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andanhos

16
Dez19

Versejando com imagem - Aqui, Douro, de António Cabral

andanhos

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

AQUI, DOURO

2019.- Solar da Rede (20)

 

Aqui Douro. O Paraíso do vinho e do suor.

Dum rio no Verão ossudo e magro

como as pessoas,

quando a alma se escoa pelos poros;

rio também barrento, a cor da terra,

para que a alma seja inteira;

rio das grandes cheias, do abraço final

de troncos de homens, de árvores e sonhos;

dum rio agora jovem: a água demora

o seu espelho nas barragens, e os barcos

cheios de olhos filmam a história

dum deus desconhecido.

 

Paraíso dos montes sobre montes,

agressivos mas belos,

montes que se agigantam, ombros vivos

dos violentos ventos e do sol,

e montes que se dobram e desdobram com os ribombos,

abrindo ribanceiras e fundões.

Oh Cachão da Valeira, sepultura de incêndios!

 

Paraíso das hortinhas e pomares:

a água é menos esquiva

para que os homens sujem bem as mãos

de encaixotar num sonho meia dúzia de laranjas,

enquanto os melros pintam a carvão

sua risada galhofeira e livre.

 

Paraíso dos nove meses de Inverno

e três de inferno:

Outubro a Junho, é o nevoeiro sanguessuga

que morde até aos ossos e às palavras;

Julho a Setembro, é o sol em lâmina

que fere os olhos até ao pensamento.

 

Paraíso do suor,

dos homens de camisas empastadas,

a terra a queimar os lábios

e a torcer-lhes a fala em raivas humaníssimas,

cavando, neles cavando o desespero

e o amor também

(a noite e o luar)

porque no fim de tudo

a terra é flor e corpo de mulher.

 

Paraíso da aguarela forte das vinhas

que entram em ondas verdes pelos olhos.

Vinhas que estão na vida desta gente

como grito nos lábios,

como flor no desejo,

como o olhar nos olhos,

vinhas, sei lá, que são a própria vida desta gente.

 

Paraíso dourado das vindimas!

Então o Douro é d’ouro.

Ouro no sol que põe tudo em labaredas:

os cachos e as nuvens de poeira

espantadas pelas patas dos cavalos

e dos camiões, ron-ron, ladeira acima.

Ouro na tagarelice das mulheres

que vindimam as uvas e as ideias;

um certo ouro no silêncio dos homens

que em fila e ferro transportam os cestos.

Ouro ainda no regresso do trabalho,

ao som dum bombo, duma concertina.

Ouro nos cestos, nos lagares, nas pipas,

ouro, ouro, suado de sangue, ouro!

Ouro talvez nos cálices de quem

veio de longe assistir da janela.

Ah Paraíso dourado das vindimas,

do vinho quente, vinho-gente, que cintila,

que é suor e sangue e sol engarrafado!

 

Paraíso também das romarias;

Da Senhora da Piedade, do Viso e dos Remédios:

gente de gatas como animais

porque a Senhora interveio

e ante o céu

somos uma coisa qualquer por acabar.

Há um homem que leva uma facada,

mas há também ex-votos,

estrelas a germinar nos olhos.

 

Paraíso das sete ermidas!

– o céu gotejando no cimo dos montes.

De castros e ruínas

– o vento do passado colando-se ao rosto.

Das minas que devassam o abismo

– fui à boca de uma em criança

e recuei como se tivesse visto

todos os dentes da bicha-das-sete-cabeças.

 

Paraíso dos caminhos tortuosos

pois Deus escreve direito por linhas tortas.

Dos duendes nocturnos

– ninguém chegue à janela quando passam.

Das mouras encantadas

– o afiançou minha avó: há uma

que se chama Maria

e é linda, linda como as manhãs de Junho.

 

Paraíso dos barrancos inconcebíveis,

das rogas e dos silêncios,

do grandioso silêncio das montanhas!

 

Paraíso! Paraíso!

Oh cântico de pedra à esperança!

 

António Cabral 

16
Dez18

Palavras soltas - A Casa Grande de Gogim

andanhos

 

 

PALAVRAS SOLTAS

 

A CASA GRANDE DE GOGIM (ARMAMAR)

01.- 2018.- Armamar (Gojim) (11)

Nas nossas deambulações frequentes pelas terras do Douro, certo dia, passando pelo centro de Armamar, onde impera a sua igreja matriz, de raiz românica,

03.- 2018.- Armamar (Gojim) (19)

fomos ter a Gogim, um pouco mais à frente, considerada aldeia preservada, onde impera o seu velho e caraterístico casario.

