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REINO MARAVILHOSO - BARROSO:- Contrastes

 

 

REINO MARAVILHOSO - BARROSO:- Contrastes


No último Diário de Miguel Torga, a 1 de setembro de 1990, o autor escrevia, em Montalegre, assim:


Eram jovens, abordaram-me, gostavam do que escrevi, e queriam saber coisas de mim. Qual era o meu segredo?
- Ser idêntico em todos os momentos e situações. Recusar-me a ver o mundo pelos olhos dos outros e nunca pactuar com o lugar-comum”.

 

Numa duas suas habituais vindas às Caldas de Chaves para se curar dos seus achaques, e numa das muitas deslocações que fazia à região, a 29 de agosto de 1991, em Travassos do Rio, Montalegre, desabafava:


Notabiliza este lugar um baixo-relevo na torre sineira a figurar a cabeça de um toiro, que foi campeão invencível nas turras do seu tempo e os habitantes, ufanos de tanta valentia, quiseram perpetuar.
Vou rememorando: Cornos das Alturas, Cornos da Fonte Fria, Tourém, Pitões.
Era assim antanho. Por todo o lado a mesma obsessão a tutelar as consciências. O mal é que o povo, em meia dúzia de anos, deixou apagar nos olhos a imagem viril, e perdeu a identidade. O Barroso de hoje é uma caricatura. Sem força testicular, fala francês, bebe Coca-Cola, deixou de comer o pão de centeio do forno comunitário, assiste a chegas comerciais, em campos de futebol, com bilhetes pagos e animais alugados. É um nédio boi capado”.


Por outro lado, no dia 1 de setembro de 1991, de Alturas do Barroso, escrevia:


“Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso, a este teto do mundo português, admirar no adro da igreja, calcetada de lousas tumulares, o harmonioso convívio da vida e da morte. Os cemitérios atuais são armazém de cadáveres desterrados da nossa familiaridade, lacrimosamente repelidos do seio do clā mal arrefecem, cada dia menos necessários, no progressivo esquecimento, à salutar perceção do que significam na dobadoira do tempo. Ora, aqui, cada paroquiano pisa, pelo menos dominicalmente, a sepultura dos ancestrais, e se liga a eles, quase organicamente. Vive, numa palavra, referenciado. Sabe que tem presente porque houve passado, e que, mais cedo ou mais tarde, enterrado ali também, será para os descendentes consciência e justificação do futuro”.

 

Volvidos 25 anos desta escrita tão contrastante, que Barroso ainda sobra?

 

Periodicamente - ou anualmente nas suas festas - percorremo-lo. Procuramos o quê num território hoje tão contraditório?... O espírito do lugar? a nossa traça celta?


Infelizmente, já nem o Barroso, encravado nas suas montanhas, e sob a proteção do deus Larouco, nos dá argumentos para irmos à procura da nossa identidade, justificando as nossas opções de futuro.

 

Hoje temos a sensação que o percorremos - tal qual via-sacra -, dobrados sobre uma cultura que já não é a nossa, carregando a cruz de uma existência emprestada, que há muito deixou de ser genuína.

 

Nestes contrastes barrosões, apenas resta uma natureza também ela contrastante: de uma terra agreste e dura,

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de penedias

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e invernos prolongados, surge, nos seus curtos vales,

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terras fartas,

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lembrando-nos a fartura que nunca falta

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a gentes habituados ao pouco.

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