Memórias de um andarilho - Caminhadas nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor 5ª etapa - Destaque - Mogadouro
CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS
LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR
5ª ETAPA:- BRUÇÓ-ESTAÇÃO DE MOGADOURO
DESTAQUE – MOGADOURO
(27.junho.2012)

A antiga Estação de Caminho de Ferro de Mogadouro dista cerca de 5 Km da vila com o mesmo nome.
Enquanto fazíamos o percurso pela Linha, não tivemos oportunidade de a visitar.
Num nosso post, neste mesmo blogue, de 26 de janeiro de 2013, subordinado ao título «Gallaecia – Por terras da Gallaecia – Adeus à Ponte de Remondes e rio Sabor!», a determinada altura, dizíamos:
“No passado 3 de Maio, vindo dos lados de Miranda do Douro, onde fomos visitar um familiar, depois de termos terminado, a pé, a antiga Linha de Caminho de Ferro do Sabor, passámos por aquele local em direcção a Izeda, onde nunca ainda tínhamos parado, apesar de por lá passarmos uma ou duas vezes (…).
Das nossas caminhadas pelas «Travessas e Linhas Abandonadas» deste nosso Reino Maravilhoso, para além de conhecermos o rio Douro, do Pocinho à Barca d’Alba, o rio Tua e o Corgo, que correm paralelos às respetivas linhas, estávamos ansioso também por conhecermos o Sabor. Razão pela qual nos aventurámos a fazer também aquela linha, desde o Pocinho até Duas Igrejas, término da mesma.
Mas, quando se percorre esta Linha, o rio anda muito afastado de nós, a não ser entre Pocinho e Torre de Moncorvo, nas proximidades daquela vila.
Para quem vinha de fazer uma Linha com o nome de um rio, ainda por cima com a fama, tal como o Tua, que corria em «estilo natural» e sem qualquer intervenção humana que o desfigurasse no seu aspeto e estrutura natural, mas que, praticamente, nunca o tínhamos visto, hoje entendemos aquela nossa atitude de pararmos ali à saída da Ponte de Remondes e «botar» pernas rio acima, num forte impulso para o melhor conhecermos e sentirmos, depois da frustração de termos feito a Linha que levava o seu nome e quase nem sequer termos visto - em toda a sua extensão - as suas águas”.
E, tal como já aconteceu em 26 de janeiro de 2013, deixamos aqui aos nossos(as) leitores(as) os excelentes cenários que, então, ali observámos.

(Cenário I – Na descida de Mogadouro para Macedo de Cavaleiros pela EN 216)

(Cenário II – Na descida de Mogadouro para Macedo de Cavaleiros pela EN 216)

(Cenário III – Arquitetura tipicamente transmontana de uma casa)

(Cenário IV – Rio Sabor nas proximidades da antiga Ponte de Remondes)

(Cenário V – Foz do rio Azibo perto da antiga Ponte de Remondes e Ponte de Meirinhos sobre o rio Azibo)

(Cenário VI – Ponte de Meirinhos sobre o rio Azibo)

(Cenário VII – Rio Sabor e antiga Ponte de Remondes ao fundo)

(Cenário VIII – rio Sabor e antiga Ponte de Remondes)

(Cenário IX – Perspetiva I da antiga Ponte de Remondes)

(Cenário X – Perspetiva II da antiga Ponte de Remondes)

(Cenário XI – Perspetiva I pelo rio Sabor acima)

(Cenário XII – Perspetiva II pelo rio Sabor acima)
Todas as imagens que acima foram exibidas foram tiradas em maio de 2012.
Atualmente, a antiga Ponte de Remondes, com a construção do Empreendimento Hidroelétrico do Baixo Sabor, ficou submersa e foi substituída por esta:

(Perspetiva I da atual Ponte de Remondes)

(Perspetiva II da atual Ponte de Remondes)
Desde janeiro de 2016 que deixou de ser possível atravessar a antiga Ponte de Remondes. A atual ponte foi construída a montante da antiga, permitindo desfrutar de todo o panorama a montante e a jusante.
Contudo, para nós, não é a mesma coisa!...
***
Na nossa aproximação à vila de Mogadouro, ei-la alcandorada num morro do Planalto Mirandês.

