Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - Destaque II - Património de Miranda do Douro
MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO
CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS
LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR
DESTAQUE II– PATRIMÓNIO DE MIRANDA DO DOURO
“O mirandês é o caso flagrante para não dizer espectacular
- e se o dissesse não mentiria -
em que um idioma conseguiu sobreviver quase no fim do prazo da sua aceitação.
Ora isso deveu-se, por muito que custe a muito boa gente,
não só ao direito consuetudinário do povo mirandês,
mas sobretudo a um homem teimoso,
sacerdote não só da Igreja Católica como da própria Cultura Mirandesa,
que passou a maior parte da sua vida a entrincheirar elementos
e argumentos para garantir o raio dessa sobrevivência.
E aguentou-se no barco até ao desespero.”
José Viale Moutinho

Antes de penetrarmos no cerne ou Centro Histórico desta cidade, fiquemos com uma panorâmica aérea da urbe e seus arredores.
MIRANDA DO DOURO, "CIDADE MUSEU" DE TRÁS-OS-MONTES!
Penetremos agora no interior desta cidade, descobrindo os seus tesouros. Para o efeito, servimo-nos de três «guias» ou cicerones digitais:
- Miranda do Douro, «Cidade Museu» de Trás-os-Montes
- Poesia dos sentidos
- A casa erótica, o menino da Cartola e o 2 do rio
- Os 12 melhores locais para visitar em Miranda do Douro.
Acessoriamente, utilizámos:
- Miranda do Douro 2016 | Portugal
- Viagem à Natureza – Fonte dos Canos
- Coslanilha street
- Castelo de Miranda – Câmara Municipal
- Roteiro de um fim de semana em Miranda do Douro
- Concatedral de Miranda do Douro
- O Menino Jesus da Cartolinha
- Miranda do Douro - Um guia para quem quer visitar Miranda do Douro
- Miranda do Douro e a cinematográfica puente de Requejo (1ª Parte)
- Miranda do Douro – História, Cultura e Património Mirandês (2ª Parte)
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Com vestígios de presença humana desde remotos tempos, Miranda tem fortes raízes Celtas e foi mesmo ocupada pelos Romanos.
A vila de Miranda surge mais claramente com o Rei D. Dinis, alcandorada sobre as arribas do Douro e era banhado pelos rios Douro e Fresno.
Com uma origem eminentemente medieval, Miranda do Douro cresceu orgulhosa da sua categoria de fronteira multicultural.
É aquando do Tratado de Alcanices – celebrado entre D. Dinis, rei de Portugal, e Fernando IV, de León y Castilla, que esta foi elevada à categoria de vila e aumentando-lhe os seus privilégios. Um dos privilégios deste foral era Miranda nunca sair da coroa.
Com uma posição estratégica importante, fronteiriça com Espanha, foi uma importante localidade na Idade Média.
A partir desta altura, Miranda torna-se progressivamente na mais importante das vilas cercadas de Trás-os-Montes.
Esta cidade, sede do concelho, está situada num espigão que domina a pique a margem direita do rio Douro, no troço internacional que separa a província portuguesa de Trás-os-Montes da província espanhola de Castilla y León, no conhecido Parque Natural do Douro Internacional.
É considerada a “Cidade Museu” de Trás-os-Montes, mantando a sua traça medieval e renascentista.
A atribuição do título de cidade a Miranda remonta a 1545, no reinado de D. João III, altura em que se tornou também sede episcopal. A antiga Sé, também designada Concatedral é, naturalmente, o ex libris da cidade.

Destacando-se num dos extremos do Centro Histórico da cidade, a vista da Sé é irresistível, com as suas feições severas, plasmadas na fachada granítica, concluído na última década do século XVI.

A Concatedral de Miranda do Douro, antiga Sé de Miranda do Douro, é um templo católico cuja construção teve início em 1552, inserindo-se na tipologia de sés mandadas construir por D. João III, com uma fachada harmónica, em que um corpo central é ladeado por duas poderosas torres, e um interior em três naves abobadadas à maneira gótica, com cruzaria de ogivas de nervuras visíveis. O templo foi concluído na última década do século XVI. O projeto foi feito por Gonçalo de Torralva e de Miguel de Arruda.

