Memórias de um andarilho - Caminhadas nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor 1ª etapa - Destaque I - Igreja Matriz de Torre de Moncorvo
CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS
LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR
DESTAQUE I – IGREJA MATRIZ DE TORRE DE MONCORVO

Introdução
A Linha do Sabor passava na vila de Torre de Moncorvo, em Lagoaça, nas proximidades de Freixo de Espada à Cinta e Mogadouro e ficou a poucos quilómetros de Miranda do Douro – em Duas Igrejas.
Ao longo de oito reportagens, correspondentes às oito etapas que fizemos a pé nesta antiga e abandonada Linha, conforme íamos passando nas localidades ou nas suas respetivas estações mais importantes, fizemos destaques sobre cada uma delas.
Fazendo uma retrospetiva do trabalho que deixámos feito para trás, demo-nos conta que, em Destaque, não falámos de Torre de Moncorvo.
Contudo, bem vistas as coisas, não o fizemos por puro esquecimento. Quisemos seguir o aforismo ou máxima, que supomos de origem inglesa, quando diz «The last but not the least» que, traduzido em português, quer dizer «Por último, mas não menos importante»!
Na verdade, assim é. Diríamos até que, inconsciente e propositadamente, deixámos Torre de Moncorvo para último lugar por questões de natureza sentimental que nos ligam a esta terra transmontana.
Tivemos um irmão que, por via da sua profissão, do Peso da Régua, se deslocou para esta vila. Juntamente com a então sua família, e mais dois rebentos que, entretanto, ali lhe nasceram – embora, infelizmente, só lhe tenha vingado um – ali viveu mais de uma dezena de anos, nas décadas de 60 e 70 do século passado.
Todos os anos, invariavelmente nas férias letivas, – pois éramos ainda estudante – ou íamos a Torre de Moncorvo ou ele, quando podia, com a sua família, se deslocava a Chaves. Até que assentou arraiais nesta terra fronteiriça.
Por esta circunstância, pela permanência e convivência com aquela terra e as suas gentes, ficámos-lhe muito ligado.
Em particular não nos podemos esquecer um casal, com duas filhas, muito amigo de nosso irmão – João e Idalina – com comércio na Praça. Gente boa. De coração puro. Amigo do amigo.
Quase todos se foram!…
E os peixinhos do rio que se comiam na «tasca», na antiga ponte do Sabor?!...
A ideia com que ficámos, naquele tempo, era de uma terra farta – onde não faltava a amêndoa, o azeite e o vinho, ombreando com as vilas vizinhas de Mogadouro, Macedo, Freixo e Foz Côa. Terra de Solares importantes e grandes proprietários que, só de vez em quando, é que passavam temporadas na terra. Gente com pergaminhos e de posses. Mas que, na voracidade dos tempos, «tudo o vento levou»!
Com o decorrer dos anos, aquela terra de fartura, foi decaindo. Como, aliás, já noutras ocasiões aconteceu. E, não fora o 25 de Abril, com a força do Poder Local, e o seu rico património construído, adrede às glórias passadas da sua História, Moncorvo, que foi centro urbano importante no Nordeste transmontano e nevrálgico de comunicações para a Europa culta e para o interior do país, particularmente nos séculos XVI a XVIII, não passaria de um recanto esquecido nos confins deste nosso Reino Maravilhoso.
Simplesmente a sua altaneira e imponente Igreja Matriz, impondo-se no meio do atual casario, não deixa passar indiferente a quem a visita e por ela passa.
Por esta razão, vamos-lhe dedicar inteiramente um post. E, ao lhe dedicarmos um post a este património religioso, outra coisa mais não fazemos que prestar um justo contributo às sucessivas gerações antanhas desta vila que, aproximadamente, ao longo de um século, a construíram.
Apresentaremos, assim, aos nossos(as) leitores(as) a Igreja, depois de tecermos algumas considerações prévias quanto à razão da construção de uma igreja tão grande, numa vila (hoje) tão modesta, que, a nossos olhos, mais se aparenta com uma catedral.
1.- Breves considerações quanto à construção da atual Igreja Matriz de Torre de Moncorvo
Diz-nos Fernando de Sousa, sob o título «Moncorvo. Uma reflexão em torno da sua identidade», na obra - «Moncorvo – Da tradição à modernidade», da qual foi coordenador:
“As origens do concelho de Torre de Moncorvo remontam à Idade Média. Em finais do século XIII, D. Dinis concedeu-lhe carta de foral, e no século XIV a vila foi dotada com muralhas e um castelo.
Nos séculos XV a XVII, Moncorvo vai conhecer uma notável prosperidade económica, graças sobretudo à riqueza agrícola do vale da Vilariça, a região mais fértil de Trás-os-Montes.
