Memórias de um andarilho - Caminhadas nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor 1ª etapa - Destaque II - Património de Torre de Moncorvo
CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS
LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR
DESTAQUE II – PATRIMÓNIO DE TORRE DE MONCORVO
“O abandono como plenitude. A consciência de um mundo em ruínas revela a possibilidade
de realização por meio de osmose com a natureza. A ruína como a plenitude da arquitetura.
A ruína como o tempo submerso. A ruína como flor. A ruína como resistência. O calcário
raspado, desgastado, a ferrugem, o descascado e seus teoremas. A ruína como a arquitetura
submersa. Isto foi, ali estava, viveu aqui e seus impossíveis correspondentes. O naufrágio
revela a inutilidade de qualquer projeto e da beleza desta inutilidade. A beleza do que é. A
invasão da natureza nas ruínas. Estabelecimento de uma democracia da luz na interseção
entre a arquitetura e o reino das folhas. A Casa retorna à natureza. Então a ruína deixa de
ser ruína, porque é da natureza novamente.”
Poesia da Lentidão, de Andres Ibañez

Corroborando o que já adiantámos no post anterior, a propósito da Igreja Matriz de Torre de Moncorvo, diz-nos o sítio da internet ««360º Torre de Moncorvo» que “As origens do concelho de Torre de Moncorvo remontam à Idade Média. Inicialmente em S.ta Cruz da Vilariça. O foral da Vilariça ficou a dever-se a D. Sancho II, que o outorgou, em 6 de Junho de 1225, dando origem ao concelho de Santa Cruz da Vilariça, cuja sede aí permaneceu até que D. Dinis a transferiu para Moncorvo, por carta de foral, outorgada, em Lisboa, em 12 de Abril de 1285, e a vila foi dotada com muralhas e um castelo. A riqueza agrícola do vale da Vilariça potencia um período de prosperidade económica durante os séculos XV a XVII. A expansão da cultura do linho cânhamo, da vinha, azeite, seda, lã, amêndoa e cereais, a exploração do ferro, o dinamismo comercial da sua importante feira, aliados à sua posição geográfica, que fazia de Moncorvo um importante nó de comunicações entre Trás-os-Montes e a Beira, constituem os fatores mais importantes do seu crescimento demográfico.
Na sequência da nova divisão administrativa do Reino, no seculo XVI, Torre de Moncorvo, passa a sede de uma das quatro comarcas de Trás-os-Montes então constituídas, abrangendo um extenso território e a sede de provedoria. E sob o ponto de vista eclesiástico, constituía uma das cinco comarcas em que o vastíssimo arcebispado de Braga se dividia.
A produção do linho cânhamo faz surgir, em finais do século XVI, os armazéns reais de cordoaria. Derivada da grande produção de azeite, instala-se uma fábrica de sabão. Esta prosperidade económica explica a renovação urbanística de Moncorvo no século XVI, marcada pela construção da sua majestosa igreja [e, ao longo dos séculos XV a XVIII, de grandes casas senhoriais]. O papel negativo da Inquisição entre os séculos XVI e XVIII no tecido comercial progressista de Trás-os-Montes e a Guerra da Restauração 1640-1668, com invasões, cercos e saques de localidades vão fazer entrar em decadência todo Trás-os-Montes. Os conflitos ocorridos com a Espanha, entre 1640-1763, contribuíram poderosamente para um acentuado processo de despovoamento e mesmo de desertificação do Nordeste Trasmontano, incluindo Moncorvo.
A comarca de Moncorvo, da Coroa, não era, quer demográfica, quer economicamente, a mais populosa ou a mais próspera de Trás-os-Montes, uma vez que tanto a comarca de Bragança como a comarca de Vila Real a superavam nos planos referidos. Mas, sendo a mais extensa e a de maior continuidade territorial, gozava de um lugar central na província, atravessando-a de norte a sul, desde a fronteira com a Galiza até ao rio Douro, e detinha uma das portas mais importantes de Trás-os-Montes, a estrada da Beira que, pelo Pocinho – onde servia a barca de maior rendimento do rio Douro – e Moncorvo, ligava a Bragança e a Miranda”.
Apresentamos, da obra de Eugénio Cavalheiro e Nelson Rebanda – «A Igreja Matriz de Torre de Moncorvo» - uma infografia que representa a planta da vila de Torre de Moncorvo.

