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29
Jun20

Memórias de um andarilho - Trilho do(a) Ribeiro(a) das Avelãs|Chaves - Um Percurso com História

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

TRILHO DO(A) RIBEIRO(A) DAS AVELÃS|CHAVES

- UM PERCURSO COM HISTÓRIA –

(3.maio.2020)

01.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (3)

 

Como acontece noutros lugares, 

as vias romanas continuam a indicar

aproximadamente os traçados da estradas de sempre.

Serviram de eixo de comunicações desde a Antiguidade até ao século XIX,

e depois disso, só foram em alguns sítios,

abandonadas ou melhoradas (...)

 

José Mattoso, Suzanne Daveau e Duarte Belo

in «Portugal - O Sabor da Terra - Um retato histórico e geográfico por regiões»

 

 

Queríamos, desde já, elucidar os(as) nossos(as) leitores(as) que este trilho de que vos vamos falar, não está sequer sinalizado e, muito menos, homologado. Simplesmente resultou de uma saída, logo após o período de desconfinamento por que passámos, por via do Covid-19, que fizemos com o amigo Rui Queirós, o qual o traçou.

02.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (7)

Recordemos que não foi a primeira vez que calcorreámos parte deste território abrangido pelo trilho de que hoje vamos falar. Em maio de 2016, sob a rubrica «Chaves através da imagem – A Ribeira dos “mil e um nomes”»  falávamos dessa incursão pelo(a) Ribeiro(a) das Avelãs. Naquela altura, também acompanhado de Rui Queirós, íamos à procura dos moinhos e, de passagem, falava-se de um possível convento(ou mosteiro) visigótico que, por estas bandas, no século VII, aqui teria existido.

 

Desta vez, sabendo que o Município de Chaves havia feito um trilho na zona, e que havia passadiços de madeira, para atravessar o(a) Ribeiro(a) das Avelãs, resolvemos ir visitá-los.

 

Mas as nossas palavras proferidas no post de 19 de maio de 2016, aqui neste blogue, depois de uma leitura, não tanto em diagonal, como naquela altura fizemos, mas com um pouco mais de atenção, e em profundidade, do artigo de Manuel José Carvalho Martins, sob o título «O Mosteiro no Convento», a páginas 175 e seguintes da Revista Aquae Flaviae, nº 47, de novembro de 2013, levou-nos a que levássemos mais «a sério» o vertido naquele artigo pelo nosso querido amigo naquela Revista.

 

Desta feita, quando, pela 2ª vez, acedemos a «entrar» pelo(a) Ribeiro(a) das Avelãs em direção aos passadiços, indo ter com os dois moinhos existentes, partindo de nossa casa, em Chaves, e começando a partir da foz do(a) Ribeiro(a), aqui agora designado(a) do Caneiro, iamos imbuído de efetuar não só um trilho, andando pelo natureza, mas também de tentar ver, viver, ou, talvez melhor, conhecer (a) História.

 

Citemos Manuel Martins naquele seu referido artigo:

A onomástica conduziu-nos, luminosamente, a uma aldeia adormecida, junto ao Ribeiro das Avelas ou das Cabanas [agora aparece-nos mais outro nome dado ao regato!], chamada Convento ou mais recentemente, ribeira das Avelãs, continuando, ainda, em o Bairro do Convento, localizado entre a Quinta da Condeixa e o Miradouro de São Lourenço.

Eu já tinha alertado para a rara importância desta zona nos inícios da expansão urbanística e histórica da cidade de Chaves (…) no meu livro «Ad Aquas Flavias», 4 edição: «A verdade é que aquela zona foi profundamente romanizada até ao lombo (…) sugiro aos futuros arqueólogos ou historiadores, municipais ou não, um estudo minucioso e aprofundado de toda esta zona»” [Palavras caídas em saco roto!].

Távora e Abreu nas suas «Notícias Geográphicas e históricas da Província de Tráz-os-Montes», em 1723, faz uma longa relação dos achados com inscrição que copia, neste termo de Chaves, no Ribeiro das Avelãs. São quatro (…). Como é triste constatar que todos aqueles que se dedicam à cultura flaviense ignoram ou desprezam toda esta riqueza histórica encontrada nestas margens do Ribeiro das Avelãs ou das Cabanas e arredores de Chaves!!!

Vamos à descoberta da coluna X Civitates que estava, ainda no século XVI, nas azenhas de Pero Guedes, que eram, logicamente, junto ao Ribeiro das Avelãs.

Na sua margem direita [do aludido Ribeiro das Avelãs] temos, ainda hoje, a quinta do Padrão (…) sugerindo-nos que ali estaria a dita coluna, chamada Padrão dos Povos (X civitates).

Temos tudo de acordo naquele contexto espacial, pois o Prado era o «territorium – prata» no estacionamento da Legião VII que é confirmado pela Quinta de Cabanas, as «canabae» dos soldados romanos da Legião que tinha para seu uso, ao dispor, a água do Ribeiro das Cabanas ou de Avelãs. Mais abaixo, dentro da mesma zona, temos um prédio rústico chamado o Redondo e, logo a seguir, o Campo da Roda – sugerindo-nos a existência, ali, de um circo.

Agora faço a pergunta: onde quer o flaviense localizar a festa majestosa da elevação da sua cidade a Município, galardoada com o privilégio imperial de Flavias, com os mais altos representantes de Roma, senão aqui, neste espaço tão rico, largo e plano e tão apto para tão extraordinário e memorável acontecimento?"

 

Não somos perito, nem sequer curioso da História Antiga e, tão pouco, da História da origem e formação de Chaves. Temos vago conhecimento que, sobre a origem da atual cidade de Chaves, se digladia(va)m duas teorias: uma, diz(ia) que Chaves é(era) uma cidade de origem romana; outra, de que a sua origem é(era) medieval. Há uns anos, um dos descendentes da Família Pizarro, investigador da Universidade do Minho, debruçou-se (ou debruçava-se) sobre esta questão e inclinava-se para a origem medieval. Segundo nos consta, aquele autor teria abandonado a sua tese medieval e, perante o número de achados no Centro Histórico de Chaves, já defende a tese romana. Contudo, fica por provar o «acampamento» da Legião VII Gemina (ou um dos seus «destacamentos»), que Manuel Martins defende ser pela zona do Trilho do(a) Ribeiro(a) das Avelãs, que estamos descrevendo.

 

O relato, naquele supra artigo de Manuel Martins, a certa altura, refere:

“(…) vamos subir um pouco, sem deixar esta zona do Ribeiro das Avelãs, passando a «Capela de São Giraldo» das Avelãs, referida por Távora e Abreu,

03.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (17)

(A capela)

04.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (12)

(A capela – Pormenor I)

05.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (13)

(A capela – Pormenor II)

hoje, na Quinta da Condeixa,

06.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (20)

(A casa)

07.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (18)

(Pombal em ruínas)

08.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (22)

(A quinta)

vamos encontrar uma casa em ruínas e oculta, arquivada por heras seculares que a rodeiam, abraçam e cobrem com sua imponência verdejante”. [Veja-se o post «Chaves através da imagem – A Ribeira dos “mil e um nomes”»]

09.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (35)

Quanto a São Giraldo ou Geraldo, segundo o blogue «Arte e Religião|Cultura, Arte e Religião – 5 de Dezembro – São Geraldo de Braga (Bispo)», de 5 de dezembro de 2011,  “Geraldo de Moissac, nasceu de uma família nobre da Diocese de Cahors, em França. Foi trazido de Moissac para Toledo pelo bispo Bernardo,  de onde veio para Braga, tendo sido Arcebispo de 26 de Janeiro de 1099 até ao dia, em 5 de Dezembro de 1108, quando morreu, em Bornes (Vila Pouca de Aguiar), onde teria ido consagrar uma igreja”.

10.- 2020.- Bornes de Aguiar+Vreia de Bornes (V.Pouca) (7)

(A igreja Matriz de Bornes de Aguiar, que S. Giraldo iria consagrar, com as alterações levadas a cabo até aos nossos dias)

Reza a História ou a Lenda, coisa que as duas se confundem, que este primeiro arcebispo de Braga, quase coetâneo da origem e formação da nossa nacionalidade, quando se dirigia para Bornes de Aguiar, teria adoecido por estas paragens, em Ribeiro(a) das Avelãs.

11.- 2020.- Bornes de Aguiar+Vreia de Bornes (V.Pouca) (4)

(A capela de S. Giraldo, ao lado da IgrejaMatriz de Bornes)

Para se saber um pouco mais do papel deste arcebispo bracarense, de origem francesa, o blogue acima referido, continua: “São Geraldo, teve um importante papel na reorganização da diocese de Braga depois da reconquista (nos anos que antecederam a fundação de Portugal). Em 1100 viajou para Roma com o objetivo de obter do Papa Pascoal II a restauração da Metrópole Bracarense; em 1103 voltou a Roma para obter a confirmação da jurisdição sobre todas as dioceses da Galiza, Astorga e Mondoñedo para onde fugiu o Bispado de Dume quando das invasões bárbaras, Ourense e Tui e ainda, em Portugal, sobre o Porto,  Coimbra, Lamego e Viseu. Estas duas viagens a Roma, e a definição de Braga como a autoridade metropolitana de um vasto território foram sementes da fundação da nacionalidade, o que ilustra bem o papel de Braga na fundação da mesma, papel esse, tantas vezes esquecido e porventura mal estudado”.

 

E agora a lenda pura: “Conta a lenda que, no dia da sua morte, a 5 de Dezembro de 1108, encontrava-se São Geraldo muito doente, às portas da morte, em Bornes, na terra fria, nos princípios de Dezembro, cercado o tugúrio onde se refugiara com os seus familiares, fugindo à neve que abundantemente por aquelas terras caía. Nos ardores de febre que o consumia, pede a um dos seus familiares que lhe traga algumas peças de fruta, para aplacar a sede e dar um pouco de alento ao seu debilitado corpo. Responde-lhe o seu criado que, naquele lugar e com aquele tempo invernoso, as árvores estavam despidas de folhagens e frutos. Poder-se-ia talvez encontrar ainda espalhadas pelo chão algumas castanhas e nada mais. A esta observação responde São Geraldo: «vai e procura!». Então, por uma frincha da porta por onde entrava o regelante frio, o servo viu que as árvores, lá fora, ao redor do terreiro, estavam floridas e recheadas de belos frutos”.

São-Geraldo

(São Geraldo)

Continuemos a citar o texto de Manuel Martins, naquele já longamente citado artigo da Revista nº 47 «Aquae Flaviae»:

(…) Temos na freguesia da Madalena, Chaves, a povoação agora denominada ribeira das Avelãs, mas que, anteriormente, tinha o nome de Convento, que agora é dado ao bairro – Bairro do Convento.

(…) Quero ressaltar uma habilidade peculiar que os monges tinham na escolha ideal do lugar para aí estabelecerem os seus mosteiros – lugares ermos, convidativos à oração, sítios protegidos, o mais possível das intempéries, das invernias com boa disposição ao sol e servidos por água potável.

O nosso mosteiro do Convento, ou seja, o convento do Convento, preenche, completamente, este predicado, já que, aqui, há um microclima. Até nem faltava o moinho, ali, no ribeiro das Cabanas ou de Avelãs”.

 

No início do artigo que vimos citando, Manuel Martins escreve, advertindo-nos:

A nossa honestidade intelectual obriga-nos a movimentar-nos dentro dos seguintes parâmetros: a possibilidade; a probabilidade; a certeza. Perante a presente descoberta [desta construção em ruínas] (…) vamos situar-nos, apenas, no parâmetro da «probabilidade», além da possibilidade, mas aquém da certeza absoluta, como desejaríamos, já que não temos elementos comprovativos e definitivos, tanto escritos como arqueológicos (…)”, [prosseguindo Manuel Martins o seu artigo, defendendo o seu ponto de vista] quanto à existência, neste preciso lugar, que outros dizem apenas tratar-se de um armazém agrícola velho e ao abandono, de construção bem mais recente à anterioridade do século VII, visigótica, na(o) Ribeiro(a) das Avelãs, de um mosteiro.

 

Vale a pena ler, por completo, o artigo de Manuel Martins. E, oxalá, que algum curioso ou «esperto» se debruce sobre esta matéria… Tão apegados andamos às coisas do presente, que, hoje, do passado já muito poucos, ou quase ninguém, se interessa. Ora, para melhor conhecermo-nos e conhecermos o presente, nada mais seguro que «vasculhar» as nossas origens. Tudo anda ligado, interligado – presente, passado e futuro.

 

Feito este inciso, avancemos no nosso percurso até à zona dos dois moinhos e dos passadiços agora construídos sobre a «ribeiras dos mil nomes», ou seja, nome pleonástico para significar que toma a designação dos lugares por onde passa.

12.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (48)

(Ribeiro(a) - Cenário I)

13.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (58)

(Ribeiro(a) - Cenário II)

14.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (65)

(Ribeiro(a) - Cenário III)

15.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (68)

(Ribeiro(a) - Cenário IV)

16.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (78)

(Ribeiro(a) - Cenário V)

17.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (83)

(Ribeiro(a) - Cenário VI)

18.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (86)

(Ribeiro(a) - Cenário VII)

19.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (89)

(Ribeiro(a) - Cenário VIII)

20.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (56)

(Passadiços – Cenário I)

21.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (74)

(Passadiços – Cenário II)

22.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (75)

(Passadiços – Cenário III)

23.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (76)

(Passadiços – Cenário IV)

24.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (100)

(Passadiços – Cenário V)

26.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (46)

(Moinho I)

27.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (97)

(Moinho II)

Quanto ao(à) Ribeiro(a) das Avelãs e aos seus moinhos, conta-nos as «Notícias Geográphicas e Históricas da Província de Tras os Montes», Tomé de Tavora e Abreu (1721), autor já referido por Manuel Martins, provavelmente com base na transcrição feita daquela obra por Montalvão Machado, na Revista nº 2 «Aquae Flaviae», a páginas 23 e 24, o seguinte [agora fazendo uma «tradução», na medida do possível, para o português corrente]:

Depois de desprender-se da montanha que fica para a parte nascente desagua em o rio Tâmega defronte do Tabulado o ribeiro das Avelãs, o qual de verão rega muita parte da veiga com cuja circunstância se colhe muito linho, milho e legumes e no curso precipitado que tem em distância de meia légua há cinquenta e tantas rodas de moinho que todo o ano moem e abundam de farinha a terra. Esta produz os frutos seguintes, trigo, centeio, cevada, milho, linho, grão de bico, legumes de todo o género e mais renovos de verão: hortaliças, vinha, azeite, castanha, frutos de várias castas, etc.”.

 

Muito se tem falado que, ao longo do(a) tal Ribeiro(a) das Avelãs, a tal «dos mil nomes» existiriam mais de cinquenta moinhos, baseando-se nesta obra de Tomé Távora e Abreu. Com base no que acabámos de citar, tal asserção não é correta. É certo que seriam muito moinhos, mas não tantos como para cima de cinquenta. Tomé de Távora e Abreu não fala em cinquenta e tal moinhos, mas apenas em «cinquenta e tantas rodas de moinho». Como sabemos, um moinho pode ter mais de uma roda de moer…

 

Quanto à fertilidade da zona. Nós, que palmilhámos este bonito recanto, bem nos demos conta da fertilidade destes solos e da variedade das suas culturas. Quer na veiga,

28.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (133)

(Cenário I)

28a.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (150)

(Cenário II)

28b.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (148)

(Cenário III)

28c.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (153)

(Cenário IV)

29.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (138)

(Cenário V)

quer penetrando pela cauce bem estrito e apertado deste(a) buliçoso(a) Ribeiro(a).

30.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (40)

(Cenário I)

31.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (113)

(Cenário II)

Ao longo do nosso percurso, que aqui deixamos o seu trajeto, registado na aplicação Wikiloc,

32.- Trilho da ribeira das Avelãs - Wikiloc

dando-nos conta que fomos ter, outra vez, à capela de São Giraldo,

33.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (139)

para seguirmos pelo mesmo caminho até nossa casa,

34.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (140)

não nos faltou, em primeiro lugar, a passagem pela calçada romana – Via Romana XVII, que ligava Bracara Augusta (Braga) a Asturica Augusta (Astorga), passando por Aquae Flaviae.

35.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (23)

(Calçada da Via Romana XVII – Troço I)

36.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (25)

(Calçada da Via Romana XVII – Troço II)

37.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (116)

(Calçada da Via Romana XVII – Troço III)

38.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (118)

(Calçada da Via Romana XVII – Troço IV)

Vejamos o que o site «Vias romanas em Portugal (Itinerários Romanos)» nos diz:

Chaves -  (depois de atravessar o Tâmega a via seguia inicialmente a EN103, desviando pela rua da Sra. da Boa Morte até ao Cruzeiro, m.p. I, onde estaria o miliário de Constâncio I que apareceu no lugar de Eiras; logo após o canal segue à esquerda e logo à direita, iniciando a subida Alto de S. Lourenço pela rua da «Calçada Romana», troço da via ainda bem preservada que passa na Capela da Sra. dos Aflitos, onde vencia a milha II).

39.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (124)

Lourenço (ascende a encosta pela Calçada de S. Lourenço, troço lajeado onde Argote identificou um miliário anepígrafo deitado na berma da calçada ainda observado por Barradas em 1958, mas hoje desaparecido; indicava certamente a milha III; continua depois pela Casa dos Ferradores, Largo do Cruzeiro, milha IV, rua da Travessa, até à EN213; ao chegar ao chafariz segue para Juncal).

Ponte Romana de S. Lourenço sobre a ribeira de S. Julião/Cabanas/Palheiros (1 arco, a 500 m da povoação e segue por Arco e Lama)”.

 

Em segundo lugar, na Quinta do Germano, a Casa do Dória, já em ruínas, e porque o portão se encontrava fechado, por via de um pastor que andava a apascentar as suas ovelhas, não podemos entrar dentro.

 

Em terceiro lugar, a casa do Ângelo Trancoso.

41.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (136)

Em quarto lugar, no Castelo (Eiras), esta infraestrutura «acastelada», que há de servir para um complexo hoteleiro e de restauração, dizem-nos.

42.- 2020.- Trilho da ribeira das Avelãs-Chaves (119)

Até que chegámos à veiga, agora acompanhados do(a) calmo(a) e remansoso(a) Ribeiro(a) – de São Julião; de Sampaio; do Pinheiro; dos Palheiros; das Avelãs; das Cabanas; da Condeixa; do Caneiro… E sabemos nós que outros nomes ele(a) não terá até que chegue à sua foz. No rio Tâmega, no Jardim Público, em frente ao Tabulado!...

 

Foram 12,950 Km, de casa a casa, em boa companhia, feitos num dia calmo, sem grande calor. E bem desejados, depois de um confinamento de quase dois meses.

27
Jun20

Memórias de um andarilho - PR6 CHV - Trilho de Quinta do Rebentão - Parte II - Considerações e apreciações finais

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

PR6 CHV - TRILHO DE QUINTA DO REBENTÃO

 

PARTE II - CONSIDERAÇÕES E APRECIAÇÕES FINAIS

(18.junho 2020)

26.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (157)

(18.junho.2020)

 

(...) O bem e o mal expandem-se sacramentados pela liturgia dos discursos rigorosos dos sábios.

Quem de entre vós preenche o buraco negro do sentido da vida?

Quem de entre vós explica a súbita iluminação dos poemas de espanto?

Quem de entre vós ousa dizer toda a verdade sem sofismas?

Quem de entre vós tem a coragem de incrementar a inteligência milagrosa do deslumbramento?

Definitivamente, o mundo entra na sua luz de assombro.

Definitivamente, o milagre da eucaristia deixa de ser prodigioso.

Os homens sofrem porque se sustentam de frivolidades.

Os homens sofrem quando pensam que se divertem com o esplendor profano do sagrado.

Os homens narram o inenarrável como se fossem os deuses gregos da ausência e da vacuidade… (…)

… Agora eu sei: há definitivamente uma cicatriz antiga em tudo o que escrevo.

Por isso sofro quando me exalto pensando no ritmo da morte.

João Madureira, in O Poema Infinito

 

  • Uma coisa é a altimetria nos mapas; outra, no terreno. Trata-se de um Trilho que, em nossa opinião, não é para todas as idades e para todas as épocas do ano: ora se sobe – e bastante – até Ventuzelos/Santa Bárbara, ora se desce –e bem – para a Quinta do Rebentão; ora pode fazer, principalmente no verão, muito calor, porque com poucas sombras, ora muito frio, no inverno. O coração pode não ser compaginável para uns, assim como as articulações dos joelhos (as«rodillas») para outros.

 

  • Os marcos de sinalização bem podiam ter a designação do Trilho, como seja, PR6 – CHV, em vez da «chapa um» para todos os seis trilhos, a inaugurar brevemente.

 

  • Continuamos a não gostar da sinalização aposta nos troncos dos pinheiros. Custaria muito mais meia dúzia de marcos?

 

  • No placar de sinalização, sito frente ao Parque de Campismo do Rebentão, onde se inicia o Trilho, vemos a seguinte indicação: Ventuzelos – 8,3 Km; São Pedro de Agostém (Recomendado) – 11,2 Km.

67.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (2)

Na nossa modesta opinião, tal sinalização não está correta. Pese embora a existência de uma placa de sinalização à entrada da povoação de São Pedro com a designação «São Pedro de Agostém», não existe nenhuma povoação ou aldeia «São Pedro de Agostém». São Pedro de Agostém é o nome da freguesia que inclui as seguintes aldeias/povoações: São Pedro – sede; Agostém; Ventuzelos; Peto; Lagarelhos; Escariz; Sesmil; Paradela; Pereira de Veiga, Vila Nova de Veiga (onde se situa a Quinta do Rebentão, com Parque de Campismo, Piscinas Municipais, Quinta Biológica  e Circuito de Manutenção) e, finalmente, Bóbeda. Para todos os efeitos, o lugar onde está a placa de sinalização é São Pedro de Agostém, porquanto, estando a Quinta do Rebentão em Vila Nova de Veiga, estamos, ipso facto, em São Pedro de Agostém. Assim, a placa deveria simplesmente designar «São Pedro».

 

  • A partir da Quinta do Rebentão, o troço do Trilho vai diretamente para Redial. Porque não haveria de passar em Bóbeda? Recordemo-nos que estamos na presença de um percurso que pretende privilegiar a natureza e a cultura, o mesmo que dizer também a História. Por isso, este percurso, como os outros cinco, foi inserido num Programa com o nome de «Visitação do Património Natural e Cultural» no concelho de Chaves. Ora, no Cimo de Bóbeda existe um solar com história.

 

Trata-se do solar que foi pertença de Francisco de Magalhães Pizarro, 

68.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão 362 (10)

(Entrada murada do solar)

de apelido «O Maranhão», uma figura, no nosso ponto de vista, controversa, no contexto das Segundas Invasões Francesas, em Chaves; mas, para outros, é considerado como um verdadeiro herói.

 

Repare-se na frontaria principal do edifício,

69.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão 362 (15)

com o seu «exuberante» brasão de armas.

70.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão 362 (3)

Quer queiramos, quer não, esta Família dos Pizarros, quer em Bóbeda, quer na cidade de Chaves e, quiçá, em Portugal, é incontornável.

 

Num Trilho que se quer cultural, passar-lhe ao lado, é completamente incompreensível.

 

  • Por outro lado, não se compreende que, chegados ao início do termo de Redial, viremos à esquerda, pelo Cimo do Povo. Porque não seguirmos em frente e irmos ter ao centro da povoação apreciar mais dois solares da Família dos Pizarros, em particular o brasão de armas e um relógio de sol, apostos num deles, como no post anterior já demos conta, exibindo-os? Já percorremos muitos Caminhos de Santiago. Pois não há Caminho que se preza que, passando numa aldeia, que a atravesse! Afinal de contas, caso haja comércios, sempre se pode parar e fazer algumas compras ou, e isto é muito importante, cruzando-nos com pessoas, podemos falar com elas, conhecendo as suas vidas, ouvindo as suas histórias. Tudo isto é o que importa e é essencial enquanto se caminha. Convivermos e relacionarmo-nos para melhor nos conhecermos, criando mais vida, mais humanidade!...

 

  • Obviamente, em Ventuzelos é obrigatório, imperativo, ir ao Monte de Santa Bárbara. Não pode ser uma opção! Porque aqui também se fez um pouco da nossa história pátria, da nossa independência. E não se trata apenas de referir heróis.

 

  • Chegamos a São Pedro. Aí não vemos qualquer referência ao nosso D. João I, primeiro rei da nossa 2ª dinastia. Atentemo-nos na «Chronica de el-Rei d. João I», de Fernão Lopes,  da Bibliotheca Classicos Portuguezes, Lisboa, 1897, sendo Director literário Conselheiro Luciano Cordeiro, Proprietário e Fundador Mello d’Azevedo, reproduzindo as pág.s 33 a 35 do Volume V, Capítulo LXIII - «Como el –rei partiu da cidade do Porto com intenção de ir cercar Chaves»:

(…) D’alli ordenou el-rei de se ir para Traz-os-Montes, que é terra de Portugal, por cobrar alguns logares que n’aquella comarca ainda contra elle revelavam,  e des-ahi entrar por Castella, e porque era começo de inverno, receavam as gentes aquella partida, porém houveram-se de outhorgar n’aquello que el-rei tinha em vontade, e partiu el-rei d’alli com suas gentes e muitos carros com engenhos e mantimentos e outras coisas à guerra pertencentes, e foi-se por entre Douro e Minho, e mandou notificar por toda a terra que qualquer escudeiro ou homem fidalgo que d’alli houvesse já tomado soldo em esta guerra, e se não fosse pera elle em aquella ida que pera Castella queria fazer, que perdesse todas as honras e privilégios e graças que lhe el-rei tivesse feitos, e mais perdesse todos seus bens ou pagasse por eles cem dobras, qual elle ante quisesse, e esta mesma pena havia qualquer que se tornasse da hoste sem licença d’el-rei ou daquele que pera ello sem poder tivesse, de depois dava el-rei a muitos taes bens como estes, e chegou el-rei a vila Real, d’onde se partira João Rodrigues Portocarrero, e estando alli mandou recado a Martim Vasques Coutinho e outros seus vassalos que se fossem pera elle, e alli ajuntou sua hoste, e levou caminho a Chaves com intenção de a cercar, e era já isto no mez de Dezembro, e chegou a noite de Natal a uma aldeia que chamam S. Pedro de Costem, que é uma légua de Chaves, e hi teve el-rei a festa e esteve alguns dias, até que recolheu sua gente, e d’alli iam alguns à villa, nas qaues escaramuças morreu um cavaleiro que chamavam Alvaro Dias d’Oliveira, que atulou o cavallo com elle, e não podendo sahir alli o mataram (…)

Este logar de Chaves é uma vila de Portugal, na qual estavam um bom honrado fidalgo portuguez chamado por nome Martim Çonçalves de Taide, sua mulher chamava-se Mecia Vasques Coutinha, irmã de Gonçalo Vasques, que foi na batalha de Trancoso, e no logar estavam até oitenta lanças de bons escudeiros, e de bésteiros e homens a pé razoadamente, e veiu-se pera eles um cavaleiro galego da terra de Ourense, que lhe chamavam Vasco gomes de Seixas, com trinta lanças e homens de pé, e comsigo bons bésteiros, de giuisa que de gente havia ahi assaz pera densão do logar, e mantimentos tinham aguisadamente, e agua enxofrenta como de caldas, mal azada para beber, e a serventia da boa era do rio que vae per fóra, acerca da villa tinha um trom pequeno e umas cuberta, e das outras armas que a tal defensão pertenciam em egual avondamento (…)”.

