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andanhos

08
Jun20

Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - Destaque II - Património de Miranda do Douro

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

  

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR 

DESTAQUE  II– PATRIMÓNIO DE MIRANDA DO DOURO

 

O mirandês é o caso flagrante para não dizer espectacular

- e se o dissesse não mentiria -

em que um idioma conseguiu sobreviver quase no fim do prazo da sua aceitação.

Ora isso deveu-se, por muito que custe a muito boa gente,

não só ao direito consuetudinário do povo mirandês,

mas sobretudo a um homem teimoso,

sacerdote não só da Igreja Católica como da própria Cultura Mirandesa,

que passou a maior parte da sua vida a entrincheirar elementos

e argumentos para garantir o raio dessa sobrevivência.

E aguentou-se no barco até ao desespero.” 

 

José Viale Moutinho

57.- Pauliteiros de Miranda 01

Antes de penetrarmos no cerne ou Centro Histórico desta cidade, fiquemos com uma panorâmica aérea da urbe e seus arredores.

MIRANDA DO DOURO, "CIDADE MUSEU" DE TRÁS-OS-MONTES!

Penetremos agora no interior desta cidade, descobrindo os seus tesouros. Para o efeito, servimo-nos de três «guias» ou cicerones digitais:

Acessoriamente, utilizámos:

***

Com vestígios de presença humana desde remotos tempos, Miranda tem fortes raízes Celtas e foi mesmo ocupada pelos Romanos.

 

A vila de Miranda surge mais claramente com o Rei D. Dinis, alcandorada sobre as arribas do Douro e era banhado pelos rios Douro e Fresno.

 

Com uma origem eminentemente medieval, Miranda do Douro cresceu orgulhosa da sua categoria de fronteira multicultural.

 

É aquando do Tratado de Alcanices – celebrado entre D. Dinis, rei de Portugal, e Fernando IV, de León y Castilla, que esta foi elevada à categoria de vila e aumentando-lhe os seus privilégios. Um dos privilégios deste foral era Miranda nunca sair da coroa.

 

Com uma posição estratégica importante, fronteiriça com Espanha, foi uma importante localidade na Idade Média.

 

A partir desta altura, Miranda torna-se progressivamente na mais importante das vilas cercadas de Trás-os-Montes.

 

Esta cidade, sede do concelho, está situada num espigão que domina a pique a margem direita do rio Douro, no troço internacional que separa a província portuguesa de Trás-os-Montes da província espanhola de Castilla y León, no conhecido Parque Natural do Douro Internacional.

 

É considerada a “Cidade Museu” de Trás-os-Montes, mantando a sua traça medieval e renascentista.

 

A atribuição do título de cidade a Miranda remonta a 1545, no reinado de D. João III, altura em que se tornou também sede episcopal. A antiga , também designada Concatedral é, naturalmente, o ex libris da cidade.

09.- 2012 - Miranda do Douro 136

Destacando-se num dos extremos do Centro Histórico da cidade, a vista da é irresistível, com as suas feições severas, plasmadas na fachada granítica, concluído na última década do século XVI.

10.- 2012 - Miranda do Douro 138

A Concatedral de Miranda do Douro, antiga de Miranda do Douro, é um templo católico cuja construção teve início em 1552, inserindo-se na tipologia de sés mandadas construir por D. João III, com uma fachada harmónica, em que um corpo central é ladeado por duas poderosas torres, e um interior em três naves abobadadas à maneira gótica, com cruzaria de ogivas de nervuras visíveis. O templo foi concluído na última década do século XVI. O projeto foi feito por Gonçalo de Torralva e de Miguel de Arruda.

10a.- 2012 - Miranda do Douro 216

(Perspetiva I)

10b.- 2012 - Miranda do Douro 221

(Perspetiva II)

10c.- 2012 - Miranda do Douro 217

(Pormenor de uma das torres)

Em 1566 o bispo D. António Pinheiro consagrou o altar-mor e em 1609, D. Diogo de Sousa informa o Papa que a construção fora concluída.

 

Foi  classificação como Monumento Nacional pelo Decreto de 16-06-1910, Diário do Governo n.º 136, de 23-06-1910.

 

Entremos e observemos no  interior da Catedral, que nos guarda algumas surpresas.

Conforme vimos acima, na antiga ou Catedral, pode apreciar-se o retábulo da capela-mor com esculturas em madeira,  de alto relevo, considerado pela Revista «Varia de Arte» e por alguns historiadores da Arte como um dos melhores conjuntos de escultura policromada de toda a Península Ibérica.

12.-Retábulo

E não esquecer a “loja maçónica” demarcada na área do cadeiral do cabido por ladrilhos negros e brancos.

15.- Cadeiral

O órgão, com a sua «carranca».

16.- 1Órgão - Carranca

És mais feio do que a carranca da Sé”, diz-se por estas paragens.

 

Mas a sua maior atenção irá, certamente, para o curioso Menino Jesus da Cartolinha, Menino Jesus do Chapéu Alto, ou ainda, o Nino Jasus de la Cartolica, peça única da iconografia cristã. Trata-se de uma verdadeira preciosidade, esta imagem única no mundo cristão.

17.- Menino Jesus da Cartolinha

A figura de pequeno tamanho dá corpo à lenda que conta que durante um cerco espanhol à cidade, (Guerra dos Sete Anos ou Mirandum), quando a população exaurida pela fome e pelas doenças se preparava para a rendição, começou a surgir um menino em vários pontos da muralha a instilar ânimo aos habitantes. Foi bem-sucedido, mas nunca foi encontrado. O milagre foi atribuído ao menino Jesus e em sua honra esculpiu-se uma imagem vestida com trajes fidalgos — atualmente, as roupas em miniatura que compõem o seu vasto guarda-roupa (a tradição diz que raparigas solteiras devem dar as meias e as camisas) são também parte da curiosidade.

 

A Catedral ou , ou ainda Concatedral, foi edificada, ao que parece, no mesmo sítio onde antes se erguia a antiga Igreja de Santa Maria, mandada construir por D. Dinis. Com três naves, esta catedral possui uma arquitetura majestosa e um interior de grande riqueza e elegância.

 

A Catedral ou Sé é “exagero” para estas paragens, como comenta alguém. “Ninguém espera isto aqui.” Mas “isto”, agora a Igreja Matriz de Miranda, foi a antiga Sé de Miranda do Douro, herança do período em que a cidade foi sede de diocese, entre 1545 e 1780.

 

A  Concatedral de Miranda do Douro, que levou de vencida às Igrejas de Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta, no tempo de D. João III, pelo que se diz, mercê da vontade de sua esposa, D. Catarina, que, pela primeira vez que veio a Portugal, para se consorciar com o Rei, entrou por aqui,  exibe-se orgulhosa num extremo do pequeníssimo planalto, no seu Centro Histórico.

18.- 2012 - Miranda do Douro 047

Por detrás da Igreja, antiga ou Concatedral, as Ruínas do Paço Episcopal, destruído por um incêndio há 200 anos, dão ideia da importância de Miranda desde o século XIV. O privilégio episcopal foi perdido em 1764, em favor de Bragança.

19.-2012 - Miranda do Douro 186

(Perspetiva I)

20.- 2012 - Miranda do Douro 184

(Perspetiva II)

22.- 2012 - Miranda do Douro 193

(Perspetiva III)

24.- 2012 - Miranda do Douro 212

(Perspetiva IV)

Perto da Catedral, do outro lado do rio Douro, encontramos o Penedo Amarelo,

25.- 2012 - Miranda do Douro 178

uma magnífica paisagem, de um amarelo bem vivo, quase a cair no Douro. No penedo, com 690 metros de altura, erguido como se fosse o diabo a olhar para Castela, para parafrasear Miguel Torga, sujeito a as vertigens, conseguimos observar um enorme número 2, que mantém um dos mistérios das redondezas, que parece ter ido picado por uma mão humana.

 

A explicação é clara: a cor do 2 deve-se aos líquenes, aqui em grande quantidade e variedade, que é sinónimo de ar, livre de contaminação. Vê-se à primeira, embora não tão visível ou óbvio de outras perspetivas.

 

Corre, quanto a este número, uma certa maldição: os solteiros, que não o vêm, não casarão; os casados, que não o vêm, estão a ser traídos.

 

A imaginação do povo é fértil!...

 

Na Praça D. João III,

26.- 2012 - Miranda do Douro 135a

está o Museu da Terra de Miranda. Instalado num edifício do século XVII. O Museu oferece-nos um rápido olhar sobre a etnografia mirandesa e dá-nos ricas informações sobre a casa tradicional, o artesanato e o vestuário.

27.- 2012 - Miranda do Douro 107

Na altura em que estivemos em Miranda do Douro, a cidade, os seus espaços públicos estavam todos em obras de novas pavimentações das ruas.

 

Rodeando a Praça de D. João III, o Edifício da Câmara Municipal

28.- 2012 - Miranda do Douro 111

e o Solar dos (de is) Ordazes.

29.- 2012 - Miranda do Douro 112

No meio da praça, encontramos duas estátuas em tamanho real de um casal mirandês:

30.- 2012 - Miranda do Douro 102

ele envergando uma Capa de Honras, uma peça única do vestuário tradicional português e ainda usada em várias cerimónias, inclusive pelo Presidente da Câmara que assim recebe os convidados oficiais.

31.- 2012 - Miranda do Douro 103

As Ruínas das Muralhas. Eis o que resta preservado delas.

32.- 2012 - Miranda do Douro 068

A sua construção teve início nos finais do séc. XIII. Conserva apenas, parcialmente uma torre do séc. XV, a Porta da Traição, da Senhora do Amparo e o Postigo.

33.- 2012 - Miranda do Douro 062

Não podemos deixar de falar da antiga Igreja setecentista dos Frades Trinos. Agora imprevisivelmente profana, e transformada na Biblioteca Municipal.

34.- 2012 - Miranda do Douro 197

(Perspetiva I – Vista lateralmente)

35.- 2012 - Miranda do Douro 199

(Perspetiva II – Vista de frente)

O Castelo que foi melhorado pelos primeiros reis portugueses. Contudo, com as diversas lutas, que se travaram nos anos seguintes, arruinaram-no, sendo necessária a sua reedificação no reinado de D. Dinis, por volta de 1280. A boa construção deste castelo fez com que resistisse aos sucessivos ataques castelhanos, no reinado de D. Fernando, que mandou cunhar moedas com um «M», sobre o escudo das quinas.

 

Miranda do Douro foi-se à Guerra dos Sete Anos - que, aqui, ficou conhecida por Guerra do Mirandum - e o seu castelo foi-se pelos ares.

36.- 2012 - Miranda do Douro 208

Na refresga espanhola à cidade muralhada, um projétil caiu sobre um armazém onde se guardava pólvora: as muralhas e a torre de menagem do castelo ruíram, 400 pessoas morreram. Hoje, o que resta da alcáçova do castelo de Miranda é uma bela ruína a mirar o Fresno, o segundo rio de Miranda, a seguir ao Douro.

37a.- 2012 - Miranda do Douro 237

(Perspetiva I)

38.- 2012 - Miranda do Douro 235

(Perspetiva II)

38a.- 2012 - Miranda do Douro 240

(Pormenor)

O antigo pátio de armas é um parque de estacionamento a dois passos da Rua Mouzinho de Albuquerque, espinha dorsal do núcleo histórico, onde o comércio mais abunda.

39.- 2012 - Miranda do Douro 229

Nas proximidades do Castelo, a Casa de Música Mirandesa.

39a.- 2012 - Miranda do Douro 232

A mais importante das ruas de Miranda é a Rua da Costanilha, de origem medieval. A sua antiguidade remonta ao séc. XV. Aqui se acantonava a colónia judaica.

40.- 2012 - Miranda do Douro 076

É na Rua Costanilha,

41.- 2012 - Miranda do Douro 079

e suas satélites, particularmente a Rua Nova,

42.- 2012 - Miranda do Douro 090

que o carácter medieval de Miranda parece irredutível,  quando fica banhado pela luz amarela dos candeeiros de ferro forjado.

43.- 2012 - Miranda do Douro 083

O casario quinhentista,

44.- 2012 - Miranda do Douro 080

(Pormenor I)

46.- 2012 - Miranda do Douro 095

(Pormenor II)

47.- 2012 - Miranda do Douro 088

(Pormenor III)

de pormenores manuelinos, forma um entramado mais ou menos conservado, às vezes inesperadamente erótico, como a Casa das Quatro Esquinas

48.- 2012 - Miranda do Douro 269

medieval, com quatro janelas a fazer esquina - duas em cada andar -.

 

Porém o destaque vai para os dois cachorros: um simbolizando a Luxúria;

50.- 2012 - Miranda do Douro 270

o segundo, Cronos, o deus grego do tempo.

51.- 2012 - Miranda do Douro 271

Este cachorro ou modilhão, erótico, ou da Luxúria, na Casa das 4 Esquinas, encontra-se documentada no livro «Judeus em Trás-os-Montes» (A Rua da Costanilha), de António Júlio Andrade e de Maria Fernanda Guimarães, que nos dizem que é também um ex-libris da cidade.

 

Quanto ao cachorro ou modilhão erótico, referem-se estes dois autores que: «Quereriam os construtores marranos da Casa das 4 Esquinas dizer que se estavam c… para os homens da governança da terra e administradores da Sé episcopal, hipócritas zeladores da ordem social cristã estabelecida e que os metia na Inquisição? Deveremos ler na pedra esculpida um grito de revolta e de sátira dos marranos de Miranda contra os seus inimigos e perseguidores?»

 

Outra interpretação diz-nos que, esta casa do século XVI, com cachorros eróticos, que revelam os segredos da cama medieval.

 

O modilhão da Luxúria é representado por um cão que, com a língua, toca os órgãos genitais de uma mulher.

 

Pela Ponte dos Canos ou Ponte da Fonte dos Canos foi por onde entraram os espanhóis na Guerra do Mirandum. É tabuleiro plano, dos fins do século XVI, assenta sobre três arcos quebrados e desiguais. Tem três talha-mares, dois a montante e um a jusante.

52.- 2012 - Miranda do Douro 057

 A Fonte dos Canos,

53.- 2012 - Miranda do Douro 052

de  estrutura barroca, de tipo relicário, com telhado piramidal em escama, recebeu no séc. XVIII o painel das Almas do Purgatório. No interior, podemos ver os apoios dos cântaros.

 

Sobre a cornija, as Almas continuam a lembrar-nos em latim que "a nossa água não se vende de graça. Rezai por nós, pois a oração é o seu preço. Pai Nosso, Ave Maria, 1768".

 

No que respeita ao património religioso construído de Miranda do Douro não podemos deixar de falar da sua Igreja da Misericórdia.

