Terça-feira, 3 de Julho de 2018

Memórias de um andarilho - Parque Nacional da Peneda-Gerês:- Trilho Interpretativo das Silhas dos Ursos

 

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

PARQUE NACIONAL DA PENEDA-GERÊS (PNPG)

 

01.- 2018.- Trilho da  Silha dos Ursos (81a)

 

TRILHO INTERPRETATIVO DAS SILHAS DOS URSOS

 

11.abril.2018
(Parte de manhã)

 

 

É possível que esta paixão telúrica que me faz divinizar as fragas,
os rios e os carvalhos signifique, afinal de contas,
que não consegui desembaraçar-me da placenta de ovelha
que o destino me atirou à figura, como certo inimigo fez a Maomé.
Mas não me desagrada a hipótese. Estou sinceramente convencido
de que a realidade campestre nem é inferior à outra, nem se lhe opõe.
Por detrás das pedras roladas e das ravinas,
pulsa o mesmo coração inquieto da vida.
A solução, portanto, consiste apenas em auscultá-lo
com a finura de ouvido que é obrigatória nas consultas citadinas.
E a mágoa que me punge não é de ser montanhês por devoção:
é de não ser capaz de revelar todos os mistérios
que se escondem nas dobras da estamenha.
Bem rústicas parecem as urzes, e
a abelha tira das suas flores mel perfumado .
Nada mais agressivo do que um silveiredo,
e o melro faz o ninho no meio dele (...).

 

Gerês, 10 de Setembro de 1954
Diário VII, Miguel Torga

 

 


Este trilho está localizado nas freguesias de Vilar da Veiga e Campo de Gerês, no concelho de Terras de Bouro.

 

Começa na Casa de Guarda Florestal de Junceda, a 915 metros de altitude.

02.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (26a)

Tem uma extensão de 5 Km e uma duração de 3 horas. Possui uma cota mínima de 900 metros e máxima de 1100 metro. Contudo, o nosso desnível foi maior, pois tivemos de andar mais 3 Km, sempre a subir, por um caminho florestal, desde este cruzamento da EM 533, vindos da Vila do Gerês,

03.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (2)

até à Casa de Junceda, porquanto a funcionária da Porta do Campo do Gerês, na véspera, nos afirmou esta estrada florestal estar intrasitável para viaturas automóveis ligeiros, o que, no terreno, viemos a verificar não ser totalmente verdade, uma vez feita uma condução com cuidado.

 

Desenvolve-se na serra do Gerês, sobre uma das vertentes do vale de Falha Geológica do Gerês-Lobios, tendo como pano de fundo o rio Gerês. A falha em questão está relacionada com tensões tardihercínicas que levaram a uma fraturação que cortou e deslocou os granitos desta região. Possui uma direção NNE-SSW, sendo responsável pela deslocação dos vales dos rios Cávado e Homem e pelas nascentes termais da Vila do Gerês e do rio Caldo (Lobios, Galiza). Os sistemas hidrominerais do Gerês e Lobios têm umja mineração incomum, especificadamente em termos de teores de flúor e boro.

 

De acordo com o panfleto informativo do Trilho Interpretativo das Silhas dos Ursos, este percurso pedestre de Pequena Rota (PR 11), do Parque Nacional da Peneda-Gerês, tem os seguintes postos ou pontos de interesse, entre outros: Casa de Junceda; Silha dos Ursos I; Silha dos Ursos II; Prado de Gamil; Prado da Tojeira e caminho de retorno à Casa de Junceda.

 

O tema do trilho é a apicultura e a arquelogia rural, para além, evidentemente, da natureza e paisagem.

 

O espaço territorial que o trilho percorre é constituído por encostas de matos, linhas de água, pequenos bosques de carvalhos, vidoeiros e azevinhos e prados de altitude gerados por depósitos glaciares, fluviais e de vertente.

 

Neste território, continua o panfleto, é frequente a observação de animais silvestres, em especial aves, sendo a águia-de-asa-redonda (Buteo buteo) a mais comum.

 

O trilho desenvolve-se sempre por caminho de pé posto, com piso irregular e inclinado nas encostas; e piso regular e pouco acentuado nas zonas de prado.