04.- 2018.- Armamar (Gojim) (15)

Armamar é célebre pela sua produção de maçã de montanha.

 

Contudo, situada no coração do Douro, no Cima Corgo, é também terra de vinho,

05.- 2018.- Armamar (Gojim) (18)

onde não falta o vinhedo.

06.- 2018.- Armamar (Gojim) (17)

O que nos levou a Gogim foi uma visita à sua Casa Grande.

 

A Casa Grande de Gogim, ou Solar, foi residência dos Condes de Vila Flor e Alpedrinha.

 

Residência nobre, é o único solar existente no Município de Armamar.

 

Na página oficial do Município de Armamar, no que concerne ao seu património arquitetónico, ali pode ler-se:
A fachada do solar tem dois pisos: existem frestas gradeadas no piso inferior e o piso nobre é composto pelo mesmo número de janelas emolduradas e debruadas de granito. No cunhal apresenta brasão, peça da heráldica dos proprietários. Em ligação com a fachada vê-se um muro alto que faz a ligação com a capela particular, de invocação a S. Domingos e onde estão sepultados os Condes de Samodães (1756-1866),

06a.- 2018.- Armamar (Gojim) (9)

muro esse só interrompido no portal mas que impede por completo que se veja o interior da propriedade.

07.- 2018.- Armamar (Gojim) (8)

Passando o portal deparamo-nos com um amplo pátio onde se pode apreciar a escada de acesso ao piso superior e um pequeno tanque situado sob uma janela de balcão”.

 

Não pudemos ultrapassar o portal principal da casa por se encontrar fechado. Ainda uma senhora do local nos informou qual o senhor que, tendo a chave, nos poderia facilitar a entrada. Porque chovia abundantemente, deixámos a visualização do amplo pátio para outra ocasião.

 

Fica, contudo, aqui a sua imagem, retirada do sitio da internet «Turismo Porto e Norte de Portugal». 

08.- Solar dos Condes de Vila Flor e Alpedrinha

Na mesma página oficial do Município de Armamar diz-se que aquele imóvel sofreu em 1713 obras de reconstrução para receber a boda de D. Miguel Teixeira de Carvalho (1669-1756) com D. Maria Engrácia de Albuquerque.

 

Este acontecimento marcou a memória dos habitantes de Gogim e de todas as gentes do Concelho pela dimensão da festa com grande número de convidados, e pela abundância das sedas e dos damascos e o luxo dos coches que ali se viram.

 

Saindo do meio da povoação, por esta rua,

09.- 2018.- Armamar (Gojim) (10)

fomos reconhecer a envolvente da Casa, chegando à estrada.

10.- 2018.- Armamar (Gojim) (12)

Pela vinha que lhe está anexa,

11.- 2018.- Armamar (Gojim) (14)

demo-nos conta do estado de degradação avançada em que a Casa se encontra.

12.- 2018.- Armamar (Gojim) (13)

É pena!

 

Trata-se de um imóvel que, apesar de pertencer a ditas pessoas de «sangue azul», sendo propriedade dos herdeiros do último conde: D. Francisco Maria Martinho de Almeida Manuel de Vilhena, é, na verdade, «pertença» de toda uma comunidade que não só a construiu, como a manteve, servindo os seus legítimos donos durante muitos anos. A autarquia de Armamar (apesar de sabermos dos inúmeros entraves que a aquisição de um imóvel destes tem, quando estão em causa certos «pergaminhos» e, possivelmente, muitos herdeiros), bem podia tomar mão deste património, pondo-o ao serviço do Município de Armamar para as inúmeras funções que, nos termos da lei, lhe são atribuídas.

 

Voltámos para trás, rumo a Peso da Régua, deixando os vinhedos

13.- 2018.- Armamar (Gojim) (16)

das terras de Armamar.

14.- 2018.- Armamar (Gojim) (20)

14
Out10

Apresentação

andanhos

 

POIS...

 

Embarcamos na onda.
Pelos vistos, é o que está a dar…
Criou moda.


Porque estou aqui?

Por necessidade de comunicar?

Ir mais além dos que me são próximos?


Partilhar.