53a.- 2012 - Miranda do Douro 117

Está situada no largo com o mesmo nome, desde o século XVI. A sua construção ocorreu entre os anos de 1554 e 1559, a mando do Bispo D. Rodrigo de Carvalho, tendo ficado pronta no ano de 1589.

 

De construção clássica, a sua fachada, em empena truncada por uma sineira, é ladeada por pináculos. Também na fachada, o portal maneirista enquadrado por duas colunas suportando uma arquitrave decorada e duas janelas de recorte barroco.

 

O seu interior é merecedor de ser visitado, com um recheio digno no que respeita à parte arquitetónica, igualmente com um conjunto de talha clássica e barroca nacional e rococó, bem como o retábulo do altar-mor, também de talha barroca nacional.

 

A fundação da Santa Casa da Misericórdia de Bragança deve remontar ao ano de 1518 e “fundou-se em uma igreja que havia dedicada ao Espírito Santo" (que dava nome à rua). O templo foi reconstruído em 1539, para servir como Igreja da Misericórdia.

 

O que mais nos impressionou, no seu interior, foram os seus altares, que poderemos ver no sítio da internet – «Portugal em 360º - Igreja da Misericórdia de Miranda do Douro»  e que aqui deixamos três imagens dos três altares: altar-mor, altar da capela do lado da Epístola e da capela do lado do Evangelho.

53b.- 2012 - Miranda do Douro 127

(Altar-mor)

53c.- 2012 - Miranda do Douro 124

(Altar do lado da Epístola)

53d.- 2012 - Miranda do Douro 123

(Altar do lado do evangelho)

Não podíamos de deixar de falar na Casa dos Távoras nesta cidade.

52a.- casa-tavoras

(Fonte:- Enciclopédia das Localidades Portuguesas

Está situada na Rua Abade de Baçal, este solar citadino pode estar compreendido entre os séculos XV e XVI. Pertencente à família dos Távoras, uma das mais importantes, nobres e poderosas de Portugal a partir do século XV. Elementos da família foram alcaides do Castelo de Miranda e senhores do Mogadouro, tendo um forte prestígio na política.

 

Contudo, o prestígio alcançado na política, possivelmente, e como reza a história, foi motivo para todos os elementos, ou quase todos, serem eliminados por enforcamento, a mando do Marquês de Pombal, considerando a família Távora traidores ao regime.

 

Vê-se aqui a obsessão, ou talvez não, do Senhor Marquês de Pombal por esta Família, de que mandou raspar as armas.

52b.- casa-tavoras

(Fonte:- Enciclopédia das Localidades Portuguesas

Dizem-nos que em Miranda, se espera ouvir falar mirandês. Após a sua descoberta pelo filólogo Leite de Vasconcelos, o mirandês despertou um interesse crescente ao longo do século XX. Em 1999, foi reconhecido oficialmente o seu estatuto de língua. Atualmente, os estudos sobre o mirandês multiplicam-se.

 

o mirandês é a 2ª língua oficial de Portugal desde os finais dos anos 90. É a única língua reconhecida em Portugal para alem do português, com afinidades com Leão e Astúrias. A sobrevivência deste idioma demonstra uma idiossincrasia muito própria e apaixonada pelas tradições e modos de vida ancestrais.

 

Com a proximidade de Espanha, não é de admirar que muitas destas palavras façam lembrar o próprio castelhano.

 

Mas nós, durante o tempo em que lá estivemos, em 2012, não ouvimos falar muito o mirandês, não! Talvez em círculos mais fechados…

 

Além da língua, também na música e na dança se afirma a identidade de Miranda do Douro. Na área geográfica do concelho, os pauliteiros fazem perdurar uma tradição antiga, que toca o viajante pela espetacularidade e pelo colorido do som e do movimento.

 

Miranda do Douro é célebre pelo seu folclore colorido e animado – os Pauliteiros de Miranda - com o seu trajo típico de saias, executam a dança do pau acompanhada pelo toque da gaita de foles, cuja origem remonta à ocupação Celta da região, na Idade do Ferro.

 

A dança guerreira, de raízes greco-romanas - segundo algumas teorias – (mas inclinamo-nos serem mais celtas) -  é um ritual quase hipnótico e tão ritmado que é difícil controlar os pés que teimam em acompanhar o compasso dos paulitos ao som de gaita-de-foles e caixa. Cada dança é um lhaço, a que corresponde uma música e uma letra, “normalmente em mirandês”.

 

Há cerca de 50 lhaços. E, alguns, parecem mesmo retratar momentos de uma batalha; outros, estão mais ancorados nas realidades da terra, como o “la yerba” ou “la rosa”; ou são, ainda, históricos, como o Mirondum, Mirondum, Mirondela/ Mirondum se fúe a la guiêrra (...).

54.- pauliteiras

Situada numa região árida e de difíceis acessos durante muitos anos, a região, ou Terra de Miranda, do Douro, soube preservar as suas tradições e modos de vida num mundo cada vez mais desenvolvido.

 

Nada melhor, para acabar este post, como apresentar este programa da RTP, de 2000, da autoria de José Hermano Saraiva – «Horizontes da Memória – A Guerra do Mirandum». 

 

Aqui se fala do apogeu de Miranda, da importância da comunidade judaica marrana, da sua antiga Catedral, bem assim da sua queda, com a decisão do Bispo D. Aleixo de mudar a sede da diocese para Bragança, logo após os acontecimentos que levaram à destruição do Castelo, na Guerra do Mirandum, no contexto da Guerra (europeia) dos Sete Anos.

 

Opinião idêntica – a decisão do 23º Bispo de Miranda, D. Aleixo; a explosão do paiol do Castelo, matando cerca de 400 pessoas,  pelos espanhóis, e a saída da colónia dos judeus marranos – tem também o insigne e ilustre mirandês, filho da Terra de Miranda – António Maria Mourinho – numa entrevista dada, em 1973, à RTP Memória, sob o título «Em Terra de Miranda»,  exibida já no post anterior.

 

Após esta época, durante muitas décadas e décadas, a queda de Miranda foi, cada vez mais acentuando-se.

 

Só após a década de 50 e 60 d0 século passado, com a construção da Barragem de Miranda

55.- 2012 - Miranda do Douro 219

e a ligação a Zamora, a 40 Km, e Salamanca, com a valorização dos seus mais vincados elementos identitários, com comércio e a sua gastronomia, baseada na posta, carne da raça bovina autóctone (mirandesa) e com os enchidos (fumeiro) é que Miranda se começou a revitalizar um pouco. Fundamentalmente com o turismo espanhol.

 

Isto, por outro lado; por outro, o Parque Natural do Douro Internacional, com o rio, e sempre com Portugal de um lado e Espanha de outro, as suas enormes escarpas, com a sua avifauna e os seus passeios de barco – cruzeiros ambientais, promovidos pela Estação Biológica Internacional (EBI) de Miranda do Douro – bem assim os diferentes percursos pedestre, fazem de Miranda, altaneira no topo das arribas, e das suas terras, palco privilegiado para o Turismo de Natureza e «Birdwatching».

56.- 2012 - Miranda do Douro 280

Estamos de acordo com aqueles que dizem que o que o passado separou, o presente e o futuro juntam neste projeto, em marcha, transfronteiriço, onde se olham dois parques naturais que têm o Douro como epicentro.

 

Tal como uma guia dos cruzeiros ambientais um dia dizia, afirmando que era do rio, porquanto filha de pai português e mãe espanhola.

 

Havemos de lá voltar… em breve. Para  ver o Aqueduto de Vilarinho e para frequentar os seus belos miradouros e percorrer, caminhando, os seus mais recônditos escaninhos.

 

06
Jun20

Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor -Destaque II - Património de Miranda do Douro

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

  

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR 

DESTAQUE  II– PATRIMÓNIO DE MIRANDA DO DOURO

 

O mirandês é o caso flagrante para não dizer espectacular

- e se o dissesse não mentiria -

em que um idioma conseguiu sobreviver quase no fim do prazo da sua aceitação.

Ora isso deveu-se, por muito que custe a muito boa gente,

não só ao direito consuetudinário do povo mirandês,

mas sobretudo a um homem teimoso,

sacerdote não só da Igreja Católica como da própria Cultura Mirandesa,

que passou a maior parte da sua vida a entrincheirar elementos

e argumentos para garantir o raio dessa sobrevivência.

E aguentou-se no barco até ao desespero.” 

 

José Viale Moutinho

57.- Pauliteiros de Miranda 01

Antes de penetrarmos no cerne ou Centro Histórico desta cidade, fiquemos com uma panorâmica aérea da urbe e seus arredores.

MIRANDA DO DOURO, "CIDADE MUSEU" DE TRÁS-OS-MONTES!

Penetremos agora no interior desta cidade, descobrindo os seus tesouros. Para o efeito, servimo-nos de três «guias» ou cicerones digitais:

Acessoriamente, utilizámos:

***

Com vestígios de presença humana desde remotos tempos, Miranda tem fortes raízes Celtas e foi mesmo ocupada pelos Romanos.

 

A vila de Miranda surge mais claramente com o Rei D. Dinis, alcandorada sobre as arribas do Douro e era banhado pelos rios Douro e Fresno.

 

Com uma origem eminentemente medieval, Miranda do Douro cresceu orgulhosa da sua categoria de fronteira multicultural.

 

É aquando do Tratado de Alcanices – celebrado entre D. Dinis, rei de Portugal, e Fernando IV, de León y Castilla, que esta foi elevada à categoria de vila e aumentando-lhe os seus privilégios. Um dos privilégios deste foral era Miranda nunca sair da coroa.

 

Com uma posição estratégica importante, fronteiriça com Espanha, foi uma importante localidade na Idade Média.

 

A partir desta altura, Miranda torna-se progressivamente na mais importante das vilas cercadas de Trás-os-Montes.

 

Esta cidade, sede do concelho, está situada num espigão que domina a pique a margem direita do rio Douro, no troço internacional que separa a província portuguesa de Trás-os-Montes da província espanhola de Castilla y León, no conhecido Parque Natural do Douro Internacional.

 

É considerada a “Cidade Museu” de Trás-os-Montes, mantando a sua traça medieval e renascentista.

 

A atribuição do título de cidade a Miranda remonta a 1545, no reinado de D. João III, altura em que se tornou também sede episcopal. A antiga , também designada Concatedral é, naturalmente, o ex libris da cidade.

09.- 2012 - Miranda do Douro 136

Destacando-se num dos extremos do Centro Histórico da cidade, a vista da é irresistível, com as suas feições severas, plasmadas na fachada granítica, concluído na última década do século XVI.

10.- 2012 - Miranda do Douro 138

A Concatedral de Miranda do Douro, antiga de Miranda do Douro, é um templo católico cuja construção teve início em 1552, inserindo-se na tipologia de sés mandadas construir por D. João III, com uma fachada harmónica, em que um corpo central é ladeado por duas poderosas torres, e um interior em três naves abobadadas à maneira gótica, com cruzaria de ogivas de nervuras visíveis. O templo foi concluído na última década do século XVI. O projeto foi feito por Gonçalo de Torralva e de Miguel de Arruda.

10a.- 2012 - Miranda do Douro 216

(Perspetiva I)

10b.- 2012 - Miranda do Douro 221

(Perspetiva II)

10c.- 2012 - Miranda do Douro 217

(Pormenor de uma das torres)

Em 1566 o bispo D. António Pinheiro consagrou o altar-mor e em 1609, D. Diogo de Sousa informa o Papa que a construção fora concluída.

 

Foi  classificação como Monumento Nacional pelo Decreto de 16-06-1910, Diário do Governo n.º 136, de 23-06-1910.

 

Entremos e observemos no  interior da Catedral, que nos guarda algumas surpresas.

Conforme vimos acima, na antiga ou Catedral, pode apreciar-se o retábulo da capela-mor com esculturas em madeira,  de alto relevo, considerado pela Revista «Varia de Arte» e por alguns historiadores da Arte como um dos melhores conjuntos de escultura policromada de toda a Península Ibérica.

12.-Retábulo

E não esquecer a “loja maçónica” demarcada na área do cadeiral do cabido por ladrilhos negros e brancos.

15.- Cadeiral

O órgão, com a sua «carranca».

16.- 1Órgão - Carranca

És mais feio do que a carranca da Sé”, diz-se por estas paragens.

 

Mas a sua maior atenção irá, certamente, para o curioso Menino Jesus da Cartolinha, Menino Jesus do Chapéu Alto, ou ainda, o Nino Jasus de la Cartolica, peça única da iconografia cristã. Trata-se de uma verdadeira preciosidade, esta imagem única no mundo cristão.

17.- Menino Jesus da Cartolinha

A figura de pequeno tamanho dá corpo à lenda que conta que durante um cerco espanhol à cidade, (Guerra dos Sete Anos ou Mirandum), quando a população exaurida pela fome e pelas doenças se preparava para a rendição, começou a surgir um menino em vários pontos da muralha a instilar ânimo aos habitantes. Foi bem-sucedido, mas nunca foi encontrado. O milagre foi atribuído ao menino Jesus e em sua honra esculpiu-se uma imagem vestida com trajes fidalgos — atualmente, as roupas em miniatura que compõem o seu vasto guarda-roupa (a tradição diz que raparigas solteiras devem dar as meias e as camisas) são também parte da curiosidade.

 

A Catedral ou , ou ainda Concatedral, foi edificada, ao que parece, no mesmo sítio onde antes se erguia a antiga Igreja de Santa Maria, mandada construir por D. Dinis. Com três naves, esta catedral possui uma arquitetura majestosa e um interior de grande riqueza e elegância.

 

A Catedral ou Sé é “exagero” para estas paragens, como comenta alguém. “Ninguém espera isto aqui.” Mas “isto”, agora a Igreja Matriz de Miranda, foi a antiga Sé de Miranda do Douro, herança do período em que a cidade foi sede de diocese, entre 1545 e 1780.

 

A  Concatedral de Miranda do Douro, que levou de vencida às Igrejas de Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta, no tempo de D. João III, pelo que se diz, mercê da vontade de sua esposa, D. Catarina, que, pela primeira vez que veio a Portugal, para se consorciar com o Rei, entrou por aqui,  exibe-se orgulhosa num extremo do pequeníssimo planalto, no seu Centro Histórico.

18.- 2012 - Miranda do Douro 047

Por detrás da Igreja, antiga ou Concatedral, as Ruínas do Paço Episcopal, destruído por um incêndio há 200 anos, dão ideia da importância de Miranda desde o século XIV. O privilégio episcopal foi perdido em 1764, em favor de Bragança.

