Segunda-feira, 27 de Novembro de 2017

Por terras de Portugal - Aldeias de Portugal - Quintandona

 

 

POR TERRAS DE PORTUGAL - ALDEIAS DE PORTUGAL

 

QUINTANDONA – ALDEIA RURAL PRESERVADA

 

 

Quando falamos de aldeias rurais preservadas, o nosso imaginário remete muitas vezes para um Portugal atemporal, em que as formas de viver se repetiam ao longo de gerações, modelo arcádico de harmonia social, felicidade e equilíbrio com a natureza sobre o qual se foi construindo uma certa identidade nacional. Essa ficção pode ser procurada em Quintandona, alimento da nostalgia do visitante urbano ou expatriado, mas não é esse o caminho que seguimos.


O exercício para que o convidamos é o de observar o território e o edificado, de contactar com os residentes e acompanhar a sua memória vivida. Por isso, apesar de nas padieiras da entrada das casas ou no cruzeiro lermos datas que remontam ao século XVIII, ou de vermos em uso tecnologias e práticas que nos parecem distantes, o nosso tempo histórico de referência será sempre o século XX.

 

Teresa Soeiro
«Quintandona – As muitas vidas de uma aldeia»

01.- Penafiel - Quintandona (45)

Ficámos de, no post anterior, da autoria de nona, apresentar a aldeia rural preservada, do concelho de Penafiel – Quintandona.

 

Quando visitámos esta aldeia, no seu Centro Interpretativo,

01a.- Penafiel - Quintandona (21)

(Centro Interpretativo - Perspetiva interior)

 logo à entrada,

01b.- Penafiel - Quintandona (34)

(Centro Interpretativo - Perspetiva I do exterior)

33a.- Penafiel - Quintandona (319)

(Centro Interpretativo - Perspetiva II do exterior)

 

 adquirimos a obra «Quintandona – As muitas vidas de uma aldeia», de Teresa Soeiro.

 

Apesar de nos termos integrado num grupo de franceses, e sendo devidamente informados por dois guias, entre eles, esta simpática menina,

01c.- Penafiel - Quintandona (52)

não vamos nós falar de Quintandona nem, tão pouco, tentar relembrar as palavras dos respetivos guias, enquanto procediam connosco à visita.

 

Vamos tomar e reproduzir alguns parágrafos de Teresa Soeiro na sua obra acima citada, tecendo, depois no final, uma breve reflexão da nossa lavra quanto ao modo como hoje em dia vemos as aldeias rurais, incluindo Quintandona, na sua função e valência turística.

 

 

1.- O sítio

 

O espaço onde se instalou a aldeia de Quintandona pertence à mancha de xistos silúricos, limiar este do complexo xisto-grauváquico das serras de Valongo, aqui representado pela serra de Santo Antonino. Em frente estão os granitos porfiroides que dominam a freguesia de Lagares e o planalto de Mozinho. Todo o edificado da aldeia recorreu à pedra local (xisto), que combinou sabiamente com elementos estruturais em granito.

 

Casas e campos aproveitam as terras baixas (120-150m) do que poderia ter sido um antigo vale fluvial abandonado que daria passagem à ribeira de Lagares na sua aproximação ao rio Sousa, onde desaguava. Esta ribeira há muito tomou novo curso, correndo por aqui apenas uma pequena linha de água no sopé da serra, o ribeiro de Quintandona, para jusante conhecido como ribeiro do Outeiro, aproveitando para tocar alguns moinhos (…).

02.- PTP - Quintandona (3)

 (Fonte:- Teresa Soeiro, op. cit.)

Quintandona é um dos treze lugares da freguesia de Lagares, o mais a noroeste, limite do município de Penafiel na confrontação com o de Paredes, freguesia de Sobreira, em pleno vale do rio Sousa (…).


Por sua vez, a freguesia de Lagares era uma das trinta e oito e formavam o município de Penafiel. Aliás, já integrava a Terra e Julgado de Penafiel na Idade Média (…). Na recente reforma do mapa das freguesias, feita em 2013, Lagares ficou agrupada com Figueira, contígua a sudeste (…).

03.- PTP - Quintandona (2)

(Fonte:- Teresa Soeiro, op. cit.)

 

 


2.- Breve memória histórica

 

(…) a aldeia de Quintandona existe há mais de nove séculos, tendo o seu território uma ocupação continuada e, podemos dizer, intensa, pois são catorze os casais já em meados do século XIII, quando D. Afonso III mandou fazer as inquirições por todo o reino.


Também devemos recordar que a serra de Santo Antonino, por detrás da aldeia, que hoje nos parece algo agreste, foi outrora percorrida por viandantes e utilizada por lavradores e pastores (…).

