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andanhos

19
Fev20

Memórias de um andarilho - Caminhadas nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor 3ª etapa - Destaque - Freixo de Espada-à-Cinta

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

  

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

 

3ª ETAPA 

ESTAÇÃO DE FREIXO DE ESPADA-À-CINTA – LAGOAÇA

  

DESTAQUE – FREIXO DE ESPADA-À-CINTA

(4.abril.2012)

 

 

01.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 145

 

Regresso ao Lar

 

Ai, há quantos anos que eu parti chorando

deste meu saudoso, carinhoso lar!...

Foi há vinte?...

Há trinta?...

Nem eu sei já quando!...

Minha velha ama, que me estás fitando,

canta-me cantigas para me eu lembrar!...

 

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida...

Só achei enganos, deceções, pesar... 

Oh, a ingénua alma tão desiludida!...

Minha velha ama, com a voz dorida.

canta-me cantigas de me adormentar!...

 

Trago de amargura o coração desfeito...

Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!

Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...

Minha velha ama, que me deste o peito,

canta-me cantigas para me embalar!...

 

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho

pedrarias de astros, gemas de luar...

Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...

Minha velha ama, sou um pobrezinho...

Canta-me cantigas de fazer chorar!...

 

Como antigamente, no regaço amado

(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!

Ai o teu menino como está mudado!

Minha velha ama, como está mudado!

Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

 

Canta-me cantigas manso, muito manso...

tristes, muito tristes, como à noite o mar...

Canta-me cantigas para ver se alcanço

que a minha alma durma, tenha paz, descanso,

quando a morte, em breve, ma vier buscar!

 

Guerra Junqueiro, in 'Os Simples'

 

 

Quando se fala em Freixo de Espada-à-Cinta vem-nos logo à lembrança o estilo manuelino presente na sua Igreja Matriz, de evocação a S. Miguel – e que mais parece uma sé catedral -,

02.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 149

(Fachada principal)

03.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 132

(Fachada lateral I)

04.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 152

(Fachada lateral II)

05.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 162

(Inscrição relacionada com a sua fundação)

06.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 121

(Um aspeto do seu interior – Um púlpito)

a Capela do Senhor da Rua Nova; a Igreja da Misericórdia;

07.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 134

(Aspeto exterior)

08.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 138

(Aspeto interior – Altar-mor)

09.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 136

(Aspeto interior - Pormenor I do altar-mor)

10.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 141

(Aspeto interior – Pormenor II do altar-mor)

o grande navegador e primeiro cronista do Japão – Jorge Álvares;

11.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 150

a história do seu nome e 

12.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 155

do seu escudo;

13.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 200

o seu Castelo, ou o que dele resta, como a Torre heptagonal, ou Torre do Galo;

14.- 20.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 156

(Perspetiva I)

15.- 21.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 157

(Perspetiva II)

a subida ao topo da Torre,

16.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 179

donde se vislumbram horizontes variados 

17.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 173

(Panorama I)

19.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 161

(Panorama II)

20.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 168

(Panorama III)

18.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 164

(Panorama IV)

e na qual impera o seu sino,

21.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 175

bem assim, onde, aqui, podemos conhecer um pouco da história da vila, com as suas muralhas e as suas torres;

22.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 182

o percorrer as suas ruas,

23.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 189

denotando a presença judaica e o estilo manuelino;

24.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 197

(Trecho I)

25.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 199

(Trecho II)

o seu Museu da Seda e do Território;

26.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 187

a casa do almirante Sarmento Rodrigues, hoje instalações da GNR;

27.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 194

a sua Casa do Concelho ou Câmara Municipal,

28.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 223

onde impera  um lindo pelourinho,

29.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 227

e, no qual, no seu topo, um pormenor nos desperta a atenção;

30.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 225

o edifício da Santa Casa da Misericórdia;

31.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 231

a igreja

32.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 210

e o Convento de São Filipe Nery;

33.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 212

o cruzeiro que lhe fica perto,

34.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 213

com este pormenor do Cristo crucificado;

35.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 217

a festa de Nossa Senhora dos Montes Ermos;

36.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 235

as gravuras rupestres do Mazouco; o Penedo Durão, em Poiares, com as suas aves de rapina, que frequentam as suas arribas; o panorama que nos oferece o lindo jardim rosa, em finais de fevereiro e princípios de março, quando as amendoeiras começam a florir; o Douro Internacional e, também, o belo panorama que, do mesmo Penedo Durão se avista para a barragem de Saucelle e para a ponte sobre o rio Águeda, quando se lança nos braços do Douro; a Calçada de Alpajares ou Calçada dos Mouros onde, nas suas rochas, podemos ver, interpretar e conhecer parte da evolução do nosso planeta Terra, em particular por estes recônditos lugares; a história e presença, aqui, dos judeus; as moradias do Douro Internacional, na Congida; a cultura da seda, enfim, em tantas outras coisas que há, por estas lonjuras, para ver e explorar.

 

Mas, tudo isto, mais que as nossas palavras, pode ser visto e apreciado nos dois vídeos que abaixo apresentamos.

 

PORTUGAL EM 360º - FREIXO DE ESPADA-À-CINTA| VILA MANUELINA|PORTUGA

PORTUGAL DE LÉS A LÉS – FREIXO DE ESPADA À CINTA – DEIXE-SE ENVOLVER

E, para uma visão mais completa, e diversificada, da História, dos Lugares, das Gentes e do Património deste vila e seu concelho, apresentamos aos nossos(as) leitores(as) os seguintes sítios da web, em modos de

 

GUIAS TURÍSTICOS

 

 

 

 

IGREJA MATRIZ

 

 

CULTURA DA SEDA

 

Contudo, hoje apenas queremos, neste post, falar de um dos seus ilustres filhos da terra - Abílio Manuel Guerra Junqueiro.

37.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 220

Não vamos por mais delongas para falar deste poeta e republicano indefetível que, ao longo dos anos, nos habituámos a ler e a apreciar.

 

E, para o efeito, vamos usar as palavras ou conclusões de Carla Alexandra Ferreira do Espírito Santo Guerreiro, na sua tese de mestrado em Ensino da Língua e Literatura Portuguesa, de 2002, sob o título « A mundividência infantil na obra de Guerra Junqueiro».

 

Guerra Junqueiro merece ser considerado um dos mais proeminentes escritores portugueses da segunda metade do século XIX, princípios do XX.   Espírito livre e indómito, este homem, transmontano, por nascimento, e cidadão do mundo, por natureza, ergueu sempre a sua voz para falar e defender aqueles que não a tinham, os simples: as crianças e o povo.   Paladino da defesa da instrução e da educação na infância como panaceia dos males estruturais de que Portugal padecia, fez da sua obra uma arma de arremesso que usou, habilmente, contra a ignorância, a opressão e o abandono dos mais pequeninos e desprotegidos, em suma, os simples.

 

No século XIX português, a chamada Geração de Setenta, grupo de intelectuais que refletiam na literatura a sua ideologia e crenças, assumindo uma atitude de oposição face à ordem sociopolítica estabelecida, agitou a sociedade ao fazer a apologia do carácter profilático-pedagógico da literatura, com as célebres Conferências do Casino Lisbonense. A literatura e os intelectuais, Junqueiro incluído, assumiam e tinham um peso institucional tal que foram consideradas uma ameaça para o poder político e social estabelecido e, por consequência, aquelas Conferências foram  suspensas antes de as últimas se realizarem.

 

Guerra Junqueiro, uma figura no panorama cultural do seu século, impôs-se pelas suas posturas incómodas para o poder laico e religioso, despertando consciências e motivando tomadas de posição. 

 

A ação deste intelectual contribui para justificar o carácter institucional da Literatura, pois que a sua prática literária concreta teve uma função de afirmação e consolidação de valores sociais e morais, desde sempre considerados determinantes. 

 

Guerra Junqueiro era um homem emotivo e impulsivo e, o que transparece claramente na sua obra, é o anticlericalismo, o amor e o ódio, o perdão e a condenação. Humanista, por excelência, preocupado com a condição humana, nomeadamente no que concerne à sua fase embrionária, a infância, a sua vasta obra literária deixa transparecer a ideia de que o homem não será verdadeiramente livre enquanto estiver sujeito aos condicionalismos que o colocam abaixo da condição humana.

 

Por temperamento e educação, por solicitação intrínseca, reforçada pelas influências ambientes, Guerra Junqueiro foi boa parte da sua vida um poeta social e político, atento e crítico relativamente aos desenvolvimentos históricos que se desenrolaram no mundo e em Portugal, numa época em que o nosso  país era ainda mais estruturalmente atrasado e política, social e economicamente num estado caótico.

 

Embora Guerra Junqueiro tenha bebido do contexto histórico e social do seu tempo, ele destacou-se, por ser mentor de uma escrita autónoma. Incapaz de ser estritamente satírico, apenas humanista, somente político ou simplesmente filosófico ou revolucionário, ele conseguiu ser tudo isso e muito mais. Com efeito, a sua escrita fez-se sob o signo do hibridismo e da miscigenação genológica e modal, constituindo a sua criação literária uma unidade perfeita, que evoluiu e progrediu.

 

Junqueiro conseguiu sempre exteriorizar o seu subjetivismo. Daí a sua predileção pelo modo lírico, ao invés do narrativo ou dramático. No entanto, todas as suas obras líricas têm uma característica que as universaliza: é um lirismo voltado para o mundo exterior, o que o rodeia, nomeadamente, para a situação dos mais desprotegidos e esquecidos pelo poder: os pobres e as crianças. Homem e obra constituem um todo harmonioso, onde nacionalismo e universalismo se refletem, de forma complexa, e em que passado, presente e futuro se encontram.

 

Junqueiro foi romântico, realista, simbolista e saudosista, manifestando na sua obra literária o romantismo e cientismo que caracterizaram a época em que viveu. O seu ecletismo cultural e ideológico foi responsável por que a sua escrita se estendesse a várias tendências, escolas e correntes literárias, não se confinando a nenhuma em particular. Com o poder admirável do seu génio literário elaborou todas as possíveis influências, encarnando o ideal apaixonado de libertação e valorização do indivíduo. 

 

O poeta usou a sua obra literária para refletir não só sobre os temas e os assuntos que considerava mais importantes e mais prementes da sua época e país, mas também sobre temas e assuntos, de todas as épocas, porque são atemporais e universais.

 

Deste modo, o tema da Criança é uma constante em toda a sua produção literária. Preocupado com a sua situação de total abandono, a vários níveis, e consciente da importância da sua formação integral para a construção de um Portugal, a par do progresso do resto da Europa, Junqueiro dedicou-lhe a melhor parte da sua obra. 

 

Desta feita, a obra de Guerra Junqueiro refletiu sobre a situação infantil no século XIX português, no concernente aos três pilares essenciais da vida: Família, Sociedade e Escola. Além destes,  outros aspetos assumem, na sua produção literária, um valor relevante: as relações da criança com a Natureza, com o Transcendental e com a Literatura.

 

A obra de Guerra Junqueiro fez parte integrante do cânone literário durante várias décadas, pois, parte dela, foi selecionada pelo poder instituído para figurar nos manuais escolares, e serviu, longo tempo, para transmitir determinados valores e ajudar a formar consciências. 

 

O uso didático dos textos do escritor, no período conhecido por Estado Novo, particularmente na década de 1950, foi sobejamente conhecido. O regime político que vigorava nesta época fez o aproveitamento da obra literária junqueiriana para transmitir os valores e ideias por ele defendidos. A transmissão foi feita de forma subliminar. Mas não nos podemos esquecer que  a instituição escolar funciona como um verdadeiro aparelho ideológico, desempenhando um papel dominante. Deste modo, o seu discurso, embora silencioso, foi eficaz.  

 

Não admira, assim, que a sua obra, quando evidenciava o amor à Terra, ao ruralismo, às atividades primárias, bem como os grandes valores como a Honestidade, o Trabalho, o amor a Deus e à Família, o respeito e obediência às instituições e governantes entrasse nesses manuais escolares.

 

Junqueiro foi tido e conceituado nos anos cinquenta porque a sua presença literária nos livros escolares evidencia a sua faceta de nacionalista crente.  Mas, manifestamente,  "esconde" o seu lado contestatário e iconoclasta.

 

A instituição escolar, como verdadeiro aparelho ideológico, desempenhou e continua a desempenhar o papel de guardiã de ideologias e perpetuadora do cânone literário. Programas escolares, organização dos curricula e manuais escolares são reveladores de uma consciência cultural e nacional.

 

Desta feita,  ao se apresentar certas obras como canónicas, em detrimento de outras, apenas são validadas determinadas experiências culturais e literárias. 

 

De há anos a esta parte Guerra Junqueiro tem sido excluído do contexto escolar. Este facto deve-se, em nosso entender, a mudanças no gosto literário, relacionadas com a reavaliação de géneros representados pelas obras canónicas, bem como à entrada no cânone de muitas obras, graças a bem sucedidas campanhas publicitárias e de propaganda.

 

 O sistema de ensino cumpre, assim, uma função de verdadeira legitimação cultural, pois que converte em cultura legítima, o arbitrário cultural que uma formação social apresenta.

 

Junqueiro, tal como os demais criadores literários, não foi exceção e, vivendo num tempo e espaço definidos, estabeleceu relações dialógicas com a cultura em que estava integrado.