19.-2012 - Miranda do Douro 186

(Perspetiva I)

20.- 2012 - Miranda do Douro 184

(Perspetiva II)

22.- 2012 - Miranda do Douro 193

(Perspetiva III)

24.- 2012 - Miranda do Douro 212

(Perspetiva IV)

Perto da Catedral, do outro lado do rio Douro, encontramos o Penedo Amarelo,

25.- 2012 - Miranda do Douro 178

uma magnífica paisagem, de um amarelo bem vivo, quase a cair no Douro. No penedo, com 690 metros de altura, erguido como se fosse o diabo a olhar para Castela, para parafrasear Miguel Torga, sujeito a as vertigens, conseguimos observar um enorme número 2, que mantém um dos mistérios das redondezas, que parece ter ido picado por uma mão humana.

 

A explicação é clara: a cor do 2 deve-se aos líquenes, aqui em grande quantidade e variedade, que é sinónimo de ar, livre de contaminação. Vê-se à primeira, embora não tão visível ou óbvio de outras perspetivas.

 

Corre, quanto a este número, uma certa maldição: os solteiros, que não o vêm, não casarão; os casados, que não o vêm, estão a ser traídos.

 

A imaginação do povo é fértil!...

 

Na Praça D. João III,

26.- 2012 - Miranda do Douro 135a

está o Museu da Terra de Miranda. Instalado num edifício do século XVII. O Museu oferece-nos um rápido olhar sobre a etnografia mirandesa e dá-nos ricas informações sobre a casa tradicional, o artesanato e o vestuário.

27.- 2012 - Miranda do Douro 107

Na altura em que estivemos em Miranda do Douro, a cidade, os seus espaços públicos estavam todos em obras de novas pavimentações das ruas.

 

Rodeando a Praça de D. João III, o Edifício da Câmara Municipal

28.- 2012 - Miranda do Douro 111

e o Solar dos (de is) Ordazes.

29.- 2012 - Miranda do Douro 112

No meio da praça, encontramos duas estátuas em tamanho real de um casal mirandês:

30.- 2012 - Miranda do Douro 102

ele envergando uma Capa de Honras, uma peça única do vestuário tradicional português e ainda usada em várias cerimónias, inclusive pelo Presidente da Câmara que assim recebe os convidados oficiais.

31.- 2012 - Miranda do Douro 103

As Ruínas das Muralhas. Eis o que resta preservado delas.

32.- 2012 - Miranda do Douro 068

A sua construção teve início nos finais do séc. XIII. Conserva apenas, parcialmente uma torre do séc. XV, a Porta da Traição, da Senhora do Amparo e o Postigo.

33.- 2012 - Miranda do Douro 062

Não podemos deixar de falar da antiga Igreja setecentista dos Frades Trinos. Agora imprevisivelmente profana, e transformada na Biblioteca Municipal.

34.- 2012 - Miranda do Douro 197

(Perspetiva I – Vista lateralmente)

35.- 2012 - Miranda do Douro 199

(Perspetiva II – Vista de frente)

O Castelo que foi melhorado pelos primeiros reis portugueses. Contudo, com as diversas lutas, que se travaram nos anos seguintes, arruinaram-no, sendo necessária a sua reedificação no reinado de D. Dinis, por volta de 1280. A boa construção deste castelo fez com que resistisse aos sucessivos ataques castelhanos, no reinado de D. Fernando, que mandou cunhar moedas com um «M», sobre o escudo das quinas.

 

Miranda do Douro foi-se à Guerra dos Sete Anos - que, aqui, ficou conhecida por Guerra do Mirandum - e o seu castelo foi-se pelos ares.

36.- 2012 - Miranda do Douro 208

Na refresga espanhola à cidade muralhada, um projétil caiu sobre um armazém onde se guardava pólvora: as muralhas e a torre de menagem do castelo ruíram, 400 pessoas morreram. Hoje, o que resta da alcáçova do castelo de Miranda é uma bela ruína a mirar o Fresno, o segundo rio de Miranda, a seguir ao Douro.

37a.- 2012 - Miranda do Douro 237

(Perspetiva I)

38.- 2012 - Miranda do Douro 235

(Perspetiva II)

38a.- 2012 - Miranda do Douro 240

(Pormenor)

O antigo pátio de armas é um parque de estacionamento a dois passos da Rua Mouzinho de Albuquerque, espinha dorsal do núcleo histórico, onde o comércio mais abunda.

39.- 2012 - Miranda do Douro 229

Nas proximidades do Castelo, a Casa de Música Mirandesa.

39a.- 2012 - Miranda do Douro 232

A mais importante das ruas de Miranda é a Rua da Costanilha, de origem medieval. A sua antiguidade remonta ao séc. XV. Aqui se acantonava a colónia judaica.

40.- 2012 - Miranda do Douro 076

É na Rua Costanilha,

41.- 2012 - Miranda do Douro 079

e suas satélites, particularmente a Rua Nova,

42.- 2012 - Miranda do Douro 090

que o carácter medieval de Miranda parece irredutível,  quando fica banhado pela luz amarela dos candeeiros de ferro forjado.

43.- 2012 - Miranda do Douro 083

O casario quinhentista,

44.- 2012 - Miranda do Douro 080

(Pormenor I)

46.- 2012 - Miranda do Douro 095

(Pormenor II)

47.- 2012 - Miranda do Douro 088

(Pormenor III)

de pormenores manuelinos, forma um entramado mais ou menos conservado, às vezes inesperadamente erótico, como a Casa das Quatro Esquinas

48.- 2012 - Miranda do Douro 269

medieval, com quatro janelas a fazer esquina - duas em cada andar -.

 

Porém o destaque vai para os dois cachorros: um simbolizando a Luxúria;

50.- 2012 - Miranda do Douro 270

o segundo, Cronos, o deus grego do tempo.

51.- 2012 - Miranda do Douro 271

Este cachorro ou modilhão, erótico, ou da Luxúria, na Casa das 4 Esquinas, encontra-se documentada no livro «Judeus em Trás-os-Montes» (A Rua da Costanilha), de António Júlio Andrade e de Maria Fernanda Guimarães, que nos dizem que é também um ex-libris da cidade.

 

Quanto ao cachorro ou modilhão erótico, referem-se estes dois autores que: «Quereriam os construtores marranos da Casa das 4 Esquinas dizer que se estavam c… para os homens da governança da terra e administradores da Sé episcopal, hipócritas zeladores da ordem social cristã estabelecida e que os metia na Inquisição? Deveremos ler na pedra esculpida um grito de revolta e de sátira dos marranos de Miranda contra os seus inimigos e perseguidores?»

 

Outra interpretação diz-nos que, esta casa do século XVI, com cachorros eróticos, que revelam os segredos da cama medieval.

 

O modilhão da Luxúria é representado por um cão que, com a língua, toca os órgãos genitais de uma mulher.

 

Pela Ponte dos Canos ou Ponte da Fonte dos Canos foi por onde entraram os espanhóis na Guerra do Mirandum. É tabuleiro plano, dos fins do século XVI, assenta sobre três arcos quebrados e desiguais. Tem três talha-mares, dois a montante e um a jusante.

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 A Fonte dos Canos,

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de  estrutura barroca, de tipo relicário, com telhado piramidal em escama, recebeu no séc. XVIII o painel das Almas do Purgatório. No interior, podemos ver os apoios dos cântaros.

 

Sobre a cornija, as Almas continuam a lembrar-nos em latim que "a nossa água não se vende de graça. Rezai por nós, pois a oração é o seu preço. Pai Nosso, Ave Maria, 1768".

 

No que respeita ao património religioso construído de Miranda do Douro não podemos deixar de falar da sua Igreja da Misericórdia.

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Está situada no largo com o mesmo nome, desde o século XVI. A sua construção ocorreu entre os anos de 1554 e 1559, a mando do Bispo D. Rodrigo de Carvalho, tendo ficado pronta no ano de 1589.

 

De construção clássica, a sua fachada, em empena truncada por uma sineira, é ladeada por pináculos. Também na fachada, o portal maneirista enquadrado por duas colunas suportando uma arquitrave decorada e duas janelas de recorte barroco.

 

O seu interior é merecedor de ser visitado, com um recheio digno no que respeita à parte arquitetónica, igualmente com um conjunto de talha clássica e barroca nacional e rococó, bem como o retábulo do altar-mor, também de talha barroca nacional.

 

A fundação da Santa Casa da Misericórdia de Bragança deve remontar ao ano de 1518 e “fundou-se em uma igreja que havia dedicada ao Espírito Santo" (que dava nome à rua). O templo foi reconstruído em 1539, para servir como Igreja da Misericórdia.

 

O que mais nos impressionou, no seu interior, foram os seus altares, que poderemos ver no sítio da internet – «Portugal em 360º - Igreja da Misericórdia de Miranda do Douro»  e que aqui deixamos três imagens dos três altares: altar-mor, altar da capela do lado da Epístola e da capela do lado do Evangelho.

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(Altar-mor)

53c.- 2012 - Miranda do Douro 124

(Altar do lado da Epístola)

53d.- 2012 - Miranda do Douro 123

(Altar do lado do evangelho)

Não podíamos de deixar de falar na Casa dos Távoras nesta cidade.

52a.- casa-tavoras

(Fonte:- Enciclopédia das Localidades Portuguesas

Está situada na Rua Abade de Baçal, este solar citadino pode estar compreendido entre os séculos XV e XVI. Pertencente à família dos Távoras, uma das mais importantes, nobres e poderosas de Portugal a partir do século XV. Elementos da família foram alcaides do Castelo de Miranda e senhores do Mogadouro, tendo um forte prestígio na política.

 

Contudo, o prestígio alcançado na política, possivelmente, e como reza a história, foi motivo para todos os elementos, ou quase todos, serem eliminados por enforcamento, a mando do Marquês de Pombal, considerando a família Távora traidores ao regime.

 

Vê-se aqui a obsessão, ou talvez não, do Senhor Marquês de Pombal por esta Família, de que mandou raspar as armas.

52b.- casa-tavoras

(Fonte:- Enciclopédia das Localidades Portuguesas

Dizem-nos que em Miranda, se espera ouvir falar mirandês. Após a sua descoberta pelo filólogo Leite de Vasconcelos, o mirandês despertou um interesse crescente ao longo do século XX. Em 1999, foi reconhecido oficialmente o seu estatuto de língua. Atualmente, os estudos sobre o mirandês multiplicam-se.

 

o mirandês é a 2ª língua oficial de Portugal desde os finais dos anos 90. É a única língua reconhecida em Portugal para alem do português, com afinidades com Leão e Astúrias. A sobrevivência deste idioma demonstra uma idiossincrasia muito própria e apaixonada pelas tradições e modos de vida ancestrais.

 

Com a proximidade de Espanha, não é de admirar que muitas destas palavras façam lembrar o próprio castelhano.

 

Mas nós, durante o tempo em que lá estivemos, em 2012, não ouvimos falar muito o mirandês, não! Talvez em círculos mais fechados…

 

Além da língua, também na música e na dança se afirma a identidade de Miranda do Douro. Na área geográfica do concelho, os pauliteiros fazem perdurar uma tradição antiga, que toca o viajante pela espetacularidade e pelo colorido do som e do movimento.

 

Miranda do Douro é célebre pelo seu folclore colorido e animado – os Pauliteiros de Miranda - com o seu trajo típico de saias, executam a dança do pau acompanhada pelo toque da gaita de foles, cuja origem remonta à ocupação Celta da região, na Idade do Ferro.

 

A dança guerreira, de raízes greco-romanas - segundo algumas teorias – (mas inclinamo-nos serem mais celtas) -  é um ritual quase hipnótico e tão ritmado que é difícil controlar os pés que teimam em acompanhar o compasso dos paulitos ao som de gaita-de-foles e caixa. Cada dança é um lhaço, a que corresponde uma música e uma letra, “normalmente em mirandês”.

 

Há cerca de 50 lhaços. E, alguns, parecem mesmo retratar momentos de uma batalha; outros, estão mais ancorados nas realidades da terra, como o “la yerba” ou “la rosa”; ou são, ainda, históricos, como o Mirondum, Mirondum, Mirondela/ Mirondum se fúe a la guiêrra (...).

54.- pauliteiras

Situada numa região árida e de difíceis acessos durante muitos anos, a região, ou Terra de Miranda, do Douro, soube preservar as suas tradições e modos de vida num mundo cada vez mais desenvolvido.

 

Nada melhor, para acabar este post, como apresentar este programa da RTP, de 2000, da autoria de José Hermano Saraiva – «Horizontes da Memória – A Guerra do Mirandum». 

 

Aqui se fala do apogeu de Miranda, da importância da comunidade judaica marrana, da sua antiga Catedral, bem assim da sua queda, com a decisão do Bispo D. Aleixo de mudar a sede da diocese para Bragança, logo após os acontecimentos que levaram à destruição do Castelo, na Guerra do Mirandum, no contexto da Guerra (europeia) dos Sete Anos.

 

Opinião idêntica – a decisão do 23º Bispo de Miranda, D. Aleixo; a explosão do paiol do Castelo, matando cerca de 400 pessoas,  pelos espanhóis, e a saída da colónia dos judeus marranos – tem também o insigne e ilustre mirandês, filho da Terra de Miranda – António Maria Mourinho – numa entrevista dada, em 1973, à RTP Memória, sob o título «Em Terra de Miranda»,  exibida já no post anterior.

 

Após esta época, durante muitas décadas e décadas, a queda de Miranda foi, cada vez mais acentuando-se.

 

Só após a década de 50 e 60 d0 século passado, com a construção da Barragem de Miranda

55.- 2012 - Miranda do Douro 219

e a ligação a Zamora, a 40 Km, e Salamanca, com a valorização dos seus mais vincados elementos identitários, com comércio e a sua gastronomia, baseada na posta, carne da raça bovina autóctone (mirandesa) e com os enchidos (fumeiro) é que Miranda se começou a revitalizar um pouco. Fundamentalmente com o turismo espanhol.

 

Isto, por outro lado; por outro, o Parque Natural do Douro Internacional, com o rio, e sempre com Portugal de um lado e Espanha de outro, as suas enormes escarpas, com a sua avifauna e os seus passeios de barco – cruzeiros ambientais, promovidos pela Estação Biológica Internacional (EBI) de Miranda do Douro – bem assim os diferentes percursos pedestre, fazem de Miranda, altaneira no topo das arribas, e das suas terras, palco privilegiado para o Turismo de Natureza e «Birdwatching».

56.- 2012 - Miranda do Douro 280

Estamos de acordo com aqueles que dizem que o que o passado separou, o presente e o futuro juntam neste projeto, em marcha, transfronteiriço, onde se olham dois parques naturais que têm o Douro como epicentro.

 

Tal como uma guia dos cruzeiros ambientais um dia dizia, afirmando que era do rio, porquanto filha de pai português e mãe espanhola.

