Memórias de um andarilho - PR9 CHV Trilho de Castelo de Monforte
MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO
PR9 CHV – TRILHO DE CASTELO DE MONFORTE
(29.junho.2020)

Do lado do Levante, além defronte,
Um castelo fiel, medieval,
Espreita atentamente para o vale
Do cocuruto sáfaro do Monte.
Já não existe agora quem nos conte
Façanhas do seu tempo marcial,
Em que mão de guerreiro mais brutal
Lhe punha cicatrizes pela fronte!
Mas creio que tivesse glória e fama,
Abatendo os rebeldes da Mourama,
E as hordas que vinham lá do norte!
Hoje não tem ocupação alguma.
As pedras vão caindo uma a uma…
Vai morrendo o Castelo de Monforte!
Artur Maria Afonso
Chaves, 17-10-40
In «Auras perfumadas»
Diz-se nos órgãos de comunicação local que, no passado dia 9 do corrente, teve lugar na Biblioteca Municipal de Chaves a apresentação do resultado da investigação cultural realizada no âmbito do projeto AVIVAR, com a apresentação do Livro «AVIVAR - Nos trilhos das memórias de Chaves» e uma Exposição Fotográfica temática, produto da recolha foto etnográfica da cultura popular flaviense, que estará patente ao público até ao próximo dia 31 de agosto.
Este projeto foi o resultado da candidatura apresentada por António Manuel Martins no Orçamento Participativo (OP) de Chaves 2017, sendo a proposta vencedora da Componente 2 – Promoção e Dinamização – Projetos de âmbito Cultural e Desportivo, informam-nos a respetiva nota de imprensa.
Na mesma «nota de imprensa» diz-se que, com este trabalho, pretende-se “divulgar e registar o património material e imaterial existente no meio rural do concelho”, procedendo-se “à recolha dos aspetos mais marcantes da cultura popular, através de entrevistas realizadas nas localidades de Águas Frias, Calvão e Soutelinho da Raia, Eiras, S. Julião e Cela, São Pedro de Agostém, Soutelo e Seara Velha, Vidago, Arcossó, Selhariz, Vilarinho das Paranheiras e Vilarelho da Raia”.
Tivemos previamente acesso a este trabalho, o qual apresenta “seis roteiros pedestres turísticos culturais do concelho que perpetuam a memória ancestral da cultura flaviense, através da divulgação de caraterísticas peculiares que podem também ser conhecidas através do site criado para o efeito, em www.avivar.pt”.
Ficámos, assim, a saber que os seis percursos pedestres que se projetaram e executaram no âmbito do concelho de Chaves, têm aqui a sua raiz. Não com o nome com que aparecem, todavia, o seu trajeto essencial é o mesmo.
E, pelo que deduzimos, com a apresentação da obra «AVIVAR – Nos Trilhos das Memórias de Chaves» e a Exposição Fotográfica temática, foram, deste modo, também inaugurados os seis percursos pedestres de pequena rota, assim designados – PR2 CHV – Trilho de Vidago-Arcossó; PR6 CHV – Trilho de Quinta do Rebentão; PR7 CHV – Trilho de Seara Velha-Castelões; PR8 CHV – Trilho de Vilarelho da Raia; PR9 CHV – Trilho de Castelo de Monforte e PR10 CHV – Trilho de Moinhos de São Lourenço.
Não é aqui o lugar para fazermos uma apreciação à obra que foi lançada no passado dia 9, nem tão pouco à Exposição Fotográfica temática. Demos-lhe apenas uma vista de olhos em diagonal, por isso, não seria sério da nossa parte, fazer qualquer apreciação sobre a mesma. Mas sempre diremos, à parte o trabalho fotográfico ínsito na obra, no que diz respeito a “divulgar e registar o património material e imaterial existente no meio rural do concelho”, que gostamos mais daquela obra mais modesta, e com recursos bem mais parcos, que fomos encontrar no «Roteiro de Chaves», de 1998, do Grupo cultural Aquae Flaviae. Trata-se de uma obra feita «pro bono», com a participação dos mais diversos autores flavienses, ou que aqui vivem, com dispêndio de muitos menos recursos – fundamentalmente financeiros – e cobrindo a generalidade de todas as aldeias do concelho de Chaves.
Feita esta pequena introdução, ou aparte, debrucemo-nos sobre o nosso trilho de hoje.
E dizermos que, se em relação à maioria dos nomes dos mesmos somos muito crítico quanto ao nome que lhes foi dado, quanto a este não. Assenta-lhe bem. Não poderia ter outra designação senão esta. É que aparte a visitação que fazemos à aldeia de Avelelas, nomeadamente à sua pequena Igreja Matriz