A expansão da cultura do linho cânhamo, da vinha, azeite, seda, lã, amêndoa e cereais, a exploração do ferro, o dinamismo comercial da sua importante feira, aliados à sua posição geográfica, que fazia de Moncorvo um importante nó de comunicações entre Trás-os-Montes e a Beira, constituem os fatores explicativos mais importantes do seu crescimento demográfico (300 fogos em 1530), do seu desenvolvimento económico e da sua afirmação como um dos polos urbanos mais importantes no Nordeste Trasmontano, projetando a sua influência muito além do seu município.
Assim, o rabino da sinagoga de Moncorvo chegou a deter jurisdição sobre todos os judeus de Trás-os-Montes. Moncorvo, no século XVI, na sequência da nova divisão administrativa do Reino, passa a sede de uma das quatro comarcas de Trás-os-Montes então constituídas, abrangendo um extenso território e a sede de provedoria. E sob o ponto de vista eclesiástico, constituía também uma comarca, ou seja, uma das cinco comarcas em que o vastíssimo arcebispado de Braga se dividia.
Graças à produção do linho cânhamo vão surgir, em finais do século XVI, os armazéns reais de cordoaria. Devido à larga produção de azeite, instala-se uma fábrica de sabão.
Esta prosperidade económica explica a renovação urbanística de Moncorvo no século XVI, marcada pela construção da sua majestosa igreja, considerada a maior de Trás-os-Montes(…).
Ultrapassada a fase de maior prosperidade da sua história, Moncorvo, a partir da segunda metade do século XVIII vai sofrer, devido a vários fatores, uma desaceleração da sua economia, acompanhando a progressiva decadência que afeta todo o Nordeste Trasmontano”.
Esta perspetiva é também corroborada por Eugénio Cavalheiro e Nelson Rebanda na obra «A Igreja Matriz de torre de Moncorvo», de 1998, editada por João Azevedo Editor, Terra Transmontana quando, a propósito da construção da atual Igreja Matriz de Torre de Moncorvo nos dizem:
“(…) é preciso não esquecer a maior centralidade demográfica de Torre de Moncorvo em relação, por exemplo, a Freixo de Espada à Cinta, beneficiando do cruzamento de dois eixos viários muito importantes: um, no sentido Este-Oeste, vindo de Espanha, por Freixo de Espada à Cinta, em direção a Braga e ao litoral Norte; outro, no sentido Norte-Sul, que era economicamente significativo na época, ligado às grandes feiras da fronteira, de Trancoso a Miranda do Douro. A travessia do Douro, obrigatória no sítio do Pocinho, trazia ao concelho de torre de Moncorvo grandes rendimentos da barca de passagem, cujo monopólio se firmava em privilégios antigos.
A par desse fluxo mercantil, é preciso não esquecer o ainda muito concorrido Caminho de Santiago, responsável pela invocação (…) da primitiva matriz de Torre de Moncorvo (…).
Ainda no plano económico, é de referir que a feira de Torre de Moncorvo, criada por D. Dinis em 1284 ou 1285 e franqueada por D. João I em 1395, era uma das mais importantes da região. Desde cedo, Torre de Moncorvo se terá tornado uma vila de mercadores, onde naturalmente se destacavam os judeus, a ponte de existir aqui, no séc. XV, um «ouvidor» (rabí-mór) da comuna judaica. De resto, este carácter municipal e burguês explicaria bem o apoio ao partido do Mestre de Avis, na crise política de 1383-1385.
Para além do comércio de longo curso, com o inerente tráfego de mercadores e almocreves, é preciso não esquecer o comércio local, praticado no mercado semanal ou à porta, mantido pelos diversos artífices e inúmeros camponeses. Torre de Moncorvo era um centro de um vasto «hinterland» agrícola centrado no vale da Vilariça e, em certa medida, «industrial», com a pequena metalurgias praticada nas «aldeias ferreiras» da orla da serra do Reboredo, em particular Felgueiras. Este aproveitamento do ferro, não devendo ser de grande escala, deveria suprir, pelo menos, as necessidades regionais.
De maior importância neste período foi, decerto, a primeira grande cultura industrial desta região: o linho cânhamo do vale da Vilariça, a qual alcançou a maior progressão no século XVI, apesar de se encontrar documentado o linho alcânave , na Vilariça, já no séc. XV. As necessidades de abastecimento de cordame, para as naus da Índia, explicam este incremento, que culminaria na criação de uma cordoaria régia em torre de Moncorvo, em 1617 (…).
Sempre que se regista um certo florescimento económico, numa dada sociedade, a monumentalização surge como que espontaneamente, com o desejo de afirmação e consolidação do poder que se disfruta. Neste caso, a monumentalização procurava suportar a secreta aspiração a sede de diocese, dada a extensão da arquidiocese de Braga e ao movimento de criação de novas dioceses. Deve salientar-se que o estatuto de diocese obrigava à elevação a cidade da respetiva sede.
