Quinta-feira, 14 de Junho de 2018

Palavras soltas - Peña Trevinca - Desafios e Divagações (Dar voz aos territórios)

 

PALAVRAS SOLTAS

 

PEÑA TREVINA – DESAFIOS E DIVAGAÇÕES

- DAR VOZ AOS TERRITÓRIOS -

 

02.junho.2018

00.- 2018.- VI TransTrevinca (377)

 

(…) partilhamos (…) uma profunda empatia com a natureza,

 dela obtendo alimento emocional e psicológico”.

 

(…) ‘paisagem’ é um espaço misto de natureza e cultura,

onde o homem projeta ideais,

 necessidades e valores, numa relação de influência mútua”.

 

(…) certas experiencias e (…) certos caminhos nos apontam

 um melhor conhecimento dos outros e sobretudo de nós mesmos”.

 

(…) paisagens (…) nunca surgem apenas como ornamento,

antes como uma força poderosa tão marcante quanto uma personagem (…).

 

Isabel Alves,

«Fragmentos de Memória e Arte

- Os Jardins na ficção de Willa Cather»

 

 

Ao cume de Peña Trevinca já o ano passado, em agosto, tínhamos lá chegado, vindos de Porto de Sanábria. Quanto a esta caminhada os leitores(as) podem, querendo, consultar os seguintes sítios em que vem a reportagem que, na altura, fizemos:

 

  • Por terras da Ibéria – Caminhada do Porto de Sanábria a Peña Trevinca (Ida e Volta)

         I Parte – Ao longo do vale do rio Bibei;

  • Por terras da Ibéria – Caminhada do Porto de Sanábria a Peña Trvinca (Ida e Volta)

          II Parte – Ao encontro do rio Xares, por entre os «Montes mel»

  • Por terras da Ibéria – Caminhada do Porto de Sanábria a Peña Trevinca (Ida e Volta)

          III Parte – Epílogo

 

Naquele agosto de 2017, daquele que os nossos vizinhos galegos (partilhando com os zamoranos e leoneses) chamam o teto da Galiza, podemos observar, deslumbrados, o vale glaciar do rio Tera. Na altura, ficámos com «ganas» de o percorrer, de lés a lés.

01.- 993.- Peña Trevinca

A oportunidade propiciou-nos a VI TransTrevinca, no passado dia 2 de junho – uma caminhada ou percurso de grande curso, que começou à meia-noite em Bragança e, percorrendo-se mais de 90 Km, foi até ao cume de Peña Trevinca, com regresso a Laguna de los Peces, cerca das 20 horas.

02.- 2018.- VI TransTrevinca (47)

Um percurso, na verdade, para jovens, «pesos leves», verdadeiros montanhistas. Nós, os mais velhos, «pesos pesados», ficámos pela etapa que liga a Laguna de los Peces até Peña Trevinca, cerca de 22 Km.

 

Se bem que também o nosso objetivo passasse , uma vez mais, por atingir a «cumbre» de Peña Trevinca, todavia, nosso desiderato maior, como acima referimos, era mais ir até ao encontro do circo glaciar do rio Tera e percorrê-lo, pelo menos, até às faldas de Peña Trevinca.

03.- 2018.- VI TransTrevinca (364)

Ao encetarmos esta caminhada, retinia na nossa memória o eco da leitura, feita na véspera, da obra de Isabel Alves, «Fragmentos de Memória e Arte – os Jardins na ficção de Willa Carther», quando, a dado passo, a autora diz que “partilhamos (…) uma profunda empatia com a natureza, dela obtendo alimento emocional e psicológico”.

 

Para nós, nada mais verdadeiro!

 

Por nós, andaríamos a maior parte do tempo de mochila às costas, embrenhando-nos pelos diferentes trilhos e veredas da Natureza, em especial da nossa Ibéria, indo ao encontro da matriz, das nossas raízes, da nossa história primeva – do território e das suas gentes - por entre o silêncio, a paz e a tranquilidade de espírito que ela nos proporciona. Sempre que trilhamos qualquer caminho da Ibéria, ele representa, a nossos olhos, ao nosso pulsar mais fundo, como um grande lenitivo, que nos faz sentir não só verdadeiramente vivos, como, dentro da pobreza do território que partilhamos, verdadeiramente grandes.

 

Sabemos que, em pleno século XXI, o Homem, na sua fulgurante arrogância de conquista incessante, quase sempre a qualquer custo ou preço, do nosso planeta Terra, poucos lugares deixou incólumes, verdadeiramente selvagens (wilderness, no sentido norte-americano do termo). As paisagens que vemos e os recantos que percorremos, em bom rigor, não é a verdadeira natureza que os nossos antepassados mais remotos conheceram. A natureza que hoje temos é já um «construto» humano. E não só:  um produto dos mais diversos fenómenos naturais que sobre ela, ao longo de milhões de anos, sobre ela atuaram. Mas é, precisamente, nesses pedaços de natureza ainda quase virgens que, percorrendo-os, meditamos, e neles projetando ideias, necessidades e valores, vamos não só informando-nos e conhecendo-os melhor como, consciencializando-nos, criamos e pugnamos por uma verdadeira postura ecológica.