 

Para quem olhava a paisagem envolvente a partir do centro da freguesia, ou da estrada, a marca distintiva de Quintandona seria estar encostada à serra de Santo Antonino: «Ao pé da mesma serra della está o lugar de Quintandoniga desta freguesia e de Casconha e Santa Comba da freguesia da Sobreira que todas três ficam ao longo della». Esta posição fazia com que partilhassem os recursos que a serra oferecia não só com outros lugares da freguesia ou do concelho, mas antes com as aldeias da vertente oposta, pertencentes a Sobreira, município de Paredes (…).

 

 

3.- Uma aldeia com as de antes

 

(…) Cada casa, na busca da máxima autarcia, procurava dispor de parcelas nos diferentes tipos de terreno [serra, monte, lameiro ou horta] bem como de gado de trabalho para as lavrar e puxar o carro. Este é um padrão de propriedade bem conhecido e dominante no Entre -Douro-e-Minho.

3.1.- O lugar

(…) Saímos da estrada asfaltada e percorremos o velho caminho, agora alargado e pavimentado, em que de ambos os lados vinham entestar os campos. Passamos a portalada das primeiras casas de lavoura, isoladas no Souto, já de construção de xisto e granito, e seguimos até deparar com o entroncamento onde o cruzeiro marca a bifurcação dos acessos ao velho lugar de Quintandona e para Casconha (Sobrteira), pelos campos de Valverde.

04.- Google Earth - Quintandona - A aldeia

Aqui começa o edificado (…).


O cruzeiro foi erguido em 1767. Repousa sobre uma plataforma quadrangular de um degrau simples embebido no terreno, seguido por outros dois com remate boleado saliente, no centro dos quais assenta a base prismática, muito lavrada, que ostenta na face sul, voltada ao caminho geral de acesso, a inscrição esmola e, por baixo desta, um rebaixamento com dois espigões de ferro cravados que parece ter sido o encaixe para fixar uma caixa de esmolas, de que ninguém se lembra (…).

05.- Penafiel - Quintandona (46)

Também para este largo se volta a capela de S. João Batista e Nossa Senhora da Conceição, particular, instituída em 1791 pelo alferes José Rodrigues Barbosa e Cruz, senhor da Casa da Cruz, em cuja padieira das portas fronhas se lê a data de 1759. Trata-se de um pequeno templo de sabor classicizante, inserido no volume de construções hoje adjetivas, mas que já devem ter sido de habitação tendo em vista a qualidade de alguns elementos como a cornija e os cunhais em pilastra, todos de granito e únicos no lugar. É pelo andar de sobrado desta casa que se tem acesso ao coro da capela, enquanto pelo piso térreo se chega à porta lateral, por certo para serviço da família e dos criados, respetivamente (…).

06.- Penafiel - Quintandona (312)

A capela apresenta planta retangular, foi construída integralmente em cantaria de granito, com grandes silhares regulares nas fiadas inferiores, sendo os alçados frontal e posterior destinados a levar reboco. Volta para a via públicas a fachada, onde se pode ver um vão simples de porta com a verga reta, a que se sobrepõe um frontão interrompido de desenho triangular e, no mesmo eixo, um pequeno nicho já no pseudo frontão definido pelo ático, sobre o qual se apoia a cruz que coroa a empena. Pilastras com cornija desenvolvida e ressaltada fazem os quatro cunhais, rematados superiormente por pináculos com finalização piramidal.


Ao interior acede-se a partir da rua, mas também por uma porta lateral ao nível do piso térreo e ao coro pelo andar. Frente à porta está o altar, em nicho de pedra com arco de volta perfeita suportado por pilastras próximas à ordem toscana. A parede rebocada tem lambril pintado com enxaquetado, o teto era forrado a madeira, abobadado e pintado a azul celeste, com pequenas estrelas, representando o firmamento. O coro apoia-se em mísulas de pedra que suportam os fortes barrotes, sendo que o de diante já esteve coberto por pintura marmoreada, onde vem rematar o forro convexo, também ele com abóbada celeste. Tem mesa de altar em madeira, com o frontal estofado. Imagens de madeira, certamente as primitivas, representavam Nossa Senhora da Conceição, S. João Batista e S. José. Uma pequena pia de água benta fica perto da entrada principal, embutida na parede.


Junto da casa e capela encontra-se uma fonte, com epígrafe que a data de 1774, hoje integrada num tanque/lavadouro. Apresenta dois blocos de granito simétricos a formar o espaldar, decorado com aletas a que falta certamente uma outra pedra menor com a terminação espiralada. Ao centro vemos uma carranca, que na reutilização atual deita a água por um olho, quando a bica deveria originalmente corresponder à boca. Estará ainda em falta o remate superior do conjunto e a taça onde cairia a água.

