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andanhos

Palavras soltas - Reflexão a propósito da apresentação do livro «Poema infinito», de João Madureira

 

PALAVRAS SOLTAS

 

REFLEXÃO A PROPÓSITO DA APRESENTAÇÃO DO LIVRO,

«POEMA INFINITO», DE JOÃO MADUREIRA

 

 

LINHA DE FÉ

É favor das estrelas nos convidar a falar,

Nos mostrar que não estamos sós,

Que a aurora tem um teto

E o meu fogo tuas mãos

 

René Chair

 

 

Não é nosso intento fazer qualquer apreciação a propósito da apresentação da obra «Poema Infinito» do amigo João Madureira, levada a cabo ontem no Auditório do Centro Cultural de Chaves; nem tão pouco fazer qualquer recensão crítica a este «Poema».

 

Apesar de, uma vez por outra, irmos lendo partes do mesmo, quando João o ia editando no seu blogue «TerçOLHO» [e atente-se que o livro dado à estampa não contempla toda a prosa poética editada naquele blogue], não temos qualquer veleidade de, aqui, repete-se, fazer qualquer apreciação crítica à obra.

 

Estamos com Kafka quando reconhecia ser um leitor atento. E um leitor atento tem de ser meticuloso, não ter pressa. Ao avançar-se no labirinto de um texto não se pode correr, sob pena de não se perceber a realidade nua, dura e crua que o mesmo contém.

 

Guimarães Rosa, citado por Gabriel Perissé, in Educação queixava-se dos leitores analfabetos para as entrelinhas, o leitor que corre para vencer parágrafos mas que perde na maratona da compreensão profunda. Ou, quando no mesmo sítio, se cita Nietzsche: “Não fui, em vão, filólogo, e ainda o sou talvez. Filólogo quer dizer mestre na leitura lenta”.

 

Face à obra que ontem nos foi apresentada, é forçoso que façamos uma pequena incursão sobre o designado «poema em prosa».

 

Então não há uma diferença entre prosa e poesia?

 

Prosa não será a forma natural de comunicação entre humanos, sendo o texto (em prosa) construído num discursos livre e direto?

 

E a poesia não será mais uma linguagem subjetiva, exprimindo emoções e sentimentos, num texto trabalhado esteticamente com elementos sonoros (ritmo, rima e verso) e, por isso, contendo ritmo e harmonia para manifestação de beleza?

 

Não serão, assim - poesia e prosa – dois géneros literários distintos?

 

Assim era. Todavia o escritor e o poeta têm liberdade, no trato da linguagem, para o uso dos diferentes instrumentos, que o levarão às suas próprias criações.

 

Pelo que sabemos, a partir de Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud e Stephane Mallarmé, assim como outros, a designação poesia em prosa, ou prosa poética, vem associada a estes autores, sendo, por isso, considerados os seus fundadores.

 

A história da prosa poética, como género literário, confunde-se com a trajetória da ascensão da modernidade poética, ao longo dos séculos XIX e XX.

 

Neste novo género literário, os princípios fundamentais da poesia, como a estética e o ritmo, bem assim a evocação de emoções são utilizados sem seguir a estrutura de verso e/ou estrofe: usa-se o texto direto e livre da prosa.

 

Sabemos que este novo género ainda é hoje controverso. Mas não é aqui o lugar para falar das ditas controvérsias acerca do caráter sui generis deste tipo de criação poética.

 

Mas quem goste de aprofundar este tema, entre muitos outros textos, recomenda-se a leitura de «Poesia ou prosa: Problemática (in)definição», de Fernando Paixão.

 

Feito este inciso quanto ao género literário que o nosso autor J. Madureira usa no seu «Poema Infinito», abordemos o tema que nos incitou para a escrita deste post.

 

Sartre, citado por Lúcia Lang Patriani de Carvalho, in «A relação entre escritor e leitor em "O que é a literatura"?», dizia que a finalidade da linguagem é comunicar.

 

Mas a função do escritor encontra-se em convergência com a própria função do homem, que é a de desvelar a realidade e o próprio ser humano.

 

Para Sartre, a atividade de um escritor configura-se, primacialmente, numa única palavra ou verbo – projeto, projetar.

 

Este autor, em 1946, na conferência «O existencialismo é um Humanismo» expressava como entender o papel do escritor:

“Porque o que nós queremos dizer é que o homem primeiro existe, ou seja, que o homem, antes de mais nada, é o que se lança para um futuro, e o que é consciente de se projetar no futuro. O homem é, antes de mais nada, um projeto que se vive subjetivamente, (...) nada existe anteriormente a este projeto; nada há no céu inteligível, o homem será antes de mais o que tiver projetado ser”.

 

E, logo a seguir, prossegue:

“Não é verdade, pois, que o escritor escreva para si mesmo: seria o pior fracasso; projetar as próprias emoções no papel resultaria, quando muito, em dar-lhe um prolongamento enlanguescido. O ato criador é apenas um momento incompleto e abstrato da produção de uma obra; se o escritor existisse sozinho, poderia escrever quanto quisesse, e a obra enquanto objeto jamais viria à luz: só lhe restaria abandonar a pena ou cair no desespero”.

 

E, entre estes dois passos, aparecem-nos a figuras de alteridade e de intersubjetividade.

 

No outro polo da criação poética (humana, pois), está a figura do leitor, como necessária para que a  objetividade da obra se dê. A partir do primeiro ato de criação do escritor podemos passar agora para o leitor e ao próprio ato de leitura, que completa o ato da escrita de um modo muito particular. 