 

Não existe qualquer referência, quer na freguesia, quer ao longo do Trilho, da presença e estadia do nosso D. João I, rei de Portugal, nomeadamente quando passou a noite de Natal de 1385, em São Pedro de Agostém. Não teria ficado muito distante das vias de comunicação (terrestres) de então, que provavelmente coincidiriam ou com antigos caminhos, relacionados com a antiga calçada romana, que se dirigia em direção a sul (Douro), ou com eventual Caminho de Santiago. Considerando que assentou arraial a uma légua da cidade – cerca de 5 a 6 Km e pico -; tendo em conta que a calçada romana, via sul (Douro), passava na da Quinta do Pinheiro, seguindo, provavelmente, por Pereira de Veiga e Vila Nova de Veiga, pelo Alto da Conceição, não custa muito relacionar/acreditar que o acampamento de D. João I, no Natal de 1385, ficasse no triângulo definido por Vila Nova de Veiga, Paradela de Veiga e São Pedro. Talvez, mais precisamente, no lugar que hoje chamamos de «Campos».

 

  • Finalmente, a questão da designação do Trilho. A própria designação do Trilho sugere que o mesmo se desenrola na Quinta do Rebentão, quando, na verdade, ele cobre (anda e abrange), tal como está (sem introduzirmos Bóbeda, como deveria ser), quer Vila Nova de Veiga, quer quer Ventuzelos, quer (Peto de) Lagarelhos, quer Agostém, quer São Pedro. E pergunta-se: pretende-se revisitar a natureza e a cultura dos povos (aldeias e freguesias), com suas terras e suas gentes, passadas, presentes e futuras, ou promover equipamentos de recreio e lazer? Opta-se pelo nome «Trilho de Quinta do Rebentão», como lugar de recreio e lazer, e esquece-se o nome da freguesia onde a Quinta está situada. Esqueceram-se dos lugares com História, por onde passaram vias romanas; onde existem casas solarengas; onde viveram reputados militares da praça de armas de Chaves (vide, Capitão Maia e coronel Sequeira, em São Pedro, e  Pizarro «O Maranhão», em Bóbeda, entre outros), que contribuíram para a história da cidade e da pátria; do lugar falado pelo maior cronista da nossa História, Fernão Lopes, como aquele em que D. João I ficou, no Natal de 1385; o 1º  e mais importante santuário mariano do concelho; uma quota parte do esforço português para repelir o inimigo, no tempo das II Invasões Francesas? Tudo isto se passou em lugares da freguesia de São Pedro de Agostém,  da qual, a Quinta do Rebentão, dela faz parte, na povoação de Vila Nova de Veiga. Isto, por um lado; por outro, igual critério não se teve quando se apelidou o Trilho, que deveria ser designado de «Contrabando de Vilarelho da Raia» (ou «Pela raia de Vilarelho» ou outro mais condizente com a sua história cultura e situação geográfica), em Vilarelho da Raia, simplesmente de «Trilho de Vilarelho da Raia»? Sinceramente, esperávamos dos nossos autarcas, que dirigem e governam os destinos das terras de Chaves, uma outra atitude e sensibilidade. Sabemos que a têm, mas, por descuido ou negligência, deixaram passar em branco algo que mexe com a forma como as terras de São Pedro de Agostém e as suas gentes são tratadas. Tudo quanto acabámos de referir, baseia-se em factos, devidamente provados, ao contrário de algumas iniciativas, promovidas pelo Município, que apenas se lançam para falar de simples conjeturas. Os lugares de História, e com história, de São Pedro de Agostém, precisam de investigação e promoção, por forma a melhor valorizar e dinamizar a nossa terra e as suas gentes, o mesmo que dizer, o concelho de Chaves.

 

26
Jun20

Memórias de um andarilho - PR6 CHV - Trilho de Quinta do Rebentão - Parte I - O percurso

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

PR6 CHV - TRILHO DE QUINTA DO REBENTÃO

PARTE I - O PERCURSO

(18.junho.2020)01.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (292)

 

O OFÍCIO SUBTIL DA FIRMEZA

Viver é um ofício de subtil firmeza.

Este ano vingativo está repleto de signos astrais que indiciam a feliz fragilidade das manhãs que sustentam os dias vagos.

Invento para ti a forma perfeita do sentido.

Empreendo o ritmo azul da paciência.

Apuro o ouvido para uma audição atenta da verdade incorruptível.

Estou exposto à infidelidade invisível da nudez.

Permanece incandescente a mutação ténue da eternidade onde a memória da tristeza tende para o infinito.

Sou subjugado pela penitência da viagem, eu o escrivão surdo da melancolia. (…)

João Madureira, in O Poema Infinito

 

Este Trilho inicia-se junto ao Parque de Campismo da Quinta do Rebentão, Vila Nova de Veiga, São Pedro de Agostém.

 

Depois de subirmos a rampa que nos leva ao Restaurante «Quinta do Rebentão»,

02.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (5)

tendo ao nosso lado direito as Piscinas Municipais,

03.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (8)

virámos à direita e, depois, à esquerda, entrando no Circuito de Manutenção.

04.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (15)

Percorridas umas dezenas de metros, deparamos com placas de sinalização.

05.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (17)

Seguimos a indicação recomendada, que nos manda para «Ventuzelos - 7,6 Km».

 

Neste sentido, depois de subirmos o escadório que nos levou até um Miramontes, ali, virámos à direita e, imediatamente, à esquerda.

 

Continuámos a subir, ziguezagueando por meio de um pinhal, onde se faz exploração intensiva da resina.

06.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (19)

É certo que começámos a nossa caminhada ao princípio da tarde de um dia de sol de junho, mais propriamente no dia 18. Por tal facto, quando estiverem estas condições atmosféricas, não se recomenda fazer este Trilho no verão. Será mais aconselhado fazê-lo na primavera ou no outono. Pelo menos, a estas horas. Por entre os pinheiros faz uma autêntica «brasa». Muito calor, mesmo!

 

A certa altura, fomos dar a um troço com o perfil de estradão florestal. Mas descampada. E, depois deste troço, e desta vinha,

07.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (36)

já nos começa a aparecer mais sombra, por via dos carvalhos, plantados na borda dos muros dos troços.

08.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (37)

Aqui e ali, troços mantidos  «às três pancadas», pouco cuidados e rodeados de abundantes silvedos. Parecem não serem muito frequentados.

09.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (40)

Em autêntico «tobogã», sempre perseguindo um perfil de relativa subida, o pinhal não nos larga.

10.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (45)

Cremos que poderíamos, por estas paragens, encontrar um outro percurso que nos levasse ao Cimo do Povo de Bóbeda, seguindo depois para Redial. No final, em «Considerações e apreciações finais», explicaremos a razão de ser desta nossa opção.

 

Estamos agora no termo de Redial, da freguesia de Vilela do Tâmega. É por todos sabido que esta freguesia, juntamente com as de Redondelo (povoação e termo de Rebordondo) e Anelhe, do outro lado do rio Tâmega, têm a uma das maiores manchas de pinheiro bravo do Alto Tâmega, em terrenos baldios, e que representa uma boa maquia para as finanças de cada uma das freguesias, quer na lenha, quer na resina.

 

Durante este primeiro terço do nosso trajeto – que o fizemos sozinho, numa espécie de romagem ou de saudade dos tempos da nossa adolescência tardia, quando percorríamos este caminhos  - entre as terras de Vilela do Tâmega e de São Pedro de Agostém - na companhia do nosso falecido irmão, exercendo o seu múnus apostólico, e nós o acompanhávamos, quando vínhamos de férias, não encontrámos vivalma. Apenas este casebre em total ruínas, no meio de um pinhal, onde, aqui e ali, aparecia um solitário carvalho.

11.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (53)

À borda de um troço, descaindo sobre um muro de pedra alto, aparece-nos um jovem castanheiro em plena floração, com cachos de flores, como este.

12.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (75)

Mais à frente, em Redial, passa o Caminho Português Interior de Santiago.

13.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (78)

Tal circunstância significa que, por estas bandas, desde tempos remotos, este lugar(ou zona) era caminho de passagem para outros destinos. Possivelmente de uma via ou calçada romana, que ligava Aquae Flaviae ao Douro. Vestígios, talvez por inadvertência nossa, não os vimos. Nem tão pouco qualquer placa sinalizadora, com qualquer informação, que nos dissesse que, com certeza, por aqui os romanos passaram, em direção ao sul, quer seguindo o Itinerário a) Chaves - serra do Alvão - Torgueda - Régua, via por alturas da serra do Alvão a poente de Vila Pouca de Aguiar, passando nas proximidades de Lamas de Olo, rumo às travessias do rio Douro em Caldas de Moledo (ligando a Lamego) e, em Peso da Régua, (ligando a Moimenta da Beira) ou b) via Chaves - Tresminas - Moimenta da Beira, via por alturas da serra da Padrela, cruzando a região mineira de Treminas e seguindo por Panóias, rumo à travessia do Douro em Covelinhas e daqui pelo Castro de Goujoim e Moimenta da Beira ou, finalmente, c) via Chaves - Numão - Celorico da Beira, eixo NO-SE, derivando da anterior na serra da Padrela, rumo ao Alto do Pópulo (Murça) e ao Carlão (Alijó), para depois cruzar o rio Douro junto do vicus mineiro da Sra. da Ribeira/Vesúvio, continuando para sul do Douro, por Meda e Trancoso até Celorico da Beira. («Vias Romanas em Portugal»)

 

Em poucos minutos, estávamos a chegar a Redial. A primeira construção que nos aparece são estas ruínas deste casebre.

14.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (87)

Num abrir e fechar de olhos, estávamos já nas imediações da povoação de Redial. E a primeira construção que nos aparece é este Cruzeiro.

15.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (97)

Aqui, em vez de seguirmos em frente para nos dirigirmos para o centro da povoação, onde aí podemos apreciar dois grandes solares,

16.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão 362 (33)

(Solar I)

17.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão 362 (35)

(Solar II)

pertença, outrora, da Família Pizarro, e que, no primeiro, podemos observar, quer um bonito brasão,

18.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão 362 (42)

quer um relógio do sol,

19.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão 362 (41)

virámos à esquerda, indo ter ao Cimo do Povo.

 

No cruzamento do Cimo do Povo de Redial, as placas de sinalização mandam-nos imediatamente para Ventuzelos. Quem quiser visitar Redial, terá de fazer um pequeno percurso suplementar.

 

Assim, passado todo o Cimo do Povo de Redial, torcemos à esquerda para Ventuzelos - se o fizéssemos para a direita e depois à esquerda, iríamos para Vidago -.

 

Agora, e a partir daqui,

19a.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (115)

é sempre cada vez mais a subir. Olhando à nossa direita, no alto, lá está o Alto do Castro ou Monte de Santa Bárbara, onde se posiciona a modesta capelinha de Santa Bárbara.

20.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (122)

Sensivelmente a meio da subida de Redial para Santa Bárbara (Ventuzelos), em terreno praticamente descampado, aparecendo-nos no meio do mato rasteiro um outro pinheiro, quais «D. Quixotes»,

21.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (132)

Virámo-nos para trás. Eis que Chaves se nos apresenta a nossos pés!

22.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (145)

Com algum esforço, atendendo à nossa idade, caminhando por um troço sem qualquer árvore a fazer sombra, num dia de intenso calor, finalmente, chegámos ao termo de Ventuzelos.

 

Em vez de nos dirigirmos para a aldeia, virámos à direita e, em trezentos metros, chegávamos ao Alto do Castro, onde, como referimos, está localizada a capelinha de Santa Bárbara.

 

Na subida, a primeira construção que se vislumbra é a Casa das Esmolas, protegida por um antigo sobreiro.

23.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (148)

Neste sobreiro, no qual tantas vezes, à sua sombra, dormimos sesta,

24.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (149)

tem-se uma bela vista para a cidade de Chaves e toda a sua envolvente.

25.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (150-185)

Num banco de pedra, debaixo do telheiro da Casa das Esmolas, sentámo-nos um pouco para descansar, depois de mudarmos a roupa do tronco, pois vínhamos completamente encharcados de suor, e de hidratar-nos.

 

Retemperadas forças, mais uma, das vezes sem conta, decidimos subir até à singela capelinha.

26.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (157)

Quando olhávamos para a escadaria,

27.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (157a - 181)

e nos preparávamos para subir, demos conta que, aqui, não estávamos sozinho. As duas bicicletas, no início da escadaria, denunciava gente nas redondezas.

28.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (157b- 182)

Mas antes de subirmos os patamares da escadaria, que nos levaria até a capelinha,

29.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (161)

deitámos uma vista de olhos para o placar informativo, no lado esquerdo. Reza assim:

No Alto do Castro, ou Alto do Monte de Santa Bárbara, a 775 metros de altitude, a vista panorâmica cobre as serras do Barroso e da Galiza, e as terras de Chaves, de Boticas, de Vidago e de Vila Pouca de Aguiar.

Santa Bárbara, para além de um miradouro e lugar de culto religioso, é um lugar histórico: durante a Segunda Invasão Francesa, no ano de 1809, o General Silveira retirou-se com as suas tropas para as encostas do Monte de Santa Bárbara antes de reconquistar Chaves. Foi também neste local que, no ano de 1823, foram travadas lutas entre miguelistas e liberais”.

 

Cremos que o placar diz, na essência, tudo.

 

Como miradouro, mostremos algumas panorâmicas, tiradas de diferentes ângulos do Largo da capelinha.

30.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (161a.- 167)

(Panorâmica I)

31.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (161b.- 158)

(Panorâmica II)

32.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (169)

(Panorâmica III)

33.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (172)

(Panorâmica IV)

Deixemos de falar aqui do palco das lutas entre miguelistas e liberais.

 

E não alimentemos mais a polémica, quanto ao General Silveira e o então tenente-coronel Pizarro, natural e com casa em São Pedro de Agostém, povoação de Bóbeda, que já tivemos com o nosso amigo Fernando DC Ribeiro. Fernando DC Ribeiro considera  o então tenente coronel Pizarro um dos heróis de Chaves, aquando das Segundas Invasões Francesas. [Veja-se posição de Fernando DC Ribeiro em «Flavienses ilustres - Francisco Pizarro, o Maranhão»  e «O Muro da vergonho do General Silveira» e, em resposta, o nosso ponto de vista expresso num nosso blogue «Voila é Zassu», num post sob a designação «Desencontro(s) – Cena 6:- Francisco de Magalhães Pizarro versus Francisco da Silveira», publicado a 18 de setembro de 2013 ].

 

E deixemo-nos ficar por aqui, porquanto esta reportagem não serve para continuar a alimentar polémicas. Enquanto não encontrarmos provas em contrário, defenderemos acerrimamente, independentemente do valor do nosso «Maranhão», de Bóbeda, cuja sua prole acabou por se consorciar com a do General Silveira, o nosso ponto de vista; quanto ao ponto de vista dos outros, embora discordemos abertamente, respeitamos. Somos, manifestamente, pelo princípio do contraditório e a favor da refutabilidade em ciência.

 

Fiquemo-nos simplesmente com o Monte de Santa Bárbara ou Alto do Castro como lugar de culto, agora cristão, para aqueles que são crentes, e como um lugar recheado de recordações familiares, para nós. Mas estas não fazem também parte desta reportagem. Pertencem às nossas memória pessoais, que aqui não vêm ao caso.

 

Quando subimos até ao marco geodésico do Alto de Santa Bárbara, do outro lado do recinto da capelinha, apercebemo-nos que os donos das duas bicicletas, «estacionadas» no início da escadaria, eram de uma mãe e seu filho, que andavam perscrutando o solo daquelas paragens. Naturais e residentes em Ventuzelos, pertencem à família de José Gomes, nosso conhecido.

 

Como não pedimos autorização para publicar as suas fotos, por respeito à sua privacidade e identidade, não as publicaremos, apesar de constarem do nosso arquivo da caminhada neste Trilho. Pararam para falar connosco, descendo das respetivas bicicletas, mesmo aqui, ao pé deste Cruzeiro, quando nos dirigíamos para Ventuzelos.

34.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (188)

No interior do Cruzeiro, para além do Crucificado, no teto, estão as figuras de S. Sebastião, Santo António, Santa Bárbara e o Arcanjo.

35.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (193)

Da última vez que estivemos em Santa Bárbara, foi com o nosso falecido irmão, então ainda pároco de São Pedro de Agostém, em 27 de junho de 2018, a ver o eclipse da lua vermelha.

 

Atravessámos a povoação de Ventuzelos pelo Cimo do Povo. Não encontrámos ninguém, a não ser um adolescente, andando de bicicleta.

 

Começámos a descer em direção a Agostém. Andávamos por asfalto.

36.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (210)

Quando pensávamos que nos dirigíamos para a povoação de Agostém, temos a indicação para virarmos à esquerda, por um antigo caminho público, que vai ter ao Cimo do Povo de São Pedro.

 

Enquanto percorríamos este troço de caminho, podemos observar, à nossa frente, em pano de fundo, a cidade de Chaves, com toda a sua envolvente e, na linha do horizonte, as serras de Portugal e da Galiza; no primeiro plano, a aldeia de São Pedro, destacando-se a torre e o teto da Igreja Matriz de São Pedro de Agostém.

37.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (214)

(Perspetiva I)

38.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (215 - 235)

(Perspetiva II)

À nossa direita, a serra do Brunheiro, e, no cimo de um cocuruto, o telhado das duas últimas casas do Peto de Lagarelhos.

39.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (216)

Antes de entrarmos em São Pedro, pelo Cimo do Povo, demos com um conjunto de estufas, com plantações de feijões e tomates.

40.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (225 b - 230)

Por este caminho, entrámos na povoação de São Pedro.

41.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (241)

A «Cortinha de S. Pedro», do casal Viçoso, que transformou a velha casa em sua casa de habitação e em turismo no espaço rural. Casal simpático. Grandes amigos do nosso falecido irmão padre.

42.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (240)

Entrámos em pleno Cimo do Povo.

43.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (246)

Quantas horas passámos aqui sentado, neste banco de pedra, à conversa com o então proprietário desta casa! Éramos ainda adolescente…

44.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (247)

Faleceu pouco tempo depois de termos chegado a São Pedro.

 

A antiga Residência Paroquial, onde veio a falecer o Padre Leonardo Augusto Nina Coelho, pároco que nosso irmão veio a substituir, por manifesta doença incapacitante – reumatismo gotoso.

45.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (251)

Quando nosso irmão aqui chegou, como pároco de São Pedro de Agostém, nos anos 60 do século passado, deixou que o Padre Leonardo aqui permanecesse até ao seu passamento, e foi habitar uma casa velha, cedida por um paroquiano de São Pedro – o senhor Duarte Maia -, porventura um dos homens, juntamente com a sua família, mais amigo de nosso irmão.

46.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (252) 362 (86)

E continuámos a nossa caminhada pelo meio do povo de São Pedro.

47.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (258)

Não deixámos de fazer um curto desvio para vermos em que estado se encontra a antiga casa do Capitão Maia,

48.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão 362 (73)

que tem ao lado esta singela capelinha.

49.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão 362 (74)

Até que chegámos à Igreja Matriz de São Pedro de Agostém, cujo orago é São Pedro.

50.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (261)

No placar informativo que se encontra à entrada da Igreja, consta:

Num documento da primeira metade do século XII faz-se referência à freguesia de São Pedro de Agostém e seu couto, como pertencentes ao arcebispado de Braga. Foi vigariaria da apresentação da mitra bracarense ou, segundo a estatística paroquial de 1862, do cabido, tornando-se posteriormente reitoria. A paróquia pertence, desde 22 de abril de 1922, ao arciprestado de Chaves e à diocese de Vila Real

No ano de 1721 foi descoberta uma pedra com uma inscrição dedicada a Lares Erredici (LA[R]IBVS/ERREDI[CI] RVFVS E/X VOTO) que, segundo fonte da época, terá aparecido no adro da Igreja, desconhecendo-se atualmente o seu paradeiro (CNS 24421)”.

 

Aqui fica o registo com a imagem exterior da Igreja, com um pouco da sua história, pois, doutra mais coeva, infelizmente pouco se sabe.

Prosseguimos o nosso Trilho, olhando para trás, para os lados da Igreja Matriz.

51.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (268)

Era por aquele portão verde, na altura de castanho velho, que também entrávamos para a primeira casa que habitámos em São Pedro, mesmo ao lado daquela, de bonita arquitetura transmontana. Antes o casario era mais pobre. Hoje está um pouco mais cuidado, a par de uma ou outra «aberração», pouca, que se encontra nesta quase desertificada povoação/sede da freguesia.

 

Aqui continua o Fontenário mandado fazer no tempo da Ditadura Nacional.

52.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (270)

Antes de nos encaminharmos para a rua da Senhora da Saúde, fomos dar uma espreitadela à casa do Coronel Sequeira,

53.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (276)

casa onde habitou o senhor Duarte Maia e sua esposa, que hoje é ocupada por uma das filhas do Coronel. Foram apenas uma dezena de metros até que regressámos à casa do falecido Barroco, genro do célebre «Cego» de São Pedro. Porque o senhor era mesmo cego. E, quando vínhamos de férias, quantas histórias (de vida), e da sua vida, nos contou!...

 

Em frente, a antiga casa da «Nízida».

54.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (277)

Agora, já na rua da Senhora da Saúde, apreciávamos, com mais detalhe, o seu casario: um, velho;

55.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (272)

(Casario I)

56.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (279)

(Entrada para a casa do casal Alberto e Maria Sá)

outro, nem tanto, e que outrora, o primeiro, era a casa da professora, D. Amélia, e seu marido, o senhor Alves,

57.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (282)

o segundo, a nova e atual Residência Paroquial, onde vivemos quase uma dezena de anos, situada em pleno Largo da Senhora da Saúde.

58.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (290)

(Perspetiva I)

59.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (296)

(Perspetiva II)

Olhando para trás, uma perspetiva do casario e da torre da Igreja Matriz.

60.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (283)

E estamos no Largo da Senhora da Saúde, onde impera o Santuário com a sua Igreja.

61.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão 362 (67)

No placar informativo, postado à sua entrada, podemos ler:

Nossa Senhora da Saúde é um dos santuários marianos de Portugal, com uma capela e um coreto. No seu recinto festeja-se o culto mariano com celebração de missa, feira com comes e bebes, e arraial com fogo de artifício, bandas filarmónicas e conjuntos musicais. É uma das romarias mais concorridas do concelho de Chaves, realizando-se anualmente no mês de maio”.

 

A informação vertida neste placar peca por três inexatidões e uma falha, a saber: a primeira inexatidão, é de que não se trata de um Santuário capela, outrossim de um Santuário igreja; a segunda, e conforme imagem que abaixo se exibe, o recinto do Santuário possui não um, mas dois coretos;

62.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão 362 (48)

a terceira, a Festa da Senhora da Saúde não se realiza anualmente no mês de maio. Embora seja o mês de maio em que a Festa mais ocorre, todavia, nem sempre é assim. A Festa da Senhora da Saúde é uma festa móvel, que tem como referência a Festa do Divino Espírito Santo, que é 50 dias após o Domingo de Páscoa. Ou seja, na segunda feira a seguir ao Domingo do Divino Espírito Santo51º dia – é que se realiza a Festa da Senhora da Saúde. Por exemplo, este ano foi a 1 de junho;  em 2017, foi a 5 de junho.

 

Juntamente com o Natal e a Páscoa, o Dia do Divino Espírito Santo forma o tripé comemorativo mais importante do Ano Litúrgico.

63.- Calendário Litúrgico

A falha diz respeito à não referência a esta impressiva coluna, que apresenta símbolos astrais, ligados à mitologia religiosa e pagã: do lado norte, fica o sol, de 12 pontas; do lado sul, a lua cheia; a nascente e poente, há quartos crescentes. Está situada em frente à fachada principal do Santuário. Para se «transformar» num Cruzeiro, falta-lhe o «Crucificado» no seu topo. Data de 1801. Se bem repararmos nesta «obra» e a compararmos com o relógio de sol do Solar de Redial, e atendendo aos poucos anos que separam estas duas obras, tudo nos leva a crer ser da mesma «fábrica» ou do mesmo artista.

64.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (293)

Aqui, neste recinto do Santuário da Senhora da Saúde, olhando, quer para a Igreja, quer para a Residência Paroquial, vieram-nos à lembrança muitas recordações. De um passado que já lá vai longe, de pessoas queridas, muitas queridas, que, agora, apenas andam dentro de nosso «coração».

 

A vida é apenas um instante. E nós tão pouco a sabemos aproveitar!

 

Sentado num dos bancos de pedra do recinto, tantos anos de recordações se nos tornaram vivos, presentes. Esta terra e estas gentes moldaram-nos, como pessoa que hoje somos. E nós tão pouco, desde que daqui saímos, as (re)visitámos!

 

Começava a fazer-se tarde. Levantámo-nos e apressámo-nos a descer para a Quinta do Rebentão, Vila Nova de Veiga.

 

Quando pensávamos que seguíamos estradão asfaltado abaixo, eis que, logo na primeira curva da descida, logo à saída do Santuário, nos «mandam» virar à esquerda. Confessamos que não gostámos deste troço (ou alternativa) para chegarmos ao inicio do Trilho, na Quinta do Rebentão.

65.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (312)

Foi um ziguezaguear  constante, por entre um pinhal mal cuidado e ordenado. E com que intenção?

- Para irmos dar ao Circuito de Manutenção!

66.- 2020.- PR6 CHV - Quinta do Rebentão (321)

Não havia necessidade. Valeria a pena se tivéssemos uma cobertura vegetal «decente» e uma autêntica Quinta Biológica. Nada disso sucede! Do que está fora de vista do Parque de Campismo, do Circuito de Manutenção e das Piscinas Municipais, é uma verdadeira desolação! A autarquia, proprietária deste espaço, tem de cuidar melhor dele e destas infraestruturas. Há que investir mesmo, a sério, numa cobertura vegetal autóctone, digna. Não apenas ficarmos por «fogos de vista». Costuma-se dizer – e muito bem – «o exemplo vem de cima»!

 

Apresenta-se agora o percurso do Trilho

PR6 CHV - Trilho de Quinta do Rebentão 01

e respetiva altimetria.

PR6 CHV - Trilho de Quinta do Rebentão 02

18
Jun20

Memórias de um andarilho - PR 8.1 CHV - Vilarelho da Raia (Chaves)

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

PR 8.1 CHV- TRILHO DE VILARELHO DA RAIA

(14.junho.2020) (14.junho.2020)

A história não deve permanecer encerrada nos seus

templos, escondida aos olhos dos leigos.

Depois de haverem descoberto a verdade,

à custa de porfia do trabalho,

os especialistas têm obrigação imperiosa de a difundir.”