07.- Penafiel - Quintandona (66)

3.2.- A casa de habitação

A partir daqui e ao longo da rua distribuem-se as casas, todas elas unidades complexas, com área de habitação e vários anexos agrícolas, preferencialmente organizados em redor de um pátio que comunica com o exterior através das portas fronhas, suficientemente amplas para deixar passar um carro de bois carregado.


Como é próprio da região, a área de residência não tem acesso direto a partir da rua, mas através deste pátio. Cada unidade – casa pátio – é assim composta por blocos de distinta funcionalidade, articulados pelo pátio. Apreciável é a sua plasticidade, capacidade de se adaptar aos ciclos de vida da família, ora acrescentando áreas de habitação, com ampliações e reafectações, ora convertendo-se em anexos.


Neste modelo de casa-pátio, podemos dizer que as portas fronhas dão passagem para uma primeira área coberta – o beiral – sob os fortes barrotes e soalho do piso superior, onde se guardavam alfaias, apeiros para atrelar o gado e o próprio carro de bois (…).


De seguida passa-se ao quinteiro, pátio aberto que tem em seu redor as lojas de arrumação. Nas quais se destaca a presença das caixas do grão (262X82X83cm para levar 50 alqueires), das salgadeira e respetivo fumeiro, das réstias de cebolas, a loja onde fica o lagar do vinho, a adega, as cortes do gado e a pocilga (…).


Neste mesmo pátio, ao nível térreo e na sequência das demais construções, encontramos a cozinha. É também daqui que arranca a escadaria que leva ao sobrado (…).

08.- PTP - Quintandona (1)

(Fonte:- Teresa Soeiro, op.cit.)

 (…) A cozinha, fundamental no desenrolar da vida quotidiana, inseria-se no pátio, em compartimento independente. Retangular e grande se comparada com outros espaços de habitação, teria como única abertura a porta (…).


Porque a cozinha não possuía chaminé, o fumo permanecia no interior, escapando apenas pela porta e interstícios das paredes e cobertura, [assente sobre armação simples de madeira, sem forro, apenas com telha vã. Em tempos anteriores foi de colmo, palha centeia fácil de incendiar, o que gerou uma medida preventiva característica desta zona, [a péloga], o que deixava o ar pesado e as superfícies e o mobiliário completamente negros, cobertos de fuligem e cinzas. Nesta área onde se fazia o fogo agrupam-se a lareira, o(s) forno(s) e mais raramente a caldeira da água (…).

 

Ladeavam a lareira bancos corridos simples e de espaldar, assentos para as pessoas se acomodarem junto ao fogo. As crianças de as mulheres usavam pequenos bancos baixos, ou mochos, individuais e de madeira e carriças feitas pela sobreposição de placas de cortiça.

09.- Penafiel - Quintandona (255)

Sobre a lareira cozinhava-se sobretudo em potes de ferro de três pés, um produto oitocentista da indústria de fundição que nesta região destronou a olaria. De barro são as chocolateiras ou cafeteiras do café (realmente cevada, chicória e outras misturas) e os alguidares e as assadeiras de forno (…).

10.- Penafiel - Quintandona (246)

A autonomia da casa estava também representada pelo forno onde se cozia o pão, preparado com cereal cultivado e farinado pelos próprios. Podia existir apenas um, de dimensões proporcionais à riqueza, ou serem dois, de diferente tamanho. O maior, com cerca de 1 m de diâmetro interior e capacidade para dez broas, cozia a fornada semanal para a família e os criados; no mais pequeno supriam-se as falhas de pão e preparavam-se os assados de carne, metia-se a pingadeira do arroz e a assadeira da sopa seca. São estruturas assentes em blocos de granito ou embasamento de xisto, com um vão ao centro, por exemplo para arrumar lenha, que suportam a grande pedra circular que faz o lastro (…).

11.- Penafiel - Quintandona (256)

Para o sobrado subia-se por uma escadaria de pedra (…). Neste piso vemos a sala de receber, aposento soalhado e com teto de masseira ou forro. (…) Não se usava no dia-a-dia, abrindo-se em ocasiões especiais, para receber o compasso pascal ou fazer um velório.

 

Para a sala voltam-se as alcovas, pequenos quartos de dormir fechados por porta ou apenas cortina, onde mal cabe o leito, que por isso cede lugar a um enxergão colocado sobre bancos corridos. Neste piso superior ficam outros quartos e salas se os houver, com aquele que se montava o tear, quando não estava num canto da cozinha. Escusado será dizer que a higiene não tinha espaço próprio, na melhor das hipóteses limitava-se a uma latrina de madeira que descarregava para as cortes, com ou sem nitreira.