 

Havemos de lá voltar… em breve. Para  ver o Aqueduto de Vilarinho e para frequentar os seus belos miradouros e percorrer, caminhando, os seus mais recônditos escaninhos.

 

06
Jun20

Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - Destaque I - António Maria Mourinho e a Terra de Miranda

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

  

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR 

DESTAQUE I – ANTÓNIO MARIA MOURINHO E A TERRA DE MIRANDA

 

"Nossa Alma e Nossa Terra''

(Nôssa alma i nôssa tiêrra)

Ai! Alma, em retalhos dividida!

Que andou comigo em montes e carreiros,

Semeando amor e paz sem descansar,

Deixando leais amigos verdadeiros,

Na terra fria em que aprendi a andar!

Novos e velhos pelo mundo acompanhei,

E comigo viveram e estiveram,

Por mares e ares que não mais verei,

Nem eles porque muitos já morreram.

E eu ainda aqui 'stou ... e trabalhando

Nos papéis enfeitiçados que apareceram,

Me conquistaram e me aprisionaram

E aqui me prendem e emparedaram.

A vida da assim vivida em dor e glória

"Pelo mundo em pedaços repartida”

 Sobeja-me em saudaços, dessa terra

Que mostrei com sua língua e sua história

....... E agora? …

Pensando ao fim do dia.

Que vai chegando a hora?!..

- De que hei-de arrepender-me

Neste cabo de saudades e tormentas?!...

 Mas do bem que não obrei, sim me arrependo.

E mais!... Porque hei-de eu aspirar,

Por mais viver? …

- A vida não é minha ...

 E se estou vivo é p'ra fazer render!

E quem ma deu e em mim a quer

Enquanto for servindo .... e Deus quiser;

Que venham anos mais, para viver.

António Maria Mourinho

Loures, 14 de Fevereiro de 1996

(Aniversário dos 79 Anos).

01.- Pauliteiros de Miranda

Não faria sentido, uma vez percorrida a pé a desativada e antiga Linha do Sabor, que não falássemos de Miranda do Douro.

 

Embora a antiga e abandonada Linha se tenha quedado por Duas Igrejas, quando pouquíssimos quilómetros restariam para chegar a esta antiga cidade, o certo é que o nome do términus da antiga Estação, conforme se pode verificar ainda num dos seus frontispícios, é – Miranda-Duas Igrejas.

 

Dos interesses que levaram a que a antiga Linha só aqui chegasse, pese embora rezar a história, para nós, agora, pouco importa.

 

Miranda do Douro fica nos confins do nordeste de Portugal. Tem a sua história na História de Portugal. História rica. Que, agora, apenas consta dos seus anais.

 

Hoje o que nos resta de Miranda do Douro não é apenas a sua quota-parte do esforço para a História de Portugal. É a sua própria história. Especial, peculiar.

Estamos com Orlando Ribeiro quando, na «Introduções Geográficas à História de Portugal – Estudo Crítico», (Livraria Letra Livre, 2018), afirma:

Uma nação não é apenas um produto da História. Um grupo de homens unidos pela tradição comum, estabelecida, mantida e reforçada durante um longo passado de convivência, pela igualdança do falar, pela expressão dominante que entre eles tomam ideias e afetos, vive, ligado embora por estes laços morais, sobre um pedaço de solo. A configuração e a natureza do território, o ritmo consabido do clima, a vegetação que reveste as planuras e as serras, as culturas que, no decurso do ano, fazem mudar, segundo uma rotina consagrada, a fisionomia dos lugares, o modo como a população se junta ou dispersa, se adensa ou rarefaz, as maneiras de viver, a animação doa caminhos e dos sítios de convívio constituem, para um país, larga parte da sua expressão nacional. A terra de um povo já não é um simples dado da Natureza, mas uma porção de espaço afeiçoado pelas gerações onde se imprimiram, no decurso do tempo, os cunhos das mais variadas influências. Uma combinação, original  e fecunda, de dois elementos: território e civilizações”.

 

Orlando Ribeiro refere-se a um país, a um povo, contudo, mutatis mutandis, bem se pode aplicar à(s) Terra(s) de Miranda. A história desta Terra(s) não são apenas o produto da História, das suas gentes. A história das suas gentes moldou-se em conformidade com a configuração e a natureza do território, ao ritmo consabido do clima, da vegetação que  reveste o seu planalto, o qual determina o cultivo das suas terras, a configuração dos seus lugares e da sua população dispersa, concentrada.

 

A(s) Terra(s) de Miranda é (são) um produto não só da Natureza. São um porção de espaço afeiçoado pelas suas gerações que, ao longo dos tempos, lhe imprimiu um determinado cunho, um conjunto de influências. Em suma, e como diz o nosso autor Orlando Ribeiro, são o produto de uma combinação original e fecunda destes dois elementos – território e cultura.

 

Apenas estivemos duas vezes nesta cidade: uma delas, quando existia o Pólo de Miranda da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, a pedido do colega (galego), Xerardo Pereiro, fomos lá proferir uma palestra, no âmbito do Curso de Licenciatura em Antropologia, que ali se lecionava; a outra, coincidiu com a estadia (em 2012) do nosso filho, em trabalho no Reforço de Potência da Barragem de Picote, tendo ficado em casa dele, na cidade,

01a.- 2012 - Miranda do Douro 223

exatamente na altura em que fizemos as três últimas etapas da antiga Linha do Sabor.

 

Por esta altura, passámos umas boas horas por esta terra e sua região, tentando descobrir, ir ao encontro de sua «alma», do seu património.

 

Mas quem melhor para ir ao encontro e descobrir a alma desta(s) Terra(s) e suas gentes senão um dos seus filhos prediletos – António Maria Mourinho.

02.- 2012 - Miranda do Douro 210

O poema que António Maria Mourinho escreveu por altura dos seus 79 anos, já muitíssimo perto do seu passamento, e que acima citámos, resumem a alma e o caráter deste insigne mirandês.

 

Mas demos a palavra a Belarmino Afonso, Diretor do Arquivo Distrital de Bragança, na «Evocação de António Maria Mourinho», em 1999: 

A vitalidade atual dos estudos mirandeses é o mais visível resultado das iniciativas de António Maria Mourinho, que em mais de 50 anos de canseiras nunca esmoreceu no desejo de manter viva e de divulgar a cultura mirandesa pelas sete partidas elo mundo. (…)

Etnógrafo por paixão e por identificação com as expressões e circunstâncias da cultura e língua mirandesas, António Maria Mourinho, que a si mesmo se considerava "um mirandês rural, foi talvez dos últimos a presenciar em contexto e a viver enquanto participante todos os aspetos das tradições e práticas desta cultura. Uma cultura de artesãos, pastores, boieiros, cavadores e aradores que a partir da década de 40, sob a pressão de múltiplos processos de aculturação dos hábitos, das práticas agrícolas, da alfabetização e das burocracias, experimenta um processo de desagregação e abertura sem possuir capacidade para se revitalizar. António Maria Mourinho tinha aguda consciência deste processo, que sentia inexorável (vejam-se os parágrafos iniciais da introdução a Nôssa alma i nôssa tiêrra), mas como nunca encarou com passividade a sua relação com a cultura em que nasceu e cresceu, empreendeu iniciativas que, na segunda metade do século XX, deram visibilidade e permitiram a sobrevivência e preservação da língua, da cultura e do património histórico das Terras de Miranda. No seu trabalho de múltiplas orientações, disperso e variado nos resultados, procurou dar sentido de presente à tradição, ou ao que dela restava. (…)

Trilhando caminhos que figuras maiores da etnografia portuguesa já haviam começado a abrir, como José Leite de Vasconcelos e Francisco Manuel Alves (Abade de Baçal), pode dizer-se que foi o primeiro mirandês a fazer através do estudo a defesa persistente e orgulhosa da sua cultura. Em carta de 20 de Março de 1945 diz-lhe o Abade de Baça!: "espero que tu sejas o meru continuador na carolice pela nossa Terra", testemunho que comentará quarenta anos mais tarde com humildade e admiração: «eu nunca passei, nem passarei de um simples pigmeu, junto dele, que era gigante em tudo. (…)

A contínua e multifacetada atividade de António Maria Mourinho tornou-o bem conhecido da comunidade ele etnólogos e historiadores, trazendo-lhe ao mesmo tempo prestígio e projeção mediática. Era habitual vê-lo pelas terras de Miranda acompanhando equipas de filmagens, estudiosos, jornalistas, ou mesmo simples curiosos com avidez de ruralismo. Em geral aproveitava também estas rondas para, com sentido de oportunidade, incentivar sobretudo os artesãos a conservar a arte e técnicas de fabrico de gaitas de fole e de flautas, de olaria, de cestaria, de ferraria, de tecelagem e outras, cujo risco de desaparecimento sentia como iminente, mas capaz de sobreviver se conseguisse corresponder a este surto de procura que motivava pelo menos a sua reanimação económica. Produzir artefactos para venda sempre era melhor que perder definitivamente a arte de fabricá-los.

Após a democratização do país em 1974 o interesse cios mirandeses pela sua própria cultura cresceu, deixou de estar envolto na antiga vergonha de quem se sentia inferiorizado e temia ser ridicularizado por não falar "grave". Hoje já quase não há nenhuma aldeia de Miranda que não tenha fundado o seu próprio grupo ele pauliteiros e que não cultive e mostre com orgulho o prazer de falar mirandês. António Maria Mourinho está também, sem dúvida, na origem deste reencontro dos mirandeses com a sua cultura.

Para os vindouros a marca mais perene de António Maria Mourinho será talvez o Museu das Terras de Miranda, fundado em 1982, por cuja criação lutou persistentemente e do qual viria a ser o primeiro Diretor (até 1995)”.

 

Numa dissertação de mestrado, sob o título «A evolução da Terra de Miranda: Um estudo com base nos sistemas de Informação Geográfica», apresentada por Luís Miguel Pires Meirinhos, em 2014, na Universidade do Porto, este autor apresenta 5 elementos identitários da Terra de Miranda, a saber:

1.- A língua mirandesa, descoberta por Leite de Vasconcelos;

2.- As Capas de Honras Mirandesas;

3.- Os Pauliteiros;

4.- As raças de gado autóctones;

5.- Outras manifestações culturais.

 

Com base nestes 5 elementos identitários, o autor contruiu um Mapa Síntese,

03.- Terra de Miranda - Luís M.P. Meirinhos 02

a partir de 14 elementos, que têm por base aqueles 5 identitários:

01.- área de influência atual da Capa de Honras Mirandesa;

02.- localização das oficinas de artesãos e pontos de venda da Capa de Honras;

03.- grupos de pauliteiros com atividade regular;

04.- localidades pertencentes à área linguística mirandesa;

05.- letreiros e reclames publicitários escritos em língua mirandesa;

06.- locais que têm placas de toponímia urbana em língua mirandesa;

07.- lugares que ainda usam o têm “toque de sinos” associados a Terra de Miranda;

08.- centros de música tradicional mirandesa;

09.- grupos de música tradicional mirandesa;

10.- grupos de danças mistas tradicionais mirandesas;

11.- tocadores de tamboril e fraita mirandesa;

12.- gaiteiros que tocam gaita mirandesa;

13.- festas ligadas ao solstício de Invernos;

14.- efetivos das raças de gado autóctones mirandesas.

 

No mapa supra que o autor nos propões, podemos constatar que o território que se propõe como Terra de Miranda é menor do que o território que compunha a Terra de Miranda na Idade Média,

04.- Terra de Miranda - Luís M.P. Meirinhos 01

pois existiu um recuo nos extremos noroeste e sul. A noroeste, as localidades que atualmente pertencem ao concelho de Bragança deixaram de integrar esse território: Outeiro, Rio Frio, Quintanilha e Milhão. No limite sul, o recuo foi menor, pois apenas Fornos e Lagoaça, que pertencem atualmente ao concelho de Freixo de Espada-à-Cinta não estão incluídos na Terra de Miranda.

 

Desta feita, Luís Miguel Pires Meirinhos afirma, que, nos nossos dias, a Terra de Miranda coincide com as áreas dos três concelhos que compõem o chamado “planalto mirandês”. 

 

Por outro lado, este mesmo autor, na busca para compreender geograficamente o atual espaço da Terra de Miranda, procurou também respostas através das “imagens mentais”, porque, afirma, segundo António Damásio, “O cérebro humano é um cartógrafo nato”.

 

Assim, parecendo-lhe importante, no quadro da Geografia da Perceção, fazer uma análise de um conjunto de mapas mentais elaborados em torno deste espaço Terra de Miranda, aceitando que  espaço da realidade é, em primeiro lugar, uma “representação”, selecionou dois conjuntos de inquiridos que foram desafiados a representar a Terra de Miranda, através de Mapas Mentais: um foi constituído por jovens em idade escolar e a frequentar o ensino básico, procurando saber que conhecimentos têm de um espaço que o vivem diretamente, alunos do 2º e 3º Ciclos do Ensino Básico e Secundário do Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro e o outro por um conjunto de alunos do 2º e 3º Ciclos do Ensino Básico e Secundário do Agrupamento de Escolas de Sendim.

 

De acordo com o resultado dos inquéritos efetuados, e tendo em linha de conta a intensidade dos elementos identitários da Terra de Miranda, para os alunos de Miranda do Douro, as terras mais ligadas ao termo Terra de Miranda são as que constam do mapa abaixo;

05.- Terra de Miranda - Luís M.P. Meirinhos 04

Por outro lado, a perceção mais intensamente identitária das terras que integram a Terra de Miranda para os alunos de Sendim, não diferem muito significativamente da dos alunos de Miranda.

06.- Terra de Miranda - Luís M.P. Meirinhos 03

No que concerne aos elementos não espaciais assinalados pelos alunos de ambas as escolas, são os seguintes, com as respetivas percentagens.

07.- Terra de Miranda - Luís M.P. Meirinhos 05

Para finalizar este post, deixamo-los com uma entrevista do insigne e ilustre mirandês, filho da Terra de Miranda – António Maria Mourinho – dada em 1973, à RTP Memória, sob o título «Em Terra de Miranda», e que vivamente recomendamos a sua visualização.

04
Jun20

Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - 8ª e última etapa :- Sendim-Duas Igrejas - Destaque - Fim de Linha:- Duas Igrejas - A Estação com os seus azulejos

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

 

8ª ETAPA E ÚLTIMA ETAPA:- SENDIM-DUAS IGREJAS

DESTAQUE – FIM DA LINHA:- DUAS IGREJAS (A ESTAÇÃO COM OS SEUS AZULEJOS)

01.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 193

A 6 de maio de 2018, no sítio da internet «Sete Mares - Azulejos da estação de comboios de Duas Igrejas (Trás-os-Montes)»,  podemos ler:

No Nordeste Transmontano, com a incúria a que estamos tão (mal) habituados, jaz morta e arrefece a estação de comboios de Duas Igrejas.