Como podemos ver, as duas primitivas igrejas – de Santiago e Santa Maria – estavam extramuros ou extra muralhas da vila, não chegando ao nosso conhecimento a razão pela qual, de um modo especial a igreja de Santa Maria, sobre a qual se ergueu a atual Igreja Matriz, ficou fora das muralhas.
Se bem observarmos a foto, em 360º, exibida no sítio acima referido, da vila de Torre de Moncorvo, agora sem castelo erguido e praticamente sem muralhas, e comparando com a infografia acima exibida, vemos claramente ainda o casario disposto em conformidade com o antigo perímetro da muralha medieval da vila.
O mesmo acontece no vídeo que agora exibimos, no qual se destacam a imponente Igreja Matriz, fora das antigas muralhas, a Igreja da Misericórdia e o Castelo, no antigo perímetro amuralhado.
TORRE DE MONCORVO – PANORAMICAS 360º
Fora das muralhas, e à volta delas e da Igreja Matriz, dispunham-se solares e capelas, pelos seus arruamentos e casario, e que vão dar à Praça Francisco António Meireles, onde impera um bonito Chafariz filipino.

(Perspetiva I)

(Perspetiva II)

(Perspetiva III)
Uma vez que, no post anterior já falámos do ex-libris da vila de Torre de Moncorvo – a sua Igreja Matriz – comecemos, então, pelo seu antigo Castelo, hoje apenas ruínas.
CASTELO DE TORRE DE MONCORVO
Segundo a «Nota Histórica-Artística», da Direção Geral do Património Cultural, "O castelo de Torre de Moncorvo começou a edificar-se logo após a atracão dos primeiros moradores, vindos de Santa Cruz da Vilariça, ou em data muito próxima. Em 1295, dez anos depois do documento de criação, o próprio rei faz referência ao castelo, pressupondo-se, assim, que as obras já estariam em curso (…). Apesar das múltiplas fases de destruição por que a fortaleza passou, é ainda possível reconstituir o seu aspeto geral original. Assim, a cerca definia um povoado de perfil oval, tão característico das vilas muralhadas góticas, que integrava quer a povoação, quer o castelo [Como acima se evidenciou].Três portas permitiam o acesso ao interior da cerca, de que se destaca a inexistência de qualquer abertura no final da Rua Direita, que terminava num grande torreão quadrangular (…). As principais portas situavam-se a Norte e a Nascente (São Bartolomeu e Nossa Senhora dos Remédios, ou da Vila) e eram flanqueadas por duas torres circulares. Uma terceira, localizada do lado Sul, estava anexa ao castelo, sendo defendida diretamente por este e dando serventia ao principal reduto defensivo da vila.
O castelo propriamente dito era de planta quadrangular algo irregular, e integralmente construído em granito, por oposição ao xisto da muralha, o que denota uma maior preocupação pela qualidade e durabilidade da construção. Localizava-se no topo poente da povoação e as suas muralhas interiores estavam livres de quaisquer edificações, o que lhe assegurava total independência em caso de invasão da povoação.(…).
Com efeito, foram várias as fases de reconfiguração e destruição da fortaleza medieval (…) Em 1721 noticia-se o derrube de algumas portas e partes da cerca e o século XIX foi desastroso para a sua história.
Em 1842, a Câmara Municipal já o considerava irrecuperável e, porque se localizava entre a vila velha e a nova, cujo acesso só era possível por uma estreita e íngreme artéria, o município projetou a sua demolição (…). Toda a zona foi, então, rebaixada e construídos novos edifícios públicos, demonstrando-se, desta forma, a modernidade do projeto camarário, que englobava ainda a constituição de um quartel, nunca efetivada".
Reputamos de algum interesse a leitura de «Castelo de Moncorvo», em Fortalezas.org.