– de Nossa Senhora da Natividade – e à capela de Santa Bárbara, bem assim, em Sobreira, à capela de São Miguel, o que mais se destaca neste percurso de 10 Km é o Castelo de Monforte de Rio Livre.

Por esta circunstância, vamos demorar-nos aqui um pouco mais para falarmos sobre este classificado Monumento Nacional.
Sabemos que há uma boa bibliografia que trata sobre este Castelo, que dentro das suas muralhas teve vila e que, de 1273 a 1853, foi sede de concelho com o nome de «Monforte de Rio Livre». Mas não é sobre aquele antigo concelho que vamos falar. Para quem esteja interessado, existe uma interessante obra «Monforte de Rio Livre – História, Lugares e Afetos (1273-1853)», de Maria Aline Ferreira, na qual poderão inteirar-se sobre o nascimento, vicissitudes e «morte» deste velho concelho.
Falemos, tão somente, deste velho Castelo. E peguemos em alguns excertos do trabalho dos finalistas da licenciatura em Arqueologia da Universidade do Minho – João Mário Martins da Fonte e Ismael Basto Cardoso, com a designação de «Castelo de Monforte de Rio Livre», sito na «adenda electrónica, nº 13|julho de 2005».
Referindo-se ao contexto histórico e geográfico, os autores afirmam que o Castelo encontra-se “implantado no alto de um outeiro da Serra do Brunheiro, aproveitando os afloramentos rochosos existentes no local, isolado e em contexto rural, perto da confluência da ribeira de Águas Frias. Destaca-se na paisagem e beneficia de uma privilegiada posição geoestratégica, com ampla visibilidade, em particular sobre a veiga de Chaves. (…). O antigo Castelo, de que hoje restam apenas ruínas, abrigava nas suas muralhas de sólida alvenaria em granito uma pequena povoação, a vila de Monforte de Rio Livre, sede de concelho do mesmo nome, que abrangia a área de várias freguesias, hoje pertencentes aos concelhos de Chaves e Valpaços (…) foi extinto no século XIX, mais propriamente a 31 de Dezembro de 1853, data em que foi dissolvido em proveito dos concelhos de Chaves e de Valpaços. O topónimo «Monforte» tem origem no latim «mons fortis», literalmente «monte forte». O topónimo «rio livre« pode ter origem no facto de o Castelo estar a salvo das cheias dos rios Tâmega e Rabaçal, estar, portanto, «livre de rio» ou «sem rio» (…). Outros, porém, como relata João Vaz de Amorim, afirmam que o topónimo «rio livre» se refere a um antigo privilégio dos habitantes desta região, que era o de poderem pescar livremente durante todo o ano nas águas do rio Rabaçal, usufruindo delas para rega, entre outras coisas. O conjunto classificado é constituído pelas ruínas da vila de Monforte de Rio Livre, compreendendo o Castelo propriamente dito, com a torre de menagem e o respetivo pátio, implantado na zona mais elevada, e a cerca vilã, que define um recinto subelíptico, estendendo-se ao longo da encosta declivosa, com um traçado algo irregular adaptado à topografia do terreno. A origem do castelo propriamente dito, enquanto estrutura muralhada que define um pequeno espaço, deve procurar-se nos primórdios da Reconquista Cristã. Eram estruturas exclusivamente militares, bastante rudimentares, quase sempre fruto da iniciativa das populações locais, implantadas em locais elevados e acidentados, privilegiando o campo de visão, ocupando, muitas vezes, antigos povoados fortificados. Estes castelos roqueiros dos primórdios da Reconquista foram a resposta encontrada pelas populações locais face às razias muçulmanas e incursões normandas (…). O século IX ficou marcado por um avanço significativo da Reconquista Cristã, graças à ação de Afonso III das Astúrias, que levou a cabo uma série de presúrias. A presúria de Chaves no ano de 872 pelo Conde Odoário garantiu o controlo pelas forças cristãs de um eixo de circulação vital − a bacia tectónica Régua-Verín −, que permitia o acesso até junto do Douro (…). Este processo foi acompanhado de perto por uma reorganização