 

Alberto Sampaio

 Estudos Históricos e Económicos,

Volume II, Vega, Lisboa, 1979, p. 41

01.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (50)

A 17 de fevereiro do corrente ano, ainda antes de entrarmos no estado de pandemia, por via do Covid-19, e a que ainda hoje estamos sujeitos, ainda que já mais «relaxados», sob a designação «Mais seis trilhos de visitação reforçam aposta no Turismo de Natureza», o Município de Chaves emite a seguinte notícia:

A autarquia está a implementar e homologar mais seis trilhos de visitação do Património natural e cultural, de forma a potenciar o turismo de natureza na região, numa clara aposta na afirmação do concelho enquanto destino turístico diferenciador e integrador.

Este projeto que consiste na construção de trilhos como Vidago - Arcossó (trilho da água), Seara Velha – Castelões, Vilarelho da Raia, Castelo de Monforte, Quinta do Rebentão e Moinhos de São Lourenço, visa contribuir para a preservação, conservação e valorização do património natural, paisagístico e cultural presente em algumas freguesias do concelho, de forma a que estas possam contribuir para a dinamização da economia local e para a melhoria da vida das populações.

A empreitada iniciada recentemente, orçada em 160 mil euros, permitirá construir percursos aliciantes que privilegiam a passagem em caminhos públicos, tradicionais e antigos, próximos a locais de interesse das localidades e que vão divulgar o património material e imaterial dos territórios, promovendo desta forma a prática do pedestrianismo (…)”

 

De acordo com a notícia, perguntamos:

- Que significa para a autarquia flaviense «trilhos de visitação do Património natural e cultural», que “visa contribuir para a preservação, conservação e valorização do património natural, paisagístico e cultural presente em algumas freguesias do concelho”?

- Será que o projeto, resultante destes seis trilhos, submetido pela Câmara de Chaves à Associação de Desenvolvimento do Alto Tâmega (ADRAT), no âmbito da candidatura apresentada ao Programa de Desenvolvimento Rural 2014-2020 (PDR 2020), com a designação «Trilhos de Visitação do Património Natural e Cultural» do concelho de Chaves, com um investimento de 160 mil euros (dizem outras fontes 180 mil – Evasões, de 11.junho.2020 e Público-Fugas, de 9.junho.2020,  tendo a mesma fonte a Agência Lusa), que consiste em trabalhos de limpeza do estrato arbustivo, pinturas (que pinturas?) em elementos naturais, implementação de sinalética, bem como colocação de estruturas de apoio, irão concitar o grande desiderato que se pretende, ou seja, por o caminheiro em contacto com a natureza e o território concelhio no intento mesmo de visitar o seu património natural e cultural?

 

Pelo que vimos, para já, temos as nossas dúvidas, que, ao longo do presente texto, passaremos a colocar…

 

Como a curiosidade era tanto, e como gostamos de caminhar pelo meio da natureza – e conhecer o nosso património -, no passado dia 14 do corrente, ao acaso, com mais cinco caminheiros flavienses,

04.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (47)

a convite do nosso amigo Rui Queirós, fomos efetuar o «PR 8.1 CHV – Trilho de Vilarelho da Raia», variante do PR8 CHV que integra a «visitação» ao moinho de Alvorinha, ao moinho e lagar de azeite de Quintela e à fonte de Águas Mineromedicinais da Facha, todos eles nas proximidades da ribeira de Cambedo, nos limites de Vilarelho da Raia, conforme infografia que apresenta o mapa do percurso e perfil da altimetria, que abaixo se exibem.

03a.- PR8 CHV Trilho de Vilarelho da Raia

(Mapa do PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia)

03b.- PR8 CHV Trilho de Vilarelho da Raia - Perfil de Altimetria

(Perfil da altimetria do PR 8 CHV)

Iniciámos o percurso, circular, designado de pequena rota (porque inferior a 30 Km) no Centro Social e Cultural de Vilarelho da Raia (onde também acaba).

02.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (133)

Começámos a nossa caminhada por volta das 9 horas da manhã. Estava um tempo agradável para andar, embora, no início, começasse a chuviscar. O trilho, no início, é agradável.

05.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (7)

Aqui e ali, víamos pequenos campos de cultivo bem tratados. A determinada altura demos com uma picota ou cegonha, junto a um poço. Há quanto tempo não víamos um engenho tão rudimentar como este!?

06.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (10)

A certa altura, num cruzamento, temos a indicação ou sinalética para virarmos à esquerda, orientando-nos para os limites da freguesia de Vilela Seca. E, naturalmente, pensamos que iríamos «visitar» o património mais significativo desta rica aldeia. Era meio quilómetro para lá e, pelos vistos, voltar para trás, fazendo mais meio quilómetro.

 

Simplesmente, o trilho apenas nos leva a «visitar» o forno comunitário de Vilela Seca

07.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (18)

e, pelo caminho até ao forno, porque se passa junto do cemitério, o lindo cruzeiro que o mesmo tem à entrada.

08.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (26)

Nada mais!...

 

Curiosos, ainda fomos deitando uma olhadela para esta casa solarenga, a começar a ficar em ruínas,

09.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (22)

e outra, mais abaixo, essa já completamente invadida pelas heras. Somente! Nem um único incentivo a dar uma vista de olhos à sua Igreja Matriz, ali bem perto!

 

Ao voltarmos a fazer o meio quilómetro de volta, cá para os nossos botões, interrogávamo-nos:

- porque fazer um desvio, que nos leva um quilómetro, indo a Vilela Seca, e que não pertence ao território de Vilarelho, para tão pouco se ver? Seria pelo facto de o trilho ou percurso ter o nome exclusivo de «Vilarelho da Raia»? Sendo assim, então não se punha os pés em Vilela Seca, virando-se logo à direita, em direção a barragem do Rêgo do Milho.

10.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (33)

No prospeto ou folheto do trilho, que já circula, a certa altura, diz-se: “Percorre um espaço mítico, de paisagens deslumbrantes, repleto de história e tradição. Entre Cambedo e Vilarelho da Raia, o percurso acompanha a raia, coincidindo com os antigos trilhos do contrabando e com os caminhos mistos que seguiam ao longo da antiga demarcação da raia seca, extinta com o Tratado de limites de 1864, que pôs fim aos chamados Povos Promíscuos”. E o texto prossegue: “É um dos percursos mais representativos da história do contrabando de Portugal, não só pela importância económica, mas sobretudo, pelos laços que se estabeleceram nestas comunidades e pelo sentido de resistência e aventura que caracterizou estes povos raianos, ao longo dos séculos”.

 

Nesta pequena citação encontramos matéria bastante para apelidar um trilho que pretende, no território do concelho de Chaves, ser uma «visitação do seu património natural e cultural». Que não o de somente «Vilarelho da Raia»...

 

Sinceramente, não gostamos do nome deste percurso, bem assim como de alguns dos outros.  Afigura-se-nos que prevaleceram critérios de índole de política local, em desprimor dos naturais e da história. Ou será que estamos enganados?...

 

A chegada à barragem do Rêgo do Milho, para um septuagenário, já exige um pouco mais de esforço. Mas nada exagerado. Fez-se bem. Tanto mais que, depois, fomos compensados com estas belas vistas. Obviamente que já vimos paisagens verdadeiramente deslumbrantes. Mas, na verdade, são belas vistas. Primeiro, da barragem;

11.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (55)

(Perspetiva I)

12.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (57)

(Perspetiva II)

em seguida, da sua envolvente, em particular a panorâmica de Vilela Seca e seus limites.

13.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (41)

Tivemos que dar quase uma volta completa à albufeira do Rêgo do Milho. Inutilmente. Ou porque alguém retirou o marco de sinalização; ou porque não foi posto, o certo é que andámos aqui perto de meio quilómetro para «acertar agulhas» no percurso, acabando, sob a orientação do caminheiro Amândio, bem conhecedor destas paragens, de, num desvio, «embicarmos para arriba».

 

Tem de se ter muito cuidado com a sinalização, que é um dos elementos mais importantes de um trilho. Para se não perder tempo e não nos perdermos. Dai que há que haver uma permanente vigília e preocupação não só com o estado de conservação dos respetivos trilhos como com a sua sinalização. Um trilho é feito para todos e não apenas para os locais, mais conhecedores do terreno.

 

 A meio da nossa subida,  – feita «mais a espaço», como dizem os «nuestros hermanos» - eis uma linda vista sobre o albufeira do Rêgo do Milho, com Vilela Seca como pano de fundo.

14.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (64)

Para nós, este foi o ponto mais lindo e mais alto deste trilho!

 

Chegados ao cimo, por um bom caminho florestal, descemos até às proximidades de Cambedo.

15.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (67)

Na descida, à nossa direita, um bonito panorama da pequena veiga de Vilarelho da Raia, com algum casario de Cambedo, a nossos pés.

16.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (68)

E, em pouco tempo, estávamos na zona de descanso do Pisão ou Rousso.

17.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (74)

Este lugar, como estrutura de apoio que é, bem podia estar mais bem cuidada e... com mais elementos de apoio. Uma simples mesa em pedra e uma mal amanhada limpeza numa pequena, mas linda presa, bem merecia outro trato…

 

Em suma, esta zona de descanso do Pisão deveria estar melhor tratada, oferecendo um acolhimento mais condigno para descansar e comer.

 

Recuámos umas dezenas de metros para seguirmos pela variante deste trilho (o PR8.1 CHV).

18.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (77)

Já não andamos em piso largo e bem limpo. Mas aceita-se.

 

Uma centena de metros percorridos, e como dizia o nosso Fernando Pessa - E esta, hein?

19.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (80)

Esta sinalização não se faz. Não é suporte adequado!

 

Inopinadamente, à beira do nosso trilho, aparece-nos o moinho de Alvorinha.

20.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (82)

É um moinho em perpianho que, junto ao telhado, tem colocada uma fiada de blocos. Mau gosto. Mas muito habitual em algo de que prezamos pouco.

 

Não se encontra qualquer vestígio da levada, que conduziria à admissão de água, da ribeira de Cambedo, até ao cubo. Como se pode ver, o cubo, que supomos ser de secção interna retangular ou quadrada, está completamente obstruído.

 

Procurámos saber do rodizio deste moinho, que seria uma estrutura mais ou menos parecida com este esquema.

21.- Moinho - Rodízio

Entrámos em zona que é propriedade privada, arriscando. Mas apenas encontrámos o que a imagem nos mostra: o lugar onde se localizaria o rodízio, ocupado com lixo!

22.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (86)

Bem sabemos que este «património» é particular. Mas bem andaria a autarquia flaviense em sensibilizar os respetivos proprietários para um melhor cuidado deste imóvel, fazendo, nomeadamente, um protocolo de utilização e conservação do mesmo.

 

Afinal de contas, não vimos moinho nenhum. Estávamos à espera de encontrarmos um imóvel recuperado que nos fizesse lembrar algo parecido com o esquema que se mostra.

23.- Moinho - 01

E o mesmo se aplica ao outro moinho – o de Quintela -, uns metros mais a frente, com um trilho com um piso mal tratado.

Veja-se o estado em que está.

24.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (96)

(Perspetiva I)

25.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (99)

(Perspetiva II)

26.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (99a)

(Perspetiva III)

Uma visualização um pouco atenta, mostra-se um moinho, ainda com uma pequena estrutura da levada e com dois cubos, de secção interna quadrada, servindo duas mós.

 

Contudo, o mais curioso na imagem, que abaixo se mostra, é a existência, ao lado do cubo do lado direito, de uma levada que continua para um patamar inferior do terreno, onde

27.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (94)

estão localizadas as ruínas de um lagar de azeite, que era movido a energia hidráulica.

28.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (102)

Temos imensa pena não mostrar, como deveria ser, este lagar! Não que estivessemos à espera de uma recuperação total do mesmo! Apenas contentar-nos-íamos que este local fosse devidamente limpo, mostrando simplesmente as suas ruínas - o que efetivamente dele resta. Mas, é tal a vegetação, que, mesmo assim, é impossível imaginá-lo!

29.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (101)

Que custava limpar a vegetação espontânea que não permite ver como deve ser não só os moinhos como o lagar de azeite? Mesmo sem qualquer obra, preservando somente as ruínas que ali estão?

 

Seria (será) assim tão difícil efetuar um trabalho deste? O seu proprietário opor-se-ia?

 

Cremos estar em presença de um raro exemplar de um lagar de azeite, movido a energia hidráulica (que, possivelmente, também serviria para moagem de cereal) no concelho de Chaves.

 

Conforme no início nos diz Alberto Sampaio, um dos deveres das entidades públicas é não deixar encerrada a história, consubstanciada neste, por mais pequeno que seja, património. Depois de descoberta(o) – porquanto a sinalizamos em mapas e dela falamos no panfletos do trilho -, “à custa de porfia do trabalho, os especialistas têm obrigação imperiosa de a difundir”.

 

Difundir, os especialistas; preservar e conservar as entidades públicas e privadas, em verdadeiro e porfiado diálogo de cidadãos, conscientes da importância e do valor da nossa história. Sim, da nossa história. Porque parte significativa da história dos nossos antanhos, que jamais devemos descuidar – e conhecer -, também aqui está.

 

Bem avisadas estão algumas autarquias, quando põem especialistas a estudar e a inventariar o seu património e, na medida das suas possibilidades, o reabilitam, conversam e preservam.

 

Aqui as «cores» pouco nos interessam. Damos alguns exemplos, quanto a moinhos e lagares tradicionais:

 

Um dia fomos desafiado para fazermos um trabalho sobre os moinhos de uma determinada zona do concelho de Chaves. O parto está sendo difícil. Cremos que não o vamos conseguir. E a razão é simples de se explicar. Não basta apenas a carolice de uns tanto. Exige-se trabalho apurado de especialistas, em equipa(s) interdisciplinar(es). Manifestamente, não possuímos capacidades, e não somos possuidor de tantas valências!...

 

O troço do percurso que nos leva aos dois moinhos e lagar de azeite, como acima referimos, bem podia estar melhor cuidado!...

 

Na aproximação a Vilarelho da Raia vimos plantações de groselhas,

30.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (106)

framboesas

32.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (104)

e mirtilos.

31.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (111)

Não se compreende o estado lastimável e de abandono em que se encontram estas explorações, insitas, cremos, demos de um perímetro de rega. Gasta-se dinheiro em barragens e perímetros de rega. Somos incapazes de fazer o emparcelamento para melhor rentabilidade das explorações. Buscam-se programas para projetos de financiamento. Explora-se, durante os cinco anos ou os que sejam obrigatórios do projeto. Passado esse prazo... o abandono!

 

A atual pandemia não explica, não pode explicar, tudo.

 

Em Vilarelho da Raia, não podíamos deixar de passar pela Fonte da Facha.

 

Deixamos aqui dois registos.

33.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (116)

(Fonte)

34.- 2020.- PR 8.1 CHV - Trilho de Vilarelho da Raia (119)

(Banheira)

E, oh pessoal da Junta de Vilarelho, não liguem a água para a Fonte da Facha só no período de eleições!...

 

Esta foi-nos contada e exemplificada!...

 

Consultámos a Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal e a Federação Europeia de Caminhadas, para nos informarmos dos percursos pedestres que existem na área do concelho de Chaves, bem assim em que estado estão os seis processos, em termos de registo e homologação.

 

Como em muitas coisas, que por este reino de Portugal acontecem, o sítio da Federação nada informa. A maneira mais fácil é dizer que «a página está em reestruturação». Mas, desde 2015/2016 para cá, não se fez outra. Ou, pelo menos, não está acessível ao comum dos mortais. E tudo isto numa era que dizemos ser o «império das TIC», do digital. Somente tivemos acesso a uma lista de 2015/2016! Naturalmente não atualizada!...

 

Uma curiosidade, que mais a vemos como ironia. Quando fazíamos a pesquisa nos diferentes sítios da web, pousámos os olhos num dos jornais de Vila Real. O Noticias de Vila Real, a 9 de junho corrente, bebendo da mesma  fonte, a Agência Lusa, sob o título «Chaves está a construir seis novos trilhos pedestres», a certa altura, dizia:

A iniciativa, que tem o nome «Trilhos de visitação do património natural e cultural do concelho de Chaves», engloba a construção de seis trilhos novos no concelho do distrito de Vila Real e envolve um investimento de cerca de 180 mil euros, estando a sua inauguração agendada para breve” (sublinhado nosso).

 

Que tão querido paternalismo têm os nossos amigos da Bila!

 

Concluamos.

 

Numa apreciação final, e em estilo telegráfico, queremos sublinhar:

  • O prospeto nada aborda ou especifica sobre a fauna e a flora existente ao longo do trilho;
  • Fala muito pouco pouco sobre a barragem de Rêgo do Milho;
  • A sinalização, no geral, está dentro dos parâmetros das instituições reguladoras e aprovadoras destes tipos de percursos. Consequentemente, aceitável;
  • O grau de dificuldade, em nosso entender, é aceitável para todas as idades, particularmente para um septuagenário como nós;
  • O trilho possui razoáveis zonas de sombra.

 

Como considerações finais:

  • O que pretendemos, com os nossos pontos de vista, é chamar a atenção (construtiva), para quem de direito, para uma mais ponderada reflexão sobre os pontos acima elencados, na hora de pôr oficialmente em funcionamento este percurso. E lembrar que não basta, inicialmente, ter um percurso muito bonitinho, como aliás acontece com muitos espalhados pelo território português, quer da responsabilidade de organismos da administração central, quer local ou até particulares. É necessário uma permanente vigília e manutenção do mesmo. Mutatis mutantibus, o mesmo se deve passar com os restantes cinco, da responsabilidade da Câmara Municipal, na área do concelho de Chaves.
  • Deve-se sensibilizar as povoações, os proprietários confinantes, e respetiva Junta de Freguesia, para o facto de eles próprios serem também os construtores do mesmo, não o deixando vandalizar e, porque não, - embora infelizmente saibamos que muitos deles são os que menos cuidam dele, destruindo até a respetiva sinalização - limpando-o e cuidando-o, como um património de todos nós, pago com o dinheiro que nos sai do bolso, sob a forma de impostos. Ou seja, mais consciencialização cívica e espirito de cidadania precisa-se.
  • As mesmas recomendações supra se aplicam a quem no(s) percorre, respeitando não só a propriedade privada como a pública.
16
Jun20

Memórias de um andarilho - Caminhadas nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor 1ª etapa - Destaque II - Património de Torre de Moncorvo

andanhos

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

 

DESTAQUE II – PATRIMÓNIO DE TORRE DE MONCORVO

 

“O abandono como plenitude. A consciência de um mundo em ruínas revela a possibilidade

de realização por meio de osmose com a natureza. A ruína como a plenitude da arquitetura.

A ruína como o tempo submerso. A ruína como flor. A ruína como resistência. O calcário

raspado, desgastado, a ferrugem, o descascado e seus teoremas. A ruína como a arquitetura

submersa. Isto foi, ali estava, viveu aqui e seus impossíveis correspondentes. O naufrágio

revela a inutilidade de qualquer projeto e da beleza desta inutilidade. A beleza do que é. A

invasão da natureza nas ruínas. Estabelecimento de uma democracia da luz na interseção

entre a arquitetura e o reino das folhas. A Casa retorna à natureza. Então a ruína deixa de

ser ruína, porque é da natureza novamente.”

Poesia da Lentidão, de Andres Ibañez

01.- Logo Torre de Moncorvo II

Corroborando o que já adiantámos no post anterior, a propósito da Igreja Matriz de Torre de Moncorvo, diz-nos o sítio da internet ««360º Torre de Moncorvo»   queAs origens do concelho de Torre de Moncorvo remontam à Idade Média. Inicialmente em S.ta Cruz da Vilariça. O foral da Vilariça ficou a dever-se a D. Sancho II, que o outorgou, em 6 de Junho de 1225, dando origem ao concelho de Santa Cruz da Vilariça, cuja sede aí permaneceu até que D. Dinis a transferiu para Moncorvo, por carta de foral, outorgada, em Lisboa, em 12 de Abril de 1285, e a vila foi dotada com muralhas e um castelo. A riqueza agrícola do vale da Vilariça potencia um período de prosperidade económica durante os séculos XV a XVII. A expansão da cultura do linho cânhamo, da vinha, azeite, seda, lã, amêndoa e cereais, a exploração do ferro, o dinamismo comercial da sua importante feira, aliados à sua posição geográfica, que fazia de Moncorvo um importante nó de comunicações entre Trás-os-Montes e a Beira, constituem os fatores mais importantes do seu crescimento demográfico.

Na sequência da nova divisão administrativa do Reino, no seculo XVI, Torre de Moncorvo, passa a sede de uma das quatro comarcas de Trás-os-Montes então constituídas, abrangendo um extenso território e a sede de provedoria. E sob o ponto de vista eclesiástico, constituía uma das cinco comarcas em que o vastíssimo arcebispado de Braga se dividia.

A produção do linho cânhamo faz surgir, em finais do século XVI, os armazéns reais de cordoaria. Derivada da grande produção de azeite, instala-se uma fábrica de sabão. Esta prosperidade económica explica a renovação urbanística de Moncorvo no século XVI, marcada pela construção da sua majestosa igreja [e, ao longo dos séculos XV a XVIII, de grandes casas senhoriais]. O papel negativo da Inquisição entre os séculos XVI e XVIII no tecido comercial progressista de Trás-os-Montes e a Guerra da Restauração 1640-1668, com invasões, cercos e saques de localidades vão fazer entrar em decadência todo Trás-os-Montes. Os conflitos ocorridos com a Espanha, entre 1640-1763, contribuíram poderosamente para um acentuado processo de despovoamento e mesmo de desertificação do Nordeste Trasmontano, incluindo Moncorvo.

A comarca de Moncorvo, da Coroa, não era, quer demográfica, quer economicamente, a mais populosa ou a mais próspera de Trás-os-Montes, uma vez que tanto a comarca de Bragança como a comarca de Vila Real a superavam nos planos referidos. Mas, sendo a mais extensa e a de maior continuidade territorial, gozava de um lugar central na província, atravessando-a de norte a sul, desde a fronteira com a Galiza até ao rio Douro, e detinha uma das portas mais importantes de Trás-os-Montes, a estrada da Beira que, pelo Pocinho – onde servia a barca de maior rendimento do rio Douro – e Moncorvo, ligava a Bragança e a Miranda”.

Apresentamos, da obra de Eugénio Cavalheiro e Nelson Rebanda – «A Igreja Matriz de Torre de Moncorvo» - uma infografia que representa a planta da vila de Torre de Moncorvo.

02.- Planta de Torre de Moncorvo antiga

Como podemos ver, as duas primitivas igrejas – de Santiago e Santa Maria – estavam extramuros ou extra muralhas da vila, não chegando ao nosso conhecimento a razão pela qual, de um modo especial a igreja de Santa Maria, sobre a qual se ergueu a atual Igreja Matriz, ficou fora das muralhas.

Se bem observarmos a foto, em 360º, exibida no sítio acima referido, da vila de Torre de Moncorvo, agora sem castelo erguido e praticamente sem muralhas, e comparando com a infografia acima exibida, vemos claramente ainda o casario disposto em conformidade com o antigo perímetro da muralha medieval da vila.

O mesmo acontece no vídeo que agora exibimos, no qual se destacam a imponente Igreja Matriz, fora das antigas muralhas, a Igreja da Misericórdia e o Castelo, no antigo perímetro amuralhado.

TORRE DE MONCORVO – PANORAMICAS 360º

Fora das muralhas, e à volta delas e da Igreja Matriz, dispunham-se solares e capelas, pelos seus arruamentos e casario, e que vão dar à Praça Francisco António Meireles, onde impera um bonito Chafariz filipino.

03.- 2020.- Moncorvo (76)

(Perspetiva I)

04.- 2020.- Moncorvo (77)

(Perspetiva II)

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(Perspetiva III)

Uma vez que, no post anterior já falámos do ex-libris da vila de Torre de Moncorvo – a sua Igreja Matriz – comecemos, então, pelo seu antigo Castelo, hoje apenas ruínas.

CASTELO DE TORRE DE MONCORVO

Segundo a «Nota Histórica-Artística», da Direção Geral do Património Cultural, "O castelo de Torre de Moncorvo começou a edificar-se logo após a atracão dos primeiros moradores, vindos de Santa Cruz da Vilariça, ou em data muito próxima. Em 1295, dez anos depois do documento de criação, o próprio rei faz referência ao castelo, pressupondo-se, assim, que as obras já estariam em curso (…). Apesar das múltiplas fases de destruição por que a fortaleza passou, é ainda possível reconstituir o seu aspeto geral original. Assim, a cerca definia um povoado de perfil oval, tão característico das vilas muralhadas góticas, que integrava quer a povoação, quer o castelo [Como acima se evidenciou].Três portas permitiam o acesso ao interior da cerca, de que se destaca a inexistência de qualquer abertura no final da Rua Direita, que terminava num grande torreão quadrangular (…). As principais portas situavam-se a Norte e a Nascente (São Bartolomeu e Nossa Senhora dos Remédios, ou da Vila) e eram flanqueadas por duas torres circulares. Uma terceira, localizada do lado Sul, estava anexa ao castelo, sendo defendida diretamente por este e dando serventia ao principal reduto defensivo da vila.

O castelo propriamente dito era de planta quadrangular algo irregular, e integralmente construído em granito, por oposição ao xisto da muralha, o que denota uma maior preocupação pela qualidade e durabilidade da construção. Localizava-se no topo poente da povoação e as suas muralhas interiores estavam livres de quaisquer edificações, o que lhe assegurava total independência em caso de invasão da povoação.(…).

Com efeito, foram várias as fases de reconfiguração e destruição da fortaleza medieval (…) Em 1721 noticia-se o derrube de algumas portas e partes da cerca e o século XIX foi desastroso para a sua história.

Em 1842, a Câmara Municipal já o considerava irrecuperável e, porque se localizava entre a vila velha e a nova, cujo acesso só era possível por uma estreita e íngreme artéria, o município projetou a sua demolição (…). Toda a zona foi, então, rebaixada e construídos novos edifícios públicos, demonstrando-se, desta forma, a modernidade do projeto camarário, que englobava ainda a constituição de um quartel, nunca efetivada".

Reputamos de algum interesse a leitura de «Castelo de Moncorvo», em Fortalezas.org.

05.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 203

IGREJA DA MISERICÓRDIA

Diz-nos, em 2006, Catarina Oliveira, do IPPAR que “A data de fundação da irmandade da Misericórdia de Torre de Moncorvo permanece desconhecida, sabendo-se no entanto que terá ocorrido na primeira metade do século XVI. O templo da confraria foi edificado na antiga Rua Direita da vila, junto ao local onde foi também, na época, edificada a cadeia feminina local.

06.- 2020.- Moncorvo (71)

Desconhece-se o autor da traça da igreja, no entanto o edifício destaca-se pela graciosidade das formas e harmonia de proporções.

De planta longitudinal, composta pelos volumes da nave única e da capela-mor, a igreja apresenta uma fachada de gosto renascentista de linhas eruditas, onde ao centro foi rasgado um portal de volta perfeita inserido num alfiz alteado, com dois medalhões sobre o extradorso do arco.

05a.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 215

(S.Pedro)

05b.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 214

(S. Paulo)

O conjunto é rematado por frontão triangular com friso, ladeado por pináculos e dois óculos.