Terminal da linha férrea de Trás-os-Montes, quedou-se esta por Duas Igrejas – não chegando a Miranda do Douro por meia dúzia de escassos quilómetros -, por ser ali o local dos silos cerealíferos da conhecida «campanha do trigo» do Estado Novo – sim, que também ocorreu em Trás-os-Montes e não apenas no Alentejo. Enfim, levar pessoas até à capital do concelho não faria falta… Bastava alcançar os cereais.

Por estas e outras razões que a razão vai desconhecendo, antes como agora fazem-se coisas estranhas que se deixam, depois, desfazer estranhamente sem que, entre esses dois tempos, o cidadão se sinta envolvido, participante ou cúmplice.

Chamo a vossa atenção para o curioso do cartaz afixado

02.- 2018-04-28-3

e para a circunstância de todo o interior do edifício estar a ameaçar ruína.

Ou seja, o eventual roubo está acautelado; a mais que provável derrocada, não sabemos… Sem mais comentários (…)”.

 

Nesta Estação de Duas Igrejas (Miranda do Douro), com  ampla estação terminal,

03.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 204

cais para mercadorias, armazéns diversos,

04.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 194

placa giratória de inversão de material circulante,

05.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 197

(Perspetiva I)

05a.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 201

(Perspetiva II)

toma de água

06.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 198

e carvão, apesar do estado lastimável em que o edifício se encontra, o que nos chamou a atenção foi o conjunto de azulejos que o cobrem.

 

São da autoria de Gilberto Renda

07.- 2018-04-28-7

e resultaram de uma encomenda, feita pela então  CP, à fábrica lisboeta Sant’Anna

 

Os painéis representam cenas de época do quotidiano transmontano,

08.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 184

(Painel I)

09.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 186

(Painel II)

10.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 187

(Painel III)

trajes tradicionais e casa típica transmontana,

11.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 190

(Painel IV)

12.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 191

(Painel V)

um aspeto do mundo rural,

13.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 185

(Painel VI)

dois panoramas da cidade de Miranda do Douro, com a (Co)Catedral como pano de fundo,

14.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 182

(Painel VII)

(Painel VIII)

as ruínas do antigo Paço Episcopal,

16.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 188

(Painel IX)

e, naturalmente, a (Co)Catedral de Miranda do Douro.

17.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 189

(Painel X)

 O comboio – que existiu – nunca chegou a Miranda de Douro. Parou sempre em Duas Igrejas. Esta placa de azulejos, está nesta Estação morta da Linha do Sabor.

 

A catedral, essa nunca ouviu o apito do comboio a chegar! («Mensageiro de Santo António – Revista dos Frades Menores Conventuais») 

2018-04-28-1

 

***

 

Chegados ao término da Linha do Sabor, em Duas Igrejas, nos arredores de Miranda do Douro, façamos um resumidíssimo histórico, utilizando o sítio «Geocaching – Linha do Sabor: Miranda – Duas Igrejas» . 

 

Esta Linha foi construída de forma faseada. O seu longo atraso na conclusão foi ditado por falta de verbas, motivo, segundo este sítio, que nunca chegasse à cidade de Miranda do Douro.

 

A abertura da Linha do Sabor à exploração foi realizada da seguinte forma:

  • Pocinho – Carviçais - em 17 de setembro de 1911;
  • Carviçais – Lagoaça -  em 6 de julho de 1927;
  • Lagoaça – Mogadouro – em 1 de junho de 1930;
  • Mogadouro - Duas Igrejas-Miranda - em 22 de maio de 1938.

Moncorvo foi, de todas as quatro sedes dos concelhos que a linha atravessa, a única a ter estação no próprio povoado. Freixo de Espada à Cinta, Mogadouro e Miranda do Douro tinham as suas respetivas estações longe dos respetivos aglomerados populacionais, o que em último caso condenou a longo prazo a Linha do Sabor ao declínio da sua procura.

 

Acelerado pelo despovoamento que a emigração ditou na segunda metade do século XX, o desinvestimento nesta via-férrea começou. O material tracionado a vapor durou até ao seu encerramento, tanto para os comboios de passageiros, como de mercadorias e mistos.

 

Para os de passageiros surgiu ainda uma pequeníssima automotora, fruto de um projeto nacional, que tinha carroçaria de autocarro e era impulsionada por um motor a gasolina.

 

Ainda existe um exemplar deste peculiar comboio, na Secção Museológica da estação do Arco de Baúlhe, na Linha do Tâmega.

 

Em suma, o material, anacrónico, começou a ser substituído gradualmente por circulações rodoviárias, deixando nos últimos anos de exploração ferroviária apenas uma circulação de comboios em cada sentido, que fizesse integralmente os 105km do Pocinho a Duas Igrejas, e duas que cumprissem apenas o troço Pocinho - Mogadouro. O principal suporte da manutenção da linha (os comboios mineiros da extração de ferro na Serra do Reboredo) acabou, com o declínio rápido da extração do ferro.

 

A 1 de Agosto de 1988, estava tudo acabado na Linha do Sabor, aonde tinha chegado recentemente material a diesel, as locomotivas 9020 da Alstom, que prestaram serviço nas congéneres de via estreita do Douro.

 

Ao longo destas oito reportagens das etapas que fizemos, percorrendo os 105, 291 Km da Linha, viemo-nos queixando do estado deplorável em que estava não só o canal, com o respetivo material fixo, por onde o comboio passava, como as suas respetivas infraestruturas (construções), autênticas obras de arte, como eram as suas estações e apeadeiros. À exceção do troço – à data em que a percorremos, 2012 – entre Torre de Moncorvo e Carviçais, tudo quanto vimos provocou-nos um verdeiro dói de alma!

 

Positivamente houve (há, porventura) um autêntico passa culpas de umas entidades para outras: uns, distantes das terras, pouco sensíveis ao significado afetivo que a Linha representava para as respetivas populações, prenhes de verdadeiro espírito mercantil, numa ótica nitidamente neoliberal, o que viam era apenas o vil metal; outros, que verdadeiramente deveriam lutar mais por um património que eram de todos nós, pago durante dezenas e dezenas de anos com o dinheiro dos impostos de todos nós, foram (e infelizmente ainda são) pouco sensíveis ao valor afetivo e cultural desta infraestrutura, embarcando também no paradigma neoliberal, não foram capazes de, perante um Estado centralizador, omnipresente e todo poderoso, prepotente, «pegar em armas» e lutar por esta «dama»; muitos outros, anónimos, sem verdadeiro sentido e postura cidadã, mercê que tantos anos de ditadura, que lhes entrou «tutano» dentro, desde que não seja coisa ou propriedade sua, o «resto», de todos nós, que se lixe!

 

E, a este propósito, não resistimos em reproduzir a notícia inserta no Jornal Nordeste, de 5 de julho de 2005, sob a epígrafe «Estações caem de podres» 

Cinco estações da antiga linha do Sabor continuam ao abandono, apesar de terem sido incluídas no Programa de Revitalização de Antigas Estações Ferroviárias (PRAEF) lançado em 2001.

Em causa estão as estações de Duas Igrejas, Sendim, Urrós, Bruçó e Freixo de Espada à Cinta, cuja recuperação foi incluída no Plano Nacional de Turismo de Natureza, com vista à criação de cinco unidades de alojamento.

Passados quatro anos, as cinco estações permanecem entregues a si próprias, sem que se vislumbrem investimentos capazes de pôr cobro ao abandono.

O programa chegou, mesmo, a ser alvo de um protocolo entre a REFER, o Instituto de Conservação da Natureza, o Parque Natural do Douro Internacional (PNDI) e as Câmaras Municipais de Freixo de Espada à Cinta, Miranda do Douro e Mogadouro.

Tudo parecia resultar, até os autarcas se aperceberem que o acordo era altamente lesivo para os cofres municipais. [Não houve negociações prévias? Dizemos nós].

«Tínhamos de recuperar as estações com verbas dos municípios e, como se isso não bastasse, ainda éramos obrigados a pagar 250 euros/ano à REFER por cada quilómetro de linha ocupado pelo circuito turístico que íamos criar», recorda o presidente da Câmara Municipal de Miranda do Douro, Manuel Rodrigo.

Contas feitas, as autarquias teriam de desembolsar 12.500 euros, anualmente, para utilizar o antigo canal ferroviário. Era um péssimo negócio.

No caso do município mirandês, estão em causa as estações de Sendim e Duas Igrejas, onde terminava a linha do Sabor. O autarca garante que o restauro dos dois edifícios não fica em menos de um milhão de euros, além das rendas exigidas pela REFER pelo aluguer da linha. «Era um péssimo negócio para a Câmara e foi por isso que não avançamos com o projeto», recorda o edil.

O autarca, contudo, lamenta o estado de degradação das estações de Sendim e Duas Igrejas, que possuem painéis de azulejos únicos.

Em Freixo de Espada à Cinta, a Câmara Municipal nunca acreditou no projeto, atendendo ao valor do investimento em causa. «Quando se propôs às Câmaras pagar 250 euros por quilómetro de linha via-se logo que era difícil alguém aceitar. O contrário é que seria correto, com as Câmaras a receber para limparem a linha e manterem as estações preservadas», alega o presidente da Câmara Municipal de Freixo de Espada à Cinta (CMFEC), Edgar Gata.

O presidente da Câmara Municipal de Mogadouro, Morais Machado, tem uma opinião idêntica. «Tudo o que se refere à REFER nunca pode ir para a frente, porque quer obter mais valias extraordinárias a partir de cadáveres que são as estações abandonadas», critica o autarca.

O edil acusa a empresa de «querer que as Câmaras aluguem a linha e recuperem as estações que a própria REFER deixou degradar de forma irresponsável», acrescentando que o protocolo tinha um prazo de concessão. «Ao fim de 20 ou 25 anos de concessão, tínhamos de entregar as estações à REFER, depois investirmos na recuperação», denuncia o edil.

Na área do município mogadourense situam-se as estações de Bruçó e Urrós, cuja recuperação ascende aos 500 mil euros. «Se a isto somarmos os custos do aluguer da linha e de funcionamento das estações vemos que é incomportável para autarquias como as nossas», recorda Morais Machado.

A pensar na transformação das linhas em unidades de turismo de natureza, o PNDI elaborou um percurso pedestre ao longo do canal ferroviário. O trilho encontra-se devidamente sinalizado, mas o mato dificulta a vida aos caminheiros. «O percurso está definido, mas era preciso recuperar as estações para criar equipamentos de apoio e tornar os trilhos mais atrativos», defende o diretor do PNDI, Victor Batista.

Na antiga linha do Sabor, a exceção é a estação de Lagoaça, [e, acrescentamos nós, a de Torre de Moncorvo, bem assim toda o troço que compreende o território por onde a Linha passa neste concelho] que foi recuperada, em 2001, pela Junta de Freguesia, com o apoio da CMFEC, estando a funcionar como centro de acolhimento, equipado com restaurante-bar e quatro quartos.

Quanto à antiga gare de Freixo, «não está velha, está completamente arruinada e a cair», lamenta o edil.

O Jornal NORDESTE tentou obter uma reação da parte da REFER, através de ofício enviado no passado dia 23 de Junho para o Gabinete de Comunicação e Imagem da empresa. Até ao fecho desta edição, as questões continuavam sem resposta”.

 

Como se vê, apenas «se esgrimia dinheiro» como único argumento!

 

E, face ao que acima se reproduziu, apetecia-nos, chamando a atenção a todas as entidades, particularmente os autarcas,  citar aqui o antigo adágio popular quando diz que «de boas intenções está o inferno cheio»!

 

Até hoje – 2020! -, autarcas, Estado (Administração Central) e cidadãos deixaram cair em ruinas este património nacional, repete-se, pago a peso de ouro por todos nós, e posto às cobiça dos proprietários confinantes que, perante uma propriedade não passível de apropriação privada, por incúria e negligência das entidades estatais e autárquicas, dela se apropri(ar)am como coisa sua!

 

Uma vergonha! Infelizmente nesta Linha e por todas as outras por este país abandonadas.

 

Com raríssimas exceções!

 

Tanto o canal da Linha, como o edificado, bem assim os respetivos azulejos, como verdadeiras obras de arte, são pertença da rede ferroviária nacional. Gerida agora pela IP (Infraestruturas de Portugal), em regime de contrato de serviço publico com Estado português.

 

Flagrante falta de «sentido de estado» e cultura, de uns; de cidadania, de outros…

02
Jun20

Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - 8ª e última etapa :- Sendim-Duas Igrejas

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

  

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

  

8ª  E ÚLTIMA ETAPA

SENDIM-DUAS IGREJAS

(02.maio.2012)

 

01.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 180

 

 

(…) A paisagem é o resultado de uma ordem imposta aos caos original,

é um conceito cultural.

Cada paisagem tem uma leitura própria.

 

O Mirandês é sobretudo criador de gado.

Os lameiros de regadio e de sequeiro

são a nota dominante nesta paisagem.

A compartimentação dos campos

é uma marca ela estrutura agrária de base. (…)

 

Preservar uma paisagem

é mais do que preservar o património natural ou construído.

A história da paisagem mostra-a como uma  operação percetiva,

ou seja uma determinação sociocultural”.

Luísa Genésio

 

Começámos a caminhar, nesta última etapa da antiga Linha do Sabor, que nos levaria ao seu términus – em Duas Igrejas -,  já raiava o sol. Sozinho. Como nas duas penúltimas etapas. Percorremos 11,3 Km.

02.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 001

Pelos céus voava uma cegonha

03.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 008

e, um bonito passeriforme, postava-se num ramo de uma árvore,

04.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 013

com os seus chilreios característicos. Foram mais madrugadoras que nós, tratando de suas «vidas», em plena época primaveril.

 

O mesmo acontecia com este pastor, a única alma que encontrámos até Duas Igrejas, neste planalto deserto, de raras gentes,

05.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 054

levando, à sua frente, o seu cão pastor, de guarda

06.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 058

ao seu rebanho.

07.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 059

Veja-se este delicado cordeiro, que escapou ao sacrifício pascal deste ano!

08.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 061

Ao passarmos por estes dois cenários,

09.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 020

(Cenário I)

10.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 048

(Cenário II)

mais uma vez, as palavras de Luísa Genésio soavam-nos aos ouvidos:

A paisagem é o resultado de uma ordem imposta aos caos original, é um conceito cultural. Cada paisagem tem uma leitura própria”. Na verdade… Caminhos, árvores bordejando-os, terras cultivadas, germinando, portadoras de diferentes coloridos e, inopinadamente, à borda do trilho, uma cruz, a quem os Homem, para certos homens, lhe atribue o fim do seu próprio «caminho»!