IGREJA DA MISERICÓRDIA
Diz-nos, em 2006, Catarina Oliveira, do IPPAR que “A data de fundação da irmandade da Misericórdia de Torre de Moncorvo permanece desconhecida, sabendo-se no entanto que terá ocorrido na primeira metade do século XVI. O templo da confraria foi edificado na antiga Rua Direita da vila, junto ao local onde foi também, na época, edificada a cadeia feminina local.

Desconhece-se o autor da traça da igreja, no entanto o edifício destaca-se pela graciosidade das formas e harmonia de proporções.
De planta longitudinal, composta pelos volumes da nave única e da capela-mor, a igreja apresenta uma fachada de gosto renascentista de linhas eruditas, onde ao centro foi rasgado um portal de volta perfeita inserido num alfiz alteado, com dois medalhões sobre o extradorso do arco.

(S.Pedro)

(S. Paulo)
O conjunto é rematado por frontão triangular com friso, ladeado por pináculos e dois óculos.
Ao centro do remate foi rasgado, em época posterior, um nicho com imagem. O registo inferior da fachada é rematado com friso e duas gárgulas, e sobre este foi edificado um frontão, rasgado em 1864 para inserir a sineira.

Do lado esquerdo da fachada foi construído o consistório da Misericórdia, com entrada lateral e uma janela de canto no registo superior.

O interior, [a que não tivéssemos acesso] um espaço unificado coberto por abóbada de berço com caixotões de madeira, possui um programa decorativo diversificado, fruto de diferentes campanhas de obras. O templo possui dois púlpitos, um deles colocado junto à tribuna dos mesários, no registo superior. O outro, edificado do lado da Epístola,

(Fonte:- Direção-geral do Património Cultural – Igreja da Misericórdia de Moncorvo com todo o seu recheio […])
é uma obra quinhentista, sendo considerado "um dos mais belos púlpitos da renascença portuguesa, talhado num só bloco de granito, em forma de cálice com a imagem de um santo da Igreja em baixo relevo em cada uma das faces (…)”.
Conforme se pode por esta foto antiga, este púlpito estava colocado no exterior da Igreja, na fachada principal.

(Fonte:- «Memórias e outras coisas… Bragança – “Moncorvo – Porta e púlpito da Igreja da Misericórdia"»)
Na capela-mor foi edificado um retábulo de talha dourada barroca, num modelo em estilo nacional.
Está classificado como Imóvel de Interesse Público e integra o Museu de Arte Sacra da vila de Torre de Moncorvo.
A PRAÇA FRANCISCO MEIRELES E O CHAFARIZ FILIPINO
O Chafariz filipino, situado na praça Francisco António Meireles, no centro da vila, é datado de 1636. Foi construído durante a Dinastia Filipina, tendo levado dez anos a ser terminado. No ano de 1887, e por ordem do então Presidente da Câmara, o chafariz foi desmantelado e os elementos que o constituíam foram espalhados por vários locais, inclusivamente alguns foram enterrados num campo chamado da Corredoura no início do século XX.

Por ironia talvez, no último ano do século XX, também o Presidente da Câmara, recorrendo a fotografias e plantas antigas, debruçou-se na reconstrução do chafariz, tendo recuperado do original três peças que estavam na sua posse, como a taça e a base.

O chafariz insere-se numa tipologia de tanque sobre uma base quadrada. No primeiro pano, forma um depósito bolboso decorado com uma carranca jorrando água e, sobre este, foi construído um pináculo que termina a estrutura.
CONVENTO DE SÃO FRANCISCO
Apenas resta a Capela do convento e o antigo Asilo.

Segundo «Portugal.SOS - Estudo e Projeto de Arquitetura de Recuperação de antigo Asilo e Capela do Convento de S. Francisco» “No dia 2 de Maio, foi assinado no Salão Nobre do Reitor da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa um protocolo tripartido entre a mesma Faculdade, o Município de Torre de Moncorvo e a Fundação Francisco António Meireles com vista ao estudo e projeto de recuperação do antigo Asilo e da Capela do Convento de S. Francisco.
O protocolo tem por objeto a prestação de serviços relacionada com a realização de um projeto interdisciplinar de investigação científica aplicada, dividido em várias fases e tempos de execução cujo objeto de estudo será o edifício do antigo Asilo da Fundação Francisco António Meireles e a Capela do Convento de S. Francisco da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, tendo como objetivo último a execução de um projeto de arquitetura que permita a recuperação de ambos os edifício plenamente integrados um no outro (…)”.

