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Ao Acaso... Com Torga, falar do espírito e alma barrosãs

 

 

AO ACASO...

 

COM TORGA, FALAR DO ESPÍRITO E ALMA BARROSÃS

 


Quando acabei de ler o último post de A. Souza e Silva, subordinado ao tema «Reino Maravilhoso-Barroso - Realidade e Utopia», pensando na azáfama de seu amigo Fernando DC Ribeiro em querer, com a sua objetiva, “encontrar” - ir à procura - do verdadeiro espírito barrosão, ao acaso, lembrei-me de Miguel Torga quando, passando por estas paragens, a 1 de setembro de 1991, em Alturas do Barroso,

2017.- Montalegre (237)

no seu Diário, vertia estas palavras:
Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso, a este tecto do mundo português, admirar no adro da igreja, calcetado de lousas tumulares, o harmonioso convívio da vida com a morte. Os cemitérios actuais são armazéns de cadáveres desterrados da nossa familiaridade, lacrimosamente repelidos do seio do clã mal arrefecem, cada dia menos necessários, no progressivo esquecimento, à salutar percepção do que significam na dobadoira do tempo. Ora, aqui, cada paroquiano pisa, pelo menos dominicalmente, a sepultura dos ancestrais, e se liga a eles, quase organicamente. Vive, numa palavra, referenciado. Sabe que tem presente porque houve passado, e que, mais cedo ou mais tarde, enterrado ali também, será para os descendentes consciência e justificação do futuro”.

 

Já são decorridos 26 anos, desde que estas palavras foram escritas. E pergunto-me, interrogando, através das “lonjuras”, o nosso maior: esse é (ou era), manifesta e genericamente, o espírito barrosão, o mesmo que dizer, o verdadeiro espírito transmontano, galego, e genuinamente português; mas, nos tempos que correm, será que haverá uma consciência barrosã que, alicerçada no passado, justifique um futuro, genuinamente barrosão, em que, empenhadamente, os barrosões “arregacem as mangas” para o construir?

 

Subindo, no passado dia 15 de agosto às alturas de 1 200 metros, do Minheu, à minha frente, na lonjura da linha do horizonte, em frente aos cumes do Gerês, esbatidos pela paisagem imensa a nossos pés, aparece-nos os “Cornos das Alturas do Barroso”.

 

DSC_3043

Do alto daquele posto de vigia do Minheu, contemplando aqueles “cornos” do Barroso, nas Alturas, veio-me à lembrança um quadro descrito e escrito, precisamente ali, nas Alturas do Barroso, pelo nosso escritor maior, Miguel Torga, quando, em 21 de setembro de 1969, em simples, mas comovente prosa poética, nos descreve, desta forma, no seu Diário, o espírito barrosão:
A paz destes barrosões, sentados no escombro de uma lameira a guardar a junta de bois! Parecem sonâmbulos a apascentar a eternidade”.

 

Quando acabava de fazer a citação que precede, remexendo, ao acaso, em ficheiros de imagens, meus olhos fixaram-se, como levados por um íman, nesta fotografia tirada há pouco tempo desde a barragem do Alto Rabagão/Pisões.

2017.- Montalegre (239)

Em perspetiva, e do ângulo donde foi tirada, não se me afigura dois cornos, mas duas tetas.

 

E lembrei-me do mito do nascimento de Roma.

 

Porventura, e aqui compreendemos Fernando DC Ribeiro, é no beber o “leite” destas paragens e paisagens que, estou certo, a cultura e o ser barrosão “ressuscitará”.

 

Mito ou realidade?

 

Que importa?!

 

A imaginação humana não tem limites...

 

Desde que atentemos a estas palavras, proferidas a 1 de setembro de 1990, pelo nosso grande humanista transmontano, que foi Torga, quando, na vila de Montalegre, foi abordado por uns jovens. Escrevia, nessa altura, no seu Diário:
Eram jovens, abordaram-me, gostavam do que escrevi, e queriam saber coisas de mim. Qual era o meu segredo?
- Ser idêntico em todos os momentos e situações. Recusar-me a ver o mundo pelos olhos dos outros e nunca pactuar com o lugar-comum”.

 


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