(Perspetiva I)

(Perspetiva II)

(Pormenor de uma das torres)
Em 1566 o bispo D. António Pinheiro consagrou o altar-mor e em 1609, D. Diogo de Sousa informa o Papa que a construção fora concluída.
Foi classificação como Monumento Nacional pelo Decreto de 16-06-1910, Diário do Governo n.º 136, de 23-06-1910.
Entremos e observemos no interior da Catedral, que nos guarda algumas surpresas.
Conforme vimos acima, na antiga Sé ou Catedral, pode apreciar-se o retábulo da capela-mor com esculturas em madeira, de alto relevo, considerado pela Revista «Varia de Arte» e por alguns historiadores da Arte como um dos melhores conjuntos de escultura policromada de toda a Península Ibérica.

E não esquecer a “loja maçónica” demarcada na área do cadeiral do cabido por ladrilhos negros e brancos.

O órgão, com a sua «carranca».

“És mais feio do que a carranca da Sé”, diz-se por estas paragens.
Mas a sua maior atenção irá, certamente, para o curioso Menino Jesus da Cartolinha, Menino Jesus do Chapéu Alto, ou ainda, o Nino Jasus de la Cartolica, peça única da iconografia cristã. Trata-se de uma verdadeira preciosidade, esta imagem única no mundo cristão.

A figura de pequeno tamanho dá corpo à lenda que conta que durante um cerco espanhol à cidade, (Guerra dos Sete Anos ou Mirandum), quando a população exaurida pela fome e pelas doenças se preparava para a rendição, começou a surgir um menino em vários pontos da muralha a instilar ânimo aos habitantes. Foi bem-sucedido, mas nunca foi encontrado. O milagre foi atribuído ao menino Jesus e em sua honra esculpiu-se uma imagem vestida com trajes fidalgos — atualmente, as roupas em miniatura que compõem o seu vasto guarda-roupa (a tradição diz que raparigas solteiras devem dar as meias e as camisas) são também parte da curiosidade.
A Catedral ou Sé, ou ainda Concatedral, foi edificada, ao que parece, no mesmo sítio onde antes se erguia a antiga Igreja de Santa Maria, mandada construir por D. Dinis. Com três naves, esta catedral possui uma arquitetura majestosa e um interior de grande riqueza e elegância.
A Catedral ou Sé é “exagero” para estas paragens, como comenta alguém. “Ninguém espera isto aqui.” Mas “isto”, agora a Igreja Matriz de Miranda, foi a antiga Sé de Miranda do Douro, herança do período em que a cidade foi sede de diocese, entre 1545 e 1780.
A Concatedral de Miranda do Douro, que levou de vencida às Igrejas de Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta, no tempo de D. João III, pelo que se diz, mercê da vontade de sua esposa, D. Catarina, que, pela primeira vez que veio a Portugal, para se consorciar com o Rei, entrou por aqui, exibe-se orgulhosa num extremo do pequeníssimo planalto, no seu Centro Histórico.

Por detrás da Igreja, antiga Sé ou Concatedral, as Ruínas do Paço Episcopal, destruído por um incêndio há 200 anos, dão ideia da importância de Miranda desde o século XIV. O privilégio episcopal foi perdido em 1764, em favor de Bragança.

(Perspetiva I)

(Perspetiva II)

(Perspetiva III)

(Perspetiva IV)
Perto da Catedral, do outro lado do rio Douro, encontramos o Penedo Amarelo,

uma magnífica paisagem, de um amarelo bem vivo, quase a cair no Douro. No penedo, com 690 metros de altura, erguido como se fosse o diabo a olhar para Castela, para parafrasear Miguel Torga, sujeito a as vertigens, conseguimos observar um enorme número 2, que mantém um dos mistérios das redondezas, que parece ter ido picado por uma mão humana.
A explicação é clara: a cor do 2 deve-se aos líquenes, aqui em grande quantidade e variedade, que é sinónimo de ar, livre de contaminação. Vê-se à primeira, embora não tão visível ou óbvio de outras perspetivas.
Corre, quanto a este número, uma certa maldição: os solteiros, que não o vêm, não casarão; os casados, que não o vêm, estão a ser traídos.
A imaginação do povo é fértil!...
Na Praça D. João III,

está o Museu da Terra de Miranda. Instalado num edifício do século XVII. O Museu oferece-nos um rápido olhar sobre a etnografia mirandesa e dá-nos ricas informações sobre a casa tradicional, o artesanato e o vestuário.

