Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - Destaque I - António Maria Mourinho e a Terra de Miranda
MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO
CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS
LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR
DESTAQUE I – ANTÓNIO MARIA MOURINHO E A TERRA DE MIRANDA
"Nossa Alma e Nossa Terra''
(Nôssa alma i nôssa tiêrra)
Ai! Alma, em retalhos dividida!
Que andou comigo em montes e carreiros,
Semeando amor e paz sem descansar,
Deixando leais amigos verdadeiros,
Na terra fria em que aprendi a andar!
Novos e velhos pelo mundo acompanhei,
E comigo viveram e estiveram,
Por mares e ares que não mais verei,
Nem eles porque muitos já morreram.
E eu ainda aqui 'stou ... e trabalhando
Nos papéis enfeitiçados que apareceram,
Me conquistaram e me aprisionaram
E aqui me prendem e emparedaram.
A vida da assim vivida em dor e glória
"Pelo mundo em pedaços repartida”
Sobeja-me em saudaços, dessa terra
Que mostrei com sua língua e sua história
....... E agora? …
Pensando ao fim do dia.
Que vai chegando a hora?!..
- De que hei-de arrepender-me
Neste cabo de saudades e tormentas?!...
Mas do bem que não obrei, sim me arrependo.
E mais!... Porque hei-de eu aspirar,
Por mais viver? …
- A vida não é minha ...
E se estou vivo é p'ra fazer render!
E quem ma deu e em mim a quer
Enquanto for servindo .... e Deus quiser;
Que venham anos mais, para viver.
António Maria Mourinho
Loures, 14 de Fevereiro de 1996
(Aniversário dos 79 Anos).

Não faria sentido, uma vez percorrida a pé a desativada e antiga Linha do Sabor, que não falássemos de Miranda do Douro.
Embora a antiga e abandonada Linha se tenha quedado por Duas Igrejas, quando pouquíssimos quilómetros restariam para chegar a esta antiga cidade, o certo é que o nome do términus da antiga Estação, conforme se pode verificar ainda num dos seus frontispícios, é – Miranda-Duas Igrejas.
Dos interesses que levaram a que a antiga Linha só aqui chegasse, pese embora rezar a história, para nós, agora, pouco importa.
Miranda do Douro fica nos confins do nordeste de Portugal. Tem a sua história na História de Portugal. História rica. Que, agora, apenas consta dos seus anais.
Hoje o que nos resta de Miranda do Douro não é apenas a sua quota-parte do esforço para a História de Portugal. É a sua própria história. Especial, peculiar.
Estamos com Orlando Ribeiro quando, na «Introduções Geográficas à História de Portugal – Estudo Crítico», (Livraria Letra Livre, 2018), afirma:
“Uma nação não é apenas um produto da História. Um grupo de homens unidos pela tradição comum, estabelecida, mantida e reforçada durante um longo passado de convivência, pela igualdança do falar, pela expressão dominante que entre eles tomam ideias e afetos, vive, ligado embora por estes laços morais, sobre um pedaço de solo. A configuração e a natureza do território, o ritmo consabido do clima, a vegetação que reveste as planuras e as serras, as culturas que, no decurso do ano, fazem mudar, segundo uma rotina consagrada, a fisionomia dos lugares, o modo como a população se junta ou dispersa, se adensa ou rarefaz, as maneiras de viver, a animação doa caminhos e dos sítios de convívio constituem, para um país, larga parte da sua expressão nacional. A terra de um povo já não é um simples dado da Natureza, mas uma porção de espaço afeiçoado pelas gerações onde se imprimiram, no decurso do tempo, os cunhos das mais variadas influências. Uma combinação, original e fecunda, de dois elementos: território e civilizações”.
Orlando Ribeiro refere-se a um país, a um povo, contudo, mutatis mutandis, bem se pode aplicar à(s) Terra(s) de Miranda. A história desta Terra(s) não são apenas o produto da História, das suas gentes. A história das suas gentes moldou-se em conformidade com a configuração e a natureza do território, ao ritmo consabido do clima, da vegetação que reveste o seu planalto, o qual determina o cultivo das suas terras, a configuração dos seus lugares e da sua população dispersa, concentrada.
A(s) Terra(s) de Miranda é (são) um produto não só da Natureza. São um porção de espaço afeiçoado pelas suas gerações que, ao longo dos tempos, lhe imprimiu um determinado cunho, um conjunto de influências. Em suma, e como diz o nosso autor Orlando Ribeiro, são o produto de uma combinação original e fecunda destes dois elementos – território e cultura.
Apenas estivemos duas vezes nesta cidade: uma delas, quando existia o Pólo de Miranda da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, a pedido do colega (galego), Xerardo Pereiro, fomos lá proferir uma palestra, no âmbito do Curso de Licenciatura em Antropologia, que ali se lecionava; a outra, coincidiu com a estadia (em 2012) do nosso filho, em trabalho no Reforço de Potência da Barragem de Picote, tendo ficado em casa dele, na cidade,