 

Guerra Junqueiro, embora homem de seu tempo, foi um espírito de vanguarda no que respeita às suas reflexões pedagógicas: uma faceta sua menos conhecida.

 

 Por tudo quanto acima deixámos exposto, nós, leitores e educadores, temos por obrigação manter viva a sua memória através do uso e divulgação da sua obra literária.

 

Deixemos, assim, aos nossos(as) leitores(as) as suas obras, para nós, mais significativas para, querendo, as poderem consultar e ler:

A Velhice do padre eterno;

Finis Patriae;

Pátria.

 

O poema «Regresso ao lar», que reproduzimos no início deste post é o que, nesta nossa fase da vida, o que mais nos diz, no que toca a diferentes mensagens, subliminares, que o mesmo nos transmite.

 

Noutras fases da nossa vida, foram outros, que líamos e amávamos.

 

Hoje é, positivamente, este…

 

Saíndo, já pelo fim da tarde de Freixo de Espada-à-Cinta, em direção à Régua, ao longe, despediamo-nos da terra natal de Neca e Augusto.

20a.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 234

18
Fev20

Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - 3ª etapa - Destaque - Lagoaça

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MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

 

3ª ETAPA

ESTAÇÃO DE FREIXO DE ESPADA-À-CINTA – LAGOAÇA

 

DESTAQUE - LAGOAÇA

(4.abril.2012)

 

 

Mato-me a andar.

Mas alguma vida limpa hei-de ter

neste emporcalhado tempo português que me coube.

E assim tenho-a.

Os restolhos escovam-me os pés e a alma

de quanta imundície se lhes colou

em trinta anos de vasa nacional.

 

Miguel Torga

Diário, Lagoaça – 28.outubro.1956

 

O Doiro entoirido pelas primeiras barragens.

É como se na minha própria aorta

Se formassem aneurismas.

 

Miguel Torga

Diário, Lagoaça – 29.outubro.1956

 

01.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 078

Quão atuais as palavras do nosso escritor transmontano, vertidas para o seu Diário, em 28 de outubro de 1956, quando por esta terra de Lagoaça passou!

 

É certo que estávamos no tempo da «outra senhora». Mas, 64 anos volvidos, e apesar de vivermos numa democracia, que aspira a plenos foros de vigorosa adultez, face aos tempos que correm, embora por outros motivos, quanto a sua «reflexão» é hoje tão atual!

 

Nós optámos pelo retiro. Frequentando e percorrendo também as terras do nosso Portugal genuíno e autêntico. Discorrendo sobre o país que fomos no antanho e naquele a que aqui chegámos. Um Portugal dual. Feito de terras tão diferentes e desiguais: umas, prenhas de vida; outras, desertas, abandonadas, entregues à sua sorte, a uma morte lenta, anunciada e inexorável. Porque, sucessivas gerações, atraídas pelo canto de novas sereias, foram, noutras paragens, à procura de melhor vida. Porque, sucessivas gerações foram manifestamente incapazes de, aqui, construírem uma outra vida!

 

Deixado também aqui o nosso «desabafo», continuemos.

 

Lagoaça é uma das maiores aldeias, tipicamente rural, pertencentes ao concelho de Freixo de Espada-à-Cinta. Apesar de aqui se viver de uma agricultura de subsistência, a sua maior riqueza é a produção de azeite e de amêndoa e, em certas zonas, citrinos, laranjas e tangerinas.

 

Teve foral, dado por D. Dinis, em 1286; portanto, há 734 anos.

 

Não deu tempo, face ao adiantado da hora para o almoço, para, em Lagoaça, visitarmos mais pausadamente toda a aldeia e alguns dos seus edifícios e lugares mais emblemáticos.

 

Por exemplo, deixámos por ver a Igreja Matriz; a capela do Senhor da Santa Cruz; o Largo do Eirô; a antiga Escola Primária e a «Cruzinha» - Miradouro panorâmico -, donde se avista as arribas do Douro e o enorme lago em que o Salto de Aldeadávila (albufeira espanhola), aqui, por estas paragens, transformou o rio Doiro (Internacional).

 

Não ficámos particularmente desgostosos por não descermos até à «Cruzinha». Noutra altura já lá havíamos estado, quando fomos até ao Penedo Durão. E por mais de uma vez.

 

E como compreendemos o outro «desabafo» do nosso poeta maior Miguel Torga quando, estando aqui, em outubro de 1956, via uma paisagem do «seu» Doiro, com o seu leito e as suas arribas totalmente modificadas, à custa do tão propalado Progresso.

 

Do café, onde tomámos umas águas, saímos para a Praça da aldeia.

02.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 087

Aqui, não nos passou desapercebida a capela de Santo António,

03.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 094

reparando no Santo

04.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 097

e no seu relógio de sol.

05.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 081

Na Praça,

06.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 079

impera a antiga Fonte.

07.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 088

Ainda na Praça, deixou-nos particularmente sensibilizado o escrito aposto numa das suas árvores, da autoria de Albano Q. Mira Saraiva, sob o título «Súplica da árvore ao viandante».

 

Pena o termos encontrado assim…

07a.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 096

O «meliante» usou possivelmente uma arma de pressão, e, com chumbo, acabou por fazer esta «obra de arte» Possivelmente para «afinar» a sua pontaria, ou então por pura espirito «vândalo». Estaria mais avisado se fosse «investir» noutras artes…

08.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 098

(Cenário I)

09.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 100

(Cenário II)

10.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 101

(Cenário III)

Notava-se um certo «frenesim» e/ou gosto na recuperação do casario.

11.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 102

Particularmente das suas casas nobres ou solarengas.

12.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 077

(Solar I)

13.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 114

(Solar II)

Como esta que, acima exibimos, e que supomos pertencer à família do falecido político e dirigente do PS, Almeida Santos.

 

Os seus solares e casas brasonadas remontam ao tempo dos grandes senhores feudais, diz-nos o Jornal Nordeste.14.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 113

Esta é a designada Rua dos Judeus, onde imperam, não só o solar da família da mulher do falecido Almeida Santos como de outros.

15.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 116

A designação deste nome intrigou-nos e acabámos por descobrir que “Lagoaça foi também um importante centro de Judeus, sendo umha das primeiras povoações a albergar hebreus expulsos dos reinos de Espanha, tendo-se instalado os mais abastados.

 

Depois do Decreto de Expulsom em 1496, em que oficialmente deixaram de existir judeus em Portugal foi nesta e outras localidades mais recônditas de Trás-os-Montes que os depois cristãos-novos se mantiveram e continuaram o seu culto. Ainda assim, diz-se que em Lagoaça desde sempre viveram judeus escondidos ocultando a sua identidade”, relata-nos Ana Catarina Pinto, em 2015, no sítio da internet – «Questom Judaica-Reflexões e Acontecimentos». (http://questomjudaica.blogspot.com/2016/02/lagoaca.html)

 

Quem quiser aprofundar a História da Família Navarro, de Lagoaça, é consultar os 4 volumes, de Filipe Pinheiro de Campo e de António Maria de Assis, da obra - «Judeus – Os Navarros de Lagoaça»,  onde se faz o estudo de 17 gerações de uma família estabelecida em Trás-os-Montes desde os alvores de Quinhentos.

 

Segundo aquela obra, eles eram negociantes de sola, rendeiros e lavradores, negociantes de grosso trato, capitalistas, burgueses nobilitados e fidalgos de velha estirpe,  juristas, médicos, artistas e políticos que povoaram a nossa história comum, é o espaço da Terra Quente Transmontana o primeiro cenário de toda esta trama familiar que daí flui para terras da Beira Alta, de Cima Côa e para os centros urbanos de Lisboa e Porto.

 

Quem quiser aprofundar um pouco mais Lagoaça e a sua História, aconselhamos a que, nomeadamente, consultem os seguintes sítios da internet:

 

E, para finalizar, deixamos aos nossos(as) leitores(as) o seguinte texto de Teresa Almeida, retirado do Blogue «Perfume do Verso», de 15 de outubro de 2011:

 

LAGOAÇA CHEIRA A FLOR DE LARANJEIRA

 

É da assomada que o precipício se desenha

e a beleza se arrepia

 

Profundo, largo e imponente

é o Douro lagoaceiro

 

Entre íngremes montanhas

espraia-se sorridente

 

É uma força que a luz acende

e pinta de um verde sedutor

a folha de oliveira

 

Há uma fragância que sobe as arribas

é de flor de laranjeira.

16.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 082

14
Fev20

Memórias de um andarilho - Caminhadas nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - 2ª etapa:- Moncorvo-Freixo

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

00.- 2012 - Linha do Sabor (Freixo-Lagoaça) 154

2ª ETAPA

TORRE DE MONCORVO – FREIXO DE ESPADA-À-CINTA

 

(3.abril.2012)

 

Introdução

 

Percorremos esta linha desativada a pé em 2012.

 

No primeiro trimestre de 2013, publicámos um vídeo de cada etapa.

 

Como temos feito em relação a todas as caminhadas que fazemos, a 27 de janeiro de 2017 publicámos, embora tardiamente, um post sobre a primeira etapa – PocinhoTorre de Moncorvo.

 

Por circunstâncias várias, entre elas o esquecimento, não continuámos com a publicação da reportagem das restantes etapas.

 

Vamos ver se desta vez é mesmo de vez! E, assim, darmos por terminada, ainda neste trimestre, a reportagem completa sobre todas as etapas que efetuámos nesta Linha até ao seu términus, em Duas Igrejas.

 

Dado que se trata de um percurso linear, ou temos apoio logístico no final de cada etapa planeada, nomeadamente lugar para comer e dormir ou, então, temos de usar dois meios de transporte – um, que fica no local de inicio da etapa; o outro, no fim –; ou, então, temos de ter alguém que nos acompanhe por estrada e nos transporte a um lugar que fique relativamente central em relação à totalidade do percurso que pretendemos efetuar. O uso de táxi não nos pareceu adequado, não só pelo facto de não podermos ter cobertura de rede, como, face aos lugares por onde efetuamos os trilhos, nem sempre ser fácil encontra-los.

 

Optámos, desta feita, por ficarmos alojados mas Moradias da Praia da Congida, em Freixo de Espada-à-Cinta e o nosso cunhado Augusto, por estrada, acompanhou-nos de carro.

 

Nesta segunda etapa – Torre de Moncorvo-Estação de Freixo de Espada-à-Cinta – acompanhou-nos o amigo Neca, irmão de nosso cunhado e o jovem/adolescente (hoje já um homem feito) Edu, nosso sobrinho neto.

 

Eram 7 horas e 30 minutos quando, em Torre de Moncorvo, demos início ao percurso desta 2ª etapa.

 

 

1º Troço – Torre de Moncorvo-Carvalhal

 

Este primeiro troço está transformado em ecopista. A primeira a ser realizada numa linha de caminho de ferro, em Portugal, desativada.

 

Começámos a etapa na antiga Estação de Caminho de Ferro de Torre de Moncorvo, recuperada.

02.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 005

Ao partirmos, o amigo Neca «ensina» a Edu como eram as estações de caminho de ferro; como eram e funcionavam os comboios a vapor.

03.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 013

Dada a «lição», prosseguimos caminho,

04.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 023

acompanhados de arvoredo e da cultura da vinha e da oliveira, nas margens do nosso corredor.

05.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 024

Foi um início de percurso agradável, o andar pela ecopista.

06.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 026

Esta ecopista, à data da nossa caminhada, em 2012, possuía, até Carviçais, pontos de água, postes de iluminação, de quando em quanto, sinalização e contagem dos metros de 500 a 500 metros, pontos de observação da paisagem, bancos para as pessoas se sentarem e descansarem.

06a.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 033

A determinada altura, foi o que Neca e Edu fizeram.

07.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 030

Andou-se mesmo bem por esta ecopista, na qual, ao longo do percurso, não faltavam os típicos pombais,

08.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 037

e alguns sobreiros. Muitos deles já velhos e praticamente sem vida

09a.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 041

Até que, depois de passarmos pela quinta da Ferreira e pela Ponte da Quinta d’Água,

09b.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 035

chegámos à reta do Convento. Á nossa direita, do lado de cima do nosso trilho, aparece-nos o Convento.

10.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 046

É o Convento das Carmelitas. Foi iniciado em 1948 e ficou concluído em 1990. É também conhecido por Carmelo da Sagrada Família, pertencente à Ordem do Carmo.

 

Em pouco tempo, chegávamos à Estação/Apeadeiro de Larinho.

11.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 052

Esta Estação/Apeadeiro foi reabilitada e aqui foi instalada uma cafetaria que, quando por ela passámos, estava fechada.

 

Continuámos o nosso percurso.

12.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 059

E aqui, junto a este eucalipto, Edu não aguentou mais. Desistiu. Apenas andou cerca de 7Km. O carro-vassoura do seu avô, Augusto, veio recolhê-lo. A partir daqui, a etapa só contou com dois caminheiros – nós e o Neca.

12a.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 061

Ao Km 19, 4, passámos pelo apeadeiro de Lamelas.

13.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 073

Neca tomava a dianteira, marcando o ritmo,

14.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 074

Enquanto nós entretínhamo-nos com a observação do entorno.

15.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 079

Incêndio recente tisnou a paisagem.

16.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 086

(Pormenor I)

17.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 087

(Pormenor II)

Percorridos cerca de 9 Km desta etapa, entrávamos em Quinta Nova,

18.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 088

passando pelo seu apeadeiro.

19.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 094

Em menos de um quilómetro, estávamos em Carvalhal.