E, para quê?
Segundo a «Radio Brigantia», de 15.04.2016, “O município de Torre de Moncorvo e a fundação Francisco António Meireles pretendem criar um Hotel com Spa no antigo Asilo e Capela do Convento de S. Francisco. Com esse objetivo foi apresentado um projeto de arquitetura, numa parceria com a Universidade de Lisboa.
No antigo asilo, propriedade da fundação, será implementado o hotel que terá a particularidade de ser constituído por apartamentos, quartos em grupo e quartos com acesso facilitado a pessoas com mobilidade reduzida. Já na Capela do Convento de S. Francisco, que pertence à autarquia, será instalado um spa. Um projeto hoteleiro que pretende abranger vários públicos e valorizar um edifício emblemático da localidade, como refere o presidente do município Nuno Gonçalves.
«O espaço está sobranceiro à vila e pensou-se recuperar esses dois edifícios, por forma a fazer ali uma unidade para pessoas com mais idade e também para pessoas jovens, com várias vertentes», frisa.
Pretende-se criar, associado ao vetor do bem-estar, um conceito que englobe o enoturismo e a produção vinícola. O projeto contempla ainda a criação de um edifício, inserido na arquitetura existente, onde ficará uma adega com parte destinada à produção, ao estágio do vinho e de venda ao público. Um sector já presente na instituição.
«Apostamos também muito no vinho e o spa e hotel teria muito a ver com isso», explica António Moreira, presidente da fundação Francisco António Meireles.
O próximo passo do projeto, apresentá-lo a operadores turísticos que possam ter interesse em investir, mas Nuno Gonçalves não exclui para já a hipótese de a própria Fundação Francisco António Meireles ser a entidade impulsionadora do investimento”.
Que seja do nosso conhecimento, o projeto, ainda nesta data, está em «banho maria»…
SOLARES E CAPELAS
Ana Celeste Glória, na sua obra «Solares e casas nobres em Torre de Moncorvo (séculos xvii-xviii», afirma:
“A vila de Torre de Moncorvo possui um vasto património material e imaterial que contempla diversos períodos da História e da Arte. De facto, é nesta vila que encontramos um importante testemunho da evolução da arquitetura civil erudita, destacando-se os solares e casas nobres edificadas entre o período maneirista e barroco, num arco cronológico do século xvi a xviii. As características e especificidades de cada uma destas casas torna imperativo a sua análise, caso a caso, para o entendimento e valor deste património, que abarca não só o património artístico, mas também, o património religioso.
A edificação destas casas prende-se à necessidade de habitação dos seus proprietários, diferindo das restantes pelo tratamento arquitetónico e decorativo, proporcionado pelas condições económicas, sociais e políticas de cada família.
Atente-se ainda para o facto de, no século xvi, Moncorvo ser sede de Comarca, conhecendo uma considerável prosperidade económica que se manteve até ao século xvii, por consequência da intensa atividade industrial da região, nomeadamente, da exploração das sedas, linho, cordoarias, manufaturas de sabão, minas de ferro, agricultura, entre outras. Como afirmou Luís Alexandre Rodrigues, referindo-se ao comércio, circulação de artistas e, por consequência, às famílias que os contratavam; aquelas
«(…) atividades alimentavam o tráfico comercial que usava as estradas e vias fluviais para fazer chegar os produtos ao Porto, donde eram embarcados para Lisboa e ultramar, à Beira, à Galiza e a Castela. Os artistas não ficavam de fora desta corrente até porque a construção de novos edifícios civis e religiosos, assim como o investimento decorativo que se lhes associa, resultou da labuta e dos quadros de mentalidade em que se moviam e afirmavam tanto o pequeno lavrador, como o artesão e o comerciante Assim se povoou o território de homens e de algumas das realizações materiais que mais enalteciam o orgulho dos indivíduos e das comunidades».
Assim, a necessidade de fixação no território por consequência das profissões ligadas aos negócios, ao comércio, mas também à política e ao exército, levaram à fixação de inúmeras famílias, algumas delas abastadas, que recorriam a artistas locais ou de grandes centros urbanos para lhes construírem novas casas. Estas novas edificações representavam um meio de afirmação social, económica e até mesmo cultural, traduzido pelo grande investimento construtivo e decorativo que as famílias impunham nas suas habitações, destacando-se da malha urbana, pela presença de determinados elementos que as caracterizavam e particularizavam. No que concerne ao período já mencionado, séculos xvii e xviii, salientamos seis casas nobres na vila de Moncorvo. São elas :
* Solar dos Távoras;
* Solar dos Doutéis e Capela de Nossa Senhora dos Prazeres;
* Solar dos Tenreiros;
* Casa do Cacao” / Casa da Família Vasconcelos;
* Solar dos Pimentéis;
* Casa do Morgado Leopoldo Henriques.
Estas casas localizam-se, na sua maioria, no interior do centro histórico, no designado núcleo renascentista, algumas delas, à sombra das muralhas do castelo medieval, classificado como monumento de interesse público. Relativamente às suas características históricas, artísticas e arquitetónicas, diferem entre si, dadas as especificidades de cada uma, e da data em que foram construídas. Somente o estudo de cada uma nos permite conhecer os solares e casas senhoriais de Moncorvo, bem como a evolução da arquitetura maneirista e barroca nesta localidade”.
Solar dos Távoras - Biblioteca Municipal e Arquivo Histórico da Torre de Moncorvo
O edifício da Biblioteca é um solar do séc. XVIII, que pertenceu à família Caetano de Oliveira.