 

“Ler implica prever, esperar. Prever o fim da frase, a frase seguinte, a outra página; esperar que elas confirmem ou infirmem essas previsões; a leitura se compõe de uma quantidade de hipóteses, de sonhos seguidos de despertar, de esperanças e deceções; os leitores estão sempre adiante da frase que leem, num futuro apenas provável, eu em parte se desmorona e em parte se consolida à medida que a leitura progride, um futuro que recua de uma página a outra e forma o horizonte móvel do objeto literário”, diz-nos Sarte.

 

A este processo Sartre denomina a «Dialética da Leitura».

 

Para Lúcia de Carvalho “Cada página a ser lida já possui uma proposta de caminho a se traçar, o caminho projetado pelo escritor, mas que ainda não é de pleno conhecimento do leitor em seu ato de leitura. Apenas posteriormente o leitor possuirá uma visão de todo o seu objeto, que a cada instante é resignificado a partir da expectativa do  [também] ‘projeto’ do leitor e do estabelecido pelo projeto do escritor”.

 

E, neste sentido, uma obra de arte só é uma «obra» como tal na medida em que “o escritor apela à liberdade do leitor para que esta colabore na produção de sua obra”.

 

Nas palavras de Lúcia de Carvalho, Sartre designa a leitura como um exercício de generosidade. Uma generosidade que parte do leitor em relação à obra e ao projeto do escritor, de um leitor que compromete a sua liberdade e doa a sua subjetividade para um projeto que lhe é alheio.

 

E a autora conclui: “Embora a liberdade do indivíduo ainda experimente suas delimitações (não  limitações) nas relações intersubjetivas, o conflito com o intuito de dominação não mais  se faz presente neste contexto literário, uma vez que a objetivação pretendida tem dependência mútua dos sujeitos”.

 

Ou seja, sem partilha das diferentes subjetividades e sem alteridade, não há verdadeira obra de arte.

 

Na senda de Elank Lewer, que o escritor que nos apresentou este texto («Poema infinito»), tenha muitos leitores fazendo o seu contexto, ou ainda, nas palavras de Roland Barth, em «Fragmentos de um discurso amoroso» que a linguagem do «Poema»  seja uma pele em que: “esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras".

Da ponta das palavras de J. Madureira:

“(…) Dizes: a beleza não existe. A beleza é pretérito. A beleza é sempre o instante que já passou. Sentimo-nos como os sons interrogativos de um fagote. Agora a morte vive nas aldeias abandonadas. A alma é exterior ao espanto. Aqui a escuridão é viva. E o ruído calamitoso do abandono ouve-se nas galáxias próximas dos teus olhos. São agora outra fisionomia dos corpos. A inocência atroz do passado é atualmente um sítio imóvel. Dizes gesticulando as palavras: ouves o grito dos mortos? Ao nosso lado a sombra da noite cobre a sombra da própria sombra. Sinto-me a atravessar o inferno”. Poema Infinito, poema «O passado apressado do silêncio»”,

 

a leitura saída da ponta dos nossos dedos, em jeito de imagem:

2019.- Hórreos de Congostro (51b)

É esta  imagem, tirada anteontem, de uma casa de uma aldeia galega, igual a tantas outras espalhadas pelo nosso rincão português transmontano, e não só, onde imperam sombras, noites sem fim... à espera da morte, fazendo-nos acreditar em outros «infernos», mercê da nossa incúria e falta de visão de encarar o futuro de todos nós, e que constantemente criamos, que aquele excerto do poema nos sugere.

 

nona

Por terras da Gallaecia - A Carvalla da Rocha - A Saínza - Rairiz de Veiga

 

POR TERRAS DA GALLAECIA

 

A CARVALLA DA ROCHA

 

(A SAÍNZA – RAIRIZ DE VEIGA)

 

 

01.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (28)

 

A.1.- CARACTERÍSTICAS DO QUERCUS ROBUR L.,

SEGUNDO O CARTAZ AFIXADO NAS PROXIMIDADES DA «CARVALLA DA ROCHA»

 

O carvalho Quercus robur L.,  ou Quercus pendunculata Ehrh, é uma árvores robusta, de porte majestoso, podendo superar os 40 metros de altura. Possui copa ampla, redondeada ou irregular e é de folha caduca.02.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (84)

Tem o tronco direito, curto e muito grosso nos exemplares isolados, com ramas grossas e algo tortuosas. Possui casca grisácea ou esbranquiçada, muito rachada e de tonalidade parda nos exemplares mais velhos.

01b.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (66)

Possui folhas grandes, simples, em disposição alternada, com estípulas alongadas que caiem muito cedo. São lampinhas pelas duas faces, de cor verde intensa pelo feixe e mais pálidas, com nervos bem marcados pela parte inferior. A sua forma é ovalada, com pecíolo muito curto (2 a 7 mm), com bordo mais ou menos profundamente lobulado, desiguais e redondeados, medindo uns 6 a 12 cm de comprimento por uns 3 a 6 cm de largura.

04.- 28814

Têm flores masculinas em amentos suspensos, verde-amarelados, que nascem solitários ou em grupos de raminhos do ano anterior.

28807

As sua bolotas são suspensas sobre um longo pedúnculo, ovado, com carapaça ou cascavilho de escamas quase planas, «empizarradas».

