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Palavras soltas... A Ponte do Granjão

 

 

PALAVRAS SOLTAS...

 

A PONTE DO GRANJÃO

ABC_9813.jpg 

Quando em 2014, numa publicação da Associação Lumbudus, com o título Memórias de uma Linha - Linha do Corgo, 28 de agosto a 1 de janeiro de 1990, da autoria do nosso amigo Humberto Ferreira, António de Souza e Silva amavelmente contribuía com um texto àquela edição, sob o título Nostalgia.

 

Não resistimos de, aqui, reproduzir o vertido daquela altura:


Já lá vão mais de sessenta anos. Mas a cena está-nos presente como se fora hoje. Vemos o buliçoso e traquina Nona, sentado no banco de pedra da janela de casa, com os braços apoiados no parapeito, olhando com aqueles olhos ávidos, cor de azeitona preta, para um ponto fixo do vasto horizonte de vinhedos à sua frente.

 

Não era o mítico Marão, tão bem cantado por Teixeira de Pasacoaes, e a sua Fraga protetora da Ermida, mesmo ali ao lado, que o fascinava. Nem tão pouco a beleza dos vinhedos, vestidos de mil cores, descendo em forma de barco até ao Douro.

 

Seus olhos, penetrantes e insaciáveis, apenas se fixavam num único e só ponto longínquo do horizonte, onde os vinhedos acabam e o rio Douro passa, espraiando-se, apressado, em direção à foz.

 

Era a Ponte do Granjão.

 

Não que fosse uma bela obra de arte. Ou sequer uma obra imponente, que mal a via. A sua importância advinha simplesmente porque, sobre ela, passava algo que o fascinava. Que o fazia sonhar noutros mundos e lhe apelava a outras paragens.

 

Nela passava o comboio.

 

E como ele gostava de sentir, ao longe, o barulho que as rodas de ferro faziam sobre os carris; os apitos estridentes que dava quando por ela passava e o fumo que a chaminé da sua locomotiva expelia!

 

Estava-se mesmo a ver que o pequenote, quando crescesse mais, não ficaria muito tempo por ali.

 

Não que ele não gostasse da terra que o viu nascer. Muito pelo contrário, adorava-a. Era mesmo o seu paraíso do qual guarda as melhores recordações de uma infância feliz, embora muito curta.

 

Era, contudo, terra pequena de mais para o tamanho do seu sonho.

 

Aquele comboio, passando ali todos os dias e a diferentes horas, tornou-se-lhe um amigo - o seu amigo. Mas também uma obsessão. E o seu estridente apitar, quando passava sobre a Ponte, entendia-o como a mágica de um chamamento - um «vem comigo conhecer o mundo».

 

E um dia partiu.

 

Com ele, e nele, deu os primeiros passos da descoberta. Do contacto com o outro. Do partilhar de vidas. Do conhecer as diferenças.

 

Foi, assim, a partir da luz que aquele ponto no horizonte lhe inculcou na mente que Nona se transformou no homem que é hoje: homem do mundo, mas com um enorme apego ao rincão donde partiu.

 

É por isso que, quando em presença de uma máquina a vapor, idêntica aquelas que passavam na Ponte da sua infância, em Nona se lhe despertam todas as memórias, das diversas e diferentes partidas e chegadas. De todos os momentos da sua vida.

 

Por elas evoca, principalmente, um Portugal que já não somos - comunitário e rural; interior e lutador; castiçamente ibérico e sonhador.

 

As últimas travessas arrancadas das linhas que o cerziam, fizeram-no infinitamente mais pequeno. Hoje somos, simplesmente, e apenas, uma pequeníssima e estreita faixa debruada sobre o oceano. E temos medo de nele entrar e encetar nova empresa de um novo navegar.

 

Tiraram-nos a alma. A nossa verdadeira alma - a do cavador que sempre fomos.

 

Sem terra e sem mar, ficámos mais pobres. Estamos pobres. Uma pobreza que está não apenas naquilo que não temos. Essencialmente naquilo que já não somos. E deveríamos ser!

 

Urje, pois, que nos encontremos. Talvez em qualquer travessa perdida da linha que já não temos - a do Corgo. E que nos indique um rumo. Um novo caminho”.

 

Este nosso sobrinho predileto traçava o perfil de um Nona criança, profundamente amante do seu terrunho duriense, e que jamais se esqueceu (ou sequer se esquece) da terra que o viu nascer.

 

Recorrentemente descemos das terras do Norte até ao nosso querido Douro para «matar saudades».

 

À falta de gente da sua meninice para conversar, entretemo-nos a fotografar as suas paisagens, como uma forma inconsciente, quiçá pobre, de irmos ao encontro da vida e do espírito daquele tempo, a modos de o querer fazer parar, indo à procura das memórias, já infelizmente poucas, que ainda nos restam daquele tempo.

 

Determinados que estamos a captar o Alto Douro Vinhateiro, nestes dias de outono, começámos por onde começa a sua delimitação, que vem já desde os tempos do Pombal, ou seja, a partir do Baixo Corgo, na freguesia de Barqueiros, concelho de Mesão-Frio, nosso concelho natal.

 

Acompanhava-nos nesta «aventura» nosso cunhado, Augusto, e seu neto, Eduardo.

 

Conduzindo a viatura, a certa altura do percurso, nosso cunhado faz um desvio para um atalho da estrada que vai da Régua a Mesão-Frio.

 

Pela nossa frente tínhamos a Linha de Caminho-de-ferro do Douro.

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Lentamente fomo-nos apercebendo que estávamos pisando o troço da Ponte do Granjão, com o Marão à nossa frente.

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Avançámos nela e parámos, sensivelmente, a meio.

 

Foi uma sensação verdadeiramente estranha. Estávamos em cima do ponto de luz que vislumbrávamos - e nos fascinava, convidando-nos à descoberta - quando sentados no banco de pedra rente à janela da casa da nossa infância!

 

Pela primeira vez, em mais de 60 anos, víamos o quadro em sentido contrário!

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Já não passa por esta linha o velho comboio a vapor. Outras máquinas o substituíram.

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Saímos do local com uma sensação estranha. Nem a Casa do Granjão, ao lado da Ponte,

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nem tão pouco este bonito portão de entrada,

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denunciando uma certa ruína, e lembrando tempos passados de riqueza e fausto, interrompeu nossas cogitações sobre os tempos da nossa meninice, vivida naquela linda terra duriense.

 

E, inopinadamente, veio-nos à memória o filme Citizen Kane (Cidadão Kane) e daquela cena no leito da morte, com o protagonista do filme (Kane) a pronunciar a palavra «rosebud», que ninguém sabia o que era.

 

De imediato nos lembrámos dos ganapos da nossa idade, nossos companheiros de brincadeiras, todos, rua acima e rua abaixo, chiando o arco, azucrinando a paciência dos transeuntes que se interpunham à nossa frente.

 

Para o esquerdino Nona, da sua infância, pouco mais que esta sua «rosebud» sobrou...

 


nona

 

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