central da terra – “a praça”. Aqui e ali, ao acaso, algumas árvores enfezadas, quase tudo olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato, com casas em volta – o que na vila havia de melhor em construções. Ficava ao meio o pelourinho, exótico, mutilado, de uma pedra grosseira e muito negra. Era uma alta coluna de oito faces, com o seu anel de ferro ao meio e uma argola pendente do anel. A coluna que se elevava sobre um pedestal de três degraus, em hexágono, terminava ao alto num grande X de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de três gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do X, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estilo, sem gosto, sem cal. Algumas pedras de armas em velhas paredes decrépitas, desequilibradas, hidrópicas, atestavam aristocracias remotas, agora de todo extintas. Ao alto, dominando a negrura chamuscada dos telhados, o velho castelo, romano de origem, fazia tristeza com as suas ameias derrocadas e as grossas paredes em ruínas. Ao lado do castelo erguia-se destacadamente a velha torre do relógio, de uma arquitetura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas sete: aquele “estafermo” é que não andava nunca direito. De dia ninguém o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando num mostrador sem letras, de uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar, alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrasado, ora adiantado, dando meia-noite quando eram quatro da tarde, e meio-dia mal despontava o Sol.

Eram as sete. Àquela hora é que os «figuros» da terra, quase tudo empregados públicos, vinham para o largo, à fresca".

27.- 2012 - Mogadouro 018

Para finalizar, e para termos uma ideia geral sobre a vila do Mogadouro, visualizemos este interessante vídeo

 

MOGADOURO E OS TEMPLÁRIOS|PORTUGAL

CARICATURA DE (JOSÉ FRANCISCO) TRINDADE COELHO

28.- ThumbnailDownloader

19
Fev20

Memórias de um andarilho - Caminhadas nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor 3ª etapa - Destaque - Freixo de Espada-à-Cinta

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

  

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

 

3ª ETAPA 

ESTAÇÃO DE FREIXO DE ESPADA-À-CINTA – LAGOAÇA

  

DESTAQUE – FREIXO DE ESPADA-À-CINTA

(4.abril.2012)

 

 

01.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 145

 

Regresso ao Lar

 

Ai, há quantos anos que eu parti chorando

deste meu saudoso, carinhoso lar!...

Foi há vinte?...

Há trinta?...

Nem eu sei já quando!...

Minha velha ama, que me estás fitando,

canta-me cantigas para me eu lembrar!...

 

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida...

Só achei enganos, deceções, pesar... 

Oh, a ingénua alma tão desiludida!...

Minha velha ama, com a voz dorida.

canta-me cantigas de me adormentar!...

 

Trago de amargura o coração desfeito...

Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!

Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...

Minha velha ama, que me deste o peito,

canta-me cantigas para me embalar!...

 

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho

pedrarias de astros, gemas de luar...

Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...

Minha velha ama, sou um pobrezinho...

Canta-me cantigas de fazer chorar!...

 

Como antigamente, no regaço amado

(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!

Ai o teu menino como está mudado!

Minha velha ama, como está mudado!

Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

 

Canta-me cantigas manso, muito manso...

tristes, muito tristes, como à noite o mar...

Canta-me cantigas para ver se alcanço

que a minha alma durma, tenha paz, descanso,

quando a morte, em breve, ma vier buscar!

 

Guerra Junqueiro, in 'Os Simples'

 

 

Quando se fala em Freixo de Espada-à-Cinta vem-nos logo à lembrança o estilo manuelino presente na sua Igreja Matriz, de evocação a S. Miguel – e que mais parece uma sé catedral -,

02.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 149

(Fachada principal)

03.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 132

(Fachada lateral I)

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(Fachada lateral II)

05.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 162

(Inscrição relacionada com a sua fundação)

06.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 121

(Um aspeto do seu interior – Um púlpito)

a Capela do Senhor da Rua Nova; a Igreja da Misericórdia;

07.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 134

(Aspeto exterior)

08.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 138

(Aspeto interior – Altar-mor)

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(Aspeto interior - Pormenor I do altar-mor)

10.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 141

(Aspeto interior – Pormenor II do altar-mor)

o grande navegador e primeiro cronista do Japão – Jorge Álvares;

11.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 150

a história do seu nome e 

12.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 155

do seu escudo;

13.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 200

o seu Castelo, ou o que dele resta, como a Torre heptagonal, ou Torre do Galo;

14.- 20.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 156

(Perspetiva I)

15.- 21.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 157

(Perspetiva II)

a subida ao topo da Torre,

16.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 179

donde se vislumbram horizontes variados 

17.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 173

(Panorama I)

19.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 161

(Panorama II)

20.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 168

(Panorama III)

18.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 164

(Panorama IV)

e na qual impera o seu sino,

21.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 175

bem assim, onde, aqui, podemos conhecer um pouco da história da vila, com as suas muralhas e as suas torres;