20.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 105

Nas notas que sempre fazemos no final de cada etapa das nossas caminhadas, a certa altura, escrevíamos: “Foi agradável passar na Estação de Carvalhal e ouvir a explicação do Neca quanto à forma como o minério vinha da serra do Reboredo para os vagões do comboio. Ainda tirei uma ou duas fotografias das plataformas em que assentavam os mecanismos para as vagonetes, que vinham da exploração, despejarem o minério nos vagões dos comboios”.

21.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 108

O que resta é muito pouco para termos uma noção exata de como tudo aquilo ali funcionava.

 

Ficam aqui quatro perspetivas do que captámos na Estação.

22.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 111

(Perspetiva I)

23.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 118

(Perspetiva II)

24.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 119

(Perspetiva III)

25.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 121

(Perspetiva IV)

 

2º Troço – Carvalhal – Carviçais

 

Desde Torre de Moncorvo até Carvalhal percorremos, sensivelmente, 10 Km e 350 metros. Para chegarmos a Carviçais teríamos de percorrer, aproximadamente, 10 Km e 800 metros, por entre uma paisagem já não tão deslumbrante como aquela por onde tínhamos passado.

 

Nesta zona, logo a seguir a Carvalhal, predomina o pinheiro

26.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 135

e os apeadeiros por onde passávamos encontravam-se em completa ruína, como este, do Cabeço da Mua.

27.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 136

A pista cá está. Bem tratada.

27a.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 155

Mas toda e qualquer construção ao longo do seu troço estão em perfeita decomposição, ruína.

28.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 143

O mesmo se passa com o apeadeiro de Souto da Velha

28a.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 158

(Perspetiva I)

28b.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 161

(Perspetiva II)

Salvam-se os campos. Bem tratados.

29.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 147

(Pormenor I)

30.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 175

(Pormenor II)

31.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 166

(Pequeno souto de castanheiros velhos)

Bem assim, nas proximidades de Felgar, este Santuário – de Nossa Senhora do Amparo

32.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 150

Com a primavera, e as árvores a florirem,

33.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 178

Neca apresenta-nos este sorriso.

34.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 177

Deslumbrado com a mãe-natureza a desabrochar e florir!

35.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 204

Nós, por outro lado, reparávamos na albufeira de Vale de Ferreiros, que se nos apresentava do nosso lado esquerdo.

36.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 182

E, aqui, à borda desta água, fazíamos uma pequena pausa.

 

Augusto veio ao nosso encontro, juntamente com seu neto, Edu. E trazia-nos uma bola de azeite, comprada numa padaria por onde tinha passado. Comemos, pois nunca tínhamos comido e achámos um pitéu. Já estavamos com uma certa larica.

 

Urgia prosseguir caminho. E era estugar o passo agora sem parar. Só apenas este velho castanheiro, com forma tão estranha, é que nos fez parar por uns momentos para, a sua silhueta, constar para memória futura.

37.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 192

(Perspetiva I)

38.- 2012 - Linha Sabor 38.- (Moncorvo-Freixo) 193

(Perspetiva II)

Estávamo-nos a aproximar de Carviçais.

39.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 199

Agora, ao longo do nosso trilho, ia-nos aparecendo o casario de um só piso, quase colado à antiga linha.

 

Numa humilde casa o forno estava aceso. Cheirava a qualquer coisa… Metemos conversa com as senhoras que guardavam o forno. E, conversa puxa conversa, a porta do forno abre-se. O que começa a sair de lá espantou-nos – eram «bolinhos económicos». Os olhos de Neca brilhavam, pois é «louco» por esta iguaria. Uma das senhoras apercebeu-se e, vai daí, ofereceu-nos meia dúzia deles. Neca não se continha em si de contente. Abençoada senhora, dizia. Sabiam a anis.

 

Despedimo-nos amável e agradecidamente da gente da casa e prosseguimos a nossa jornada, ao longo do casario típico de Carviçais.

40.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 215

Até que passávamos pela Estação de Carviçais.

41.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 214

(Perspetiva I)

42.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 217

(Perspetiva II)

43.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 216

(Perspetiva III)

Em pouco minutos, estávamos no Restaurante Artur.

44.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 228

Neste restaurante parámos para almoçar. A posta, está-se mesmo a ver!...

 

E, para sermos fiel no relato do nosso almoço, vamos citar o que, no fim da etapa, escrevíamos: “Há muito que não comíamos uma posta tão tenrinha. Todavia o serviço deixou a desejar. As toalhas bem podiam ter outra apresentação; os guardanapos eram de papel e, para quem vinha cansado e com fome, a espera foi uma despaciência. Já para não falar da conta: um exagero!... Esta gente não se enxerga ou então… «ganha fama e deita-te na cama»”.

 

Acabámos de comer já passava das 14 horas e 30 minutos.

 

Tínhamos combinado que, chegados à Estação de Freixo de Espada-à-Cinta, iriamos fazer uma pequena visita turística e cultural à vila de Freixo, que dista da Estação 14 Km. Mas Tópê, funcionário da EDP, que estava a trabalhar no reforço de potência de Picote (Picote II), telefonou-nos e convidou-nos para irmos até lá com Edu e os tios para vermos os trabalhos da Central.

 

Ficámos de lhe dar uma resposta quando chegássemos à Estação de Freixo.

 

Nesta precisa altura, quer nós, quer Neca, começámos a ponderar se, assim, deveríamos prosseguir até à Estação de Freixo ou se ficaríamos por aqui, por Carviçais, deixando o troço que nos faltava para amanhã, desde este ponto e até Lagoaça.

 

Neca, como sempre, entusiasmado por andar – que apesar da idade, acha-se ainda fresco – desafiou-nos a prosseguir.

 

Cada um, com a sua mochila às costas, lá prosseguimos por mais sensivelmente 9 Km, enquanto Augusto e Edu, de carro, se dirigiram para a Estação de Freixo, à nossa espera.

 

3º Troço – Carviçais-Estação de Freixo de Espada-à-Cinta

 

Durante 2 Km o piso continuava igual ao da ecopista até Carviçais,

45.- 012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 235

Com paisagens de horizontes sem acabar;

46.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 238

campos de amendoeiras bem tratados e

47.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 239

bonitos pombais – embora a precisarem de reformas -.

48.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 231

Mas, a partir daí…

 

Bem. Primeiro eram as obras que estavam a ser levadas a efeito, no antigo canal da Linha, com a colocação de cabos para telecomunicações, supomos.

49.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 251

(Perspetiva I)

50.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 253

(Perspetiva II)

51.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 255

(Perspetiva III)

Todo o troço assim. Durante 3 Km.

 

Findo o limite do concelho de Torre de Moncorvo, o antigo canal da Linha apresentava-se coberto de giestas

52.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 259

e cascalho.

53.-2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 276

Grosso.

54.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 277

Já nem sequer se viam os carris, a não ser um pouco mais à frente, neste cruzamento por uma estrada, asfaltada, já relativamente perto da Estação de Freixo.

55.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 267

Aqui e ali uma placa do «Pare, Escute e Olhe», típicas das linhas de caminho de ferro.

56.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 260

A certa altura, havia trechos do antigo canal ferroviário que já não se reconheciam, ao ponto de andarmos pelas suas margens. Fomo-nos dando conta que, partes do antigo canal ferroviário tinham sido objeto de apropriação privada, porquanto se encontravam lavrados.

 

Não vimos vivalma, a não ser este operário, esperando provavelmente por boleia, exibindo um sorriso tristonho para nós. Talvez estivesse, naquele instante, pensando com os seus botões: “eu, aqui a mourejar e estes «bacanos»…” Sabe-se lá o que o homem pensava!... Demos-lhe as boas tardes e continuamos caminho.

57.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 242a

O antigo canal ferroviário até às proximidades da Estação de Freixo continuava a exibir um piso coberto de cascalho grosso.

58.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 269

Ficámos com «burras» (bolhas) nos pés.

 

Faltavam poucas centenas de metros para atingirmos a nossa meta e,

59.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 275

num instante,

60.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 281

chegámos à Estação de Freixo. A quem a gente da terra, segundo Neca e Augusto que nasceram por estas bandas - mais propriamente em Poiares - lhe chamavam Vale de Ladrões.

61.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 285

Doridos pelas «burras» feitas neste último troço.

 

Augusto e Edu estavam à nossa espera.

62.- 2012 - Linha Sabor (Moncorvo-Freixo) 292

Como se pode verificar, a Estação de Freixo estava em plena ruína e coberta de silvas. Descuido. Incúria. De um património que foi longamente pago por sucessivas gerações de portugueses e que é de todos nós.

 

Aqui mudámo-nos. Vínhamos todo encharcado de suor.

 

Depois de combinarmos com Tópê que, afinal, íamos a Picote, de carro, lá nos dirigimos Aquelas paragens. Nós, pessoalmente, já lá tínhamos estado há uns 4 ou cinco meses antes. Mas, agora, a envolvente da Central estava completamente diferente; desapareceram as escombreiras e as dezenas de contentores e os terrenos à sua volta, devidamente regularizados, estavam cobertos de árvores. Trabalho bem feito.

 

Tópê acompanhou-nos à Central. Uma autêntica visita guiada. Edu, Augusto e Neca gostaram. Nós já conhecíamos a obra.

 

O que, na verdade, mais pessoalmente apreciámos foi a aldeia, com as suas casas, os edifícios públicos, nomeadamente a Igreja e a Estalagem, construções da década 50 do século passado.

 

Qual será o destino de tudo isto, interrogávamo-nos…

 

Esperamos que a especulação não vá destruir algo que faz parte da história não só da empresa, mas também de um local.

 

A ver vamos…

 

Enfim, fizemos hoje cerca de 30 Km. E focámos de rastos.

 

Amanhã, a próxima etapa – Estação do Freixo-Lagoaça – será apenas de 7 Km. Para compensar o esforço de hoje.

 

Depois de chegarmos à Estação de Lagoaça, fizemos uma visita à aldeia e depois dirigir-nos-emos para  Freixo, a fim de realizarmos o planeado passeio turístico e cultural a esta vila manuelina.

 

Realizada a visita, fomos levantar bivaque, na Congida e… ala para casa.

 

Deixamos à visualização das(os) nossas(os) leitoras(es) o vídeo sobre esta etapa, já realizado e exibido em março de 2013.

 

2ª ETAPA DA LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR – MONCORVO-FREIXO

 

13
Fev20

Memória de um andarilho - Vale do Lima (Limia) - Galiza) - Parte III - As Eiras («Airas») de Congostro

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

VALE DO LIMA (LIMIA) – GALIZA

 

PARTE III

AS EIRAS («AIRAS») DE CONGOSTRO

01.- 2019.- Hórreos de Congostro (35)

Da ermida/capela de San Bieito de Uceira, continuando a percorrer a planura de A Limia,

02.- 2019.- Hórreos de Congostro (14)

amigo Pablo Serrano leva-nos até à aldeia de Congostro, um povo com encanto, diz-nos La Voz de Galicia.

 

Congostro, já em Baixa Limia, pertence ao concello de Rairiz de Veiga. E perto da antiga estrada romana Via Nova.

 

O seu encanto advém-lhe da circunstância de a aldeia de Congostro ser constituída por numerosas eiras («airas»), grandes e pequenas, com uma grande quantidade de espigueiros ou canastros («hórreos»).

 

É exatamente por esta sua tipicidade que esta aldeia está a ser objeto de melhoramentos nos seus diferentes espaços públicos, transformando-a num verdadeiro museu etnográfico.

 

Mas vejamos o que a nossa objetiva foi captando, enquanto percorríamos as suas ruas e casario.

03.- 2019.- Hórreos de Congostro (101)

Logo à entrada, o forno do povo.

04.- 2019.- Hórreos de Congostro (21)

Depois fomos diretos à eira principal da aldeia,

05.- 2019.- Hórreos de Congostro (31)

através de uma rua com novo empedramento.

06.- 2019.- Hórreos de Congostro (39)

(Uma perspetiva ampla da eira)

07.- 2019.- Hórreos de Congostro (38)

(Perspetiva I – Pormenor 01)

08.- 2019.- Hórreos de Congostro (40)

(Perspetiva II – Pormenor 02)

Amigo Pablo aproveita a oportunidade para fazer um pouco de exercício, pedalando, junto a um dos espigueiros.

09.- 2019.- Hórreos de Congostro (46)

E, daqui, fomos dar uma espreitadela à igreja, que ficava próxima da eira grande.

10.- 2019.- Hórreos de Congostro (49)

passando ainda por uma pequena eira, cujo nome não fixámos.

11.- 2019.- Hórreos de Congostro (55)

Descendo para o fundo do povo,

12.- 2019.- Hórreos de Congostro (60)

à nossa frente, a planura de A Limia.

13.- 2019.- Hórreos de Congostro (64)

Mais uma pequena eira.

14.- 2019.- Hórreos de Congostro (74)

E mais outra – a «Aira das Fontes» -

15.- 2019.- Hórreos de Congostro (117)

e o Campo da Fonte,

16.- 2019.- Hórreos de Congostro (113)

com mais espigueiros ou canastros

16a.- 2019.- Hórreos de Congostro (108)

Aqui, em Congostro, iniciam-se ou acabam e passam percursos pedestres.

 

Eis um deles, bem sugestivo.

17.- 2019.- Hórreos de Congostro (79)

Percorrendo o fundo do povo, uma outra perspetiva da sua igreja.

