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27
Jun20

Memórias de um andarilho - PR6 CHV - Trilho de Quinta do Rebentão - Parte II - Considerações e apreciações finais

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MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

PR6 CHV - TRILHO DE QUINTA DO REBENTÃO

 

PARTE II - CONSIDERAÇÕES E APRECIAÇÕES FINAIS

(18.junho 2020)

26.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (157)

(18.junho.2020)

 

(...) O bem e o mal expandem-se sacramentados pela liturgia dos discursos rigorosos dos sábios.

Quem de entre vós preenche o buraco negro do sentido da vida?

Quem de entre vós explica a súbita iluminação dos poemas de espanto?

Quem de entre vós ousa dizer toda a verdade sem sofismas?

Quem de entre vós tem a coragem de incrementar a inteligência milagrosa do deslumbramento?

Definitivamente, o mundo entra na sua luz de assombro.

Definitivamente, o milagre da eucaristia deixa de ser prodigioso.

Os homens sofrem porque se sustentam de frivolidades.

Os homens sofrem quando pensam que se divertem com o esplendor profano do sagrado.

Os homens narram o inenarrável como se fossem os deuses gregos da ausência e da vacuidade… (…)

… Agora eu sei: há definitivamente uma cicatriz antiga em tudo o que escrevo.

Por isso sofro quando me exalto pensando no ritmo da morte.

João Madureira, in O Poema Infinito

 

  • Uma coisa é a altimetria nos mapas; outra, no terreno. Trata-se de um Trilho que, em nossa opinião, não é para todas as idades e para todas as épocas do ano: ora se sobe – e bastante – até Ventuzelos/Santa Bárbara, ora se desce –e bem – para a Quinta do Rebentão; ora pode fazer, principalmente no verão, muito calor, porque com poucas sombras, ora muito frio, no inverno. O coração pode não ser compaginável para uns, assim como as articulações dos joelhos (as«rodillas») para outros.

 

  • Os marcos de sinalização bem podiam ter a designação do Trilho, como seja, PR6 – CHV, em vez da «chapa um» para todos os seis trilhos, a inaugurar brevemente.

 

  • Continuamos a não gostar da sinalização aposta nos troncos dos pinheiros. Custaria muito mais meia dúzia de marcos?

 

  • No placar de sinalização, sito frente ao Parque de Campismo do Rebentão, onde se inicia o Trilho, vemos a seguinte indicação: Ventuzelos – 8,3 Km; São Pedro de Agostém (Recomendado) – 11,2 Km.

67.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (2)

Na nossa modesta opinião, tal sinalização não está correta. Pese embora a existência de uma placa de sinalização à entrada da povoação de São Pedro com a designação «São Pedro de Agostém», não existe nenhuma povoação ou aldeia «São Pedro de Agostém». São Pedro de Agostém é o nome da freguesia que inclui as seguintes aldeias/povoações: São Pedro – sede; Agostém; Ventuzelos; Peto; Lagarelhos; Escariz; Sesmil; Paradela; Pereira de Veiga, Vila Nova de Veiga (onde se situa a Quinta do Rebentão, com Parque de Campismo, Piscinas Municipais, Quinta Biológica  e Circuito de Manutenção) e, finalmente, Bóbeda. Para todos os efeitos, o lugar onde está a placa de sinalização é São Pedro de Agostém, porquanto, estando a Quinta do Rebentão em Vila Nova de Veiga, estamos, ipso facto, em São Pedro de Agostém. Assim, a placa deveria simplesmente designar «São Pedro».

 

  • A partir da Quinta do Rebentão, o troço do Trilho vai diretamente para Redial. Porque não haveria de passar em Bóbeda? Recordemo-nos que estamos na presença de um percurso que pretende privilegiar a natureza e a cultura, o mesmo que dizer também a História. Por isso, este percurso, como os outros cinco, foi inserido num Programa com o nome de «Visitação do Património Natural e Cultural» no concelho de Chaves. Ora, no Cimo de Bóbeda existe um solar com história.

 

Trata-se do solar que foi pertença de Francisco de Magalhães Pizarro, 

68.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão 362 (10)

(Entrada murada do solar)

de apelido «O Maranhão», uma figura, no nosso ponto de vista, controversa, no contexto das Segundas Invasões Francesas, em Chaves; mas, para outros, é considerado como um verdadeiro herói.