militar e administrativa com base nos condados (unidades políticas), nos territoria (unidades eclesiásticas) e nas civitates (unidades militares e administrativas). Importa destacar as civitates, que eram grandes unidades territoriais dirigidas por condes, onde um castelo presidia aos destinos militares, estando dele dependentes uma série de estruturas castelares. A fase das civitates foi, de resto, o período áureo do “incastelamento” do Norte de Portugal, multiplicando-se a construção de estruturas militares (…). A bibliografia tradicional refere a construção do Castelo de Monforte por D. Afonso Henriques, após conquista aos Mouros em 1139, embora tal não passe de uma mitificação historiográfica. A mais antiga referência ao Castelo de Monforte de Rio Livre, que primeiramente se denominaria S. Pedro de Batocas, data de finais do século XI. No referido documento do Liber Fidei da Sé de Braga consta: «civitatem Batocas […] in territorio Flaviensis discurrente rivulo Tamica» (…). Noutro documento do Liber Fidei pode ler-se: «territorio Flabias subtus mons Batocas discurrente flúmen Tamice in villa quod vocitant Sancti Stephani» e «[…] per mediatorio de Marius […] et inde per Aquas Frígidas et sub ipsa civitatelia de Batocas». Já no século XII, noutro documento do Liber Fidei surgem novas referências a Batocas: «in villa que vocatur Turris sub monte Batocas discurrente flamine Tamice territorio Flavias» e «in villa Sancti Stephani de Flabias sub monte Batocas aquis discurrentibus ad flumen Tamice». Na documentação da época os sítios eram inúmeras vezes localizados no espaço geográfico pela proximidade ou dependência de uma estrutura militar. As expressões «subtus», «sub», etc., são muito comuns na definição dessa relação de dependência militar e espacial, sendo acompanhadas, muitas vezes, da indicação do território em que se implantam e da proximidade de cursos fluviais mais importantes (…), como se pode constatar no anteriormente exposto, em que o «monte Batocas» é utilizado como ponto de referência. A insistente referência ao monte Batocas parece indiciar o carácter fortificado do local, onde se deverá ter erguido um castelo, com maiores ou menores arranjos defensivos (…). A designação de civitate e civitatelia com que também é referido o sítio poderá atestar uma ocupação recuada no tempo, sobretudo como expressão da memória de ali ter existido um povoado fortificado da Idade do Ferro ou um aldeamento/acampamento romano (…). Num outro documento do século XII do Liber Fidei, há referência a um nobre tenente do castelo: «domnus Gonsalvus de Sousa, tenens Montem Fortem supra Flavias»(…), pelo que, provavelmente, o Castelo de Monforte de Rio Livre seria castelo cabeça-de-terra. No século XIII, com a progressiva afirmação e centralização do poder régio, o sistema baseado nas terras começa a entrar em decadência e os tenentes a ser esvaziados das suas funções. Paulatinamente, essas nomenclaturas começam a desaparecer na documentação, passando, nos finais do século XIII, a haver referências aos julgados, espaços civis e judiciais, confiados a juízes de nomeação régia (…). Se as civitates corresponderam a um modelo condal e as terras a um modelo senhorial, os julgados corresponderam à afirmação do modelo régio, ou seja, à política de centralização do poder e de controlo da nobreza, levada a cabo por Afonso III e por D. Dinis (…). A partir de meados do século XIII começam a surgir nos castelos portugueses novas soluções arquitetónicas, vocacionando-os agora para uma “defesa ativa”, característica do castelo gótico, feito não só para resistir aos assédios inimigos, mas também para contra-atacar. Em 1258, nas Inquirições de D. Afonso III relativas ao julgado de Rio Livre (Batocas), surge a referência ao nome de uma paróquia: «parrochia Sancti Petri de Batocas” (…), que se identifica com o mons/monte ou civitate/civitatelia de