Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017

Palavras soltas... Entre as 7 Maravilhas de Portugal - Aldeia e a realidade

 

 

PALAVRAS SOLTAS

 

ENTRE AS 7 MARAVILHAS DE PORTUGAL© /ALDEIAS - E A RELAIDADE

Penafiel - Quintandona (205)

Este post deveria ser subordinado ao tema «Por terras de Portugal», a propósito de uma visita que fizemos recentemente a uma aldeia rural, dita preservada, no concelho de PenafielQuintandona.

 

Mas as palavras são como as cerejas. Quando começamos a rabiscar o texto, a pena fugiu-nos para uma série de considerações, soltas.

 

Considerações essas suscitadas a propósito da realidade do Portugal que somos e que a tragédia dos incêndios deste ano pôs a nu. Para uma aprofundada análise e reflexão da forma como o nosso território está ordenado e desenvolvido.

 

Mas também suscitadas pelo Programa que passou este ano na RTP 1 sobre as 7 Maravilhas de Portugal© - Aldeias.

 

E, naturalmente, por Quintandona, a tal aldeia que visitámos, que ficou à porta de entrada deste Programa/Concurso promovido pela RTP 1.

 

Funciona, assim, este post, «Palavras Soltas», da autoria de nona, como a Introdução ao próximo post «Por terras de Portugal – A aldeia de Quintandona».

 

Nos termos da legislação portuguesa (Lei nº 11/82, de 2 de junho), uma aldeia é uma localidade que tem um número de eleitores inferior a 3 000.

 

Para a Professora Helena Freitas, da Universidade de Coimbra e Coordenadora da Unidade de Missão para a Valorização do Interior (nome tão pomposo para tão pouca obra!), “aldeia é também um lugar vivo, um espaço de comunidade, com uma vivência quotidiana de trabalho, de partilha, de identidade territorial e de memória coletiva”.

 

Na Nota Explicativa do Regulamento do Concurso «7 Maravilhas de Portugal© - Aldeias», a Rádio Televisão Portuguesa, Canal 1, justificava este seu Concurso/Programa, que foi para o ar este ano, dizendo que “Na diversidade dos contextos geográficos e biofísicos de Portugal nasceram distintas aldeias, em estreita sintonia com a vocação e natureza dos territórios, cada uma expressando à sua maneira a dinâmica das suas comunidades, e respondendo com resiliência aos desafios dos tempos”.

 

Palavras bonitas para uma realidade tão dura por que passa o nosso Interior português!

 

A tragédia dos fogos, a que assistimos este verão e outono, é o lado epifenomenal de uma realidade mais dura e dramática de cerca de 2/3 de Portugal, como território que somos.

 

Que assenta num modelo de desenvolvimento que se esqueceu positivamente da íntima realidade que somos e em que assenta a nossa identidade mais profunda – a província, tal como a capital do império nos apodou. Que traz à colação a raiz primeva da nossa ruralidade.

 

O urbano lisboeta, ou alfacinha, que já se esqueceu da nossa origem, fala da província como se de um corpo estranho se tratasse a realidade que sempre fomos…

 

E os que do Interior partem para a capital do “reino” e para o Litoral depressa se esquecem do berço onde nasceram. E são facilmente tentados com as “delícias” custeadas, por igual, e sem qualquer discriminação positiva, por todos nós.

 

Há dois escritores portugueses que, de uma forma clara e lapidar, nos mostram bem esta dupla realidade em que o Portugal de hoje assenta e se debate.

 

Falamos de duas obras - «Poemas Ibéricos», de Miguel Torga e a «Mensagem», de Fernando Pessoa.

 

Já em fevereiro de 2013, António Zassu, no seu blogue «Voilá é Zassu», num post sob o título «Entre os “Poemas Ibéricos” (de Torga) e a “Mensagem” (de Pessoa) – Ao encontro de um Portugal com os pés bem assentes na terra», abordava esta problemática. Perspetiva com a qual estamos totalmente de acordo.

 

Torga acaba o último poema de «Poemas Ibéricos» com estes versos:
Venha o Sancho da lança e do arado,
E a Dulcineia terá, vivo a seu lado,
O senhor D. Quixote verdadeiro!”.

 

Para Pessoa, nesse áureo período em que nos revelámos aos nossos próprios olhos, fomos «navegadores e criadores de impérios». A mensagem da «Mensagem» é o contrário da dos «Poemas Ibéricos».

 

Para Torga, somos humildes filhos de uma mãe rude e pobre, a Ibéria, mas dotada de uma grandeza de que nos devemos de orgulhar. É ao seu apelo que devemos acudir, não ao do mar, a tal sereia traiçoeira. Por isso é que ele exorta Sancho a que regresse ao seu arado.

