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22
Jan20

Por terras da Ibéria - Uma viagem a Portugal com as obras de José Rodrigues no espaço público (Vila do Conde)

andanhos

 

POR TERRAS DA IBÉRIA

 

UMA VIAGEM A PORTUGAL COM AS OBRAS DE JOSÉ RODRIGUES NO ESPAÇO PÚBLICO

01.- José Rodrigues

VILA DO CONDE

Tomámos de empréstimo o título deste poste que retirámos do sítio da web «museu digital – UNIVERSIDADE DO PORTO».(https://museudigital.pt/pt/roteiros/18) E, já agora, vamos citar a sua «introdução»:

“Uma vertente da produção de José Rodrigues com grande impacto cultural e social, é constituída pela obra escultórica realizada para espaços públicos, e é vasta a obra que o escultor nos deixou pelo país. As encomendas das esculturas para estes espaços moviam José Rodrigues. Diverso e eclético, o conjunto de obras disseminadas pelo país combinam a rigorosa geometria com a diversidade do antropomorfismo e o cunho suave das figuras aladas que amplamente repete, e que o definem como uma marca pessoal. De norte a sul, encontramos estas obras figurativas ou geométricas e, um notável número de obras incorpora a água como elemento essencial da composição, com função enquanto elemento visual e determinação enquanto elemento conceptual, estabelecendo relações tangíveis e intangíveis em redor”.

02.- Praça D. João II

(A Praça D. João II – Turismo do Porto e Norte de Portugal)

Já neste blogue temos vindo a falar deste escultor, que admiramos, nomeadamente, nos postes «O Convento refúgio do escultor José Rodrigues» e «Arte no espaço público da Vila das Artes» (Vila Nova de Cerveira).

 

O escultor José Rodrigues, falecido em 2016, para além das suas inúmeras intervenções em espaços públicos de cidades espalhadas por Portugal, principalmente mais a Norte, também fez algumas intervenções em espaços públicos de Trás-os-Montes, nomeadamente em:

  • Alfandega da Fé, com o «Cego dos Cerejais»;
  • Bragança, com «Homenagem à Indústria da Seda/Monumento ao tecelão/Tear»;
  • Valpaços, com «Santa Comba e o Rei Mouro»;
  • Boticas, com «Menino da Rotunda do Noro».

 

Em próximos postes, naturalmente, iremos falar de cada uma destas obras. Hoje, porém, aproveitando a nossa escapadinha de fim-se-semana a Vila do Conde (Porto), vamos falar, muito resumidamente, da obra deste escultor deixada no espaço urbano desta cidade.

 

Trata-se da «Memória dos 500 anos dos Descobrimentos Portugueses e da participação de Vila do conde na epopeia Marítima», abreviadamente «Monumento a D. João II», na praça com o mesmo nome.

03.- 2020.- Vila do Conde (Porto) (197)

Na placa ali colocada pode ler-se: “Praça monumento concebida pelo escultor José Rodrigues, marcada pela afirmação vertical de um mastro e do velame de nau sulcando, ondas geométricas

04.- 2020.- Vila do Conde (Porto) (189)

 com uma sereia [em bronze e folha de ouro]

05.- 2020.- Vila do Conde (Porto) (194)

pontuando um mar encantado e onde o firmamento se espelha [e bancos em pedra].

06.- 2020.- Vila do Conde (Porto) (204)

Rotas de aventura, instrumentos de navegação e relógio de sol [em madeira e aço].

07.- IMG_3842

(Fonte:- https://museudigital.pt/pt/roteiros/18)

Esfera lembrando o universo sideral.

08.- 192-monumento-a-d-joao-ii-praca-vila-do-conde-8

(Fonte:- https://museudigital.pt/pt/roteiros/18)

A força dos Padrões traduzindo a presença dos portugueses nos cinco continentes.

09.- Padrões

(Fonte:- https://museudigital.pt/pt/roteiros/18)

09a.- monumento-a-d-joao-ii-praca-vila-do-conde-6

(Pormenor -Fonte:- https://museudigital.pt/pt/roteiros/18)

A água fonte de vida, como o sangue dos marinheiros que levam naus e caravelas a sulcar «mares nunca dantes navegados»”.