Ao centro do remate foi rasgado, em época posterior, um nicho com imagem. O registo inferior da fachada é rematado com friso e duas gárgulas, e sobre este foi edificado um frontão, rasgado em 1864 para inserir a sineira.

07.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 210

Do lado esquerdo da fachada foi construído o consistório da Misericórdia, com entrada lateral e uma janela de canto no registo superior.

08.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 213

O interior, [a que não tivéssemos acesso] um espaço unificado coberto por abóbada de berço com caixotões de madeira, possui um programa decorativo diversificado, fruto de diferentes campanhas de obras. O templo possui dois púlpitos, um deles colocado junto à tribuna dos mesários, no registo superior. O outro, edificado do lado da Epístola,

09.- Igreja da Misericórdia de Moncorvo - Interior púlpito (DGAC, 1974)

(Fonte:- Direção-geral do Património Cultural – Igreja da Misericórdia de Moncorvo com todo  o seu recheio […])

é uma obra quinhentista, sendo considerado "um dos mais belos púlpitos da renascença portuguesa, talhado num só bloco de granito, em forma de cálice com a imagem de um santo da Igreja em baixo relevo em cada uma das faces (…)”.

Conforme se pode por esta foto antiga, este púlpito estava colocado no exterior da Igreja, na fachada principal.

10.- Púlpito

(Fonte:- «Memórias e outras coisas… Bragança – “Moncorvo – Porta e púlpito da Igreja da Misericórdia"»

Na capela-mor foi edificado um retábulo de talha dourada barroca, num modelo em estilo nacional.

Está classificado como Imóvel de Interesse Público e integra o Museu de Arte Sacra da vila de Torre de Moncorvo.

A PRAÇA FRANCISCO MEIRELES E O CHAFARIZ FILIPINO

O Chafariz filipino, situado na praça Francisco António Meireles, no centro da vila,  é datado de 1636. Foi construído durante a Dinastia Filipina, tendo levado dez anos a ser terminado. No ano de 1887, e por ordem do então Presidente da Câmara, o chafariz foi desmantelado e os elementos que o constituíam foram espalhados por vários locais, inclusivamente alguns foram enterrados num campo chamado da Corredoura no início do século XX.

11.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 192

Por ironia talvez, no último ano do século XX, também o Presidente da Câmara, recorrendo a fotografias e plantas antigas, debruçou-se na reconstrução do chafariz, tendo recuperado do original três peças que estavam na sua posse, como a taça e a base.

12.- 2020.- Moncorvo (65)

O chafariz insere-se numa tipologia de tanque sobre uma base quadrada. No primeiro pano, forma um depósito bolboso decorado com uma carranca jorrando água e, sobre este, foi construído um pináculo que termina a estrutura.

CONVENTO DE SÃO FRANCISCO

Apenas resta a Capela do convento e o antigo Asilo.

13.- 2020.- Moncorvo (74)

Segundo «Portugal.SOS - Estudo e Projeto de Arquitetura de Recuperação de antigo Asilo e Capela do Convento de S. Francisco» “No dia 2 de Maio, foi assinado no Salão Nobre do Reitor da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa um protocolo tripartido entre a mesma Faculdade, o Município de Torre de Moncorvo e a Fundação Francisco António Meireles com vista ao estudo e projeto de recuperação do antigo Asilo e da Capela do Convento de S. Francisco.

O protocolo tem por objeto a prestação de serviços relacionada com a realização de um projeto interdisciplinar de investigação científica aplicada, dividido em várias fases e tempos de execução cujo objeto de estudo será o edifício do antigo Asilo da Fundação Francisco António Meireles e a Capela do Convento de S. Francisco da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, tendo como objetivo último a execução de um projeto de arquitetura que permita a recuperação de ambos os edifício plenamente integrados um no outro (…)”.

14.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 204

E, para quê?

Segundo a «Radio Brigantia», de 15.04.2016, “O município de Torre de Moncorvo e a fundação Francisco António Meireles pretendem criar um Hotel com Spa no antigo Asilo e Capela do Convento de S. Francisco. Com esse objetivo foi apresentado um projeto de arquitetura, numa parceria com a Universidade de Lisboa.

No antigo asilo, propriedade da fundação, será implementado o hotel que terá a particularidade de ser constituído por apartamentos, quartos em grupo e quartos com acesso facilitado a pessoas com mobilidade reduzida. Já na Capela do Convento de S. Francisco, que pertence à autarquia, será instalado um spa. Um projeto hoteleiro que pretende abranger vários públicos e valorizar um edifício emblemático da localidade, como refere o presidente do município Nuno Gonçalves.

«O espaço está sobranceiro à vila e pensou-se recuperar esses dois edifícios, por forma a fazer ali uma unidade para pessoas com mais idade e também para pessoas jovens, com várias vertentes», frisa.

Pretende-se criar, associado ao vetor do bem-estar, um conceito que englobe o enoturismo e a produção vinícola. O projeto contempla ainda a criação de um edifício, inserido na arquitetura existente, onde ficará uma adega com parte destinada à produção, ao estágio do vinho e de venda ao público. Um sector já presente na instituição.

«Apostamos também muito no vinho e o spa e hotel teria muito a ver com isso», explica António Moreira, presidente da fundação Francisco António Meireles.

O próximo passo do projeto, apresentá-lo a operadores turísticos que possam ter interesse em investir, mas Nuno Gonçalves não exclui para já a hipótese de a própria Fundação Francisco António Meireles ser a entidade impulsionadora do investimento”.

Que seja do nosso conhecimento, o projeto, ainda nesta data, está em «banho maria»…

SOLARES E CAPELAS

Ana Celeste Glória, na sua obra «Solares e casas nobres em Torre de Moncorvo (séculos xvii-xviii», afirma:

A vila de Torre de Moncorvo possui um vasto património material e imaterial que contempla diversos períodos da História e da Arte. De facto, é nesta vila que encontramos um importante testemunho da evolução da arquitetura civil erudita, destacando-se os solares e casas nobres edificadas entre o período maneirista e barroco, num arco cronológico do século xvi a xviii. As características e especificidades de cada uma destas casas torna imperativo a sua análise, caso a caso, para o entendimento e valor deste património, que abarca não só o património artístico, mas também, o património religioso.

A edificação destas casas prende-se à necessidade de habitação dos seus proprietários, diferindo das restantes pelo tratamento arquitetónico e decorativo, proporcionado pelas condições económicas, sociais e políticas de cada família.

Atente-se ainda para o facto de, no século xvi, Moncorvo ser sede de Comarca, conhecendo uma considerável prosperidade económica que se manteve até ao século xvii,  por consequência da intensa atividade industrial da região, nomeadamente, da exploração das sedas, linho, cordoarias, manufaturas de sabão, minas de ferro, agricultura, entre outras. Como afirmou Luís Alexandre Rodrigues, referindo-se ao comércio, circulação de artistas e, por consequência, às famílias que os contratavam; aquelas

«(…) atividades alimentavam o tráfico comercial que usava as estradas e vias fluviais para fazer chegar os produtos ao Porto, donde eram embarcados para Lisboa e ultramar, à Beira, à Galiza e a Castela. Os artistas não ficavam de fora desta corrente até porque a construção de novos edifícios civis e religiosos, assim como o investimento decorativo que se lhes associa, resultou da labuta e dos quadros de mentalidade em que se moviam e afirmavam tanto o pequeno lavrador, como o artesão e o comerciante Assim se povoou o território de homens e de algumas das realizações materiais que mais enalteciam o orgulho dos indivíduos e das comunidades».

Assim, a necessidade de fixação no território por consequência das profissões ligadas aos negócios, ao comércio, mas também à política e ao exército, levaram à fixação de inúmeras famílias, algumas delas abastadas, que recorriam a artistas locais ou de grandes centros urbanos para lhes construírem novas casas. Estas novas edificações representavam um meio de afirmação social, económica e até mesmo cultural, traduzido pelo grande investimento construtivo e decorativo que as famílias impunham nas suas habitações, destacando-se da malha urbana, pela presença de determinados elementos que as caracterizavam e particularizavam. No que concerne ao período já mencionado, séculos xvii e xviii, salientamos seis casas nobres na vila de Moncorvo. São elas :

* Solar dos Távoras;

* Solar dos Doutéis e Capela de Nossa Senhora dos Prazeres;

* Solar dos Tenreiros;

* Casa do Cacao” / Casa da Família Vasconcelos;

* Solar dos Pimentéis;

* Casa do Morgado Leopoldo Henriques.

Estas casas localizam-se, na sua maioria, no interior do centro histórico, no designado núcleo renascentista, algumas delas, à sombra das muralhas do castelo medieval, classificado como monumento de interesse público. Relativamente às suas características históricas, artísticas e arquitetónicas, diferem entre si, dadas as especificidades de cada uma, e da data em que foram construídas. Somente o estudo de cada uma nos permite conhecer os solares e casas senhoriais de Moncorvo, bem como a evolução da arquitetura maneirista e barroca nesta localidade”.

Solar dos Távoras - Biblioteca Municipal e Arquivo Histórico da Torre de Moncorvo

O edifício da Biblioteca é um solar do séc. XVIII, que pertenceu à família Caetano de Oliveira.

15.- Torre_de_Moncorvo_-_Portugal_(15155040324)

Desde 1997 que está instalada neste solar a Biblioteca Municipal.

No edifício anexo funciona o Arquivo Histórico.

17.- 14845387318_237c177857_c

Solar dos Doutéis e Capela de Nossa Senhora dos Prazeres

Casa nobre com fachada principal formando ângulo, adaptando-se ao perfil do quarteirão e de três panos, um correspondendo à capela, e dois à casa, tendo no menor porta mais larga de acesso às lojas. De tipologia maneirista tardia, caracteriza-se pela sobriedade, sobretudo da ala residencial, interrompida apenas no eixo da entrada principal, onde apresenta cornijas, reta sobre o portal e contracurvada sobre a janela do segundo piso.

É no pano da capela que se concentra maior decoração, tendo no portal pilastras com o terço inferior de caneluras distintas, o friso do entablamento decorado com elementos geométricos relevados, o central com data da edificação da capela, encimado pela pedra de armas da família que mandou construir o solar, e coroado por sineira com alguns apontamentos do barroco inicial, como elementos volutados estilizados.

19.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 235

Não entrámos no interior do solar e da capela, contudo, pelo que pesquisámos, "O retábulo é já do pleno estilo nacional, com profusa decoração de acantos, pâmpanos, fénices, anjos, querubins, e concha perfeita, tendo ao centro painel pintado, com dossel fingido e lambrequim joanino. A gramática decorativa existente nos estuques do solar, assemelha-se à existente na sala da música do Solar dos Pimentéis (…) e na sala das quatro estações do Solar dos Tenreiros (…), assim como a iconografia, que também aparece na Casa do Sr. Leopoldo Henriques, levando Liliana Pereira a pensar na possibilidade do estucador ter sido o mesmo nas várias casas”.

Segundo Catarina Oliveira (GIF/IPPAR/18 de setembro de 2006), em «Nota Histórica-Artística»  “A Capela do solar, dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres, terá sido edificada nos primeiros anos do século XVIII do lado esquerdo do corpo do solar, demarcando-se pela disposição de contrafortes.

Embora tenha sido construída em Setecentos e apresente um programa decorativo de gosto plenamente barroco, este pequeno templo vai ainda utilizar linhas estruturais com evidentes influências maneiristas, possivelmente decorrentes da tratadística.

De planta retangular e nave única, a capela possui fachada com portal de moldura retangular flanqueado por pilastras jónicas, cujo friso é decorado com motivos de ponta de diamante e tem ao centro gravada a data 1714, que indica possivelmente a data de conclusão das obras. O conjunto é rematado por frontão interrompido, encimado por pedra de armas dos encomendantes. Sobre o edifício foi colocada uma sineira decorada com motivos de relevo.

O interior é coberto por teto de madeira de caixotões com moldura de talha e pinturas de florões. No topo da nave foi colocado o retábulo de estilo nacional de talha dourada e policroma com fundo pintado e albergando ao centro mísula com a imagem da padroeira”.

Solar dos Tenreiros e Capela de Jesus Maria José

Conforme se pode constatar, à data que consultámos o sítio da internet – «Portas do Sol e da Lua – Imóveis com História»   encontra(va)-se em ruínas.

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(Fonte:- «Portas do Sol e da Lua – Imóveis com História»)

A capela está inserida no solar. 

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(Fonte:- «Portas do Sol e da Lua – Imóveis com História»)

O solar está próxima da fonte das Aveleiras.

“Casa do Cacao” / Casa da Família Vasconcelos e Capela do Sagrado Coração de Jesus

Segundo Rosário Carvalho, no sítio da Direção-geral do Património Cultural, “A capela do Sagrado Coração de Jesus pertencia ao já demolido solar da família Carneiro Vasconcelos, tendo sido erguida, ao que tudo indica, no decorrer da primeira metade do século XVIII. Certo é que o órgão remonta a ano de 1743.

23.- 2020.- Moncorvo (69)

O portal principal é formado por pilastras e encimado por frontão de volutas interrompido pelo Sagrado Coração de Jesus, ao qual a capela é dedicada.

O século XVIII correspondeu, em Torre de Moncorvo, a um crescimento considerável da vila, quer em termos populacionais, quer em termos de superfície e de novos imóveis. Também o património religioso conheceu um crescimento, contando-se duas igrejas, um convento de frades, um recolhimento feminino, a igreja da Misericórdia, a capela do hospital e quinze capelas, oito das quais do padroado da câmara e sete de particulares (…). Estas, encontravam-se, como a capela do Sagrado Coração de Jesus, integradas nos solares setecentistas erguidos nesta centúria e que documentam o desenvolvimento da vila e da nobreza aí residente”.

Solar dos Pimentéis

Segundo a Direção-geral do Património Cultural –«Solar dos Pimentéis» -, trata-se de umaCasa unifamiliar barroca, de planta retangular

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com duas alas adossadas perpendicularmente à fachada posterior.

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Fachada principal, de dois pisos e dois panos definidos por pilastras toscanas, terminadas em friso e cornija e regularmente rasgada por vãos sobrepostos de verga abatida, tendo no primeiro piso portais e uma janela de peitoril e no segundo janelas de peitoril, com molduras recortadas, encimadas por cornija contracurvada sobreposta por concha, orelhas laterais e avental recortado com volutas".

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Vejamos o pormenor de uma das janelas.

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Este solar pertenceu à família Oliveira Pimentel e foi aqui que nasceu o General Claudino Pimentel e o Visconde de Vila Maior.

Casa do Morgado Leopoldo Henriques

Trata-se de um edifício histórico cuja construção terá sido iniciada no 1º quartel do século XVIII, certamente pensado para ser um vasto palácio, mas cujo projeto inicial terá sido condicionado pela falta de recursos por parte dos proprietários, a família Botelho de Magalhães. Mesmo assim, foi construída aos "bochechos" e nela terá nascido o pai de um dos fundadores da República do Brasil, Benjamin Constant Botelho de Magalhães.

Para mais detalhes sobre este cofundador da República do Brasil, consulte-se «Torre de Moncorvo in Blog». 

Em 25 de Abril de 2013, este edifício, no seu rés-do-chão, onde entretanto se encontrava um Jardim de Infância, tendo por cima a antiga agência do Banco Espírito Santo, hoje Novo Banco, foi utilizado para sede do Projeto Arqueológico da Região de Moncorvo (PARM).

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(Fachada Poente da Casa Leopoldo Henriques - sede do PARM no r/c)

A autora acima citada, Ana Celeste Glória, no seu trabalho, que vimos acompanhando, refere apenas os solares e capelas dos Távoras; dos Doutéis (e Capela de Nossa Senhora dos Prazeres); dos Tenreiros; a “Casa do Cacao” / Casa da Família Vasconcelos; dos Pimentéis e a Casa do Morgado Leopoldo Henriques.

Mas existem mais. Sem sermos exaustivos no que respeita aos edifícios que foram (e alguns ainda são, como o antigo Cineteatro; a Casa da Família Félix; o edifício do Tribunal, na praça Francisco António Meireles, a Capela de São Sebastião; a Capela de Santa Leocádia, na serra do Reboredo; o Chafariz de Santo António, etc.) também emblemáticos na vila e concelho de Torre de Moncorvo.

Solar e Capela de Santo António

Ainda segundo Rosário Carvalho, da Direção-geral do Património Cultural - «Capela de Santo António» - “A capela de Santo António integra o solar da família Carvalho Castro, nobilitada desde 1880 com o título de Viscondes de Marmeleiro (por decreto do Rei D. Luís a favor de António de carvalho Castro Freire Cortês).

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A sua fachada inscreve-se no eixo central do alçado do solar, destacando-se pelas pilastras que definem este corpo, separando-o dos restantes, de dois pisos com janelas de sacada de verga reta no andar nobre. O portal, ladeado por pilastras que suportam um frontão triangular, é sobrepujado pelo brasão de armas da família, terminando em cornija reta, e apenas ganhando maior visibilidade em relação à casa pela sineira que coroa este eixo, já sobre a linha do telhado. O posicionamento do brasão segue a norma que se observa em boa parte dos solares de Torre de Moncorvo, surgindo na fachada da capela e não sobre a porta de entrada do edifício habitacional. Muito embora o alçado da capela, de linhas retas, seja bastante depurado, é ele quem confere maior animação à fachada da casa, sem qualquer elemento decorativo.

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Todo o conjunto foi edificado no decorrer do século XVIII, ainda que, certamente, sobre as ruínas ou vestígios de construções anteriores. Apesar dos poucos dados disponíveis sobre esta questão, a verdade é que a data de 1490 surge gravada nesta fachada, talvez aludindo à instituição da capela”.

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De acordo ainda com a nossa mesma fonte, e dado que também não podemos entrar no seu interior, “No interior, ganha especial destaque a abóbada de berço de caixotões, com episódios da vida de Santo António, a quem o templo era dedicado, e naturezas mortas.

A capela de Santo António e o solar dos Viscondes de Marmeleiro constituem um dos muitos testemunhos do desenvolvimento da vila no decorrer do século XVIII, verificável não apenas num crescimento populacional mas também na edificação de novos solares aos quais se encontravam anexas as respetivas capelas e que muito contribuíram para o número significativo de edifícios religiosos existente em Torre de Moncorvo nesta centúria: duas igrejas, um convento de frades, um recolhimento feminino, a igreja da Misericórdia, a capela do hospital e quinze capelas, oito das quais do padroado da câmara e sete de particulares (…)”.

Solar do Barão de Palme - Museu do Ferro & da Região de Moncorvo

Segundo o sítio da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo – «Museu do Ferro» - “O Museu do Ferro & da Região de Moncorvo encontra-se instalado no solar do Barão de Palme, séc. XVIII, no Largo Balbino Rego, em Torre de Moncorvo. Trata-se de um edifício de traça simples, com escadaria exterior e varanda de alpendre. O Museu dispõe dos seguintes espaço: edifício principal, jardim anexo, auditório e área para reserva e depósito. No 1º andar do edifício do museu, a que se acede por uma escadaria exterior, encontra-se o posto de receção que orienta o visitante para uma área de acolhimento denominada Oficina do Conhecimento. Aqui se indicam, em imagens-satélite, os dois principais acidentes geomorfológicos que influenciaram a história económica da região: o vale da Vilariça, particularmente fértil, e a serra do Roboredo, onde jazem mais de 670 milhões de toneladas de minérios de ferro (hematite e magnetite). O vale da Vilariça corresponde a uma falha tectónica irrigada pela ribeira do mesmo nome, que aqui se encontra com o rio Sabor, e este com o Douro, propiciando a ocupação humana desde remotas eras. Como prova disso, nesta sala é exibida uma estela-menir antropomórfica do período calcolítico (Idade do Cobre), com cerca de 1,57 m. Ainda neste espaço, podem-se ver outros aspetos do património da região, através de uma projeção audiovisual, ou, em alternativa, documentários breves, além de um filme da década de 50 do século passado, sobre o trabalho nas minas de Moncorvo. Ao lado da Oficina do Conhecimento está a sala destinada à arqueologia e história da região, mas que presentemente é utilizada para exposições temporárias”.

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Capela do Espirito Santo e Hospital Velho

Em 1726 era considerada uma albergaria, que albergava e tratava dos visitantes mais desfavorecidos e pertencia ao hospital de Moncorvo. Em 1791 foi instituído em Moncorvo, sob a Invocação do Espírito Santo, o Hospital do Espírito Santo que era constituído por capela e casas anexas com serventia de hospital e hospedaria. Ostenta na fachada as armas de D. Manuel e a imagem de S. Mateus.

No interior subsiste um altar sumptuoso do séc. XVIII, em talha barroca e uma lápide em granito com as obrigações do antigo hospital.

Capela de Nossa Senhora dos Remédios

Foi edificada no séc. XVII, sobre o arco da porta do lado nascente da antiga vila de Torre de Moncorvo.

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É um dos poucos vestígios que restam da antiga e exterior muralha. No seu interior, encontra-se um altar de talha dourada, onde ao centro se encontra a imagem da Senhora dos Remédios.

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Edifício da Câmara Municipal

Edifício do séc. XIX, de estilo neoclássico.

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Ostenta na fachada a heráldica municipal.

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A fachada principal apresenta três panos definidos por pilastras toscanas, coroados por pináculos e dóricas.

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O pano central é rasgado por um portal de arco abatido,

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encimado por um friso e cornija com elementos fitomórficos, sobrepujado por janela de sacada com guarda de ferro. É coroado por frontão triangular com brasão no tímpano. Nos panos laterais, as portas são sobrepostas por voluta e janela de peitoril moldurada de arco abatido, e as janelas de arco também abatido encimados por cornija. As janelas do piso superior são em lintel retos.

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Neste edifício funcionam alguns serviços da Câmara Municipal.

 

Não poderíamos acabar este post sem referir dois aspetos.

O primeiro deles tem a ver com o célebre Jorge Luís Borges, escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino.

O escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), segundo consta, teve origens portuguesas (pelo lado Borges, seu bisavô), que parece ter prezado bastante. Ora, o seu bisavô seria natural de Torre de Moncorvo.

 

A este propósito, o escritor escreveu o seguinte poema:

 

OS BORGES

Nada ou pouco sei dos meus ancestrais

Portugueses, os Borges: vaga gente

Que na minha carne, obscuramente,

Prossegue seus hábitos, temores e rituais.

Ténues como se nunca houvessem existido

E alheios aos trâmites da arte,

Indecifravelmente fazem parte

Do tempo, da terra e do que é esquecido.

Melhor assim. Cumprida a odisseia,

São Portugal, são a famosa gente

Que forçou as muralhas do Oriente

E se deu ao mar e a outro mar de areia.

São o rei que no místico deserto

Se perdeu mas jura estar perto.

(Tradução de José Mário Silva)

 

O segundo, com um artista plástico, filho desta terra, que abalou para o Porto e, aqui, produz(iu) a sua obra – Dario Alves.

Deixamos à visualização dos nossos(as) leitores(as) uma das que mais gostamos.

47.- 1993-OB-15_MG_7204--

Que nos perdoem as figuras ilustres que foram ou partiram desta nobre vila transmontano. Tendo de fazer opções, pelo espaço que já vai comprido neste post, ficámos pelos mais coetâneos.

48.- 2020.- Moncorvo (81)

(Torre de Moncorvo - Terra do Ferro)

10
Jun20

Memórias de um andarilho - Caminhadas nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor 1ª etapa - Destaque I - Igreja Matriz de Torre de Moncorvo

andanhos

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

  

DESTAQUE I – IGREJA MATRIZ DE TORRE DE MONCORVO

01.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 190

 

Introdução

A Linha do Sabor passava na vila de Torre de Moncorvo, em Lagoaça, nas proximidades de Freixo de Espada à Cinta e Mogadouro e ficou a poucos quilómetros de Miranda do Douro – em Duas Igrejas.

 

Ao longo de oito reportagens, correspondentes às oito etapas que fizemos a pé nesta antiga e abandonada Linha, conforme íamos passando nas localidades ou nas suas respetivas estações mais importantes, fizemos destaques sobre cada uma delas.

 

Fazendo uma retrospetiva do trabalho que deixámos feito para trás, demo-nos conta que, em Destaque, não falámos de Torre de Moncorvo.

 

Contudo, bem vistas as coisas, não o fizemos por puro esquecimento. Quisemos seguir o aforismo ou máxima, que supomos de origem inglesa, quando diz «The last but not the least» que, traduzido em português, quer dizer «Por último, mas não menos importante»!

 

Na verdade, assim é. Diríamos até que, inconsciente e propositadamente, deixámos Torre de Moncorvo para último lugar por questões de natureza sentimental que nos ligam a esta terra transmontana.

 

Tivemos um irmão que, por via da sua profissão, do Peso da Régua, se deslocou para esta vila. Juntamente com a então sua família, e mais dois rebentos que, entretanto,  ali lhe nasceram – embora, infelizmente, só lhe tenha vingado um – ali viveu mais de uma dezena de anos, nas décadas de 60 e 70 do século passado.

 

Todos os anos, invariavelmente nas férias letivas, – pois éramos ainda estudante – ou íamos a Torre de Moncorvo ou ele, quando podia, com a sua família, se deslocava a Chaves. Até que assentou arraiais nesta terra fronteiriça.

 

Por esta circunstância, pela permanência e convivência com aquela terra e as suas gentes, ficámos-lhe muito ligado.

 

Em particular não nos podemos esquecer um casal, com duas filhas, muito amigo de nosso irmão – João e Idalina – com comércio na Praça. Gente boa. De coração puro. Amigo do amigo.

 

Quase todos se foram!…

 

E os peixinhos do rio que se comiam na «tasca», na antiga ponte do Sabor?!...

 

A ideia com que ficámos, naquele tempo, era de uma terra farta – onde não faltava a amêndoa, o azeite e o vinho, ombreando com as vilas vizinhas de Mogadouro, Macedo, Freixo e Foz Côa. Terra de Solares importantes e grandes proprietários que, só de vez em quando, é que passavam temporadas na terra. Gente com pergaminhos e de posses. Mas que, na voracidade dos tempos, «tudo o vento levou»!

 

Com o decorrer dos anos, aquela terra de fartura, foi decaindo. Como, aliás, já noutras ocasiões aconteceu. E, não fora o 25 de Abril, com a força do Poder Local, e o seu rico património construído, adrede às glórias passadas da sua  História, Moncorvo, que foi centro urbano importante no Nordeste transmontano e nevrálgico de comunicações para a Europa culta e para o interior do país, particularmente nos séculos XVI a XVIII, não passaria de um recanto esquecido nos confins deste nosso Reino Maravilhoso.

 

Simplesmente a sua altaneira e imponente Igreja Matriz, impondo-se no meio do atual casario, não deixa passar indiferente a quem a visita e por ela passa.

 

Por esta razão, vamos-lhe dedicar inteiramente um post. E, ao lhe dedicarmos um post a este património religioso, outra coisa mais não fazemos que prestar um justo contributo às sucessivas gerações antanhas desta vila que, aproximadamente, ao longo de um século, a construíram.

 

Apresentaremos, assim, aos nossos(as) leitores(as) a Igreja, depois de tecermos algumas considerações prévias quanto à razão da construção de uma igreja tão grande, numa vila (hoje) tão modesta, que, a nossos olhos, mais se aparenta com uma catedral.