 

Na construção usou-se alvenaria de xisto, placas tabulares de pedra local colocadas na horizontal, em seco ou ligadas por argamassas pobres. Vãos e cunhais estruturaram-se muitas vezes com blocos de granito amarelo, colocados alternadamente de testa e peito, de que resulta maior segurança e um belo efeito. Mas o granito torna-se sobretudo necessário nas padieiras largas das entradas exteriores e na definição dos vãos de janela, sendo que nas de peitoril se prolonga frequentemente à manira de avental. O contraste com o tom escuro do xisto parece, além do mais, ter sido apreciado como sinal de distinção, elemento decorativo e prestigiante. Foi também a pedra escolhida para ampliações, mesmo que em altura e sobre parede de xisto.

 

Alternativa ao granito, a aplicação de barrotes e tabuões de madeira nas vergas é igualmente funcional e vê-se bastante em vãos mais reduzidos e nas portas voltadas aos quinteiros, em alguns casos com uma laje de xisto saliente do paramento a protege-la, à maneira de beiral. Já ás pequenas janelas bastam lousas ou molduras de madeira.


Os alçados à face da rua são elevados, com orifícios de ventilação e raros postigos e frestas ao nível térreo, correspondente às lojas. A fenestração reserva-se para o andar superior, surgindo a pouca distância do beiral de lousa, saliente, que remata a parede. 

13.- Penafiel - Quintandona (163)

Estas aberturas nem sempre teriam estado protegidas com vidraças como hoje as vemos, mas apenas disporiam de portadas interiores. As mísulas que as ladeiam, umas vezes pedras lavradas para este fim, outras simples lousas salientes do paramento, podiam suportar elementos exteriores de clausura e, também, utilizadas para colocar as luminárias a que cada casa estava obrigada em determinadas ocasiões festivas.

12.- Penafiel - Quintandona (223)

O telhado do corpo principal há muito se apresenta efetivamente coberto de telha, embora haja quem se recorde de, cerca de meio século atrás, em algumas construções secundárias ser ainda aplicado o colmo.

 

Casa das Portas. Em frente a ela, a Casa da Cruz, datada na padieira das portas fronhas de 1759, teria apenas visíveis este elemento em granito e a cruz ressaltada, apresentando-se o paramento igualmente rebocado.

14.- Penafiel - Quintandona (45)

Duas casas fora do núcleo da aldeia: a Casa de Arques e a Casa de Valverde. 

15.- Penafiel - Quintandona (106)

(Perspetiva I)

16.- Penafiel - Quintandona (143)

(Perspetiva II)

17.- Penafiel - Quintandona (107)

(Perspetiva III)

18.- Penafiel - Quintandona (121)

(Perspetiva IV)

19.- Penafiel - Quintandona (135)

(Perspetiva V)

Trata-se de uma casa isolada, na extrema dos campos, mas em sentido oposto, parece obedecer a um planeamento ainda mais cuidado, que começa pela colocação de um portão junto da estrada a identificá-la com quinta e abrange a habitação e os anexos rurais. Estamos novamente perante paramentos regulares de granito, com boas janelas e cozinha térrea provida de grande chaminé. A data inscrita sobre as portas indica 1942. Como a Casa de Arques, pertence a Quintandona, mas não se assemelha às casas do centro antigo do lugar (…).

 

Hoje esta casa, com a designação de «Casa Valxisto» é utilizada para turismo de habitação, com o pomposo nome inglês de «country house».

3.3.- Anexos e equipamentos

(…) Em meados do século XVIII, nas Memórias Paroquiais ficou registado que o milhão ou maís, introduzido nas centúrias anteriores, era já o cereal dominante, embora ainda se produzisse centeio, milho-miúdo, trigo e painço, este relevante para a alimentação animal. Esta tendência irá sempre em crescendo, acabando por quase desaparecer tanto o trigo como o milho-miúdo, de que apesar de tudo resta memória como grão ideal para fazer papas e um pão muito fino que só se comia em dia de festa.


O centeio resistiu, pela sua condição de indispensável ao fabrico da broa, e é o representante desses cereais antigos que se debulhavam logo que colhidos, no pino do verão, sendo o grão imediatamente guardado em caixas de madeira e tulhas. O milho maís, de ciclo tardio, impôs a necessidade da eira de secagem, com a respetiva casa da eira ou palheiro para onde a espiga ou o grão era recolhido todas as noites. Trata-se também do único cereal que pode ser guardado em espiga, em local exposto ao sol, arejado, afastado do solo contra os roedores, o canastro.


Quintadona mostra uma interessante arquitetura adjetiva destinada ao cereal e a outras colheitas. As eiras de secagem ficam ao nível do solo e apresentam um empedrado de lousa delimitado por uma beira saliente, por vezes em granito. Junto delas encontra-se uma pequena casa da eira, térrea ou com dois pisos, arquitetura de xisto e granito, com beiras de lousa e cobertura de telha. A porta não é muito larga, por cima dela pode haver outro vão que facilita a movimentação direta das palhas, e as paredes têm buracos de ventilação.