10.- 2020.- Vila do Conde (Porto) (205)

O chão tem as ondas do mar, como se pode ver pelas imagens acima exibidas.

 

“José Rodrigues referiu que a Praça seria um espaço de memórias, que teria de falar por si própria, mas que seria simultaneamente um lugar de encontro e de fazer perguntas”. […] O escultor pensava valorizar este espaço público de modo a relacioná-lo intimamente com a comunidade, a sua história e as suas memórias.”

 

Esta obra foi uma encomenda do Município de Vila do Conde em 1999 e, em 14 de junho de 2001, foi inaugurada a praça.

 

Tudo isto faz jus ao enorme contributo que, na época das Descobertas, Vila do Conde teve na indústria de construção naval, em que naus e caravelas, aqui construídas, levaram os portugueses às cinco partidas do Mundo.

 

Não é por acaso que, em Vila do Conde, na sua margem ribeirinha está colocada uma réplica de uma Nau Quinhentista.

11.- 2020.- Vila do Conde (Porto) (281)

P.S. – Num blogue por nós consultado «Arte da São» pode ler-se: “Na Doca pequena espraia-se a Praça D. João II, que com uma intervenção recente foi reabilitada, a autoria desta remodelação foi um projeto encomendado a Siza Vieira, tem alguns símbolos como os Padrões, as Esferas e a Sereia do Escultor José Rodrigues, dedicadas a evocar a participação desta Cidade nas aventuras da Navegação na época dos Descobrimentos”. Face ao que a placa que acima referimos, da responsabilidade da autarquia vila-condense, julgamos que a informação aqui aposta é imprecisa. Por isso, aqui fica o nosso reparo…

17
Jan20

Ocasionais - Livro de Horas, Miguel Torga

andanhos

 

OCASIONAIS

 

LIVRO DE HORAS

134526038268619

No 25º aniversário da morte de Adofo Correia da Rocha, fala-nos o grande poeta transmontano Miguel Torga:

 

Aqui diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas
O dos facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.

E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!

 

Miguel Torga,

in 'O Outro Livro de Job'

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15
Jan20

Por terras da Ibéria - Norte de Portugal - Tongobriga (Freixo-Marco de Canaveses)

andanhos

 

01.- PTI - Norte de Portugal - Tongóbriga 01

TONGOBRIGA – FREIXO

MARCO DE CANAVESES

 

Comecemos por apresentar o nosso tema, visionando este pequeno vídeo, ínsito no Jornal de Notícias digital, (JN), de 6 de julho de 2018.

 

FESTIVAL ROMANO APRESENTA DOCUMENTÁRIO TONGOBRIGA – GENIUS LOCI

Vejamos agora o significado do nome Tongobriga e como esta Estação Arqueológica foi «ressuscitada». Para o efeito, sirvamo-nos deste vídeo, edição da Porto Canal.

 

MARCO CIDADE ROMANA DE TONGOBRIGA

 

e do «Guia Arqueológico Visual  - Tongobriga . O espírito do lugar», editado em 2018, aquando ao Festival romano, realizado na Estação Arqueológica do Freixo, e ao lançamento do Documentário - «Tongobriga: Genius Loci» .

 

Seria de todo fastidioso neste post repetirmos o que o «Guia Arqueológico Visual - Tongobriga. O espírito do lugar» nos relata. Basta, para os(as) leitores(as) que se interessam por estas coisas, lerem atentamente este documento tão bem feito e apresentado – que, para além da edição digital, se apresenta também em livro, e que se pode adquirir na receção da Estação Arqueológica do Freixo (Tongobriga).