exatamente na altura em que fizemos as três últimas etapas da antiga Linha do Sabor.
Por esta altura, passámos umas boas horas por esta terra e sua região, tentando descobrir, ir ao encontro de sua «alma», do seu património.
Mas quem melhor para ir ao encontro e descobrir a alma desta(s) Terra(s) e suas gentes senão um dos seus filhos prediletos – António Maria Mourinho.

O poema que António Maria Mourinho escreveu por altura dos seus 79 anos, já muitíssimo perto do seu passamento, e que acima citámos, resumem a alma e o caráter deste insigne mirandês.
Mas demos a palavra a Belarmino Afonso, Diretor do Arquivo Distrital de Bragança, na «Evocação de António Maria Mourinho», em 1999:
“A vitalidade atual dos estudos mirandeses é o mais visível resultado das iniciativas de António Maria Mourinho, que em mais de 50 anos de canseiras nunca esmoreceu no desejo de manter viva e de divulgar a cultura mirandesa pelas sete partidas elo mundo. (…)
Etnógrafo por paixão e por identificação com as expressões e circunstâncias da cultura e língua mirandesas, António Maria Mourinho, que a si mesmo se considerava "um mirandês rural, foi talvez dos últimos a presenciar em contexto e a viver enquanto participante todos os aspetos das tradições e práticas desta cultura. Uma cultura de artesãos, pastores, boieiros, cavadores e aradores que a partir da década de 40, sob a pressão de múltiplos processos de aculturação dos hábitos, das práticas agrícolas, da alfabetização e das burocracias, experimenta um processo de desagregação e abertura sem possuir capacidade para se revitalizar. António Maria Mourinho tinha aguda consciência deste processo, que sentia inexorável (vejam-se os parágrafos iniciais da introdução a Nôssa alma i nôssa tiêrra), mas como nunca encarou com passividade a sua relação com a cultura em que nasceu e cresceu, empreendeu iniciativas que, na segunda metade do século XX, deram visibilidade e permitiram a sobrevivência e preservação da língua, da cultura e do património histórico das Terras de Miranda. No seu trabalho de múltiplas orientações, disperso e variado nos resultados, procurou dar sentido de presente à tradição, ou ao que dela restava. (…)
Trilhando caminhos que figuras maiores da etnografia portuguesa já haviam começado a abrir, como José Leite de Vasconcelos e Francisco Manuel Alves (Abade de Baçal), pode dizer-se que foi o primeiro mirandês a fazer através do estudo a defesa persistente e orgulhosa da sua cultura. Em carta de 20 de Março de 1945 diz-lhe o Abade de Baça!: "espero que tu sejas o meru continuador na carolice pela nossa Terra", testemunho que comentará quarenta anos mais tarde com humildade e admiração: «eu nunca passei, nem passarei de um simples pigmeu, junto dele, que era gigante em tudo. (…)
A contínua e multifacetada atividade de António Maria Mourinho tornou-o bem conhecido da comunidade ele etnólogos e historiadores, trazendo-lhe ao mesmo tempo prestígio e projeção mediática. Era habitual vê-lo pelas terras de Miranda acompanhando equipas de filmagens, estudiosos, jornalistas, ou mesmo simples curiosos com avidez de ruralismo. Em geral aproveitava também estas rondas para, com sentido de oportunidade, incentivar sobretudo os artesãos a conservar a arte e técnicas de fabrico de gaitas de fole e de flautas, de olaria, de cestaria, de ferraria, de tecelagem e outras, cujo risco de desaparecimento sentia como iminente, mas capaz de sobreviver se conseguisse corresponder a este surto de procura que motivava pelo menos a sua reanimação económica. Produzir artefactos para venda sempre era melhor que perder definitivamente a arte de fabricá-los.
Após a democratização do país em 1974 o interesse cios mirandeses pela sua própria cultura cresceu, deixou de estar envolto na antiga vergonha de quem se sentia inferiorizado e temia ser ridicularizado por não falar "grave". Hoje já quase não há nenhuma aldeia de Miranda que não tenha fundado o seu próprio grupo ele pauliteiros e que não cultive e mostre com orgulho o prazer de falar mirandês. António Maria Mourinho está também, sem dúvida, na origem deste reencontro dos mirandeses com a sua cultura.
Para os vindouros a marca mais perene de António Maria Mourinho será talvez o Museu das Terras de Miranda, fundado em 1982, por cuja criação lutou persistentemente e do qual viria a ser o primeiro Diretor (até 1995)”.
Numa dissertação de mestrado, sob o título «A evolução da Terra de Miranda: Um estudo com base nos sistemas de Informação Geográfica», apresentada por Luís Miguel Pires Meirinhos, em 2014, na Universidade do Porto, este autor apresenta 5 elementos identitários da Terra de Miranda, a saber:
1.- A língua mirandesa, descoberta por Leite de Vasconcelos;
2.- As Capas de Honras Mirandesas;
3.- Os Pauliteiros;
4.- As raças de gado autóctones;
5.- Outras manifestações culturais.
Com base nestes 5 elementos identitários, o autor contruiu um Mapa Síntese,