18.- 2019.- Hórreos de Congostro (82)

Mas não se pense que esta aldeia, apresentando-se como uma aldeia-museu, está totalmente recuperada. Há muito trabalho ainda a fazer no seu casario!

 

Se não, vejamos, entre muitas outras, as seguintes casas:

19.- 2019.- Hórreos de Congostro (103)

(Casa I)

20.- 2019.- Hórreos de Congostro (105)

(Casa II)

21.- 2019.- Hórreos de Congostro (94)

(Casa III)

22.- 2019.- Hórreos de Congostro (28)

(Casa IV)

Passámos por uma, feita em alvenaria – boa, e bem trabalhada, pedra de granito – que, supomos, ser a (antiga) residência paroquial («rectoral»).

23.- 2019.- Hórreos de Congostro (114)

Antes de abandonámos Congostro, ainda demos uma espreitadela para a sua eira principal.

24.- 2019.- Hórreos de Congostro (88)

Já se fazia tarde. Começava a anoitecer, pois os dias de inverno são pequenos. E deixámos, assim, para trás a aldeia-eira.

25.- Congostro

(Fonte:- Voz de Galicia)

Tivemos pena de não termos ido a dois lugares:

  • Ao Centro Interpretativo da aldeia e,
  • um pouco mais acima da aldeia, sobre as pequenas aldeias de Santo André e São Miguel, a Celme, vermos aquilo que resta (ruínas) – apenas alguns silhares –

27.- Silhares de Celme

(Fonte:- Desconhecida)

de uma fortaleza mandada construir pelo nosso rei D. Afonso Henriques.

 

Celme fazia parte de uma série de fortalezas, construídas entre os séculos XI e XII, e espalhadas por toda a A Limia galega. Uma vez na posse dos reis de Castela, constituía uma das quatro mais importantes  - a par da de Pena ou Portela, Forxa ou Porqueira e Castro, em Sandiás -, e cujo objetivo era prevenir os «instintos» de invasão, e consequente posse de A Limia e sua famosa Lagoa de Antela, por parte dos reis portugueses, durante a primeira dinastia e período da Reconquista da Ibéria aos Mouros (e, pelos vistos, não só!).

 

O castelo e fortaleza de Celme foi assaltada pelo duque (inglês) de Lencastre, cuja filha casou com D. João, iniciando a segunda dinastia portuguesa. Foi derrubada pelos Irmandinos e, em 1529, foi reconstruída por D. Álvaro de Oca. As últimas informações de que temos notícia são advindas dos escritos de Gonzalo de Ulloa, no século XVIII, em que assinalam a sua pertença à Casa de Monterrei. Naquela altura apenas já conservava a torre, que acabou por desaparecer. Os seus últimos proprietários foram os marqueses de Valladares.

 

Segundo consta, dali, de Celme, numa posição bem mais alta, a panorâmica sobre A Limia é única e simplesmente impressionante.

 

Talvez venhamos a falar das torres e fortalezas de A Limia. E, quem sabe, voltemos a Congostro para subirmos até Celme.

 

Mas, para já, o próximo post, irá debruçar-se sobre a Lagoa de Antela.

10
Fev20

Por terras da Ibéria - Uma viagem a Portugal com as obras de José Rodrigues no espaço público (Rotunda do Noro - Boticas-Norte de Portugal)

andanhos

 

POR TERRAS DA IBÉRIA

 

 

UMA VIAGEM A PORTUGAL COM AS OBRAS DE JOSÉ RODRIGUES NO ESPAÇO PÚBLICO

 

BOTICAS – BARROSO/NORTE DE PORTUGAL

 

MENINO DA ROTUNDA DO NORO

01.- 2020.- Boticas (Rotunda do Noro+Ribeiro do Fontão) - Nikon (3)

No Museu Digital da Universidade do Porto, sob o título «Uma Viagem por Portugal com as Obras de José Rodrigues no Espaço Público», sobre esta obra do escultor José Rodrigues, diz-se:

 

“O Menino da Rotunda do Noro, de 2003, é uma escultura de vulto em bronze integrada em conjunto arquitetónico. A parede de blocos de granito

02.- 2020.- Boticas (Rotunda do Noro+Ribeiro do Fontão) - Nikon (5)

 suspensa por quatro colunas de água é evocativa do passado e o menino adolescente com uma bola sentado sobre o muro

03.- 2020.- Boticas (Rotunda do Noro+Ribeiro do Fontão) - Nikon (8)

simboliza a ligação entre o passado e o presente, olhando na direção de uma velha oliveira. Esta obra foi integrada na proposta de arranjo urbanístico da Ribeira do Noro, projeto datado de 2001”, promovido pela Câmara Municipal de Boticas, com arquitetura de Barbosa & Guimarães – Arquitetura, sendo construtora Santana, S.A, e inaugurado em 10 de agosto de 2003.

 

Por seu lado, na informação afixada no conjunto escultórico, pode ler-se:

04.- 2020.- Boticas (Rotunda do Noro+Ribeiro do Fontão) - Nikon (12)

“Os grandes blocos graníticos significam a rudeza das serranias do Concelho e o aço representa a «mestria» com que o povo se adapta às duras realidades da vida, moldando as matérias primas existentes na região e delas tirando grande parte do seu sustento.

A escultura em bronze de um adolescente segurando um globo na mão

05.- 2020.- Boticas (Rotunda do Noro+Ribeiro do Fontão) - Nikon (14)

estabelece a relação entre o passado e o presente e é uma homenagem às viagens de emigrantes botiquenses espalhados pelos quatro cantos do mundo. [Dos jovens que vão; dos velhos que restam!...]

A oliveira velha [que já foi substituída por uma outra mais nova, porventura por ter secado], para a qual o «adolescente» está a olhar, representa as memórias do passado do povo do Concelho de Boticas”.

06.- 2020.- Boticas (Rotunda do Noro+Ribeiro do Fontão) - Nikon (16)

Compreendemos a explicação que nos é dada quanto ao conjunto, contudo, consideramos que, em vez da oliveira, cultura pouco significativa em Boticas, e em todo o Barroso, consideramos que haveria outro(s) elemento(s) que fosse mais representativo do Barroso e/ou da sua cultura.

 

Trata-se, obviamente da nossa opinião....

 

Tínhamos prometido, aquando dum post sobre Vila do Conde (Porto), que iríamos falar da arte de José Rodrigues no espaço público, pois aqui estamos a apresentar uma outra, em terras do Reino Maravilhoso, no Barroso.

 

Sabem os leitores(as) do grande apreço que temos pela obra do falecido escultor José Rodrigues. Assim, no próximo post sobre a arte do escultor, e logo que tenhamos oportunidade, deslocar-nos-emos até Valpaços, Alto Tâmega, também Reino Maravilhoso, do nosso Norte de Portugal, para apresentarmos mais uma sua obra.

 

Até lá!...

07.- 2020.- Boticas (Rotunda do Noro+Ribeiro do Fontão) GOPRO (6)

08
Fev20

Memórias de um andarilho - Vale do Lima (Limia) - Galiza - Parte II - Ermida/capela de San Bieito

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

VALE DO LIMA (LIMIA) – GALIZA

 

PARTE II

  

ERMIDA/CAPELA DE SAN BIEITO

01.- 2019.- São Bieito de Uceira (11)

Quando, a 27 de novembro de 2019, com o amigo Pablo Serrano, penetrámos no vale do Lima (Limia) e subimos até ao monte da Uceira, paróquia de Santo Estêvão de Sandiás, no Alto Limia/Ourense, desta singela ermida/capela de San Bieito, outro intento não tínhamos senão, daquele local, podermos observar, numa visão de conjunto, as tais «areeiras do Limia», hoje transformadas em mais de 40 (pequenos e médios) lagos/reservatórios de água, em terra chã, pantanosa, provenientes da exploração de areia durante cerca de duas décadas e meia.

 

Inesperadamente, o tempo mudou um pouco e começou a chover.

 

Assim, foi um pouco à pressa que entrámos no recinto daquela ermida,

02.- 2019.- São Bieito de Uceira (2)

cuja romaria se realiza todas as segundas-feiras a seguir ao domingo de Páscoa e no segundo domingo de julho.

 

A fama deste santo – San Bieito – vem de ser milagreiro, especialista e advogado para aqueles que sofrem de enfermidades relacionadas com a pele (verrugas).

 

Gostámos do pequeno e aprazível recinto, onde impera não só a imagem do santo,

03.- 2019.- São Bieito de Uceira (40)

mas também um bonito cruzeiro

04.- 2019.- São Bieito de Uceira (28)

e várias espécies de árvores e arbustos.

05.- 2019.- São Bieito de Uceira (3)

Espalhados pelo pequeno recinto, encontram-se bancos e assentos de pedra (granito) onde, depois das missa campal, celebrada neste espaço, em frente à capelinha,

06.- 2019.- São Bieito de Uceira (9)

os devotos/peregrinos comem o célebre «pulpo» à galega e outras iguarias bem assim dançam e divertem-se.

 

Gostámos do lugar, apesar de, como referimos, quando chegámos, começar a chover mais intensamente.

 

Dos parapeitos altos do recinto da ermida, tendo em primeiro plano um bosque denso de carvalhos (robles), apesar da chuva e de algum nevoeiro, que nos tirava uma boa visibilidade, ainda pudemos ver parte da «chaira» (chã, veiga) do Alto Lima e, ao centro, a torre de menagem do castelo medieval de Sandiás.

07.- 2019.- São Bieito de Uceira (14)

(Perspetiva I)

08.- 2019.- São Bieito de Uceira (56)

(Perspetiva II)

Contudo, as célebres «areeiras do Limia», face à meteorologia do dia, e à chuva incomodativa, não puderam ser vistas como gostaríamos.

 

Aqui fica, mesmo assim, uma simples imagem das mesmas.

09.- 2019.- São Bieito de Uceira (48)

À saída do recinto da ermida de San Bieito, deixámos para trás este pequeno e bonito – mas venenoso – Amanita muscaria (conhecido em Portugal por vários nomes, desde agário-das-moscas ou mata moscas, rosalgar, mata-bois ou frades-de-sapo).

10.- 2019.- São Bieito de Uceira (1)

Ao descermos para a veiga,

11.- 2019.- São Bieito de Uceira (63)

ficou-nos na retina este lindo bosque de carvalhos (robles),

12.- 2019.- São Bieito de Uceira (76)

a quem não resistimos, antes de partir, de ficarmos com um registo.

13.- 2019.- São Bieito de Uceira (92)

Falava-nos o amigo Pablo Serrano que agora as «areeiras do Limia» estão a ser objeto de proteção ambiental, com a proibição da extração de areias.

 

É muito possível que este objetivo venha a ser prosseguido e conseguido. Todavia, a «chaira limiana» de antanho, definitivamente, desapareceu, juntamente com a sua célebre Lagoa de Antela e os seus bosques de carvalhos (robles).

 

Estávamos convencido que a célebre Lagoa de Antela se localizava, mais ou menos, naquele território das «areeiras». De pronto Pablo nos informou que não: a Lagoa de Antela localizava-se mais a norte da Alta Límia.

 

Ficámos de um dia, do castelo ou torre da Pena, a podermos observar.

 

E como ainda não era tarde, apesar de estarmos em pleno outono, Pablo quis-nos levar a uma aldeia típica da «Limia» - Congostro.

 

Mas Congostro vai ter direito a um post próprio.

05
Fev20

Memórias de um andarilho - Vale do Lima (Limia) - Parte I - Pelas «areeiras do Limia»

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

VALE DO LIMA (LIMIA) – GALIZA

 

PARTE I

 

 PELAS «AREEIRAS DA LIMIA»

 

01.- 2019.- Ruta das areeiras da Limia (Xinzo de Limia) (20)

Durante o ano de 2019, mercê de circunstâncias várias, levámos a cabo poucas caminhadas. A mias importante delas – feita pela segunda vez, mas seguindo um itinerário diferente – foi a do Caminho de Santiago – Epílogo (Santiago de CompostelaFinisterra e FinisterraMuxia). A última do ano – pequena – foi a que realizámos com as(os) amigas(os) do Club de Sendeiristas de Monterrei, pelas terras do Lima (Limia), mais propriamente no entorno de Xinzo de Limia, no dia 17 de novembro, aliás num dia sombrio e chuvoso.

 

Pensávamos que seria uma curtíssima caminhada de convívio apenas. Afinal, no computo geral do percurso pelas terras chãs por onde passa o rio Lima, andámos 11,5 Km.

02.- Ruta das areeiras da Limia

Partimos do café/bar Antioquía,

03.- 2019.- Ruta das areeiras da Limia (Xinzo de Limia) (72)

defronte do Mercado de Xinzo e, sob chuva miudinha, na primeira parte do trilho, cerca de um terço, gizado pelas amigas e amigos sendeiristas de Xinzo, fizemo-lo ao longo da margem esquerda do rio Lima.

04.- 2019.- Ruta das areeiras da Limia (Xinzo de Limia) (5)

(Perspetiva I)

05.- 2019.- Ruta das areeiras da Limia (Xinzo de Limia) (4)

 

(Perspetiva II)

Terra chã, como referimos.

06.- 2019.- Ruta das areeiras da Limia (Xinzo de Limia) (9)

 

As terras chãs do Lima (Limia) não era a primeira vez que as pisávamos.