 

Vamos, contudo chamar a atenção, e realçar aos nossos leitores(as), os seguintes aspetos:

  • Em primeiro lugar, a Estação Arqueológica do Freixo (Tongobriga) - as ruínas da cidade romana de Tongobriga, segundo o artigo «Estação Arqueológica do Freixo – Tongobriga», jazem sob a aldeia de Santa Maria do Freixo, lugar/aldeia integrante da cidade e concelho de Marco de Canaveses;
  • Em segundo lugar, esta cidade romana foi construída sobre o território e a par das construções de um povoamento castrejo já existente, conforme se pode ler nas páginas 10 e 11 do «Guia Arqueológico Visual – Tongonbriga. O espírito do lugar», que, daqui para a frente, passaremos sempre a referir por «Guia». 
  • Em terceiro lugar, e ainda o mesmo «Guia», nas páginas 12 e 13, refere-nos que o nome de Tongobriga é tipicamente celta e deriva do sufixo «briga», que quer dizer colina fortificada e do nome «Tongo», nome indígena, que tanto se pode referir a uma divindade, como a um líder da comunidade, o que propiciou a fundação do povoado, ou ainda qualquer outro. Não é, assim, um nome cujos romanos tenham inventado ou atribuído: ele já existia e, quando cá chegaram, não o alteraram.
  • Em quarto lugar, as ruínas que foram descobertas pelos arqueólogos e que podem ser visitadas são:
    • O perímetro amuralhado com cerca de 13 hectares, abrangendo toda a área do Freixo, dentro do qual são visíveis bairros de habitação pré-romana

02.- 2019.- Marco de Canaveses  (155)

(Trecho da estrutura de uma construção castreja)

02a.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (80)

(Sobreposição de uma estrutura castreja com uma romana)

  • e romana

03.- 2019.- Marco de Canaveses (GOPRO) (70)

(Uma perspetiva parcial da estrutura urbana)

03a.- 2019.- Marco de Canaveses  (153)

(Uma perspetiva mais em pormenor da estrutura urbana)

(veja-se pág.s 14 e 15 – A Estrutura do povoamento castrejo e pag.s 42 e 43 – A Estrutura urbana, construído entre os séculos I e V d. C., do «Guia»).

04.- 2019.- Marco de Canaveses  (161)

Para se ir da Receção ao Forum e Balneário pré-românico e românico, que fica na parte sul da Estação Arqueológica, tem de se atravessar parte da aldeia, onde podemos encontrar construções/habitações como esta:

04a.- 2019.- Marco de Canaveses  (169)

  • O balneário castrejo pré-romano Balneário da «Pedra Formosa»

05.- 2019.- Marco de Canaveses  (182)

(Aspeto geral)

06.- 2019.- Marco de Canaveses  (178)

(Mais em pormenor)

(veja-se, mais em detalhe, o que se diz sobre este balneário, a pág.s 22 e 23 do «Guia»). 

  • O Fórum

07.- 2019.- Marco de Canaveses  (177)

(Perspetiva da entrada)

08.- 2019.- Marco de Canaveses  (191)

(Aspeto da área central e envolvente)

(veja-se o que o «Guia»  nos diz, nas pág.s 32 e 33, quanto a esta estrutura invulgar.

  • As termas romanas, termas públicas, que constituem o ex-libris deste lugar arqueológico

09.- 2019.- Marco de Canaveses  (200)

(Perspetiva I)

10.- 2019.- Marco de Canaveses  (204)

(Perspetiva II)

11.- 2019.- Marco de Canaveses  (194)

(Perspetiva III – Piscina)

12.- 2019.- Marco de Canaveses  (176)

(Perspetiva IV - Palaestra ou ginásio)

13.- 2019.- Marco de Canaveses  (189)

(Latrinas ou WC)

(veja-se também, mais detalhadamente, as pág.s 54 e 55 do «Guia»). 

  • A necrópole,

14.- 2019.- Marco de Canaveses  (174)

(Perspetiva I - Terreno contíguo à necrópole, onde se vê parte da muralha)

15.- 2019.- Marco de Canaveses  (208)

(Perspetiva II - Terreno contíguo à necrópole, onde se vê parte da muralha)

16.- 2019.- Marco de Canaveses  (206)

(Lugar da necrópole)

já fora da muralha da cidade, e,

  • finalmente, quatro (4) estruturas construídas na modernidade para apoio aos visitantes deste sítio:
    • Receção/Centro Interpretativo, com uma exposição permanente dedicada a mudança de vida dos habitantes de Tongobriga aquando da sua integração no império romano;
    • Um auditório, no qual se pode visualizar o documentário acima referido sobre este recinto arqueológico;
    • Uma pequena vitrina com exposição de alguns achados.