 

Repare-se na frontaria principal do edifício,

69.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão 362 (15)

com o seu «exuberante» brasão de armas.

70.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão 362 (3)

Quer queiramos, quer não, esta Família dos Pizarros, quer em Bóbeda, quer na cidade de Chaves e, quiçá, em Portugal, é incontornável.

 

Num Trilho que se quer cultural, passar-lhe ao lado, é completamente incompreensível.

 

  • Por outro lado, não se compreende que, chegados ao início do termo de Redial, viremos à esquerda, pelo Cimo do Povo. Porque não seguirmos em frente e irmos ter ao centro da povoação apreciar mais dois solares da Família dos Pizarros, em particular o brasão de armas e um relógio de sol, apostos num deles, como no post anterior já demos conta, exibindo-os? Já percorremos muitos Caminhos de Santiago. Pois não há Caminho que se preza que, passando numa aldeia, que a atravesse! Afinal de contas, caso haja comércios, sempre se pode parar e fazer algumas compras ou, e isto é muito importante, cruzando-nos com pessoas, podemos falar com elas, conhecendo as suas vidas, ouvindo as suas histórias. Tudo isto é o que importa e é essencial enquanto se caminha. Convivermos e relacionarmo-nos para melhor nos conhecermos, criando mais vida, mais humanidade!...

 

  • Obviamente, em Ventuzelos é obrigatório, imperativo, ir ao Monte de Santa Bárbara. Não pode ser uma opção! Porque aqui também se fez um pouco da nossa história pátria, da nossa independência. E não se trata apenas de referir heróis.

 

  • Chegamos a São Pedro. Aí não vemos qualquer referência ao nosso D. João I, primeiro rei da nossa 2ª dinastia. Atentemo-nos na «Chronica de el-Rei d. João I», de Fernão Lopes,  da Bibliotheca Classicos Portuguezes, Lisboa, 1897, sendo Director literário Conselheiro Luciano Cordeiro, Proprietário e Fundador Mello d’Azevedo, reproduzindo as pág.s 33 a 35 do Volume V, Capítulo LXIII - «Como el –rei partiu da cidade do Porto com intenção de ir cercar Chaves»:

(…) D’alli ordenou el-rei de se ir para Traz-os-Montes, que é terra de Portugal, por cobrar alguns logares que n’aquella comarca ainda contra elle revelavam,  e des-ahi entrar por Castella, e porque era começo de inverno, receavam as gentes aquella partida, porém houveram-se de outhorgar n’aquello que el-rei tinha em vontade, e partiu el-rei d’alli com suas gentes e muitos carros com engenhos e mantimentos e outras coisas à guerra pertencentes, e foi-se por entre Douro e Minho, e mandou notificar por toda a terra que qualquer escudeiro ou homem fidalgo que d’alli houvesse já tomado soldo em esta guerra, e se não fosse pera elle em aquella ida que pera Castella queria fazer, que perdesse todas as honras e privilégios e graças que lhe el-rei tivesse feitos, e mais perdesse todos seus bens ou pagasse por eles cem dobras, qual elle ante quisesse, e esta mesma pena havia qualquer que se tornasse da hoste sem licença d’el-rei ou daquele que pera ello sem poder tivesse, de depois dava el-rei a muitos taes bens como estes, e chegou el-rei a vila Real, d’onde se partira João Rodrigues Portocarrero, e estando alli mandou recado a Martim Vasques Coutinho e outros seus vassalos que se fossem pera elle, e alli ajuntou sua hoste, e levou caminho a Chaves com intenção de a cercar, e era já isto no mez de Dezembro, e chegou a noite de Natal a uma aldeia que chamam S. Pedro de Costem, que é uma légua de Chaves, e hi teve el-rei a festa e esteve alguns dias, até que recolheu sua gente, e d’alli iam alguns à villa, nas qaues escaramuças morreu um cavaleiro que chamavam Alvaro Dias d’Oliveira, que atulou o cavallo com elle, e não podendo sahir alli o mataram (…)

Este logar de Chaves é uma vila de Portugal, na qual estavam um bom honrado fidalgo portuguez chamado por nome Martim Çonçalves de Taide, sua mulher chamava-se Mecia Vasques Coutinha, irmã de Gonçalo Vasques, que foi na batalha de Trancoso, e no logar estavam até oitenta lanças de bons escudeiros, e de bésteiros e homens a pé razoadamente, e veiu-se pera eles um cavaleiro galego da terra de Ourense, que lhe chamavam Vasco gomes de Seixas, com trinta lanças e homens de pé, e comsigo bons bésteiros, de giuisa que de gente havia ahi assaz pera densão do logar, e mantimentos tinham aguisadamente, e agua enxofrenta como de caldas, mal azada para beber, e a serventia da boa era do rio que vae per fóra, acerca da villa tinha um trom pequeno e umas cuberta, e das outras armas que a tal defensão pertenciam em egual avondamento (…)”.