Batocas. No século XIII, surgem as vilas fortificadas de iniciativa régia, com funções de capitalidade sobre um território mais ou menos vasto, o respetivo termo. Em 1273, D. Afonso III concedeu carta de foral a «hominibus populatoribus de villa mea de Monte forti de Rio Livre» (…), na tentativa de fomentar o seu povoamento, denominando-se agora Monforte de Rio Livre. No reinado do mesmo monarca, procedeu-se à reconstrução do Castelo e das suas muralhas após as guerras contra Leão. Esta reconstrução foi concluída no reinado de D. Dinis, ficando o Castelo dotado de torre de menagem e sendo ampliada a muralha da vila. Face ao carácter de vila fronteiriça, a fundação da mesma parece representar uma iniciativa associada à estabilização e consolidação da fronteira Norte do Reino, defendendo um eixo natural de penetração no território nacional (…). O Castelo de Monforte sofreu várias obras de recuperação militar e civil nos séculos seguintes, nomeadamente nos reinados de D. Fernando, D. João I e D. Manuel I. As dificuldades de manutenção e povoamento da vila encontram-se bem evidentes quando em 1420 foi instituído o couto de homiziados, por D. João I, pois «dicta vjlla he muj desfraudade por seer mujto no stremo e por razam das guerras passadas» (…), com o propósito de aumentar o povoamento e garantir a defesa do território à custa dos homiziados, que, em contrapartida, logravam alcançar o perdão (…), ou quando D. João II determina que «os moradores das aldeias e casais a uma légua de distancia, se recolhessem e viessem morar continuamente muros adentro da vila» (…). Em 1512, foi concedido novo foral à vila por D. Manuel I, na tentativa de evitar o seu despovoamento. Os forais outorgados a um território despovoado ou raiano, como no caso de Monforte de Rio Livre, apresentam como particularidade uma certa ligeireza fiscal, com o intuito de favorecer a fixação das populações nas zonas mais agrestes (…). No numeramento de 1527-1532, viviam na vila apenas trinta moradores, quando vários lugares do seu extenso termo, com 862 moradores distribuídos por 44 aldeias, ultrapassavam já aquele número (…). Em 1796, a vila encontrava-se «quasi despovoada e arruinada, pois não tem mais do que cinco moradores, três dentro dos demolidos muros e dous da parte de fora» (…). A vila persistiu até meados do século XIX, embora nunca tenha sido demasiado povoada, até que, em 1853, foi abandonada devido à extinção do concelho de Monforte de Rio Livre, em consequência das reformas administrativas de Mouzinho da Silveira. Há uma lenda que se refere ao êxodo da população da vila. O Castelo e a vila de Monforte de Rio Livre foram um senhorio do irmão de D. João V, o príncipe D. Francisco. Este era famoso pelo seu mau carácter, associado à falta de juízo. Por ocasião de uma visita do senhor aos seus domínios, os homens bons do concelho quiseram presenteá-lo com produtos da região. Porém, a terra era pobre e apenas conseguiram obter figos e pinhas, cujas colheitas se efetuavam na altura. Na dúvida, decidiram oferecer-lhe os figos, que sempre seriam mais apreciados, pensaram. O infante considerou esta generosa oferta como uma afronta à sua real pessoa. Decidiu então castigar o autor da ideia: mandou-o amarrar a um poste e ordenou aos seus soldados que lhe atirassem, um a um, todos os figos. Consta que no fim do exercício de tiro ao alvo, o infeliz homem, afogado em figos esborrachados, desabafou com os seus pares: «Olha se tínhamos oferecido as pinhas!» Diz a tradição que, apesar do humor da vítima, os munícipes ficaram muito desgostosos com esta atitude do senhor, e que esta foi uma das causas determinantes do êxodo da população da vila, que poucos anos depois ficou deserta”.
Atentemo-nos, agora, sobre o que os autores nos dizem quanto à caracterização arquitetónica.
“A torre de menagem encontra-se implantada de forma proeminente na zona mais elevada,