20.- Penafiel - Quintandona (71)

O milho em espiga seguiria para o canastro, que aqui surge no modelo largo e quadrangular, de paredes aprumadas, peculiar de uma área dos municípios de Penafiel, Paredes e Gondar. A população designa-os por canastros, chamando espigueiro a cada um dos dois compartimentos interiores onde se colocam as espigas, separados pelo corredor central de acesso e ventilação, que apenas se enchia em ano de grande abundância (…). Acede-se ao canastro por escada amovível, sendo a porta central e de ripado (…).

 

Uma das dependências existentes nos quinteiros das casas rurais abriga o lagar, muito frequente, de dimensões ajustadas à exploração (…). A prensa tradicional compõe-se de um braço forte – o feixe – tronco de sobreiro ou outra madeira resistente, colocado por cima da linha média do lagar, com um dos topos embutido na parede, girando sobre um eixo de madeira que passa em duas argolas abertas em pedras, também elas fortemente presas à parede (…).

21a.- Penafiel - Quintandona (259a)

Entre as dependências construídas, apenas o moinho ficava mais afastado, fora da aldeia, a maioria deles implantados junto do ribeiro de Quintandona e nas levadas de rega”.

3.4.- Os campos

Neles se cultivava o milho, o centeio, o linho, a vinha…

22.- Penafiel - Quintandona (324)

3.5.- A gente

(…) O ideal de autarcia fazia convergir toda a família para a lavoura.

 

A escolarização (dos rapazes) foi neste lugar prístina, favorecida pela existência da escola privada da Casa da Lapa (…).

 

A rotina dos trabalhos do campo, diversificados nas tarefas a cumprir por cada um, tinha épocas de maior intensidade, outras de acalmia, mas sempre sem interrupção porque pelo menos os animais não poderiam passar fome. No verão os dias longos davam lugar à sesta, entre a comida e as três da tarde, descanso que desaparecia em setembro, por isso se cantava:


Senhora da Lapa
Nunca te hei-de rezar
Tiraste-me a merenda
E a hora de descansar.

 

Depois dos esforços mais violentos da lavra ou colheita, que eram experienciados com alegria, pois no final havia a perspetiva de música e baile (…).


(…) Por outro lado, também o calendário das festividades marcava o ano com interrupções no contínuo do tempo, para a realização de atos de culto coletivos, seguidos de alimentação melhorada e espaço para o imaginário, como sucedia no Natal e Páscoa, quando a 1 de maio se queimava o carrapato, em dia de Santo Antonino e da Senhora da Lapa (2 e 8 de setembro) ou por ocasião de romaria a ermidas e santuários mais ou menos distantes. O registo deste património imaterial é um dos projetos culturais da CasaXiné.

 

23.- Penafiel - Quintandona (206)

(O edifício)

24.- Penafiel - Quintandona (214)

(A entrada para o edifício)

 

4.- O despertar para o novo milénio

 

(…) A presenças de população, não muito envelhecida, foi condição essencial para justificar a proposta de requalificação gizada em 2003, que viria a dar lugar a um novo fôlego à aldeia, dinâmica em que os habitantes investiram recursos financeiros, uma vez que grande parte da recuperação do edifício privado foi comparticipado apenas a 50% por dinheiros públicos, e muita da força anímica, para se reinventarem como comunidade segundo a imagem que os técnicos e os visitantes mais valorizam, agora assumida como sua própria perceção do lugar.

 

(…) Estas políticas de reversão do tendencial abandono e depressão económica inerentes à desruralização do país parecem já estar a surtir efeito, fazendo-se notar alguma recuperação demográfica e o rejuvenescimento da população residente pela fixação ou retorno de jovens, muitas vezes com qualificação escolar e profissional, e a dinamização da base económica, dos parcos recursos já instalados e de novas atividades com capacidade de gerar rendimento e emprego. Nestes últimos anos também cresceu a procura de casas e terrenos, bem como o interesse pela recuperação de habitações pertencentes ao agregado familiar alargado, mas desabitadas, o que se espera venhas as reforçar a coerência do conjunto.

 

25.- Penafiel - Quintandona (182)

(Exemplar I)

26.- Penafiel - Quintandona (159)

(Exemplar II)

27.- Penafiel - Quintandona (91)

(Exemplar III)

28.- Penafiel - Quintandona (180)

(Exemplar IV)

28a.- Penafiel - Quintandona (176)

 (Exemplar V)

28b.- Penafiel - Quintandona (169)

(Lavadouros públicos)

(…) Outras linhas de diversificação da economia local e investimento inovador, como a agricultura biológica

29.- Penafiel - Quintandona (28)

ou a criação de raças tradicionais e a fileira da sua transformação estão por explorar, ainda que pudessem reforçar a oferta de produtos alimentares regionais já ensaiada, nomeadamente durante a Festa do Caldo [Negrito nosso].