 

Pensando na precaridade desta nossa «passagem», entretanto, um cheiro intenso a esteva (Cistus ladanifer) nos perseguia, espalhada ao longo deste nosso percurso, cascalhento.

11.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 080

A par da esteva, uma árvore e um arbusto foram as duas espécies mais presentes no decurso da nossa jornada de hoje: o sobreiro (Quercus suber)

12.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 077

e o zimbro (Juniperus communis L.).

13.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 152

Por entre dois sobreiros, a aldeia de Fonte de Aldeia, localizada um pouco ao nosso lado direito.

14.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 090

Mais umas boas dezenas de metros, por meio de um piso duro e confinado,

15.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 093

avistávamos o Apeadeiro de Fonte de Aldeia.

16.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 097

É uma arquitetura simples. Mas bonita. Ao mesmo abandono que todas as outras, por estas paragens!

 

Quer no exterior,

17.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 099

quer no interior.

18.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 109

(Perspetiva I)

19.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 101

(Perspetiva II)

Agora, Fonte de Aldeia apresenta-se-nos mais perto de nós.

20.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 110

Cotos de videira, velhinhos, persistem em ofertar, a quem deles carinhosamente os trata, o seu precioso néctar. Em plena planura do planalto, e a coberto, ao longo, dos pináculos do conjunto montanhoso.

21.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 117

Na continuação da nossa caminhada, no meio de um conjunto de vinhedos, este interessante cruzeiro,

22.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 127

que já perdeu a conta aos anos que tem!

23.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 124

Não havia necessidade de caminharmos com muita pressa. O trilho,

24.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 129

sempre acompanhado de estevas floridas, zimbros e sobreiros, convidava-nos à calma, à tranquilidade, dando-nos uma verdadeira paz de espírito…

 

Entrávamos no último troço da planura do planalto mirandês.

25.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 134

Nela, a exploração pecuária,

26.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 170

juntamente com a semeadura do cereal,

27.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 151

(Perspetiva I)

28.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 158

(Perspetiva II)

com um ou outro castanheiro idoso pelo meio, são os cenários que estas terras mirandesas nos oferecem.

29.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 144

(Cenário I)

30.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 149

(Cenário II)

E, mais uma vez, Luísa Genésio: “O Mirandês é sobretudo criador de gado. Os lameiros de regadio e de sequeiro são a nota dominante nesta paisagem. A compartimentação dos campos  é uma marca da estrutura agrária de base”.

 

Na verdade, “Preservar uma paisagem é mais do que preservar o património natural ou construído. A história da paisagem mostra-a como uma  operação percetiva, ou seja uma determinação sociocultural”.

 

Pelo meio de um piso duro, pouco meigo para umas botas de caminheiro já em fim de prazo, a certa altura, mais uma interrupção do trilho-canal da antiga Linha!

31.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 166

Duas Igrejas aparecia-nos à nossa frente. Todavia, a dureza do cascalho e a completa obstrução do antigo canal, obrigaram-nos a saltar para o lameiro à nossa direita a fim de atingirmos o final da nossa caminhada.

32.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 168

E não sabemos porque artes, uma passagem de «Vida e Proezas de Aléxis Zorbás» [São Paulo: Grua, 2011, 3ª edição, de Nikos Kazantzákis (1883-1957), página 124. Veja um resumo desta obra na Wikipédia. E, a não perder, a adaptação cinematográfica desta obra, deste intelectual grego, com a designação Zorba, o Grego, que conta com as brilhantes interpretações de Anthony Quinn, Alan Bates e Irene Pappás] nos ocorreu à mente e que aqui deixamos também para reflexão dos(as) nossos(as) leitores(as).

 

Palavras, ainda por cima, ditas por um rude, mas experimentado e vivido, grego, com a sua espontaneidade visceral!

“(…) se soubéssemos o que dizem as pedras, as flores, a chuva!

Pode ser que chamem, que nos chamem e a gente não ouça.

Assim como nós também chamamos e elas não nos ouvem.

Quando se abrirão nossos olhos, para vermos?

Quando se abrirão nossos braços, para que pedras, flores, chuvas e seres humanos se abracem? (…)”

 

Os metros finais a percorrer nesta antiga Linha do Sabor, antes de chegarmos à antiga Estação de Duas Igrejas, oferecia-nos esta longa e larga avenida.

33.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 175

Terminada a nossa aventura ao longo de 105,291 Km, de Pocinho até aqui, sentámo-nos a descansar um pouco, em frente de um dos degraus da antiga plataforma desta linda  – e também! – negligenciada Estação.

34.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 181

O nosso estado de espírito, naquele preciso momento, bem se poderia resumir às últimas palavras do livrinhos «Teoria da Viagem – Uma poética da Geografia», de Michel Onfray.

 

Reproduzamo-las:

Basta sentirmo-nos nómadas uma vez para sabermos que voltaremos a partir, que a última viagem não será a derradeira. A não ser que a morte nos surpreenda pelo caminho … (…)

O fim misterioso de Segalen, exangue aos pés de uma árvore, nos bosques de Huelgoat, com um Shakespeare na mão, parece-me emblemático: não morrer debaixo de um teto, mas lá fora, sob o céu e as estrelas, vivo.

A busca de si termina quando se solta o último suspiro. (…)

O espírito do geógrafo [ e nós temos um pouco o espírito de geógrafo] não se confunde com o do geólogo, mineiro de fundos e escavador de falhas. Um percorre o planeta e concentra-se com o movimento no contorno do mapa-múndi, o  outro instala-se e faz o seu buraco, escava uma toca para nela sepultar a sua energia e curiosidade. (…)

Os pretextos para partir podem se aleatórios: abrir um atlas, fechar os olhos, apontar um país, optar por uma região inesperada, receber de braços abertos os convites – quem tenha essa sorte – para calcorrear o planeta, aceitar os sonhos de criança, aceder ao desejo de alguém que nos é caro, partir num encalce de um poeta, de um filósofo ou artista que amamos, à procura de uma geografia sentimental encarnada, em busca de uma poética da geografia, dentro do espírito de Bachelard quando fala de uma poética do espaço e de um direito a sonhar. A prosa do mundo pode ser decifrada, segundo a lição do filósofo de Borgonha, através da água, da terra, do fogo, das nuvens, dos sonhos, dos devaneios, de um sótão, de uma casa, de uma concha, da chama de uma vela ou de um fogo. Ou de um poema. Porque o poema do mundo convida a incessantes interpretações”.

 

Levantámo-nos. E atravessámos, quase sem parar, a aldeia de Duas Igrejas, deixando para trás de nós, este cenários:

35.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 211

(Cenário I – Um carro de bois abandonado)

36.-2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 212

(Cenário II – Uma rua da aldeia. Ao fundo, o moderno campanário da Igreja Matriz)

37.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 215

(Cenário III – Largo da aldeia com fontenário e tanque e uma casa em ruínas)

38.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 222

(Cenário IV – Uma outra rua da aldeia)

39.-  2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 225

(Cenário V – Igreja Matriz, de Santa Eufémia)

A Igreja Matriz de Duas Igrejas é de uma só nave, com cinco tramos, divididos por quatro arcos-diafragma, que exteriormente correspondem a contrafortes. A cabeceira é mais elevada do que a igreja. O arco triunfal está ladeado pelo retábulo do Senhor da Piedade e da Senhora da Soledade, uma obra de talha barroca setecentista. Possui vestígios diversos de pinturas quinhentistas. Data do século XVI.

40.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 237

(Cenário VI – Fonte de mergulho)

41.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 233

(Cenário VII – Capela de São Bartolomeu, com um antigo cruzeiro, restaurado)

Ao chegarmos à estrada, que liga Duas Igrejas a Miranda do Douro, olhando para o relógio, apercebemo-nos que, face à hora marcada com Tópê para nos ir buscar, ainda era cedo. Que fazer?

 

Aventurámo-nos a ir até à Capela ou Santuário da Senhora do Monte.

 

Antes de chegarmos aquele Santuário, deixemos três cenários que, ao longo deste curto percurso, captámos.

42.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 249

(Cenário I – Casario velho)

43.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 247

(Cenário II – Um velho pombal)

44.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 238

(Cenário III – Alminhas)

E, agora, eis a Capela ou Igreja de Nossa Senhora do Monte, localizada fora do centro da povoação e rodeada de um amplo recinto.

45.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 245

Segundo a lenda da Senhora do Monte, uma pastorinha muda foi incumbida pela Virgem Maria, de informar os habitantes do lugar onde deviam edificar um templo em sua honra. A data apontada para esta aparição é de 902.

 

No dia 15 de Agosto faz-se a romaria da Senhora do Monte.

 

Para finalizarmos esta reportagem desta 8ª e última etapa a pé na antiga Linha do Sabor, deixamos à visualização dos(as) nossos(as) leitores(as) a fachada principal da Igreja de Nossa Senhora do Monte

46.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 244

e um pormenor do seu campanário, vista numa perspetiva lateral.

47.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 246

Aproximando-se a hora marcada com Tópê, nosso filho, para nos vir buscar e nos levar até Sendim, para irmos buscar a nossa viatura e dirigirmo-nos a Miranda do Douro, regressámos à beira da Estrada Nacional 221.

 

Como, com certeza, os(as) nossos(as) leitores(as) deram conta, não falámos muito sobre a Estação-términus da antiga Linha do Sabor, nesta povoação de Duas Igrejas.

 

Fizemo-lo de propósito. A ela lhe vamos dedicar um só post, ao mesmo tempo que pretendemos, para finalizar, tecermos algumas considerações finais.

 

Apresentamos o diaporama desta 8ª e última etapa, realizado em março de 2013.

 

LINHA DO SABOR – 8ª E ÚLTIMA ETAPA:- SENDIM-DUAS IGREJAS

31
Mai20

Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - 7ª etapa :- Sanhoane-Sendim

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR 

7ª ETAPA

SANHOANE-SENDIM 

 (01.maio.2012)

01.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 162

(Pormenor da antiga Estação de Urrós)

 

"Contemplar a paisagem sob o ponto de vista da infinitude,

leva-nos a protestar contra

o modo puramente utilitarista de contemplar a realidade,

característica da visão técnico-científica dos dias de hoje.”

(R. Assunto).

A contemplação da paisagem

pode valorizar a beleza como finalidade em si,

e não somente a utilidade das coisas reais.

A paisagem é um objeto estético,

consequência da filosofia da Arte e da Natureza. (…)

A ideia da paisagem

concebe-se como uma forma da Natureza

ao constituir-se como objeto estético. (…

A paisagem enquanto objeto estético

 provoca em nós reações intelectuais ou sensoriais. (…)"

 

Luísa Genésio

 

Saímos de casa de nosso filho, Tópê, em Miranda do Douro, em direção a Sanhoane.

 

Já o sol começava a raiar, quando demos início à jornada de hoje, com a distância de 12,5 Km.

02.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 026

Caminhávamos em pleno planalto mirandês, por entre troços retos, rodeados de cor verde e amarela, espalhada pelos campos, debaixo de um céu azul, coberto de muitas nuvens brancas, carregadas.

03.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 027

A determinada altura, o canal da antiga Linha é interrompido, dando-nos a sensação da existência de uma passagem, ligando dois campos de lameiro.

04.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 036

Percorrendo a antiga Linha pelo planalto, sozinho, apenas, nos primeiros quilómetros que percorremos, deparámos com os cenários de um pasto, que exibimos aos(às) nossos(as) leitores(as).

05.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 045

(Cenário I)

06.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 047

(Cenário II)

07.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 037

(Cenário III)

08.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 043

(Cenário IV)

09.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 040

(Cenário V)

Foi o a observação desta cria, aninhada junto de sua mãe, que nos fez com que nos viesse à lembrança as palavras, supra citadas, de Luísa Genésio – «A paisagem mirandesa – uma leitura» -, professora do Instituto Politécnico de Bragança, ínsitas na publicação «Estudos Mirandeses – Balanço e orientações», conjunto de estudos ou textos coordenados por José Francisco Meirinhos, editada pela Granito, Editores e Livreiros, uma publicação de Homenagem a António Maria Mourinho (Atas do Colóquio Internacional: Porto, 26 e 27 de março de 1999), e que tínhamos lido uns dias antes.

 

Relembremos: “A contemplação da paisagem pode valorizar a beleza como finalidade em si, e não somente a utilidade das coisas reais”.

 

A paisagem ou os seus cenários que, andando, víamos, naquele preciso momento da nossa passagem não representava somente um aspeto utilitário, que tinha a ver com a exploração dos recursos, nomeadamente estes de natureza pecuária. Oferecia(m)-se aos nossos olhos como um objeto efetivamente estético. Despertava-nos sensações. Fazia-nos pensar não apenas na Natureza, outrossim na simbiose entre Natureza e Arte. Na verdade, estamos com Luísa Genésio quando, logo a seguir, nos afirma que “A ideia da paisagem [ou dos seus diferentes cenários] concebe-se como uma forma da Natureza ao constituir-se como objeto estético”.

 

Era congeminando sobre estas questões, quando passávamos pelo estreito canal, onde, durante umas boas centenas de metros, a esteva (Cistus ladanifer), umas em botão, outras já completamente floridas de noivas, vestidas de branco, se estendiam em tapete à nossa passagem.

10.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 051

A páginas tantas, porque andando na planura, a passo estugado, tivemos de parar, perante este obstáculo.

11.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 052

Ficámos com a sensação que estávamos perante um abuso de um particular. Estávamos em 2012. A Linha, é certo, já tinha encerrado há uns bons anos, mais precisamente em 1988. Mas, que nos constasse, naquela altura, apesar de todo o material fico ter sido arrancado e estar totalmente abandonada, aquele canal, porque pertença do domínio público do Estado – e, consequentemente, insuscetível de apropriação privada – não podia ser objeto de uso privado, mesmo que se quisesse usar o instituto jurídico da posse, constante do nosso Código Civil. Mas, em Portugal, as coisas acontecem… Por incúria e negligência de uns e por usura e abuso de outros. Infelizmente!

 

Lá conseguimos saltar a vedação e, mais à frente, continuámos a circular no trilho daquela que foi uma linha de caminho de ferro.

12.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 056

De um lado e de outro, apresenta-se-nos, em toda a sua pujança primaveril, o planalto cerealífero, multicolorido.

13.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 059

(Cenário I)

14.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 063

(Cenário II)

15.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 065

(Cenário III)

E, mais uma vez, nos ocorria à mente a reflexão de Luísa Genésio, citando R. Assunto: “Contemplar a paisagem sob o ponto de vista da infinitude, leva-nos a protestar contra o modo puramente utilitarista de contemplar a realidade, característica da visão técnico-científica dos dias de hoje”.

