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MEMÓRIAS DA MINHA INFÂNCIA (IV)

O passar do testemunho

 

 

Acabo hoje o último post subordinado ao tema  “Memórias da Minha Infância”» - Primeira Parte.

 

Comecei no primeiro post sobre as memórias que mais me ficaram da minha meninice passada em Santa Maria.

 

 

Na base do avivar dessas memórias esteve uma caminhada que me levou de casa da minha irmã Liu, em Loureiro, onde nasceu minha saudosa mãe, até à terra natal de meu pai, Santa Maria de Oliveira, passando por Cidadelhe, Mártir, Nostim, Mouramouta, para depois voltar a Loureiro.

 

Habitualmente gosto de caminhar acompanhado. Desta feita, fi-la sozinho. Pela necessidade de me encontrar com a natureza e a paisagem percorrida, na esperança de o meu eu mais profundo, no silêncio da caminhada, me devolver as lembranças que o pó do tempo foi lenta, e inexoravelmente, apagando.

 

 

Mas algumas ficaram, ressurgindo.

 

Elas aqui ficam como as mais impressivas da minha feliz infância, tão tristemente acabada com a morte prematura de meu pai.

Realizei uma segunda caminhada agora só na área de Santa Maria, acompanhado do meu irmão mais velho, o Lau.
 
Começámos na Igreja Matriz, descemos até à Quinta Nova
e dirigimo-nos até aos Moinhos, junto do Rio Soromenha. Estava um dia de chuva, em Novembro de 2008. Lau, junto da oliveira e da figueira onde nosso pai, no verão, se protegia da canícula, enquanto cuidava da vinha, proferiu a seguinte expressão, depois de relembrar velhos tempos passados numa terra que, para ele, lhe foi madrasta, registada em vídeo: «E daqui, meu irmão, me despeço desta terra, que me viu nascer, até à eternidade».
O segundo e terceiro post têm mais a ver com a terra em si – a sua riqueza e património. 

Apesar de há mais de cinquenta anos ter saído daquele rincão, recorrentemente, em momentos de maior tensão e, porventura, depressão, o encontrar daquelas terras e daquela paisagem reconfortam-me, animam-me e despertam-me para um novo dia, menos nubloso e sombrio. É como um carregar de baterias.

Se bem que, como disse, as duas primeiras caminhadas tinham a ver com o avivar das memórias da minha infância, nelas, contudo, esteve presente o espírito do meu falecido e saudoso irmão Lélé.
 
Com 12 anos, como ajudante do responsável da Casa do Povo de Santa Maria de Oliveira, seu pai, com problemas de mobilidade, por via de um acidente vascular cerebral (AVC), que lhe surgiu aos 40 anos, Lélé palmilhou, sozinho, vezes sem conta, aquelas aldeias aninhadas ao longo do Rio Sermenha, em serviço da Casa do Povo, na cobrança das quotas dos sócios.
Foram, assim, uma homenagem que ainda em vida prestei ao meu saudoso irmão. Naquela altura ele vem gostaria de vir comigo e com o Lau mas a sua periclitante saúde já não o entusiasmava para tamanha empresa. Preferia o conforto de sua casa, no convívio dos seus, em especial dos seus tão acarinhados netos. A terceira e última caminhada, também e ainda na área de Santa Maria e Cidadelhe, teve a ver mais com um passar de testemunho.  Fi-la na companhia de meu sobrinho neto Edu. Companheirão! Estava desejoso de a fazer comigo! Nessa noite mal dormiu para estar cedo a pé. Saímos de Loureiro em direcção a Santa Maria, de automóvel.
Começámos a caminhada no caminho que dá acesso à Quinta do Paço e descemos, rodeados de muro de xisto, – quão bonitos este caminhos são! Pena não estarem tão preservados como deviam! – até ao Rio Soromenha.
No Rio Sermenha estão localizadas, entre outras, duas pontes que nunca as tinha visto: a Ponte romana dos Martinhos e a Ponte medieval Cavalar. 
Segundo Bernardino Vieira de Oliveira, na obra que vimos citando, a páginas 215 e 216, «este pequeno rio de montanha nasce na parte mais setentrional da freguesia de Sedielos, por cima da impressionante Fraga da Ermida (um dos maiores despenhadeiros do país) e de cujo ponto mais elevado (1387 metros) se pode assistir ao deslumbrante nascer do sol.
Após ter recebido no seu estreito leito as águas perdidas daqueles cabeços maninhos (ainda nas faldas da Serra do Marão), o pequeno regato
toma já em Nogueirinha o nome de Ribeira de Seromenha, onde, por entre ravinas penhascosas, começa a descer até à medieval Ponte Cavalar.
Desta ponte, também denominada, nas Demarcações Pombalinas, como Ponte do Abade, o Rio Sermenha descansa breve do seu tormentoso curso, e volta novamente a descer em correria  por terras de Boavista, Fonte Colher, Derruídas e Geguintes
(O Rio Sermenha, no lugar de Geguintes. Ao lado a Ponte romana dos Martinhos)
onde, em tempos da lembrança da senhora Olga Correia, uma “medonha” enxurrada cavou fundo um segundo leito do rio, ao lado do arco romano da Ponte dos Martinhos. Por esta pequena e esquecida Ponte romana passaram, no ano de 134 A.C., as legiões do general Junius Brutus em direcção a fortificada povoação de Ciuitadelia para a destruir».
 