dominando todo o conjunto defensivo. Data do século XIV e serviria de residência ao alcaide, funcionando, em caso de perigo eminente, como um último e quase inexpugnável reduto de resistência aos ataques dos adversários. Possui planta quadrangular, com entrada por uma porta de arco de volta perfeita situado ao nível do primeiro andar, acessível pelo adarve ou caminho de ronda,

ao qual se acede por uma escadaria bastante arruinada encostada à muralha interior do pátio da torre de menagem. Sobre a porta sobressaem os negativos de um possível alpendre desaparecido. O rés-do-chão da torre de menagem é ocupado por uma cisterna com abertura superior situada no centro do pavimento do primeiro andar. O teto atual deste primeiro andar é formado por uma abóbada de berço em granito, situada a grande altura e que outrora terá provavelmente constituído o teto de um pavimento intermédio, que seria o segundo andar, vendo-se ainda as estruturas de apoio do sobrado e os vãos nas paredes que iluminavam o andar: duas frestas e uma janela de dupla fresta em arco de volta quebrada. Num dos ângulos deste desaparecido segundo andar desenvolve-se uma escada em caracol, de granito, integrada na espessura da parede. O topo da torre encontra-se atualmente ocupado por um telhado de construção moderna. Externamente, o topo da torre é coroado a toda a volta por mísulas, que serviriam de suporte ao já desaparecido machicoulis, que era um balcão corrido a toda a volta do topo da torre, suportado pelas mísulas, intervaladas por matacães, e coroado por ameias, permitindo o tiro vertical. No topo da torre, existem também duas gárgulas de escoamento de águas pluviais. A encimar tudo isto, está um marco geodésico de construção moderna.

O pátio da torre de menagem apresenta uma planta sub-rectangular, com um aparelho elevado de silhares bem aparelhados, em aparelho pseudo-isódomo. Seria possivelmente aí que se localizariam as cavalariças e instalações para serviçais, entre outras. O acesso é feito do exterior da fortaleza por uma porta de arco de volta perfeita, situada na face Sul.

Uma outra porta, mais larga e também em arco de volta quebrada, situada na face Oeste, liga diretamente o pátio da torre de menagem à antiga vila.

Existem duas portas principais na cerca da vila: a porta para Galiza e a porta para Bragança, junto da qual se localizava a Igreja Matriz, existindo ainda outros postigos, dos quais apenas restam as aberturas no pano de muralhas. As portas que ligam o interior com o exterior do recinto convertem-se em pontos-chave na organização do traçado intramuros. As vias que unem as diversas portas constituem o esqueleto da forma urbana. As portas surgem como sistema gerador dos eixos viários intramuros, em que há uma bifurcação de ruas a partir das mesmas (…). As ruas, que constituem a estrutura urbana, convergem para as portas da muralha. A cerca medieval que envolve a vila define um recinto que está atualmente coberto de vegetação, que esconde e dificulta a leitura e perceção dos arruamentos, das habitações, da Casa da Câmara, da Cadeia, da Igreja Matriz e da Capela da Senhora do Prado. A cerca apresenta um formato irregular, adaptado à topografia do local, e tem aproximadamente 180 metros de comprimento máximo e 120 metros de largura máxima. O traçado das muralhas estava condicionado pelas próprias características irregulares do terreno, o que impedia que a superfície do recinto fosse muito alargada e condicionava fortemente as opções em matéria de «desenho» do amuralhamento (…).