 

1.- Breves considerações quanto à construção da atual Igreja Matriz de Torre de Moncorvo

Diz-nos Fernando de Sousa,  sob o título «Moncorvo. Uma reflexão em torno da sua identidade», na obra - «Moncorvo – Da tradição à modernidade», da qual foi coordenador:

As origens do concelho de Torre de Moncorvo remontam à Idade Média. Em finais do século XIII, D. Dinis concedeu-lhe carta de foral, e no século XIV a vila foi dotada com muralhas e um castelo.

Nos séculos XV a XVII, Moncorvo vai conhecer uma notável prosperidade económica, graças sobretudo à riqueza agrícola do vale da Vilariça, a região mais fértil de Trás-os-Montes.

A expansão da cultura do linho cânhamo, da vinha, azeite, seda, lã, amêndoa e cereais, a exploração do ferro, o dinamismo comercial da sua importante feira, aliados à sua posição geográfica, que fazia de Moncorvo um importante nó de comunicações entre Trás-os-Montes e a Beira, constituem os fatores explicativos mais importantes do seu crescimento demográfico (300 fogos em 1530), do seu desenvolvimento económico e da sua afirmação como um dos polos urbanos mais importantes no Nordeste Trasmontano, projetando a sua influência muito além do seu município.

Assim, o rabino da sinagoga de Moncorvo chegou a deter jurisdição sobre todos os judeus de Trás-os-Montes. Moncorvo, no século XVI, na sequência da nova divisão administrativa do Reino, passa a sede de uma das quatro comarcas de Trás-os-Montes então constituídas, abrangendo um extenso território e a sede de provedoria. E sob o ponto de vista eclesiástico, constituía também uma comarca, ou seja, uma das cinco comarcas em que o vastíssimo arcebispado de Braga se dividia.

Graças à produção do linho cânhamo vão surgir, em finais do século XVI, os armazéns reais de cordoaria. Devido à larga produção de azeite, instala-se uma fábrica de sabão.

Esta prosperidade económica explica a renovação urbanística de Moncorvo no século XVI, marcada pela construção da sua majestosa igreja, considerada a maior de Trás-os-Montes(…).

Ultrapassada a fase de maior prosperidade da sua história, Moncorvo, a partir da segunda metade do século XVIII vai sofrer, devido a vários fatores, uma desaceleração da sua economia, acompanhando a progressiva decadência que afeta todo o Nordeste Trasmontano”.

 

Esta perspetiva é também corroborada por Eugénio Cavalheiro e Nelson Rebanda na obra «A Igreja Matriz de torre de Moncorvo», de 1998, editada por João Azevedo Editor, Terra Transmontana quando, a propósito da construção da atual Igreja Matriz de Torre de Moncorvo nos dizem:

“(…) é preciso não esquecer a maior centralidade demográfica de Torre de Moncorvo em relação, por exemplo, a Freixo de Espada à Cinta, beneficiando do cruzamento de dois eixos viários muito importantes: um, no sentido Este-Oeste, vindo de Espanha, por Freixo de Espada à Cinta, em direção a Braga e ao litoral Norte; outro, no sentido Norte-Sul, que era economicamente significativo na época, ligado às grandes feiras da fronteira, de Trancoso a Miranda do Douro. A travessia do Douro, obrigatória no sítio do Pocinho, trazia ao concelho de torre de Moncorvo grandes rendimentos da barca de passagem, cujo monopólio se firmava em privilégios antigos.

A par desse fluxo mercantil, é preciso não esquecer o ainda muito concorrido Caminho de Santiago, responsável pela invocação (…) da primitiva matriz de Torre de Moncorvo (…).

Ainda no plano económico, é de referir que a feira de Torre de Moncorvo, criada por D. Dinis em 1284 ou 1285 e franqueada por D. João I em 1395, era uma das mais importantes da região. Desde cedo, Torre de Moncorvo se terá tornado uma vila de mercadores, onde naturalmente se destacavam os judeus, a ponte de existir aqui, no séc. XV, um «ouvidor» (rabí-mór) da comuna judaica. De resto, este carácter municipal e burguês explicaria bem o apoio ao partido do Mestre de Avis, na crise política de 1383-1385.

Para além do comércio de longo curso, com o inerente tráfego de mercadores e almocreves, é preciso não esquecer o comércio local, praticado no mercado semanal ou à porta, mantido pelos diversos artífices e inúmeros camponeses. Torre de Moncorvo era um centro de um vasto «hinterland» agrícola centrado no vale da Vilariça e, em certa medida, «industrial», com a pequena metalurgias praticada nas «aldeias ferreiras» da orla da serra do Reboredo, em particular Felgueiras. Este aproveitamento do ferro, não devendo ser de grande escala, deveria suprir, pelo menos, as necessidades regionais.

De maior importância neste período foi, decerto, a primeira grande cultura industrial desta região: o linho cânhamo do vale da Vilariça, a qual alcançou a maior progressão no século XVI, apesar de se encontrar documentado o linho alcânave , na Vilariça, já no séc. XV. As necessidades de abastecimento de cordame, para as naus da Índia, explicam este incremento, que culminaria na criação de uma cordoaria régia em torre de Moncorvo, em 1617 (…).

Sempre que se regista um certo florescimento económico, numa dada sociedade, a monumentalização surge como que espontaneamente, com o desejo de afirmação e consolidação do poder que se disfruta. Neste caso, a monumentalização procurava suportar a secreta aspiração a sede de diocese, dada a extensão da arquidiocese de Braga e ao movimento de criação de novas dioceses. Deve salientar-se que o estatuto de diocese obrigava à elevação a cidade da respetiva sede.

Procurava-se por essa via, e por inerência, o alcance de um estatuto urbano que permitisse, como lugar central, controlar uma área mais vasta (…).

O facto de Torre de Moncorvo ser sede de almoxarifado e, depois, de comarca, alimentou necessariamente as suas pretensões a sede de diocese, procurando fazer coincidir, dessa forma, o poder civil e o religioso, num mesmo lugar. Nos meados do séc. XV, o almoxarifado de Torre de Moncorvo chegava a Bragança e às vilas de Bemposta, Algoso e Outeiro, a Norte, tendo Vila Flor e Ansiães, a Oeste. Por seu lado, a comarca judicial abarcava um território que chegaria a Chaves e à ponte de Amarante, chegando a ser considerada a maior do reino,

Nestas circunstâncias, não é de estranhar que nos finais do século XVII –inícios de XVIII, a população da vila de Torre de Moncorvo seja já de 460 vizinhos (entre 1800 e 2000 habitantes), um considerável aumento em relação a 1530”.

 [No «Numeramento de Trás-os-Montes», de 1530, indica-se para esta vila e seus arredores uma população de 245 moradores, o que equivale a cerca de um milhar de habitantes. Apesar de se encontrar, nesta altura de 1530, entre os núcleos urbanos mais expressivos de Trás-os-Montes, estava longe, segundo os autores que vimos citando, de ser o de maior peso. Na região transmontana, Bragança surge à cabeça com 481 moradores na cidade e 5649 no termo, seguindo-se Vila Real com 478 (sede) e 2976 (termo), Freixo de Espada à Cinta, com 447 (sede), Chaves, com 385 (sede) e 3389 (termo), Miranda do Douro com 287 (sede) e 1625 (termo). De acordo com o geógrafo Orlando Ribeiro, que explorou a mesma fonte, «mais nenhuma povoação ultrapassa 200 moradores (800 habitantes; Mirandela (…) apenas tinha 77»].

(…) A expulsão dos judeus da Espanha dos Reis Católicos, nos fis do século XV, teria beneficiado principalmente Freixo, visto ser lugar mais próximo da fronteira, aumentando os seus efetivos demográficos e acrescentando-lhe riqueza económica decorrente das atividades artesanais e mercantis da comunidade judaica, transformada depois em cristã-nova.

Com efeito, Freixo de Espada à Cinta era, nesta época, um importante entreposto comercial de fronteira, por onde passava uma das rotas europeias com destino a Portugal, utilizada por muitos peregrinos castelhanos, e mesmo do resto da Europa, em direção a Santiago da Galiza.

Tudo isto ajuda a explicar também a grandeza da igreja de Freixo de Espada à Cinta, cujo início de construção terá sido bastante anterior à de Torre de Moncorvo

[Assim] (…) se explica a tentativa de Freixo, nesse sentido, por volta de 1545, bem como Torre de Moncorvo, em 1617, neste caso já depois da criação da Diocese de Miranda do Douro, mas entretanto vaga. Como parece evidente, estas petições traem  o verdadeiro objetivo de edificações religiosas que de outra forma pareceriam algo megalómanas.

Acrescente-se ainda o caso de Bragança que, apesar de já possuir o título de cidade desde o século XV, razão pela qual terá descurado os «argumentos» construtivos, não deixou de se ressentir pela opção da catedral em Miranda. O máximo que Bragança conseguiu como contrapartida, foi, então, um auditório eclesiástico e a nomeação de um vigário geral. Mas, como se sabe, mais de duzentos anos depois, acabaria por beneficiar da transferência da sede de diocese, em 1764, agora com grande despeito dos mirandeses.

Numa região como a transmontana, de parcos recursos, de povoamento concentrado, de homens endurecidos por uma natureza adversa e pela pressão da fronteira, em que o municipalismo foi sempre uma imagem de marca, a emulação entre comunidades vizinhas era um dado adquirido. Isto é tanto mais verdadeiro quanto na «Europa rica» da Baixa Idade Média, se jogava no mesmo plano, como afirma o historiador Jean Gimpel: «Os monumentos de pedra edificados pelos arquitetos lisonjeavam a vaidade dos burgueses. As cidades rivalizavam em ambição, querendo cada uma possuir uma abóbada ou uma flecha mais alta do que a da cidade vizinha. Assim aqui, como na Europa do Gótico.

Imaginamos, por isso, a complexidade dos jogos de influências, junto do poder central, para obtenção de qualquer benesse, como sobejamente nos transmitem os Capítulos das Cortes.

No caso vertente, o poder central acabaria por favorecer a escolha de Miranda do Douro, como sede de nova diocese, a qual foi criada pela bula do papa Paulo III, em 1545. Não deixa, a propósito, de ser curiosa a explicação dada pelo Abade de Baçal: «Nada (…) justificava tal preferência dada a essa cidade em concorrência com Bragança, a não ser o capricho de D. Catarina, mulher de el-rei D. João III, em engrandecer com benefício perdurável a primeira terra por onde entrou ao vir assentar-se no trono de Portugal. Clima áspero, tristonho, insalubre, pouco fértil e, de mais a mais, deslocada num canto da diocese». É o bragançano a falar.

Na esteira do abade de Baçal, Veríssimo Serrão acrescenta que a essa fundação «não foi estranha a vontade da rainha  D. Catarina, desejosa de colocar ‘alguns sujeitos’ da sua casa», já que eram espanhóis o primeiro e o terceiro bispo.

Pela nossa parte, pensamos que havia também, da parte do rei e da igreja portuguesa, algum interesse em fortalecer um posto avançado da fronteira e limitar a influência dos mosteiros leoneses na região, ainda senhores de significativas rendas do lado de cá da fronteira. Além disso, Miranda era um importante polo comercial transfronteiriço.

Entretanto o início da construção da catedral mirandesa só ocorreria em 1552, num momento em que quer Freixo de Espada à Cinta, quer torre de Moncorvo já teriam as suas igrejas muito adiantadas.

Conforme notou, já no século passado, o historiador de arte Joaquim de Vasconcelos, num artigo sobre o cânhamo, «com o dinheiro que rendeu o linho, o cânhamo, e o modesto bicho da seda, levantou a gente de Moncorvo a sua majestosa catedral da Renascença. Se quanto à sericultura esta só vai ganhar expressão nesta região, bastante mais tarde, a partir do séc. XVIII, sobre o cânhamo parece-nos aceitável a opinião deste autor.

É ainda Joaquim de Vasconcelos que, no mesmo artigo, ressalta o carácter burguês e comunal de Torre de Moncorvo, na génese da Igreja matriz: «ao passo que nas outras catedrais do país se encontram em toda a parte, na frontaria, na abside, nos pilares das naves, na galeria do coro, na caixa do órgão, na talha dos altares e dos retábulos, por toda a parte, os escudos da nobreza e do clero, debalde procurareis a heráldica no templo de Moncorvo. Ali só pode haver um brasão, o da cidade, pois foi o município que o levantou. E é ainda hoje o município que conserva este templo num perfeito estado de conservação, dotando-o com a maior generosidade. O filho de Moncorvo já não pensa talvez na seda, no linho e cânhamo, mas cita com orgulho a sua igreja, hoje como no século XVI, perfeita, imaculada e pura em todas as suas linhas! Pois é preciso dizer-lhe que essa fábrica grandiosa tem em Moncorvo a significação que um burguês de Nuremberga, ou de Augsburgo, de Ulm e de Colónia, de Pisa e de Génova, reconhece nos seus monumentos religiosos e civis: são os padrões da grandeza de municípios independentes, compostos de homens livres, que souberam conservar a sua preciosa liberdade rodeados de instituições feudais; que o cimentaram com o suor e com o sangue da indústria e do comércio, no ardor da forja, no tumulto dos mares e no remanso do tear (…)

Em resumo, podemos considerar que as condições que determinaram a construção e o volume da atual igreja de Torre de Moncorvo, se deviam a um certo crescimento demográfico, e a condições económicas e sociais favoráveis, beneficiando de ser um lugar de passagem na rota dos mercados regionais e no Caminho de Santiago. O aro concelhio possuía excelentes terras de cultivo, com produções bastantes ao autoconsumo e venda para o exterior, sendo de destacar a primeira cultura «industrial» da região, a do linho cânhamo. A dinâmica comercial era impressa por uma classe mercantil enraizada, reforçada pelo elemento judaico, feito cristão-novo depois do século XV. Como tal, o seu contributo para a obra da igreja não deixaria de ser verificado, até como forma de afastar suspeitas decorrentes da conversão forçada.

Temos depois uma acentuada tradição municipalista, amplamente favorecida, no caso de Torre de Moncorvo, por vários reis portugueses, como D. Dinis, D. Fernando e D. João I, que fizeram desta vila um centro de poder e de prestígio. Paralelamente a uma elite local de homens-bons e herdeiros dos cavaleiros-vilãos de Santa Cruz da Vilariça, um funcionalismo administrativo e judicial relacionado com o almoxarifado e a sede da comarca, acentuavam o carácter mais ‘terciário’ e menos rural de Torre de Moncorvo.

No plano religioso, havia que reforçar a afirmar a presença da igreja católica, numa época de crise, marcada a nível europeu pelo movimento da Reforma e, a nível peninsular, pela expulsão dos judeus da Espanha dos Reis Católicos, os quais se deslocaram em grande número para a orla da fronteira portuguesa. Assim, a grandeza da igreja-edifício não deixaria de ser associada, também, à da ordem religiosa que representava”.

 

Para uma perspetiva mais alargada da história de torre de Moncorvo, veja-se o artigo de José Marques «Moncorvo e os seus antecedentes, no contexto transmontano, na Idade Média», na obra acima referida - «Moncorvo – Da tradição à modernidade».

 

2.- As antigas igrejas de Santiago e de Santa Maria

Continuando a citar a obra de Eugénio Cavalheiro e Nelson Rebanda:

A primeira igreja matriz de Torre de Moncorvo, dedicada a Sant’Iago, ficava situada à entrada do atual cemitério. Por esta razão, o arruamento lateral conserva ainda este topónimo, apesar da designação de Santo Cristo que essa igreja passou a ter, a partir do século XVIII. No entanto, a tradição de ter sido aí a primeira matriz e de a mesma ser de invocação de Santiago, estava ainda viva nesse século, conforme atestam diversos relatos da época. Foi destruída nos finais do século XIX, pelo alargamento do referido cemitério.

Com efeito, ainda Torre de Moncorvo não beneficiava do estatuto de vila, quando das Inquirições de Afonso III, de 1285, surge a referência a uma ecclesiam de Santiago de Turre de Menendo Curvo, a qual era anexa da de Santa Cruz da Vilariça, ao tempo, sede do julgado do mesmo nome. Esta vila de Santa Cruz, que recebera foral de D. Sancho II, em 1225, viria a despovoar-se nos inícios do século XIV, tendo o grosso da sua população passado para o lugarejo de Torre de Mem Corvo.

Certamente, com a transferência dos foros de Santa Cruz da Vilariça, para Torre de Mem Corvo, em 1285, a antiga igreja sufragânea passaria a ser a matriz da nova vila, enquanto se edificava a cintura de muralhas que passaria a circuitar o novo núcleo urbano.

Seria lógico que surgisse, então, uma nova igreja intramuros, em lugar central, como por exemplo onde hoje se encontra a igreja da Misericórdia, que é renascentista (Séc. XVI). Apesar da possível existência de uma capela, neste local, precedendo a igreja da Misericórdia, não nos parece que aqui se tenha localizado uma nova igreja, com este estatuto.

Chegamos, assim, à problemática do aparecimento e localização da igreja de Santa Maria.

De facto, em dado momento do séc. XIV, surge referida na documentação uma igreja denominada de Sancta Maria da Torre de Mencorvo, também de padroado real, tal como a de Santiago, como se vê pelas cartas de apresentação dos respetivos clérigos, emitidas pelo rei D. Pedro I.

(…) seria de esperar que tal igreja de Santa Maria se situasse na zona intramuros, visto que o perímetro muralhado era de construção recente, encontrando-se o castelo ainda em obras. Ora pouco provável, por isso, que já não houvesse espaço, no interior da cerca, para uma igreja que deveria ter sido aí planeada desde o início, se considerarmos o urbanismo típico das chamadas «vilas novas» medievais. No entanto, por razões desconhecidas, parece que a localização da igreja intramuros, não chegou a acontecer. Ou, pelo menos, não a de Santa Maria”.

(…) A importância da igreja de Santa Maria [localizada sensivelmente no mesmo local da atual Matriz] verifica-se ainda antes da construção da igreja atual, pois cedo se converte em paroquial. Passam então a coexistir duas Abadias na vila de Torre de Moncorvo: Santiago e Santa Marias (…).

A supremacia de Santa Maria nesta época sobre Santiago terá sido alcançada no final do século XV, na passagem para o XVI.

(…) Serão, porventura, [também] os rendimentos crescentes da igreja de Santa Maria, designadamente as doações de propriedades no vale da Vilariça, que levarão à decisão de se construir uma igreja maior, mais consentânea com um burgo florescente, no auge dos Descobrimentos”.

 

3.- Apresentação da Igreja Matriz de Torre de Moncorvo

Vejamos, primeiro, uma panorâmica geral, em vídeo, sobre a Igreja Matriz de Torre de Moncorvo, e um resumo, feito pelo historiador Nelson Rebanda, sobre o que acima vertemos.

 

Competição para Catedral: a candidata nº 2, Torre de Moncorvo

Socorremo-nos, agora, dos sítios da internet  «Igreja Matriz de Torre de Moncorvo – Guia Turístico do Douro»  , «Igreja de Nossa Senhora da Assunção, Matriz de Moncorvo – Visit Portugal»  e «Igreja Matriz de Torre de Moncorvo – Câmara Municipal de Torre de Moncorvo»  para darmos uma vista de olhos sobre o edifício em si e alguns dos seus elementos mais significativos, quer exteriores, quer interiores.

 

A Igreja Matriz de Torre de Moncorvo é um dos monumentos mais interessantes que o visitante pode, e deve, apreciar no nordeste transmontano. Construída sobre as ruínas da igreja medieval de Santa Maria, as obras na igreja matriz terão começado no início do século XVI (1544)  terminado um século mais tarde. Erguendo-se em torno da torre sineira e nos seus 30 metros de esplendor, é dedicada a Nossa Senhora da Assunção. 

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Considerada uma das maiores igrejas paroquiais do país, é um imponente edifício de granito cuja verticalidade é acentuada pela grande torre saliente.

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A Fachada Principal do monumento é dominada pela torre axial, de planta quadrangular

e marcada pelo pórtico retabular maneirista, feito em arco e flanqueado por dois pares de colunas.

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Sobre o portal estão as imagens de S. Pedro e S. Paulo que ladeiam a de Nossa Senhora da Assunção.

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E acima destes ainda se pode observar uma janela em arco ladeada por dois óculos.

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Na parte superior da torre existem duas varandas e, acima destas, os sinos e também um relógio. A um nível mais elevado, nas laterais da Igreja, estão várias janelas e mais abaixo dois pórticos de estilo renascentista, um em cada lado.

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Possui lateralmente, dois corpos salientes: a Sacristia, a norte;

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(Vista geral)

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(Pormenor)

e um Alpendre junto ao pórtico sul.

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A Capela-mor de forma retangular é destacada do corpo principal.

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No portal lateral Sul, em estilo renascentista, lê-se a data de 1567 numa inscrição. Ladeando o portal, podemos ver dois rostos esculpidos em baixo-relevo, em medalhões, que constituem um elemento decorativo característico do estilo e que alguns historiadores identificam como sendo o retrato dos arquitetos.

 

O portal lateral Norte, também renascentista, tem a data de 1566.

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Os elementos decorativos que animam o exterior do templo merecem uma observação atenta, nomeadamente as gárgulas com formas zoomórficas,

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antropomórficas e de seres híbridos em atitudes curiosas.

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Repare-se na figura que puxa as orelhas ou nas que estão de boca aberta, simulando gritos, mas com a simples função de escoarem a água da chuva.

 

No interior do vasto templo, pode-se reparar que está dividido em três naves e em cinco tramos, estando cobertas por abóbada de múltiplas nervuras que saem de oito enormes pilares. É em estilo manuelino e está enriquecido por vários altares barrocos. Está organizado segundo o esquema das «igrejas-salão» com três naves, sendo os cinco tramos destas abobadados à mesma altura.

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(Perspetiva I)

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(Perspetiva II)

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(Perspetiva III)

Na Capela-mor pode-se admirar um grande retábulo de talha dourada barroca, da autoria do escultor bracarense Jacinto da Silva, de 1752.

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(Vista geral ampla)

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(Vista geral I)

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(Vista geral II)

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(Pormenor I)

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 (Pormenor II)

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(Cadeiral)

A abóbada é de berço.

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As pinturas murais do altar-mor e do corpo da igreja, atribuídos a Francisco Bernardo Alves, datam do séc. XVIII.

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(Lado da Epístola)

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(Lado do Evangelho)

Nas paredes laterais da mesma encontram-se frescos representando a Anunciação e a Última Ceia.

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A Capela-mor é ladeada por dois absidíolos em semicírculo: a Capela do Santíssimo Sacramento,

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(Vista geral)

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(Pormenor)

que apresenta um retábulo com vários painéis alusivos à Vida e Paixão de Cristo, bem como esculturas dos evangelistas e doutores da Igreja

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(Pormenor I)

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(Pormenor II)

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(Pormenor III)

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(Pormenor IV)

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(Pormenor V)

 e a Capela das Chagas – que parece reaproveitar elementos de talha dourada rococó, provavelmente provenientes do desaparecido convento de S. Francisco.

 

Existem também outros quatro no resto do templo - o das Almas do Purgatório,

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o de Nossa Senhora da Assunção,

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o de Santo Cristo ou S. Pedro e S. Paulo

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(Vista geral)

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(Pormenor I)

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(Pormenor II)

e o da Sagrada Família.

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Na Sacristia pode-se também apreciar outra magnífica obra de talha, seiscentista e de tipologia maneirista.

 

A Sacristia é abobadada com nervuras de traça manuelina. O altar, proveniente do corpo da igreja, é atribuível ao séc. XVII.

 

No Batistério é de realçar o Santo Cristo, S. João Evangelista e Maria Madalena, de aspeto flamengo.

 

Na Capela do Santíssimo Sacramento há a realçar um tríptico flamengo - representando o «Casamento de Santa Ana e a Sagrada Parentela».

 

O Tríptico da Parentela de Santa Ana, está situado na Capela do Santíssimo Sacramento. É um precioso retábulo do séc. XVI, em estilo maneirista, proveniente de uma oficina de Antuérpia. É considerado uma das obras de arte mais valiosas da região transmontana.

31.-2020.- Moncorvo (29)

(Vista geral)

32.- 2020.- Moncorvo (31)

(Painel da esquerda – O casamento)

33.- 2020.- Moncorvo (32)

(Painel da direita - S. Joaquim com Santa Ana à entrada da Porta Dourada de Jerusalém)

34.-

(Painel central - Santa Ana rodeada dos três maridos e restante Parentela, já no Paraíso, sem ciúme nem pecado)

Santa Ana foi exaltada pelos humanistas a partir do século XV e largamente durante o século XVI, apontada como esposa ideal, opondo-se à feiticeira tentadora que leva o homem ao pecado”. In:- «Relações culturais internacionais de Torre de Moncorvo (séculos XV-XVII)» - Adriano V. Rodrigues e Maria da Assunção Carqueja.

 

O tríptico está autenticado nas costas com sinais da corporação dos escultores de Antuérpia.

 

No Coro Alto, que está num piso intermédio da torre, há a apreciar um soberbo órgão de tubos, datado do século XVIII.

35.- 2020.- Moncorvo (49)

(Vista geral do Coro Alto com o órgão)

36.- 2020.- Moncorvo (52)

(Órgão no Coro Alto)

De acordo com a tradição popular, chama-se a esta igreja «de figos e de mel»: por  uma figueira ter nascido a meio da fachada e de existir uma colmeia na parede exterior do lado direito que, após várias tentativas de limpeza, aí permanecem há muitos anos.

 

No Átrio da Igreja, à esquerda, abre-se uma grande inscrição em letras capitulares maiúsculas, com algumas abreviaturas, referentes à Capela de Assoreira (Nossa Senhora da Teixeira).

37.- 2012 - Linha Sabor (Pocinho-Moncorvo) 301

08
Jun20

Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - Destaque II - Património de Miranda do Douro

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

  

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR 

DESTAQUE  II– PATRIMÓNIO DE MIRANDA DO DOURO

 

O mirandês é o caso flagrante para não dizer espectacular

- e se o dissesse não mentiria -

em que um idioma conseguiu sobreviver quase no fim do prazo da sua aceitação.

Ora isso deveu-se, por muito que custe a muito boa gente,

não só ao direito consuetudinário do povo mirandês,

mas sobretudo a um homem teimoso,

sacerdote não só da Igreja Católica como da própria Cultura Mirandesa,

que passou a maior parte da sua vida a entrincheirar elementos

e argumentos para garantir o raio dessa sobrevivência.

E aguentou-se no barco até ao desespero.” 

 

José Viale Moutinho

57.- Pauliteiros de Miranda 01

Antes de penetrarmos no cerne ou Centro Histórico desta cidade, fiquemos com uma panorâmica aérea da urbe e seus arredores.

MIRANDA DO DOURO, "CIDADE MUSEU" DE TRÁS-OS-MONTES!

Penetremos agora no interior desta cidade, descobrindo os seus tesouros. Para o efeito, servimo-nos de três «guias» ou cicerones digitais:

Acessoriamente, utilizámos:

***

Com vestígios de presença humana desde remotos tempos, Miranda tem fortes raízes Celtas e foi mesmo ocupada pelos Romanos.