Depois de uma breve lição de história sobre estas paragens com o Edu, nas imediações da Ponte dos Martinhos,
 
dirigimo-nos a um laranjal, plantado entre vinhedos, e aqui tomámos o nosso pequeno almoço de citrinos. Depois foi o subir, caminho acima, por entre castanheiros, até Cidadelhe. 
A lição de história tinha de continuar. Por isso, não podíamos deixar de subir até ao cimo do Castro da denominada Ciuitadelia – a cidade de Délia – a tal localidade fortificada, que as tropas do general romano Decimus Junius Brutus invadiu e destruiu.
(Vista Parcial do Castro de Cidadelhe)
O Castro céltico de Cidadelhe, classificado como imóvel de interesse público, dizem ter sido povoado durante a idade do Bronze, a que se seguira uma nova ocupação castreja, período em que, sob os destroços deixados pelas tropas romanas, se edificou a sua muralha exterior, nascida da provável necessidade de reforçar a estratégia de defesa contra invasores.
Lá em cima a vista alcança uma enorme vastidão de paisagem montanhosa que, há mais de dois mil anos, «oferecia uma poderosa e discreta armadura defensiva».
O sítio está a ser protegido e preservado. Contudo, em vez de entrarmos pelo lado da capela de São Gonçalo, datada do século XVIII, fomos entrar mais abaixo. Tarefa mais árdua. O percurso até ao cimo foi penoso, por via da enorme vegetação pejada de silvas, fetos e troncos de giestas queimados, que nos engolia, arranhava e enfarruscava. 
Mas, finalmente, chegámos ao cimo!
Que bela panorâmica, num ângulo de 360º!
Aqui a vista alcança uma enorme vastidão de paisagem montanhosa. 
Cansados, mas satisfeitos pela proeza cometida, e partilhando um lugar tão rico de história, dirigimo-nos até à Ponte medieval Cavalar, nas imediações de Nostim.  O calor começou a apertar e os mantimentos líquidos começaram a deixar de pesar tanto na mochila. Depois de uns momentos de contemplação e repouso debaixo da Ponte, começámos a subida penosa até Nostim.
 
 
Edu ia-se deixando para trás. Eu incitava-o. Cedi-lhe o meu cajado, meu fiel companheiro dos percorridos Caminhos de Santiago, dado como prenda de Natal pelo meu filho Pê. Edu ganhou nova alma. Resistiu.  
Conseguiu. Ficou feliz quando, finalmente, chegámos ao cimo, a Nostim!... 
Depois foi um simples passeio entre Nostim, Fonte Colher, Portela e o Cimo do Povo, em Oliveira, onde meu cunhado Gusto nos esperava para o almoço, ansioso por saber do comportamento do seu pupilo neto. 
Prometi a Edu novas caminhadas por estas terras que nunca me cansam. 
Assim haja saúde! 
 

 

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