De referir também uma muralha interior, que separava a vila do castelo propriamente dito e suas diversas dependências. Será também provável a existência de uma barbacã a circundar parcialmente a área do castelo, na zona de mais difícil defesa. Tratava-se de um muro de altura mais baixa do que a muralha, construído no exterior desta, visando oferecer um primeiro obstáculo àqueles que pretendiam assaltar a praça, como é possível verificar-se no Livro das Fortalezas, de Duarte de Armas. É mais que provável a existência de um fosso ou cava que circundaria todo o perímetro do Castelo ou se circunscreveria a uma determinada zona mais sensível. Seria também importante averiguar acerca das remodelações realizadas no Castelo em meados do século XVII, por alturas da Restauração da Independência, havendo referência à construção de baluartes, mas que já não se encontram visíveis. A antiga vila de Monforte de Rio Livre teve o seu brasão de armas, que se encontra numa das salas da Câmara Municipal de Valpaços (…). O fuste do seu pelourinho encontra-se depositado no Museu da Região Flaviense (...). No decorrer do século XX foram realizadas uma série de obras no Castelo, nomeadamente a consolidação e restauro das suas muralhas, a construção, nos anos 80, do telhado que coroa a torre de menagem e, nos anos 90, o arranjo dos espaços exteriores, dotando-os de parque automóvel, zonas verdes e de lazer e iluminação dos panos de muralha. O Castelo de Monforte de Rio Livre é um excecional exemplar de uma arquitetura militar gótica, preparado para uma “defesa ativa”, com torre de menagem e respetivo pátio e aglomerado urbano fortificado, abandonado e em ruína. A maior parte do conjunto atualmente edificado data de finais do século XIII e primeira metade do seguinte. Foi uma vila com uma função essencialmente defensivo-militar, criada por iniciativa régia, numa região em que se procuravam atrair populações mediante a concessão de privilégios. É um núcleo fortificado de pequenas dimensões e planta irregular, situado num local estratégico (…).
Diz-nos o sítio «Portugal torrão natal», de 15 de dezembro de 2010, sob a epígrafe «Águas Frias» que “ (…) Do estado atual do castelo ninguém é culpado, mas todos o são e como tal, com culpas distribuídas por todos, o mais certo é que um monumento nacional continue entregue ao completo abandono…a nós, que ninguém nos liga, resta-nos denunciar e lamentar, ter pena que também ele sofra da sua ruralidade que embora bem visível a léguas, ninguém o veja no seu maior interesse Mas embora o Castelo tenha a sua importância, historicamente a freguesia tem mais a dizer, pois tudo indica que o seu povoamento remonte, pelo menos, à proto-histórica Cultura Castreja do Noroeste Peninsular, pelo menos é o que tudo indica o topónimo «Monforte» e que o mesmo se relacione com um dos numerosos povoados fortificados da idade do Ferro e Romanização ligado no aro concelhio flaviense, por onde se supõe também que passaria a Via Augusta (calçada romana) que ligava Braga a Astorga, ou seja uma daquelas que seria uma autoestrada da época romana”.
Estamos com os autores que vimos citando: “O Castelo de Monforte tem um enorme atrativo turístico e patrimonial, aliado ao seu excecional enquadramento paisagístico, pelo que urge potenciar este sítio, tornando-o inteligível ao cidadão comum e permitindo o seu usufruto. É indispensável um projeto multidisciplinar de estudo e salvaguarda do local. O desenvolvimento do interior terá de passar pela recuperação e valorização do seu Património histórico e arqueológico, sendo importante a participação ativa das populações locais e a aposta nos recursos endógenos. É importante integrar este Património na vida das pessoas, que até defendem o monumento, mas tendem a ignorá-lo, já que não tiram benefícios dele. O turismo cultural deve, cada vez mais, ser encarado como um sustentáculo para a economia local, pelo que se deve fomentar a indústria do Património”.
As obras que atualmente estão a ser levadas a cabo – Restauro da muralha e acesso à Torre de Menagem – através do Norte 2020, é muito pouco!
Não podemos pensar que um singelo percurso pedestre, que é contemplado pela sua passagem, seja suficiente para o dinamizar. Trata-se apenas de uma simples e singela iniciativa!
***
Vamos, agora sim, dar início ao nosso percurso pedestre, que tem o seu início na aldeia de Avelelas.
Deste Largo, partimos para calcorrear o Trilho do Castelo de Monforte.