 

Será que o ser português é eternamente estar se confrontando ou ao apelo da estreita faixa marítima ou do amanhar da terra?

 

Fernando Pessoa, em prosa, explica melhor a sua «Mensagem», dizendo que pretendia que os portugueses se afirmassem no presente de uma forma que fosse equivalente à das Descobertas do passado, mas apenas no domínio do ser, não do ter, como então. Por isso incita os seus concidadãos a reencontrarem-se «Nós, Portugal, o poder ser».

 

Por isso, estamos aqui com Torga quando insiste: «Olha esta Ibéria que te foi roubada e que só terá paz quando for tua». Porque é preciso que Sancho a recupere, de arado em punho, rejeitando traiçoeiros sonhos de grandeza e volte a cultivar os seus campos e a travar a tal quotidiana «batalha de ser fiel à vida». Para Torga Terra e Vida se equivalem.

 

Na miragem dos euros que a Europa nos «cedia» (e vai cedendo), e que, para nós representa(va)m o cravo e a canela de outras índias e o oiro dos brasis, fomo-nos esquecendo da lição dos dois grandes mestres da nossa portugalidade, - o de ser português: sonhar com os pés bem assentes na terra, no nosso terrunho, recuperando, «com o arado em punho» a terra que, pelo nosso descuido, incúria e negligência, «nos está sendo roubada» e desenvolvendo, todos, toda – do mar à planície, da planície ao planalto, do planalto à montanha, do norte a sul, do litoral para o interior – numa nova gesta que nos faça, de novo, dignos do nobre nome que, ao longo dos tempos, nossos antepassados tão bem souberem erguer e preservar – PORTUGAL.

 

Mas, tal postura, exige uma mentalidade outra do querer desenvolver o Portugal que hoje somos. Porque nos esquecemos também do «interior» que fomos e somos. Deixámo-lo ao abandono. Entregue à sua sorte, na avalanche do dito Progresso. E, de vez em quando, para apaziguar a nossa consciência pesada, lembramo-nos ir beber à fonte da nossa própria identidade profunda – a nossa essência. E os media, mais que ninguém, sabem como fazê-lo nos tempos de correm – o das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC).

 

Por isso, quando olhamos para programas como aquele que a RTP 1 apresentou durante o corrente ano sobre as nossas «maravilhas» (as nossas aldeias), ficamos um pouco perplexo. Percebemos a filosofia dos media e, os de grande divulgação, o que pretendem.

 

Mas não podemos estar totalmente de acordo com a sua filosofia, apesar de iniciativas com esta terem aspetos bem positivos – o do apelar ao nosso amor próprio e auto estima, suscitando profunda reflexão sobre o Portugal que fomos, o que somos e o que temos e o que deveriamos quer.

 

Não vemos, por isso, as nossas aldeias a entrarem numa competição, andarem numa «passerelle», onde apenas se exibem as «top models».

 

Não temos apenas 322 selecionadas, com apenas 49 a terem direito à «desfilarem»!

 

Temos todo um país «interior», rural, a necessitar de um outro «olhar», de uma outra forma de ser tratado.

 

Onde, no «interior», temos as ditas comunidades, vivas?

 

E quantas delas – as sobreviventes – são resilientes?

 

Os «rostos» do nosso mundo interior e rural estão em despedida

 

Muitos já se foram e não poderão jamais ser recuperados. Porque não têm gente. Partiram para “outros mundos”. Estão ao abandono!...

 

Mas muitas outras ainda podem ser recuperadas.

 

Desde que as autoestradas do nosso desenvolvimento, que tão aleatoriamente construímos e tão caras, todos, estamos pagando, não circulem só num único sentido – o da saída.

 

Exige-se nova(s) mentalidade(s).


Urje uma verdadeira mudança.

 

Será que a tragédia dos incêndios nos despertou, desafortunadamente, para esta mudança?

 

Duvidamos.

 

Mas não devemos desistir. E termos esperança.

 

E todo este arrazoado vem a propósito de Quintandona, uma aldeia que também se posicionou para desfilar na «passerelle» da RTP 1, mas que ficou à sua porta de entrada.

 

Em que termos foi feita a sua preservação? Que novidade nos traz ao desenvolvimento (sustentado) das nossas aldeias e do nosso mundo rural. Que lição podemos dela extrair?

 

Estas questões serão, genericamente, objeto de tratamento, no próximo post, do autor deste blogue.

Penafiel - Quintandona (96)

 

 

nona

 


publicado por andanhos às 15:55
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