05a.- 28802

O nome específico «Linneo» para esta espécie de Robur era já utilizado pelos romanos, ao designarem os carvalhos e a qualquer tipo de madeira dura e de grande solidez.

 

A madeira deste carvalho é de cor pardo-leonado, muito dura, de grão fino, com anéis de crescimento bem marcados, bastante pesada e muito resistente à podridão, mesmo que debaixo de água.

 

O uso da sua madeira para tonéis e barricas de vinho ou licores é muito antiga. Também é utilizada a sua madeira para a construção de barcos e produção de carvão

 

Trata-se de uma árvore com longa vida. Alguns exemplares podem superar mais de mil anos.

 

Floresce muito tarde, por volta dos 40 a 50 anos.

 

Os seus nomes comuns são: carvalho-alvarinho, carvalho-comum, carvalho-roble, carvalheira, roble- alvarinho, alvarinho.

 

 

A.2.- CARACTERÍSTICAS DO QUERCUS ROBUR L.,

SEGUNDO O JARDIM BOTÂNICO DA UTAD (UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO)

 

Distribuição geral: Esta espécie ocupa uma extensa área na Europa, com especial relevo ao Norte e uma parte da região mediterrânica. Apresenta, contudo, alguma tendência à hibridação com outras espécies do mesmo género, o que dificulta o estabelecimento claro das suas áreas de distribuição.

 

Caracterização geral: No Inverno tolera baixas temperaturas e geadas tardias de certa intensidade. Abunda essencialmente em zonas de vales.

06a.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (19)

 Necessita geralmente de climas de tendência atlântica com um mínimo de precipitação anual de 600 mm, não tolerando secas estivais fortes (requer um mínimo de 150 mm de precipitação estival). É considerada uma espécie de luz. Tolera solos pesados e argilosos, inclusive com um certo encharcamento estacional. É uma espécie plástica quanto ao pH do solo, desde que haja algum fundo de fertilidade. Possui uma boa capacidade regenerativa por semente (apesar de irregular), ainda melhor por cepa, não rebentando ou rebentando mal de raiz. Inicia a frutificação aos 35-40 anos e regista safra e contrassafra.

 

Pode alcançar os 30-35 m de altura.

07.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (89)

Apresenta uma copa ampla e globosa, não muito densa.

08.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (50)

O fuste é regular nas formas, ausente de ramificações,

09.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (27)

chegando a atingir grandes diâmetros. O sistema radicular é forte e profundo com raiz principal pivotante e secundárias extensas.

10.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (61)

O crescimento é lento nas primeiras idades, e tem tendência a aumentar ligeiramente. Desenvolve produtividades de 4 a 6 m3/ha/ano. Poderá alcançar 500 a 600 anos de idade e já foram encontrados exemplares milenares. A regeneração é muito abundante e fácil de obter por via seminal. Frutifica a partir dos 25-30 anos e com abundância a partir dos 50 anos. Rebenta bem e vigorosamente por cepa, mesmo após um incêndio. Não rebenta de raiz.

 

Propriedades e utilizações: A madeira apresenta borne de cor branco amarelado, enquanto o cerne é mais escuro. Apresenta grão fino ou medianamente fino. O cerne é bastante resistente à intempérie, ao ataque de fungos de podridão e de insetos (salvo as térmitas), enquanto o borne é sensível. É uma madeira pouco estável e seca lentamente, pelo que, necessita de uma secagem ao ar ou artificial muito cuidadosa, de modo a evitar deformações e fendas. Regista uma grande duração dentro e fora de água. Em geral, o lenho é de muito boa qualidade quando a árvore foi bem conduzida. Utiliza se em marcenaria, revestimentos de excelência para a construção, tanoaria, folheados, soalhos e utensílios diversos, sendo também um combustível de excelente qualidade. A espécie tem interesse na proteção contra incêndios, sendo utilizada para compartimentação, essencialmente de resinosas.

 

Apresenta-se a Ficha desta espécie.

 

 

A.3.- CARACTERÍSTICAS DO QUERCUS ROBUR L.,

SEGUNDO  O SÍTIO DA WEB DA FUNDAÇÃO SERRALVES (PORTO)

 

Nome Comum: carvalho-alvarinho, carvalho-comum, carvalho-roble, carvalheira, roble- alvarinho, alvarinho.

 

Origem: Europa e Ásia Ocidental. É espontânea no norte e centro de Portugal e também em zonas do litoral. É a espécie de carvalho mais abundante em toda a Europa.

 

Descrição: O carvalho-alvarinho é uma árvore de grande porte, podendo atingir 35 a 40 m de altura. Possui ramos vigorosos, é monoica e caducifólia. O tronco é grosso, a casca cinzento‑acastanhada, escurecendo com a idade, com sulcos longitudinais profundos. Folhas alternas, simples, glabras e verde-claras quando jovens, penatifendidas ou sinuado-lobadas, com os segmentos obtusos e pecíolo curto.

11.- 28810

Inflorescência em amentilhos, os masculinos agrupados, pendentes, de 5 a 13 cm de comprimento, cada flor com um perianto de 4 a 7 lóbulos e 6 a 12 estames. Amentos femininos em grupos de 2 a 3 flores, sobre um largo pedúnculo e com um invólucro escamoso. Fruto, glande ovoide‑cilíndrica (bolota), de 2 a 4 cm de comprimento, encerrada numa cúpula com escamas planas e imbricadas.

05.- 28801

Espécie fitófila de raízes profundas.