Desde 1997 que está instalada neste solar a Biblioteca Municipal.
No edifício anexo funciona o Arquivo Histórico.

Solar dos Doutéis e Capela de Nossa Senhora dos Prazeres
“Casa nobre com fachada principal formando ângulo, adaptando-se ao perfil do quarteirão e de três panos, um correspondendo à capela, e dois à casa, tendo no menor porta mais larga de acesso às lojas. De tipologia maneirista tardia, caracteriza-se pela sobriedade, sobretudo da ala residencial, interrompida apenas no eixo da entrada principal, onde apresenta cornijas, reta sobre o portal e contracurvada sobre a janela do segundo piso.
É no pano da capela que se concentra maior decoração, tendo no portal pilastras com o terço inferior de caneluras distintas, o friso do entablamento decorado com elementos geométricos relevados, o central com data da edificação da capela, encimado pela pedra de armas da família que mandou construir o solar, e coroado por sineira com alguns apontamentos do barroco inicial, como elementos volutados estilizados.

Não entrámos no interior do solar e da capela, contudo, pelo que pesquisámos, "O retábulo é já do pleno estilo nacional, com profusa decoração de acantos, pâmpanos, fénices, anjos, querubins, e concha perfeita, tendo ao centro painel pintado, com dossel fingido e lambrequim joanino. A gramática decorativa existente nos estuques do solar, assemelha-se à existente na sala da música do Solar dos Pimentéis (…) e na sala das quatro estações do Solar dos Tenreiros (…), assim como a iconografia, que também aparece na Casa do Sr. Leopoldo Henriques, levando Liliana Pereira a pensar na possibilidade do estucador ter sido o mesmo nas várias casas”.
Segundo Catarina Oliveira (GIF/IPPAR/18 de setembro de 2006), em «Nota Histórica-Artística» “A Capela do solar, dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres, terá sido edificada nos primeiros anos do século XVIII do lado esquerdo do corpo do solar, demarcando-se pela disposição de contrafortes.
Embora tenha sido construída em Setecentos e apresente um programa decorativo de gosto plenamente barroco, este pequeno templo vai ainda utilizar linhas estruturais com evidentes influências maneiristas, possivelmente decorrentes da tratadística.
De planta retangular e nave única, a capela possui fachada com portal de moldura retangular flanqueado por pilastras jónicas, cujo friso é decorado com motivos de ponta de diamante e tem ao centro gravada a data 1714, que indica possivelmente a data de conclusão das obras. O conjunto é rematado por frontão interrompido, encimado por pedra de armas dos encomendantes. Sobre o edifício foi colocada uma sineira decorada com motivos de relevo.
O interior é coberto por teto de madeira de caixotões com moldura de talha e pinturas de florões. No topo da nave foi colocado o retábulo de estilo nacional de talha dourada e policroma com fundo pintado e albergando ao centro mísula com a imagem da padroeira”.
Solar dos Tenreiros e Capela de Jesus Maria José
Conforme se pode constatar, à data que consultámos o sítio da internet – «Portas do Sol e da Lua – Imóveis com História» encontra(va)-se em ruínas.