 

Não existe qualquer referência, quer na freguesia, quer ao longo do Trilho, da presença e estadia do nosso D. João I, rei de Portugal, nomeadamente quando passou a noite de Natal de 1385, em São Pedro de Agostém. Não teria ficado muito distante das vias de comunicação (terrestres) de então, que provavelmente coincidiriam ou com antigos caminhos, relacionados com a antiga calçada romana, que se dirigia em direção a sul (Douro), ou com eventual Caminho de Santiago. Considerando que assentou arraial a uma légua da cidade – cerca de 5 a 6 Km e pico -; tendo em conta que a calçada romana, via sul (Douro), passava na da Quinta do Pinheiro, seguindo, provavelmente, por Pereira de Veiga e Vila Nova de Veiga, pelo Alto da Conceição, não custa muito relacionar/acreditar que o acampamento de D. João I, no Natal de 1385, ficasse no triângulo definido por Vila Nova de Veiga, Paradela de Veiga e São Pedro. Talvez, mais precisamente, no lugar que hoje chamamos de «Campos».

 

  • Finalmente, a questão da designação do Trilho. A própria designação do Trilho sugere que o mesmo se desenrola na Quinta do Rebentão, quando, na verdade, ele cobre (anda e abrange), tal como está (sem introduzirmos Bóbeda, como deveria ser), quer Vila Nova de Veiga, quer quer Ventuzelos, quer (Peto de) Lagarelhos, quer Agostém, quer São Pedro. E pergunta-se: pretende-se revisitar a natureza e a cultura dos povos (aldeias e freguesias), com suas terras e suas gentes, passadas, presentes e futuras, ou promover equipamentos de recreio e lazer? Opta-se pelo nome «Trilho de Quinta do Rebentão», como lugar de recreio e lazer, e esquece-se o nome da freguesia onde a Quinta está situada. Esqueceram-se dos lugares com História, por onde passaram vias romanas; onde existem casas solarengas; onde viveram reputados militares da praça de armas de Chaves (vide, Capitão Maia e coronel Sequeira, em São Pedro, e  Pizarro «O Maranhão», em Bóbeda, entre outros), que contribuíram para a história da cidade e da pátria; do lugar falado pelo maior cronista da nossa História, Fernão Lopes, como aquele em que D. João I ficou, no Natal de 1385; o 1º  e mais importante santuário mariano do concelho; uma quota parte do esforço português para repelir o inimigo, no tempo das II Invasões Francesas? Tudo isto se passou em lugares da freguesia de São Pedro de Agostém,  da qual, a Quinta do Rebentão, dela faz parte, na povoação de Vila Nova de Veiga. Isto, por um lado; por outro, igual critério não se teve quando se apelidou o Trilho, que deveria ser designado de «Contrabando de Vilarelho da Raia» (ou «Pela raia de Vilarelho» ou outro mais condizente com a sua história cultura e situação geográfica), em Vilarelho da Raia, simplesmente de «Trilho de Vilarelho da Raia»? Sinceramente, esperávamos dos nossos autarcas, que dirigem e governam os destinos das terras de Chaves, uma outra atitude e sensibilidade. Sabemos que a têm, mas, por descuido ou negligência, deixaram passar em branco algo que mexe com a forma como as terras de São Pedro de Agostém e as suas gentes são tratadas. Tudo quanto acabámos de referir, baseia-se em factos, devidamente provados, ao contrário de algumas iniciativas, promovidas pelo Município, que apenas se lançam para falar de simples conjeturas. Os lugares de História, e com história, de São Pedro de Agostém, precisam de investigação e promoção, por forma a melhor valorizar e dinamizar a nossa terra e as suas gentes, o mesmo que dizer, o concelho de Chaves.

 

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