 

Habitat: Dominante em carvalhais e acompanhante em bosques caducifólios, marginando matagais e linhas de água, de preferência em regiões de clima temperado, em solos profundos e secos.

 

Aplicações: Ao carvalho-alvarinho são atribuídas propriedades adstringentes (contrai os tecidos, os capilares, os orifícios e tende a diminuir as secreções das mucosas), antissépticas (destrói os germes ou inibe o seu desenvolvimento, serve para desinfetar as feridas e certos órgãos), febrífugas (combate a febre) e tónicas (exerce uma ação fortificante e estimulante sobre o organismo, diminuindo a fadiga).

 

A sua madeira, de excelente qualidade, é utilizada no fabrico de mobiliário e na construção civil (vigas e traves). As bolotas são usadas na alimentação do gado suíno.

 

Observações: A área natural de Quercus robur é muito vasta abrangendo o norte de Portugal e praticamente toda a Europa, tendo como limite a nascente os Montes Urais, a norte a Noruega e Suécia, e a sul da Sicília. Outrora ocupava vastas extensões contínuas, que a cultura agrícola e os derrubes para o aproveitamento das suas madeiras de ótima qualidade e duração, vieram a reduzir drasticamente a sua área. No entanto ainda existem povoamentos de uma certa grandeza, pela sua extensão e qualidade da sua madeira, como seja a floresta de Slovana, na Jugoslávia, no vale do rio Save (afluente do rio Danúbio), situada em terrenos de aluvião de grande fertilidade. Em Portugal, o carvalho-alvarinho, abrange praticamente o norte litoral, desde o rio Minho até ao rio Mondego, incluindo assim na sua quase totalidade as bacias hidrográficas destes 2 rios. Normalmente esta espécie aparece em pequenos povoamentos ou núcleos, raramente constituindo matas duma certa extensão, como se verifica no Parque Nacional da Peneda Gerês em pelo menos 2 locais.

 

Os “bugalhos” que aparecem vulgarmente nos ramos e folhas do carvalho, são excrescências produzidos por um desenvolvimento anormal dos tecidos vegetais em pontos que sofreram a picada de certos insetos. A forma, tamanho, cor e a composição dos bugalhos variam não só de acordo com as espécies de árvores afetadas, mas também consoante o tipo de inseto que as provoca. Muitos bugalhos são ricos em taninos, substância usada na curtição do couro e no fabrico de certas tintas. Por essa razão, muitos são exportados industrialmente. É a espécie de carvalho mais abundante em toda a Europa.

 

O vale da Limia, na nossa vizinha Galiza, outrora estava repleto desta espécie, constituindo um enorme bosque, em articulação com a Lagoa de Antela, hoje completamente desaparecida, pela drenagem das suas águas para fins agrícolas, nomeadamente o plantio da batata. A par deste tipo de agricultura, destinada, a maior parte da produção para as grandes multinacionais da alimentação, também parte significativa desta riquíssima extensão de território fértil foi apropriado pelos areeiros para fazerem extração (ilegal) de areais para diversos fins, fundamentalmente, a construção civil.

 

Quem percorra este enorme território rural da Limia é confrontado com mais de 40 lagoas, de diferentes dimensões, lugar habitado pelas mais diversas espécies de aves, que aqui vivem, umas, e outras, nidificam. Estas lagoas artificiais são agora objeto de proteção pelas diferentes autoridades que, de uma maneira ou de outra, são responsáveis e superintendem neste território.

 

 

 

B.- A «CARVALLA DA ROCHA» OU A «CARVALLA DA SAÍNZA»

 

Mas foi para ver uma espécie destas – o Quercus róbur L. - que, andando pelas Terras de Limia, e pelas bandas do traçado da Via Nove (romana), que, ontem, o nosso amigo Pablo Serrano nos levou até às terras de Rairiz de Veiga, onde há mais de 30 anos ali tínhamos estado, nas festas do 24 de Setembro, festas patronais, que acolhe uma importante romaria -  uma das poucas recriações na Galiza das batalhas entre mouros e cristãos - o denominado “ataque” -, representado no Campo do Castelo, declarada Festa de Interesse Turístico.

 

Mas, naquela altura não fui ver a célebre «CARVALLA».  Nem dela se falou e onde habitava.

 

O amigo Pablo levou-nos lá.

11a.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (12)

A «Carvalla da Rocha» ou também chamada «Carvalla da Saínza» está situada na Freguesia de Rairiz de Veiga (San Xoán), lugar de  A Saínza de Arriba. [Coordenadas:42º 04' 19.3" N - 7º 49' 51.7" W].

13.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (23)

 A Saínza, pertence à comarca de A Limia (Ourense).

 

A «Carvalla da Rocha» foi declarada monumento natural pelo Decreto 45/2007.

2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (105)

É uma árvores da espécie Quercus robur L.

14.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (36)

É um elemento da natureza constituído por uma formação arbórea de notória singularidade e beleza que merece, por isso, ser objeto de uma proteção especial, reunindo especial interesse científico, cultural e paisagístico. Trata-se de uma das árvores mais esplêndidas integrada num  mosaico constituído por prados, sebes e carvalhos mais novos,

15.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (68)

com grande valor florístico – veja-se que, à sombra dos carvalhos, abrigam-se azevinhos.

 

É pertença de particulares.

16.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (92)

Diz-se que é uma árvores «linde», ao estabelecer o limite – ser marco - dos terrenos de três proprietários, outrora desavindos, quanto aos limites dos seus terrenos.

