Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018

Memórias de um andarilho - Parque Nacional da Peneda-Gerês:- Trilho Interpretativo do Megalitismo de Britelo

 

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

PELO PARQUE NACIONAL DA PENEDA-GERÊS (PNPG)

TRILHO INTERPRETATIVO DO MEGALITISMO DE BRITELO

 

16.abril.2018

(De manhã)

01.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (67)

 

 

Deixo-me levar passivamente pelas rodas do carro,

que percorre a serra em todas as direções.

Dou aos olhos plena liberdade sensorial sem lhes pedir

contas da qualidade das sensações recebidas.

Abandono-me à volúpia dum encontro meramente físico com a realidade.

Fragas, matas, rios e ribeiros, tudo entra em mim como a luz pelas vidraças.

Entra e cabe.

Não há imagens no mundo que saciem a pura transparência.

Nada entendo, e nada quero entender.

E sinto paz.

A paz de ser uma simples coisa permeável entre coisas permeáveis.

Paz que o homem primitivo certamente já experimentou,

e que talvez seja o que resta ao homem de sempre.

Atingir na identificação inconsciente com a natureza

a única consciência profunda que dela e de si pode ter.

 

Gerês, 10 de Agosto de 1964

Diário X, Miguel Torga

 

 

Nada mais impressivo do que a entrada, acima citada, de Miguel Torga, no seu Diário, para definir o nosso estado de alma, quando percorríamos este trilho. Particularmente aquela tirada, quando afirma: “Fragas, matas, rios e ribeiros, tudo entra em mim como a luz pelas vidraças”. E a finalizar: “E sinto paz. A paz de ser uma simples coisa permeável entre coisas permeáveis. Paz que o homem primitivo certamente já experimentou, e que talvez seja o que resta ao homem de sempre. Atingir na identificação inconsciente com a natureza a única consciência profunda que dela e de si pode ter”. 

 

Deixámos a serra do Gerês e penetrámos na serra Amarela.

 

Mas, o trilho, de interpretativo, no seu percurso, tem muito pouco, ou quase nada: apenas a simples sinalização.

 

O nome do trilho prometia um voltar à idade primeva, quase próxima dos homens das cavernas. Mas, nada disso aconteceu! Sim, muita pedra.

 

De verdadeiro megalitismo, em boa verdade, apenas uma anta!

 

E a serra já quase nada tem da sua vegetação primitiva!

 

O eucalipto

02a.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (188)

e o pinheiro

03.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (57)

ergueram aqui o seu «lar». Com mato à mistura…

 

O trabalho de limpeza do monte, perante arbustivas tão maduras, era bem patente, particularmente nas imediações da Anta da Lapa da Moura

04.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (55)

e no Chão de Cabanos.

 

A campanha de limpeza por causa dos incêndios também aqui chegou. Mas ficou-se pelo lugar mais emblemático do percurso – o Chão de Cabanos.

05.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (54)

As árvores autóctones aqui são raridades, digam o que disserem… Só no alto, aqui

06.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (141)

e ali, particularmente nas proximidades de Mosteirô, é que verdadeiramente as encontrámos Mas poucas e isoladas!

07.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (187)

Abstraímo-nos das expectativas que o trilho nos criou e, enquanto o percorríamos, fomos congeminando como este território antigamente seria e qual a vida das suas mulheres e homens, que nele habitavam, na sua luta pela sobrevivência. E apenas nos restaram, uma vez concluído o trilho, duas palavras – paz e tranquilidade.

 

Bem razão tinha Torga, já em 1964!

 

Vamos agora dar uma ideia dos passos que demos neste, que dizem, território mítico dos nossos antepassados.

 

Mostremos primeiramente o mapa do nosso itinerário, retirado do folheto oficial, referente ao Trilho Interpretativo do Megalitismo de Britelo.

MAQUETE_MEGALITISMO.cdr

Mas o nosso trilho não começa, nem acaba, ou sequer passa em Britelo. Britelo é a sede de freguesia, da qual Mosteirô, local donde partimos, faz parte.

 

Terras interiores, e encravadas nas serras, sofrem do mesmo mal – a desertificação.

 

E Mosteirô não escapa a esta sina!