16.- 2019.- Marco de Canaveses  (151)

(Achado I)

17.- 2019.- Marco de Canaveses  (152)

(Achado II)

18.- 2019.- Marco de Canaveses  (220a)

(Ara votiva à deusa Fortuna - Imagem-marca de Tongobriga)

Na própria aldeia do Freixo, que integra a rede de «Aldeias de Portugal», destaca-se a sua Igreja Paroquial de Santa Maria,

19.- 2019.- Marco de Canaveses  (168)

(Uma perspetiva geral)

20.- 2019.- Marco de Canaveses  (144)

(Uma outra mais em pormenor)

sob a qual jazem ruínas de casas romanas com mosaicos (veja-se pág.s 70 e 71 do «Guia»); os edifícios relacionados com uma das maiores feiras do Norte de Portugal, extinta nos inícios do século XX – a chamada «Feira da Quaresma» - e o Solar mandado construir pelo capitão-mor de Canaveses, António Serpa Pinto, na época das Invasões Francesas.

21.- 2019.- Marco de Canaveses  (171)

(Perspetiva frontal do Solar)

21a.- 2019.- Marco de Canaveses  (211)

(Portão de entrada)

Dos quatro núcleos de ruínas arqueológicas visitáveis, destaquemos a «Casa do Poço»

22.- 2019.- Marco de Canaveses  (162)

(Uma perspetiva mais ampla)

23.- 2019.- Marco de Canaveses  (164)

(Outra perspetiva mais em pormenor)

 e a «Casa do Impluvium»,

20200115_122947

(Imagem obtida a partir do «Guia»)

pela sua qualidade construtiva e geometria (veja-se pág. 46 e seguintes do «Guia») 

 

Este povoado, então castrejo, da antiga Callaecia, foi integrado plenamente no Império Romano (consulte-se pág. 26 e seguintes do «Guia»), no  tempo da dinastia Júlio-Cláudia e, particularmente, no tempo dos Flávios, em que Tongobriga sofre uma modificação radical, sendo Tongobriga promovida a civitas, destinando-se a esta cidade a instalação de todas as infraestruturas necessárias à vida quotidiana de um espaço urbano.

 

  • Em quinto e último lugar, queríamos referir as circunstâncias ou razões do «investimento» dos romanos nesta civitas. A resposta é-nos dada nas pág.s 8, 28 e 29 do «Guia» quando nos fala da afirmação deste lugar como central em relação a um espaço regional mais vasto.

Na verdade, só se percebe o desenvolvimento urbano impar de Tongobriga a nível regional – dado que não se lhe conhece, no seu território mais próximo quaisquer recursos naturais, como jazidas minerais, aptidões agrícolas, silvícolas ou cinegéticas – se não pela sua importância estratégica como nó viário e ponto de integração entre rotas fluviais e terrestres, entre o litoral e o interior (veja-se pág.s 38 e 39 do «Guia»). Realce-se, particularmente aqui, a importância do rio Douro, que já Plínio O Velho considerava «um dos maiores rios de Hispania». A navegabilidade do Douro ao longo de 145 Km, entre a Foz e o célebre Cachão da Valeira – obstáculo que foi destruído em finais do século XVIII – já é reconhecida desde a época clássica. A este assunto se refere também Estrabão quando nos diz que o rio é capaz de ser navegado por grandes navios por uma distância de quase 800 estádios, correspondendo com exatidão àqueles 145 Km referidos.

 

Assim, o rio Douro neste território e, em conjunto com os seus principais afluentes, nomeadamente o Tâmega e o Corgo, constituiu, desde uma época anterior à romanização, uma via de penetração, a partir do oceano Atlântico, mas também um canal de escoamento de produtos do hinterland e de contactos – comerciais e também culturais – entre as duas margens.