Procurava-se por essa via, e por inerência, o alcance de um estatuto urbano que permitisse, como lugar central, controlar uma área mais vasta (…).
O facto de Torre de Moncorvo ser sede de almoxarifado e, depois, de comarca, alimentou necessariamente as suas pretensões a sede de diocese, procurando fazer coincidir, dessa forma, o poder civil e o religioso, num mesmo lugar. Nos meados do séc. XV, o almoxarifado de Torre de Moncorvo chegava a Bragança e às vilas de Bemposta, Algoso e Outeiro, a Norte, tendo Vila Flor e Ansiães, a Oeste. Por seu lado, a comarca judicial abarcava um território que chegaria a Chaves e à ponte de Amarante, chegando a ser considerada a maior do reino,
Nestas circunstâncias, não é de estranhar que nos finais do século XVII –inícios de XVIII, a população da vila de Torre de Moncorvo seja já de 460 vizinhos (entre 1800 e 2000 habitantes), um considerável aumento em relação a 1530”.
[No «Numeramento de Trás-os-Montes», de 1530, indica-se para esta vila e seus arredores uma população de 245 moradores, o que equivale a cerca de um milhar de habitantes. Apesar de se encontrar, nesta altura de 1530, entre os núcleos urbanos mais expressivos de Trás-os-Montes, estava longe, segundo os autores que vimos citando, de ser o de maior peso. Na região transmontana, Bragança surge à cabeça com 481 moradores na cidade e 5649 no termo, seguindo-se Vila Real com 478 (sede) e 2976 (termo), Freixo de Espada à Cinta, com 447 (sede), Chaves, com 385 (sede) e 3389 (termo), Miranda do Douro com 287 (sede) e 1625 (termo). De acordo com o geógrafo Orlando Ribeiro, que explorou a mesma fonte, «mais nenhuma povoação ultrapassa 200 moradores (800 habitantes; Mirandela (…) apenas tinha 77»].
(…) A expulsão dos judeus da Espanha dos Reis Católicos, nos fis do século XV, teria beneficiado principalmente Freixo, visto ser lugar mais próximo da fronteira, aumentando os seus efetivos demográficos e acrescentando-lhe riqueza económica decorrente das atividades artesanais e mercantis da comunidade judaica, transformada depois em cristã-nova.
Com efeito, Freixo de Espada à Cinta era, nesta época, um importante entreposto comercial de fronteira, por onde passava uma das rotas europeias com destino a Portugal, utilizada por muitos peregrinos castelhanos, e mesmo do resto da Europa, em direção a Santiago da Galiza.
Tudo isto ajuda a explicar também a grandeza da igreja de Freixo de Espada à Cinta, cujo início de construção terá sido bastante anterior à de Torre de Moncorvo
[Assim] (…) se explica a tentativa de Freixo, nesse sentido, por volta de 1545, bem como Torre de Moncorvo, em 1617, neste caso já depois da criação da Diocese de Miranda do Douro, mas entretanto vaga. Como parece evidente, estas petições traem o verdadeiro objetivo de edificações religiosas que de outra forma pareceriam algo megalómanas.
Acrescente-se ainda o caso de Bragança que, apesar de já possuir o título de cidade desde o século XV, razão pela qual terá descurado os «argumentos» construtivos, não deixou de se ressentir pela opção da catedral em Miranda. O máximo que Bragança conseguiu como contrapartida, foi, então, um auditório eclesiástico e a nomeação de um vigário geral. Mas, como se sabe, mais de duzentos anos depois, acabaria por beneficiar da transferência da sede de diocese, em 1764, agora com grande despeito dos mirandeses.
Numa região como a transmontana, de parcos recursos, de povoamento concentrado, de homens endurecidos por uma natureza adversa e pela pressão da fronteira, em que o municipalismo foi sempre uma imagem de marca, a emulação entre comunidades vizinhas era um dado adquirido. Isto é tanto mais verdadeiro quanto na «Europa rica» da Baixa Idade Média, se jogava no mesmo plano, como afirma o historiador Jean Gimpel: «Os monumentos de pedra edificados pelos arquitetos lisonjeavam a vaidade dos burgueses. As cidades rivalizavam em ambição, querendo cada uma possuir uma abóbada ou uma flecha mais alta do que a da cidade vizinha. Assim aqui, como na Europa do Gótico.
Imaginamos, por isso, a complexidade dos jogos de influências, junto do poder central, para obtenção de qualquer benesse, como sobejamente nos transmitem os Capítulos das Cortes.
No caso vertente, o poder central acabaria por favorecer a escolha de Miranda do Douro, como sede de nova diocese, a qual foi criada pela bula do papa Paulo III, em 1545. Não deixa, a propósito, de ser curiosa a explicação dada pelo Abade de Baçal: «Nada (…) justificava tal preferência dada a essa cidade em concorrência com Bragança, a não ser o capricho de D. Catarina, mulher de el-rei D. João III, em engrandecer com benefício perdurável a primeira terra por onde entrou ao vir assentar-se no trono de Portugal. Clima áspero, tristonho, insalubre, pouco fértil e, de mais a mais, deslocada num canto da diocese». É o bragançano a falar.