 

Afinal, o que é uma silha, nome que dá a designação a este trilho?

 

Silha é uma estrutura que protegia os cortiços do apetite por mel do urso-pardo (Ursus arctos), que vagueou por estas terras até meados do século XVII. As silhas eram construídas com blocos de granito (abundante na região), em parede dupla, com muros ligeiramente inclinados para fora, sendo a fiada superior ligeiramente saída e com altura sempre superior a 2,8 m. No seu interior, dispostos em pequenos socalcos e travados por pedras, eram colocados os cortiços, de forma circular e feitos de cortiça (daí o nome) e cobertos com um telhado de colmo. Algumas das silhas tinham pequenas portas que davam acesso ao interior. As silhas, de forma a favorecer o trabalho e a saúde das abelhas, eram sempre construídas em encostas ensolaradas e abrigadas do vento, voltadas a nascente/sul. Eram construídas perto da água e de vastas extensões de matos formados por plantas melíferas, compostos por urzes (Erica spp), carqueja (Pterospartum tridentatum subsp. tridentatum), tojo (Ulex spp) e giestas (Cytisus spp).

 

Vamos, então, dar início ao nosso percurso de hoje, focando os postos ou os pontos de interresse mais significativos neste trilho já acima enunciados:

 

1.- Pela estrada florestal até à Casa de Junceda

 

Foram 3 Km numa ascenção não muito dura, em terreno largo, tendo sempre como pano de fundo os cocurutos de granito, por um lado,

04.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (16)

e os pequenos lameiros, por outro, envoltos pelas penedias da serra do Gerês, reluzentes, após o nascer do sol, e onde o carvalho é omnipresente.

05.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (5)

O piso do estradão apresentava-se com poças de água, da chuva caída no dia anterior e de noite.

06.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (26)

A aldeia de Covide, ao fundo, do lado esquerdo, abrigada pelos montes da serra e rodeada de lameiros...

07.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (23)

E, sem darmos conta, na conversa, chegámos à Casa Florestal de Junceda.

08.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (32)

Aqui parámos ligeiros minutos para apreciarmos esta bonita arquitetura, com uma casa ao abandono, totalmente desabitada. O que é pena!

09.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (26b)

 

2.- Da Casa de Junceda à 1ª e 2ª Silha dos Ursos

 

É exatamente neste sítio que o nosso percurso Interpretativo das Silhas dos Ursos, ligado aos temas da paisagem e da arqueologia rural, começa.

10.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (32c

Poucos metros percorridos, à sombra de um velho carvalho, onde o verde do musgo abunda, aparece-nos esta fonte.

11.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (40)

abastecemo-nos de água fresca e continuámos o nosso caminho que, logo começa a subir.

12.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (45)

Ultrapassada uma cancela,

13.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (42)

cerca de 100 metros da Casa de Junceda, aparece-nos a 1ª silha, que foge um pouco à descrição do conceito que acima deixámos.

14.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (51b)

Esta apenas nos mostra um perqueno montículo de pedras em cima de um grande penedo e, no placar informativo, diz ser do século XVII.

15.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (51a)

Continuando a seguir a sinalização,

16.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (48)

subindo mais um pouco, fomos ao encontro da 2ª silha.

17.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (55)

A determinada altura, o nosso caminho de pé posto, é em forte declive, e por entre penedos. Há que ter muito cuidado para ultrapassar esta íngreme descida. Mas, como em tudo, logo após a tempestade vem a bonança, e, por entre enormes rochedos, em piso suave, o nosso caminho de pé posto, deu-nos um certo descanso.

18.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (63)

As penedias, a paisagem que tanto encantava o nosso Torga quando, como andarilho, por aqui andava, por todo o lado nos rodeia.

19.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (64)

Mais ao longe, ainda com neve, o pico Meda de Recalva, com 1431 de altura.

20.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (64)

Passado um regueiro de água,

21.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (72)

em poucos metros, estamos na silha nº 2.

22.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (83)

Aqui já se aparenta mais com a definição que acima demos, embora, porque toda coberta de entulho,

23.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (77)

e parcialmente destruída, não dá para se ter uma ideia exata do que efetivamente foi. Vale, para o efeito, uma aproximação, a partir dos vestígios que aqui se deixam.