Socorremo-nos da obra «avivar – Nos Trilhos das Memorias de Chaves»:
“Quem cruza as terras de Monforte de Rio Livre não pode ficar indiferente a Avelelas. O lugar é detentor de um património que se perde na memória, apenas preservado por uma epígrafe ou pelo sulco gravado no granito. Disso é exemplo a ara romana que se conserva na igreja de Nossa Senhora da Natividade que, por sua vez, data de 1699.

No coração de Avelelas reside um marco da religiosidade popular: a capela de Santa Bárbara.

Por entre ruas tortuosas e casario típico, a capela ocupa um pequeno largo através das suas formas simples da arquitetura tradicional. Eventualmente remodelada em 1898, como assinala a data no lintel na porta principal, o templo apresenta uma arquitetura simples com cunhais em cantaria de granito e a fachada rematada em frontão triangular. Na parte superior do lintel, uma cartela apresenta uma epigrafe desgastada pelo tempo. No interior [a que não tivemos acesso], a beleza decorativa cinge-se ao retábulo de expressão neoclássica marcado pelo branco e dourado cuja arquitetura é representada pelas colunas e entablamento reto com os florões. Ao centro do retábulo abre-se um nicho que alberga as singelas figuras de Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição e da Virgem. Na base do retábulo, Cristo crucificado domina o cenário de fé e devoção”.
Ainda segundo a mesma obra, a “história da aldeia está fortemente ligada ao Castelo de Monforte e às suas importantes e famosas feiras, que em termos cronológicos, perduraram até tempos não muito antigos. A forte devoção a Santa Bárbara é bem evidente pela existência de uma capela em honra da mesma, e que em dias de trovoada acolhe todos aqueles que se queiram abrigar da tempestade”.
E, continuando com a mesma obra, “Na acolhedora e pacata aldeia de Avelelas foi edificada, em 1699, a igreja matriz dedicada a Nossa Senhora da Natividade.

No seu interior, o retábulo de formas barrocas decorado com uma linguagem profundamente cristã, marcada pelas parras e pelas uvas,

guarda a imagem da Virgem à qual os paroquianos veneram.

Muito interessante é a reutilização como pia de água benta de uma ara romana dedicada a uma divindade pagã, provavelmente proveniente da zona de Lampaça, junto à aldeia, que ilustra a antiguidade da aldeia e a memória da presença romana. Neste altar podemos ler, segundo Rodriguez Colmenero: DEBARO / NI MVCE / AICAECO / FVSCINVS / FVSCI F(ilius) / V(otum) L(ibens) A(nimo) S(olvit)”.

Repare-se no teto do altar-mor desta singela Igreja.

Visto o património mais importante de Avelelas – o lagar rupestre fica para uma outra oportunidade – por entre um casario ora velho, ora novo, ora com casas recuperadas,

onde, à frente de uma delas, não falta o tanque

para dar de beber ao gado,

Atravessámos a estrada e embrenhámo-nos no trilho, depois de passarmos pela sua velha Escola Primária.

Umas centenas de metros percorridos, olhando para trás, observámos o casario de Avelelas.

Outros tantos metros percorridos, por entre terrenos cultivados de centeio, em pleno período estival,

(Cenário I)

(Cenário II)
eis a silhueta do Castelo de Monforte de Rio Livre.

Aproximávamo-nos.

E, logo, logo, entrávamos no seu perímetro, depois de atravessarmos a zona de lazer.