(Fonte:- «Portas do Sol e da Lua – Imóveis com História»)
A capela está inserida no solar.

(Fonte:- «Portas do Sol e da Lua – Imóveis com História»)
O solar está próxima da fonte das Aveleiras.
“Casa do Cacao” / Casa da Família Vasconcelos e Capela do Sagrado Coração de Jesus
Segundo Rosário Carvalho, no sítio da Direção-geral do Património Cultural, “A capela do Sagrado Coração de Jesus pertencia ao já demolido solar da família Carneiro Vasconcelos, tendo sido erguida, ao que tudo indica, no decorrer da primeira metade do século XVIII. Certo é que o órgão remonta a ano de 1743.

O portal principal é formado por pilastras e encimado por frontão de volutas interrompido pelo Sagrado Coração de Jesus, ao qual a capela é dedicada.
O século XVIII correspondeu, em Torre de Moncorvo, a um crescimento considerável da vila, quer em termos populacionais, quer em termos de superfície e de novos imóveis. Também o património religioso conheceu um crescimento, contando-se duas igrejas, um convento de frades, um recolhimento feminino, a igreja da Misericórdia, a capela do hospital e quinze capelas, oito das quais do padroado da câmara e sete de particulares (…). Estas, encontravam-se, como a capela do Sagrado Coração de Jesus, integradas nos solares setecentistas erguidos nesta centúria e que documentam o desenvolvimento da vila e da nobreza aí residente”.
Solar dos Pimentéis
Segundo a Direção-geral do Património Cultural –«Solar dos Pimentéis» -, trata-se de uma “Casa unifamiliar barroca, de planta retangular

com duas alas adossadas perpendicularmente à fachada posterior.

Fachada principal, de dois pisos e dois panos definidos por pilastras toscanas, terminadas em friso e cornija e regularmente rasgada por vãos sobrepostos de verga abatida, tendo no primeiro piso portais e uma janela de peitoril e no segundo janelas de peitoril, com molduras recortadas, encimadas por cornija contracurvada sobreposta por concha, orelhas laterais e avental recortado com volutas".

Vejamos o pormenor de uma das janelas.

Este solar pertenceu à família Oliveira Pimentel e foi aqui que nasceu o General Claudino Pimentel e o Visconde de Vila Maior.
Casa do Morgado Leopoldo Henriques
Trata-se de um edifício histórico cuja construção terá sido iniciada no 1º quartel do século XVIII, certamente pensado para ser um vasto palácio, mas cujo projeto inicial terá sido condicionado pela falta de recursos por parte dos proprietários, a família Botelho de Magalhães. Mesmo assim, foi construída aos "bochechos" e nela terá nascido o pai de um dos fundadores da República do Brasil, Benjamin Constant Botelho de Magalhães.
Para mais detalhes sobre este cofundador da República do Brasil, consulte-se «Torre de Moncorvo in Blog».
Em 25 de Abril de 2013, este edifício, no seu rés-do-chão, onde entretanto se encontrava um Jardim de Infância, tendo por cima a antiga agência do Banco Espírito Santo, hoje Novo Banco, foi utilizado para sede do Projeto Arqueológico da Região de Moncorvo (PARM).