Sim, partilhar…


Num mundo tão plural, multifacetado, caleidoscópio, onde, simultaneamente, abundam tantas exclusões e solidões!...


Daí a necessidade de sairmos de dentro de nós, de ocupar a nossa solidão, encher o peito do nosso eu, partilhando com os outros, feitos da mesma humanidade, as nossas fantasias, sonhos, utopias, mundos, depressões, ilusões e desilusões, lutas, chorando, rindo, enfim ... celebrando a vida.


Bem aventurados media!...

 

Aqui se mostrará apenas uma faceta do autor – o seu gosto por caminhar e pelo contacto com a natureza e o património.

 

E o seu encanto pela fotografia, feita de luz, iluminando-lhe a alma.


Aqui ficarão as suas impressões das suas (muitas) caminhadas que o “andarilho” faz, mostrando os mais variados recônditos (“andanhos”) que a sua passada percorre.

 

O presente blog, depois do capítulo "RAÍZES", será constituído por sete grandes capítulos ou blocos temáticos, a saber:

 

* MEMÓRIAS DA MINHA INFÂNCIA;

* GALLAECIA, dividido nas rubricas:

     -  Por Terras da Gallaecia;

     -  Pelos Caminhos de Santiago na Galiza;

     -  O Douro dos meus encantos;

     -  Por terras do Alto Tâmega e Barroso.

    

* POR TERRAS DE PORTUGAL;

* ENCONTROS COM A HISTÓRIA E O PATRIMÓNIO

* ÁREAS NATURAIS

* EVENTOS E PASSEIOS;

* FÉRIAS


Expliquemos agora a foto que serve de cenário ao cabeçalho do presente blog. Porque tudo pode, deve, ser explicado. Porque tudo tem uma razão de ser.


A minha é – eu nasci ali. Onde Trás-os-Montes começa; onde o Douro se impõe em toda a sua tragédia, grandeza e beleza; onde o Marão, qual montanha sagrada, se nos oferece em expressão telúrica, por meio da qual e, como alguém dizia, toda a natureza ascende ao cosmos, deixando um vasto sentimento de nostalgia, saudade, para aqueles que da visão e aconchego das suas fragas/faldas se ausentaram.


Este cabeçalho configura, representa o local da minha infância, o meu mundo, imbuído de eterna recordação, saudade.


Por isso, não resisto em citar aqui Teixeira de Pascoaes, um amarantino que tanto amava o seu Marão, o grande poeta da saudade, quando dedicou a Guerra Junqueiro, também um outro poeta transmontano, alto duriense, o seguinte poema:


Espectros nebulosos
Remotos ascendentes
Emergem na penumbra que flutua
Toda embebida em lua.
E rodeiam-me, tristes, misteriosos.
Neles me perco e me difundo…
Longe da minha idade…
E tudo, para mim, é trágica saudade”.


Depois de tantos anos saído do abraço protector daquelas “fragas”, a saudade daquele recôndito lugar, daquela natureza tão original, transformou-se, para mim, num sentimento de defesa e protecção individual.


Quando revisito aquela minha aldeia é como se tivesse regressado ao paraíso.


Porque aí tomo a aguda consciência da minha própria individualidade ao mesmo tempo que, a visão daquela paisagem, melhor exprime a minha relação com o outro e com a própria natureza, mesmo que esse outro esteja ausente ou se tenha perdido.


Vivendo hoje mais a norte, no meu Trás-os-Montes profundo, paredes meias com os vizinhos galegos, é por isso que a presença e companhia destes tanto me alegra, incentiva e conforta.


Eles, tal como eu e o grande poeta Pascoaes, vivem, nas palavras de A. Fernandes da Fonseca, daquele sincretismo sentimental entre dois contrários – a lembrança presa ao passado e a esperança projectada no futuro.


Para nós, transmontanos e galegos, estes sentimentos representam, enformam, o total investimento nos projectos fundamentais, transcendentais que levamos a cabo, encontrando-nos com as nossas próprias raízes, dando sentido de vida à vida.

Nasci com os olhos postos nas fragas do Marão. Comecei a olhar e a aprender o mundo tendo sempre omnipresente aquele cenário, rodeado de casas brancas, dispersas pela paisagem, e pelos socalcos de vinhedos; ao fundo, como chamando por nós para outras paragens, o rio Douro.

 

A casa que se vê em primeiro plano, hoje completamente votada ao abandono pela desertificação humana da paisagem, foi a minha primeira escola.

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