Na esteira do abade de Baçal, Veríssimo Serrão acrescenta que a essa fundação «não foi estranha a vontade da rainha D. Catarina, desejosa de colocar ‘alguns sujeitos’ da sua casa», já que eram espanhóis o primeiro e o terceiro bispo.
Pela nossa parte, pensamos que havia também, da parte do rei e da igreja portuguesa, algum interesse em fortalecer um posto avançado da fronteira e limitar a influência dos mosteiros leoneses na região, ainda senhores de significativas rendas do lado de cá da fronteira. Além disso, Miranda era um importante polo comercial transfronteiriço.
Entretanto o início da construção da catedral mirandesa só ocorreria em 1552, num momento em que quer Freixo de Espada à Cinta, quer torre de Moncorvo já teriam as suas igrejas muito adiantadas.
Conforme notou, já no século passado, o historiador de arte Joaquim de Vasconcelos, num artigo sobre o cânhamo, «com o dinheiro que rendeu o linho, o cânhamo, e o modesto bicho da seda, levantou a gente de Moncorvo a sua majestosa catedral da Renascença. Se quanto à sericultura esta só vai ganhar expressão nesta região, bastante mais tarde, a partir do séc. XVIII, sobre o cânhamo parece-nos aceitável a opinião deste autor.
É ainda Joaquim de Vasconcelos que, no mesmo artigo, ressalta o carácter burguês e comunal de Torre de Moncorvo, na génese da Igreja matriz: «ao passo que nas outras catedrais do país se encontram em toda a parte, na frontaria, na abside, nos pilares das naves, na galeria do coro, na caixa do órgão, na talha dos altares e dos retábulos, por toda a parte, os escudos da nobreza e do clero, debalde procurareis a heráldica no templo de Moncorvo. Ali só pode haver um brasão, o da cidade, pois foi o município que o levantou. E é ainda hoje o município que conserva este templo num perfeito estado de conservação, dotando-o com a maior generosidade. O filho de Moncorvo já não pensa talvez na seda, no linho e cânhamo, mas cita com orgulho a sua igreja, hoje como no século XVI, perfeita, imaculada e pura em todas as suas linhas! Pois é preciso dizer-lhe que essa fábrica grandiosa tem em Moncorvo a significação que um burguês de Nuremberga, ou de Augsburgo, de Ulm e de Colónia, de Pisa e de Génova, reconhece nos seus monumentos religiosos e civis: são os padrões da grandeza de municípios independentes, compostos de homens livres, que souberam conservar a sua preciosa liberdade rodeados de instituições feudais; que o cimentaram com o suor e com o sangue da indústria e do comércio, no ardor da forja, no tumulto dos mares e no remanso do tear (…)
Em resumo, podemos considerar que as condições que determinaram a construção e o volume da atual igreja de Torre de Moncorvo, se deviam a um certo crescimento demográfico, e a condições económicas e sociais favoráveis, beneficiando de ser um lugar de passagem na rota dos mercados regionais e no Caminho de Santiago. O aro concelhio possuía excelentes terras de cultivo, com produções bastantes ao autoconsumo e venda para o exterior, sendo de destacar a primeira cultura «industrial» da região, a do linho cânhamo. A dinâmica comercial era impressa por uma classe mercantil enraizada, reforçada pelo elemento judaico, feito cristão-novo depois do século XV. Como tal, o seu contributo para a obra da igreja não deixaria de ser verificado, até como forma de afastar suspeitas decorrentes da conversão forçada.
Temos depois uma acentuada tradição municipalista, amplamente favorecida, no caso de Torre de Moncorvo, por vários reis portugueses, como D. Dinis, D. Fernando e D. João I, que fizeram desta vila um centro de poder e de prestígio. Paralelamente a uma elite local de homens-bons e herdeiros dos cavaleiros-vilãos de Santa Cruz da Vilariça, um funcionalismo administrativo e judicial relacionado com o almoxarifado e a sede da comarca, acentuavam o carácter mais ‘terciário’ e menos rural de Torre de Moncorvo.
No plano religioso, havia que reforçar a afirmar a presença da igreja católica, numa época de crise, marcada a nível europeu pelo movimento da Reforma e, a nível peninsular, pela expulsão dos judeus da Espanha dos Reis Católicos, os quais se deslocaram em grande número para a orla da fronteira portuguesa. Assim, a grandeza da igreja-edifício não deixaria de ser associada, também, à da ordem religiosa que representava”.