30.- Penafiel - Quintandona (24)

A rotina e o pouco volume levam a que os frutos da lavoura fiquem quase reservados para consumo próprio ou à dádiva entre vizinhos e familiares.

 

A dinamização cultural e procura turística é em Quintandona uma novidade do século XXI, óbvio resultado da recuperação do património vernacular edificado, quando a este ativo se junta a capacidade de inovar e partilhar experiências e saberes, de valorizar o património imaterial, de inventar uma festa (Festa do Caldo e da Música Tradicional de Quintandona) que cruza a tradição com a modernidade, de apoiar a investigação e a criação artística, fazendo de tudo isto um caldo de levanta mortos que o uso das tecnologias de informação e comunicação leva longe, aguçando a curiosidade de potenciais visitantes e interventores.


(…) Quintandonga integra agora as Aldeias de Portugal bem como a Rota do Românico (...), [sendo bem patente a sua divulgação no Centro Interpretativo da aldeia].

31.- Penafiel - Quintandona (19)

O turismo em espaço rural espreita a oportunidade de oferecer mais este produto, que já se conseguiu manter genuíno, sem resvalar para o lugar comum das autenticidades encenadas. A recente decisão autárquica (setembro de 2013) de tornar Quintandona um núcleo do Museu Municipal pode transformar-se no garante do valor patrimonial, servindo de Centro Interpretativo, a fixar na entrada da aldeia, junto do parque de estacionamento, como mediador qualificado”.


O Centro Interpretativo já foi criado, como já demos conta. Veja-se um aspeto parcial exterior do mesmo.

33a.- Penafiel - Quintandona (319)

Finda a visita guiada, fomos ter à «winebar»,

36.- Penafiel - Quintandona (199)

«Casa da Viúva»

35.- Penafiel - Quintandona (200)

onde, face ao calor que fazia e à fome que já levávamos, bebemos e comemos umas tapas (à portuguesa).

 

Trata-se de uma boa casa de lavoura antiga, recuperada, como poderemos ver pelas fotas que, de seguida, mostramos:

37.- Penafiel - Quintandona (226)

(Cenário I)

38.- Penafiel - Quintandona (242)

(Cenário II)

39.- Penafiel - Quintandona (230)

(Cenário III)

40.- Penafiel - Quintandona (288)

(Cenário IV)

41.- Penafiel - Quintandona (251)

(Cenário V)

42.- Penafiel - Quintandona (250)

(Cenário VI)

43.- Penafiel - Quintandona (252)

(Cenário VII)

44.- Penafiel - Quintandona (274)

(Cenário VIII)

 

 

 

5.- Breve reflexão


“[…] não é o turismo que permite o desenvolvimento,
mas o desenvolvimento […] que torna o turismo rentável”.

Ascher


Não é uma simples visita guiada a uma comunidade que se vê a sua dinâmica de desenvolvimento, pese embora a informação obtida através dos respetivos guias locais e do excelente trabalho de Teresa Soeiro sobre esta aldeia, ao qual fomos haurir numerosos parágrafos para apresentar a nossa reportagem fotográfica.

 

Embora Teresa Soeiro na sua obra apele, tal como citávamos no início deste post, a que observássemos o território e o edificado, e contactássemos os residentes para acompanhar a sua memória vivida e as suas referência e desejos quanto ao tempo por que passamos, o certo é que o contacto havido foi apenas, como dissemos, com os respetivos guias. Mesmo a proprietária da capela (privada) limitou-se simplesmente a «abrir as portas»…

 

Os guias, principalmente o seu principal responsável, mostrava-se crente quanto ao futuro de Quintandona, aldeia que ficou às portas de entrada do referido «show» da RTP 1. Embora, como é evidente, no «contar da história», nas entrelinhas, se detetassem algumas dificuldades, naturalmente…

 

Face ao objetivo apostado no livro de Teresa Soeiro, temos alguma dificuldade em entender o querer-se construir uma comunidade viva, para o século XXI - tendo em conta a sua específica identidade e verdadeira autenticidade -, ao mesmo tempo que vemos assistir à implantação de um Centro Interpretativo da aldeia e a sua integração no (Eco?) Museu do Penafiel. Ou seja, para que se pretende a preservação desta aldeia? Querer-se uma comunidade autêntica e viva? A sua integração num (eco?)museu em que termos são compatíveis?

 

Esta interrogação suscitou-nos uma reflexão que, há uns poucos anos atrás, fizemos e que apresentámos num congresso de Animação Sociocultural sob o título «Desenvolvimento Local e Animação Turística».