 

A vila de Miranda surge mais claramente com o Rei D. Dinis, alcandorada sobre as arribas do Douro e era banhado pelos rios Douro e Fresno.

 

Com uma origem eminentemente medieval, Miranda do Douro cresceu orgulhosa da sua categoria de fronteira multicultural.

 

É aquando do Tratado de Alcanices – celebrado entre D. Dinis, rei de Portugal, e Fernando IV, de León y Castilla, que esta foi elevada à categoria de vila e aumentando-lhe os seus privilégios. Um dos privilégios deste foral era Miranda nunca sair da coroa.

 

Com uma posição estratégica importante, fronteiriça com Espanha, foi uma importante localidade na Idade Média.

 

A partir desta altura, Miranda torna-se progressivamente na mais importante das vilas cercadas de Trás-os-Montes.

 

Esta cidade, sede do concelho, está situada num espigão que domina a pique a margem direita do rio Douro, no troço internacional que separa a província portuguesa de Trás-os-Montes da província espanhola de Castilla y León, no conhecido Parque Natural do Douro Internacional.

 

É considerada a “Cidade Museu” de Trás-os-Montes, mantando a sua traça medieval e renascentista.

 

A atribuição do título de cidade a Miranda remonta a 1545, no reinado de D. João III, altura em que se tornou também sede episcopal. A antiga , também designada Concatedral é, naturalmente, o ex libris da cidade.

09.- 2012 - Miranda do Douro 136

Destacando-se num dos extremos do Centro Histórico da cidade, a vista da é irresistível, com as suas feições severas, plasmadas na fachada granítica, concluído na última década do século XVI.

10.- 2012 - Miranda do Douro 138

A Concatedral de Miranda do Douro, antiga de Miranda do Douro, é um templo católico cuja construção teve início em 1552, inserindo-se na tipologia de sés mandadas construir por D. João III, com uma fachada harmónica, em que um corpo central é ladeado por duas poderosas torres, e um interior em três naves abobadadas à maneira gótica, com cruzaria de ogivas de nervuras visíveis. O templo foi concluído na última década do século XVI. O projeto foi feito por Gonçalo de Torralva e de Miguel de Arruda.

10a.- 2012 - Miranda do Douro 216

(Perspetiva I)

10b.- 2012 - Miranda do Douro 221

(Perspetiva II)

10c.- 2012 - Miranda do Douro 217

(Pormenor de uma das torres)

Em 1566 o bispo D. António Pinheiro consagrou o altar-mor e em 1609, D. Diogo de Sousa informa o Papa que a construção fora concluída.

 

Foi  classificação como Monumento Nacional pelo Decreto de 16-06-1910, Diário do Governo n.º 136, de 23-06-1910.

 

Entremos e observemos no  interior da Catedral, que nos guarda algumas surpresas.

Conforme vimos acima, na antiga ou Catedral, pode apreciar-se o retábulo da capela-mor com esculturas em madeira,  de alto relevo, considerado pela Revista «Varia de Arte» e por alguns historiadores da Arte como um dos melhores conjuntos de escultura policromada de toda a Península Ibérica.

12.-Retábulo

E não esquecer a “loja maçónica” demarcada na área do cadeiral do cabido por ladrilhos negros e brancos.

15.- Cadeiral

O órgão, com a sua «carranca».

16.- 1Órgão - Carranca

És mais feio do que a carranca da Sé”, diz-se por estas paragens.

 

Mas a sua maior atenção irá, certamente, para o curioso Menino Jesus da Cartolinha, Menino Jesus do Chapéu Alto, ou ainda, o Nino Jasus de la Cartolica, peça única da iconografia cristã. Trata-se de uma verdadeira preciosidade, esta imagem única no mundo cristão.

17.- Menino Jesus da Cartolinha

A figura de pequeno tamanho dá corpo à lenda que conta que durante um cerco espanhol à cidade, (Guerra dos Sete Anos ou Mirandum), quando a população exaurida pela fome e pelas doenças se preparava para a rendição, começou a surgir um menino em vários pontos da muralha a instilar ânimo aos habitantes. Foi bem-sucedido, mas nunca foi encontrado. O milagre foi atribuído ao menino Jesus e em sua honra esculpiu-se uma imagem vestida com trajes fidalgos — atualmente, as roupas em miniatura que compõem o seu vasto guarda-roupa (a tradição diz que raparigas solteiras devem dar as meias e as camisas) são também parte da curiosidade.

 

A Catedral ou , ou ainda Concatedral, foi edificada, ao que parece, no mesmo sítio onde antes se erguia a antiga Igreja de Santa Maria, mandada construir por D. Dinis. Com três naves, esta catedral possui uma arquitetura majestosa e um interior de grande riqueza e elegância.

 

A Catedral ou Sé é “exagero” para estas paragens, como comenta alguém. “Ninguém espera isto aqui.” Mas “isto”, agora a Igreja Matriz de Miranda, foi a antiga Sé de Miranda do Douro, herança do período em que a cidade foi sede de diocese, entre 1545 e 1780.

 

A  Concatedral de Miranda do Douro, que levou de vencida às Igrejas de Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta, no tempo de D. João III, pelo que se diz, mercê da vontade de sua esposa, D. Catarina, que, pela primeira vez que veio a Portugal, para se consorciar com o Rei, entrou por aqui,  exibe-se orgulhosa num extremo do pequeníssimo planalto, no seu Centro Histórico.

18.- 2012 - Miranda do Douro 047

Por detrás da Igreja, antiga ou Concatedral, as Ruínas do Paço Episcopal, destruído por um incêndio há 200 anos, dão ideia da importância de Miranda desde o século XIV. O privilégio episcopal foi perdido em 1764, em favor de Bragança.

19.-2012 - Miranda do Douro 186

(Perspetiva I)

20.- 2012 - Miranda do Douro 184

(Perspetiva II)

22.- 2012 - Miranda do Douro 193

(Perspetiva III)

24.- 2012 - Miranda do Douro 212

(Perspetiva IV)

Perto da Catedral, do outro lado do rio Douro, encontramos o Penedo Amarelo,

25.- 2012 - Miranda do Douro 178

uma magnífica paisagem, de um amarelo bem vivo, quase a cair no Douro. No penedo, com 690 metros de altura, erguido como se fosse o diabo a olhar para Castela, para parafrasear Miguel Torga, sujeito a as vertigens, conseguimos observar um enorme número 2, que mantém um dos mistérios das redondezas, que parece ter ido picado por uma mão humana.

 

A explicação é clara: a cor do 2 deve-se aos líquenes, aqui em grande quantidade e variedade, que é sinónimo de ar, livre de contaminação. Vê-se à primeira, embora não tão visível ou óbvio de outras perspetivas.

 

Corre, quanto a este número, uma certa maldição: os solteiros, que não o vêm, não casarão; os casados, que não o vêm, estão a ser traídos.

 

A imaginação do povo é fértil!...

 

Na Praça D. João III,

26.- 2012 - Miranda do Douro 135a

está o Museu da Terra de Miranda. Instalado num edifício do século XVII. O Museu oferece-nos um rápido olhar sobre a etnografia mirandesa e dá-nos ricas informações sobre a casa tradicional, o artesanato e o vestuário.

27.- 2012 - Miranda do Douro 107

Na altura em que estivemos em Miranda do Douro, a cidade, os seus espaços públicos estavam todos em obras de novas pavimentações das ruas.

 

Rodeando a Praça de D. João III, o Edifício da Câmara Municipal

28.- 2012 - Miranda do Douro 111

e o Solar dos (de is) Ordazes.

29.- 2012 - Miranda do Douro 112

No meio da praça, encontramos duas estátuas em tamanho real de um casal mirandês:

30.- 2012 - Miranda do Douro 102

ele envergando uma Capa de Honras, uma peça única do vestuário tradicional português e ainda usada em várias cerimónias, inclusive pelo Presidente da Câmara que assim recebe os convidados oficiais.

31.- 2012 - Miranda do Douro 103

As Ruínas das Muralhas. Eis o que resta preservado delas.

32.- 2012 - Miranda do Douro 068

A sua construção teve início nos finais do séc. XIII. Conserva apenas, parcialmente uma torre do séc. XV, a Porta da Traição, da Senhora do Amparo e o Postigo.

33.- 2012 - Miranda do Douro 062

Não podemos deixar de falar da antiga Igreja setecentista dos Frades Trinos. Agora imprevisivelmente profana, e transformada na Biblioteca Municipal.

34.- 2012 - Miranda do Douro 197

(Perspetiva I – Vista lateralmente)

35.- 2012 - Miranda do Douro 199

(Perspetiva II – Vista de frente)

O Castelo que foi melhorado pelos primeiros reis portugueses. Contudo, com as diversas lutas, que se travaram nos anos seguintes, arruinaram-no, sendo necessária a sua reedificação no reinado de D. Dinis, por volta de 1280. A boa construção deste castelo fez com que resistisse aos sucessivos ataques castelhanos, no reinado de D. Fernando, que mandou cunhar moedas com um «M», sobre o escudo das quinas.

 

Miranda do Douro foi-se à Guerra dos Sete Anos - que, aqui, ficou conhecida por Guerra do Mirandum - e o seu castelo foi-se pelos ares.

36.- 2012 - Miranda do Douro 208

Na refresga espanhola à cidade muralhada, um projétil caiu sobre um armazém onde se guardava pólvora: as muralhas e a torre de menagem do castelo ruíram, 400 pessoas morreram. Hoje, o que resta da alcáçova do castelo de Miranda é uma bela ruína a mirar o Fresno, o segundo rio de Miranda, a seguir ao Douro.

37a.- 2012 - Miranda do Douro 237

(Perspetiva I)

38.- 2012 - Miranda do Douro 235

(Perspetiva II)

38a.- 2012 - Miranda do Douro 240

(Pormenor)

O antigo pátio de armas é um parque de estacionamento a dois passos da Rua Mouzinho de Albuquerque, espinha dorsal do núcleo histórico, onde o comércio mais abunda.

39.- 2012 - Miranda do Douro 229

Nas proximidades do Castelo, a Casa de Música Mirandesa.

39a.- 2012 - Miranda do Douro 232

A mais importante das ruas de Miranda é a Rua da Costanilha, de origem medieval. A sua antiguidade remonta ao séc. XV. Aqui se acantonava a colónia judaica.

40.- 2012 - Miranda do Douro 076

É na Rua Costanilha,

41.- 2012 - Miranda do Douro 079

e suas satélites, particularmente a Rua Nova,

42.- 2012 - Miranda do Douro 090

que o carácter medieval de Miranda parece irredutível,  quando fica banhado pela luz amarela dos candeeiros de ferro forjado.

43.- 2012 - Miranda do Douro 083

O casario quinhentista,

44.- 2012 - Miranda do Douro 080

(Pormenor I)

46.- 2012 - Miranda do Douro 095

(Pormenor II)

47.- 2012 - Miranda do Douro 088

(Pormenor III)

de pormenores manuelinos, forma um entramado mais ou menos conservado, às vezes inesperadamente erótico, como a Casa das Quatro Esquinas

48.- 2012 - Miranda do Douro 269

medieval, com quatro janelas a fazer esquina - duas em cada andar -.

 

Porém o destaque vai para os dois cachorros: um simbolizando a Luxúria;

50.- 2012 - Miranda do Douro 270

o segundo, Cronos, o deus grego do tempo.

51.- 2012 - Miranda do Douro 271

Este cachorro ou modilhão, erótico, ou da Luxúria, na Casa das 4 Esquinas, encontra-se documentada no livro «Judeus em Trás-os-Montes» (A Rua da Costanilha), de António Júlio Andrade e de Maria Fernanda Guimarães, que nos dizem que é também um ex-libris da cidade.

 

Quanto ao cachorro ou modilhão erótico, referem-se estes dois autores que: «Quereriam os construtores marranos da Casa das 4 Esquinas dizer que se estavam c… para os homens da governança da terra e administradores da Sé episcopal, hipócritas zeladores da ordem social cristã estabelecida e que os metia na Inquisição? Deveremos ler na pedra esculpida um grito de revolta e de sátira dos marranos de Miranda contra os seus inimigos e perseguidores?»

 

Outra interpretação diz-nos que, esta casa do século XVI, com cachorros eróticos, que revelam os segredos da cama medieval.

 

O modilhão da Luxúria é representado por um cão que, com a língua, toca os órgãos genitais de uma mulher.

 

Pela Ponte dos Canos ou Ponte da Fonte dos Canos foi por onde entraram os espanhóis na Guerra do Mirandum. É tabuleiro plano, dos fins do século XVI, assenta sobre três arcos quebrados e desiguais. Tem três talha-mares, dois a montante e um a jusante.

52.- 2012 - Miranda do Douro 057

 A Fonte dos Canos,

53.- 2012 - Miranda do Douro 052

de  estrutura barroca, de tipo relicário, com telhado piramidal em escama, recebeu no séc. XVIII o painel das Almas do Purgatório. No interior, podemos ver os apoios dos cântaros.

 

Sobre a cornija, as Almas continuam a lembrar-nos em latim que "a nossa água não se vende de graça. Rezai por nós, pois a oração é o seu preço. Pai Nosso, Ave Maria, 1768".

 

No que respeita ao património religioso construído de Miranda do Douro não podemos deixar de falar da sua Igreja da Misericórdia.

53a.- 2012 - Miranda do Douro 117

Está situada no largo com o mesmo nome, desde o século XVI. A sua construção ocorreu entre os anos de 1554 e 1559, a mando do Bispo D. Rodrigo de Carvalho, tendo ficado pronta no ano de 1589.

 

De construção clássica, a sua fachada, em empena truncada por uma sineira, é ladeada por pináculos. Também na fachada, o portal maneirista enquadrado por duas colunas suportando uma arquitrave decorada e duas janelas de recorte barroco.

 

O seu interior é merecedor de ser visitado, com um recheio digno no que respeita à parte arquitetónica, igualmente com um conjunto de talha clássica e barroca nacional e rococó, bem como o retábulo do altar-mor, também de talha barroca nacional.

 

A fundação da Santa Casa da Misericórdia de Bragança deve remontar ao ano de 1518 e “fundou-se em uma igreja que havia dedicada ao Espírito Santo" (que dava nome à rua). O templo foi reconstruído em 1539, para servir como Igreja da Misericórdia.

 

O que mais nos impressionou, no seu interior, foram os seus altares, que poderemos ver no sítio da internet – «Portugal em 360º - Igreja da Misericórdia de Miranda do Douro»  e que aqui deixamos três imagens dos três altares: altar-mor, altar da capela do lado da Epístola e da capela do lado do Evangelho.

53b.- 2012 - Miranda do Douro 127

(Altar-mor)

53c.- 2012 - Miranda do Douro 124

(Altar do lado da Epístola)

53d.- 2012 - Miranda do Douro 123

(Altar do lado do evangelho)

Não podíamos de deixar de falar na Casa dos Távoras nesta cidade.

52a.- casa-tavoras

(Fonte:- Enciclopédia das Localidades Portuguesas

Está situada na Rua Abade de Baçal, este solar citadino pode estar compreendido entre os séculos XV e XVI. Pertencente à família dos Távoras, uma das mais importantes, nobres e poderosas de Portugal a partir do século XV. Elementos da família foram alcaides do Castelo de Miranda e senhores do Mogadouro, tendo um forte prestígio na política.

 

Contudo, o prestígio alcançado na política, possivelmente, e como reza a história, foi motivo para todos os elementos, ou quase todos, serem eliminados por enforcamento, a mando do Marquês de Pombal, considerando a família Távora traidores ao regime.

 

Vê-se aqui a obsessão, ou talvez não, do Senhor Marquês de Pombal por esta Família, de que mandou raspar as armas.

52b.- casa-tavoras

(Fonte:- Enciclopédia das Localidades Portuguesas

Dizem-nos que em Miranda, se espera ouvir falar mirandês. Após a sua descoberta pelo filólogo Leite de Vasconcelos, o mirandês despertou um interesse crescente ao longo do século XX. Em 1999, foi reconhecido oficialmente o seu estatuto de língua. Atualmente, os estudos sobre o mirandês multiplicam-se.

 

o mirandês é a 2ª língua oficial de Portugal desde os finais dos anos 90. É a única língua reconhecida em Portugal para alem do português, com afinidades com Leão e Astúrias. A sobrevivência deste idioma demonstra uma idiossincrasia muito própria e apaixonada pelas tradições e modos de vida ancestrais.

 

Com a proximidade de Espanha, não é de admirar que muitas destas palavras façam lembrar o próprio castelhano.

 

Mas nós, durante o tempo em que lá estivemos, em 2012, não ouvimos falar muito o mirandês, não! Talvez em círculos mais fechados…

 

Além da língua, também na música e na dança se afirma a identidade de Miranda do Douro. Na área geográfica do concelho, os pauliteiros fazem perdurar uma tradição antiga, que toca o viajante pela espetacularidade e pelo colorido do som e do movimento.

 

Miranda do Douro é célebre pelo seu folclore colorido e animado – os Pauliteiros de Miranda - com o seu trajo típico de saias, executam a dança do pau acompanhada pelo toque da gaita de foles, cuja origem remonta à ocupação Celta da região, na Idade do Ferro.

 

A dança guerreira, de raízes greco-romanas - segundo algumas teorias – (mas inclinamo-nos serem mais celtas) -  é um ritual quase hipnótico e tão ritmado que é difícil controlar os pés que teimam em acompanhar o compasso dos paulitos ao som de gaita-de-foles e caixa. Cada dança é um lhaço, a que corresponde uma música e uma letra, “normalmente em mirandês”.

 

Há cerca de 50 lhaços. E, alguns, parecem mesmo retratar momentos de uma batalha; outros, estão mais ancorados nas realidades da terra, como o “la yerba” ou “la rosa”; ou são, ainda, históricos, como o Mirondum, Mirondum, Mirondela/ Mirondum se fúe a la guiêrra (...).

54.- pauliteiras

Situada numa região árida e de difíceis acessos durante muitos anos, a região, ou Terra de Miranda, do Douro, soube preservar as suas tradições e modos de vida num mundo cada vez mais desenvolvido.

 

Nada melhor, para acabar este post, como apresentar este programa da RTP, de 2000, da autoria de José Hermano Saraiva – «Horizontes da Memória – A Guerra do Mirandum». 

 

Aqui se fala do apogeu de Miranda, da importância da comunidade judaica marrana, da sua antiga Catedral, bem assim da sua queda, com a decisão do Bispo D. Aleixo de mudar a sede da diocese para Bragança, logo após os acontecimentos que levaram à destruição do Castelo, na Guerra do Mirandum, no contexto da Guerra (europeia) dos Sete Anos.

 

Opinião idêntica – a decisão do 23º Bispo de Miranda, D. Aleixo; a explosão do paiol do Castelo, matando cerca de 400 pessoas,  pelos espanhóis, e a saída da colónia dos judeus marranos – tem também o insigne e ilustre mirandês, filho da Terra de Miranda – António Maria Mourinho – numa entrevista dada, em 1973, à RTP Memória, sob o título «Em Terra de Miranda»,  exibida já no post anterior.

 

Após esta época, durante muitas décadas e décadas, a queda de Miranda foi, cada vez mais acentuando-se.

 

Só após a década de 50 e 60 d0 século passado, com a construção da Barragem de Miranda

55.- 2012 - Miranda do Douro 219

e a ligação a Zamora, a 40 Km, e Salamanca, com a valorização dos seus mais vincados elementos identitários, com comércio e a sua gastronomia, baseada na posta, carne da raça bovina autóctone (mirandesa) e com os enchidos (fumeiro) é que Miranda se começou a revitalizar um pouco. Fundamentalmente com o turismo espanhol.

 

Isto, por outro lado; por outro, o Parque Natural do Douro Internacional, com o rio, e sempre com Portugal de um lado e Espanha de outro, as suas enormes escarpas, com a sua avifauna e os seus passeios de barco – cruzeiros ambientais, promovidos pela Estação Biológica Internacional (EBI) de Miranda do Douro – bem assim os diferentes percursos pedestre, fazem de Miranda, altaneira no topo das arribas, e das suas terras, palco privilegiado para o Turismo de Natureza e «Birdwatching».

56.- 2012 - Miranda do Douro 280

Estamos de acordo com aqueles que dizem que o que o passado separou, o presente e o futuro juntam neste projeto, em marcha, transfronteiriço, onde se olham dois parques naturais que têm o Douro como epicentro.

 

Tal como uma guia dos cruzeiros ambientais um dia dizia, afirmando que era do rio, porquanto filha de pai português e mãe espanhola.

 

Havemos de lá voltar… em breve. Para  ver o Aqueduto de Vilarinho e para frequentar os seus belos miradouros e percorrer, caminhando, os seus mais recônditos escaninhos.

 

06
Jun20

Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor -Destaque II - Património de Miranda do Douro

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

  

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR 

DESTAQUE  II– PATRIMÓNIO DE MIRANDA DO DOURO

 

O mirandês é o caso flagrante para não dizer espectacular

- e se o dissesse não mentiria -

em que um idioma conseguiu sobreviver quase no fim do prazo da sua aceitação.

Ora isso deveu-se, por muito que custe a muito boa gente,

não só ao direito consuetudinário do povo mirandês,

mas sobretudo a um homem teimoso,

sacerdote não só da Igreja Católica como da própria Cultura Mirandesa,

que passou a maior parte da sua vida a entrincheirar elementos

e argumentos para garantir o raio dessa sobrevivência.

E aguentou-se no barco até ao desespero.” 

 

José Viale Moutinho

57.- Pauliteiros de Miranda 01

Antes de penetrarmos no cerne ou Centro Histórico desta cidade, fiquemos com uma panorâmica aérea da urbe e seus arredores.

MIRANDA DO DOURO, "CIDADE MUSEU" DE TRÁS-OS-MONTES!

Penetremos agora no interior desta cidade, descobrindo os seus tesouros. Para o efeito, servimo-nos de três «guias» ou cicerones digitais:

Acessoriamente, utilizámos:

***

Com vestígios de presença humana desde remotos tempos, Miranda tem fortes raízes Celtas e foi mesmo ocupada pelos Romanos.

 

A vila de Miranda surge mais claramente com o Rei D. Dinis, alcandorada sobre as arribas do Douro e era banhado pelos rios Douro e Fresno.

 

Com uma origem eminentemente medieval, Miranda do Douro cresceu orgulhosa da sua categoria de fronteira multicultural.

 

É aquando do Tratado de Alcanices – celebrado entre D. Dinis, rei de Portugal, e Fernando IV, de León y Castilla, que esta foi elevada à categoria de vila e aumentando-lhe os seus privilégios. Um dos privilégios deste foral era Miranda nunca sair da coroa.

 

Com uma posição estratégica importante, fronteiriça com Espanha, foi uma importante localidade na Idade Média.

 

A partir desta altura, Miranda torna-se progressivamente na mais importante das vilas cercadas de Trás-os-Montes.

 

Esta cidade, sede do concelho, está situada num espigão que domina a pique a margem direita do rio Douro, no troço internacional que separa a província portuguesa de Trás-os-Montes da província espanhola de Castilla y León, no conhecido Parque Natural do Douro Internacional.

 

É considerada a “Cidade Museu” de Trás-os-Montes, mantando a sua traça medieval e renascentista.

 

A atribuição do título de cidade a Miranda remonta a 1545, no reinado de D. João III, altura em que se tornou também sede episcopal. A antiga , também designada Concatedral é, naturalmente, o ex libris da cidade.

09.- 2012 - Miranda do Douro 136

Destacando-se num dos extremos do Centro Histórico da cidade, a vista da é irresistível, com as suas feições severas, plasmadas na fachada granítica, concluído na última década do século XVI.

10.- 2012 - Miranda do Douro 138

A Concatedral de Miranda do Douro, antiga de Miranda do Douro, é um templo católico cuja construção teve início em 1552, inserindo-se na tipologia de sés mandadas construir por D. João III, com uma fachada harmónica, em que um corpo central é ladeado por duas poderosas torres, e um interior em três naves abobadadas à maneira gótica, com cruzaria de ogivas de nervuras visíveis. O templo foi concluído na última década do século XVI. O projeto foi feito por Gonçalo de Torralva e de Miguel de Arruda.

10a.- 2012 - Miranda do Douro 216

(Perspetiva I)

10b.- 2012 - Miranda do Douro 221

(Perspetiva II)

10c.- 2012 - Miranda do Douro 217

(Pormenor de uma das torres)

Em 1566 o bispo D. António Pinheiro consagrou o altar-mor e em 1609, D. Diogo de Sousa informa o Papa que a construção fora concluída.

 

Foi  classificação como Monumento Nacional pelo Decreto de 16-06-1910, Diário do Governo n.º 136, de 23-06-1910.

 

Entremos e observemos no  interior da Catedral, que nos guarda algumas surpresas.

Conforme vimos acima, na antiga ou Catedral, pode apreciar-se o retábulo da capela-mor com esculturas em madeira,  de alto relevo, considerado pela Revista «Varia de Arte» e por alguns historiadores da Arte como um dos melhores conjuntos de escultura policromada de toda a Península Ibérica.

12.-Retábulo

E não esquecer a “loja maçónica” demarcada na área do cadeiral do cabido por ladrilhos negros e brancos.

15.- Cadeiral

O órgão, com a sua «carranca».

16.- 1Órgão - Carranca

És mais feio do que a carranca da Sé”, diz-se por estas paragens.

 

Mas a sua maior atenção irá, certamente, para o curioso Menino Jesus da Cartolinha, Menino Jesus do Chapéu Alto, ou ainda, o Nino Jasus de la Cartolica, peça única da iconografia cristã. Trata-se de uma verdadeira preciosidade, esta imagem única no mundo cristão.

17.- Menino Jesus da Cartolinha

A figura de pequeno tamanho dá corpo à lenda que conta que durante um cerco espanhol à cidade, (Guerra dos Sete Anos ou Mirandum), quando a população exaurida pela fome e pelas doenças se preparava para a rendição, começou a surgir um menino em vários pontos da muralha a instilar ânimo aos habitantes. Foi bem-sucedido, mas nunca foi encontrado. O milagre foi atribuído ao menino Jesus e em sua honra esculpiu-se uma imagem vestida com trajes fidalgos — atualmente, as roupas em miniatura que compõem o seu vasto guarda-roupa (a tradição diz que raparigas solteiras devem dar as meias e as camisas) são também parte da curiosidade.

 

A Catedral ou , ou ainda Concatedral, foi edificada, ao que parece, no mesmo sítio onde antes se erguia a antiga Igreja de Santa Maria, mandada construir por D. Dinis. Com três naves, esta catedral possui uma arquitetura majestosa e um interior de grande riqueza e elegância.

 

A Catedral ou Sé é “exagero” para estas paragens, como comenta alguém. “Ninguém espera isto aqui.” Mas “isto”, agora a Igreja Matriz de Miranda, foi a antiga Sé de Miranda do Douro, herança do período em que a cidade foi sede de diocese, entre 1545 e 1780.

 

A  Concatedral de Miranda do Douro, que levou de vencida às Igrejas de Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta, no tempo de D. João III, pelo que se diz, mercê da vontade de sua esposa, D. Catarina, que, pela primeira vez que veio a Portugal, para se consorciar com o Rei, entrou por aqui,  exibe-se orgulhosa num extremo do pequeníssimo planalto, no seu Centro Histórico.

