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Versejando com imagem - A ligação de Sá de Miranda às Terras de Basto

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

A LIGAGÃO DE SÁ DE MIRANDA ÀS TERRAS DE BASTO

 


Estamos habituados a estudar aquilo que está distante,
que admiramos à distância,
e acredito que valha a pena olharmos para nós próprios
e estudarmos com um olhar humilde o nosso húmus...

Ana Paula Guimarães

 

No nosso penúltimo post, de 12 de fevereiro passado, quando falávamos do tema Por terras de Portugal - Reflexões sobre Casas Senhoriais para Turismo de Habitação, questionávamo-nos sobre o modelo de desenvolvimento territorial que, há longas décadas, senão séculos, temos seguido em Portugal.

 

No post Desencontro(s) - Cena 2:- Poemas Ibéricos versus Mensagem, de 9 de fevereiro de 2013, Augusto Santos Zassu dava-nos conta, no confronto com a obra de Fernando Pessoa (Mensagem) com a de Miguel Torga (Poemas Ibéricos) que, entre alguns dos nossos maiores das letras portuguesas, existe uma certa tensão e, porventura, desencanto, naquilo que se tornou a nossa gesta das Descobertas, ao ponto de, no último poema de Poemas Ibéricos, Miguel Torga verseja:


Venha o Sancho da lança e do arado,
E a Dulcineia terá, vivo a seu lado,
O Senhor D. Quixote verdadeiro!

 

Augusto Santos Zassu arremata o seu artigo naquele post da seguinte forma:


Perdidos os impérios, e não aprendendo a lição da história, continuámos a pensar que a nossa integração na União Europeia acabaria por nos dar o ter que havíamos perdido nos longínquos mares…

 

Em Miguel Torga, bem assim em outros autores, há uma certa nostalgia quanto a um Portugal, anterior à Expansão, que, esquecendo-se do húmus donde provinha, se perdeu mo «mar»...

 

Também na febre do ouro dos brasis, perante uma Corte que vivia do fausto e dos proventos do Império, no despoletar constante da intriga, não produzindo nada de enriquecedor para o Portugal de então e para as suas gentes, Sá de Miranda, um dos iniciadores do movimento Renascentista em Portugal, queixando-se da atração de uma capital de «orgia» e fausto, esquecendo-se das suas origens, retira-se para a «província», para as Terras de Basto.

 

Reproduzamos, numa pequena súmula, o que o Jornal de Animação da Rede Portuguesa Leader + - Pessoas e Lugares -, II Série, nº 52, de 2008.

 

Na miragem do cravo e da canela de outras índias e no oiro dos brasis, que os euros que a Europa nos «cedia», e que, para nós representavam, fomo-nos esquecendo da lição dos dois grandes mestres da nossa portugalidade, de ser português: sonhar com os pés bem assentes na terra, no nosso terrunho, recuperando, «com o arado em punho» a terra que, pelo nosso descuido, incúria e negligência, «nos está sendo roubada» e desenvolvendo, todos, toda – do mar à planície, da planície ao planalto, do planalto à montanha, do norte a sul, do litoral para o interior – numa nova gesta que nos faça, de novo, dignos do nobre nome que, ao longo dos tempos, nossos antepassados tão bem souberem erguer e preservar – Portugal.

 

Sá de Miranda, natural de Coimbra, onde nasce em 1481, doutor em Direito pela Universidade então estabelecida em Lisboa, frequentador e trovador da corte, a sua viagem por Itália e Espanha permitem-lhe conhecer as novas formas literárias do Renascimento que introduz em Portugal. Após o regresso, a sua desadequação com as intrigas da corte levam-no a abandoná-la e a retirar-se para o Minho. O seu casamento com uma fidalga minhota e a comenda de Duas Igrejas que o rei D. João III, seu amigo pessoal, lhe atribui conduzem o poeta até ao concelho de Amares onde fixará residência definitiva, primeiro em Duas Igrejas, junto ao Neiva, que caracteriza a fase mais produtiva e feliz do poeta, depois na Quinta da Tapada na fase final da sua vida.

73.0.original.jpg

(in: http://www.cm-amares.pt/patrimonioconstruido/casadatapada)

A proximidade de Amares com Cabeceiras de Basto, a fidalguia cabeceirense, a importância do mosteiro de S. Miguel de Refojos e a história de D. Nuno Álvares Pereira terão cativado a proximidade com este concelho que culmina com o casamento de seu filho na Casa da Taipa, ainda por ele contratado e que se realiza já após a sua morte. Desta ligação ficou a “Carta a Dom António Pereira, Senhor de Basto”, e a écloga “Basto”, dedicada ao Condestável e cujo título provém, tudo indica, desta região.


A época em que viveu Sá de Miranda é uma época de alterações administrativas na região de Basto. No início do século existiam os concelhos de Pena (Ribeira de Pena), com foral de D. Afonso IV (1331), Mondim e Ermelo (1196), ambos com foral de D. Sancho I. Com a política dos forais novos de D. Manuel I, não só são renovados os forais de Mondim (1514) e Pena (1517), como são concedidos forais a Cabeceiras (1514), Cerva (1514), Atei (1514) e Celorico (1520) e a criação dos respetivos concelhos. É a época áurea da expansão portuguesa que leva muitos à aventura do ultramar em busca de riqueza, o que permite a construção de algumas capelas e casas brasonadas da região. É também provável, na primeira metade do século, a construção de uma ermida antecessora do Santuário de Nossa Sr.ª da Graça.

 

A ligação do poeta com Cabeceiras de Basto é visível em duas das suas obras. A primeira é a carta “A António Pereira Senhor de Basto, quando se partiu para a corte co’a casa toda” que começa da seguinte forma:


Como eu vi correr pardaus
Por Cabeceiras de Basto,
Crecerem cercas e o gasto,
Vi, por caminhos tão maus,
Tal trilha e tamanho rasto,
Logo os meus olhos ergui
À casa antiga e à torre,

E disse comigo assi:
Se Deus não vai mal aqui,

Perigoso imigo corre.
Não me temo de Castela,
Donde inda guerra não soa,
Mas temo-me de Lisboa
Que, ao cheiro desta canela,
O Reino nos despovoa.”

 

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