22.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 182

o percorrer as suas ruas,

23.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 189

denotando a presença judaica e o estilo manuelino;

24.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 197

(Trecho I)

25.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 199

(Trecho II)

o seu Museu da Seda e do Território;

26.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 187

a casa do almirante Sarmento Rodrigues, hoje instalações da GNR;

27.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 194

a sua Casa do Concelho ou Câmara Municipal,

28.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 223

onde impera  um lindo pelourinho,

29.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 227

e, no qual, no seu topo, um pormenor nos desperta a atenção;

30.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 225

o edifício da Santa Casa da Misericórdia;

31.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 231

a igreja

32.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 210

e o Convento de São Filipe Nery;

33.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 212

o cruzeiro que lhe fica perto,

34.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 213

com este pormenor do Cristo crucificado;

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a festa de Nossa Senhora dos Montes Ermos;

36.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 235

as gravuras rupestres do Mazouco; o Penedo Durão, em Poiares, com as suas aves de rapina, que frequentam as suas arribas; o panorama que nos oferece o lindo jardim rosa, em finais de fevereiro e princípios de março, quando as amendoeiras começam a florir; o Douro Internacional e, também, o belo panorama que, do mesmo Penedo Durão se avista para a barragem de Saucelle e para a ponte sobre o rio Águeda, quando se lança nos braços do Douro; a Calçada de Alpajares ou Calçada dos Mouros onde, nas suas rochas, podemos ver, interpretar e conhecer parte da evolução do nosso planeta Terra, em particular por estes recônditos lugares; a história e presença, aqui, dos judeus; as moradias do Douro Internacional, na Congida; a cultura da seda, enfim, em tantas outras coisas que há, por estas lonjuras, para ver e explorar.

 

Mas, tudo isto, mais que as nossas palavras, pode ser visto e apreciado nos dois vídeos que abaixo apresentamos.

 

PORTUGAL EM 360º - FREIXO DE ESPADA-À-CINTA| VILA MANUELINA|PORTUGA

PORTUGAL DE LÉS A LÉS – FREIXO DE ESPADA À CINTA – DEIXE-SE ENVOLVER

E, para uma visão mais completa, e diversificada, da História, dos Lugares, das Gentes e do Património deste vila e seu concelho, apresentamos aos nossos(as) leitores(as) os seguintes sítios da web, em modos de

 

GUIAS TURÍSTICOS

 

 

 

 

IGREJA MATRIZ

 

 

CULTURA DA SEDA

 

Contudo, hoje apenas queremos, neste post, falar de um dos seus ilustres filhos da terra - Abílio Manuel Guerra Junqueiro.

37.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 220

Não vamos por mais delongas para falar deste poeta e republicano indefetível que, ao longo dos anos, nos habituámos a ler e a apreciar.

 

E, para o efeito, vamos usar as palavras ou conclusões de Carla Alexandra Ferreira do Espírito Santo Guerreiro, na sua tese de mestrado em Ensino da Língua e Literatura Portuguesa, de 2002, sob o título « A mundividência infantil na obra de Guerra Junqueiro».

 

Guerra Junqueiro merece ser considerado um dos mais proeminentes escritores portugueses da segunda metade do século XIX, princípios do XX.   Espírito livre e indómito, este homem, transmontano, por nascimento, e cidadão do mundo, por natureza, ergueu sempre a sua voz para falar e defender aqueles que não a tinham, os simples: as crianças e o povo.   Paladino da defesa da instrução e da educação na infância como panaceia dos males estruturais de que Portugal padecia, fez da sua obra uma arma de arremesso que usou, habilmente, contra a ignorância, a opressão e o abandono dos mais pequeninos e desprotegidos, em suma, os simples.

 

No século XIX português, a chamada Geração de Setenta, grupo de intelectuais que refletiam na literatura a sua ideologia e crenças, assumindo uma atitude de oposição face à ordem sociopolítica estabelecida, agitou a sociedade ao fazer a apologia do carácter profilático-pedagógico da literatura, com as célebres Conferências do Casino Lisbonense. A literatura e os intelectuais, Junqueiro incluído, assumiam e tinham um peso institucional tal que foram consideradas uma ameaça para o poder político e social estabelecido e, por consequência, aquelas Conferências foram  suspensas antes de as últimas se realizarem.

 

Guerra Junqueiro, uma figura no panorama cultural do seu século, impôs-se pelas suas posturas incómodas para o poder laico e religioso, despertando consciências e motivando tomadas de posição. 

 

A ação deste intelectual contribui para justificar o carácter institucional da Literatura, pois que a sua prática literária concreta teve uma função de afirmação e consolidação de valores sociais e morais, desde sempre considerados determinantes. 