18.- 2012 - Miranda do Douro 047

Por detrás da Igreja, antiga ou Concatedral, as Ruínas do Paço Episcopal, destruído por um incêndio há 200 anos, dão ideia da importância de Miranda desde o século XIV. O privilégio episcopal foi perdido em 1764, em favor de Bragança.

19.-2012 - Miranda do Douro 186

(Perspetiva I)

20.- 2012 - Miranda do Douro 184

(Perspetiva II)

22.- 2012 - Miranda do Douro 193

(Perspetiva III)

24.- 2012 - Miranda do Douro 212

(Perspetiva IV)

Perto da Catedral, do outro lado do rio Douro, encontramos o Penedo Amarelo,

25.- 2012 - Miranda do Douro 178

uma magnífica paisagem, de um amarelo bem vivo, quase a cair no Douro. No penedo, com 690 metros de altura, erguido como se fosse o diabo a olhar para Castela, para parafrasear Miguel Torga, sujeito a as vertigens, conseguimos observar um enorme número 2, que mantém um dos mistérios das redondezas, que parece ter ido picado por uma mão humana.

 

A explicação é clara: a cor do 2 deve-se aos líquenes, aqui em grande quantidade e variedade, que é sinónimo de ar, livre de contaminação. Vê-se à primeira, embora não tão visível ou óbvio de outras perspetivas.

 

Corre, quanto a este número, uma certa maldição: os solteiros, que não o vêm, não casarão; os casados, que não o vêm, estão a ser traídos.

 

A imaginação do povo é fértil!...

 

Na Praça D. João III,

26.- 2012 - Miranda do Douro 135a

está o Museu da Terra de Miranda. Instalado num edifício do século XVII. O Museu oferece-nos um rápido olhar sobre a etnografia mirandesa e dá-nos ricas informações sobre a casa tradicional, o artesanato e o vestuário.

27.- 2012 - Miranda do Douro 107

Na altura em que estivemos em Miranda do Douro, a cidade, os seus espaços públicos estavam todos em obras de novas pavimentações das ruas.

 

Rodeando a Praça de D. João III, o Edifício da Câmara Municipal

28.- 2012 - Miranda do Douro 111

e o Solar dos (de is) Ordazes.

29.- 2012 - Miranda do Douro 112

No meio da praça, encontramos duas estátuas em tamanho real de um casal mirandês:

30.- 2012 - Miranda do Douro 102

ele envergando uma Capa de Honras, uma peça única do vestuário tradicional português e ainda usada em várias cerimónias, inclusive pelo Presidente da Câmara que assim recebe os convidados oficiais.

31.- 2012 - Miranda do Douro 103

As Ruínas das Muralhas. Eis o que resta preservado delas.

32.- 2012 - Miranda do Douro 068

A sua construção teve início nos finais do séc. XIII. Conserva apenas, parcialmente uma torre do séc. XV, a Porta da Traição, da Senhora do Amparo e o Postigo.

33.- 2012 - Miranda do Douro 062

Não podemos deixar de falar da antiga Igreja setecentista dos Frades Trinos. Agora imprevisivelmente profana, e transformada na Biblioteca Municipal.

34.- 2012 - Miranda do Douro 197

(Perspetiva I – Vista lateralmente)

35.- 2012 - Miranda do Douro 199

(Perspetiva II – Vista de frente)

O Castelo que foi melhorado pelos primeiros reis portugueses. Contudo, com as diversas lutas, que se travaram nos anos seguintes, arruinaram-no, sendo necessária a sua reedificação no reinado de D. Dinis, por volta de 1280. A boa construção deste castelo fez com que resistisse aos sucessivos ataques castelhanos, no reinado de D. Fernando, que mandou cunhar moedas com um «M», sobre o escudo das quinas.

 

Miranda do Douro foi-se à Guerra dos Sete Anos - que, aqui, ficou conhecida por Guerra do Mirandum - e o seu castelo foi-se pelos ares.

36.- 2012 - Miranda do Douro 208

Na refresga espanhola à cidade muralhada, um projétil caiu sobre um armazém onde se guardava pólvora: as muralhas e a torre de menagem do castelo ruíram, 400 pessoas morreram. Hoje, o que resta da alcáçova do castelo de Miranda é uma bela ruína a mirar o Fresno, o segundo rio de Miranda, a seguir ao Douro.

37a.- 2012 - Miranda do Douro 237

(Perspetiva I)

38.- 2012 - Miranda do Douro 235

(Perspetiva II)

38a.- 2012 - Miranda do Douro 240

(Pormenor)

O antigo pátio de armas é um parque de estacionamento a dois passos da Rua Mouzinho de Albuquerque, espinha dorsal do núcleo histórico, onde o comércio mais abunda.

39.- 2012 - Miranda do Douro 229

Nas proximidades do Castelo, a Casa de Música Mirandesa.

39a.- 2012 - Miranda do Douro 232

A mais importante das ruas de Miranda é a Rua da Costanilha, de origem medieval. A sua antiguidade remonta ao séc. XV. Aqui se acantonava a colónia judaica.

40.- 2012 - Miranda do Douro 076

É na Rua Costanilha,

41.- 2012 - Miranda do Douro 079

e suas satélites, particularmente a Rua Nova,

42.- 2012 - Miranda do Douro 090

que o carácter medieval de Miranda parece irredutível,  quando fica banhado pela luz amarela dos candeeiros de ferro forjado.

43.- 2012 - Miranda do Douro 083

O casario quinhentista,

44.- 2012 - Miranda do Douro 080

(Pormenor I)

46.- 2012 - Miranda do Douro 095

(Pormenor II)

47.- 2012 - Miranda do Douro 088

(Pormenor III)

de pormenores manuelinos, forma um entramado mais ou menos conservado, às vezes inesperadamente erótico, como a Casa das Quatro Esquinas

48.- 2012 - Miranda do Douro 269

medieval, com quatro janelas a fazer esquina - duas em cada andar -.

 

Porém o destaque vai para os dois cachorros: um simbolizando a Luxúria;

50.- 2012 - Miranda do Douro 270

o segundo, Cronos, o deus grego do tempo.

51.- 2012 - Miranda do Douro 271

Este cachorro ou modilhão, erótico, ou da Luxúria, na Casa das 4 Esquinas, encontra-se documentada no livro «Judeus em Trás-os-Montes» (A Rua da Costanilha), de António Júlio Andrade e de Maria Fernanda Guimarães, que nos dizem que é também um ex-libris da cidade.

 

Quanto ao cachorro ou modilhão erótico, referem-se estes dois autores que: «Quereriam os construtores marranos da Casa das 4 Esquinas dizer que se estavam c… para os homens da governança da terra e administradores da Sé episcopal, hipócritas zeladores da ordem social cristã estabelecida e que os metia na Inquisição? Deveremos ler na pedra esculpida um grito de revolta e de sátira dos marranos de Miranda contra os seus inimigos e perseguidores?»

 

Outra interpretação diz-nos que, esta casa do século XVI, com cachorros eróticos, que revelam os segredos da cama medieval.

 

O modilhão da Luxúria é representado por um cão que, com a língua, toca os órgãos genitais de uma mulher.

 

Pela Ponte dos Canos ou Ponte da Fonte dos Canos foi por onde entraram os espanhóis na Guerra do Mirandum. É tabuleiro plano, dos fins do século XVI, assenta sobre três arcos quebrados e desiguais. Tem três talha-mares, dois a montante e um a jusante.

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 A Fonte dos Canos,

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de  estrutura barroca, de tipo relicário, com telhado piramidal em escama, recebeu no séc. XVIII o painel das Almas do Purgatório. No interior, podemos ver os apoios dos cântaros.

 

Sobre a cornija, as Almas continuam a lembrar-nos em latim que "a nossa água não se vende de graça. Rezai por nós, pois a oração é o seu preço. Pai Nosso, Ave Maria, 1768".

 

No que respeita ao património religioso construído de Miranda do Douro não podemos deixar de falar da sua Igreja da Misericórdia.

53a.- 2012 - Miranda do Douro 117

Está situada no largo com o mesmo nome, desde o século XVI. A sua construção ocorreu entre os anos de 1554 e 1559, a mando do Bispo D. Rodrigo de Carvalho, tendo ficado pronta no ano de 1589.

 

De construção clássica, a sua fachada, em empena truncada por uma sineira, é ladeada por pináculos. Também na fachada, o portal maneirista enquadrado por duas colunas suportando uma arquitrave decorada e duas janelas de recorte barroco.

 

O seu interior é merecedor de ser visitado, com um recheio digno no que respeita à parte arquitetónica, igualmente com um conjunto de talha clássica e barroca nacional e rococó, bem como o retábulo do altar-mor, também de talha barroca nacional.

 

A fundação da Santa Casa da Misericórdia de Bragança deve remontar ao ano de 1518 e “fundou-se em uma igreja que havia dedicada ao Espírito Santo" (que dava nome à rua). O templo foi reconstruído em 1539, para servir como Igreja da Misericórdia.

 

O que mais nos impressionou, no seu interior, foram os seus altares, que poderemos ver no sítio da internet – «Portugal em 360º - Igreja da Misericórdia de Miranda do Douro»  e que aqui deixamos três imagens dos três altares: altar-mor, altar da capela do lado da Epístola e da capela do lado do Evangelho.

53b.- 2012 - Miranda do Douro 127

(Altar-mor)

53c.- 2012 - Miranda do Douro 124

(Altar do lado da Epístola)

53d.- 2012 - Miranda do Douro 123

(Altar do lado do evangelho)

Não podíamos de deixar de falar na Casa dos Távoras nesta cidade.

52a.- casa-tavoras

(Fonte:- Enciclopédia das Localidades Portuguesas

Está situada na Rua Abade de Baçal, este solar citadino pode estar compreendido entre os séculos XV e XVI. Pertencente à família dos Távoras, uma das mais importantes, nobres e poderosas de Portugal a partir do século XV. Elementos da família foram alcaides do Castelo de Miranda e senhores do Mogadouro, tendo um forte prestígio na política.

 

Contudo, o prestígio alcançado na política, possivelmente, e como reza a história, foi motivo para todos os elementos, ou quase todos, serem eliminados por enforcamento, a mando do Marquês de Pombal, considerando a família Távora traidores ao regime.

 

Vê-se aqui a obsessão, ou talvez não, do Senhor Marquês de Pombal por esta Família, de que mandou raspar as armas.

52b.- casa-tavoras

(Fonte:- Enciclopédia das Localidades Portuguesas

Dizem-nos que em Miranda, se espera ouvir falar mirandês. Após a sua descoberta pelo filólogo Leite de Vasconcelos, o mirandês despertou um interesse crescente ao longo do século XX. Em 1999, foi reconhecido oficialmente o seu estatuto de língua. Atualmente, os estudos sobre o mirandês multiplicam-se.

 

o mirandês é a 2ª língua oficial de Portugal desde os finais dos anos 90. É a única língua reconhecida em Portugal para alem do português, com afinidades com Leão e Astúrias. A sobrevivência deste idioma demonstra uma idiossincrasia muito própria e apaixonada pelas tradições e modos de vida ancestrais.

 

Com a proximidade de Espanha, não é de admirar que muitas destas palavras façam lembrar o próprio castelhano.

 

Mas nós, durante o tempo em que lá estivemos, em 2012, não ouvimos falar muito o mirandês, não! Talvez em círculos mais fechados…

 

Além da língua, também na música e na dança se afirma a identidade de Miranda do Douro. Na área geográfica do concelho, os pauliteiros fazem perdurar uma tradição antiga, que toca o viajante pela espetacularidade e pelo colorido do som e do movimento.

 

Miranda do Douro é célebre pelo seu folclore colorido e animado – os Pauliteiros de Miranda - com o seu trajo típico de saias, executam a dança do pau acompanhada pelo toque da gaita de foles, cuja origem remonta à ocupação Celta da região, na Idade do Ferro.

 

A dança guerreira, de raízes greco-romanas - segundo algumas teorias – (mas inclinamo-nos serem mais celtas) -  é um ritual quase hipnótico e tão ritmado que é difícil controlar os pés que teimam em acompanhar o compasso dos paulitos ao som de gaita-de-foles e caixa. Cada dança é um lhaço, a que corresponde uma música e uma letra, “normalmente em mirandês”.

 

Há cerca de 50 lhaços. E, alguns, parecem mesmo retratar momentos de uma batalha; outros, estão mais ancorados nas realidades da terra, como o “la yerba” ou “la rosa”; ou são, ainda, históricos, como o Mirondum, Mirondum, Mirondela/ Mirondum se fúe a la guiêrra (...).

54.- pauliteiras

Situada numa região árida e de difíceis acessos durante muitos anos, a região, ou Terra de Miranda, do Douro, soube preservar as suas tradições e modos de vida num mundo cada vez mais desenvolvido.

 

Nada melhor, para acabar este post, como apresentar este programa da RTP, de 2000, da autoria de José Hermano Saraiva – «Horizontes da Memória – A Guerra do Mirandum». 

 

Aqui se fala do apogeu de Miranda, da importância da comunidade judaica marrana, da sua antiga Catedral, bem assim da sua queda, com a decisão do Bispo D. Aleixo de mudar a sede da diocese para Bragança, logo após os acontecimentos que levaram à destruição do Castelo, na Guerra do Mirandum, no contexto da Guerra (europeia) dos Sete Anos.

 

Opinião idêntica – a decisão do 23º Bispo de Miranda, D. Aleixo; a explosão do paiol do Castelo, matando cerca de 400 pessoas,  pelos espanhóis, e a saída da colónia dos judeus marranos – tem também o insigne e ilustre mirandês, filho da Terra de Miranda – António Maria Mourinho – numa entrevista dada, em 1973, à RTP Memória, sob o título «Em Terra de Miranda»,  exibida já no post anterior.

 

Após esta época, durante muitas décadas e décadas, a queda de Miranda foi, cada vez mais acentuando-se.

 

Só após a década de 50 e 60 d0 século passado, com a construção da Barragem de Miranda

55.- 2012 - Miranda do Douro 219

e a ligação a Zamora, a 40 Km, e Salamanca, com a valorização dos seus mais vincados elementos identitários, com comércio e a sua gastronomia, baseada na posta, carne da raça bovina autóctone (mirandesa) e com os enchidos (fumeiro) é que Miranda se começou a revitalizar um pouco. Fundamentalmente com o turismo espanhol.

 

Isto, por outro lado; por outro, o Parque Natural do Douro Internacional, com o rio, e sempre com Portugal de um lado e Espanha de outro, as suas enormes escarpas, com a sua avifauna e os seus passeios de barco – cruzeiros ambientais, promovidos pela Estação Biológica Internacional (EBI) de Miranda do Douro – bem assim os diferentes percursos pedestre, fazem de Miranda, altaneira no topo das arribas, e das suas terras, palco privilegiado para o Turismo de Natureza e «Birdwatching».

56.- 2012 - Miranda do Douro 280

Estamos de acordo com aqueles que dizem que o que o passado separou, o presente e o futuro juntam neste projeto, em marcha, transfronteiriço, onde se olham dois parques naturais que têm o Douro como epicentro.

 

Tal como uma guia dos cruzeiros ambientais um dia dizia, afirmando que era do rio, porquanto filha de pai português e mãe espanhola.

 

Havemos de lá voltar… em breve. Para  ver o Aqueduto de Vilarinho e para frequentar os seus belos miradouros e percorrer, caminhando, os seus mais recônditos escaninhos.

 

06
Jun20

Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - Destaque I - António Maria Mourinho e a Terra de Miranda

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS

  

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR 

DESTAQUE I – ANTÓNIO MARIA MOURINHO E A TERRA DE MIRANDA

 

"Nossa Alma e Nossa Terra''

(Nôssa alma i nôssa tiêrra)

Ai! Alma, em retalhos dividida!

Que andou comigo em montes e carreiros,

Semeando amor e paz sem descansar,

Deixando leais amigos verdadeiros,

Na terra fria em que aprendi a andar!

Novos e velhos pelo mundo acompanhei,

E comigo viveram e estiveram,

Por mares e ares que não mais verei,

Nem eles porque muitos já morreram.

E eu ainda aqui 'stou ... e trabalhando

Nos papéis enfeitiçados que apareceram,

Me conquistaram e me aprisionaram

E aqui me prendem e emparedaram.

A vida da assim vivida em dor e glória

"Pelo mundo em pedaços repartida”

 Sobeja-me em saudaços, dessa terra

Que mostrei com sua língua e sua história

....... E agora? …

Pensando ao fim do dia.

Que vai chegando a hora?!..

- De que hei-de arrepender-me

Neste cabo de saudades e tormentas?!...

 Mas do bem que não obrei, sim me arrependo.

E mais!... Porque hei-de eu aspirar,

Por mais viver? …

- A vida não é minha ...

 E se estou vivo é p'ra fazer render!

E quem ma deu e em mim a quer

Enquanto for servindo .... e Deus quiser;

Que venham anos mais, para viver.

António Maria Mourinho

Loures, 14 de Fevereiro de 1996

(Aniversário dos 79 Anos).

01.- Pauliteiros de Miranda

Não faria sentido, uma vez percorrida a pé a desativada e antiga Linha do Sabor, que não falássemos de Miranda do Douro.

 

Embora a antiga e abandonada Linha se tenha quedado por Duas Igrejas, quando pouquíssimos quilómetros restariam para chegar a esta antiga cidade, o certo é que o nome do términus da antiga Estação, conforme se pode verificar ainda num dos seus frontispícios, é – Miranda-Duas Igrejas.

 

Dos interesses que levaram a que a antiga Linha só aqui chegasse, pese embora rezar a história, para nós, agora, pouco importa.

 

Miranda do Douro fica nos confins do nordeste de Portugal. Tem a sua história na História de Portugal. História rica. Que, agora, apenas consta dos seus anais.

 

Hoje o que nos resta de Miranda do Douro não é apenas a sua quota-parte do esforço para a História de Portugal. É a sua própria história. Especial, peculiar.

Estamos com Orlando Ribeiro quando, na «Introduções Geográficas à História de Portugal – Estudo Crítico», (Livraria Letra Livre, 2018), afirma:

Uma nação não é apenas um produto da História. Um grupo de homens unidos pela tradição comum, estabelecida, mantida e reforçada durante um longo passado de convivência, pela igualdança do falar, pela expressão dominante que entre eles tomam ideias e afetos, vive, ligado embora por estes laços morais, sobre um pedaço de solo. A configuração e a natureza do território, o ritmo consabido do clima, a vegetação que reveste as planuras e as serras, as culturas que, no decurso do ano, fazem mudar, segundo uma rotina consagrada, a fisionomia dos lugares, o modo como a população se junta ou dispersa, se adensa ou rarefaz, as maneiras de viver, a animação doa caminhos e dos sítios de convívio constituem, para um país, larga parte da sua expressão nacional. A terra de um povo já não é um simples dado da Natureza, mas uma porção de espaço afeiçoado pelas gerações onde se imprimiram, no decurso do tempo, os cunhos das mais variadas influências. Uma combinação, original  e fecunda, de dois elementos: território e civilizações”.

 

Orlando Ribeiro refere-se a um país, a um povo, contudo, mutatis mutandis, bem se pode aplicar à(s) Terra(s) de Miranda. A história desta Terra(s) não são apenas o produto da História, das suas gentes. A história das suas gentes moldou-se em conformidade com a configuração e a natureza do território, ao ritmo consabido do clima, da vegetação que  reveste o seu planalto, o qual determina o cultivo das suas terras, a configuração dos seus lugares e da sua população dispersa, concentrada.

 

A(s) Terra(s) de Miranda é (são) um produto não só da Natureza. São um porção de espaço afeiçoado pelas suas gerações que, ao longo dos tempos, lhe imprimiu um determinado cunho, um conjunto de influências. Em suma, e como diz o nosso autor Orlando Ribeiro, são o produto de uma combinação original e fecunda destes dois elementos – território e cultura.

 

Apenas estivemos duas vezes nesta cidade: uma delas, quando existia o Pólo de Miranda da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, a pedido do colega (galego), Xerardo Pereiro, fomos lá proferir uma palestra, no âmbito do Curso de Licenciatura em Antropologia, que ali se lecionava; a outra, coincidiu com a estadia (em 2012) do nosso filho, em trabalho no Reforço de Potência da Barragem de Picote, tendo ficado em casa dele, na cidade,

01a.- 2012 - Miranda do Douro 223

exatamente na altura em que fizemos as três últimas etapas da antiga Linha do Sabor.

 

Por esta altura, passámos umas boas horas por esta terra e sua região, tentando descobrir, ir ao encontro de sua «alma», do seu património.

 

Mas quem melhor para ir ao encontro e descobrir a alma desta(s) Terra(s) e suas gentes senão um dos seus filhos prediletos – António Maria Mourinho.

02.- 2012 - Miranda do Douro 210

O poema que António Maria Mourinho escreveu por altura dos seus 79 anos, já muitíssimo perto do seu passamento, e que acima citámos, resumem a alma e o caráter deste insigne mirandês.

 

Mas demos a palavra a Belarmino Afonso, Diretor do Arquivo Distrital de Bragança, na «Evocação de António Maria Mourinho», em 1999: 

A vitalidade atual dos estudos mirandeses é o mais visível resultado das iniciativas de António Maria Mourinho, que em mais de 50 anos de canseiras nunca esmoreceu no desejo de manter viva e de divulgar a cultura mirandesa pelas sete partidas elo mundo. (…)

Etnógrafo por paixão e por identificação com as expressões e circunstâncias da cultura e língua mirandesas, António Maria Mourinho, que a si mesmo se considerava "um mirandês rural, foi talvez dos últimos a presenciar em contexto e a viver enquanto participante todos os aspetos das tradições e práticas desta cultura. Uma cultura de artesãos, pastores, boieiros, cavadores e aradores que a partir da década de 40, sob a pressão de múltiplos processos de aculturação dos hábitos, das práticas agrícolas, da alfabetização e das burocracias, experimenta um processo de desagregação e abertura sem possuir capacidade para se revitalizar. António Maria Mourinho tinha aguda consciência deste processo, que sentia inexorável (vejam-se os parágrafos iniciais da introdução a Nôssa alma i nôssa tiêrra), mas como nunca encarou com passividade a sua relação com a cultura em que nasceu e cresceu, empreendeu iniciativas que, na segunda metade do século XX, deram visibilidade e permitiram a sobrevivência e preservação da língua, da cultura e do património histórico das Terras de Miranda. No seu trabalho de múltiplas orientações, disperso e variado nos resultados, procurou dar sentido de presente à tradição, ou ao que dela restava. (…)

Trilhando caminhos que figuras maiores da etnografia portuguesa já haviam começado a abrir, como José Leite de Vasconcelos e Francisco Manuel Alves (Abade de Baçal), pode dizer-se que foi o primeiro mirandês a fazer através do estudo a defesa persistente e orgulhosa da sua cultura. Em carta de 20 de Março de 1945 diz-lhe o Abade de Baça!: "espero que tu sejas o meru continuador na carolice pela nossa Terra", testemunho que comentará quarenta anos mais tarde com humildade e admiração: «eu nunca passei, nem passarei de um simples pigmeu, junto dele, que era gigante em tudo. (…)

A contínua e multifacetada atividade de António Maria Mourinho tornou-o bem conhecido da comunidade ele etnólogos e historiadores, trazendo-lhe ao mesmo tempo prestígio e projeção mediática. Era habitual vê-lo pelas terras de Miranda acompanhando equipas de filmagens, estudiosos, jornalistas, ou mesmo simples curiosos com avidez de ruralismo. Em geral aproveitava também estas rondas para, com sentido de oportunidade, incentivar sobretudo os artesãos a conservar a arte e técnicas de fabrico de gaitas de fole e de flautas, de olaria, de cestaria, de ferraria, de tecelagem e outras, cujo risco de desaparecimento sentia como iminente, mas capaz de sobreviver se conseguisse corresponder a este surto de procura que motivava pelo menos a sua reanimação económica. Produzir artefactos para venda sempre era melhor que perder definitivamente a arte de fabricá-los.

Após a democratização do país em 1974 o interesse cios mirandeses pela sua própria cultura cresceu, deixou de estar envolto na antiga vergonha de quem se sentia inferiorizado e temia ser ridicularizado por não falar "grave". Hoje já quase não há nenhuma aldeia de Miranda que não tenha fundado o seu próprio grupo ele pauliteiros e que não cultive e mostre com orgulho o prazer de falar mirandês. António Maria Mourinho está também, sem dúvida, na origem deste reencontro dos mirandeses com a sua cultura.

Para os vindouros a marca mais perene de António Maria Mourinho será talvez o Museu das Terras de Miranda, fundado em 1982, por cuja criação lutou persistentemente e do qual viria a ser o primeiro Diretor (até 1995)”.

 

Numa dissertação de mestrado, sob o título «A evolução da Terra de Miranda: Um estudo com base nos sistemas de Informação Geográfica», apresentada por Luís Miguel Pires Meirinhos, em 2014, na Universidade do Porto, este autor apresenta 5 elementos identitários da Terra de Miranda, a saber:

1.- A língua mirandesa, descoberta por Leite de Vasconcelos;

2.- As Capas de Honras Mirandesas;

3.- Os Pauliteiros;

4.- As raças de gado autóctones;

5.- Outras manifestações culturais.

 

Com base nestes 5 elementos identitários, o autor contruiu um Mapa Síntese,

03.- Terra de Miranda - Luís M.P. Meirinhos 02

a partir de 14 elementos, que têm por base aqueles 5 identitários:

01.- área de influência atual da Capa de Honras Mirandesa;

02.- localização das oficinas de artesãos e pontos de venda da Capa de Honras;

03.- grupos de pauliteiros com atividade regular;

04.- localidades pertencentes à área linguística mirandesa;

05.- letreiros e reclames publicitários escritos em língua mirandesa;

06.- locais que têm placas de toponímia urbana em língua mirandesa;

07.- lugares que ainda usam o têm “toque de sinos” associados a Terra de Miranda;

08.- centros de música tradicional mirandesa;

09.- grupos de música tradicional mirandesa;

10.- grupos de danças mistas tradicionais mirandesas;

11.- tocadores de tamboril e fraita mirandesa;

12.- gaiteiros que tocam gaita mirandesa;

13.- festas ligadas ao solstício de Invernos;

14.- efetivos das raças de gado autóctones mirandesas.

 

No mapa supra que o autor nos propões, podemos constatar que o território que se propõe como Terra de Miranda é menor do que o território que compunha a Terra de Miranda na Idade Média,

04.- Terra de Miranda - Luís M.P. Meirinhos 01

pois existiu um recuo nos extremos noroeste e sul. A noroeste, as localidades que atualmente pertencem ao concelho de Bragança deixaram de integrar esse território: Outeiro, Rio Frio, Quintanilha e Milhão. No limite sul, o recuo foi menor, pois apenas Fornos e Lagoaça, que pertencem atualmente ao concelho de Freixo de Espada-à-Cinta não estão incluídos na Terra de Miranda.