 

Apresenta um fuste impressionante com um perímetro que vai de 1, 30 m a 6, 9 m. Aos 7 m.

17.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (99)

bifurca-se em dois galhos (hastes) de grandes dimensões até alcançar a excecional altura de 33 metros.

18.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (21)

Além do seu interesse botânico, a árvore de A Saínza possui um notável valor cultural. As suas raízes fundem-se na história onde está plantada,

19.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (78)

perto da capela da Virgem das Mercês, e em memória das pessoas do lugar.

 

Foi uma tarde bem passada na companhia do amigo Pablo.

 

E ainda se tem dúvidas que estamos em terras celtas, possuidores de verdadeiro sangue celta?...

 

Mas, em bom abono da verdade, os nossos irmãos galegos são mais devotos destas árvores autóctones do que nós portugueses, transmontanos…

20.- 2019.- A Carvalla da Saínza (ou da Rocha) (83)

A «CARVALLA DA ROCHA» - A SAÍNZA-RAIRIZ DE VEIGA (OURENSE-GALIZA)

 

Reino Maravilhoso - Vale Abraão - um romance, um filme, uma história tendo como protagonista o Douro

 

 

REINO MARAVILHOSO - DOURO

 

VALE ABRAÃO

 

UM ROMANCE, UM FILME, UMA HISTÓRIA TENDO COMO PROTAGONISTA O DOURO

 

 

Vale Abraão parte da adaptação ao cinema da obra homónima de Agustina Bessa-Luís,

por sua vez um exercício literário inspirado na "Madame Bovary" de Flaubert,

que Manoel de Oliveira transforma num filme deslumbrante e portentoso.

De novo envolvido com o universo literário de Agustina e, sobretudo,

mais uma vez construindo uma história de amores frustrados,

tema dominante em toda a sua obra, Oliveira assina uma obra

de uma beleza plástica fulgurante, de uma espantosa sensibilidade poética e,

ao mesmo tempo, de uma subtil e ácida ironia.

Narrando de forma absolutamente irresistível a trajetória amorosa de uma bela mulher,

 vítima dos seus incongruentes desejos e paixões, Vale Abraão é, sem dúvida,

o filme mais ambicioso, deslumbrante e admirável do mestre Oliveira,

onde Leonor Silveira, a sua atriz emblemática, é simplesmente portentosa,

à cabeça de um grande elenco que conta com Luís Miguel Cintra, Rui de Carvalho,

Diogo Dória e João Perry. "Vale Abraão" é um dos mais importantes filmes

de toda a História do cinema português, que muito justamente os

"Cahiérs du Cinéma" consideraram como "um dos mais belos filmes do Mundo".

 

Fonte:- https://www.rtp.pt/programa/tv/p4555, acessado a 10 de novembro 2019)

 

 

00.-NOC4437

Somos verdadeiro amante da obra ficcional de Agustina Bessa-Luís e da fílmica, de Manoel de Oliveira.

 

Logo após a morte de Manoel de Oliveira, ocorrida a 2 de abril de 2015, tínhamos como projeto a elaboração de um post sobre a sua obra, em especial «Vale Abraão», rodada em pleno coração do Douro, sendo, talvez por esta circunstância, a que mais nos toca.

 

Por isso, em 2016, sendo amante da fotografia, procurámos averiguar e captar os locais que serviram de cenário às diferentes «ações» deste filme.

 

Circunstâncias várias não permitiram que, naquela ocasião, o post fosse editado.

 

No ano em que faleceu (3 de junho de 2019) a autora da obra literária «Vale Abraão», obra essa encomendada por Manoel de Oliveira à sua grande amiga para o orientar no guião do filme que também levou o mesmo nome, não podíamos deixar, finalmente, de publicar esse post.

 

São muitos e variados os autores que falam nestas duas verdadeiras obras de arte, desde artigos, entrevistas e até dissertações académicas.

 

Pela nossa parte, «apegámo-nos» a dois textos, cujos excertos aqui vamos deixar à leitura e consideração crítica dos nossos(as) leitores(as).

 

I

 

As incertezas do tempo

 

O primeiro é de Marco Livramento - «Vale Abraão: entre as incertezas dos tempos», que saiu na revista eletrônica de crítica e teoria de literaturas - Nau Literária. Dossiê: o romance português e o mundo contemporâneo PPG-LET-UFRGS – Porto Alegre – Vol. 05 N. 02 – jul/dez 2009.

 

Atentemo-nos no que este autor nos diz:

“O enredo que dá forma ao filme de Manoel de Oliveira em pouco difere daquele que constitui o romance de Agustina Bessa-Luís. [O que se torna compreensível, uma vez que a obra foi «encomendada» por Manoel de Oliveira para o seu filme homónimo]. Em ambos temos uma figura feminina central, Ema, cuja evolução psicológica constitui a linha orientadora do desenrolar da ação, possuindo ela uma beleza invulgar e ao mesmo tempo ameaçadora. Sem amor, casou com Carlos Paiva, médico incompetente e viúvo tristonho. Tiveram duas (e um filho, isto no romance) filhas, Lolota e Luisona, e não foram felizes.