Quando, a 3 de maio de 2012, nos aproximámos do centro urbano de Mogadouro, deparámos logo com esta rotunda,

ao lado da Capela da Senhora do Caminho,

que fica situada no início da avenida com o mesmo nome. Este templo religioso foi edificado no século XVII, vindo a sofrer alterações no decorrer dos tempos.
A atual configuração foi obtida com as obras realizadas no século XIX.
De Mogadouro vamos falar, principalmente, da sua história.
Mogadouro é um povoado antigo e anterior à fundação do Condado Portucalense. O topónimo Mogadouro, será de origem árabe - Macaduron.
É um concelho eminentemente rural. Agreste, mas doce. A sua gente é sã, afável e laboriosa. E herdeira de um carácter nobre e de uma história rica e antiga. Está situado no Nordeste Transmontano, no Planalto Mirandês, entre os rios Douro e Sabor. Está limitado pelos concelhos de Vimioso, Miranda do Douro, Alfândega da Fé, Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta. E também pelos Ayuntamientos ribeirinhos do Douro, de Salamanca e Zamora.
Foi ocupado pelos Romanos. Dominada mais tarde pelos Visigodos, até à conquista por parte dos Muçulmanos.
Na Reconquista Cristã, na Península Ibérica, Mogadouro, ainda com D. Afonso Henriques, passa a integrar o Reino de Portugal. O nosso primeiro rei entrega esta terra de Mogadouro à Ordem dos Templários. Por volta de 1145.
Em 1272, D. Afonso III concedeu o primeiro foral a Mogadouro, tendo sido renovado no ano seguinte. Mais tarde, em 1512, D. Manuel concedeu novo foral. Em 1433, a vila de Mogadouro é doada a Álvaro Pires de Távora, passando a estar desde então ligada à família dos Távoras.
Contudo, só a partir do século XVI é que Mogadouro teve algum progresso de relevância, quando a família dos Távoras toma o comando da vila e da sua fortaleza e coopera de tal forma que a vila desenvolve-se imenso.
Para tal feito contribuíram obras como a fundação da Santa Casa da Misericórdia e também do seu templo, renascentista, cuja portada principal é formada por duas pilastras dóricas

e frontão tem sobre a arquitrave um nicho em forma de conha – onde se encontra uma bela pietá – e é ladeado por duas aletas,

bem assim a ponte entre Valverde e Meirinhos ou a ponte de Remondes entre Mogadouro e Macedo de Cavaleiros, de que já acima falámos.
Diz-nos «Mogadouro, mais que imagina» que, na vila de Mogadouro, é indispensável uma visita ao seu Centro Histórico, onde encontramos o Castelo, do século XII,

(Torre do Castelo; ao lado, a Torre do Relógio)
e de que hoje, como podemos ver, do original, apenas existe uma das torres,

[Sobre o Castelo de Mogadouro, e para quem queira aprofundar mais este tema, recomenda-se a leitura dos sítios da internet «Fortalezas.org – Castelo de Mogadouro» e «Viagem à Natureza – Castelo de Mogadouro» que nos dizem que Mogadouro, localizada na vertente norte da serra de Mogadouro, era uma antiga vila, que, juntamente com seu castelo, constituíram, nos alvores da nacionalidade, um importante ponto estratégico sobre a linha lindeira em Trás-os-Montes, juntamente com os castelos de Algoso, Miranda do Douro, Outeiro, Penas Róias e Vimioso. Comenda da Ordem do Templo, posteriormente foi sucedida pela Ordem de Cristo].
a Igreja Matriz, de S. Mamede, de origem românica, apesar de ter sido substituída pelo templo que hoje podemos apreciar

e cuja fundação remete para as primeiras décadas do século XVII, devendo-se também a D. Luis Álvares de Távora, tal Igreja da Misericórdia (século XVI), o Convento de São Francisco (1620-1682),

contíguo à igreja com o mesmo nome, cuja fundação remete para as primeiras décadas do século XVII e, uma vez mais, se deve a D. Luis Álvares de Távora,

(Fonte:- «Mogadouro, mais que imagina»)
e o pelourinho.