(Fachada Poente da Casa Leopoldo Henriques - sede do PARM no r/c)
A autora acima citada, Ana Celeste Glória, no seu trabalho, que vimos acompanhando, refere apenas os solares e capelas dos Távoras; dos Doutéis (e Capela de Nossa Senhora dos Prazeres); dos Tenreiros; a “Casa do Cacao” / Casa da Família Vasconcelos; dos Pimentéis e a Casa do Morgado Leopoldo Henriques.
Mas existem mais. Sem sermos exaustivos no que respeita aos edifícios que foram (e alguns ainda são, como o antigo Cineteatro; a Casa da Família Félix; o edifício do Tribunal, na praça Francisco António Meireles, a Capela de São Sebastião; a Capela de Santa Leocádia, na serra do Reboredo; o Chafariz de Santo António, etc.) também emblemáticos na vila e concelho de Torre de Moncorvo.
Solar e Capela de Santo António
Ainda segundo Rosário Carvalho, da Direção-geral do Património Cultural - «Capela de Santo António» - “A capela de Santo António integra o solar da família Carvalho Castro, nobilitada desde 1880 com o título de Viscondes de Marmeleiro (por decreto do Rei D. Luís a favor de António de carvalho Castro Freire Cortês).

A sua fachada inscreve-se no eixo central do alçado do solar, destacando-se pelas pilastras que definem este corpo, separando-o dos restantes, de dois pisos com janelas de sacada de verga reta no andar nobre. O portal, ladeado por pilastras que suportam um frontão triangular, é sobrepujado pelo brasão de armas da família, terminando em cornija reta, e apenas ganhando maior visibilidade em relação à casa pela sineira que coroa este eixo, já sobre a linha do telhado. O posicionamento do brasão segue a norma que se observa em boa parte dos solares de Torre de Moncorvo, surgindo na fachada da capela e não sobre a porta de entrada do edifício habitacional. Muito embora o alçado da capela, de linhas retas, seja bastante depurado, é ele quem confere maior animação à fachada da casa, sem qualquer elemento decorativo.

Todo o conjunto foi edificado no decorrer do século XVIII, ainda que, certamente, sobre as ruínas ou vestígios de construções anteriores. Apesar dos poucos dados disponíveis sobre esta questão, a verdade é que a data de 1490 surge gravada nesta fachada, talvez aludindo à instituição da capela”.

De acordo ainda com a nossa mesma fonte, e dado que também não podemos entrar no seu interior, “No interior, ganha especial destaque a abóbada de berço de caixotões, com episódios da vida de Santo António, a quem o templo era dedicado, e naturezas mortas.
A capela de Santo António e o solar dos Viscondes de Marmeleiro constituem um dos muitos testemunhos do desenvolvimento da vila no decorrer do século XVIII, verificável não apenas num crescimento populacional mas também na edificação de novos solares aos quais se encontravam anexas as respetivas capelas e que muito contribuíram para o número significativo de edifícios religiosos existente em Torre de Moncorvo nesta centúria: duas igrejas, um convento de frades, um recolhimento feminino, a igreja da Misericórdia, a capela do hospital e quinze capelas, oito das quais do padroado da câmara e sete de particulares (…)”.
Solar do Barão de Palme - Museu do Ferro & da Região de Moncorvo
Segundo o sítio da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo – «Museu do Ferro» - “O Museu do Ferro & da Região de Moncorvo encontra-se instalado no solar do Barão de Palme, séc. XVIII, no Largo Balbino Rego, em Torre de Moncorvo. Trata-se de um edifício de traça simples, com escadaria exterior e varanda de alpendre. O Museu dispõe dos seguintes espaço: edifício principal, jardim anexo, auditório e área para reserva e depósito. No 1º andar do edifício do museu, a que se acede por uma escadaria exterior, encontra-se o posto de receção que orienta o visitante para uma área de acolhimento denominada Oficina do Conhecimento. Aqui se indicam, em imagens-satélite, os dois principais acidentes geomorfológicos que influenciaram a história económica da região: o vale da Vilariça, particularmente fértil, e a serra do Roboredo, onde jazem mais de 670 milhões de toneladas de minérios de ferro (hematite e magnetite). O vale da Vilariça corresponde a uma falha tectónica irrigada pela ribeira do mesmo nome, que aqui se encontra com o rio Sabor, e este com o Douro, propiciando a ocupação humana desde remotas eras. Como prova disso, nesta sala é exibida uma estela-menir antropomórfica do período calcolítico (Idade do Cobre), com cerca de 1,57 m. Ainda neste espaço, podem-se ver outros aspetos do património da região, através de uma projeção audiovisual, ou, em alternativa, documentários breves, além de um filme da década de 50 do século passado, sobre o trabalho nas minas de Moncorvo. Ao lado da Oficina do Conhecimento está a sala destinada à arqueologia e história da região, mas que presentemente é utilizada para exposições temporárias”.