É em torno do casal, com especial destaque para o seu elemento feminino, ou não fosse esta a predileção tanto de Agustina como de Manoel de Oliveira, que giram as outras personagens do enredo, estabelecendo sempre uma relação antitética entre o homem e a  mulher, por sinal ‘muito difíceis de harmonizar’, e que medem forças, querendo, cada um, sair daí vencedor.   A Tia Augusta, as criadas, a Maria Semblano. Quase todas elas apresentam uma  perversão que as corrompe e que as leva a viver uma submissão hipócrita e fingida, por vezes  agressiva e desregrada, cujo exemplo poderá ser a própria Ema. Só Simona era diferente:  obedecia e permanecia em silêncio.

Em redor desta constelação feminina gravitam, muitas vezes isolados, os homens: o  pai, Paulino Cardeano; o próprio Carlos, um ‘pobre homem’; Pedro Dossém e Pedro  Lumiares, confidentes de Ema; Fernando Osório, o grande amante; Nelson, o primeiro ‘poeta’  da ‘Bovarinha’; Fortunado, o jovem quase-mulher que foi seu amante; Caires, o mordomo  que quis passar a senhor; Semblano, um homem com muitas semelhanças com Ema, no que toca ao comportamento. 

Unem-se na mediocridade e no egoísmo. Passam de página para página do romance, andam para a frente e a para trás, ao sabor da intenção da autora; ou, seguindo a hierarquia temporal do passado, presente e futuro, imposta por Oliveira, ocupam o seu espaço no filme. 

 

(…)

 

“Diz-nos a própria Agustina, numa entrevista dada ao jornal Público, em relação ao espaço de Vale Abraão: ‘Ele [Manoel de Oliveira] queria situá-la [Ema, a bovarinha  portuguesa] no Porto, mas achei que era mais difícil. Porque na vida citadina atual é  inverosímil encontrar uma figura dessas, enquanto na nossa província ainda aguentava. Hoje  já não sei. Ele aceitou bem a minha sugestão’.

Se o romance se inicia com uma explicação da toponímia, o filme não é muito  diferente, porém, desta feita com imagens do rio que separa as margens e as vidas: ‘É o Vale  Abraão, com suas quintas e lugares de sombra que parecem acentuar a memória dum trânsito mourisco que de Granada trazia as mercadorias do Oriente (...)’, servindo de guarida a Carlos Paiva.

Associado que está à presença moçárabe na região, o vale transformar-se-ia, pela lenda, num lugar de reputação duvidosa, em parte pelo comportamento condenável de Abraão de Paiva: 

 

No Vale Abraão, lugar dum homem chamado inutilmente à consciência do seu orgulho, da vergonha, da cólera, passavam-se coisas que pertenciam ao mundo dos sonhos, o mundo mais hipócrita que há. O patriarca Abraão tinha um costume arcaico: o de usar a beleza da mulher, Sara, como solução das suas dificuldades. Para isso intitulava-a sua irmã, o que lhe deixava caminho para o desejo dos outros homens”.

 

Estas são as palavras iniciais, em voz off, o narrador, com que o filme começa, enquanto, com o rio, ouvimos o som de um comboio chiando pelos carris, percorrendo a paisagem tipicamente duriense.

 

“O trágico que poderá vir a acontecer vai sendo sugerido ao longo do texto, para que no final não fiquemos surpreendidos com morte da heroína nem tenhamos qualquer dificuldade em lidar com a morte do próprio Carlos. Ele não sobrevivia sem uma figura feminina que o suportasse, que o ajudasse a manter-se de pé. 

Note-se que poderemos até dizer que este romance de Agustina Bessa-Luís tem o seu quinhão de social, já que motivos como a incompatibilidade entre homens e mulheres, (…) e a presença de uma burguesia rural absurda e falida salpicam uma região cujas casas e grandes propriedades caem em ruínas a cada fracasso da colheita que se lhes soma.

Podemos até duvidar se cenários como este existem num Portugal coevo da publicação do livro e até do filme. Mas se dúvidas pudessem existir, é o narrador omnisciente que as vem esclarecer, opinando sobre o comportamento de Ema: ‘Dirão os leitores que uma mulher como Ema não existe. Eu direi que sim’.

Repare-se que este não é um narrador qualquer, é, sim, um narrador que cita as palavras das personagens, confundindo-as com as suas, penetra-lhes nos pensamentos, ou não fosse tão comum e frequente o uso do discurso indireto livre ou do mimetismo do discurso direto, em diálogos que ostentam um artificialismo socrático bastante evidente.

Tanto a história do romance como a do filme estão imbuídas de um erotismo sagaz e quase diabólico, que, de resto, era o que se poderia esperar de uma senhora como Ema. Para a autora do romance, as mulheres são seres muito poderosos, com quem se deve ter todo o cuidado. Essa mesma opinião, atribui-a à tia Augusta: 

 

Tia Augusta disse que as mulheres não liam livros. Não era coisa que lhes interessasse, e isto não as diminuía em nada. Eram muito poderosas mesmo sem ler o Amadis de Gaula e o Rolando Furioso que, no entanto, amavam senhoras sem letras e sem latim nenhum.

 (…)

Apesar da proteção do pai e das criadas, Ema não podia escapar ao insucesso, pois ‘uma mulher ao ser engendrada no ventre da mãe, está já marcada para o insucesso’. O casamento com Carlos Paiva não foi feliz, acabando ela por se refugiar nos braços dos amantes que lhe satisfaziam os desejos carnais e pouco mais do que isso. E era com hora marcada, qual expediente de trabalho, que ela se encontrava com os ditos. Nada de extraordinário acontecia.