 

Alain Tranoy  [página 9 do «Guia»] chega a considerar o Tâmega como uma via de comunicação essencial para o escoamento de produtos minerais do interior (nomeadamente da zona de Vila Pouca de Aguiar/Jales/Tresminas) e para o desenvolvimento do território da cidade romana de Aquae Flaviae (Chaves).

 

25.- 2019.- Marco de Canaveses  (217)

(Escola Profissional de Arqueologia – Única no país – ao lado da Igreja Paroquial)

08
Jan20

Ocasionais - Miguel de Unamuno e Sanábria - Valverde de Lucerna

andanhos

 

OCASIONAIS

 

UNAMUNO E SANABRIA

 

VALVERDE DE LUCERNA  

Laguna dos Peces e Lago de Sanabria (GOPRO) (21)

No sítio «San Manuel Bueno, mártir», escrito por Abel Sánchez, em El Rincón de Sanabria, este autor refere-nos que há um famoso livro que fala sobre Valverde de LucernaSan Manuel Bueno, mártir – de Miguel de Unamuno.

 

Unamuno mostra-nos, através desta novela, um espaço no qual assentam os símbolos chave da dialética entre fé e dúvida, o lago, a montanha, a neve, a aldeia submersa.

 

A novela contém duas paisagens: uma, natural – a aldeia de Valverde de Lucerna; outra, espiritual, a aldeia que, segundo a lenda, está submersa no Lago de Sanabria. A paisagem natural é símbolo da vida real e terrena, embora a segunda nos mostre o desejo ou anseio da imortalidade.

 

Miguel de Unamuno escreveu esta obra em 1930, quando estava hospedado no Balneário de Bouzas, localizado num lugar emblemático, embora recôndito, nas margens do Lago.

zamora-sanabria-balneario-bouza-2

As impressionantes vistas deste «enclave» cativaram e inspiraram Miguel de Unamuno, numa altura em que vivia um profunda crise de fé.

 

Deixamos aos nossos (as) leitores(as) uma das duas poesias que Unamuno, o grande amigo e apreciador de Miguel Torga, escreveu logo que que este bilbaíno se hospeda em Sanabria.

 

Se bem que «Valverde de Lucerna» assente profundamente na lenda da aldeia de Valverde submersa,

para nós, contudo, parece-nos premonitória ao trágico evento que, cerca de 29 anos depois, haveria de acontecer com o colapso da barragem de Veja do Tera, a 9 de janeiro de 1959, e que, quase por inteiro, a mole das suas águas revoltas, submerge no Lago grande parte das gentes de Ribadelago (144 vítimas mortais, das quais só se recuperaram 28 corpos).

 

Ay, Valverde de Lucerna,

hez del lago de Sanabria,

no hay leyenda que dé cabría

de sacarte a luz moderna.

Se queja en vano tu bronce

en la noche de San Juan,

tus hornos dieron su pan,

la historia se está en su gonce.

Servir de pasto a las truchas

es, aun muerto, amargo trago;

se muere Riba del Lago,

orilla de nuestras luchas.

Miguel de Unamuno

03
Jan20

Ano Novo... Renovando

andanhos

 

ANO NOVO... RENOVANDO

 

Nasci com os olhos postos na Fraga do Marão.

Comecei a olhar e a aprender o mundo

tendo sempre omnipresente aquele cenário,

rodeado de casas brancas,

dispersas pela paisagem,

e pelos socalcos de vinhedos;

ao fundo, como chamando por nós para outras paragens,

o rio Douro.

                                                                              ***                                      

Vi a sombra antes de ver a luz.

Há uma tarde de novembro que ficou,

em mim para sempre.

É num fundo roxo e dourado,

que o meu perfil de criança

me aparece, ao longe,

tão triste

mais um sentimento vago

que uma forma definida.

Nos primeiros tempos,

vivemos mas não existimos.