 

Somos um urbano, mas nómada até ao tutano. E profundo amante da «viagem». Como tal, esta paisagem, com os seus diferentes cenários, que pela primeira vez contemplávamos, provocava, essencialmente em nós, reações intelectuais e sensoriais. Puramente. Mesmo trazendo à mente a labuta diária do agricultor para a adornar. Cultivando-a. Transformando-a, a nossos olhos, num verdadeiro objeto cultural. Digna de ser vista!

 

E enquanto trazíamos à nossa mente estas reflexões, continuávamos, pé firme, percorrendo este canal, que resta da antiga Linha,

16.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 069

adivinhando vida, quando vislumbrávamos, no fundo do horizonte, a serra e o planalto, a fundir-se com todos os elementos do povoado que passava à nossa frente.

17.-2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 073

Estancámos o passo para contemplar, no cocuruto dos ramos de uma árvore, esta linda ave.

18.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 078

Mas, umas centenas de metros mais à frente, sobe por nós acima uma certa indignação.

19.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 079

Não há civismo em certas pessoas. Para já não falar na completa ausência de sensibilidade para as coisas que, porque de todos nós, para nossa fruição, deveriam ser tratadas com mais cuidado e carinho. Uma lixeira!...

 

Continuávamos agora a caminhar no meio de uma antiga Linha, agora tomada por um verdadeiro giestal.

20.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 081

Percorridos umas centenas de metros, e passando por debaixo deste viaduto de estrada,

21.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 090

avistávamos a Estação de Urrós.

22.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 097

Passámos pelo antigo armazém de mercadorias 

23.-- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 099

e pelo exterior do edifício da antiga Estação.

24.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 102

E reparámos no antigo Depósito de Água para abastecer as locomotivas a vapor.

25.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 113

Apreciámos este painel de azulejos.

27.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 103

E não perdemos este pormenor do edifício.

26.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 108

Uma bonita arquitetura ao completo abandono! Sem qualquer cuidado, sendo palco do mais puro desleixo e incúria de quem devia de cuidar de um património que foi palco, testemunha, da Vida de muitas gentes. Cheio de História.

 

Entrámos.

28.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 106

E ficámos verdadeiramente escandalizados!

 

Saímos de imediato. E, não sabemos porquê, mas de imediato nos veio à lembrança uma experiência tida num dos países europeus em que um dos responsáveis pelo património nacional nos dizia que grande parte significativa dos proventos provenientes dos jogos de azar e fortuna (que é o mesmo que dizer dos lucros da nossa Santa Casa da Misericórdia de Lisboa), em vez de irem para o futebol, como cá acontece, iam para serem investidos na recuperação, valorização e manutenção do património (nacional).

 

Aqui, neste nosso Portugal à beira mar plantado, valoriza-se mais «Os três F» - Futebol, Fado e Fátima, popularmente referidos, no pós 25 de Abril, como os três pilares da ditadura salazarista que, na realidade, era a trilogia – Deus, Pátria e Fátima

 

O que nos encheu a alma, andando uns bons metros à frente, foi o encontro com esta linda poupa ou boubela (Upupa sp.).

29.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 117

Continuávamos a nossa jornada, agora sobre piso duro, ao qual ainda não havia sido retirado o cascalho.

30.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 123

Tínhamos a sensação que estávamos nas alturas, com o céu a colar-se à terra.

31.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 129

Não sabíamos, ao todo, quantos quilómetros já tínhamos andado nesta Linha a pé. Mas, esta placa, uma sobrevivente a voragem do tempo e do Homem, encarregou-se de nos avivar a memória.

32.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 134

Aqui e ali, a cultura da videira e do vinho, vai, lentamente, tomando conta de pedaços da antiga Linha.

33.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 152

Uma pista, agora mais larga, desimpedida e cuidada,

34.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 144

correndo ao lado das vias rodoviárias novas, ou entretanto melhoradas,

35.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 145

indicava-nos que nos encontrávamos muito perto de Sendim.

 

E, a antiga Estação, em poucos minutos, oferecia-se-nos a nossos olhos.

36.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 156

O mesmo abandono e incúria de um património cuidado a «tratos de polé».

37.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 160

Mas a cultura viva do quotidiano rural destes povos do planalto mirandês, plasmada nestes painéis de azulejos azuis,

38.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 167

(Painel I)

39.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 172

(Painel II)

40.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 173

(Painel III)

resiste à voracidade do tempo e aos desleixo dos homens! Um misto de admiração e tristeza nos invadiu quando, aqui, demos por finda a nossa etapa de hoje e contemplávamos esta Estação.

 

Abandonámos este lugar, em direção ao centro da vila, onde tínhamos combinado encontrar-nos com o nosso filho.

 

Na despedida da antiga Estação de Sendim,

41.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 186

não deixámos de reparar no pormenor desta cornija do edifício.

42.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 177

Mesmo linda!

 

Enquanto esperávamos por Tópê para nos levar a Sanhoane buscar nossa viatura, demos uma olhadela pelo centro de Sendim.

 

Nele destaca-se o Pavilhão Multiusos,

43.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 207

três painéis de azulejos, representando o passado

44.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 208

(Painel I)

45.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 209

(Painel II)

e o futuro de Sendim.

46.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 210

(Painel III)

Ainda nos deu tempo para ver a Igreja Matriz, também conhecida como Igreja de Santa Bárbara, de planta longitudinal, de uma só nave e com capela-mor retangular.

47.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 217

A sua fachada principal é rasgada por um portal de arco completo, assente em duas pilastras, encimada por arquitrave. Sobrepõe-se-lhe um nicho com a imagem de Santa Bárbara, ladeado por dois pináculos. Está encimada por uma dupla sineira. No meio, uma mais pequena.

48.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 212

Também, muito à pressa, não deixámos de reparar no seu casario mais antigo

49.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 213

bem como noutro recuperado.

50.- 2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 218

Numa última olhadela para o património de Sendim, quando Tópê, o nosso filho, já se encontrava junto de nós, para repararmos nesta Capela do Senhor da Boa Morte.

2012 - Linha do Sabor (Sanhoane-Sendim) 214

E, por se falar em morte, veio-nos à memória uns versos de um ilustre filho desta terra, aqui nascido – António Maria Mourinho.

 

Este erudito e culto filho de Sendim, grande dinamizador da cultura mirandesa e da sua língua – o mirandês -, a pouco tempo do seu passamento, quando completava 79 anos de idade, escrevia, a 14 de fevereiro de 1996:

Anos!... hoje eu faço anos, ainda vivo!

E tantos já!... setenta e nove!...

Oitenta menos um!... e não mais tornam,

Na onda irreversível que se move!

 

A vida e o tempo

 

São como o vento…

Como se fosse um remoinho à solta!

Assim eu vou correndo, sem parar,

Em solenidade cônscia e saudosa

De tantas coisas gastas, dia a dia

Em mágoas e tormentos (e alegria).

Que assim a vida é feita até findar.

Ai mocidade em flor… Ai! Plena de vida!...

De esforços e canseiras… a sonhar…

Que já lai vai, mal gasta e mal perdida!

 

Apresentamos o diaporama desta etapa, realizado em março de 2013.

 

LINHA DO SABOR – 7ª ETAPA:- SANHOANE-SENDIM

 

25
Mai20

Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - 5ª etapa :- Bruçó-Mogadouro

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO 

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS 

 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR 

5ª ETAPA:- BRUÇÓ - MOGADOURO 

(27.junho.2012)

 

01.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 25

(Estação de Mogadouro)

Embora esta etapa apareça como a 5ª na Linha, como referimos no post anterior, o certo é que foi a antepenúltima que realizámos.

 

Feitos este reparo, comecemos então a reportagem da caminhada desta etapa, de 14,8 Km, nesta  Linha abandonada.

 

E façamos já aqui um pequeno reparo. Embora a distância entre Bruçó e Mogadouro seja de 13, 759 Km, contudo, sabendo nós que os amigos companheiros – Florens e Tiago Pinto – que vinham de Duas Igrejas, já se encontravam nas proximidades de Mogadouro, algures entre Variz e Mogadouro, fomos ao seu encontro. Decorrido 1 Km, encontrámo-nos os três.

 

Fica aqui o registo. Primeiro, da nossa paragem, quando, via telemóvel, os dois nos avisavam que estavam perto.

02.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 06

Depois a paragem técnica para descanso dos pés e hidratação, face à canícula que fazia, de Tiago

03.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 12a (3)

 Florens.

04.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 12a (4)

Após uma pequena paragem, mochila às costas,

05.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 12a (5)

voltávamos ao caminho, em direção à Estação de Mogadouro, por onde tínhamos passado há pouco tempo.

 

Acabámos os três na Estação de Mogadouro, onde tirámos uma série de fotos, que aqui deixamos aos nossos(as) leitores(as).

 

Continuámos com a máquina de filmar, por isso, as imagens não apresentam grande qualidade.

 

Das fotos tiradas com os nossos dois amigos – Flores e Tiago -, primeiro, apresentamos uma na nossa aproximação à antiga Estação de Mogadouro, onde, usando o zoom, se vê ao longe Mogadouro, a cerca de 5 Km da Estação;

06.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 22

depois, chegávamos à antiga Estação.

07.- .- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 29

(Perspetiva I)

08.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 27

(Perspetiva II)

09.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 30

(Um pormenor do edifício)

10.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 31

(Estação, tendo por detrás, grandes silos de cereal)

Entrámos no edifício abandonado e em ruínas.

 

Linda arquitetura e bonitos interiores.

 

Mas, ficámos com um verdadeiro «dói de alma».

11.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 34

Que lastimável estado em que estas instalações se encontra(va)m!

12.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 33

 

***

 

Fizemos esta caminhada sozinho, à exceção, como acabámos de referir, do encontro com os doía amigos antes da Estação de Mogadouro.

 

Saíamos, de Bruçó, começava a raiar o sol.

13.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 01

Veja-se a Estação de Bruçó, infelizmente como a totalidade de todas as estações e apeadeiros desta antiga Linha, no estado lastimável em que se encontra(va)!

14.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 02

(Perspetiva I)

15.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 04

(Perspetiva II)

Deixámos a antiga Estação.

16.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 05

O canal da Linha, já não tem qualquer estrutura que indicie algum material fixo da mesma. Todo ele é tomado pela vegetação autóctone.

 

Tudo ao completo abandono!

 

Estamos no verão. No planalto transmontano é tempo da colheita do cereal. Aqui os campos não apresentam qualquer incúria ou abandono. Produzem e são úteis!

 

Eis, entre muitos, os cenários captados ao longo do percurso de hoje.

17.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 07

(Cenário I)

18.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 08

(Cenário II)

19.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 09

(Cenário III)

20.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 10

(Cenário IV)

21.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 11

(Cenário V, com um característico pombal)

22.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 12

(Cenário VII)

Aproximávamo-nos,

23.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 12a (1)

a passos largos,

24.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 12a (2)

da modesta povoação de Vilar do Rei, onde impera a sua Igreja.

25.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 13

Nesta aldeia, chamou-nos a atenção este pombo, de entre muitos que víamos enquanto caminhávamos, em cima do telhado de uma casa.

26.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 15

Embora caminhássemos com pé estugado, não deixámos de comtemplar esta linda flor,

27.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 16

bem assim esta viçosa flor de cardo que, uma vez seca, dado o seu poder coagulante, é utilizada para o fabrico de queijo.

28.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 17

O Apeadeiro de Vilar do Rei, um pouco mais à frente, aparece-nos.

29.-  2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 19

Passámos por ele, mas não pudemos entrar, tal a quantidade de silvedo que o envolvia!

30.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 18

Continuámos o nosso percurso, num canal de linha, deplorável, onde não se podia passar, e totalmente votado ao abandono,

31.- 2012 - Linha do Sabor - Bruçó-Mogadouro) 21

até que chegávamos à Estação de Mogadouro.

 

A partir daqui, já os nossos(as) leitores(as) conhecem a nossa história do restante da etapa de hoje.

 

Apresentamos o diaporama desta etapa realizado em março de 2013.

 

LINHA DO SABOR – 5ª ETAPA:- BRUÇÓ-MOGADOURO

 

11
Mai20

Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - 4ª etapa :- Lagoaça-Bruçó

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

  

4ª ETAPA:- LAGOAÇA - BRUÇÓ

(28.junho.2012)

01.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 058

(Estação de Lagoaça)

 

A reportagem desta caminhada pelas «Travessas da linha do Sabor» está sendo, para nós, um parto difícil.

 

A razão é simples de explicar.

 

Esta linha abandonada foi feita a pé na primavera e princípio de verão de 2012.

 

Mas não foi uma caminhada, por etapas, feitas todas de seguida. Foi realizada em três fases. A primeira fase, composta de três etapas -  do Pocinho a Lagoaça, acompanhado pelo nosso amigo Neca e pelo Edu, nosso sobrinho neto, com apoio de viatura do nosso cunhado -, foi efetuada em três dias seguidos.

 

Por via de compromissos, deixámos as restantes etapas até Duas Igrejas, término da linha, para uma outra ocasião.

 

De 30 de abril a 2 de maio de 2012, aproveitando a estadia de nosso filho, em serviço no Picote, Miranda do Douro, aproveitámos para fazer a segunda fase, ou seja, as etapas – Mogadouro-Sanhoane, Sanhoane-Sendim e Sendim-Duas Igrejas.

 

Por questões logísticas, uma vez que a caminhada é linear, de manhã íamos até ao início da cada etapa com a nossa viatura e, à tarde, nosso filho, com a sua,  ia ter connosco ao término da mesma para nos levar ao início, a fim que pegarmos no nosso carro.

 

Para completarmos todo o troço da linha, faltava-nos fazer agora as etapas, que constituíam a terceira fase – Lagoaça –Bruçó e Bruçó – Mogadouro.

 

No dia 27 de junho de 2012, o nosso companheiro de muitas caminhadas, Florens, nosso sobrinho, juntamente com um amigo e colega de trabalho, Tiago Pinto, tentaram fazer a linha, via descendente, começando por Duas Igrejas.

 

Assim, no dia 27 de junho, iniciámos sozinho a etapa Bruçó até Mogadouro, via ascendente, ao encontro do Florens e do Tiago.

 

Entretanto Florens lesionou-se, nas proximidades de Mogadouro. Os dois amigos interromperam a caminhada por toda a Linha até ao Pocinho.

 

E como a nós apenas nos faltava fazer na Linha escassos 9,4 Km, de Lagoaça a Bruçó, Tiago e Florens esperaram por nós, para nos dar apoio, ou seja, nos ajudar a ir a Bruçó para irmos buscar a nossa viatura.