Para uma perspetiva mais alargada da história de torre de Moncorvo, veja-se o artigo de José Marques «Moncorvo e os seus antecedentes, no contexto transmontano, na Idade Média», na obra acima referida - «Moncorvo – Da tradição à modernidade».
2.- As antigas igrejas de Santiago e de Santa Maria
Continuando a citar a obra de Eugénio Cavalheiro e Nelson Rebanda:
“A primeira igreja matriz de Torre de Moncorvo, dedicada a Sant’Iago, ficava situada à entrada do atual cemitério. Por esta razão, o arruamento lateral conserva ainda este topónimo, apesar da designação de Santo Cristo que essa igreja passou a ter, a partir do século XVIII. No entanto, a tradição de ter sido aí a primeira matriz e de a mesma ser de invocação de Santiago, estava ainda viva nesse século, conforme atestam diversos relatos da época. Foi destruída nos finais do século XIX, pelo alargamento do referido cemitério.
Com efeito, ainda Torre de Moncorvo não beneficiava do estatuto de vila, quando das Inquirições de Afonso III, de 1285, surge a referência a uma ecclesiam de Santiago de Turre de Menendo Curvo, a qual era anexa da de Santa Cruz da Vilariça, ao tempo, sede do julgado do mesmo nome. Esta vila de Santa Cruz, que recebera foral de D. Sancho II, em 1225, viria a despovoar-se nos inícios do século XIV, tendo o grosso da sua população passado para o lugarejo de Torre de Mem Corvo.
Certamente, com a transferência dos foros de Santa Cruz da Vilariça, para Torre de Mem Corvo, em 1285, a antiga igreja sufragânea passaria a ser a matriz da nova vila, enquanto se edificava a cintura de muralhas que passaria a circuitar o novo núcleo urbano.
Seria lógico que surgisse, então, uma nova igreja intramuros, em lugar central, como por exemplo onde hoje se encontra a igreja da Misericórdia, que é renascentista (Séc. XVI). Apesar da possível existência de uma capela, neste local, precedendo a igreja da Misericórdia, não nos parece que aqui se tenha localizado uma nova igreja, com este estatuto.
Chegamos, assim, à problemática do aparecimento e localização da igreja de Santa Maria.
De facto, em dado momento do séc. XIV, surge referida na documentação uma igreja denominada de Sancta Maria da Torre de Mencorvo, também de padroado real, tal como a de Santiago, como se vê pelas cartas de apresentação dos respetivos clérigos, emitidas pelo rei D. Pedro I.
(…) seria de esperar que tal igreja de Santa Maria se situasse na zona intramuros, visto que o perímetro muralhado era de construção recente, encontrando-se o castelo ainda em obras. Ora pouco provável, por isso, que já não houvesse espaço, no interior da cerca, para uma igreja que deveria ter sido aí planeada desde o início, se considerarmos o urbanismo típico das chamadas «vilas novas» medievais. No entanto, por razões desconhecidas, parece que a localização da igreja intramuros, não chegou a acontecer. Ou, pelo menos, não a de Santa Maria”.
(…) A importância da igreja de Santa Maria [localizada sensivelmente no mesmo local da atual Matriz] verifica-se ainda antes da construção da igreja atual, pois cedo se converte em paroquial. Passam então a coexistir duas Abadias na vila de Torre de Moncorvo: Santiago e Santa Marias (…).
A supremacia de Santa Maria nesta época sobre Santiago terá sido alcançada no final do século XV, na passagem para o XVI.
(…) Serão, porventura, [também] os rendimentos crescentes da igreja de Santa Maria, designadamente as doações de propriedades no vale da Vilariça, que levarão à decisão de se construir uma igreja maior, mais consentânea com um burgo florescente, no auge dos Descobrimentos”.
3.- Apresentação da Igreja Matriz de Torre de Moncorvo
Vejamos, primeiro, uma panorâmica geral, em vídeo, sobre a Igreja Matriz de Torre de Moncorvo, e um resumo, feito pelo historiador Nelson Rebanda, sobre o que acima vertemos.
Competição para Catedral: a candidata nº 2, Torre de Moncorvo
Socorremo-nos, agora, dos sítios da internet «Igreja Matriz de Torre de Moncorvo – Guia Turístico do Douro» , «Igreja de Nossa Senhora da Assunção, Matriz de Moncorvo – Visit Portugal» e «Igreja Matriz de Torre de Moncorvo – Câmara Municipal de Torre de Moncorvo» para darmos uma vista de olhos sobre o edifício em si e alguns dos seus elementos mais significativos, quer exteriores, quer interiores.
A Igreja Matriz de Torre de Moncorvo é um dos monumentos mais interessantes que o visitante pode, e deve, apreciar no nordeste transmontano. Construída sobre as ruínas da igreja medieval de Santa Maria, as obras na igreja matriz terão começado no início do século XVI (1544) terminado um século mais tarde. Erguendo-se em torno da torre sineira e nos seus 30 metros de esplendor, é dedicada a Nossa Senhora da Assunção.

