Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - 7ª etapa :- Sanhoane-Sendim
MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO
CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS
LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR
7ª ETAPA
SANHOANE-SENDIM
(01.maio.2012)

(Pormenor da antiga Estação de Urrós)
"Contemplar a paisagem sob o ponto de vista da infinitude,
leva-nos a protestar contra
o modo puramente utilitarista de contemplar a realidade,
característica da visão técnico-científica dos dias de hoje.”
(R. Assunto).
A contemplação da paisagem
pode valorizar a beleza como finalidade em si,
e não somente a utilidade das coisas reais.
A paisagem é um objeto estético,
consequência da filosofia da Arte e da Natureza. (…)
A ideia da paisagem
concebe-se como uma forma da Natureza
ao constituir-se como objeto estético. (…
A paisagem enquanto objeto estético
provoca em nós reações intelectuais ou sensoriais. (…)"
Luísa Genésio
Saímos de casa de nosso filho, Tópê, em Miranda do Douro, em direção a Sanhoane.
Já o sol começava a raiar, quando demos início à jornada de hoje, com a distância de 12,5 Km.

Caminhávamos em pleno planalto mirandês, por entre troços retos, rodeados de cor verde e amarela, espalhada pelos campos, debaixo de um céu azul, coberto de muitas nuvens brancas, carregadas.

A determinada altura, o canal da antiga Linha é interrompido, dando-nos a sensação da existência de uma passagem, ligando dois campos de lameiro.

Percorrendo a antiga Linha pelo planalto, sozinho, apenas, nos primeiros quilómetros que percorremos, deparámos com os cenários de um pasto, que exibimos aos(às) nossos(as) leitores(as).

(Cenário I)

(Cenário II)

(Cenário III)

(Cenário IV)

(Cenário V)
Foi o a observação desta cria, aninhada junto de sua mãe, que nos fez com que nos viesse à lembrança as palavras, supra citadas, de Luísa Genésio – «A paisagem mirandesa – uma leitura» -, professora do Instituto Politécnico de Bragança, ínsitas na publicação «Estudos Mirandeses – Balanço e orientações», conjunto de estudos ou textos coordenados por José Francisco Meirinhos, editada pela Granito, Editores e Livreiros, uma publicação de Homenagem a António Maria Mourinho (Atas do Colóquio Internacional: Porto, 26 e 27 de março de 1999), e que tínhamos lido uns dias antes.
Relembremos: “A contemplação da paisagem pode valorizar a beleza como finalidade em si, e não somente a utilidade das coisas reais”.
A paisagem ou os seus cenários que, andando, víamos, naquele preciso momento da nossa passagem não representava somente um aspeto utilitário, que tinha a ver com a exploração dos recursos, nomeadamente estes de natureza pecuária. Oferecia(m)-se aos nossos olhos como um objeto efetivamente estético. Despertava-nos sensações. Fazia-nos pensar não apenas na Natureza, outrossim na simbiose entre Natureza e Arte. Na verdade, estamos com Luísa Genésio quando, logo a seguir, nos afirma que “A ideia da paisagem [ou dos seus diferentes cenários] concebe-se como uma forma da Natureza ao constituir-se como objeto estético”.
Era congeminando sobre estas questões, quando passávamos pelo estreito canal, onde, durante umas boas centenas de metros, a esteva (Cistus ladanifer), umas em botão, outras já completamente floridas de noivas, vestidas de branco, se estendiam em tapete à nossa passagem.

A páginas tantas, porque andando na planura, a passo estugado, tivemos de parar, perante este obstáculo.

Ficámos com a sensação que estávamos perante um abuso de um particular. Estávamos em 2012. A Linha, é certo, já tinha encerrado há uns bons anos, mais precisamente em 1988. Mas, que nos constasse, naquela altura, apesar de todo o material fico ter sido arrancado e estar totalmente abandonada, aquele canal, porque pertença do domínio público do Estado – e, consequentemente, insuscetível de apropriação privada – não podia ser objeto de uso privado, mesmo que se quisesse usar o instituto jurídico da posse, constante do nosso Código Civil. Mas, em Portugal, as coisas acontecem… Por incúria e negligência de uns e por usura e abuso de outros. Infelizmente!
Lá conseguimos saltar a vedação e, mais à frente, continuámos a circular no trilho daquela que foi uma linha de caminho de ferro.

De um lado e de outro, apresenta-se-nos, em toda a sua pujança primaveril, o planalto cerealífero, multicolorido.

(Cenário I)

(Cenário II)

(Cenário III)
E, mais uma vez, nos ocorria à mente a reflexão de Luísa Genésio, citando R. Assunto: “Contemplar a paisagem sob o ponto de vista da infinitude, leva-nos a protestar contra o modo puramente utilitarista de contemplar a realidade, característica da visão técnico-científica dos dias de hoje”.
Somos um urbano, mas nómada até ao tutano. E profundo amante da «viagem». Como tal, esta paisagem, com os seus diferentes cenários, que pela primeira vez contemplávamos, provocava, essencialmente em nós, reações intelectuais e sensoriais. Puramente. Mesmo trazendo à mente a labuta diária do agricultor para a adornar. Cultivando-a. Transformando-a, a nossos olhos, num verdadeiro objeto cultural. Digna de ser vista!
E enquanto trazíamos à nossa mente estas reflexões, continuávamos, pé firme, percorrendo este canal, que resta da antiga Linha,

adivinhando vida, quando vislumbrávamos, no fundo do horizonte, a serra e o planalto, a fundir-se com todos os elementos do povoado que passava à nossa frente.

Estancámos o passo para contemplar, no cocuruto dos ramos de uma árvore, esta linda ave.

Mas, umas centenas de metros mais à frente, sobe por nós acima uma certa indignação.