 

Porque nos pareceu que Quintandona está a assentar fortemente a sua aposta de desenvolvimento na vertente turística, deixamos aqui parte da reflexão feita naquele trabalho:


“Quando falamos em desenvolvimento turístico, devemos entender que esta expressão não é sinónimo de desenvolvimento pois nenhuma atividade económica sectorial pode assegurar um desenvolvimento global que contemple todas as dimensões da vida social.


O fenómeno turístico, aliás como em todos os aspetos da sociedade do século XXI, está em profunda mudança. E as grandes mudanças do turismo de hoje, implicam e reforçam o aparecimento de novos modelo(s) turístico(s) alternativo(s), culminando naquilo que autores classificam de lógica da sustentabilidade.


O turismo sustentável é um instrumento de fixação das populações. Mas pensar em estratégias baseadas na sustentabilidade implica um questionamento que não tenha somente em conta o equilíbrio do crescimento turístico ou a proteção do património e das áreas naturais protegidas. Um turismo sustentado é um modelo que apela a uma lógica de autenticidade, porque integrador de sentidos múltiplos e vários agentes, sendo, para isso, necessário alargar a noção de experiência turística para além do olhar do visitante e da estratégia do vendedor.


A haver uma ética na indústria turística atual, ela deverá passar por uma política que privilegie a relação:


Dos visitantes com as comunidades locais


A indústria turística não pode privilegiar unicamente os turistas, esquecendo que os produtos culturais têm origem em atores sociais, com uma dignidade intrínseca, e uma palavra a dizer do património e dos espaços que partilham com aqueles que os visitam. A qualidade de vida das populações e o enriquecimento mútuo entre população e visitantes deve ser uma preocupação dos modelos turísticos. Nos contactos culturais está sempre presente uma possibilidade de conflito, o qual não pode ser alimentado pela indústria turística.


Dos atores sociais com o meio ecológico e o património histórico e cultural


Não se pode continuar a desenvolver um turismo ecológico meramente com a gestão de visitantes e com a defesa do ambiente. Os atores devem assumir uma experiência de relação com o meio que visitam, em que o próprio processo turístico seja planeado como forma de o preservar e valorizar. A relação com o meio ambiente deverá resultar num sistema sócio natural criativo e em constante renovação.


O património, por outro lado, constrói-se, ‘activa-se’, significando que toda a operação de construção ou de ativação patrimonial comporta em si mesma um propósito ou finalidade, uma idealização construída por uma sociedade sobre quais são os seus próprios valores culturais, revelando, por conseguinte, a sua identidade coletiva, veiculando uma consciência e um sentimento de grupo, para os próprios e para os demais, erigindo, nesse processo, fronteiras diferenciadoras que permitem manter e preservar a identidade coletiva.


O património, como interpretação do passado, é uma recriação da história, que emana visões essencialistas do passado e neutraliza as contingências históricas.


O legado patrimonial é, assim, ‘um legado falsificado para fins de identificação coletiva, apesar de beber nos factos históricos e na diversidade cultural os motivos para a sua formulação’. Tem, assim, um uso de identificação simbólica.


Para além dos fins de identificação simbólica, o património serve também, intrinsecamente, os propósitos de quem ativa esses repertórios patrimoniais, ou seja, serve fins políticos, quando fornece os símbolos que ‘favorecem a coesão social ao mesmo tempo que legitima as instituições sociais que emanam estes mitos ma medida em que suprimem a contradição e a tensão dialécticas desfragmentadoras da realidade e a contestação’.


Por outro lado, o património tem ainda um outro uso. Por via do seu aproveitamento turístico, ou uso económico, ‘no contexto de uma sociedade 'pós-tradicional’, nostálgica e carente de elementos de identificação coletiva, confere ao património uma nova vitalidade.


A dimensão mais explicitamente utilitária do património, como é a turística, convive com as duas anteriores numa relação de complementaridade e de retro alimentação, pois os referentes simbólicos fornecem os motivos que alimentam a indústria turística e a indústria turística recria os elementos culturais e a própria história, emanando novos referentes simbólicos que dão substância à imaginação coletiva, integrando-se naquilo a que Hobsbawm designa na nova ‘mitologia retrospectiva’ que sobre o património é erigida e acrescentando-lhes novos elementos.


Sendo a autenticidade um constructo, o património que é inventado para satisfazer a procura turística não é menos autêntico do que aquele que é resgatado de um ‘corpus’ cultural, nem a cultura que resulta desse processo de recriação será, como refere Santana Talavera, uma cultura ‘bastarda’.
Contextualizar o turismo não significa unicamente salientar a dimensão local e estabelecer as relações com os espaços envolventes, no sentido de turismo aberto. Contextualizar significa, aqui, partilhar os «textos» (estratégias e discursos) de realidades diferentes num espaço comum, de modo a que os agentes desta relação de partilha possam entender os vários sentidos presentes. Só dentro desta lógica da relação de partilha se pode compreender hoje o turismo, nas variadas dimensões de que ele se reveste.