 

Guerra Junqueiro era um homem emotivo e impulsivo e, o que transparece claramente na sua obra, é o anticlericalismo, o amor e o ódio, o perdão e a condenação. Humanista, por excelência, preocupado com a condição humana, nomeadamente no que concerne à sua fase embrionária, a infância, a sua vasta obra literária deixa transparecer a ideia de que o homem não será verdadeiramente livre enquanto estiver sujeito aos condicionalismos que o colocam abaixo da condição humana.

 

Por temperamento e educação, por solicitação intrínseca, reforçada pelas influências ambientes, Guerra Junqueiro foi boa parte da sua vida um poeta social e político, atento e crítico relativamente aos desenvolvimentos históricos que se desenrolaram no mundo e em Portugal, numa época em que o nosso  país era ainda mais estruturalmente atrasado e política, social e economicamente num estado caótico.

 

Embora Guerra Junqueiro tenha bebido do contexto histórico e social do seu tempo, ele destacou-se, por ser mentor de uma escrita autónoma. Incapaz de ser estritamente satírico, apenas humanista, somente político ou simplesmente filosófico ou revolucionário, ele conseguiu ser tudo isso e muito mais. Com efeito, a sua escrita fez-se sob o signo do hibridismo e da miscigenação genológica e modal, constituindo a sua criação literária uma unidade perfeita, que evoluiu e progrediu.

 

Junqueiro conseguiu sempre exteriorizar o seu subjetivismo. Daí a sua predileção pelo modo lírico, ao invés do narrativo ou dramático. No entanto, todas as suas obras líricas têm uma característica que as universaliza: é um lirismo voltado para o mundo exterior, o que o rodeia, nomeadamente, para a situação dos mais desprotegidos e esquecidos pelo poder: os pobres e as crianças. Homem e obra constituem um todo harmonioso, onde nacionalismo e universalismo se refletem, de forma complexa, e em que passado, presente e futuro se encontram.

 

Junqueiro foi romântico, realista, simbolista e saudosista, manifestando na sua obra literária o romantismo e cientismo que caracterizaram a época em que viveu. O seu ecletismo cultural e ideológico foi responsável por que a sua escrita se estendesse a várias tendências, escolas e correntes literárias, não se confinando a nenhuma em particular. Com o poder admirável do seu génio literário elaborou todas as possíveis influências, encarnando o ideal apaixonado de libertação e valorização do indivíduo. 

 

O poeta usou a sua obra literária para refletir não só sobre os temas e os assuntos que considerava mais importantes e mais prementes da sua época e país, mas também sobre temas e assuntos, de todas as épocas, porque são atemporais e universais.

 

Deste modo, o tema da Criança é uma constante em toda a sua produção literária. Preocupado com a sua situação de total abandono, a vários níveis, e consciente da importância da sua formação integral para a construção de um Portugal, a par do progresso do resto da Europa, Junqueiro dedicou-lhe a melhor parte da sua obra. 

 

Desta feita, a obra de Guerra Junqueiro refletiu sobre a situação infantil no século XIX português, no concernente aos três pilares essenciais da vida: Família, Sociedade e Escola. Além destes,  outros aspetos assumem, na sua produção literária, um valor relevante: as relações da criança com a Natureza, com o Transcendental e com a Literatura.

 

A obra de Guerra Junqueiro fez parte integrante do cânone literário durante várias décadas, pois, parte dela, foi selecionada pelo poder instituído para figurar nos manuais escolares, e serviu, longo tempo, para transmitir determinados valores e ajudar a formar consciências. 

 

O uso didático dos textos do escritor, no período conhecido por Estado Novo, particularmente na década de 1950, foi sobejamente conhecido. O regime político que vigorava nesta época fez o aproveitamento da obra literária junqueiriana para transmitir os valores e ideias por ele defendidos. A transmissão foi feita de forma subliminar. Mas não nos podemos esquecer que  a instituição escolar funciona como um verdadeiro aparelho ideológico, desempenhando um papel dominante. Deste modo, o seu discurso, embora silencioso, foi eficaz.  

 

Não admira, assim, que a sua obra, quando evidenciava o amor à Terra, ao ruralismo, às atividades primárias, bem como os grandes valores como a Honestidade, o Trabalho, o amor a Deus e à Família, o respeito e obediência às instituições e governantes entrasse nesses manuais escolares.

 

Junqueiro foi tido e conceituado nos anos cinquenta porque a sua presença literária nos livros escolares evidencia a sua faceta de nacionalista crente.  Mas, manifestamente,  "esconde" o seu lado contestatário e iconoclasta.

 

A instituição escolar, como verdadeiro aparelho ideológico, desempenhou e continua a desempenhar o papel de guardiã de ideologias e perpetuadora do cânone literário. Programas escolares, organização dos curricula e manuais escolares são reveladores de uma consciência cultural e nacional.

 

Desta feita,  ao se apresentar certas obras como canónicas, em detrimento de outras, apenas são validadas determinadas experiências culturais e literárias. 