 

Lembramo-nos que, em 2007, quando fazíamos o Caminho Sanabrês de Santiago, termos percorrido esta zona.

 

Recorremo-la, pela segunda vez, quando fizemos o Caminho Português Interior de Santiago, quando optámos não seguir a variante de Laza, outrossim seguir por Xinzo de Limia.

 

Pareceram-nos quilómetros infindáveis aqueles que percorremos por estas extensas terras planas.

 

A chuva, embora não muito intensa, não nos largava. Assim como estes dois cães, que fizeram connosco o percurso todo,

07.- 2019.- Ruta das areeiras da Limia (Xinzo de Limia) (13)

ziguezagueando  por caminhos e estradas da veiga.

 

A certa altura, demos de caras, quer de um lado, quer de outro do nosso percurso, com, ora pequenas, ora mais largas, áreas cobertas de água.

08.- 2019.- Ruta das areeiras da Limia (Xinzo de Limia) (35)

Curioso, procurámos saber do que se tratava. A resposta veio pronta do nosso amigo Pablo Serrano, que sempre nos acompanha na maior parte das caminhadas que fazemos pela nossa Ibéria, em especial na Galiza: são dezenas de laguinhos e lagoas, resultantes da exploração de areia e que agora, com a proibição massiva da sua exploração – e sua respetiva proteção – acabaram por se transformarem em reservatórios de água, numa zona tão pantanosa como é esta. Aliás, tal como aconteceu no rio Tâmega, em Chaves.

09.- 2019.- Ruta das areeiras da Limia (Xinzo de Limia) (50)

Numa determinada altura, fizemos um desvio, conforme mapa acima mostra. E fomos ter a um observatório de aves.

10.- 2019.- Ruta das areeiras da Limia (Xinzo de Limia) (31)

Mas, deste observatório, poucas aves podemos ver: a vegetação à nossa frente era alta e muito densa.

 

Mais um pouco de caminho, um outro desvio, um outro lago e mais um outro observatório de aves. Aqui o ângulo de visão era maior,

11.- 2019.- Ruta das areeiras da Limia (Xinzo de Limia) (44)

mas, os corvos marinhos, as aves que mais vimos, encontravam-se bem afastados, no cimo de uma árvore, bem afastados de nós.

 

Continuámos caminho, por terrenos alagados de água e, aqui e ali, os célebres «robles» (Quercus robur) que,

12.- 2019.- Ruta das areeiras da Limia (Xinzo de Limia) (55)

outrora, juntamente com a célebre Lagoa de Antela, eram o ex-libris destas limianas terras.

 

Regressados à zona urbana de Xinzo de Limia,

13.- 2019.- Ruta das areeiras da Limia (Xinzo de Limia) (62)

e passando pelo seu centro mais antigo,

14.- 2019.- Ruta das areeiras da Limia (Xinzo de Limia) (68)

fomos almoçar e conviver todos o caminheiros num restaurante local.

 

O amigo Pablo mostrou-nos gosto em nos mostrar, um pouco mais em pormenor, estas terras do Limia, e as suas «areeiras», tendo como epicentro Xinzo de Limia. E, assim, ficou decidido que, num dia próximo, logo que as condições meteorológicos destes dias finais de outono chuvoso e frio o propiciassem, faríamos um pequeno périplo, de carro, por estas terras, conhecendo-as mais em pormenor.

 

Passados dez dias, a 27 de novembro, assim aconteceu.

22
Jan20

Por terras da Ibéria - Uma viagem a Portugal com as obras de José Rodrigues no espaço público (Vila do Conde)

andanhos

 

POR TERRAS DA IBÉRIA

 

UMA VIAGEM A PORTUGAL COM AS OBRAS DE JOSÉ RODRIGUES NO ESPAÇO PÚBLICO

01.- José Rodrigues

VILA DO CONDE

Tomámos de empréstimo o título deste poste que retirámos do sítio da web «museu digital – UNIVERSIDADE DO PORTO».(https://museudigital.pt/pt/roteiros/18) E, já agora, vamos citar a sua «introdução»:

“Uma vertente da produção de José Rodrigues com grande impacto cultural e social, é constituída pela obra escultórica realizada para espaços públicos, e é vasta a obra que o escultor nos deixou pelo país. As encomendas das esculturas para estes espaços moviam José Rodrigues. Diverso e eclético, o conjunto de obras disseminadas pelo país combinam a rigorosa geometria com a diversidade do antropomorfismo e o cunho suave das figuras aladas que amplamente repete, e que o definem como uma marca pessoal. De norte a sul, encontramos estas obras figurativas ou geométricas e, um notável número de obras incorpora a água como elemento essencial da composição, com função enquanto elemento visual e determinação enquanto elemento conceptual, estabelecendo relações tangíveis e intangíveis em redor”.

02.- Praça D. João II

(A Praça D. João II – Turismo do Porto e Norte de Portugal)

Já neste blogue temos vindo a falar deste escultor, que admiramos, nomeadamente, nos postes «O Convento refúgio do escultor José Rodrigues» e «Arte no espaço público da Vila das Artes» (Vila Nova de Cerveira).

 

O escultor José Rodrigues, falecido em 2016, para além das suas inúmeras intervenções em espaços públicos de cidades espalhadas por Portugal, principalmente mais a Norte, também fez algumas intervenções em espaços públicos de Trás-os-Montes, nomeadamente em:

  • Alfandega da Fé, com o «Cego dos Cerejais»;
  • Bragança, com «Homenagem à Indústria da Seda/Monumento ao tecelão/Tear»;
  • Valpaços, com «Santa Comba e o Rei Mouro»;
  • Boticas, com «Menino da Rotunda do Noro».

 

Em próximos postes, naturalmente, iremos falar de cada uma destas obras. Hoje, porém, aproveitando a nossa escapadinha de fim-se-semana a Vila do Conde (Porto), vamos falar, muito resumidamente, da obra deste escultor deixada no espaço urbano desta cidade.

 

Trata-se da «Memória dos 500 anos dos Descobrimentos Portugueses e da participação de Vila do conde na epopeia Marítima», abreviadamente «Monumento a D. João II», na praça com o mesmo nome.

03.- 2020.- Vila do Conde (Porto) (197)

Na placa ali colocada pode ler-se: “Praça monumento concebida pelo escultor José Rodrigues, marcada pela afirmação vertical de um mastro e do velame de nau sulcando, ondas geométricas

04.- 2020.- Vila do Conde (Porto) (189)

 com uma sereia [em bronze e folha de ouro]

05.- 2020.- Vila do Conde (Porto) (194)

pontuando um mar encantado e onde o firmamento se espelha [e bancos em pedra].

06.- 2020.- Vila do Conde (Porto) (204)

Rotas de aventura, instrumentos de navegação e relógio de sol [em madeira e aço].

07.- IMG_3842

(Fonte:- https://museudigital.pt/pt/roteiros/18)

Esfera lembrando o universo sideral.

08.- 192-monumento-a-d-joao-ii-praca-vila-do-conde-8

(Fonte:- https://museudigital.pt/pt/roteiros/18)

A força dos Padrões traduzindo a presença dos portugueses nos cinco continentes.

09.- Padrões

(Fonte:- https://museudigital.pt/pt/roteiros/18)

09a.- monumento-a-d-joao-ii-praca-vila-do-conde-6

(Pormenor -Fonte:- https://museudigital.pt/pt/roteiros/18)

A água fonte de vida, como o sangue dos marinheiros que levam naus e caravelas a sulcar «mares nunca dantes navegados»”.

10.- 2020.- Vila do Conde (Porto) (205)

O chão tem as ondas do mar, como se pode ver pelas imagens acima exibidas.

 

“José Rodrigues referiu que a Praça seria um espaço de memórias, que teria de falar por si própria, mas que seria simultaneamente um lugar de encontro e de fazer perguntas”. […] O escultor pensava valorizar este espaço público de modo a relacioná-lo intimamente com a comunidade, a sua história e as suas memórias.”

 

Esta obra foi uma encomenda do Município de Vila do Conde em 1999 e, em 14 de junho de 2001, foi inaugurada a praça.

 

Tudo isto faz jus ao enorme contributo que, na época das Descobertas, Vila do Conde teve na indústria de construção naval, em que naus e caravelas, aqui construídas, levaram os portugueses às cinco partidas do Mundo.

 

Não é por acaso que, em Vila do Conde, na sua margem ribeirinha está colocada uma réplica de uma Nau Quinhentista.

11.- 2020.- Vila do Conde (Porto) (281)

P.S. – Num blogue por nós consultado «Arte da São» pode ler-se: “Na Doca pequena espraia-se a Praça D. João II, que com uma intervenção recente foi reabilitada, a autoria desta remodelação foi um projeto encomendado a Siza Vieira, tem alguns símbolos como os Padrões, as Esferas e a Sereia do Escultor José Rodrigues, dedicadas a evocar a participação desta Cidade nas aventuras da Navegação na época dos Descobrimentos”. Face ao que a placa que acima referimos, da responsabilidade da autarquia vila-condense, julgamos que a informação aqui aposta é imprecisa. Por isso, aqui fica o nosso reparo…

17
Jan20

Ocasionais - Livro de Horas, Miguel Torga

andanhos

 

OCASIONAIS

 

LIVRO DE HORAS

134526038268619

No 25º aniversário da morte de Adofo Correia da Rocha, fala-nos o grande poeta transmontano Miguel Torga:

 

Aqui diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas
O dos facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.

E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!

 

Miguel Torga,

in 'O Outro Livro de Job'

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15
Jan20

Por terras da Ibéria - Norte de Portugal - Tongobriga (Freixo-Marco de Canaveses)

andanhos

 

01.- PTI - Norte de Portugal - Tongóbriga 01

TONGOBRIGA – FREIXO

MARCO DE CANAVESES

 

Comecemos por apresentar o nosso tema, visionando este pequeno vídeo, ínsito no Jornal de Notícias digital, (JN), de 6 de julho de 2018.

 

FESTIVAL ROMANO APRESENTA DOCUMENTÁRIO TONGOBRIGA – GENIUS LOCI

Vejamos agora o significado do nome Tongobriga e como esta Estação Arqueológica foi «ressuscitada». Para o efeito, sirvamo-nos deste vídeo, edição da Porto Canal.

 

MARCO CIDADE ROMANA DE TONGOBRIGA

 

e do «Guia Arqueológico Visual  - Tongobriga . O espírito do lugar», editado em 2018, aquando ao Festival romano, realizado na Estação Arqueológica do Freixo, e ao lançamento do Documentário - «Tongobriga: Genius Loci» .

 

Seria de todo fastidioso neste post repetirmos o que o «Guia Arqueológico Visual - Tongobriga. O espírito do lugar» nos relata. Basta, para os(as) leitores(as) que se interessam por estas coisas, lerem atentamente este documento tão bem feito e apresentado – que, para além da edição digital, se apresenta também em livro, e que se pode adquirir na receção da Estação Arqueológica do Freixo (Tongobriga).

 

Vamos, contudo chamar a atenção, e realçar aos nossos leitores(as), os seguintes aspetos:

  • Em primeiro lugar, a Estação Arqueológica do Freixo (Tongobriga) - as ruínas da cidade romana de Tongobriga, segundo o artigo «Estação Arqueológica do Freixo – Tongobriga», jazem sob a aldeia de Santa Maria do Freixo, lugar/aldeia integrante da cidade e concelho de Marco de Canaveses;
  • Em segundo lugar, esta cidade romana foi construída sobre o território e a par das construções de um povoamento castrejo já existente, conforme se pode ler nas páginas 10 e 11 do «Guia Arqueológico Visual – Tongonbriga. O espírito do lugar», que, daqui para a frente, passaremos sempre a referir por «Guia». 
  • Em terceiro lugar, e ainda o mesmo «Guia», nas páginas 12 e 13, refere-nos que o nome de Tongobriga é tipicamente celta e deriva do sufixo «briga», que quer dizer colina fortificada e do nome «Tongo», nome indígena, que tanto se pode referir a uma divindade, como a um líder da comunidade, o que propiciou a fundação do povoado, ou ainda qualquer outro. Não é, assim, um nome cujos romanos tenham inventado ou atribuído: ele já existia e, quando cá chegaram, não o alteraram.
  • Em quarto lugar, as ruínas que foram descobertas pelos arqueólogos e que podem ser visitadas são:
    • O perímetro amuralhado com cerca de 13 hectares, abrangendo toda a área do Freixo, dentro do qual são visíveis bairros de habitação pré-romana

02.- 2019.- Marco de Canaveses  (155)

(Trecho da estrutura de uma construção castreja)

02a.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (80)

(Sobreposição de uma estrutura castreja com uma romana)

  • e romana

03.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (70)

(Uma perspetiva parcial da estrutura urbana)

03a.- 2019.- Marco de Canaveses  (153)

(Uma perspetiva mais em pormenor da estrutura urbana)

(veja-se pág.s 14 e 15 – A Estrutura do povoamento castrejo e pag.s 42 e 43 – A Estrutura urbana, construído entre os séculos I e V d. C., do «Guia»).

04.- 2019.- Marco de Canaveses  (161)

Para se ir da Receção ao Forum e Balneário pré-românico e românico, que fica na parte sul da Estação Arqueológica, tem de se atravessar parte da aldeia, onde podemos encontrar construções/habitações como esta:

04a.- 2019.- Marco de Canaveses  (169)

  • O balneário castrejo pré-romano Balneário da «Pedra Formosa»

05.- 2019.- Marco de Canaveses  (182)

(Aspeto geral)

06.- 2019.- Marco de Canaveses  (178)

(Mais em pormenor)

(veja-se, mais em detalhe, o que se diz sobre este balneário, a pág.s 22 e 23 do «Guia»). 