a partir de 14 elementos, que têm por base aqueles 5 identitários:
01.- área de influência atual da Capa de Honras Mirandesa;
02.- localização das oficinas de artesãos e pontos de venda da Capa de Honras;
03.- grupos de pauliteiros com atividade regular;
04.- localidades pertencentes à área linguística mirandesa;
05.- letreiros e reclames publicitários escritos em língua mirandesa;
06.- locais que têm placas de toponímia urbana em língua mirandesa;
07.- lugares que ainda usam o têm “toque de sinos” associados a Terra de Miranda;
08.- centros de música tradicional mirandesa;
09.- grupos de música tradicional mirandesa;
10.- grupos de danças mistas tradicionais mirandesas;
11.- tocadores de tamboril e fraita mirandesa;
12.- gaiteiros que tocam gaita mirandesa;
13.- festas ligadas ao solstício de Invernos;
14.- efetivos das raças de gado autóctones mirandesas.
No mapa supra que o autor nos propões, podemos constatar que o território que se propõe como Terra de Miranda é menor do que o território que compunha a Terra de Miranda na Idade Média,

pois existiu um recuo nos extremos noroeste e sul. A noroeste, as localidades que atualmente pertencem ao concelho de Bragança deixaram de integrar esse território: Outeiro, Rio Frio, Quintanilha e Milhão. No limite sul, o recuo foi menor, pois apenas Fornos e Lagoaça, que pertencem atualmente ao concelho de Freixo de Espada-à-Cinta não estão incluídos na Terra de Miranda.
Desta feita, Luís Miguel Pires Meirinhos afirma, que, nos nossos dias, a Terra de Miranda coincide com as áreas dos três concelhos que compõem o chamado “planalto mirandês”.
Por outro lado, este mesmo autor, na busca para compreender geograficamente o atual espaço da Terra de Miranda, procurou também respostas através das “imagens mentais”, porque, afirma, segundo António Damásio, “O cérebro humano é um cartógrafo nato”.
Assim, parecendo-lhe importante, no quadro da Geografia da Perceção, fazer uma análise de um conjunto de mapas mentais elaborados em torno deste espaço Terra de Miranda, aceitando que espaço da realidade é, em primeiro lugar, uma “representação”, selecionou dois conjuntos de inquiridos que foram desafiados a representar a Terra de Miranda, através de Mapas Mentais: um foi constituído por jovens em idade escolar e a frequentar o ensino básico, procurando saber que conhecimentos têm de um espaço que o vivem diretamente, alunos do 2º e 3º Ciclos do Ensino Básico e Secundário do Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro e o outro por um conjunto de alunos do 2º e 3º Ciclos do Ensino Básico e Secundário do Agrupamento de Escolas de Sendim.
De acordo com o resultado dos inquéritos efetuados, e tendo em linha de conta a intensidade dos elementos identitários da Terra de Miranda, para os alunos de Miranda do Douro, as terras mais ligadas ao termo Terra de Miranda são as que constam do mapa abaixo;

Por outro lado, a perceção mais intensamente identitária das terras que integram a Terra de Miranda para os alunos de Sendim, não diferem muito significativamente da dos alunos de Miranda.

No que concerne aos elementos não espaciais assinalados pelos alunos de ambas as escolas, são os seguintes, com as respetivas percentagens.

Para finalizar este post, deixamo-los com uma entrevista do insigne e ilustre mirandês, filho da Terra de Miranda – António Maria Mourinho – dada em 1973, à RTP Memória, sob o título «Em Terra de Miranda», e que vivamente recomendamos a sua visualização.