Mas nesta história, tudo tem a sua razão de ser e de existir. Nada surge ao acaso. As complexas relações de causalidade entre o passado e o presente, e entre este e o futuro, apenas dão vazão ao determinismo que marca muitas das figuras do romance (em primeiro lugar) e do filme (logo depois e por consequência, digamos), com particular destaque para Ema:

‘Nada do que me possa acontecer me modifica, porque eu já esperava’.  Os passos dados em falso por esta personagem haviam de lhe sair caros. Foi no Baile das Jacas que começou a deslizar pela falésia do fim, acabando afogada na água de um rio que, desde miúda, se habituou a olhar pelo binóculo, depois de outro passo em falso dado nas tábuas de um pontão que o tempo foi apodrecendo. Fatalidade? Destino? Suicídio? Talvez, tudo é possível nesta história. 

Tudo gira, pois, em torno de uma mal casada (e mal-amada, por sinal) que vivia na obsessão de alcançar algo, servindo-se dos outros para ‘resolver a sua angústia de querer possuir, querer ser, querer valer’ que a sua dupla personalidade lhe causava.

Enquanto isso, Carlos, seu marido, que ‘passava por santo ou, pelo menos, pelo cornudo mais simpático e prestável que era possível conceber’, ia vivendo os restos de uma vida inóspita e infeliz.

A nós, leitores e espectadores, cabe-nos a tarefa de encontrarmos o fio condutor desta história, e ir de o ir ligando às pontas soltas que nos surgem pelo caminho. Dando dois passos em frente e um atrás, seguimos a um ritmo lento, na ânsia de tudo assimilarmos, atribuindo parentescos, firmando uma rede de relações proximais que são a chave de todo o enigma narrativo e que nos reenviam para um tempo ancestral, onde o abismo do passado molda comportamentos. Temos, pois, Agustina Bessa-Luís e Manoel de Oliveira numa simbiose programada e perfeita”. 

 

É no cenário vinhateiro do Douro, entre o Romesal (Aris, Godim), onde se localiza a casa de Paulino Cardeano, pai de Ema, o Vale Abraão (Quinta e Paço de Monsul), onde se localiza a casa de Carlos Paiva, marido de Ema, o Vale Abraão (hoje Six Senses) propriamente dito, e no romance e filme, a Quinta e Casa da Caverneira, do casal Semblano, da Casa das Jacas (Quinta da Pacheca), de Pedro Lumiares e Simona e o Vesúvio, por vezes  apresentados ao leitor com um tom marcadamente disfórico, claustrofóbico e provinciano,  que as personagens se movimentam. 

 

II

 

Os principais cenários do filme

 

Apresentemos estes lugares-cenário:

 

A.- Romesal

 

Romesal é um lugar fictício na obra de Agustina, que não o lugar de Romesal da freguesia de Loureiro, concelho do Peso da Régua. Já para Manoel de Oliveira, no seu filme, o Romesal é Aris, lugar da freguesia de Godim, Peso da Régua. Vejamos o entorno do Romesal do filme de Manoel de Oliveira.

01.- 2016 - Douro III - Aris-Casa Paulino Cardeano (5)

Nem deste Romesal, nem do ficcionada de Agustina, não se avista o rio Douro, nem tão pouco no aqui tratado Vale de Abraão. Para se o avistar, há que andar uma boa centena de metros por este caminho.

02.- 2016 - Douro III - Aris-Casa Paulino Cardeano (6)

A casa do filme de Manoel de Oliveira, do Paulino Cardeano, é esta,

03.- 2016 - Douro III - Aris-Casa Paulino Cardeano (4)

vista, ao longe, do já aludido caminho vicinal e vista de perto,

04.- 2016 - Douro III - Aris-Casa Paulino Cardeano (3)

com este portão de entrada – que só em momentos solenes se abria -  e

05.- 2016 - Douro III - Aris-Casa Paulino Cardeano (2)

esta perspetiva lateral.

06.- 2016 - Douro III - Aris-Casa Paulino Cardeano (1)

Do lado esquerdo da casa do Paulino Cardeano, a célebre varanda, onde Ema se exibia, provocando, com a sua beleza «provocatória», para quem ali passava, acidentes de viação no local. 

07.- 2016 - Douro III - Aris-Casa Paulino Cardeano (7)

Do lado direito, contíguo a um caminho público ou rampa, ficava uma casa pertença de Agustina Bessa-Luís, hoje já vendida a um empreiteiro da zona. Não sabemos se a contiguidade ou vizinhança da casa de Agustina Bessa-Luís ditou a escolha fílmica da casa do Paulino Cardeano por parte de Manoel de Oliveira.

 

B.- Solar do Viso

 

Estavamos a acabar este capítulo do post e, inopinadamente, lembrámo-nos que um dos cenários do filme não estava aqui a ser comtemplado. A razão de tal esquecimento também se justificava - apenas aparece uma vez no filme, ao longo daquelas sequencias todas de cenários e «ações».

 

Assim, numa tarde chuvosa deste mês de novembro porque passamos, dirigimo-nos até aquele local para obtermos algumas imagens para constarem «neste escrito» para memória futura.

 

É a Casa das irmãs Melos, que passavam o inverno em Cascais e que, no verão, vinham dar «saltadela» ao seu solar - o do Viso - ao Douro. Foi naquele salão nobre, enorme, com duas figuras estáticas, sentadas, numa das pontas do salão, amedrontando a adolescente Ema, que se apresentava a uma das famílias da sociedade nobre/burguesa duriense.

