Quinta-feira, 16 de Novembro de 2017

Ao Acaso... Lago de Sanábria

 

 

AO ACASO…

 

LAGO DE SANÁBRIA - ENTRE A LENDA E AS PREMONIÇÕES DE ESCRITORES


Onde existem lugares e aldeias isoladas e pobres, em sítios recônditos, tudo favorece ao espicaçar dos espíritos para, face à não existência de explicações lógicas de certos fenómenos, se alimentar a imaginação com lendas e crenças populares.

 

Sanábria, na nossa vizinha Espanha, mais propriamente na província de Zamora, é um desses lugares. Os seus lugares e aldeias isoladas são o caldo onde se cultivam lendas e crenças populares.

 

Uma dessas lendas está ligada ao Lago de Sanábria.

 

Relatemos, sucintamente, uma das versões da lenda que explica a origem do Lago de Seabra (Lago de Sanábria).

 

Conta-se que, num certo dia, chegou à aldeia de Vilaverde de Lucerna um peregrino pedindo esmola. Mas ninguém o atendeu. Aproximando-se do forno do povo, umas mulheres que estavam a cozer o pão no forno, apiedando-se dele, deixaram-no entrar para se aquecer, protegendo-se da inclemência do frio que fazia. Entretanto pegaram num pequeno bocado de massa e deitam-no ao forno. Aquele pão pequenino cresceu desmesuradamente, ficando aquelas mulheres boquiabertas, não conseguindo encontrar explicação para tanto pão de um bocadinho de massa havia produzido. O peregrino, que outra pessoa não era senão Jesus Cristo, vira-se para aquelas mulheres e escutam da sua boca que, face ao comportamento daquele povo – a sua falta de caridade – iria aplicar-lhe um castigo, solicitando aquelas mulheres que fugissem de suas casas e se refugiassem no monte. De seguida, o peregrino crava o bastão que trazia no chão e profere:


"Aquí cravo o meu bastón
aquí saia un gargallón
aquí cavo o meu ferrete
que saia un gargallete."

 

E, meu dito, meu feito, a água jorrou em cachão, inundando a aldeia de Vilaverde de Lucerna, salvando-se das águas somente o forno, o qual conforma hoje em dia a pequena ilha que existe no Lago de Seabra.


Ainda segundo a lenda, os vizinhos dos arredores quiseram salvar os dois sinos da igreja afundada. Para o efeito, utilizaram dois bois (o “Redondo” e o “Bragado”).
Mas um, o “Bragado”, estava mal alimentado, não tinha forças. E ouviu do “Redondo”:


"Tira boi bragado
que o leite aquí muxiron
polo lombo foille botado
Ven aquí bragado.
-Non podo, aquí muxido, contestoulle".


Mas apenas um sino foi tirado do fundo das águas.

 

Entretanto a campa que, cada vez mais se afundava, dizia para a outra:


"Ti vaste, Verdosa,
eu quédome Bamba
e ata o fin do mundo
non serei sacada".


No dia 24 de junho, dia de São João, as pessoas que são mais caritativas e generosas, diz-se, ouvem o tinir do sino que repousa no fundo do lago, logo de manhã, antes de nascer do sol - diz a minha amiga Adélia.

 

Positivamente esta lenda é premonitória da Catástrofe de Ribadelago, acontecida em 9 de janeiro de 1959.

 

O escritor espanhol, natural de Montejos, León, adepto e seguidor do costumbrismo e do realismo social, na sua novela «Tierra de promisión», ao longo da sua trama, apresentou a rotura do paredão de uma barragem, provocando uma cheia (“riada”) de mortos.


Sete anos após a apresentação a concurso desta novela, em 1952, o paredão da barragem de Vega de Tera rompeu-se, provocando 144 mortos na aldeia de Ribadelago.
O presságio lendário fez-se realidade numa noite fria de janeiro

.

Já na década de 30 do século passado, o grande Miguel de Unamuno, quando pretendia escrever a sua novela «San Manuel Bueno, mártir», fixa-se num rincão, nas margens do Lago de Sanábria – o Balneário Bouzas – para melhor ambientar o cenário das angústias do padre (cura) da sua novela maior.


Deixamos, Ao Acaso… estes dois poemas de Unamuno, ínsitos no prólogo daquela obra, e escritos no primeiro dia em que chega a Sanábria. Referem-se não só a lenda da aldeia de Vilaverde Lucerna como são também premonitórios da mesma Catástrofe de 1959.


Ei-los:


San Martín de Castañeda,
espejo de soledades,
el lago recoge edades
de antes del hombre y se queda
soñando en la santa calma
del cielo de las alturas
en que se sume en honduras
de anegarse, ¡pobre!, el alma…
Men Rodríguez, aguilucho
de Sanabria, el ala rota
el cotarro no alborota
para cobrarse el conducho.
Campanario sumergido
de Valverde de Lucerna,
toque de agonía eterna
bajo el caudal del olvido.
La historia paró, al sendero
de San Bernardo la vida
retorna, y todo se olvida
lo que no fuera primero.” 

 

              ***

 

Ay, Valverde de Lucerna,
hez del lago de Sanabria,
no hay leyenda que dé cabría
de sacarte a luz moderna.
Se queja en vano tu bronce
en la noche de San Juan,
tus hornos dieron su pan,
la historia se está en su gonce.
Servir de pasto a las truchas
es, aun muerto, amargo trago;
se muere Riba del Lago,
orilla de nuestras luchas.”

 


publicado por andanhos às 20:11
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