E, assim, evitar-se, como aconteceu na última década, ‘ao florescimento de aldeias cenário, fantasmas, propriedade de citadinos, que nos poucos fins de semana que passam na aldeia alentejana, carregados de compras dos hipermercados da capital, se arriscam a ir aliviar o stress, para um Alentejo sem alentejanos’.


Como diz Giddens: ‘Uma tradição que é esvaziada de conteúdo, comercializada, torna-se uma herança ou um kitsch, um berloque sem valor que se compra na loja do aeroporto. Quando tratada pela indústria da herança, a herança é a tradição refeita em termos de espetáculo. Os edifícios reconstruídos em locais de interesse turístico podem parecer esplêndidos, e a reconstrução pode ter sido autêntica até ao mais ínfimo pormenor. Mas a herança assim protegida deixa de ser alimentada pelo sangue vital da tradição, a qual está em conexão com a experiência da vida corrente’.


Mas aqui devemos também ter em devida conta Augusto Santos Silva quando nos alerta para o carácter dinâmico do património ao nos alertar que ‘o que definimos hoje como valor patrimonial não é o mesmo que definíamos noutras épocas. E o que valorizamos hoje como referência patrimonial – por exemplo um sítio monumental – é o resultado de múltiplas e, muitas vezes, contrárias intervenções humanas. Não vejo, pois, como haveremos de pensar produtivamente, em matéria de conservação e salvaguarda, se teimarmos em procurar autenticidades e primordialidades imaginárias’.


Conceitos como inovação e tradição, num contexto de sustentabilidade, pressupõem em primeiro lugar, espaços vividos, habitados, com estratégias realistas de desenvolvimento socioeconómico, onde a fixação de populações é o fator determinante.


Entre o liberalismo selvagem, que não reconhece valores ecológicos e culturais, e o ambientalismo radical que só reconhece florzinhas e passarinhos, o desafio para as comunidades locais que queiram apostar no turismo como uma das estratégias para o seu desenvolvimento é o de abrirem-se ao exterior, modernizando-se pela função turística e, ao mesmo tempo, implicarem-se num reinvestimento do seu passado, reestruturação do seu património, na manutenção e revitalização das suas tradições, realçando a topofilia, o elo emocional entre uma pessoa e um lugar ou envolvente física, o mesmo que dizer, o sentimento de pertença a um lugar ou região de origem, de residência, de trabalho ou de lazer.


Como alguém afirmou, ‘temos todas as razões para acreditar que para além dos efeitos benéficos derivados da coesão entre as «forças» locais e regionais, um forte sentido de topofilia entre os atores e agentes de desenvolvimento individuais e institucionais poderão favorecer a compatibilização com as «forças» globalizadas no processo de (re)valorização das identidades territoriais. Dado que a topofilia reflete bem o nível de satisfação das pessoas com os vários parâmetros da qualidade de vida sobre um dado território (de carácter ambiental, económico, cultural e político, entre outros), então será de esperar que um mais forte sentido de pertença territorial poderá ser complementar ao fortalecimento do poder de atração dos lugares e das regiões’, ou, como outros dizem, ‘importa vitalizar construções culturais dos espaços, associadas à capacidade de afirmação das singularidades locais adequadas a um nível global’.


A sustentabilidade, que alguns autores já designaram de a quadratura do círculo, ao postular a simultaneidade da rentabilidade económica, equidade social e preservação dos ecossistemas, é um desafio que as populações locais enfrentam, dispondo atualmente de um conjunto de instrumentos onde a tradição materializada pelas especificidades locais e a inovação, produto do partenariado local com os poderes públicos e a comunidade científica, se torna hoje possível, pela profunda alteração do perfil dos visitantes em curso”.


Por fim, queríamos deixar aqui o nosso modo de ver quanto ao que entendemos por animação turística em termos de desenvolvimento local. Que deve ter sempre como filosofia, fundamento da ação, a comunidade residente recetora que, no ato da relação e da partilha, se apresenta em toda a plenitude do seu ser, evidenciando e partilhando com o outro (o turista) o seu saber e saber fazer, sabendo estar e aprendendo juntos.


Assim, todo e qualquer produto turístico, simples ou compósito, como seja o território como destino, que não se impregne e comprometa com a construção de uma «identidade» e «autenticidade», própria e específica, de cada sítio, local ou região, sujeita-se a não passar de uma simples e fugaz mercadoria, num mercado turístico global, prenhe de agressividade e cada vez mais exig


publicado por andanhos às 21:23
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