 

De há anos a esta parte Guerra Junqueiro tem sido excluído do contexto escolar. Este facto deve-se, em nosso entender, a mudanças no gosto literário, relacionadas com a reavaliação de géneros representados pelas obras canónicas, bem como à entrada no cânone de muitas obras, graças a bem sucedidas campanhas publicitárias e de propaganda.

 

 O sistema de ensino cumpre, assim, uma função de verdadeira legitimação cultural, pois que converte em cultura legítima, o arbitrário cultural que uma formação social apresenta.

 

Junqueiro, tal como os demais criadores literários, não foi exceção e, vivendo num tempo e espaço definidos, estabeleceu relações dialógicas com a cultura em que estava integrado.

 

Guerra Junqueiro, embora homem de seu tempo, foi um espírito de vanguarda no que respeita às suas reflexões pedagógicas: uma faceta sua menos conhecida.

 

 Por tudo quanto acima deixámos exposto, nós, leitores e educadores, temos por obrigação manter viva a sua memória através do uso e divulgação da sua obra literária.

 

Deixemos, assim, aos nossos(as) leitores(as) as suas obras, para nós, mais significativas para, querendo, as poderem consultar e ler:

A Velhice do padre eterno;

Finis Patriae;

Pátria.

 

O poema «Regresso ao lar», que reproduzimos no início deste post é o que, nesta nossa fase da vida, o que mais nos diz, no que toca a diferentes mensagens, subliminares, que o mesmo nos transmite.

 

Noutras fases da nossa vida, foram outros, que líamos e amávamos.

 

Hoje é, positivamente, este…

 

Saíndo, já pelo fim da tarde de Freixo de Espada-à-Cinta, em direção à Régua, ao longe, despediamo-nos da terra natal de Neca e Augusto.

20a.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 234

17
Fev20

Memórias de um andarilho - Caminhadas nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - 3ª etapa - Freixo-Lagoaça

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

 

01.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 067

3ª ETAPA

ESTAÇÃO DE FREIXO DE ESPADA-À-CINTA – LAGOAÇA

(4.abril.2012)

 

Depois de tomado o pequeno almoço, saímos das Moradias do Douro Internacional, na Congida, Freixo de Espada-à-Cinta, em direção à Estação do Freixo, a tal que os locais a apelidaram de Estação de Vale Ladrões.

 

O Edu hoje acabou por nos acompanhar.

 

Íamos os três bem dispostos, apesar da «estofa» de ontem. O psicológico aqui conta muito: a etapa de hoje apenas constava de 7 Km.

 

Dizia-nos o placard informativo afixado na Estação de Lagoaça que “O percurso da linha ferroviária do Sabor constitui um dos itinerários turísticos, por via pedestre, mais interessante de todo o Parque Do Douro Internacional.

O visitante pode percorrer este vasto espaço rural ao longo de mais de 6 dezenas de quilómetros, envolvido por campos agrícolas, pastagens naturais, matos, bosques e contemplando a fauna, a flora e os numerosos elementos do património histórico e arquitetónico desta área protegida”.

02.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 071

Não temos dúvida que este discurso se aplique à grande maioria do da envolvente ao trilho/percurso da linha.

 

Quanto ao trilho, do canal da antiga via férrea, positivamente, tamanhos elogios ou encómios não se podem aplicar.

 

E não só quanto ao que fizemos hoje - uns escassos 7 Km -. O mesmo se pode aplicar, na sua grande maioria, ao péssimo estado dos restantes troços até Duas Igrejas.

 

Deixámos as ruínas da antiga Estação de Vale Ladrões (Freixo), abandonada, para trás.

03.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 004

E, se bem que, no que respeita ao entorno do troço até Lagoaça, se possa afirmar que íamos rodeados de bons campos agrícolas, pastagens naturais, matos e bosques,

04.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 005

(Cenário I)

05.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 010

(Cenário II)

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(Cenário III)

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(Cenário IV)

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Cenário V)

embora, alguns deles, tisnados pelos incêndios, repetimos, outro tanto não podemos dizer quanto ao trilho do antigo canal ferroviário.

 

Socorremo-nos, mais uma vez, do nosso bloco de notas do dia de hoje. Escrevíamos: “7 longos e penosos quilómetros. Se os últimos 9 Km de ontem foram de caminhada forçada e num piso duro, os de hoje valeram por vinte quilómetros de ontem: o piso era praticamente o mesmo dos últimos 9 Km de ontem – com giestas e gravilha ou cascalho grosso,

09.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 001

acrescido agora de repleto de silvado quase impenetrável, ao ponto de, em várias ocasiões, sermos obrigados a sair do trilho da linha e invadirmos, caminhando, os terrenos de particulares, adjacentes, tal era a pujança da vegetação – particularmente giestas e silva – que não nos deixava caminhar pelo trilho do antigo canal ferroviário.