 

Em Lagoaça, na sua estação, almoçámos os três, do farnel que levávamos. A etapa Bruçó-Lagoaça foi a única que fizemos em sentido descendente, embora a apresentemos neste post como se fosse ascendente. E foi feita sozinho.

 

Na segunda quinzena de março de 2013, efetuámos um conjunto de oito diaporamas – um por cada etapa – oito etapas realizadas ao longo desta Linha do Sabor, que batizámos como «Pelas Travessas da linha do Sabor», apresentando-se agora a respetiva programação e os sítios da internet (Youtube), onde se podem visualizar.

 

PELAS TRAVESSAS DA LINHA DO SABOR

 

* 02.abril.2012:

- 1ª etapa:- Pocinho-Torre de Moncorvohttps://www.youtube.com/watch?v=TxoTf91PTAs

 

* 03.abril.2012 :

- 2ª etapa:- Torre de Moncorvo-Freixo de Espada à Cintahttps://www.youtube.com/watch?v=CK00-Qw4-BE

 

* 04.abril.2012

3ª etapa:- Freixo de Espada à Cinta-Lagoaçahttps://www.youtube.com/watch?v=mKTxkvzCJ7o

 

* 28.Junho.2012

- 4ª etapa:- Lagoaça-Bruçó - https://www.youtube.com/watch?v=iiV-pwC-Ofc

 

* 27.Junho.2012

5ª etapa:- Bruçó-Mogadourohttps://www.youtube.com/watch?v=X7EQJbP9rMM&feature=youtu.be

 

* 30.Abril.2012

- 6ª etapa:- Mogadouro-Sanhoanehttps://www.youtube.com/watch?v=jdpMuv0ragg&feature=youtu.be

 

* 01.Maio.2012

- 7ª etapa:- Sanhoane-Sendimhttps://www.youtube.com/watch?v=1yD4dihrpKU&feature=youtu.be

 

02.Maio.2012

- 8ª e última etapa:- Sendim-Duas Igrejashttps://www.youtube.com/watch?v=mWnsanAOmjI&feature=youtu.be

 

Para uma melhor visão da antiga Linha do Sabor, com o seu início e respetivo término, bem assim as suas estações e apeadeiros e quilómetros, apresenta-se a Legenda da mesma, obtido através da Wikipédia.

01a.- Linha do Sabor

Acresce a esta «via crucis» desta caminhada, na antiga Linha do Sabor, e no que respeita à sua reportagem, a circunstância de termos perdido o Bloco de Notas, no qual apontámos a impressões que para ele vertemos sobre cada etapa que realizámos, nomeadamente da segunda e terceira fase da caminhada nesta Linha, aliás como é nosso hábito fazermos em todas as caminhadas que efetuámos. Depois de tanto procurarmos, não conseguimos dar com ele!

 

Fica, aqui, assim, a reportagem apenas com as memórias que, passados oito anos, as imagens que captámos, nos suscitam!...

 

Embora esta etapa apareça como a 4ª na Linha, como se pode ver pela programação acima apresentada, o certo é que foi a última que realizámos. Embora as imagens que apresentamos apareçam no sentido Lagoaça-Bruçó, na verdade, elas foram tiradas – e, por isso, devem ser vistas – como realizadas enquanto caminhávamos no sentido descendente, ou seja, Bruçó para Lagoaça, aliás como acima informámos.

 

Feitos estes reparos, e dadas estas informações, vamos então começar a reportagem da caminhada desta linha abandonada que foi interrompida a 19 de fevereiro do corrente ano e iniciada a 22 de janeiro de 2017 com a 1ª etapa Pocinho-Torre e Moncorvo.

 

Esclarecendo que as imagens que vão ser exibidas não serem de boa qualidade: foram realizadas com uma máquina de filmar, em vez da máquina fotográfica que habitualmente usamos quando caminhamos.

 

***

 

Partimos de Bruçó ainda não eram bem oito horas da manhã. E, nesta etapa, percorremos apenas 9, 4 Km.

 

Num dia de verão.

 

Passada uma hora de caminho, começava-se já a sentir os efeitos do calor para estas paragens.

 

Tivemos que nos hidratar várias vezes.

 

Apresentam-se 4 imagens do trilho, um pouco antes da Estação de Lagoaça.

02.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 056

(Troço I)

03.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 055

(Troço II)

05.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 052

(Troço III)

06.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 049

(Troço IV)

Como se pode verificar, um total abandono a que este canal da antiga linha foi votado!

 

Bem patente no derrube deste poste de informação da antiga linha.

04.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 054

A povoação de Lagoaça começou a ficar-nos para trás.

07.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 045

E começávamos a entrar em pleno meio rural, numa zona que começava a antecipar o planalto.

08.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 043

Em relativamente pouco tempo, passávamos ao lado da subestação de Lagoaça.

09.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 041

E o planalto, configurando-se, cada vez mais, nítido,

10.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 039

começa-nos a aparecer, cortado pelo traço da antiga Linha.

11.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 038

(Perspetiva I)

11a.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 030

(Perspetiva II)

12.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 035

(Perspetiva III)

Seria esta ruina de construção um antigo abrigo de pastor(es)?

13.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 034

O tempo de que dispúnhamos, dava-nos azo à contemplação da Natureza e dos muitos elementos que a compõem.

14.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 033

Até que, a determinada altura, o canal, por onde caminhávamos, é interrompido.

15.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 031

Tivemos de contornar todo este lugar, transformado em pedreira,

17.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 022

Bons blocos de granito!

18.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 023

Do outro lado da pedreira, um grande bloco de granito a interromper a antiga Linha.

19.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 019

Abuso ou permissão? Neste reino português, vai-se lá saber como é que as coisas acontecem (ou se tecem)!...

 

Uma paisagem quente e rochosa, esta por onde passávamos.

 

Onde apenas medram os pequenos arbustos. E o zimbro que começa a aparecer.

20.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 018

(Cenário I)

20a.-2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 012

(Cenário II)

20b.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 011

(Cenário III)

Deixámos a pedreira com os seus amontoados de pedra

21.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 015

e seguimos caminho. Num dia de caminhada solitária, dado a muitas reflexões, à contemplação de pequenos insetos

21b.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 007

que a Natureza nos ia proporcionando.

21a.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 009

E com o calor a apertar cada vez mais. Bem diz o adágio popular que, para estas paragens, são «nove meses de inverno e três de inferno»! Estávamos no primeiro dos três.

 

Nas proximidades de Bruçó, esta sinalização de «Pare, Escute e Olhe»

26.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 006

Parar, parámos: estávamos no fim (isto é, os leitores sabem, no princípio) da nossa jornada de hoje; Escutar, já não ouvíamos, infelizmente, o estridente apito das antigas locomotivas; Olhar, olhamos – este estado desolador em que a estação/apeadeiro de Bruçó se tinha transformado!

 

Tanto dinheiro de todos nós ao desbarato! Uma tristeza.

27.- 2012 - Linha do Sabor - 7 (Bruçó-Lagoaça) 001

Como tristes e solitários, sem encontrar viv’alma, foram todos os trechos por onde hoje passámos. A não ser os pouco trabalhadores da pedreira, que nos olhavam como se fossemos um extraterrestre. Mais os nossos dois companheiros – Florens e Tiago – que nos esperavam na Estação de Lagoaça.

 

Pobres e abandonadas terras, estas!!!

 

Apresentamos o diaporama desta etapa realizado em março de 2013.

 

4ª ETAPA:- LAGOAÇA-BRUÇÓ

18
Fev20

Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - 3ª etapa - Destaque - Lagoaça

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

 

3ª ETAPA

ESTAÇÃO DE FREIXO DE ESPADA-À-CINTA – LAGOAÇA

 

DESTAQUE - LAGOAÇA

(4.abril.2012)

 

 

Mato-me a andar.

Mas alguma vida limpa hei-de ter

neste emporcalhado tempo português que me coube.

E assim tenho-a.

Os restolhos escovam-me os pés e a alma

de quanta imundície se lhes colou

em trinta anos de vasa nacional.

 

Miguel Torga

Diário, Lagoaça – 28.outubro.1956

 

O Doiro entoirido pelas primeiras barragens.

É como se na minha própria aorta

Se formassem aneurismas.

 

Miguel Torga

Diário, Lagoaça – 29.outubro.1956

 

01.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 078

Quão atuais as palavras do nosso escritor transmontano, vertidas para o seu Diário, em 28 de outubro de 1956, quando por esta terra de Lagoaça passou!

 

É certo que estávamos no tempo da «outra senhora». Mas, 64 anos volvidos, e apesar de vivermos numa democracia, que aspira a plenos foros de vigorosa adultez, face aos tempos que correm, embora por outros motivos, quanto a sua «reflexão» é hoje tão atual!

 

Nós optámos pelo retiro. Frequentando e percorrendo também as terras do nosso Portugal genuíno e autêntico. Discorrendo sobre o país que fomos no antanho e naquele a que aqui chegámos. Um Portugal dual. Feito de terras tão diferentes e desiguais: umas, prenhas de vida; outras, desertas, abandonadas, entregues à sua sorte, a uma morte lenta, anunciada e inexorável. Porque, sucessivas gerações, atraídas pelo canto de novas sereias, foram, noutras paragens, à procura de melhor vida. Porque, sucessivas gerações foram manifestamente incapazes de, aqui, construírem uma outra vida!

 

Deixado também aqui o nosso «desabafo», continuemos.

 

Lagoaça é uma das maiores aldeias, tipicamente rural, pertencentes ao concelho de Freixo de Espada-à-Cinta. Apesar de aqui se viver de uma agricultura de subsistência, a sua maior riqueza é a produção de azeite e de amêndoa e, em certas zonas, citrinos, laranjas e tangerinas.

 

Teve foral, dado por D. Dinis, em 1286; portanto, há 734 anos.

 

Não deu tempo, face ao adiantado da hora para o almoço, para, em Lagoaça, visitarmos mais pausadamente toda a aldeia e alguns dos seus edifícios e lugares mais emblemáticos.

 

Por exemplo, deixámos por ver a Igreja Matriz; a capela do Senhor da Santa Cruz; o Largo do Eirô; a antiga Escola Primária e a «Cruzinha» - Miradouro panorâmico -, donde se avista as arribas do Douro e o enorme lago em que o Salto de Aldeadávila (albufeira espanhola), aqui, por estas paragens, transformou o rio Doiro (Internacional).

 

Não ficámos particularmente desgostosos por não descermos até à «Cruzinha». Noutra altura já lá havíamos estado, quando fomos até ao Penedo Durão. E por mais de uma vez.

 

E como compreendemos o outro «desabafo» do nosso poeta maior Miguel Torga quando, estando aqui, em outubro de 1956, via uma paisagem do «seu» Doiro, com o seu leito e as suas arribas totalmente modificadas, à custa do tão propalado Progresso.

 

Do café, onde tomámos umas águas, saímos para a Praça da aldeia.

02.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 087

Aqui, não nos passou desapercebida a capela de Santo António,

03.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 094

reparando no Santo

04.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 097

e no seu relógio de sol.

05.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 081

Na Praça,

06.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 079

impera a antiga Fonte.

07.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 088

Ainda na Praça, deixou-nos particularmente sensibilizado o escrito aposto numa das suas árvores, da autoria de Albano Q. Mira Saraiva, sob o título «Súplica da árvore ao viandante».

 

Pena o termos encontrado assim…

07a.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 096

O «meliante» usou possivelmente uma arma de pressão, e, com chumbo, acabou por fazer esta «obra de arte» Possivelmente para «afinar» a sua pontaria, ou então por pura espirito «vândalo». Estaria mais avisado se fosse «investir» noutras artes…

08.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 098

(Cenário I)

09.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 100

(Cenário II)

10.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 101

(Cenário III)

Notava-se um certo «frenesim» e/ou gosto na recuperação do casario.

11.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 102

Particularmente das suas casas nobres ou solarengas.

12.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 077

(Solar I)

13.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 114

(Solar II)

Como esta que, acima exibimos, e que supomos pertencer à família do falecido político e dirigente do PS, Almeida Santos.

 

Os seus solares e casas brasonadas remontam ao tempo dos grandes senhores feudais, diz-nos o Jornal Nordeste.14.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 113

Esta é a designada Rua dos Judeus, onde imperam, não só o solar da família da mulher do falecido Almeida Santos como de outros.

15.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 116

A designação deste nome intrigou-nos e acabámos por descobrir que “Lagoaça foi também um importante centro de Judeus, sendo umha das primeiras povoações a albergar hebreus expulsos dos reinos de Espanha, tendo-se instalado os mais abastados.

 

Depois do Decreto de Expulsom em 1496, em que oficialmente deixaram de existir judeus em Portugal foi nesta e outras localidades mais recônditas de Trás-os-Montes que os depois cristãos-novos se mantiveram e continuaram o seu culto. Ainda assim, diz-se que em Lagoaça desde sempre viveram judeus escondidos ocultando a sua identidade”, relata-nos Ana Catarina Pinto, em 2015, no sítio da internet – «Questom Judaica-Reflexões e Acontecimentos». (http://questomjudaica.blogspot.com/2016/02/lagoaca.html)

 

Quem quiser aprofundar a História da Família Navarro, de Lagoaça, é consultar os 4 volumes, de Filipe Pinheiro de Campo e de António Maria de Assis, da obra - «Judeus – Os Navarros de Lagoaça»,  onde se faz o estudo de 17 gerações de uma família estabelecida em Trás-os-Montes desde os alvores de Quinhentos.

 

Segundo aquela obra, eles eram negociantes de sola, rendeiros e lavradores, negociantes de grosso trato, capitalistas, burgueses nobilitados e fidalgos de velha estirpe,  juristas, médicos, artistas e políticos que povoaram a nossa história comum, é o espaço da Terra Quente Transmontana o primeiro cenário de toda esta trama familiar que daí flui para terras da Beira Alta, de Cima Côa e para os centros urbanos de Lisboa e Porto.

 

Quem quiser aprofundar um pouco mais Lagoaça e a sua História, aconselhamos a que, nomeadamente, consultem os seguintes sítios da internet:

 

E, para finalizar, deixamos aos nossos(as) leitores(as) o seguinte texto de Teresa Almeida, retirado do Blogue «Perfume do Verso», de 15 de outubro de 2011:

 

LAGOAÇA CHEIRA A FLOR DE LARANJEIRA

 

É da assomada que o precipício se desenha

e a beleza se arrepia

 

Profundo, largo e imponente

é o Douro lagoaceiro

 

Entre íngremes montanhas

espraia-se sorridente

 

É uma força que a luz acende

e pinta de um verde sedutor

a folha de oliveira

 

Há uma fragância que sobe as arribas

é de flor de laranjeira.

16.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 082

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