Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - 8ª e última etapa :- Sendim-Duas Igrejas - Destaque - Fim de Linha:- Duas Igrejas - A Estação com os seus azulejos
MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO
CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS
LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR
8ª ETAPA E ÚLTIMA ETAPA:- SENDIM-DUAS IGREJAS
DESTAQUE – FIM DA LINHA:- DUAS IGREJAS (A ESTAÇÃO COM OS SEUS AZULEJOS)

A 6 de maio de 2018, no sítio da internet «Sete Mares - Azulejos da estação de comboios de Duas Igrejas (Trás-os-Montes)», podemos ler:
“No Nordeste Transmontano, com a incúria a que estamos tão (mal) habituados, jaz morta e arrefece a estação de comboios de Duas Igrejas.
Terminal da linha férrea de Trás-os-Montes, quedou-se esta por Duas Igrejas – não chegando a Miranda do Douro por meia dúzia de escassos quilómetros -, por ser ali o local dos silos cerealíferos da conhecida «campanha do trigo» do Estado Novo – sim, que também ocorreu em Trás-os-Montes e não apenas no Alentejo. Enfim, levar pessoas até à capital do concelho não faria falta… Bastava alcançar os cereais.
Por estas e outras razões que a razão vai desconhecendo, antes como agora fazem-se coisas estranhas que se deixam, depois, desfazer estranhamente sem que, entre esses dois tempos, o cidadão se sinta envolvido, participante ou cúmplice.
Chamo a vossa atenção para o curioso do cartaz afixado

e para a circunstância de todo o interior do edifício estar a ameaçar ruína.
Ou seja, o eventual roubo está acautelado; a mais que provável derrocada, não sabemos… Sem mais comentários (…)”.
Nesta Estação de Duas Igrejas (Miranda do Douro), com ampla estação terminal,

cais para mercadorias, armazéns diversos,

placa giratória de inversão de material circulante,

(Perspetiva I)

(Perspetiva II)
toma de água

e carvão, apesar do estado lastimável em que o edifício se encontra, o que nos chamou a atenção foi o conjunto de azulejos que o cobrem.
São da autoria de Gilberto Renda

e resultaram de uma encomenda, feita pela então CP, à fábrica lisboeta Sant’Anna.
Os painéis representam cenas de época do quotidiano transmontano,

(Painel I)

(Painel II)

(Painel III)
trajes tradicionais e casa típica transmontana,

(Painel IV)

(Painel V)
um aspeto do mundo rural,

(Painel VI)
dois panoramas da cidade de Miranda do Douro, com a (Co)Catedral como pano de fundo,

(Painel VII)

(Painel VIII)
as ruínas do antigo Paço Episcopal,

(Painel IX)
e, naturalmente, a (Co)Catedral de Miranda do Douro.

(Painel X)
O comboio – que existiu – nunca chegou a Miranda de Douro. Parou sempre em Duas Igrejas. Esta placa de azulejos, está nesta Estação morta da Linha do Sabor.
A catedral, essa nunca ouviu o apito do comboio a chegar! («Mensageiro de Santo António – Revista dos Frades Menores Conventuais»)