  • O Fórum

07.- 2019.- Marco de Canaveses  (177)

(Perspetiva da entrada)

08.- 2019.- Marco de Canaveses  (191)

(Aspeto da área central e envolvente)

(veja-se o que o «Guia»  nos diz, nas pág.s 32 e 33, quanto a esta estrutura invulgar.

  • As termas romanas, termas públicas, que constituem o ex-libris deste lugar arqueológico

09.- 2019.- Marco de Canaveses  (200)

(Perspetiva I)

10.- 2019.- Marco de Canaveses  (204)

(Perspetiva II)

11.- 2019.- Marco de Canaveses  (194)

(Perspetiva III – Piscina)

12.- 2019.- Marco de Canaveses  (176)

(Perspetiva IV - Palaestra ou ginásio)

13.- 2019.- Marco de Canaveses  (189)

(Latrinas ou WC)

(veja-se também, mais detalhadamente, as pág.s 54 e 55 do «Guia»). 

  • A necrópole,

14.- 2019.- Marco de Canaveses  (174)

(Perspetiva I - Terreno contíguo à necrópole, onde se vê parte da muralha)

15.- 2019.- Marco de Canaveses  (208)

(Perspetiva II - Terreno contíguo à necrópole, onde se vê parte da muralha)

16.- 2019.- Marco de Canaveses  (206)

(Lugar da necrópole)

já fora da muralha da cidade, e,

  • finalmente, quatro (4) estruturas construídas na modernidade para apoio aos visitantes deste sítio:
    • Receção/Centro Interpretativo, com uma exposição permanente dedicada a mudança de vida dos habitantes de Tongobriga aquando da sua integração no império romano;
    • Um auditório, no qual se pode visualizar o documentário acima referido sobre este recinto arqueológico;
    • Uma pequena vitrina com exposição de alguns achados.

16.- 2019.- Marco de Canaveses  (151)

(Achado I)

17.- 2019.- Marco de Canaveses  (152)

(Achado II)

18.- 2019.- Marco de Canaveses  (220a)

(Ara votiva à deusa Fortuna - Imagem-marca de Tongobriga)

Na própria aldeia do Freixo, que integra a rede de «Aldeias de Portugal», destaca-se a sua Igreja Paroquial de Santa Maria,

19.- 2019.- Marco de Canaveses  (168)

(Uma perspetiva geral)

20.- 2019.- Marco de Canaveses  (144)

(Uma outra mais em pormenor)

sob a qual jazem ruínas de casas romanas com mosaicos (veja-se pág.s 70 e 71 do «Guia»); os edifícios relacionados com uma das maiores feiras do Norte de Portugal, extinta nos inícios do século XX – a chamada «Feira da Quaresma» - e o Solar mandado construir pelo capitão-mor de Canaveses, António Serpa Pinto, na época das Invasões Francesas.

21.- 2019.- Marco de Canaveses  (171)

(Perspetiva frontal do Solar)

21a.- 2019.- Marco de Canaveses  (211)

(Portão de entrada)

Dos quatro núcleos de ruínas arqueológicas visitáveis, destaquemos a «Casa do Poço»

22.- 2019.- Marco de Canaveses  (162)

(Uma perspetiva mais ampla)

23.- 2019.- Marco de Canaveses  (164)

(Outra perspetiva mais em pormenor)

 e a «Casa do Impluvium»,

20200115_122947

(Imagem obtida a partir do «Guia»)

pela sua qualidade construtiva e geometria (veja-se pág. 46 e seguintes do «Guia») 

 

Este povoado, então castrejo, da antiga Callaecia, foi integrado plenamente no Império Romano (consulte-se pág. 26 e seguintes do «Guia»), no  tempo da dinastia Júlio-Cláudia e, particularmente, no tempo dos Flávios, em que Tongobriga sofre uma modificação radical, sendo Tongobriga promovida a civitas, destinando-se a esta cidade a instalação de todas as infraestruturas necessárias à vida quotidiana de um espaço urbano.

 

  • Em quinto e último lugar, queríamos referir as circunstâncias ou razões do «investimento» dos romanos nesta civitas. A resposta é-nos dada nas pág.s 8, 28 e 29 do «Guia» quando nos fala da afirmação deste lugar como central em relação a um espaço regional mais vasto.

Na verdade, só se percebe o desenvolvimento urbano impar de Tongobriga a nível regional – dado que não se lhe conhece, no seu território mais próximo quaisquer recursos naturais, como jazidas minerais, aptidões agrícolas, silvícolas ou cinegéticas – se não pela sua importância estratégica como nó viário e ponto de integração entre rotas fluviais e terrestres, entre o litoral e o interior (veja-se pág.s 38 e 39 do «Guia»). Realce-se, particularmente aqui, a importância do rio Douro, que já Plínio O Velho considerava «um dos maiores rios de Hispania». A navegabilidade do Douro ao longo de 145 Km, entre a Foz e o célebre Cachão da Valeira – obstáculo que foi destruído em finais do século XVIII – já é reconhecida desde a época clássica. A este assunto se refere também Estrabão quando nos diz que o rio é capaz de ser navegado por grandes navios por uma distância de quase 800 estádios, correspondendo com exatidão àqueles 145 Km referidos.

 

Assim, o rio Douro neste território e, em conjunto com os seus principais afluentes, nomeadamente o Tâmega e o Corgo, constituiu, desde uma época anterior à romanização, uma via de penetração, a partir do oceano Atlântico, mas também um canal de escoamento de produtos do hinterland e de contactos – comerciais e também culturais – entre as duas margens.

 

Alain Tranoy  [página 9 do «Guia»] chega a considerar o Tâmega como uma via de comunicação essencial para o escoamento de produtos minerais do interior (nomeadamente da zona de Vila Pouca de Aguiar/Jales/Tresminas) e para o desenvolvimento do território da cidade romana de Aquae Flaviae (Chaves).

 

25.- 2019.- Marco de Canaveses  (217)

(Escola Profissional de Arqueologia – Única no país – ao lado da Igreja Paroquial)

08
Jan20

Ocasionais - Miguel de Unamuno e Sanábria - Valverde de Lucerna

andanhos

 

OCASIONAIS

 

UNAMUNO E SANABRIA

 

VALVERDE DE LUCERNA  

Laguna dos Peces e Lago de Sanabria (GOPRO) (21)

No sítio «San Manuel Bueno, mártir», escrito por Abel Sánchez, em El Rincón de Sanabria, este autor refere-nos que há um famoso livro que fala sobre Valverde de LucernaSan Manuel Bueno, mártir – de Miguel de Unamuno.

 

Unamuno mostra-nos, através desta novela, um espaço no qual assentam os símbolos chave da dialética entre fé e dúvida, o lago, a montanha, a neve, a aldeia submersa.

 

A novela contém duas paisagens: uma, natural – a aldeia de Valverde de Lucerna; outra, espiritual, a aldeia que, segundo a lenda, está submersa no Lago de Sanabria. A paisagem natural é símbolo da vida real e terrena, embora a segunda nos mostre o desejo ou anseio da imortalidade.

 

Miguel de Unamuno escreveu esta obra em 1930, quando estava hospedado no Balneário de Bouzas, localizado num lugar emblemático, embora recôndito, nas margens do Lago.

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As impressionantes vistas deste «enclave» cativaram e inspiraram Miguel de Unamuno, numa altura em que vivia um profunda crise de fé.

 

Deixamos aos nossos (as) leitores(as) uma das duas poesias que Unamuno, o grande amigo e apreciador de Miguel Torga, escreveu logo que que este bilbaíno se hospeda em Sanabria.

 

Se bem que «Valverde de Lucerna» assente profundamente na lenda da aldeia de Valverde submersa,

para nós, contudo, parece-nos premonitória ao trágico evento que, cerca de 29 anos depois, haveria de acontecer com o colapso da barragem de Veja do Tera, a 9 de janeiro de 1959, e que, quase por inteiro, a mole das suas águas revoltas, submerge no Lago grande parte das gentes de Ribadelago (144 vítimas mortais, das quais só se recuperaram 28 corpos).

 

Ay, Valverde de Lucerna,

hez del lago de Sanabria,

no hay leyenda que dé cabría

de sacarte a luz moderna.

Se queja en vano tu bronce

en la noche de San Juan,

tus hornos dieron su pan,

la historia se está en su gonce.

Servir de pasto a las truchas

es, aun muerto, amargo trago;

se muere Riba del Lago,

orilla de nuestras luchas.

Miguel de Unamuno

03
Jan20

Ano Novo... Renovando

andanhos

 

ANO NOVO... RENOVANDO

 

Nasci com os olhos postos na Fraga do Marão.

Comecei a olhar e a aprender o mundo

tendo sempre omnipresente aquele cenário,

rodeado de casas brancas,

dispersas pela paisagem,

e pelos socalcos de vinhedos;

ao fundo, como chamando por nós para outras paragens,

o rio Douro.

                                                                              ***                                      

Vi a sombra antes de ver a luz.

Há uma tarde de novembro que ficou,

em mim para sempre.

É num fundo roxo e dourado,

que o meu perfil de criança

me aparece, ao longe,

tão triste

mais um sentimento vago

que uma forma definida.

Nos primeiros tempos,

vivemos mas não existimos.

Eu era então uma alma

a esvoaçar um corpo,

e tudo era alma,

diante de meus olhos.

Teixeira de Pascoaes

 

Quando escrevíamos o primeiro post deste blogue, a certa altura, dizíamos que, após o capítulo “RAÍZES”, desenvolveríamos os seguintes blocos temáticos:

  • Memórias da minha infância;
  • Gallaecia, dividida nas seguintes rubricas:
    • Por Terras da Gallaecia
    • Pelos Caminhos de Santiago na Galiza
    • O Douro dos meus encantos
    • Por terras do Alto Tâmega e Barroso
  • Por terras de Portugal
  • Encontros com a História e o Património
  • Áreas Naturais
  • Eventos e Passeios
  • Férias.

 

Convenhamos que, para um autor só – sem qualquer colaborador – era deveras um projeto ambicioso!

 

A 25 de janeiro de 2016, decorridos mais de cinco anos da criação deste blogue, no post «Renovando», decidimos, face à demasiada ambição do desenvolvimento das temáticas que nos propúnhamos desenvolver neste blogue, renová-lo, tendo em conta a avaliação do trabalho que, neste mesmo blogue, tínhamos realizado até àquele momento. E, assim, a partir daquela altura, foram estas as rubricas que começaram a aparecer:

  • Reino Maravilhoso, com os seguintes subtemas:
    • Douro
    • Barroso
    • Alto Tâmega
    • Trás-os-Montes
  • Palavras Soltas
  • Memórias de um andarilho
  • Ao Acaso…
  • Chaves através da Imagem
  • Versejando com a imagem.

Entretanto, em 2012, criámos mais dois blogues: Voilá é Zassu, cujo objetivo da sua criação era o que se apresentava no seu primeiro post «Encontros(s) - Cena zero - Encontro prévio» mas que, também, ao longo da sua existência, foi sofrendo alterações, conforme escrevíamos no post «Poesia e Arte 79 – Poemas nos Diários de Miguel Torga – Epílogo»; e nona, um blogue subordinado às rubricas mais frequentes deste Andarilho de Andanhos, mas, exclusivamente, dedicado à apresentação das nossas fotografias.

 

É agora, passados quase mais de cinco anos, de proceder a nova renovação.

 

Desta feita, este blogue passará a contar apenas com reportagens de passeios e escapadas no nosso

 

  • Reino Maravilhoso, que continuará a contar com os subtemas: 
    • O Douro dos meus encantos
    • Barroso
    • Alto Tâmega e
    • Alto Trás-os-Montes. 

Faremos reportagens das nossas caminhadas em:

  • Memórias de um andarilho.

Faremos também reportagens de passeios e escapadas levadas a efeito em

  • Por Terras da Ibéria, quer sejam levadas a cabo em Portugal, com exclusão do Reino Maravilhoso, quer nas diferentes províncias e/ou regiões da nossa vizinha Espanha, na nossa Península Ibérica (Ibéria).

Finalmente, uma última rubrica,  

  • Ocasionais, quando o tema não se enquadre em nenhuma das reportagens acima mencionadas.

 

O blogue nona continuará a dedicar-se à exposição das nossas fotografias, segundo o esquema temático deste blogue, que, abreviadamente, designamos de Andanhos.

 

O blogue Voilá é Zassu, ou simplesmente Zassu, «viverá» a custa das restantes rubricas que faziam parte deste blogue, ou seja,

  • Palavras Soltas
  • Ao Acaso…
  • Versejando com imagem.

 

Como os leitores(as) dos nossos três blogues já repararam, alterámos o visual, «cabeçalho» dos mesmos.

 

Agradecemos ao nosso grande amigo Fernando DC Ribeiro, autor do blogue «CHAVES», que nesta data cumpre 15 anos de existência, o trabalho de «design» que neles realizou. Quer o nona, quer o Voilá é Zassu apresentam «caras» totalmente novas.