04.- 2018.- VI TransTrevinca (270)

Parafraseando Isabel Alves, uma ética ambiental que apela “sobretudo no que respeita à espoliação dos recursos naturais do planeta e à fragilidade dos ecossistemas, demonstrando a necessidade de preservar a diversidade ecológica e incrementar a coexistência harmoniosa entre as formas naturais e as que são criadas pelo homem”.

 

E quão verdadeira é aquela asserção de Isabel Alves quando olhávamos extasiados o circo glaciar do Tera e o seu entorno, ao afirmar que as paisagens nunca surgem apenas como ornamento mas antes como uma força poderosa tão marcante quanto uma personagem…

05.- 2018.- VI TransTrevinca (164)

Conhecendo, ao longo dos milhões de anos, como se formou este território que pisámos, na verdade, ele, a nossos olhos, impõe-se com uma identidade forte, bem vincada, não deixando nenhum ser humano, que o percorre, indiferente.

 

É, manifestamente, face à nossa pequenez humana, uma poderosa personagem!

06.- 2018.- VI TransTrevinca (183)

E nós tivemos o feliz privilégio de estar com ela. De, com ela, e com quem nos acompanhava, de partilharmos um melhor conhecimento, não só do mundo, como de cada um de nós mesmos. Numa simbiose total entre o Homem e a Natureza. Ambos se influenciando.

07.- 2018.- VI TransTrevinca (116)

Nada melhor como nos encontrarmos connosco próprios. De embrenharmo-nos, profundamente, nos mais escaninhos lugares da mãe-natureza!

 

Lugares como este, da Sanábria, da nossa Ibéria, são, com efeito, lugares privilegiados.

08.- 2018.- VI TransTrevinca (243)

Não vai daí que sejamos um acérrimo iberista, tal como Oliveira Martins, no século XIX.

 

Não vamos falar do iberismo como teoria política, que apela ao unitarismo peninsular.

 

Mas também não estamos com a teoria de António Sardinha, embora concordemos quando ele afirma que nós vemos, a todo o instante, os nossos dois países – Portugal e Espanha - por mais desavindos que andem, regressarem, pela força das circunstâncias e dos acontecimentos, a um princípio de colaboração e entendimento, que antigos fatores de divisão não deixam depois consumar-se em consequências duradouras ou fecundas.

 

Estamos com António Sérgio, Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Fidelino de Figueiredo - entre outros intelectuais - marcados pela perspetiva peninsular de Oliveira Martins. Todos eles estavam bem conscientes da necessidade de situar a história e a cultura portuguesas num contexto peninsular. Todos (exceto Almada) consideraram a diversidade de culturas ibéricas nacionais – a unidade alimenta-se da diversidade -, embora as suas posições fossem bem diversas.

 

Ou seja, estamos, como afirma Sérgio Campos Matos, no seu artigo «Conceitos de Iberismo em Portugal» com aqueles que procuram “valorizar os nexos entre as ibéricas para a afirmação de um ‘nó cultural’ entre autores de Portugal, Brasil, ex-colónias portuguesas, Espanha e América Hispânica; das expressões espirituais e afetivas de Miguel Torga, em diversos passos da sua obra de poeta e prosador, com destaque para o seu Diário (…)”.

 

E, particularmente concordamos com António Sérgio quando afirma que a península Ibérica constitui um todo, dos mais diferenciados e caracterizados; um mundo por si, de diversidades e contrastes.

 

Em suma, no nosso entendimento, o que, positivamente, nos une – pese embora as diversas culturas e línguas que praticamos - é o mesmo território (comum) e as diferentes sagas que, entre nós, e contra terceiros, ao longo da História, tivemos.

 

E temos pena que alguns dos poucos amigos flavienses que temos, acérrimos defensores da sua identidade transmontana – e particularmente barrosã – quando os acompanhamos à descoberta das gentes – pouca, que resta – e do património – pouco, que sobra e do muito em ruína -, nos apelide «depreciativamente» de duriense.

 

Com muito orgulho afirmamos sermos nato nas terras berço da nossa nacionalidade, do Reino Maravilhoso que Torga fala, que é o nosso Trás-os-Montes. Do Portugal que somos, vindo de uma luta contra um inimigo comum - o islão -  e criado na luta principalmente contra os nossos irmãos da Ibéria, mais propriamente na peleja com os donos, senhores das terras e de reinos, da antiga Gallaecia romana.

 

Regressemos, para finalizar, ao nosso circo glaciar do rio Tera, na Sanábria para, em jeito de despedida, deixarmos aqui um pensamento final.

 

Segundo Winters, citado por Isabel Alves, referindo-se à autora sobre a qual analisa a sua obra – Willa Cather – “descriptions of landscape help us to understand freedom, imprisonment, immanence, community, connection, isolation, integrity, authenticity, and incommensurability (…) She truly gives the land a voice”.

 

Magistral!

 

995.- Peña Trevinca

 

 

nona


publicado por andanhos às 20:23
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