 

Desta feita, Luís Miguel Pires Meirinhos afirma, que, nos nossos dias, a Terra de Miranda coincide com as áreas dos três concelhos que compõem o chamado “planalto mirandês”. 

 

Por outro lado, este mesmo autor, na busca para compreender geograficamente o atual espaço da Terra de Miranda, procurou também respostas através das “imagens mentais”, porque, afirma, segundo António Damásio, “O cérebro humano é um cartógrafo nato”.

 

Assim, parecendo-lhe importante, no quadro da Geografia da Perceção, fazer uma análise de um conjunto de mapas mentais elaborados em torno deste espaço Terra de Miranda, aceitando que  espaço da realidade é, em primeiro lugar, uma “representação”, selecionou dois conjuntos de inquiridos que foram desafiados a representar a Terra de Miranda, através de Mapas Mentais: um foi constituído por jovens em idade escolar e a frequentar o ensino básico, procurando saber que conhecimentos têm de um espaço que o vivem diretamente, alunos do 2º e 3º Ciclos do Ensino Básico e Secundário do Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro e o outro por um conjunto de alunos do 2º e 3º Ciclos do Ensino Básico e Secundário do Agrupamento de Escolas de Sendim.

 

De acordo com o resultado dos inquéritos efetuados, e tendo em linha de conta a intensidade dos elementos identitários da Terra de Miranda, para os alunos de Miranda do Douro, as terras mais ligadas ao termo Terra de Miranda são as que constam do mapa abaixo;

05.- Terra de Miranda - Luís M.P. Meirinhos 04

Por outro lado, a perceção mais intensamente identitária das terras que integram a Terra de Miranda para os alunos de Sendim, não diferem muito significativamente da dos alunos de Miranda.

06.- Terra de Miranda - Luís M.P. Meirinhos 03

No que concerne aos elementos não espaciais assinalados pelos alunos de ambas as escolas, são os seguintes, com as respetivas percentagens.

07.- Terra de Miranda - Luís M.P. Meirinhos 05

Para finalizar este post, deixamo-los com uma entrevista do insigne e ilustre mirandês, filho da Terra de Miranda – António Maria Mourinho – dada em 1973, à RTP Memória, sob o título «Em Terra de Miranda», e que vivamente recomendamos a sua visualização.

04
Jun20

Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - 8ª e última etapa :- Sendim-Duas Igrejas - Destaque - Fim de Linha:- Duas Igrejas - A Estação com os seus azulejos

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

 

8ª ETAPA E ÚLTIMA ETAPA:- SENDIM-DUAS IGREJAS

DESTAQUE – FIM DA LINHA:- DUAS IGREJAS (A ESTAÇÃO COM OS SEUS AZULEJOS)

01.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 193

A 6 de maio de 2018, no sítio da internet «Sete Mares - Azulejos da estação de comboios de Duas Igrejas (Trás-os-Montes)»,  podemos ler:

No Nordeste Transmontano, com a incúria a que estamos tão (mal) habituados, jaz morta e arrefece a estação de comboios de Duas Igrejas.

Terminal da linha férrea de Trás-os-Montes, quedou-se esta por Duas Igrejas – não chegando a Miranda do Douro por meia dúzia de escassos quilómetros -, por ser ali o local dos silos cerealíferos da conhecida «campanha do trigo» do Estado Novo – sim, que também ocorreu em Trás-os-Montes e não apenas no Alentejo. Enfim, levar pessoas até à capital do concelho não faria falta… Bastava alcançar os cereais.

Por estas e outras razões que a razão vai desconhecendo, antes como agora fazem-se coisas estranhas que se deixam, depois, desfazer estranhamente sem que, entre esses dois tempos, o cidadão se sinta envolvido, participante ou cúmplice.

Chamo a vossa atenção para o curioso do cartaz afixado

02.- 2018-04-28-3

e para a circunstância de todo o interior do edifício estar a ameaçar ruína.

Ou seja, o eventual roubo está acautelado; a mais que provável derrocada, não sabemos… Sem mais comentários (…)”.

 

Nesta Estação de Duas Igrejas (Miranda do Douro), com  ampla estação terminal,

03.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 204

cais para mercadorias, armazéns diversos,

04.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 194

placa giratória de inversão de material circulante,

05.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 197

(Perspetiva I)

05a.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 201

(Perspetiva II)

toma de água

06.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 198

e carvão, apesar do estado lastimável em que o edifício se encontra, o que nos chamou a atenção foi o conjunto de azulejos que o cobrem.

 

São da autoria de Gilberto Renda

07.- 2018-04-28-7

e resultaram de uma encomenda, feita pela então  CP, à fábrica lisboeta Sant’Anna

 

Os painéis representam cenas de época do quotidiano transmontano,

08.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 184

(Painel I)

09.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 186

(Painel II)

10.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 187

(Painel III)

trajes tradicionais e casa típica transmontana,

11.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 190

(Painel IV)

12.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 191

(Painel V)

um aspeto do mundo rural,

13.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 185

(Painel VI)

dois panoramas da cidade de Miranda do Douro, com a (Co)Catedral como pano de fundo,

14.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 182

(Painel VII)

(Painel VIII)

as ruínas do antigo Paço Episcopal,

16.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 188

(Painel IX)

e, naturalmente, a (Co)Catedral de Miranda do Douro.

17.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 189

(Painel X)

 O comboio – que existiu – nunca chegou a Miranda de Douro. Parou sempre em Duas Igrejas. Esta placa de azulejos, está nesta Estação morta da Linha do Sabor.

 

A catedral, essa nunca ouviu o apito do comboio a chegar! («Mensageiro de Santo António – Revista dos Frades Menores Conventuais») 

2018-04-28-1

 

***

 

Chegados ao término da Linha do Sabor, em Duas Igrejas, nos arredores de Miranda do Douro, façamos um resumidíssimo histórico, utilizando o sítio «Geocaching – Linha do Sabor: Miranda – Duas Igrejas» . 

 

Esta Linha foi construída de forma faseada. O seu longo atraso na conclusão foi ditado por falta de verbas, motivo, segundo este sítio, que nunca chegasse à cidade de Miranda do Douro.

 

A abertura da Linha do Sabor à exploração foi realizada da seguinte forma:

  • Pocinho – Carviçais - em 17 de setembro de 1911;
  • Carviçais – Lagoaça -  em 6 de julho de 1927;
  • Lagoaça – Mogadouro – em 1 de junho de 1930;
  • Mogadouro - Duas Igrejas-Miranda - em 22 de maio de 1938.

Moncorvo foi, de todas as quatro sedes dos concelhos que a linha atravessa, a única a ter estação no próprio povoado. Freixo de Espada à Cinta, Mogadouro e Miranda do Douro tinham as suas respetivas estações longe dos respetivos aglomerados populacionais, o que em último caso condenou a longo prazo a Linha do Sabor ao declínio da sua procura.

 

Acelerado pelo despovoamento que a emigração ditou na segunda metade do século XX, o desinvestimento nesta via-férrea começou. O material tracionado a vapor durou até ao seu encerramento, tanto para os comboios de passageiros, como de mercadorias e mistos.

 

Para os de passageiros surgiu ainda uma pequeníssima automotora, fruto de um projeto nacional, que tinha carroçaria de autocarro e era impulsionada por um motor a gasolina.

 

Ainda existe um exemplar deste peculiar comboio, na Secção Museológica da estação do Arco de Baúlhe, na Linha do Tâmega.

 

Em suma, o material, anacrónico, começou a ser substituído gradualmente por circulações rodoviárias, deixando nos últimos anos de exploração ferroviária apenas uma circulação de comboios em cada sentido, que fizesse integralmente os 105km do Pocinho a Duas Igrejas, e duas que cumprissem apenas o troço Pocinho - Mogadouro. O principal suporte da manutenção da linha (os comboios mineiros da extração de ferro na Serra do Reboredo) acabou, com o declínio rápido da extração do ferro.

 

A 1 de Agosto de 1988, estava tudo acabado na Linha do Sabor, aonde tinha chegado recentemente material a diesel, as locomotivas 9020 da Alstom, que prestaram serviço nas congéneres de via estreita do Douro.

 

Ao longo destas oito reportagens das etapas que fizemos, percorrendo os 105, 291 Km da Linha, viemo-nos queixando do estado deplorável em que estava não só o canal, com o respetivo material fixo, por onde o comboio passava, como as suas respetivas infraestruturas (construções), autênticas obras de arte, como eram as suas estações e apeadeiros. À exceção do troço – à data em que a percorremos, 2012 – entre Torre de Moncorvo e Carviçais, tudo quanto vimos provocou-nos um verdeiro dói de alma!

 

Positivamente houve (há, porventura) um autêntico passa culpas de umas entidades para outras: uns, distantes das terras, pouco sensíveis ao significado afetivo que a Linha representava para as respetivas populações, prenhes de verdadeiro espírito mercantil, numa ótica nitidamente neoliberal, o que viam era apenas o vil metal; outros, que verdadeiramente deveriam lutar mais por um património que eram de todos nós, pago durante dezenas e dezenas de anos com o dinheiro dos impostos de todos nós, foram (e infelizmente ainda são) pouco sensíveis ao valor afetivo e cultural desta infraestrutura, embarcando também no paradigma neoliberal, não foram capazes de, perante um Estado centralizador, omnipresente e todo poderoso, prepotente, «pegar em armas» e lutar por esta «dama»; muitos outros, anónimos, sem verdadeiro sentido e postura cidadã, mercê que tantos anos de ditadura, que lhes entrou «tutano» dentro, desde que não seja coisa ou propriedade sua, o «resto», de todos nós, que se lixe!

 

E, a este propósito, não resistimos em reproduzir a notícia inserta no Jornal Nordeste, de 5 de julho de 2005, sob a epígrafe «Estações caem de podres» 

Cinco estações da antiga linha do Sabor continuam ao abandono, apesar de terem sido incluídas no Programa de Revitalização de Antigas Estações Ferroviárias (PRAEF) lançado em 2001.

Em causa estão as estações de Duas Igrejas, Sendim, Urrós, Bruçó e Freixo de Espada à Cinta, cuja recuperação foi incluída no Plano Nacional de Turismo de Natureza, com vista à criação de cinco unidades de alojamento.

Passados quatro anos, as cinco estações permanecem entregues a si próprias, sem que se vislumbrem investimentos capazes de pôr cobro ao abandono.

O programa chegou, mesmo, a ser alvo de um protocolo entre a REFER, o Instituto de Conservação da Natureza, o Parque Natural do Douro Internacional (PNDI) e as Câmaras Municipais de Freixo de Espada à Cinta, Miranda do Douro e Mogadouro.

Tudo parecia resultar, até os autarcas se aperceberem que o acordo era altamente lesivo para os cofres municipais. [Não houve negociações prévias? Dizemos nós].

«Tínhamos de recuperar as estações com verbas dos municípios e, como se isso não bastasse, ainda éramos obrigados a pagar 250 euros/ano à REFER por cada quilómetro de linha ocupado pelo circuito turístico que íamos criar», recorda o presidente da Câmara Municipal de Miranda do Douro, Manuel Rodrigo.

Contas feitas, as autarquias teriam de desembolsar 12.500 euros, anualmente, para utilizar o antigo canal ferroviário. Era um péssimo negócio.

No caso do município mirandês, estão em causa as estações de Sendim e Duas Igrejas, onde terminava a linha do Sabor. O autarca garante que o restauro dos dois edifícios não fica em menos de um milhão de euros, além das rendas exigidas pela REFER pelo aluguer da linha. «Era um péssimo negócio para a Câmara e foi por isso que não avançamos com o projeto», recorda o edil.

O autarca, contudo, lamenta o estado de degradação das estações de Sendim e Duas Igrejas, que possuem painéis de azulejos únicos.

Em Freixo de Espada à Cinta, a Câmara Municipal nunca acreditou no projeto, atendendo ao valor do investimento em causa. «Quando se propôs às Câmaras pagar 250 euros por quilómetro de linha via-se logo que era difícil alguém aceitar. O contrário é que seria correto, com as Câmaras a receber para limparem a linha e manterem as estações preservadas», alega o presidente da Câmara Municipal de Freixo de Espada à Cinta (CMFEC), Edgar Gata.

O presidente da Câmara Municipal de Mogadouro, Morais Machado, tem uma opinião idêntica. «Tudo o que se refere à REFER nunca pode ir para a frente, porque quer obter mais valias extraordinárias a partir de cadáveres que são as estações abandonadas», critica o autarca.

O edil acusa a empresa de «querer que as Câmaras aluguem a linha e recuperem as estações que a própria REFER deixou degradar de forma irresponsável», acrescentando que o protocolo tinha um prazo de concessão. «Ao fim de 20 ou 25 anos de concessão, tínhamos de entregar as estações à REFER, depois investirmos na recuperação», denuncia o edil.

Na área do município mogadourense situam-se as estações de Bruçó e Urrós, cuja recuperação ascende aos 500 mil euros. «Se a isto somarmos os custos do aluguer da linha e de funcionamento das estações vemos que é incomportável para autarquias como as nossas», recorda Morais Machado.

A pensar na transformação das linhas em unidades de turismo de natureza, o PNDI elaborou um percurso pedestre ao longo do canal ferroviário. O trilho encontra-se devidamente sinalizado, mas o mato dificulta a vida aos caminheiros. «O percurso está definido, mas era preciso recuperar as estações para criar equipamentos de apoio e tornar os trilhos mais atrativos», defende o diretor do PNDI, Victor Batista.

Na antiga linha do Sabor, a exceção é a estação de Lagoaça, [e, acrescentamos nós, a de Torre de Moncorvo, bem assim toda o troço que compreende o território por onde a Linha passa neste concelho] que foi recuperada, em 2001, pela Junta de Freguesia, com o apoio da CMFEC, estando a funcionar como centro de acolhimento, equipado com restaurante-bar e quatro quartos.

Quanto à antiga gare de Freixo, «não está velha, está completamente arruinada e a cair», lamenta o edil.

O Jornal NORDESTE tentou obter uma reação da parte da REFER, através de ofício enviado no passado dia 23 de Junho para o Gabinete de Comunicação e Imagem da empresa. Até ao fecho desta edição, as questões continuavam sem resposta”.

 

Como se vê, apenas «se esgrimia dinheiro» como único argumento!

 

E, face ao que acima se reproduziu, apetecia-nos, chamando a atenção a todas as entidades, particularmente os autarcas,  citar aqui o antigo adágio popular quando diz que «de boas intenções está o inferno cheio»!

 

Até hoje – 2020! -, autarcas, Estado (Administração Central) e cidadãos deixaram cair em ruinas este património nacional, repete-se, pago a peso de ouro por todos nós, e posto às cobiça dos proprietários confinantes que, perante uma propriedade não passível de apropriação privada, por incúria e negligência das entidades estatais e autárquicas, dela se apropri(ar)am como coisa sua!

 

Uma vergonha! Infelizmente nesta Linha e por todas as outras por este país abandonadas.

 

Com raríssimas exceções!

 

Tanto o canal da Linha, como o edificado, bem assim os respetivos azulejos, como verdadeiras obras de arte, são pertença da rede ferroviária nacional. Gerida agora pela IP (Infraestruturas de Portugal), em regime de contrato de serviço publico com Estado português.

 

Flagrante falta de «sentido de estado» e cultura, de uns; de cidadania, de outros…

02
Jun20

Memórias de um andarilho - Caminhada nas vias férreas portuguesas abandonadas - Linha do Sabor - 8ª e última etapa :- Sendim-Duas Igrejas

andanhos

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

  

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS PORTUGUESAS ABANDONADAS 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO SABOR

  

8ª  E ÚLTIMA ETAPA

SENDIM-DUAS IGREJAS

(02.maio.2012)

 

01.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 180

 

 

(…) A paisagem é o resultado de uma ordem imposta aos caos original,

é um conceito cultural.

Cada paisagem tem uma leitura própria.

 

O Mirandês é sobretudo criador de gado.

Os lameiros de regadio e de sequeiro

são a nota dominante nesta paisagem.

A compartimentação dos campos

é uma marca ela estrutura agrária de base. (…)

 

Preservar uma paisagem

é mais do que preservar o património natural ou construído.

A história da paisagem mostra-a como uma  operação percetiva,

ou seja uma determinação sociocultural”.

Luísa Genésio

 

Começámos a caminhar, nesta última etapa da antiga Linha do Sabor, que nos levaria ao seu términus – em Duas Igrejas -,  já raiava o sol. Sozinho. Como nas duas penúltimas etapas. Percorremos 11,3 Km.

02.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 001

Pelos céus voava uma cegonha

03.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 008

e, um bonito passeriforme, postava-se num ramo de uma árvore,

04.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 013

com os seus chilreios característicos. Foram mais madrugadoras que nós, tratando de suas «vidas», em plena época primaveril.

 

O mesmo acontecia com este pastor, a única alma que encontrámos até Duas Igrejas, neste planalto deserto, de raras gentes,

05.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 054

levando, à sua frente, o seu cão pastor, de guarda

06.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 058

ao seu rebanho.

07.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 059

Veja-se este delicado cordeiro, que escapou ao sacrifício pascal deste ano!

08.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 061

Ao passarmos por estes dois cenários,

09.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 020

(Cenário I)

10.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 048

(Cenário II)

mais uma vez, as palavras de Luísa Genésio soavam-nos aos ouvidos:

A paisagem é o resultado de uma ordem imposta aos caos original, é um conceito cultural. Cada paisagem tem uma leitura própria”. Na verdade… Caminhos, árvores bordejando-os, terras cultivadas, germinando, portadoras de diferentes coloridos e, inopinadamente, à borda do trilho, uma cruz, a quem os Homem, para certos homens, lhe atribue o fim do seu próprio «caminho»!

 

Pensando na precaridade desta nossa «passagem», entretanto, um cheiro intenso a esteva (Cistus ladanifer) nos perseguia, espalhada ao longo deste nosso percurso, cascalhento.

11.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 080

A par da esteva, uma árvore e um arbusto foram as duas espécies mais presentes no decurso da nossa jornada de hoje: o sobreiro (Quercus suber)

12.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 077

e o zimbro (Juniperus communis L.).

13.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 152

Por entre dois sobreiros, a aldeia de Fonte de Aldeia, localizada um pouco ao nosso lado direito.

14.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 090

Mais umas boas dezenas de metros, por meio de um piso duro e confinado,

15.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 093

avistávamos o Apeadeiro de Fonte de Aldeia.

16.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 097

É uma arquitetura simples. Mas bonita. Ao mesmo abandono que todas as outras, por estas paragens!

 

Quer no exterior,

17.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 099

quer no interior.

18.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 109

(Perspetiva I)

19.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 101

(Perspetiva II)

Agora, Fonte de Aldeia apresenta-se-nos mais perto de nós.

20.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 110

Cotos de videira, velhinhos, persistem em ofertar, a quem deles carinhosamente os trata, o seu precioso néctar. Em plena planura do planalto, e a coberto, ao longo, dos pináculos do conjunto montanhoso.

21.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 117

Na continuação da nossa caminhada, no meio de um conjunto de vinhedos, este interessante cruzeiro,

22.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 127

que já perdeu a conta aos anos que tem!

23.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 124

Não havia necessidade de caminharmos com muita pressa. O trilho,

24.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 129

sempre acompanhado de estevas floridas, zimbros e sobreiros, convidava-nos à calma, à tranquilidade, dando-nos uma verdadeira paz de espírito…

 

Entrávamos no último troço da planura do planalto mirandês.

25.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 134

Nela, a exploração pecuária,

26.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 170

juntamente com a semeadura do cereal,

27.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 151

(Perspetiva I)

28.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 158

(Perspetiva II)

com um ou outro castanheiro idoso pelo meio, são os cenários que estas terras mirandesas nos oferecem.

29.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 144

(Cenário I)

30.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 149

(Cenário II)

E, mais uma vez, Luísa Genésio: “O Mirandês é sobretudo criador de gado. Os lameiros de regadio e de sequeiro são a nota dominante nesta paisagem. A compartimentação dos campos  é uma marca da estrutura agrária de base”.

 

Na verdade, “Preservar uma paisagem é mais do que preservar o património natural ou construído. A história da paisagem mostra-a como uma  operação percetiva, ou seja uma determinação sociocultural”.

 

Pelo meio de um piso duro, pouco meigo para umas botas de caminheiro já em fim de prazo, a certa altura, mais uma interrupção do trilho-canal da antiga Linha!

31.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 166

Duas Igrejas aparecia-nos à nossa frente. Todavia, a dureza do cascalho e a completa obstrução do antigo canal, obrigaram-nos a saltar para o lameiro à nossa direita a fim de atingirmos o final da nossa caminhada.

32.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 168

E não sabemos porque artes, uma passagem de «Vida e Proezas de Aléxis Zorbás» [São Paulo: Grua, 2011, 3ª edição, de Nikos Kazantzákis (1883-1957), página 124. Veja um resumo desta obra na Wikipédia. E, a não perder, a adaptação cinematográfica desta obra, deste intelectual grego, com a designação Zorba, o Grego, que conta com as brilhantes interpretações de Anthony Quinn, Alan Bates e Irene Pappás] nos ocorreu à mente e que aqui deixamos também para reflexão dos(as) nossos(as) leitores(as).

 

Palavras, ainda por cima, ditas por um rude, mas experimentado e vivido, grego, com a sua espontaneidade visceral!

“(…) se soubéssemos o que dizem as pedras, as flores, a chuva!

Pode ser que chamem, que nos chamem e a gente não ouça.

Assim como nós também chamamos e elas não nos ouvem.

Quando se abrirão nossos olhos, para vermos?

Quando se abrirão nossos braços, para que pedras, flores, chuvas e seres humanos se abracem? (…)”

 

Os metros finais a percorrer nesta antiga Linha do Sabor, antes de chegarmos à antiga Estação de Duas Igrejas, oferecia-nos esta longa e larga avenida.

33.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 175

Terminada a nossa aventura ao longo de 105,291 Km, de Pocinho até aqui, sentámo-nos a descansar um pouco, em frente de um dos degraus da antiga plataforma desta linda  – e também! – negligenciada Estação.

34.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 181

O nosso estado de espírito, naquele preciso momento, bem se poderia resumir às últimas palavras do livrinhos «Teoria da Viagem – Uma poética da Geografia», de Michel Onfray.

 

Reproduzamo-las:

Basta sentirmo-nos nómadas uma vez para sabermos que voltaremos a partir, que a última viagem não será a derradeira. A não ser que a morte nos surpreenda pelo caminho … (…)

O fim misterioso de Segalen, exangue aos pés de uma árvore, nos bosques de Huelgoat, com um Shakespeare na mão, parece-me emblemático: não morrer debaixo de um teto, mas lá fora, sob o céu e as estrelas, vivo.

A busca de si termina quando se solta o último suspiro. (…)

O espírito do geógrafo [ e nós temos um pouco o espírito de geógrafo] não se confunde com o do geólogo, mineiro de fundos e escavador de falhas. Um percorre o planeta e concentra-se com o movimento no contorno do mapa-múndi, o  outro instala-se e faz o seu buraco, escava uma toca para nela sepultar a sua energia e curiosidade. (…)

Os pretextos para partir podem se aleatórios: abrir um atlas, fechar os olhos, apontar um país, optar por uma região inesperada, receber de braços abertos os convites – quem tenha essa sorte – para calcorrear o planeta, aceitar os sonhos de criança, aceder ao desejo de alguém que nos é caro, partir num encalce de um poeta, de um filósofo ou artista que amamos, à procura de uma geografia sentimental encarnada, em busca de uma poética da geografia, dentro do espírito de Bachelard quando fala de uma poética do espaço e de um direito a sonhar. A prosa do mundo pode ser decifrada, segundo a lição do filósofo de Borgonha, através da água, da terra, do fogo, das nuvens, dos sonhos, dos devaneios, de um sótão, de uma casa, de uma concha, da chama de uma vela ou de um fogo. Ou de um poema. Porque o poema do mundo convida a incessantes interpretações”.

 

Levantámo-nos. E atravessámos, quase sem parar, a aldeia de Duas Igrejas, deixando para trás de nós, este cenários:

35.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 211

(Cenário I – Um carro de bois abandonado)

36.-2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 212

(Cenário II – Uma rua da aldeia. Ao fundo, o moderno campanário da Igreja Matriz)

37.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 215

(Cenário III – Largo da aldeia com fontenário e tanque e uma casa em ruínas)

38.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 222

(Cenário IV – Uma outra rua da aldeia)

39.-  2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 225

(Cenário V – Igreja Matriz, de Santa Eufémia)

A Igreja Matriz de Duas Igrejas é de uma só nave, com cinco tramos, divididos por quatro arcos-diafragma, que exteriormente correspondem a contrafortes. A cabeceira é mais elevada do que a igreja. O arco triunfal está ladeado pelo retábulo do Senhor da Piedade e da Senhora da Soledade, uma obra de talha barroca setecentista. Possui vestígios diversos de pinturas quinhentistas. Data do século XVI.

40.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 237

(Cenário VI – Fonte de mergulho)

41.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 233

(Cenário VII – Capela de São Bartolomeu, com um antigo cruzeiro, restaurado)

Ao chegarmos à estrada, que liga Duas Igrejas a Miranda do Douro, olhando para o relógio, apercebemo-nos que, face à hora marcada com Tópê para nos ir buscar, ainda era cedo. Que fazer?

 

Aventurámo-nos a ir até à Capela ou Santuário da Senhora do Monte.

 

Antes de chegarmos aquele Santuário, deixemos três cenários que, ao longo deste curto percurso, captámos.

42.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 249

(Cenário I – Casario velho)

43.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 247

(Cenário II – Um velho pombal)

44.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 238

(Cenário III – Alminhas)

E, agora, eis a Capela ou Igreja de Nossa Senhora do Monte, localizada fora do centro da povoação e rodeada de um amplo recinto.

45.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 245

Segundo a lenda da Senhora do Monte, uma pastorinha muda foi incumbida pela Virgem Maria, de informar os habitantes do lugar onde deviam edificar um templo em sua honra. A data apontada para esta aparição é de 902.

 

No dia 15 de Agosto faz-se a romaria da Senhora do Monte.

 

Para finalizarmos esta reportagem desta 8ª e última etapa a pé na antiga Linha do Sabor, deixamos à visualização dos(as) nossos(as) leitores(as) a fachada principal da Igreja de Nossa Senhora do Monte

46.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 244

e um pormenor do seu campanário, vista numa perspetiva lateral.

47.- 2012 - Linha do Sabor (Sendim-Duas Igrejas) 246

Aproximando-se a hora marcada com Tópê, nosso filho, para nos vir buscar e nos levar até Sendim, para irmos buscar a nossa viatura e dirigirmo-nos a Miranda do Douro, regressámos à beira da Estrada Nacional 221.

 

Como, com certeza, os(as) nossos(as) leitores(as) deram conta, não falámos muito sobre a Estação-términus da antiga Linha do Sabor, nesta povoação de Duas Igrejas.

 

Fizemo-lo de propósito. A ela lhe vamos dedicar um só post, ao mesmo tempo que pretendemos, para finalizar, tecermos algumas considerações finais.

 

Apresentamos o diaporama desta 8ª e última etapa, realizado em março de 2013.

 

LINHA DO SABOR – 8ª E ÚLTIMA ETAPA:- SENDIM-DUAS IGREJAS

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