10.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 018

Para já não falar quando o canal era transformado em vazadouro de lixo.

11.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 023

Aqui e ali, quando podíamos circular pelo trilho da antiga linha, eramos obrigados a andar fora do trilho, pois a chamusca dos incêndios punha-nos a roupa totalmente preta, enfarruscada.

12.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 028

Uma vez por outra, afortunadamente, lá encontrávamos o trilho razoavelmente transitável”.

13.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 015

(Troço I)

14.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 035

(Troço II)

Às vezes, o trilho quase desaparecia para dar lugar a terra lavrada.

15.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 029

A certa altura, começámos a entrar em pleno planalto. E começámos a sentir um pouco de vento frio, apesar do sol.

 

Até que, depois deste pequeno «calvário», chegávamos ao apeadeiro de Fornos/Sabor.

16.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 032

Como se pode ver, a mesma ruína, na qual o silvado começa a tomar conta do lugar.

 

Deixámos a aldeia de Fornos à nossa direita

17.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 041

e continuámos o nosso percurso em idênticas condições que as anteriores:

18.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 048

a mesma invasão do espaço canal por particulares,

19.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 053

o mesmo piso, que ultrapassávamos, praticamente intransitável.

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Bem assim a mesma desolação provocada pelo abandono e pelos incêndios.

21.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 058

A determinada altura, o casario da povoação de Lagoaça aparece-nos do nosso lado direito.

22.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 060

Mas temos que andar mais umas centenas de metros para que o nosso  objetivo de hoje seja alcançado – a Estação de Lagoaça.

 

Para chegarmos à Estação de Lagoaça, valeu-nos a circunstância de terem, há bem pouco tempo, andado a cortar o giestal que cobria, por inteiro, o trilho da linha;

23.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 062

doutra forma, não poderíamos passar por ele!

 

E, finalmente, chegávamos à Estação de Lagoaça,

24.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 069

completamente encharcados de suor. Não pela lonjura ou comprimento da etapa, mas pelo esforço que despendemos para ultrapassar os obstáculos que, constantemente, se interpunham à nossa frente.

 

Valeu-nos, nesta Estação restaurada, uma bica de água. Ali, com o sol do meio dia a pino, tomámos banho e mudámos de roupa.

 

Augusto, que já estava aqui à nossa espera, levou-nos até ao centro de Lagoaça.

 

Fizemos um pequeno percurso turístico pela aldeia. Num café hidratámo-nos, bebendo água, porquanto, a que levávamos, tinha-se acabado. E, visitada a aldeia, fomos de abalada para Freixo de Espada-à-Cinta. Almoçar. E depois dar uma volta pela vila.

 

A reportagem da nossa visita a Lagoaça e Freixo será objeto de dois posts, que publicaremos brevemente.

 

Apresenta-se agora o diaporama desta etapa realizada em março de 2013.

 

14
Fev20

Memórias de um andarilho - Caminhadas nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - 2ª etapa:- Moncorvo-Freixo

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

00.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 154

2ª ETAPA

TORRE DE MONCORVO – FREIXO DE ESPADA-À-CINTA

 

(3.abril.2012)

 

Introdução

 

Percorremos esta linha desativada a pé em 2012.

 

No primeiro trimestre de 2013, publicámos um vídeo de cada etapa.

 

Como temos feito em relação a todas as caminhadas que fazemos, a 27 de janeiro de 2017 publicámos, embora tardiamente, um post sobre a primeira etapa – PocinhoTorre de Moncorvo.

 

Por circunstâncias várias, entre elas o esquecimento, não continuámos com a publicação da reportagem das restantes etapas.

 

Vamos ver se desta vez é mesmo de vez! E, assim, darmos por terminada, ainda neste trimestre, a reportagem completa sobre todas as etapas que efetuámos nesta Linha até ao seu términus, em Duas Igrejas.

 

Dado que se trata de um percurso linear, ou temos apoio logístico no final de cada etapa planeada, nomeadamente lugar para comer e dormir ou, então, temos de usar dois meios de transporte – um, que fica no local de inicio da etapa; o outro, no fim –; ou, então, temos de ter alguém que nos acompanhe por estrada e nos transporte a um lugar que fique relativamente central em relação à totalidade do percurso que pretendemos efetuar. O uso de táxi não nos pareceu adequado, não só pelo facto de não podermos ter cobertura de rede, como, face aos lugares por onde efetuamos os trilhos, nem sempre ser fácil encontra-los.

 

Optámos, desta feita, por ficarmos alojados mas Moradias da Praia da Congida, em Freixo de Espada-à-Cinta e o nosso cunhado Augusto, por estrada, acompanhou-nos de carro.

 

Nesta segunda etapa – Torre de Moncorvo-Estação de Freixo de Espada-à-Cinta – acompanhou-nos o amigo Neca, irmão de nosso cunhado e o jovem/adolescente (hoje já um homem feito) Edu, nosso sobrinho neto.

