Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - 8ª e última etapa :- Sendim-Duas Igrejas
MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO
CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS
LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR
8ª E ÚLTIMA ETAPA
SENDIM-DUAS IGREJAS
(02.maio.2012)

(…) A paisagem é o resultado de uma ordem imposta aos caos original,
é um conceito cultural.
Cada paisagem tem uma leitura própria.
O Mirandês é sobretudo criador de gado.
Os lameiros de regadio e de sequeiro
são a nota dominante nesta paisagem.
A compartimentação dos campos
é uma marca ela estrutura agrária de base. (…)
Preservar uma paisagem
é mais do que preservar o património natural ou construído.
A história da paisagem mostra-a como uma operação percetiva,
ou seja uma determinação sociocultural”.
Luísa Genésio
Começámos a caminhar, nesta última etapa da antiga Linha do Sabor, que nos levaria ao seu términus – em Duas Igrejas -, já raiava o sol. Sozinho. Como nas duas penúltimas etapas. Percorremos 11,3 Km.

Pelos céus voava uma cegonha

e, um bonito passeriforme, postava-se num ramo de uma árvore,

com os seus chilreios característicos. Foram mais madrugadoras que nós, tratando de suas «vidas», em plena época primaveril.
O mesmo acontecia com este pastor, a única alma que encontrámos até Duas Igrejas, neste planalto deserto, de raras gentes,

levando, à sua frente, o seu cão pastor, de guarda

ao seu rebanho.

Veja-se este delicado cordeiro, que escapou ao sacrifício pascal deste ano!

Ao passarmos por estes dois cenários,

(Cenário I)

(Cenário II)
mais uma vez, as palavras de Luísa Genésio soavam-nos aos ouvidos:
“A paisagem é o resultado de uma ordem imposta aos caos original, é um conceito cultural. Cada paisagem tem uma leitura própria”. Na verdade… Caminhos, árvores bordejando-os, terras cultivadas, germinando, portadoras de diferentes coloridos e, inopinadamente, à borda do trilho, uma cruz, a quem os Homem, para certos homens, lhe atribue o fim do seu próprio «caminho»!
Pensando na precaridade desta nossa «passagem», entretanto, um cheiro intenso a esteva (Cistus ladanifer) nos perseguia, espalhada ao longo deste nosso percurso, cascalhento.

A par da esteva, uma árvore e um arbusto foram as duas espécies mais presentes no decurso da nossa jornada de hoje: o sobreiro (Quercus suber)

e o zimbro (Juniperus communis L.).

Por entre dois sobreiros, a aldeia de Fonte de Aldeia, localizada um pouco ao nosso lado direito.

Mais umas boas dezenas de metros, por meio de um piso duro e confinado,

avistávamos o Apeadeiro de Fonte de Aldeia.

É uma arquitetura simples. Mas bonita. Ao mesmo abandono que todas as outras, por estas paragens!
Quer no exterior,

quer no interior.

(Perspetiva I)

(Perspetiva II)
Agora, Fonte de Aldeia apresenta-se-nos mais perto de nós.

Cotos de videira, velhinhos, persistem em ofertar, a quem deles carinhosamente os trata, o seu precioso néctar. Em plena planura do planalto, e a coberto, ao longo, dos pináculos do conjunto montanhoso.

Na continuação da nossa caminhada, no meio de um conjunto de vinhedos, este interessante cruzeiro,

que já perdeu a conta aos anos que tem!

Não havia necessidade de caminharmos com muita pressa. O trilho,

sempre acompanhado de estevas floridas, zimbros e sobreiros, convidava-nos à calma, à tranquilidade, dando-nos uma verdadeira paz de espírito…
Entrávamos no último troço da planura do planalto mirandês.

Nela, a exploração pecuária,

juntamente com a semeadura do cereal,

(Perspetiva I)

(Perspetiva II)
com um ou outro castanheiro idoso pelo meio, são os cenários que estas terras mirandesas nos oferecem.

(Cenário I)

(Cenário II)
E, mais uma vez, Luísa Genésio: “O Mirandês é sobretudo criador de gado. Os lameiros de regadio e de sequeiro são a nota dominante nesta paisagem. A compartimentação dos campos é uma marca da estrutura agrária de base”.
Na verdade, “Preservar uma paisagem é mais do que preservar o património natural ou construído. A história da paisagem mostra-a como uma operação percetiva, ou seja uma determinação sociocultural”.
Pelo meio de um piso duro, pouco meigo para umas botas de caminheiro já em fim de prazo, a certa altura, mais uma interrupção do trilho-canal da antiga Linha!

Duas Igrejas aparecia-nos à nossa frente. Todavia, a dureza do cascalho e a completa obstrução do antigo canal, obrigaram-nos a saltar para o lameiro à nossa direita a fim de atingirmos o final da nossa caminhada.

E não sabemos porque artes, uma passagem de «Vida e Proezas de Aléxis Zorbás» [São Paulo: Grua, 2011, 3ª edição, de Nikos Kazantzákis (1883-1957), página 124. Veja um resumo desta obra na Wikipédia. E, a não perder, a adaptação cinematográfica desta obra, deste intelectual grego, com a designação Zorba, o Grego, que conta com as brilhantes interpretações de Anthony Quinn, Alan Bates e Irene Pappás] nos ocorreu à mente e que aqui deixamos também para reflexão dos(as) nossos(as) leitores(as).
Palavras, ainda por cima, ditas por um rude, mas experimentado e vivido, grego, com a sua espontaneidade visceral!
“(…) se soubéssemos o que dizem as pedras, as flores, a chuva!
Pode ser que chamem, que nos chamem e a gente não ouça.
Assim como nós também chamamos e elas não nos ouvem.
Quando se abrirão nossos olhos, para vermos?
Quando se abrirão nossos braços, para que pedras, flores, chuvas e seres humanos se abracem? (…)”
Os metros finais a percorrer nesta antiga Linha do Sabor, antes de chegarmos à antiga Estação de Duas Igrejas, oferecia-nos esta longa e larga avenida.