 

Andarilho de Andanhos, embora mantenha a sua matriz essencial, sofreu também algumas alterações. A primeira tem a ver com uma citação, da autoria de Miguel Torga, de que muito gostamos; a segunda, com a junção, na imagem base, da Ponte Romana de Chaves e o rio Tâmega.

 

É de todo justo que Chaves aqui apareça. Vão para mais de 55 anos que aqui residimos e fizemos vida nesta cidade e concelho. Aqui nasceram os amores da nossa vida, nesta terra onde «ganhámos» o pão de cada dia, simbolizado numa espiga, no canto direito do «cabeçalho».

 

Mas se Chaves, a Aquae Flaviae antiga, é «A Terra dos Meus Amores», tal como o título do pequeno opúsculo – uma coletânea de poesias -, de Artur Maria Afonso, pai de Nadir Afonso, que a Camara Municipal de Chaves deu à estampa, quando éramos responsável pelo Pelouro da Cultura, em 1993, e que aqui transcremos um dos poemas:

 

AQUAE FLAVIAE

AQUAE FLAVIAE é no Mundo

Uma estrela rutilante!

Teu ar alegre e jocundo

Cantasse-o Camões ou Dante!

 

De graça e sonho me inundo

Ao contemplar teu semblante.

Teu valor não tem segundo

Por toda a Terra adiante.

 

Eu ando enamorado

Há muito, desde o passado,

Por ti, Princesa d’Honor!

 

Faz espelho do teu rio,

Panteia as tranças com brio,

E dá-me um beijo d’amor.

Maio de 1957

Do livro de poesias “ORAÇÕES AO VENTO” (1982),

acompanhado de uma ilustração de seu filho, Nadir Afonso,

Aquae Flaviae

(Ilustração de Nadir Afonso)

contudo, a terra onde nascemos, (Santa Maria de) Oliveira, concelho de Mesão-Frio, onde o Alto Douro Vinhateiro – a mais antiga região vinhateira demarcada do Mundo – começa, continuará a ser a terra a que o nosso coração pertence e reside, ao longo da diáspora da nossa vida.

 

Ela aqui está, guardada pela imponente Serra do Marão, com a Fraga da Ermida a protegê-la e, por vezes, ameaçando-a.

 

Por esta circunstância, uma vez mais, não resistimos a citar um pequeno excerto do grande poeta da saudade, na sua obra Marânus:

 

SERRA DO MARÃO

Amo-te, ó serra, em tudo do que tu és!

Amo-te, desde a rocha que em ti sofre

Ao tojo bravo e à urze tão mesquinha

De que sempre te revestes, porque, enfim,

Tu és grande e, portanto, pobrezinha!

Teixeira de Pascoaes

 

O cacho de uvas que aparece neste novo «cabeçalho», do lado esquerdo, e sobre (Santa Maria de) Oliveira representa todo o Douro, feito de trabalho árduo, suor e pelas mãos ossudas e calosas do Homem que trabalhou aqueles montes de geios e pedra dura, numa atividade que teve o seu quê não só  de grandioso como de trágico, tal como tão bem o nosso saudoso e querido António Cabral o cantava neste poema:

 

AQUI, O HOMEM

Nem Baco nem meio Baco!:

                Aqui é o homem,

desde as mãos ossudas e calosas,

desde o suor

ao sonho que transpõe as nebulosas.

 

Montes de pedra dura,

               gólgotas

onde os geios são escadas!

Venham ver como sobe o desespero

 e a esperança, de mãos dadas.

 

É o homem.

         Isso é o homem.

– Nem sátiro nem fauno –

Uma vontade erguida em rubro gládio

que ganha a terra, palmo a palmo.

 

Vinhas que são o inferno,

                    o único

em que o fogo é a taça da alegria!

Venham ver um senhor

grandioso como o sol ao meio-dia.

 

Nem Baco nem meio Baco!:

           Aqui é o homem

que nada há que não suporte

mas suporta e persiste.

Aqui é o homem até à morte.

António Cabral, Poemas Durienses., 1963

 

E é tudo por hoje.

 

A todas as nossas amigas e amigos leitores(as) deste blogue,

 

UM BOM ANO 2020

 

25
Dez19

Por terras da Galiza - Allariz - A bonita vila galega vista ao por do sol no Penedo da Vela

andanhos

 

POR TERRAS DA GALIZA

 

ALLARIZ

 

A BONITA VILA GALEGA VISTA AO POR DO SOL NO PENEDO DA VELA

 

01.- 2019.- Allariz (3)

Como raiano, vivendo em Chaves, Allariz, uma vila perto de Ourense e as escassos 76 Km da nossa residência, não nos podia ficar indiferente.

 

E, é tanto verdade, que já são as vezes sem conta aquelas que por lá passámos – a pé, a caminho de Santiago, e, essencialmente, de carro. Passeando, apreciando-a, fazendo compras e, até, pernoitarmos.

 

Porque é bem verdade que se trata de uma vila bem bonita. Que nos encanta. Que nos suscita desejo de a visitar periodicamente. E por variadas razões.

 

Estamos com Iván Vânjira, quando, a 31 de julho de 2018, no seu artigo «Los pueblos más bonitos de Galicia: Allariz», dizia que, na verdade, é um dos povos mais bonitos da Galiza.

 

Trata-se, naturalmente de uma opinião. Mas que, com a qual, concordamos, estamos inteiramente de acordo.

 

Esta opinião é também partilhada no artigo «10 razones para visitar Allariz» quando também afirma que é um dos povos com mais encanto da Galiza. A nós, encanta-nos. Muito. Como andarilho dos principais Caminhos de Santiago, conhecemos muito canto, recanto e andanhos desta nossa vizinha e encantada Galiza. Allariz é, positivamente, um desses andanhos, com lugares encantados – e que nos fascinam!

 

E são vários os motivos que fazem desta bonita e pacata – em certos momentos já buliçosa – vila galega um lugar de eleição para ser visitado.

 

Não vamos exaustivamente enumera-los e desenvolvê-los. Para isso, deixamos aqui aos nossos leitores(as) os seguintes sítios da web, onde, consultando-os, podem aquilatar do que afirmamos:

 

De todos eles, como sejam:

  • Ser um Conjunto Histórico Artístico reconhecido desde 19712 e ter recebido, em 1994, o Prémio Europeu de Urbanismo;
  • Ser o sítio ideal para visitar com crianças, de forma cómoda, tendo em conta os seus amplos espaços verdes, com jardins e piscinas municipais ao ar livre;
  • Ser, a par de com Ponte de Lima, Portugal, o lugar onde se realiza o Festival Internacional de Jardins, e que teve início em 2010;
  • Ser nela que se realiza a Festa do Boi, conhecida internacionalmente, e que tem mais de 700 anos de existência;
  • Ser a capital galega do outlet ao ar livre, representando, assim, um importante destino comercial, levando a que grandes marcas ali tenha as suas lojas;
  • Ser uma vila que possui mais museus em toda a província de Ourense;
  • Ser uma vila bem conhecida pela sua famosa gastronomia.

 

E tudo isto, já para não falar em dois sítios nos seus arredores, que não se podem deixar de visitar – o Eco espaço do Rexo (Centro de Educação Ambiental) e Santa Mariña de Augas Santas10 razones para visitar Allariz».

 

Estamos de acordo com o autor(es) do sítio acima referido quando nos elucida, entre as suas dez razões, ser Allariz um lugar de paz e sossego.

 

Já não podemos infirmar a opinião deste mesmo(s) autor(es) quando nos diz ser o meio quilómetro – entre a Alameda e a Ponte romana de Vilanova – o mais bonito de Espanha.

 

Que é um dos lugares mais bonitos da Galiza, com certeza; de Espanha, não podemos afirmar, porquanto não conhecemos suficientemente bem toda a Espanha para nos darmos a esse luxo de o poder afirmar. Seria demasiada veleidade da nossa parte!

 

Para além de tudo quanto dissemos – e o que ficou por dizer, mas que pode ser colmatado com a leitura dos sítios a que fizemos referência – quanto a Allariz, queríamos apenas deixar aqui não só o que, para nós, quanto apreciamos o seu Conjunto Histórico Artístico quanto a História que ele representa.

 

A importância de Allariz é longeva, dos tempos pré-históricos e, mais particularmente, advém do período da Idade Média, com a formação e consolidação dos reinos católicos da Península Ibérica.

 

Foi nesta época histórica que Allariz foi promovida a Vila e local da Corte, com a presença de numerosos príncipes, o mais importante dos quais aquele que, mais tarde seria o rei D. Afonso X, o Sábio.

 

Foi em Allariz que D. Afonso X aprendeu o galego, advindo do português.

 

Pena que o seu castelo, sito no Penedo da Vela, tenha desaparecido!...

 

Foi deste Penedo da Vela, junto ao antigo bairro judeu, vindo de uma caminhada pelas lagoas areeiras de Xinzo de Limia, para irmos à Feira do Outono de Allariz, que, daqui, presenciámos o casario da vila e seu entorno.

02.- 2019.- Allariz (9)

(Panorama I)

03.- 2019.- Allariz (11)

(Panorama II)

04.- 2019.- Allariz (22)

(Panorama III)

 

Quando subíamos ao Penedo da Vela, passámos pela Igreja de Santo Estêvão.

05.- 2019.- Allariz (7)

Num muro desta igreja, acompanhado pelo nosso “cicerone” para as coisas da «pátria» galega, fizemos uma pequena pausa.

06.- 2019.- Allariz (5)

Pablo explicou-nos que é daqui, preso, que o boi (da Festa do Boi) sai para dar “brilho” ao evento do dia do Corpus Christi, reativando uma tradição ou história entre judeus e cristãos, passada nesse dia.

07.- 2019.- Allariz (4)

Pablo ainda nos contou que o boi do evento, até há bem pouco tempo, não era de Allariz. Vinha de Aliste (província de Zamora), sendo da raça alistana; agora o boi do Corpus é criado nos montes de Allariz. Creio ter percebido assim…

 

Do Conjunto Monumental de Allariz, o que mais sobressai, do alto do monte do Penedo da Vela, é o Real Convento de Santa Clara, no Campo da Barreira, tendo ao lado a Igreja barroca, do século XVIII, de São Bieito (São Bento) e, à sua frente dois belíssimos cruzeiros.

08.- 2019.- Allariz (19)

Este mosteiro, segundo Victor Gómez, em 2 de março de 2015, em «Conociendo allariz, un bonito Pueblo de Ourrense», alberga, no seu interior, o maior claustro barroco de Espanha.

09.- 2019.- Allariz (2)

Por outro lado – e veja-se a importância do trabalho das freiras que aqui trabalham! Ciciava-me ao ouvido amigo Pablo Serrano que daqui partem, para as cozinhas do Vaticano e para as mesas dos altos dignatários da Santa Madre Igreja Católica, devidamente criados e tratados, os perus que os irão saciar. Verdade ou peta do meu amigo, ela aqui fica…

 

Para além do Real Mosteiro de Santa Clara, outras igrejas, no meio do casario, se distinguem:

  • A Igreja de Santa Maria de Vilanova, com seu cemitério e, ao lado, a ponte romana, ex-libris de allariz;

10.- 2019.- Allariz (15)

  • A Igreja de São Pedro, do século XII, românica;

11.- 2019.- Allariz (20)

  • A Igreja de Santiago, matriz, tendo em frente o edifício do concello e, ao lado, a célebre Casa da Paneira.

12.- 2019.- Allariz (23)

Num outro ângulo de visão, destaca-se, a seguir aos telhados do casario, um dos elementos do Parque Etnográfico de AllarizPortovello, (antiga fábrica de couro), albergando um restaurante e o Museu do Couro Família Nogueiras; em último plano, o lugar onde se realiza o Festival Internacional de Jardins.

13.- 2019.- Allariz (26)

No outono os dias são pequenos e anoitece cedo. Havia que nos despacharmos para nos dirigirmos ao local onde se realiza a Feira de Outono de Allariz.

14.- 2019.- Allariz (27)

Mas não abandonámos o lugar sem captar este lindo por do sol,

15.- 2019.- Allariz (28)

enquanto deixávamos para trás estes companheiros que, deste local com história, captavam o «seu» por do sol também.

16.- 2019.- Allariz (31)

22
Dez19

Adriano Sousa Lopes - O pintor soldado na Grande Guerra

andanhos

 

ADRIANO SOUSA LOPES

 

O PINTOR SOLDADO NA GRANDE GUERRA

 

Bacalhau à Sousa Lopes,

– O fiel, com batatinhas,

Ao nosso Pintor da Guerra,

Que é fiel, pois veio às linhas

 

(recolha de Jaime Cortesão,

saída do convívio de Natal nas trincheiras) 

Fonte:- https://portugal1914.org/portal/pt/historia/a-guerra-1914-1918/item/6922-sousa-lopes-pintor-da-grande-guerra

 

 

01.- Adriano de Sousa lopes

Está patente ao público, de 30 de novembro de 2019 a 29 de março de 2020, no Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso (MACNA), em Chaves, a pintura impressionista do pintor Adriano Sousa Lopes (numa sala) bem assim algumas obras de autores modernistas portugueses (noutra sala).

 

Todas as obras expostas pertencem ao Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC), com sede em Lisboa, de quem, aliás, Adriano de Sousa Lopes, desde 1929 e até à sua morte, foi diretor.

 

A presente exposição resulta de uma parceria firmada entre o MACNA e o MNAC.

 

Mas não é desta parceria, nem dos pintores modernistas expostos que, neste post, vamos falar.