Na altura em que estivemos em Miranda do Douro, a cidade, os seus espaços públicos estavam todos em obras de novas pavimentações das ruas.
Rodeando a Praça de D. João III, o Edifício da Câmara Municipal

e o Solar dos (de is) Ordazes.

No meio da praça, encontramos duas estátuas em tamanho real de um casal mirandês:

ele envergando uma Capa de Honras, uma peça única do vestuário tradicional português e ainda usada em várias cerimónias, inclusive pelo Presidente da Câmara que assim recebe os convidados oficiais.

As Ruínas das Muralhas. Eis o que resta preservado delas.

A sua construção teve início nos finais do séc. XIII. Conserva apenas, parcialmente uma torre do séc. XV, a Porta da Traição, da Senhora do Amparo e o Postigo.

Não podemos deixar de falar da antiga Igreja setecentista dos Frades Trinos. Agora imprevisivelmente profana, e transformada na Biblioteca Municipal.

(Perspetiva I – Vista lateralmente)

(Perspetiva II – Vista de frente)
O Castelo que foi melhorado pelos primeiros reis portugueses. Contudo, com as diversas lutas, que se travaram nos anos seguintes, arruinaram-no, sendo necessária a sua reedificação no reinado de D. Dinis, por volta de 1280. A boa construção deste castelo fez com que resistisse aos sucessivos ataques castelhanos, no reinado de D. Fernando, que mandou cunhar moedas com um «M», sobre o escudo das quinas.
Miranda do Douro foi-se à Guerra dos Sete Anos - que, aqui, ficou conhecida por Guerra do Mirandum - e o seu castelo foi-se pelos ares.

Na refresga espanhola à cidade muralhada, um projétil caiu sobre um armazém onde se guardava pólvora: as muralhas e a torre de menagem do castelo ruíram, 400 pessoas morreram. Hoje, o que resta da alcáçova do castelo de Miranda é uma bela ruína a mirar o Fresno, o segundo rio de Miranda, a seguir ao Douro.

(Perspetiva I)

(Perspetiva II)

(Pormenor)
O antigo pátio de armas é um parque de estacionamento a dois passos da Rua Mouzinho de Albuquerque, espinha dorsal do núcleo histórico, onde o comércio mais abunda.

Nas proximidades do Castelo, a Casa de Música Mirandesa.

A mais importante das ruas de Miranda é a Rua da Costanilha, de origem medieval. A sua antiguidade remonta ao séc. XV. Aqui se acantonava a colónia judaica.

É na Rua Costanilha,

e suas satélites, particularmente a Rua Nova,

que o carácter medieval de Miranda parece irredutível, quando fica banhado pela luz amarela dos candeeiros de ferro forjado.

O casario quinhentista,

(Pormenor I)

(Pormenor II)

(Pormenor III)
de pormenores manuelinos, forma um entramado mais ou menos conservado, às vezes inesperadamente erótico, como a Casa das Quatro Esquinas —

medieval, com quatro janelas a fazer esquina - duas em cada andar -.
Porém o destaque vai para os dois cachorros: um simbolizando a Luxúria;

o segundo, Cronos, o deus grego do tempo.

Este cachorro ou modilhão, erótico, ou da Luxúria, na Casa das 4 Esquinas, encontra-se documentada no livro «Judeus em Trás-os-Montes» (A Rua da Costanilha), de António Júlio Andrade e de Maria Fernanda Guimarães, que nos dizem que é também um ex-libris da cidade.
Quanto ao cachorro ou modilhão erótico, referem-se estes dois autores que: «Quereriam os construtores marranos da Casa das 4 Esquinas dizer que se estavam c… para os homens da governança da terra e administradores da Sé episcopal, hipócritas zeladores da ordem social cristã estabelecida e que os metia na Inquisição? Deveremos ler na pedra esculpida um grito de revolta e de sátira dos marranos de Miranda contra os seus inimigos e perseguidores?»
Outra interpretação diz-nos que, esta casa do século XVI, com cachorros eróticos, que revelam os segredos da cama medieval.
O modilhão da Luxúria é representado por um cão que, com a língua, toca os órgãos genitais de uma mulher.
Pela Ponte dos Canos ou Ponte da Fonte dos Canos foi por onde entraram os espanhóis na Guerra do Mirandum. É tabuleiro plano, dos fins do século XVI, assenta sobre três arcos quebrados e desiguais. Tem três talha-mares, dois a montante e um a jusante.