 

Chegados agora aqui, o caminho não tem continuação. Há que voltar para tràs. Mas o caminho de volta já não passa pelo caminho de vinda, evitando, desta feita, agora aquela íngreme subida. Segue outro traçado,

24.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (96)

que nos levará ao Prado de Gamil.

 

3.- Prado de Gamil

 

Traçado esse que decorre por entre pastos de montanha,

25.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (104)

entre pequenas descidas, e outras subidas, relativamente acentuadas,

26.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (109)

com regatos de água, e certo declive.

27.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (117)

Antes de chegarmos ao Prado de Gamil, num regato, Florens pára para tirar uma foto, tão inebriado estava com a paisagem à sua frente.

28.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (113)

Poucos metros percorridos, mais à frente, por entre água escorrendo por todos os cantos, aparece-nos o pequeno Prado de Gamil.

29.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (122)

Um pequeno prado com uma fonte e um bebedouro para os animais.

30.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (127)

Porque já perto de meio-dia e com o calor apertando, o nosso reservatório de água esgotou-se. E, neste fonte do prado, aproveitámos para nos abastecer.

31.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (132)

Aqui fizemos uma pausa mais prolongada: por um lado, para, neste lugar fresco, onde apenas se ouvia o sons dos pequenos passariformes e os pequenos regatos a escorrer para as linhas de água, observar este pequeno e aprazível pasto, quase no cume da serra granítica;

32.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (137)

por outro lado, subindo um pouco mais, mesmo perto do cume do monte, para observar, lá no fundo, parte da albufeira de Vilarinho da Furna, encaixada entre as serras Amarela e a do Gerês.

33.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (140)

 

4.- Caminho de retorno à Casa de Junceda com passagem pelo Prado da Tojeira

 

Nossos principais atrativos tinham sido vistos. Florens, de satisfeito, faz-nos uma careta para a objetiva.

34.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (145)

Havia que voltar ao lugar de partida - a Casa de Junceda - seguindo, a determinada altura, um outro itinerário, conforma vem explicitado no panfleto oficial do trilho, passando pelo Prado da Tojeira, onde ali podemos ver vacas a pastar

35.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (149)

e, por entre o mato, o azevinho.

36.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (154)

No caminho de pé posto, nas proximidades do Prado da Tojeira, um filão de quartzo na rocha de xisto.

37.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (153)

Florens, como sempre, aproveita para levar uma pedra como recordação do trilho que fez.

38.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (152)

Até que nos aproximámos da Casa de Junceda, nosso lugar de partida e chegada deste trilho interpretativo.

39.-2018.- Trilho da Silha dos Ursos (159)

Ultrapassada a Casa, e seus anexos,

40.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (160)

a vegetação, nas suas proximidades, denota intervenção, no sentido de introdução de espécies não apenas autóctones, mas também exóticas.

41.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (161)

 

5.- Miradouro de Junceda

 

Uma vez aqui, não podíamos deixar para trás o Miradouro da Junceda.

42.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (168)

Neste lugar aproveitámos não só para descansar um pouco como também para comer fruta. Já passava da uma da tarde. íríamos almoçar tarde, pois ainda tínhamos 3 Km para percorrer até ao cruzamento onde deixámos a viatura, voltando pela mesma estrada florestal.

43.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (168a)

E, tratando-se de um miradouro, não podíamos perder as vistas que ele nos oferecia. Destacamos duas: a primeira, e numa outra perspetiva, o pico Meda de Recalva;

44.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (169)

a segunda, o profundo vale do rio Gerês, resultante da aludida Fallha Geológica, com a Vila do Gerês nele encaixado.

45.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (172)

Na despedida do lugar, uma olhada para a beleza desta vaca barrosã a pastar, entre muitas, nas proximidades do miradouro.

46.- 2018.- Trilho da Silha dos Ursos (167)

Dados técnicos: o nosso percurso foi aquele que vem assinalado na imagem abaixo, tendo percorrido 11, 820 Km, em 3 horas e 22 minutos,

47.- Trilho da Silhas dos Ursos (2)

com a elevação e velocidade que o gráfico abaixo mostra.

48.- Trilho da Silhas dos Ursos (3)


publicado por andanhos às 09:27
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