***
Chegados ao término da Linha do Sabor, em Duas Igrejas, nos arredores de Miranda do Douro, façamos um resumidíssimo histórico, utilizando o sítio «Geocaching – Linha do Sabor: Miranda – Duas Igrejas» .
Esta Linha foi construída de forma faseada. O seu longo atraso na conclusão foi ditado por falta de verbas, motivo, segundo este sítio, que nunca chegasse à cidade de Miranda do Douro.
A abertura da Linha do Sabor à exploração foi realizada da seguinte forma:
- Pocinho – Carviçais - em 17 de setembro de 1911;
- Carviçais – Lagoaça - em 6 de julho de 1927;
- Lagoaça – Mogadouro – em 1 de junho de 1930;
- Mogadouro - Duas Igrejas-Miranda - em 22 de maio de 1938.
Moncorvo foi, de todas as quatro sedes dos concelhos que a linha atravessa, a única a ter estação no próprio povoado. Freixo de Espada à Cinta, Mogadouro e Miranda do Douro tinham as suas respetivas estações longe dos respetivos aglomerados populacionais, o que em último caso condenou a longo prazo a Linha do Sabor ao declínio da sua procura.
Acelerado pelo despovoamento que a emigração ditou na segunda metade do século XX, o desinvestimento nesta via-férrea começou. O material tracionado a vapor durou até ao seu encerramento, tanto para os comboios de passageiros, como de mercadorias e mistos.
Para os de passageiros surgiu ainda uma pequeníssima automotora, fruto de um projeto nacional, que tinha carroçaria de autocarro e era impulsionada por um motor a gasolina.
Ainda existe um exemplar deste peculiar comboio, na Secção Museológica da estação do Arco de Baúlhe, na Linha do Tâmega.
Em suma, o material, anacrónico, começou a ser substituído gradualmente por circulações rodoviárias, deixando nos últimos anos de exploração ferroviária apenas uma circulação de comboios em cada sentido, que fizesse integralmente os 105km do Pocinho a Duas Igrejas, e duas que cumprissem apenas o troço Pocinho - Mogadouro. O principal suporte da manutenção da linha (os comboios mineiros da extração de ferro na Serra do Reboredo) acabou, com o declínio rápido da extração do ferro.
A 1 de Agosto de 1988, estava tudo acabado na Linha do Sabor, aonde tinha chegado recentemente material a diesel, as locomotivas 9020 da Alstom, que prestaram serviço nas congéneres de via estreita do Douro.
Ao longo destas oito reportagens das etapas que fizemos, percorrendo os 105, 291 Km da Linha, viemo-nos queixando do estado deplorável em que estava não só o canal, com o respetivo material fixo, por onde o comboio passava, como as suas respetivas infraestruturas (construções), autênticas obras de arte, como eram as suas estações e apeadeiros. À exceção do troço – à data em que a percorremos, 2012 – entre Torre de Moncorvo e Carviçais, tudo quanto vimos provocou-nos um verdeiro dói de alma!
Positivamente houve (há, porventura) um autêntico passa culpas de umas entidades para outras: uns, distantes das terras, pouco sensíveis ao significado afetivo que a Linha representava para as respetivas populações, prenhes de verdadeiro espírito mercantil, numa ótica nitidamente neoliberal, o que viam era apenas o vil metal; outros, que verdadeiramente deveriam lutar mais por um património que eram de todos nós, pago durante dezenas e dezenas de anos com o dinheiro dos impostos de todos nós, foram (e infelizmente ainda são) pouco sensíveis ao valor afetivo e cultural desta infraestrutura, embarcando também no paradigma neoliberal, não foram capazes de, perante um Estado centralizador, omnipresente e todo poderoso, prepotente, «pegar em armas» e lutar por esta «dama»; muitos outros, anónimos, sem verdadeiro sentido e postura cidadã, mercê que tantos anos de ditadura, que lhes entrou «tutano» dentro, desde que não seja coisa ou propriedade sua, o «resto», de todos nós, que se lixe!
E, a este propósito, não resistimos em reproduzir a notícia inserta no Jornal Nordeste, de 5 de julho de 2005, sob a epígrafe «Estações caem de podres»
“Cinco estações da antiga linha do Sabor continuam ao abandono, apesar de terem sido incluídas no Programa de Revitalização de Antigas Estações Ferroviárias (PRAEF) lançado em 2001.
Em causa estão as estações de Duas Igrejas, Sendim, Urrós, Bruçó e Freixo de Espada à Cinta, cuja recuperação foi incluída no Plano Nacional de Turismo de Natureza, com vista à criação de cinco unidades de alojamento.
Passados quatro anos, as cinco estações permanecem entregues a si próprias, sem que se vislumbrem investimentos capazes de pôr cobro ao abandono.
O programa chegou, mesmo, a ser alvo de um protocolo entre a REFER, o Instituto de Conservação da Natureza, o Parque Natural do Douro Internacional (PNDI) e as Câmaras Municipais de Freixo de Espada à Cinta, Miranda do Douro e Mogadouro.