Capela do Espirito Santo e Hospital Velho
Em 1726 era considerada uma albergaria, que albergava e tratava dos visitantes mais desfavorecidos e pertencia ao hospital de Moncorvo. Em 1791 foi instituído em Moncorvo, sob a Invocação do Espírito Santo, o Hospital do Espírito Santo que era constituído por capela e casas anexas com serventia de hospital e hospedaria. Ostenta na fachada as armas de D. Manuel e a imagem de S. Mateus.
No interior subsiste um altar sumptuoso do séc. XVIII, em talha barroca e uma lápide em granito com as obrigações do antigo hospital.
Capela de Nossa Senhora dos Remédios
Foi edificada no séc. XVII, sobre o arco da porta do lado nascente da antiga vila de Torre de Moncorvo.

É um dos poucos vestígios que restam da antiga e exterior muralha. No seu interior, encontra-se um altar de talha dourada, onde ao centro se encontra a imagem da Senhora dos Remédios.

Edifício da Câmara Municipal
Edifício do séc. XIX, de estilo neoclássico.

Ostenta na fachada a heráldica municipal.

A fachada principal apresenta três panos definidos por pilastras toscanas, coroados por pináculos e dóricas.

O pano central é rasgado por um portal de arco abatido,

encimado por um friso e cornija com elementos fitomórficos, sobrepujado por janela de sacada com guarda de ferro. É coroado por frontão triangular com brasão no tímpano. Nos panos laterais, as portas são sobrepostas por voluta e janela de peitoril moldurada de arco abatido, e as janelas de arco também abatido encimados por cornija. As janelas do piso superior são em lintel retos.

Neste edifício funcionam alguns serviços da Câmara Municipal.
Não poderíamos acabar este post sem referir dois aspetos.
O primeiro deles tem a ver com o célebre Jorge Luís Borges, escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino.
O escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), segundo consta, teve origens portuguesas (pelo lado Borges, seu bisavô), que parece ter prezado bastante. Ora, o seu bisavô seria natural de Torre de Moncorvo.
A este propósito, o escritor escreveu o seguinte poema:
OS BORGES
Nada ou pouco sei dos meus ancestrais
Portugueses, os Borges: vaga gente
Que na minha carne, obscuramente,
Prossegue seus hábitos, temores e rituais.
Ténues como se nunca houvessem existido
E alheios aos trâmites da arte,
Indecifravelmente fazem parte
Do tempo, da terra e do que é esquecido.
Melhor assim. Cumprida a odisseia,
São Portugal, são a famosa gente
Que forçou as muralhas do Oriente
E se deu ao mar e a outro mar de areia.
São o rei que no místico deserto
Se perdeu mas jura estar perto.
(Tradução de José Mário Silva)
O segundo, com um artista plástico, filho desta terra, que abalou para o Porto e, aqui, produz(iu) a sua obra – Dario Alves.
Deixamos à visualização dos nossos(as) leitores(as) uma das que mais gostamos.

Que nos perdoem as figuras ilustres que foram ou partiram desta nobre vila transmontano. Tendo de fazer opções, pelo espaço que já vai comprido neste post, ficámos pelos mais coetâneos.

(Torre de Moncorvo - Terra do Ferro)