Considerada uma das maiores igrejas paroquiais do país, é um imponente edifício de granito cuja verticalidade é acentuada pela grande torre saliente.

A Fachada Principal do monumento é dominada pela torre axial, de planta quadrangular

e marcada pelo pórtico retabular maneirista, feito em arco e flanqueado por dois pares de colunas.

Sobre o portal estão as imagens de S. Pedro e S. Paulo que ladeiam a de Nossa Senhora da Assunção.

E acima destes ainda se pode observar uma janela em arco ladeada por dois óculos.

Na parte superior da torre existem duas varandas e, acima destas, os sinos e também um relógio. A um nível mais elevado, nas laterais da Igreja, estão várias janelas e mais abaixo dois pórticos de estilo renascentista, um em cada lado.

Possui lateralmente, dois corpos salientes: a Sacristia, a norte;

(Vista geral)

(Pormenor)
e um Alpendre junto ao pórtico sul.

A Capela-mor de forma retangular é destacada do corpo principal.

No portal lateral Sul, em estilo renascentista, lê-se a data de 1567 numa inscrição. Ladeando o portal, podemos ver dois rostos esculpidos em baixo-relevo, em medalhões, que constituem um elemento decorativo característico do estilo e que alguns historiadores identificam como sendo o retrato dos arquitetos.
O portal lateral Norte, também renascentista, tem a data de 1566.

Os elementos decorativos que animam o exterior do templo merecem uma observação atenta, nomeadamente as gárgulas com formas zoomórficas,

antropomórficas e de seres híbridos em atitudes curiosas.