Tudo parecia resultar, até os autarcas se aperceberem que o acordo era altamente lesivo para os cofres municipais. [Não houve negociações prévias? Dizemos nós].
«Tínhamos de recuperar as estações com verbas dos municípios e, como se isso não bastasse, ainda éramos obrigados a pagar 250 euros/ano à REFER por cada quilómetro de linha ocupado pelo circuito turístico que íamos criar», recorda o presidente da Câmara Municipal de Miranda do Douro, Manuel Rodrigo.
Contas feitas, as autarquias teriam de desembolsar 12.500 euros, anualmente, para utilizar o antigo canal ferroviário. Era um péssimo negócio.
No caso do município mirandês, estão em causa as estações de Sendim e Duas Igrejas, onde terminava a linha do Sabor. O autarca garante que o restauro dos dois edifícios não fica em menos de um milhão de euros, além das rendas exigidas pela REFER pelo aluguer da linha. «Era um péssimo negócio para a Câmara e foi por isso que não avançamos com o projeto», recorda o edil.
O autarca, contudo, lamenta o estado de degradação das estações de Sendim e Duas Igrejas, que possuem painéis de azulejos únicos.
Em Freixo de Espada à Cinta, a Câmara Municipal nunca acreditou no projeto, atendendo ao valor do investimento em causa. «Quando se propôs às Câmaras pagar 250 euros por quilómetro de linha via-se logo que era difícil alguém aceitar. O contrário é que seria correto, com as Câmaras a receber para limparem a linha e manterem as estações preservadas», alega o presidente da Câmara Municipal de Freixo de Espada à Cinta (CMFEC), Edgar Gata.
O presidente da Câmara Municipal de Mogadouro, Morais Machado, tem uma opinião idêntica. «Tudo o que se refere à REFER nunca pode ir para a frente, porque quer obter mais valias extraordinárias a partir de cadáveres que são as estações abandonadas», critica o autarca.
O edil acusa a empresa de «querer que as Câmaras aluguem a linha e recuperem as estações que a própria REFER deixou degradar de forma irresponsável», acrescentando que o protocolo tinha um prazo de concessão. «Ao fim de 20 ou 25 anos de concessão, tínhamos de entregar as estações à REFER, depois investirmos na recuperação», denuncia o edil.
Na área do município mogadourense situam-se as estações de Bruçó e Urrós, cuja recuperação ascende aos 500 mil euros. «Se a isto somarmos os custos do aluguer da linha e de funcionamento das estações vemos que é incomportável para autarquias como as nossas», recorda Morais Machado.
A pensar na transformação das linhas em unidades de turismo de natureza, o PNDI elaborou um percurso pedestre ao longo do canal ferroviário. O trilho encontra-se devidamente sinalizado, mas o mato dificulta a vida aos caminheiros. «O percurso está definido, mas era preciso recuperar as estações para criar equipamentos de apoio e tornar os trilhos mais atrativos», defende o diretor do PNDI, Victor Batista.
Na antiga linha do Sabor, a exceção é a estação de Lagoaça, [e, acrescentamos nós, a de Torre de Moncorvo, bem assim toda o troço que compreende o território por onde a Linha passa neste concelho] que foi recuperada, em 2001, pela Junta de Freguesia, com o apoio da CMFEC, estando a funcionar como centro de acolhimento, equipado com restaurante-bar e quatro quartos.
Quanto à antiga gare de Freixo, «não está velha, está completamente arruinada e a cair», lamenta o edil.
O Jornal NORDESTE tentou obter uma reação da parte da REFER, através de ofício enviado no passado dia 23 de Junho para o Gabinete de Comunicação e Imagem da empresa. Até ao fecho desta edição, as questões continuavam sem resposta”.
Como se vê, apenas «se esgrimia dinheiro» como único argumento!
E, face ao que acima se reproduziu, apetecia-nos, chamando a atenção a todas as entidades, particularmente os autarcas, citar aqui o antigo adágio popular quando diz que «de boas intenções está o inferno cheio»!
Até hoje – 2020! -, autarcas, Estado (Administração Central) e cidadãos deixaram cair em ruinas este património nacional, repete-se, pago a peso de ouro por todos nós, e posto às cobiça dos proprietários confinantes que, perante uma propriedade não passível de apropriação privada, por incúria e negligência das entidades estatais e autárquicas, dela se apropri(ar)am como coisa sua!
Uma vergonha! Infelizmente nesta Linha e por todas as outras por este país abandonadas.
Com raríssimas exceções!
Tanto o canal da Linha, como o edificado, bem assim os respetivos azulejos, como verdadeiras obras de arte, são pertença da rede ferroviária nacional. Gerida agora pela IP (Infraestruturas de Portugal), em regime de contrato de serviço publico com Estado português.
Flagrante falta de «sentido de estado» e cultura, de uns; de cidadania, de outros…