Embora estivéssemos no Castelo e no pelourinho da vila, na altura, não conseguimos, no meio daquelas ruínas, distinguir o antigo Solar dos Pegados, próximo do pelourinho.

(Fonte:- Viagem a Portugal [Janeiro - Trás-os-montes e alto Douro Vinhateiro - O início da aventura])
Se se quiser ver o que resta deste Solar, consulte-se o blogue «Mogadouro (ho mogadoyro)», de 26 de julho de 2011.
Diz-nos mais «Mogadouro, mais que imagina» que a Sala Museu de Arqueologia do Município de Mogadouro abriu nos finais década de 80 do século XX, resultante das campanhas arqueológicas realizadas no concelho durante a referida década, e que, no seu interior, conservam-se peças que mostram a história das culturas passadas, que habitaram no atual concelho de Mogadouro. Os artefactos expostos e guardados, antes de se converterem em peças de Museu, foram objetos do quotidiano dos nossos antepassados. E que, das primeiras formas de manifestações dos rituais funerários, chegaram até aos nossos dias os monumentos megalíticos da Pena Mosqueira e do Barreiro, dos quais foram recolhidos artefactos de índole quotidiano e de manifestações artísticas.
E continua: dispersos pelo concelho, os castros, as igrejas com, origens românicas, como Algosinho e Azinhoso, os pelourinhos, e as próprias construções tradicionais que podemos descobrir pelas aldeias do concelho são marcas indeléveis de um património vasto e extremamente rico.
O concelho vive principalmente da agropecuária.
Produz cereais e explora a amendoeira, a vinha, a oliveira, o castanheiro e o sobreiro. E cria gado para produção de carne – bovino, caprino e ovino - para a produção de lã, leite e também carne.
Existem no concelho coutos onde se pode praticar a caça ao coelho, à lebre e à perdiz. O setor secundário é dominado principalmente pela construção civil e pelo fabrico de cerâmica.
O turismo começa agora a ganhar alguma relevância em relação a outras épocas, estando o concelho inserido na Região de Turismo do Nordeste Transmontano.
A gastronomia é uma das riquezas da região, assim como em todo o Planalto Mirandês, onde se destacam a posta mirandesa, o bulho com cascas, a feijoada à transmontana, a marrã, os chichos, o javali, o cabrito assado, as costeletas de borrego grelhadas, a caça, os peixinhos do rio de escabeche, as sopas de Xis e de Cegada, os queijos de ovelha, o mel e claro o fumeiro.
A ocasião ideal para visitar esta região é fevereiro/março, quando as amendoeiras estão em flor cobrindo os campos com um manto branco, podendo-se admirar as belíssimas paisagens, a partir da serra da Castanheira ou do castelo de Penas Róias, nas redondezas.
Os bordados e as rendas são sem dúvida o mais vulgarizado artesanato local dada a facilidade com que o podemos encontrar. Nas aldeias, frequentemente encontramos as senhoras sentadas na soleira da porta de suas casas fazendo os seus bordados e rendas, ao mesmo tempo que desfrutam do bom tempo.
Uma vez que Mogadouro fica junto do Parque Natural do Douro Internacional, podem-se realizar passeios de barco, num troço do rio Douro, que estabelece a fronteira entre Portugal e Espanha, observando-se as suas imponentes arribas - margens rochosas e abruptas que atingem, em alguns pontos, mais de 200 metros de altura.
Remata o sítio que vimos seguindo que, para além do português, nesta região, também se fala o mirandês. Quando por lá passámos não nos demos conta de tal!
No coração desta vila transmontana, ao lado do Convento e da torre da Igreja de S. Francisco,

está erigido um monumento a um célebre escritor da terra – (José Francisco) Trindade Coelho.