 

Aparcámos no largo da aldeia, onde se encontra o tanque e lavadouro público.

09.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (2)

Apenas nos cruzámos e metemos conversa com um senhor velhote, que, encostado a uma das paredes que suportam o tanque, tranquilamente fumava o seu cigarro.

 

Saímos pela rua do Portal

10.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (3)

e, deixando os subúrbios da aldeia, com os seus campo agrícolas,

11.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (5)

percorrendo uma calçada antiga,

12.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (7)

progressivamente, afastando-nos, cada vez mais da aldeia, e passando por um apiário e ao pé de um eucaliptal,

13.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (16)

começámos a embrenharmo-nos no planalto da serra Amarela,

14.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (22)

indo ao encontro da ribeira da Abelheira.

15.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (29)

Trepando,

16.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (31)

alcançámos o cume do planalto.

17.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (45)

Florens sobe até ao fraguedo para melhor apreciar a paisagem circundante.

18.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (47)

No Vale da Coelheira pastava o gado.

19.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (48)

Contristados saímos deste lugar, depois de assistirmos ao resvalo de uma vaca para uma cova, donde não conseguia sair. Tivemos receio em na ajudar e torcemos para que o pobre animal saísse daquele «flagelo» ilesa, onde se deixou cair.

 

Não era esta,

20.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (51)

que nos pareceu mais expedita. Era outra. Esta, aparentando ser humana, olhava, para o cenário que tinha em frente, contristada.

 

E chegámos ao Chão de Cabanos, onde cavalos se entretinham, pacatamente, a pastar numa restolha de mato cegado e já seco, por nos parecer que, há poucos dias, por via do(s) (medo) incêndios, e não só, ter sido cortado.

21.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (64)

E, neste chão, eis a Anta da Lapa da Moura.

22.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (65)

Não nos perguntem qual a razão de tal designação para este monumento!... Não a encontrámos. Mas que há uma explicação, isso há! O povo tem explicação para tudo!

 

Imediatamente à nossa esquerda, num grande penedo, cravado no solo, aparecem-nos as gravuras rupestres.

23.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (74)

Se, quanto à Anta da Lapa da Moura, não havia qualquer painel informativo para nos elucidar sobre a origem do nome e antiguidade do núcleo megalítico deste necrópole de Britelo – apenas o folheto acima referido –, o qual nos elucida que “será dos maiores monumentos funerários megalíticos da serra Amarela” , quanto às gravuras, no mesmo Chão de Cabanos, a informação é ainda mais escassa. Apenas, uma vez mais, o mesmo folheto nos diz que, neste afloramento granítico, estão umas gravuras, onde prevalecem as fossetes

25.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (83)

e os motivos cruciformes,

24.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (81)

revelando, frisa o mesmo folheto, uma longa ocupação desde a pré-história às épocas, possivelmente, medievais.

 

E, neste chão, indiferentes a tanta e tão longa história, pastoreavam, pacatamente, as nossas vaquinhas, em solo pobre que, ainda por cima, o homem o privou de um alimento mais suculento.

26.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (84)

Deixámos este chão «histórico» e, subindo, por um estradão florestal, embrenhámo-nos ainda mais na serra.

27.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (85)

No cimo deste lugar da serra Amarela, deitámos um olhar para uma das suas irmãs, que nos está em frente – a do Gerês.

28.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (87)

Até que, neste abrigo, que tem pouco menos que a nossa idade,

29.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (89)

parámos para descansar um pouco, hidratar-nos e tomarmos o nosso habitual reforço do pequeno-almoço.

30.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (91)

Saídos do abrigo, retomámos o nosso percurso.

 

A certa altura, chamou-nos a atenção uma formação rochosa, encimada por um pequeno penedo, que mais parece a cabeça de uma velha, com um nariz fortemente adunco.

31.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (97)

Estamos agora em pleno planalto da serra,

32.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (122)

com mato e um ou outro afloramento de árvores autóctones, principalmente de carvalho alvarinho,

33.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (99)

onde as linhas de água não faltam

34.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (111)

e, por entre o mato, salienta-se o omnipresente pinheiro, mesmo que solitário.