 

Eram 7 horas e 30 minutos quando, em Torre de Moncorvo, demos início ao percurso desta 2ª etapa.

 

 

1º Troço – Torre de Moncorvo-Carvalhal

 

Este primeiro troço está transformado em ecopista. A primeira a ser realizada numa linha de caminho de ferro, em Portugal, desativada.

 

Começámos a etapa na antiga Estação de Caminho de Ferro de Torre de Moncorvo, recuperada.

02.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 005

Ao partirmos, o amigo Neca «ensina» a Edu como eram as estações de caminho de ferro; como eram e funcionavam os comboios a vapor.

03.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 013

Dada a «lição», prosseguimos caminho,

04.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 023

acompanhados de arvoredo e da cultura da vinha e da oliveira, nas margens do nosso corredor.

05.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 024

Foi um início de percurso agradável, o andar pela ecopista.

06.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 026

Esta ecopista, à data da nossa caminhada, em 2012, possuía, até Carviçais, pontos de água, postes de iluminação, de quando em quanto, sinalização e contagem dos metros de 500 a 500 metros, pontos de observação da paisagem, bancos para as pessoas se sentarem e descansarem.

06a.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 033

A determinada altura, foi o que Neca e Edu fizeram.

07.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 030

Andou-se mesmo bem por esta ecopista, na qual, ao longo do percurso, não faltavam os típicos pombais,

08.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 037

e alguns sobreiros. Muitos deles já velhos e praticamente sem vida

09a.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 041

Até que, depois de passarmos pela quinta da Ferreira e pela Ponte da Quinta d’Água,

09b.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 035

chegámos à reta do Convento. Á nossa direita, do lado de cima do nosso trilho, aparece-nos o Convento.

10.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 046

É o Convento das Carmelitas. Foi iniciado em 1948 e ficou concluído em 1990. É também conhecido por Carmelo da Sagrada Família, pertencente à Ordem do Carmo.

 

Em pouco tempo, chegávamos à Estação/Apeadeiro de Larinho.

11.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 052

Esta Estação/Apeadeiro foi reabilitada e aqui foi instalada uma cafetaria que, quando por ela passámos, estava fechada.

 

Continuámos o nosso percurso.

12.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 059

E aqui, junto a este eucalipto, Edu não aguentou mais. Desistiu. Apenas andou cerca de 7Km. O carro-vassoura do seu avô, Augusto, veio recolhê-lo. A partir daqui, a etapa só contou com dois caminheiros – nós e o Neca.

12a.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 061

Ao Km 19, 4, passámos pelo apeadeiro de Lamelas.

13.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 073

Neca tomava a dianteira, marcando o ritmo,

14.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 074

Enquanto nós entretínhamo-nos com a observação do entorno.

15.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 079

Incêndio recente tisnou a paisagem.

16.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 086

(Pormenor I)

17.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 087

(Pormenor II)

Percorridos cerca de 9 Km desta etapa, entrávamos em Quinta Nova,

18.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 088

passando pelo seu apeadeiro.

19.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 094

Em menos de um quilómetro, estávamos em Carvalhal.

20.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 105

Nas notas que sempre fazemos no final de cada etapa das nossas caminhadas, a certa altura, escrevíamos: “Foi agradável passar na Estação de Carvalhal e ouvir a explicação do Neca quanto à forma como o minério vinha da serra do Reboredo para os vagões do comboio. Ainda tirei uma ou duas fotografias das plataformas em que assentavam os mecanismos para as vagonetes, que vinham da exploração, despejarem o minério nos vagões dos comboios”.

21.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 108

O que resta é muito pouco para termos uma noção exata de como tudo aquilo ali funcionava.

 

Ficam aqui quatro perspetivas do que captámos na Estação.

22.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 111

(Perspetiva I)

23.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 118

(Perspetiva II)

24.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 119

(Perspetiva III)

25.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 121

(Perspetiva IV)

 

2º Troço – Carvalhal – Carviçais

 

Desde Torre de Moncorvo até Carvalhal percorremos, sensivelmente, 10 Km e 350 metros. Para chegarmos a Carviçais teríamos de percorrer, aproximadamente, 10 Km e 800 metros, por entre uma paisagem já não tão deslumbrante como aquela por onde tínhamos passado.

 

Nesta zona, logo a seguir a Carvalhal, predomina o pinheiro

26.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 135

e os apeadeiros por onde passávamos encontravam-se em completa ruína, como este, do Cabeço da Mua.

27.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 136

A pista cá está. Bem tratada.

27a.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 155

Mas toda e qualquer construção ao longo do seu troço estão em perfeita decomposição, ruína.

28.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 143

O mesmo se passa com o apeadeiro de Souto da Velha

28a.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 158

(Perspetiva I)

28b.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 161

(Perspetiva II)

Salvam-se os campos. Bem tratados.