Repare-se na figura que puxa as orelhas ou nas que estão de boca aberta, simulando gritos, mas com a simples função de escoarem a água da chuva.
No interior do vasto templo, pode-se reparar que está dividido em três naves e em cinco tramos, estando cobertas por abóbada de múltiplas nervuras que saem de oito enormes pilares. É em estilo manuelino e está enriquecido por vários altares barrocos. Está organizado segundo o esquema das «igrejas-salão» com três naves, sendo os cinco tramos destas abobadados à mesma altura.

(Perspetiva I)

(Perspetiva II)

(Perspetiva III)
Na Capela-mor pode-se admirar um grande retábulo de talha dourada barroca, da autoria do escultor bracarense Jacinto da Silva, de 1752.

(Vista geral ampla)

(Vista geral I)

(Vista geral II)

(Pormenor I)

(Pormenor II)

(Cadeiral)
A abóbada é de berço.

As pinturas murais do altar-mor e do corpo da igreja, atribuídos a Francisco Bernardo Alves, datam do séc. XVIII.

(Lado da Epístola)

(Lado do Evangelho)
Nas paredes laterais da mesma encontram-se frescos representando a Anunciação e a Última Ceia.

A Capela-mor é ladeada por dois absidíolos em semicírculo: a Capela do Santíssimo Sacramento,

(Vista geral)

(Pormenor)
que apresenta um retábulo com vários painéis alusivos à Vida e Paixão de Cristo, bem como esculturas dos evangelistas e doutores da Igreja

(Pormenor I)

(Pormenor II)

(Pormenor III)

(Pormenor IV)

(Pormenor V)
e a Capela das Chagas – que parece reaproveitar elementos de talha dourada rococó, provavelmente provenientes do desaparecido convento de S. Francisco.
Existem também outros quatro no resto do templo - o das Almas do Purgatório,

o de Nossa Senhora da Assunção,

o de Santo Cristo ou S. Pedro e S. Paulo

(Vista geral)

(Pormenor I)

(Pormenor II)
e o da Sagrada Família.

Na Sacristia pode-se também apreciar outra magnífica obra de talha, seiscentista e de tipologia maneirista.
A Sacristia é abobadada com nervuras de traça manuelina. O altar, proveniente do corpo da igreja, é atribuível ao séc. XVII.
No Batistério é de realçar o Santo Cristo, S. João Evangelista e Maria Madalena, de aspeto flamengo.
Na Capela do Santíssimo Sacramento há a realçar um tríptico flamengo - representando o «Casamento de Santa Ana e a Sagrada Parentela».
O Tríptico da Parentela de Santa Ana, está situado na Capela do Santíssimo Sacramento. É um precioso retábulo do séc. XVI, em estilo maneirista, proveniente de uma oficina de Antuérpia. É considerado uma das obras de arte mais valiosas da região transmontana.

(Vista geral)

(Painel da esquerda – O casamento)

(Painel da direita - S. Joaquim com Santa Ana à entrada da Porta Dourada de Jerusalém)

(Painel central - Santa Ana rodeada dos três maridos e restante Parentela, já no Paraíso, sem ciúme nem pecado)
“Santa Ana foi exaltada pelos humanistas a partir do século XV e largamente durante o século XVI, apontada como esposa ideal, opondo-se à feiticeira tentadora que leva o homem ao pecado”. In:- «Relações culturais internacionais de Torre de Moncorvo (séculos XV-XVII)» - Adriano V. Rodrigues e Maria da Assunção Carqueja.
O tríptico está autenticado nas costas com sinais da corporação dos escultores de Antuérpia.
No Coro Alto, que está num piso intermédio da torre, há a apreciar um soberbo órgão de tubos, datado do século XVIII.

(Vista geral do Coro Alto com o órgão)

(Órgão no Coro Alto)
De acordo com a tradição popular, chama-se a esta igreja «de figos e de mel»: por uma figueira ter nascido a meio da fachada e de existir uma colmeia na parede exterior do lado direito que, após várias tentativas de limpeza, aí permanecem há muitos anos.
No Átrio da Igreja, à esquerda, abre-se uma grande inscrição em letras capitulares maiúsculas, com algumas abreviaturas, referentes à Capela de Assoreira (Nossa Senhora da Teixeira).