A Fonte dos Canos,

de estrutura barroca, de tipo relicário, com telhado piramidal em escama, recebeu no séc. XVIII o painel das Almas do Purgatório. No interior, podemos ver os apoios dos cântaros.
Sobre a cornija, as Almas continuam a lembrar-nos em latim que "a nossa água não se vende de graça. Rezai por nós, pois a oração é o seu preço. Pai Nosso, Ave Maria, 1768".
No que respeita ao património religioso construído de Miranda do Douro não podemos deixar de falar da sua Igreja da Misericórdia.

Está situada no largo com o mesmo nome, desde o século XVI. A sua construção ocorreu entre os anos de 1554 e 1559, a mando do Bispo D. Rodrigo de Carvalho, tendo ficado pronta no ano de 1589.
De construção clássica, a sua fachada, em empena truncada por uma sineira, é ladeada por pináculos. Também na fachada, o portal maneirista enquadrado por duas colunas suportando uma arquitrave decorada e duas janelas de recorte barroco.
O seu interior é merecedor de ser visitado, com um recheio digno no que respeita à parte arquitetónica, igualmente com um conjunto de talha clássica e barroca nacional e rococó, bem como o retábulo do altar-mor, também de talha barroca nacional.
A fundação da Santa Casa da Misericórdia de Bragança deve remontar ao ano de 1518 e “fundou-se em uma igreja que havia dedicada ao Espírito Santo" (que dava nome à rua). O templo foi reconstruído em 1539, para servir como Igreja da Misericórdia.
O que mais nos impressionou, no seu interior, foram os seus altares, que poderemos ver no sítio da internet – «Portugal em 360º - Igreja da Misericórdia de Miranda do Douro» e que aqui deixamos três imagens dos três altares: altar-mor, altar da capela do lado da Epístola e da capela do lado do Evangelho.

(Altar-mor)

(Altar do lado da Epístola)

(Altar do lado do evangelho)
Não podíamos de deixar de falar na Casa dos Távoras nesta cidade.

(Fonte:- Enciclopédia das Localidades Portuguesas)
Está situada na Rua Abade de Baçal, este solar citadino pode estar compreendido entre os séculos XV e XVI. Pertencente à família dos Távoras, uma das mais importantes, nobres e poderosas de Portugal a partir do século XV. Elementos da família foram alcaides do Castelo de Miranda e senhores do Mogadouro, tendo um forte prestígio na política.
Contudo, o prestígio alcançado na política, possivelmente, e como reza a história, foi motivo para todos os elementos, ou quase todos, serem eliminados por enforcamento, a mando do Marquês de Pombal, considerando a família Távora traidores ao regime.
Vê-se aqui a obsessão, ou talvez não, do Senhor Marquês de Pombal por esta Família, de que mandou raspar as armas.