29.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 147

(Pormenor I)

30.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 175

(Pormenor II)

31.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 166

(Pequeno souto de castanheiros velhos)

Bem assim, nas proximidades de Felgar, este Santuário – de Nossa Senhora do Amparo.

 

Leiamos o que «Geocaching - LINHA DO SABOR: Miranda - Duas Igrejas» nos diz, quando chegamos a este ponto da Linha:

"A Linha do Sabor possui a maior rampa ferroviária contínua em Portugal, sendo que nos 12 km que vão da estação do Pocinho à de Torre de Moncorvo se vencem 280 metros de desnível, num traçado sinuoso, sendo que a meio deste percurso era mesmo necessária uma paragem técnica na denominada "estação da Gricha", para que as locomotivas a vapor pudessem recuperar pressão e continuar a longa subida. De Moncorvo até Felgar a rampa continuava, vencendo-se em 13 km 260 m de desnível, o que perfaz uma rampa contínua de 25 km, vencendo 540 m de desnível, para que os comboios subissem do Douro, contornassem a Serra do Reboredo, e pudessem entrar no longo planalto mirandês".

32.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 150

Com a primavera, e as árvores a florirem,

33.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 178

Neca apresenta-nos este sorriso.

34.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 177

Deslumbrado com a mãe-natureza a desabrochar e florir!

35.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 204

Nós, por outro lado, reparávamos na albufeira de Vale de Ferreiros, que se nos apresentava do nosso lado esquerdo.

36.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 182

E, aqui, à borda desta água, fazíamos uma pequena pausa.

 

Augusto veio ao nosso encontro, juntamente com seu neto, Edu. E trazia-nos uma bola de azeite, comprada numa padaria por onde tinha passado. Comemos, pois nunca tínhamos comido e achámos um pitéu. Já estavamos com uma certa larica.

 

Urgia prosseguir caminho. E era estugar o passo agora sem parar. Só apenas este velho castanheiro, com forma tão estranha, é que nos fez parar por uns momentos para, a sua silhueta, constar para memória futura.

37.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 192

(Perspetiva I)

38.- 2012 - Linha Sabor 38.- (Moncorvo-Freixo) 193

(Perspetiva II)

Estávamo-nos a aproximar de Carviçais.

39.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 199

Agora, ao longo do nosso trilho, ia-nos aparecendo o casario de um só piso, quase colado à antiga linha.

 

Numa humilde casa o forno estava aceso. Cheirava a qualquer coisa… Metemos conversa com as senhoras que guardavam o forno. E, conversa puxa conversa, a porta do forno abre-se. O que começa a sair de lá espantou-nos – eram «bolinhos económicos». Os olhos de Neca brilhavam, pois é «louco» por esta iguaria. Uma das senhoras apercebeu-se e, vai daí, ofereceu-nos meia dúzia deles. Neca não se continha em si de contente. Abençoada senhora, dizia. Sabiam a anis.

 

Despedimo-nos amável e agradecidamente da gente da casa e prosseguimos a nossa jornada, ao longo do casario típico de Carviçais.

40.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 215

Até que passávamos pela Estação de Carviçais.

41.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 214

(Perspetiva I)

42.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 217

(Perspetiva II)

43.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 216

(Perspetiva III)

Em pouco minutos, estávamos no Restaurante Artur.

44.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 228

Neste restaurante parámos para almoçar. A posta, está-se mesmo a ver!...

 

E, para sermos fiel no relato do nosso almoço, vamos citar o que, no fim da etapa, escrevíamos: “Há muito que não comíamos uma posta tão tenrinha. Todavia o serviço deixou a desejar. As toalhas bem podiam ter outra apresentação; os guardanapos eram de papel e, para quem vinha cansado e com fome, a espera foi uma despaciência. Já para não falar da conta: um exagero!... Esta gente não se enxerga ou então… «ganha fama e deita-te na cama»”.

 

Acabámos de comer já passava das 14 horas e 30 minutos.

 

Tínhamos combinado que, chegados à Estação de Freixo de Espada-à-Cinta, iriamos fazer uma pequena visita turística e cultural à vila de Freixo, que dista da Estação 14 Km. Mas Tópê, funcionário da EDP, que estava a trabalhar no reforço de potência de Picote (Picote II), telefonou-nos e convidou-nos para irmos até lá com Edu e os tios para vermos os trabalhos da Central.

 

Ficámos de lhe dar uma resposta quando chegássemos à Estação de Freixo.

 

Nesta precisa altura, quer nós, quer Neca, começámos a ponderar se, assim, deveríamos prosseguir até à Estação de Freixo ou se ficaríamos por aqui, por Carviçais, deixando o troço que nos faltava para amanhã, desde este ponto e até Lagoaça.