Não há civismo em certas pessoas. Para já não falar na completa ausência de sensibilidade para as coisas que, porque de todos nós, para nossa fruição, deveriam ser tratadas com mais cuidado e carinho. Uma lixeira!...
Continuávamos agora a caminhar no meio de uma antiga Linha, agora tomada por um verdadeiro giestal.

Percorridos umas centenas de metros, e passando por debaixo deste viaduto de estrada,

avistávamos a Estação de Urrós.

Passámos pelo antigo armazém de mercadorias

e pelo exterior do edifício da antiga Estação.

E reparámos no antigo Depósito de Água para abastecer as locomotivas a vapor.

Apreciámos este painel de azulejos.

E não perdemos este pormenor do edifício.

Uma bonita arquitetura ao completo abandono! Sem qualquer cuidado, sendo palco do mais puro desleixo e incúria de quem devia de cuidar de um património que foi palco, testemunha, da Vida de muitas gentes. Cheio de História.
Entrámos.

E ficámos verdadeiramente escandalizados!
Saímos de imediato. E, não sabemos porquê, mas de imediato nos veio à lembrança uma experiência tida num dos países europeus em que um dos responsáveis pelo património nacional nos dizia que grande parte significativa dos proventos provenientes dos jogos de azar e fortuna (que é o mesmo que dizer dos lucros da nossa Santa Casa da Misericórdia de Lisboa), em vez de irem para o futebol, como cá acontece, iam para serem investidos na recuperação, valorização e manutenção do património (nacional).
Aqui, neste nosso Portugal à beira mar plantado, valoriza-se mais «Os três F» - Futebol, Fado e Fátima, popularmente referidos, no pós 25 de Abril, como os três pilares da ditadura salazarista que, na realidade, era a trilogia – Deus, Pátria e Fátima…
O que nos encheu a alma, andando uns bons metros à frente, foi o encontro com esta linda poupa ou boubela (Upupa sp.).

Continuávamos a nossa jornada, agora sobre piso duro, ao qual ainda não havia sido retirado o cascalho.

Tínhamos a sensação que estávamos nas alturas, com o céu a colar-se à terra.

Não sabíamos, ao todo, quantos quilómetros já tínhamos andado nesta Linha a pé. Mas, esta placa, uma sobrevivente a voragem do tempo e do Homem, encarregou-se de nos avivar a memória.

Aqui e ali, a cultura da videira e do vinho, vai, lentamente, tomando conta de pedaços da antiga Linha.

Uma pista, agora mais larga, desimpedida e cuidada,

correndo ao lado das vias rodoviárias novas, ou entretanto melhoradas,

indicava-nos que nos encontrávamos muito perto de Sendim.
E, a antiga Estação, em poucos minutos, oferecia-se-nos a nossos olhos.

O mesmo abandono e incúria de um património cuidado a «tratos de polé».

Mas a cultura viva do quotidiano rural destes povos do planalto mirandês, plasmada nestes painéis de azulejos azuis,

(Painel I)

(Painel II)

(Painel III)
resiste à voracidade do tempo e aos desleixo dos homens! Um misto de admiração e tristeza nos invadiu quando, aqui, demos por finda a nossa etapa de hoje e contemplávamos esta Estação.
Abandonámos este lugar, em direção ao centro da vila, onde tínhamos combinado encontrar-nos com o nosso filho.
Na despedida da antiga Estação de Sendim,

não deixámos de reparar no pormenor desta cornija do edifício.

Mesmo linda!
Enquanto esperávamos por Tópê para nos levar a Sanhoane buscar nossa viatura, demos uma olhadela pelo centro de Sendim.
Nele destaca-se o Pavilhão Multiusos,

três painéis de azulejos, representando o passado

(Painel I)

(Painel II)
e o futuro de Sendim.

(Painel III)
Ainda nos deu tempo para ver a Igreja Matriz, também conhecida como Igreja de Santa Bárbara, de planta longitudinal, de uma só nave e com capela-mor retangular.

A sua fachada principal é rasgada por um portal de arco completo, assente em duas pilastras, encimada por arquitrave. Sobrepõe-se-lhe um nicho com a imagem de Santa Bárbara, ladeado por dois pináculos. Está encimada por uma dupla sineira. No meio, uma mais pequena.

Também, muito à pressa, não deixámos de reparar no seu casario mais antigo

bem como noutro recuperado.

Numa última olhadela para o património de Sendim, quando Tópê, o nosso filho, já se encontrava junto de nós, para repararmos nesta Capela do Senhor da Boa Morte.

E, por se falar em morte, veio-nos à memória uns versos de um ilustre filho desta terra, aqui nascido – António Maria Mourinho.
Este erudito e culto filho de Sendim, grande dinamizador da cultura mirandesa e da sua língua – o mirandês -, a pouco tempo do seu passamento, quando completava 79 anos de idade, escrevia, a 14 de fevereiro de 1996:
Anos!... hoje eu faço anos, ainda vivo!
E tantos já!... setenta e nove!...
Oitenta menos um!... e não mais tornam,
Na onda irreversível que se move!
A vida e o tempo
São como o vento…
Como se fosse um remoinho à solta!
Assim eu vou correndo, sem parar,
Em solenidade cônscia e saudosa
De tantas coisas gastas, dia a dia
Em mágoas e tormentos (e alegria).
Que assim a vida é feita até findar.
Ai mocidade em flor… Ai! Plena de vida!...
De esforços e canseiras… a sonhar…
Que já lai vai, mal gasta e mal perdida!
Apresentamos o diaporama desta etapa, realizado em março de 2013.
LINHA DO SABOR – 7ª ETAPA:- SANHOANE-SENDIM