(Fonte:- Enciclopédia das Localidades Portuguesas)
Dizem-nos que em Miranda, se espera ouvir falar mirandês. Após a sua descoberta pelo filólogo Leite de Vasconcelos, o mirandês despertou um interesse crescente ao longo do século XX. Em 1999, foi reconhecido oficialmente o seu estatuto de língua. Atualmente, os estudos sobre o mirandês multiplicam-se.
o mirandês é a 2ª língua oficial de Portugal desde os finais dos anos 90. É a única língua reconhecida em Portugal para alem do português, com afinidades com Leão e Astúrias. A sobrevivência deste idioma demonstra uma idiossincrasia muito própria e apaixonada pelas tradições e modos de vida ancestrais.
Com a proximidade de Espanha, não é de admirar que muitas destas palavras façam lembrar o próprio castelhano.
Mas nós, durante o tempo em que lá estivemos, em 2012, não ouvimos falar muito o mirandês, não! Talvez em círculos mais fechados…
Além da língua, também na música e na dança se afirma a identidade de Miranda do Douro. Na área geográfica do concelho, os pauliteiros fazem perdurar uma tradição antiga, que toca o viajante pela espetacularidade e pelo colorido do som e do movimento.
Miranda do Douro é célebre pelo seu folclore colorido e animado – os Pauliteiros de Miranda - com o seu trajo típico de saias, executam a dança do pau acompanhada pelo toque da gaita de foles, cuja origem remonta à ocupação Celta da região, na Idade do Ferro.
A dança guerreira, de raízes greco-romanas - segundo algumas teorias – (mas inclinamo-nos serem mais celtas) - é um ritual quase hipnótico e tão ritmado que é difícil controlar os pés que teimam em acompanhar o compasso dos paulitos ao som de gaita-de-foles e caixa. Cada dança é um lhaço, a que corresponde uma música e uma letra, “normalmente em mirandês”.
Há cerca de 50 lhaços. E, alguns, parecem mesmo retratar momentos de uma batalha; outros, estão mais ancorados nas realidades da terra, como o “la yerba” ou “la rosa”; ou são, ainda, históricos, como o Mirondum, Mirondum, Mirondela/ Mirondum se fúe a la guiêrra (...).

Situada numa região árida e de difíceis acessos durante muitos anos, a região, ou Terra de Miranda, do Douro, soube preservar as suas tradições e modos de vida num mundo cada vez mais desenvolvido.
Nada melhor, para acabar este post, como apresentar este programa da RTP, de 2000, da autoria de José Hermano Saraiva – «Horizontes da Memória – A Guerra do Mirandum».
Aqui se fala do apogeu de Miranda, da importância da comunidade judaica marrana, da sua antiga Catedral, bem assim da sua queda, com a decisão do Bispo D. Aleixo de mudar a sede da diocese para Bragança, logo após os acontecimentos que levaram à destruição do Castelo, na Guerra do Mirandum, no contexto da Guerra (europeia) dos Sete Anos.
Opinião idêntica – a decisão do 23º Bispo de Miranda, D. Aleixo; a explosão do paiol do Castelo, matando cerca de 400 pessoas, pelos espanhóis, e a saída da colónia dos judeus marranos – tem também o insigne e ilustre mirandês, filho da Terra de Miranda – António Maria Mourinho – numa entrevista dada, em 1973, à RTP Memória, sob o título «Em Terra de Miranda», exibida já no post anterior.
Após esta época, durante muitas décadas e décadas, a queda de Miranda foi, cada vez mais acentuando-se.
Só após a década de 50 e 60 d0 século passado, com a construção da Barragem de Miranda

e a ligação a Zamora, a 40 Km, e Salamanca, com a valorização dos seus mais vincados elementos identitários, com comércio e a sua gastronomia, baseada na posta, carne da raça bovina autóctone (mirandesa) e com os enchidos (fumeiro) é que Miranda se começou a revitalizar um pouco. Fundamentalmente com o turismo espanhol.
Isto, por outro lado; por outro, o Parque Natural do Douro Internacional, com o rio, e sempre com Portugal de um lado e Espanha de outro, as suas enormes escarpas, com a sua avifauna e os seus passeios de barco – cruzeiros ambientais, promovidos pela Estação Biológica Internacional (EBI) de Miranda do Douro – bem assim os diferentes percursos pedestre, fazem de Miranda, altaneira no topo das arribas, e das suas terras, palco privilegiado para o Turismo de Natureza e «Birdwatching».

Estamos de acordo com aqueles que dizem que o que o passado separou, o presente e o futuro juntam neste projeto, em marcha, transfronteiriço, onde se olham dois parques naturais que têm o Douro como epicentro.
Tal como uma guia dos cruzeiros ambientais um dia dizia, afirmando que era do rio, porquanto filha de pai português e mãe espanhola.
Havemos de lá voltar… em breve. Para ver o Aqueduto de Vilarinho e para frequentar os seus belos miradouros e percorrer, caminhando, os seus mais recônditos escaninhos.