Eu era então uma alma

a esvoaçar um corpo,

e tudo era alma,

diante de meus olhos.

Teixeira de Pascoaes

 

Quando escrevíamos o primeiro post deste blogue, a certa altura, dizíamos que, após o capítulo “RAÍZES”, desenvolveríamos os seguintes blocos temáticos:

  • Memórias da minha infância;
  • Gallaecia, dividida nas seguintes rubricas:
    • Por Terras da Gallaecia
    • Pelos Caminhos de Santiago na Galiza
    • O Douro dos meus encantos
    • Por terras do Alto Tâmega e Barroso
  • Por terras de Portugal
  • Encontros com a História e o Património
  • Áreas Naturais
  • Eventos e Passeios
  • Férias.

 

Convenhamos que, para um autor só – sem qualquer colaborador – era deveras um projeto ambicioso!

 

A 25 de janeiro de 2016, decorridos mais de cinco anos da criação deste blogue, no post «Renovando», decidimos, face à demasiada ambição do desenvolvimento das temáticas que nos propúnhamos desenvolver neste blogue, renová-lo, tendo em conta a avaliação do trabalho que, neste mesmo blogue, tínhamos realizado até àquele momento. E, assim, a partir daquela altura, foram estas as rubricas que começaram a aparecer:

  • Reino Maravilhoso, com os seguintes subtemas:
    • Douro
    • Barroso
    • Alto Tâmega
    • Trás-os-Montes
  • Palavras Soltas
  • Memórias de um andarilho
  • Ao Acaso…
  • Chaves através da Imagem
  • Versejando com a imagem.

Entretanto, em 2012, criámos mais dois blogues: Voilá é Zassu, cujo objetivo da sua criação era o que se apresentava no seu primeiro post «Encontros(s) - Cena zero - Encontro prévio» mas que, também, ao longo da sua existência, foi sofrendo alterações, conforme escrevíamos no post «Poesia e Arte 79 – Poemas nos Diários de Miguel Torga – Epílogo»; e nona, um blogue subordinado às rubricas mais frequentes deste Andarilho de Andanhos, mas, exclusivamente, dedicado à apresentação das nossas fotografias.

 

É agora, passados quase mais de cinco anos, de proceder a nova renovação.

 

Desta feita, este blogue passará a contar apenas com reportagens de passeios e escapadas no nosso

 

  • Reino Maravilhoso, que continuará a contar com os subtemas: 
    • O Douro dos meus encantos
    • Barroso
    • Alto Tâmega e
    • Alto Trás-os-Montes. 

Faremos reportagens das nossas caminhadas em:

  • Memórias de um andarilho.

Faremos também reportagens de passeios e escapadas levadas a efeito em

  • Por Terras da Ibéria, quer sejam levadas a cabo em Portugal, com exclusão do Reino Maravilhoso, quer nas diferentes províncias e/ou regiões da nossa vizinha Espanha, na nossa Península Ibérica (Ibéria).

Finalmente, uma última rubrica,  

  • Ocasionais, quando o tema não se enquadre em nenhuma das reportagens acima mencionadas.

 

O blogue nona continuará a dedicar-se à exposição das nossas fotografias, segundo o esquema temático deste blogue, que, abreviadamente, designamos de Andanhos.

 

O blogue Voilá é Zassu, ou simplesmente Zassu, «viverá» a custa das restantes rubricas que faziam parte deste blogue, ou seja,

  • Palavras Soltas
  • Ao Acaso…
  • Versejando com imagem.

 

Como os leitores(as) dos nossos três blogues já repararam, alterámos o visual, «cabeçalho» dos mesmos.

 

Agradecemos ao nosso grande amigo Fernando DC Ribeiro, autor do blogue «CHAVES», que nesta data cumpre 15 anos de existência, o trabalho de «design» que neles realizou. Quer o nona, quer o Voilá é Zassu apresentam «caras» totalmente novas.

 

Andarilho de Andanhos, embora mantenha a sua matriz essencial, sofreu também algumas alterações. A primeira tem a ver com uma citação, da autoria de Miguel Torga, de que muito gostamos; a segunda, com a junção, na imagem base, da Ponte Romana de Chaves e o rio Tâmega.