Terminada a nossa aventura ao longo de 105,291 Km, de Pocinho até aqui, sentámo-nos a descansar um pouco, em frente de um dos degraus da antiga plataforma desta linda – e também! – negligenciada Estação.

O nosso estado de espírito, naquele preciso momento, bem se poderia resumir às últimas palavras do livrinhos «Teoria da Viagem – Uma poética da Geografia», de Michel Onfray.
Reproduzamo-las:
“Basta sentirmo-nos nómadas uma vez para sabermos que voltaremos a partir, que a última viagem não será a derradeira. A não ser que a morte nos surpreenda pelo caminho … (…)
O fim misterioso de Segalen, exangue aos pés de uma árvore, nos bosques de Huelgoat, com um Shakespeare na mão, parece-me emblemático: não morrer debaixo de um teto, mas lá fora, sob o céu e as estrelas, vivo.
A busca de si termina quando se solta o último suspiro. (…)
O espírito do geógrafo [ e nós temos um pouco o espírito de geógrafo] não se confunde com o do geólogo, mineiro de fundos e escavador de falhas. Um percorre o planeta e concentra-se com o movimento no contorno do mapa-múndi, o outro instala-se e faz o seu buraco, escava uma toca para nela sepultar a sua energia e curiosidade. (…)
Os pretextos para partir podem se aleatórios: abrir um atlas, fechar os olhos, apontar um país, optar por uma região inesperada, receber de braços abertos os convites – quem tenha essa sorte – para calcorrear o planeta, aceitar os sonhos de criança, aceder ao desejo de alguém que nos é caro, partir num encalce de um poeta, de um filósofo ou artista que amamos, à procura de uma geografia sentimental encarnada, em busca de uma poética da geografia, dentro do espírito de Bachelard quando fala de uma poética do espaço e de um direito a sonhar. A prosa do mundo pode ser decifrada, segundo a lição do filósofo de Borgonha, através da água, da terra, do fogo, das nuvens, dos sonhos, dos devaneios, de um sótão, de uma casa, de uma concha, da chama de uma vela ou de um fogo. Ou de um poema. Porque o poema do mundo convida a incessantes interpretações”.
Levantámo-nos. E atravessámos, quase sem parar, a aldeia de Duas Igrejas, deixando para trás de nós, este cenários:

(Cenário I – Um carro de bois abandonado)

(Cenário II – Uma rua da aldeia. Ao fundo, o moderno campanário da Igreja Matriz)

(Cenário III – Largo da aldeia com fontenário e tanque e uma casa em ruínas)

(Cenário IV – Uma outra rua da aldeia)

(Cenário V – Igreja Matriz, de Santa Eufémia)
A Igreja Matriz de Duas Igrejas é de uma só nave, com cinco tramos, divididos por quatro arcos-diafragma, que exteriormente correspondem a contrafortes. A cabeceira é mais elevada do que a igreja. O arco triunfal está ladeado pelo retábulo do Senhor da Piedade e da Senhora da Soledade, uma obra de talha barroca setecentista. Possui vestígios diversos de pinturas quinhentistas. Data do século XVI.

(Cenário VI – Fonte de mergulho)

(Cenário VII – Capela de São Bartolomeu, com um antigo cruzeiro, restaurado)
Ao chegarmos à estrada, que liga Duas Igrejas a Miranda do Douro, olhando para o relógio, apercebemo-nos que, face à hora marcada com Tópê para nos ir buscar, ainda era cedo. Que fazer?
Aventurámo-nos a ir até à Capela ou Santuário da Senhora do Monte.
Antes de chegarmos aquele Santuário, deixemos três cenários que, ao longo deste curto percurso, captámos.

(Cenário I – Casario velho)

(Cenário II – Um velho pombal)

(Cenário III – Alminhas)
E, agora, eis a Capela ou Igreja de Nossa Senhora do Monte, localizada fora do centro da povoação e rodeada de um amplo recinto.

Segundo a lenda da Senhora do Monte, uma pastorinha muda foi incumbida pela Virgem Maria, de informar os habitantes do lugar onde deviam edificar um templo em sua honra. A data apontada para esta aparição é de 902.
No dia 15 de Agosto faz-se a romaria da Senhora do Monte.
Para finalizarmos esta reportagem desta 8ª e última etapa a pé na antiga Linha do Sabor, deixamos à visualização dos(as) nossos(as) leitores(as) a fachada principal da Igreja de Nossa Senhora do Monte

e um pormenor do seu campanário, vista numa perspetiva lateral.

Aproximando-se a hora marcada com Tópê, nosso filho, para nos vir buscar e nos levar até Sendim, para irmos buscar a nossa viatura e dirigirmo-nos a Miranda do Douro, regressámos à beira da Estrada Nacional 221.
Como, com certeza, os(as) nossos(as) leitores(as) deram conta, não falámos muito sobre a Estação-términus da antiga Linha do Sabor, nesta povoação de Duas Igrejas.
Fizemo-lo de propósito. A ela lhe vamos dedicar um só post, ao mesmo tempo que pretendemos, para finalizar, tecermos algumas considerações finais.
Apresentamos o diaporama desta 8ª e última etapa, realizado em março de 2013.
LINHA DO SABOR – 8ª E ÚLTIMA ETAPA:- SENDIM-DUAS IGREJAS