 

Vamo-nos, tão somente, cingir a Adriano de Sousa Lopes. Daremos a conhecer, naturalmente, aos(às) nossos(as) leitores(as) a obra deste autor exposta, mas não ficaremos por aqui.

 

Quando, em 2015, nos dirigimos a Lisboa ao Arquivo Histórico Militar, em frente à Estação de Caminhos de Ferro de Santa Apolónia, para fazermos recolha de documentação/material para a elaboração do nº 50 da Revista Aquae Flaviae, numa das tardes, fomos visitar o Museu Militar, que ocupa dependências do mesmo edifício onde se localiza o Arquivo Histórico Militar.

 

Quando entrámos nas duas  Salas da Grande Guerra, ficámos verdadeiramente impressionados com a pintura dos painéis/telas monumentais que cobriam suas paredes.

Adriano de Sousa lopes 01

Procurámos descobrir quem seria o autor destes enormes painéis pintados e nossa atenção dirigiu-se para ADRIANO DE SOUSA LOPES.

Adriano de Sousa Lopes 50

Tanto nos fascinou aquela obra deste pintor que não hesitámos em usar um pormenor de um dos painéis para capa não só da Revista nº 50 do Grupo Cultural Aquae Flaviae como do livro que posteriormente demos à estampa sob a designação «Grande Guerra – Enquadramento Internacional». Pormenor esse cuja imagem abre este post.

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Afinal de contas, quem foi Adriano de Sousa Lopes?

Segundo o artigo «Sousa Lopes, pintor da Grande Guerra» Adriano Sousa Lopes formou-se “em pintura histórica nas escolas de belas-artes de Lisboa e de Paris, onde fixou residência em 1903, a sua arte de inspiração literária desenvolveu temas da história de Portugal, tendo sido um expositor regular nos salões da prestigiada Sociedade dos Artistas Franceses. Vivendo em França até meados da década de 1920, a sua pintura absorveu estilos como o Simbolismo e sobretudo a técnica colorista dos Impressionistas,  apurada nas paisagens executadas em Veneza, Saint-Tropez e na Costa de Caparica.

Testemunhando a mobilização da sociedade francesa em 1914 e inspirado pelo trabalho de artistas oficiais nas revistas de grande circulação como a L’Illustration, Sousa Lopes propôs o seu plano ao Ministério da Guerra português em Abril de 1917”.

 

(…) “Capitão do serviço artístico do Corpo Expedicionário Português, [nomeado em agosto de 1917] Adriano de Sousa Lopes (1879-1944) foi o único pintor oficial do Exército em França em 1917-18”.

 

(…) Antes de partir para a Flandres [francesa], o artista anunciou nos jornais a sua missão de propaganda do esforço militar do país mas, como aconteceu com tantos dos seus pares europeus, o testemunho da frente ocidental mudou seus planos. Confrontado com a realidade cruel das trincheiras e o quotidiano dos “lãnzudos” portugueses, a sua missão inicial transformou-se numa visão mais pessoal da guerra, destinada a imortalizar a ação e drama humano da Flandres”.

 

Durante mais de duas décadas Sousa Lopes desenvolveu o seu trabalho em diferentes técnicas: centenas de desenhos de campo, cobrindo desde os combates na primeira linha até à instrução militar nos campos da retaguarda, uma série de quinze gravuras a água-forte (…)”.

 

(…) “[Nos painéis/telas monumentais das duas Salas da Grande Guerra, no Museu Militar], As figuras dos soldados maiores que o natural, vestindo pelicos e safões dos pastores alentejanos, são dignificadas no seu esforço dispondo-as como num friso antigo. (…)

 

Nestes trabalhos do Museu Militar de Lisboa, nas salas da Grande Guerra, contruídas na década de 1930, (…) “o visitante pode ver cenas de perigosas operações na frente, como o renunciamento das baterias de artilharia debaixo de fogo inimigo, episódios dramáticos da batalha do Lys ou a luta desigual da Marinha contra os submarinos no Atlântico.

 

Uma pungente homenagem é encenada em As Mães do Soldado Desconhecido, episódio testemunhado nas cerimónias fúnebres de 1921 no mosteiro gótico da Batalha.

 

Mais tarde Sousa Lopes foi executando uma série de águas-fortes a partir dos seus cadernos de campo, consideradas por Raquel Henriques da Silva como  de um conjunto raro que, além de valor testemunhal, manifesta, nos melhores casos, a emergência de uma poética expressionista, justificada pelo confronto com tão dura realidade, como sejam o 9 de Abril; o Capitão Beleza dos Santos atravessa uma densíssima barragem de artilharia e consegue salvar a sua bateria de 75; os soldados de pé ao parapeito, vigiando um inimigo invisível; uma patrulha de reconhecimento rastejando na terra de ninguém, iluminada pela luz dos very-lights; os defensores de La Couture bombardeados na manhã da batalha do 9 de Abril 1918; ou simbólicas evocações da guerra, como a sepultura de um soldado português desconhecido perdida na planície húmida da Flandres.

 

Estas obras de Sousa Lopes são consideradas justamente como as melhores e mais autênticas pinturas de batalha da arte portuguesa.

 

O friso monumental A Rendição e a notável coleção de gravuras estão entre as obras-primas da sua carreira.

Adriano de Sousa Lopes 51

(Pormenor da Rendição)

 

Para que os nossos(as) leitores(as) tenham uma visão mais precisa do que acima afirmamos, deixamos ao seu visionamento estes elucidativos vídeos

 GRANDES QUADROS PORTUGUESES

https://www.rtp.pt/play/p1102/e423468/grandes-quadros-portugueses

 

ADRIANO SOUSA LOPES

POSTAL DA GRANDE GUERRA

VISITA GUIADA T2 – EPISÓDIO 5

Arte Portuguesa Sobre a Primeira Grande Guerra, Museu Militar

Feita esta justíssima menção ao nosso grande pintor expressionista da Grande Guerra, falemos agora do autor impressionista, o qual, “durante a década de 1920 realiza pinturas «em que a explosão do colorido tem um sentido novo na pintura portuguesa. São pescadores […] e outras marinhas expostas em 1927, tal como o retrato de ‘Madame Sousa Lopes’ […], um dos melhores retratos da pintura nacional dos Anos 20»”.

 

Lembre-se, a propósito, que uma exposição de Adriano Sousa Lopes, com um nome parecido – Reflexos de Lua – esteve exposta, em 2015, no Museu do Chiado em Lisboa.

Vale a pena termos uma retrospetiva da mesma, lendo o artigo «O Trespassar da Espada Impressionista», escrito, em 3 de novembro de 2015, no «Reactor».

 

Apreciemos agora as obras impressionistas do nosso pintor Sousa lopes expostas no Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso (MACNA) nesta sala.

00-2019

A apresentação das obras que se segue vai da esquerda para a direita da sala. Na parede do fundo, em frente A porta de entrada, estão as obras - Retrato de M-me Sousa Lopes; A blusa azul e Efeito de luz.

2019.- Registos de Luz (MACNA) (5)

(Auto-retrato)

2019

(Céu da Caparica, 1922-1926, Óleo sobre tela)

05---2019

(Areal, 1922-1926, Óleo sobre tela)

06---2019

(Areal, 1908, Óleo sobre madeira)

07-2019

(Manhã na praia da Caparica, 1922-1926, Óleo sobre cartão)

08-2019

(Lua no mar, 1922-1926, Óleo sobre madeira)

09-2019

(Caparica, 1927, óleo sobre tela)

10-2019

(Luz na praia, 1922-1926, Óleo sobre madeira)

11-2019

(Efeito da luz, 1922-1926, Óleo sobre madeira)

12-2019

(Efeito de uma nuvem, 1922-1926, óleo sobre madeira)

13-2019

(Luz na água, 1922-1926, óleo sobre madeira)

14-2019

(Mar revolto, 1922-1926, óleo sobre tela)

15-2019

(Efeito de mar, 1922-1926, Óleo sobre madeira)

16-2019

(Vagas, 1922-1926, óleo sobre tela)

17-2019

(Luta com as vagas, 1022-1926, Óleo sobre madeira)

18-2019

(Lançando o barco ao mar, 1922-1926, Óleo sobre madeira)

19-2019

(Puxando a rede, 1922-1926, óleo sobre madeira)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (22)

(A saída do barco, 1922-1926, Óleo sobre madeira)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (23)

(Velas na luz, 1927, Óleo sobre madeira)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (24)

(Moliceiros ao sol, 1927, Óleo sobre madeira)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (25)

(Retrato de M.me Sousa Lopes, 1927, Óleo sobre tela)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (26)

(A blusa azul, 1927, Óleo sobre tela)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (27)

(Efeito de luz, 1914, Óleo sobre tela)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (30)

(O cinzelador, 1905, óleo sobre tela)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (31)

(O caçador de águias, 1905, óleo sobre tela)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (32)

(As Ondinas (Heine), 1908, óleo sobre tela)

- Veja-se história deste quadro em «O Trespassar da Espada Impressionista».

2019.- Registos de Luz (MACNA) (33)

(O Palácio da Ventura – estudo –, 1906, óleo sobre tela)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (34)

(Veneza, 1907, Óleo sobre tela)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (35)

(Veneza, 1907, Óleo sobre madeira)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (36)

(Veneza – sol posto sobre a laguna -, 1907, óleo sobre madeira)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (37)

(Num jardim de Paris, 1904-1907, óleo sobre madeira)

2019.- Registos de Luz (MACNA) (38)

(Le Moulin Rouge – noite -, 1904-1907, óleo sobre madeira)

16
Dez19

Versejando com imagem - Aqui, Douro, de António Cabral

andanhos

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

AQUI, DOURO

2019.- Solar da Rede (20)

 

Aqui Douro. O Paraíso do vinho e do suor.

Dum rio no Verão ossudo e magro

como as pessoas,

quando a alma se escoa pelos poros;

rio também barrento, a cor da terra,

para que a alma seja inteira;

rio das grandes cheias, do abraço final

de troncos de homens, de árvores e sonhos;

dum rio agora jovem: a água demora

o seu espelho nas barragens, e os barcos

cheios de olhos filmam a história

dum deus desconhecido.

 

Paraíso dos montes sobre montes,

agressivos mas belos,

montes que se agigantam, ombros vivos

dos violentos ventos e do sol,

e montes que se dobram e desdobram com os ribombos,

abrindo ribanceiras e fundões.

Oh Cachão da Valeira, sepultura de incêndios!

 

Paraíso das hortinhas e pomares:

a água é menos esquiva

para que os homens sujem bem as mãos

de encaixotar num sonho meia dúzia de laranjas,

enquanto os melros pintam a carvão

sua risada galhofeira e livre.

 

Paraíso dos nove meses de Inverno

e três de inferno:

Outubro a Junho, é o nevoeiro sanguessuga

que morde até aos ossos e às palavras;

Julho a Setembro, é o sol em lâmina

que fere os olhos até ao pensamento.

 

Paraíso do suor,

dos homens de camisas empastadas,

a terra a queimar os lábios

e a torcer-lhes a fala em raivas humaníssimas,

cavando, neles cavando o desespero

e o amor também

(a noite e o luar)

porque no fim de tudo

a terra é flor e corpo de mulher.

 

Paraíso da aguarela forte das vinhas

que entram em ondas verdes pelos olhos.

Vinhas que estão na vida desta gente

como grito nos lábios,

como flor no desejo,

como o olhar nos olhos,

vinhas, sei lá, que são a própria vida desta gente.

 

Paraíso dourado das vindimas!

Então o Douro é d’ouro.

Ouro no sol que põe tudo em labaredas:

os cachos e as nuvens de poeira

espantadas pelas patas dos cavalos

e dos camiões, ron-ron, ladeira acima.

Ouro na tagarelice das mulheres

que vindimam as uvas e as ideias;

um certo ouro no silêncio dos homens

que em fila e ferro transportam os cestos.

Ouro ainda no regresso do trabalho,

ao som dum bombo, duma concertina.

Ouro nos cestos, nos lagares, nas pipas,

ouro, ouro, suado de sangue, ouro!

Ouro talvez nos cálices de quem

veio de longe assistir da janela.

Ah Paraíso dourado das vindimas,

do vinho quente, vinho-gente, que cintila,

que é suor e sangue e sol engarrafado!

 

Paraíso também das romarias;

Da Senhora da Piedade, do Viso e dos Remédios:

gente de gatas como animais

porque a Senhora interveio

e ante o céu

somos uma coisa qualquer por acabar.

Há um homem que leva uma facada,

mas há também ex-votos,

estrelas a germinar nos olhos.

 

Paraíso das sete ermidas!

– o céu gotejando no cimo dos montes.

De castros e ruínas

– o vento do passado colando-se ao rosto.

Das minas que devassam o abismo

– fui à boca de uma em criança

e recuei como se tivesse visto

todos os dentes da bicha-das-sete-cabeças.

 

Paraíso dos caminhos tortuosos

pois Deus escreve direito por linhas tortas.

Dos duendes nocturnos

– ninguém chegue à janela quando passam.

Das mouras encantadas

– o afiançou minha avó: há uma

que se chama Maria

e é linda, linda como as manhãs de Junho.

 

Paraíso dos barrancos inconcebíveis,

das rogas e dos silêncios,

do grandioso silêncio das montanhas!

 

Paraíso! Paraíso!

Oh cântico de pedra à esperança!

 

António Cabral 

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