 

Neca, como sempre, entusiasmado por andar – que apesar da idade, acha-se ainda fresco – desafiou-nos a prosseguir.

 

Cada um, com a sua mochila às costas, lá prosseguimos por mais sensivelmente 9 Km, enquanto Augusto e Edu, de carro, se dirigiram para a Estação de Freixo, à nossa espera.

 

3º Troço – Carviçais-Estação de Freixo de Espada-à-Cinta

 

Durante 2 Km o piso continuava igual ao da ecopista até Carviçais,

45.- 012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 235

Com paisagens de horizontes sem acabar;

46.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 238

campos de amendoeiras bem tratados e

47.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 239

bonitos pombais – embora a precisarem de reformas -.

48.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 231

Mas, a partir daí…

 

Bem. Primeiro eram as obras que estavam a ser levadas a efeito, no antigo canal da Linha, com a colocação de cabos para telecomunicações, supomos.

49.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 251

(Perspetiva I)

50.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 253

(Perspetiva II)

51.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 255

(Perspetiva III)

Todo o troço assim. Durante 3 Km.

 

Findo o limite do concelho de Torre de Moncorvo, o antigo canal da Linha apresentava-se coberto de giestas

52.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 259

e cascalho.

53.-2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 276

Grosso.

54.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 277

Já nem sequer se viam os carris, a não ser um pouco mais à frente, neste cruzamento por uma estrada, asfaltada, já relativamente perto da Estação de Freixo.

55.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 267

Aqui e ali uma placa do «Pare, Escute e Olhe», típicas das linhas de caminho de ferro.

56.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 260

A certa altura, havia trechos do antigo canal ferroviário que já não se reconheciam, ao ponto de andarmos pelas suas margens. Fomo-nos dando conta que, partes do antigo canal ferroviário tinham sido objeto de apropriação privada, porquanto se encontravam lavrados.

 

Não vimos vivalma, a não ser este operário, esperando provavelmente por boleia, exibindo um sorriso tristonho para nós. Talvez estivesse, naquele instante, pensando com os seus botões: “eu, aqui a mourejar e estes «bacanos»…” Sabe-se lá o que o homem pensava!... Demos-lhe as boas tardes e continuamos caminho.

57.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 242a

O antigo canal ferroviário até às proximidades da Estação de Freixo continuava a exibir um piso coberto de cascalho grosso.

58.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 269

Ficámos com «burras» (bolhas) nos pés.

 

Faltavam poucas centenas de metros para atingirmos a nossa meta e,

59.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 275

num instante,

60.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 281

chegámos à Estação de Freixo. A quem a gente da terra, segundo Neca e Augusto que nasceram por estas bandas - mais propriamente em Poiares - lhe chamavam Vale de Ladrões.

61.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 285

Doridos pelas «burras» feitas neste último troço.

 

Augusto e Edu estavam à nossa espera.

62.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 292

Como se pode verificar, a Estação de Freixo estava em plena ruína e coberta de silvas. Descuido. Incúria. De um património que foi longamente pago por sucessivas gerações de portugueses e que é de todos nós.

 

Aqui mudámo-nos. Vínhamos todo encharcado de suor.

 

Depois de combinarmos com Tópê que, afinal, íamos a Picote, de carro, lá nos dirigimos Aquelas paragens. Nós, pessoalmente, já lá tínhamos estado há uns 4 ou cinco meses antes. Mas, agora, a envolvente da Central estava completamente diferente; desapareceram as escombreiras e as dezenas de contentores e os terrenos à sua volta, devidamente regularizados, estavam cobertos de árvores. Trabalho bem feito.

 

Tópê acompanhou-nos à Central. Uma autêntica visita guiada. Edu, Augusto e Neca gostaram. Nós já conhecíamos a obra.

 

O que, na verdade, mais pessoalmente apreciámos foi a aldeia, com as suas casas, os edifícios públicos, nomeadamente a Igreja e a Estalagem, construções da década 50 do século passado.

 

Qual será o destino de tudo isto, interrogávamo-nos…

 

Esperamos que a especulação não vá destruir algo que faz parte da história não só da empresa, mas também de um local.

 

A ver vamos…

 

Enfim, fizemos hoje cerca de 30 Km. E focámos de rastos.

 

Amanhã, a próxima etapa – Estação do Freixo-Lagoaça – será apenas de 7 Km. Para compensar o esforço de hoje.

 

Depois de chegarmos à Estação de Lagoaça, fizemos uma visita à aldeia e depois dirigir-nos-emos para  Freixo, a fim de realizarmos o planeado passeio turístico e cultural a esta vila manuelina.

 

Realizada a visita, fomos levantar bivaque, na Congida e… ala para casa.

 

Deixamos à visualização das(os) nossas(os) leitoras(es) o vídeo sobre esta etapa, já realizado e exibido em março de 2013.

 

2ª ETAPA DA LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR – MONCORVO-FREIXO

 

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