 

É de todo justo que Chaves aqui apareça. Vão para mais de 55 anos que aqui residimos e fizemos vida nesta cidade e concelho. Aqui nasceram os amores da nossa vida, nesta terra onde «ganhámos» o pão de cada dia, simbolizado numa espiga, no canto direito do «cabeçalho».

 

Mas se Chaves, a Aquae Flaviae antiga, é «A Terra dos Meus Amores», tal como o título do pequeno opúsculo – uma coletânea de poesias -, de Artur Maria Afonso, pai de Nadir Afonso, que a Camara Municipal de Chaves deu à estampa, quando éramos responsável pelo Pelouro da Cultura, em 1993, e que aqui transcremos um dos poemas:

 

AQUAE FLAVIAE

AQUAE FLAVIAE é no Mundo

Uma estrela rutilante!

Teu ar alegre e jocundo

Cantasse-o Camões ou Dante!

 

De graça e sonho me inundo

Ao contemplar teu semblante.

Teu valor não tem segundo

Por toda a Terra adiante.

 

Eu ando enamorado

Há muito, desde o passado,

Por ti, Princesa d’Honor!

 

Faz espelho do teu rio,

Panteia as tranças com brio,

E dá-me um beijo d’amor.

Maio de 1957

Do livro de poesias “ORAÇÕES AO VENTO” (1982),

acompanhado de uma ilustração de seu filho, Nadir Afonso,

Aquae Flaviae

(Ilustração de Nadir Afonso)

contudo, a terra onde nascemos, (Santa Maria de) Oliveira, concelho de Mesão-Frio, onde o Alto Douro Vinhateiro – a mais antiga região vinhateira demarcada do Mundo – começa, continuará a ser a terra a que o nosso coração pertence e reside, ao longo da diáspora da nossa vida.

 

Ela aqui está, guardada pela imponente Serra do Marão, com a Fraga da Ermida a protegê-la e, por vezes, ameaçando-a.

 

Por esta circunstância, uma vez mais, não resistimos a citar um pequeno excerto do grande poeta da saudade, na sua obra Marânus:

 

SERRA DO MARÃO

Amo-te, ó serra, em tudo do que tu és!

Amo-te, desde a rocha que em ti sofre

Ao tojo bravo e à urze tão mesquinha

De que sempre te revestes, porque, enfim,

Tu és grande e, portanto, pobrezinha!

Teixeira de Pascoaes

 

O cacho de uvas que aparece neste novo «cabeçalho», do lado esquerdo, e sobre (Santa Maria de) Oliveira representa todo o Douro, feito de trabalho árduo, suor e pelas mãos ossudas e calosas do Homem que trabalhou aqueles montes de geios e pedra dura, numa atividade que teve o seu quê não só  de grandioso como de trágico, tal como tão bem o nosso saudoso e querido António Cabral o cantava neste poema:

 

AQUI, O HOMEM

Nem Baco nem meio Baco!:

                Aqui é o homem,

desde as mãos ossudas e calosas,

desde o suor

ao sonho que transpõe as nebulosas.

 

Montes de pedra dura,

               gólgotas

onde os geios são escadas!

Venham ver como sobe o desespero

 e a esperança, de mãos dadas.

 

É o homem.

         Isso é o homem.

– Nem sátiro nem fauno –

Uma vontade erguida em rubro gládio

que ganha a terra, palmo a palmo.

 

Vinhas que são o inferno,

                    o único

em que o fogo é a taça da alegria!

Venham ver um senhor

grandioso como o sol ao meio-dia.

 

Nem Baco nem meio Baco!:

           Aqui é o homem

que nada há que não suporte

mas suporta e persiste.

Aqui é o homem até à morte.

António Cabral, Poemas Durienses., 1963

 

E é tudo por hoje.

 

A todas as nossas amigas e amigos leitores(as) deste blogue,

 

UM BOM ANO 2020

 

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