35.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (112)

O sol, por entre as nuvens, já quase a pino, começava a aquecer o ambiente. E nós começávamos a suar mais…

36.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (120)

E mais uma passagem por uma zona designada Chã da Escusalha, onde se encontram muitas pedras, aos montões, e que, porventura, outrora serviram para o culto mortuário, mas que hoje foram aproveitadas para abrigo dos pastores.

37.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (128)

Provavelmente, estes montões de pedras,

38.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (132)

e mais estes,

39.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (146)

teriam também sido utilizados para a construção de antas. Vá-se lá agora saber…

 

Daqui, do extremo da Chã da Escusalha, tomámos um caminho de pé posto

40.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (150)

e dirigimo-nos para a ribeira da Abelheira, num local mais a montante da mesma.

41.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (163)

Florens, sempre atento aos pequenos pormenores, faz uma pequena pausa para tirar umas quantas fotos.

42.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (167)

Atravessada a ribeira,

43.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (174)

começámos a descer para Mosteirô.

 

Enquanto iniciávamos a descida, ao fundo, o rio Lima.

44.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (181)

Estávamos nas proximidades já de Mosteirô. E é por estas paragens que avistámos, agora em mais quantidade, quer o carvalho alvarinho, quer o castanheiro, quer uma ou outro freixo, à mistura com o eucalipto e o pinheiro bravo.

45.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (184)

Um enorme penedo chamou-nos a atenção. Ele era muito parecido com aquela primeira silha que, no Trilho das Silhas dos Ursos, na serra do Gerês, vimos. Com certeza, o seu patamar cimeiro serviu para mais um abrigo e proteção das colmeias de abelhas, por causa dos ursos.

46.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (195)

Aproximávamo-nos cada vez mais das imediações de Mosteirô.

47.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (206)

Atravessada a Lameirada, fomos ao encontro do tanque ou poça de retenção de água para a rega das hortas de Mosteirô e de moinhos, que dizem que havia, mas que agora só existem ruínas, mas cujos destroços nem sequer chamou a nossa atenção!

48.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (210)

Percorremos esta ancestral vereda

49.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (215)

até ao cimo da aldeia,

50.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (217)

acompanhando o pequeno regueiro de água.

51.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (228)

Chegámos a Mosteirô pela sua parte alta. E íamos tirando uma ou outra fotografia ao seu casario antigo.

52.- 2018.- Trilho Interp. do Megalitismo de Britelo (230)

Atravessada a aldeia, chegávamos ao local donde, duas horas e vinte e cinco minutos antes, tínhamos partido, percorrendo a distância de sete quilómetros e cento e cinquenta metros,

53.- IMG-20180416-WA0001

à velocidade e com a elevação que o gráfico abaixo mostra.

54.- IMG-20180416-WA0002

Enquanto atravessávamos a aldeia, nem vivalma vimos!

 

O senhor que estava no tanque, aquando da nossa partida, tinha-se recolhido.

 

Na verdade, o calor começava a apertar…

 

E nós, entrando na viatura, fomos saber do almoço.

 

De tarde, tínhamos o último trilho a percorrer nesta temporada primaveril no Parque Nacional da Peneda-Gerês – o de Germil.

 

Deste trilho feito, que, em certo sentido, face ao nome que carrega, nos desiludiu um pouco, ficou-nos de mais real e palpável aquilo que já no início deste post dizíamos -  a paz e a tranquilidade sentidas, enquanto o percorríamos, pensando em como seria por aqui a vida dos nossos antepassados…


publicado por andanhos às 10:43
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3 comentários:
De The Daily Miacis a 22 de Agosto de 2018 às 10:24
Este Outono quero experimentar alguns desses trilhos.

Acha que faz se facilmente esse trilho com duas pessoas? Ou seja não há perigo per se?

É que adoro a paisagem do Gerês.


De anacb a 22 de Agosto de 2018 às 13:25
Belíssimo post! Não conheço este trilho, mas abriu-me o apetite para ir conhecê-lo na primeira oportunidade. Obrigada!


De Penichelovers a 23 de Agosto de 2018 às 17:23
é zona que a familia ainda não conhece mas pensamos passar uns dias antes de outubro, antes das chuvas.


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