Demo-nos conta que havia trabalhadores a operar na reconstrução da muralha. Perante o calor que fazia, descansavam um pouco, até porque o horário de serviço estava a aproximar-se. A porta principal, do lado sul do Castelo, estava fechada. Contornámos a muralha e entrámos no antigo recinto da vila pelo lado onde estavam montados andaimes. Felizmente que a porta da vila estava aberta. Entrámos no recinto.

Subimos ao primeiro andar do Castelo, acessível pelo adarve ou «caminho de ronda» – uma escadaria encostada à muralha.
Positivamente este Castelo é (era) um lugar privilegiado para observação dos movimentos do «inimigo». Hoje oferece-nos belas vistas panorâmicas. Deixemos aqui aquelas que, para nós, foram mais impressivas, a saber:
A aldeia de Águas Frias, sede da freguesia com o mesmo nome, da qual o Castelo de Monforte de Rio Livre faz parte integrante.

Num plano mais aproximado da aldeia, a Igreja Matriz, ocupando o centro da imagem.

A poente, a albufeira de Nogueirinhas (Barragem de Arcossó).

Agora vista num plano mais aproximado.

Para os lados de nascente, as terras cerealíferas de Monforte.

Depois de alguns minutos no cimo do primeiro andar deste Castelo, contemplando todo este entorno daquelas que outrora foram as terras do extinto concelho de Monforte de Rio Livre, descemos aquelas íngremes escadas e, atravessando de novo o recinto da antiga vila, saímos das muralhas pelos mesmos andaimes.
Saído do perímetro do Castelo e da sua zona de lazer, onde aproveitámos para nos hidratar-nos e mudar de roupa do tronco, toda já encharcada de suor, tomámos a direção (recomendada) de Sobreira.

Continuámos a atravessar campos de centeio, já pronto para a ceifa,

e, depois, a sinalética manda-nos por este troço de caminho,

que, na nossa opinião, não tem razão de ser. São apenas umas dezenas ou uma centena de metros de um caminho mau, com muita vegetação e que, no outono ou no inverno, está alagado e, possivelmente, intransitável.

A alternativa, melhor e muito mais cómoda, neste pequeno troço, seria o mesmo caminho que nos levou ao Castelo. Fica aqui a sugestão, simples de emendar..
Despedimo-nos, finalmente do Castelo de Monforte de Rio Livre

e, agora sim, rumámos a Sobreira, por entre campos de centeio.

(Cenário I)

(Cenário II)
Atravessado este largo estradão, e subindo, mais à frente o asfalto, depois de atravessarmos a estrada,

entrámos em Sobreira.

Sobreira, cremos, mais até que Avelelas, apresenta uma dúplice realidade: casas novas, na linha da estrada, uma ou outra recuperada, e, mais no «miolo» da aldeia, outras a ficar em ruína, ou prestes.

Fica aqui um pormenor que, logo que o vimos, nos despertou a curiosidade: para quê uma casa com uma sebe tão alta a rodeá-la?

Transcorridos uns metros, percebemos a razão: o «medo» de estar perante a Morte; é que, mesmo ao seu lado, está o cemitério da aldeia!..
Observado o exterior da capela de São Miguel, pois não encontrámos vivalma que nos facilitasse o acesso ao seu interior,

(Perspetiva I)

(Perspetiva II)
mesmo à entrada do centro da aldeia.

Deixamos aos nossos leitores este pormenor da «torre» do relógio.

Sem a sinalética nos mandar para o «miolo» da aldeia, virámos, nas proximidades da capela logo à esquerda, em direção as Avelelas.

À saída da aldeia, a antiga Escola Primária.

Entre soutos, mato, campos de centeio e pequenas hortas,

(Cenário I)

(Cenário II)
chegámos a Avelelas.

Para finalizar a reportagem deste Trilho, que já vai longa, deixamos dois cenários, que tem muito a ver com a realidade das nossas aldeias deste nosso interior (transmontano): por um lado, os modelos de construção, importados da emigração;

por outro, a continuidade de um «mundo», que teima a desaparecer.

Apresenta-se o itinerário do Trilho,

bem assim o perfil da sua altimetria.