Quem quiser conhecer a detalhe a vida e obra de (José Francisco) Trindade Coelho, descarregue a dissertação de doutoramento de João dos Santos Cabrita de Encarnação - «Trindade Coelho: Estudo Crítico e Arquivo Documental de um polígrafo Finissecular», em pdf.
As suas duas obras principais são: o livro de contos - «Os Meus Amores» e «In illo tempore».
Do autor do blogue «Letras são papeis – Trindade Coelho», de 31 de março de 2009, a certa altura, diz-nos:
“Porque vivi muito tempo a dois passos da casa onde ele nasceu e porque da minha janela, como da dele, se via a torre da igreja do Convento de S. Francisco, cedo despertou em mim o gosto pelo autor.
O primeiro contacto com as palavras do autor veio-me pela boca de uma amiga mais velha, que nos lia, aos que ainda não sabíamos ler, excertos da autobiografia do autor, inserta no volume de contos Os Meus Amores. Só na adolescência, li esse e outros títulos. Deliciei-me com O Senhor Sete, que constitui uma recolha de exemplares da cultura popular (adivinhas, provérbios, lengalengas, superstições), alguns dos quais relacionados com a simbologia do número sete.
Trindade Coelho foi considerado, por alguns homens de letras do seu tempo (e por alguns atuais), um escritor menor, sobretudo pela ruralidade que perpassa nas suas obras (temas, personagens e linguagem), talvez por isso as comemorações dos cem anos da sua morte, em 2008, não tenham tido o eco merecido".
É pena, porquanto, na sua obra, perpassa muito do espírito, tradições, usos e costumes do transmontano de antanho, do qual nós, os de cá do Marão, como seus legítimos herdeiros, temos entranhado(s) no nosso «ADN».
Deixamos aqui um pequeno excerto da obra «Os Meus amores» de Trindade Coelho (que não devemos confundir com «Amores Novos», de seu filho, Henrique Trindade Coelho):
"Desembarcaram num largo. Era o ponto mais central da terra – “a praça”. Aqui e ali, ao acaso, algumas árvores enfezadas, quase tudo olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato, com casas em volta – o que na vila havia de melhor em construções. Ficava ao meio o pelourinho, exótico, mutilado, de uma pedra grosseira e muito negra. Era uma alta coluna de oito faces, com o seu anel de ferro ao meio e uma argola pendente do anel. A coluna que se elevava sobre um pedestal de três degraus, em hexágono, terminava ao alto num grande X de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de três gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do X, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estilo, sem gosto, sem cal. Algumas pedras de armas em velhas paredes decrépitas, desequilibradas, hidrópicas, atestavam aristocracias remotas, agora de todo extintas. Ao alto, dominando a negrura chamuscada dos telhados, o velho castelo, romano de origem, fazia tristeza com as suas ameias derrocadas e as grossas paredes em ruínas. Ao lado do castelo erguia-se destacadamente a velha torre do relógio, de uma arquitetura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas sete: aquele “estafermo” é que não andava nunca direito. De dia ninguém o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando num mostrador sem letras, de uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar, alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrasado, ora adiantado, dando meia-noite quando eram quatro da tarde, e meio-dia mal despontava o Sol.
Eram as sete. Àquela hora é que os «figuros» da terra, quase tudo empregados públicos, vinham para o largo, à fresca".

Para finalizar, e para termos uma ideia geral sobre a vila do Mogadouro, visualizemos este interessante vídeo
MOGADOURO E OS TEMPLÁRIOS|PORTUGAL
CARICATURA DE (JOSÉ FRANCISCO) TRINDADE COELHO