 

Temos gratas recordações desta Casa, palco de um evento importante da nossa vida. E a ideia que tínhamos do salão, onde Ema foi recebida pelas irmãs Melos,  era mais acolhedora, como esta,

04.- hotel-pousada-solar-da-rede-mesao-frio-zonasnobles-cdb30 (1)

e não o frio salão, que o filme nos mostra, e em que Ema foi recebida, embora ricamente ornado com belos azulejos, bons móveis e belas tapeçarias.

 

Trata-se do atual Solar da Rede,  sito no concelho de Mesão Frio, em pleno Baixo Corgo.

2019.- Solar da Rede (4)

De uma casa de família e depois transformada numa Pousada de luxo, de alto gabarito, possuidora de um importante brasão na sua frontaria principal,

2019.- Solar da Rede (7)

encerra em 2012.

 

Hoje em dia, encontra-se praticamente abandonada, sem «inquilinos», quer de natureza familiar ou turística.

2019.- Solar da Rede (11)

Repare-se no tanque na fachada principal, com bidons de água e barricas com azeitonas, recém-apanhadas, à face de uma construção em bonito estilo barroco, como mostra os pilares do portão da entrada para a Casa e seu logradouro,

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bem assim o pormenor de um dos seus pilares, trabalhado primorosamente.

2019.- Solar da Rede (16)

Do lagradouro da Casa, à nossa esquerda, vislumbra-se este magnífico panorâma, tendo como pano de fundo o rio Douro.

2019.- Solar da Rede (21)

E, do seu lado direito, idêntica e maravilhosa paisagem,

2019.- Solar da Rede (20)

com o omnipresente Douro e os seus infindáveis jardins em socalcos, repletos de vinhedos.

 

C.- Vale Abraão

 

O Vale Abraão, casa de Carlos Paiva, o marido de Ema, situa-se do outro lado do rio, já no concelho de Lamego, na designada Quinta e Paço de Monsul.

 

Fomos visitar o lugar, entrando por um portal não muito largo, mas que dá bem acesso a uma viatura, deslocando-nos por entre um bonito vinhedo, em que não faltam ruas com nomes próprios.

 

Vejamos uma perspetiva do nosso percurso para chegarmos à casa Vale Abraão.

08.- Paço de Monsul (29a)

A meio da subida para a casa, uma alameda de palmeiras.

09.- Paço de Monsul (30)

Vejamo-la, uma vez percorrida, já no cimo.

10.- Paço de Monsul (33)

Reparemos mais em pormenor.

11.- Paço de Monsul (42)

Observemos, dos arredores da casa de Carlos Paiva – o Paço de Monsul – o entorno, com os socalcos de vinhedo, as aldeias e as casas à sua volta.

12.- Paço de Monsul (42a)

(Perspetiva I)

13.- Paço de Monsul (43)

(Perspetiva II - com a silhueta dos prédios mais altos da cidade da Régua por detrás e a encosta de Loureiro)

14.- Paço de Monsul (44)

(Perspetiva III -  território próximo, de Lamego, e mais longínquo, da Régua, separados pelo rio Douro, que não se vê)

15.- Paço de Monsul (46)

(Perspetiva IV)

16.- Paço de Monsul (49)

(Perspetiva V)

17.- Paço de Monsul (45)

(Perspetiva VI – confinante com o Paço de Monsul, a Casa da Azenha)

18.- Paço de Monsul (29)

(Perspetiva VII)

19.- Paço de Monsul (47)

(Perspetiva VIII – já dentro da Quinta e da Casa de Monsul ou , no filme, Vale Abraão, casa de Carlos)

Ao atravessarmos o portão que dá acesso ao logradouro do Paço, à nossa esquerda, a capela, que foi palco do casamento de Carlos Paiva e Ema.

20.- Paço de Monsul (28)

A caseira, que nos facultou a entrada ao logradouro da casa, teve a amabilidade de nos mostrar o interior desta seiscentista capela.

21.- Paço de Monsul (28c)

(Perspetiva I)

22.- Paço de Monsul

(Perspetiva II)

Mal entrámos ao logradouro, o que mais se destaca é este tanque.

23.- Paço de Monsul (9d)

Num outro, de cimento e ao lado, tanto a Ritinha lavou!

 

E no tanque, este antigo fontenário.

24.- Paço de Monsul (8)

Veja-se agora o logradouro, do lado oposto à entrada,

25.- Paço de Monsul (7a)

o portal de acesso para o laranjal e horta,

26.- Paço de Monsul (10a)

um aspeto do lado lateral da casa

27.- Paço de Monsul (12b)

e outro das traseiras.

28.- Paço de Monsul (48)

E, finalmente, o exterior da casa.

29.- Paço de Monsul (9f)

 

D.-  A Quinta e Casa da Caverneira, dos Semblamos  - hoje Six Senses – o antigo Vale Abraão

 

A antiga Casa e Quinta «Vale Abraão», agora uma unidade hoteleira com renome internacional: de Casa e Quinta Vale Abraão, a Aquanatura e, agora, Six Senses, era dos Semblamos, onde imperava a figura de Maria (Loreto) Semblano.

 

São poucas as «ações» do filme que ali se desenrolaram, mesmo assim, apresentam-se algumas perspetivas exteriores desta hoje unidade hoteleira de requinte e renome.

30.- NOC1225

(Perspetiva I)

31.- NOC1231

(Perspetiva II)

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(Perspetiva III)

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(Perspetiva IV – vista do cimo da propriedade, tendo como pano de fundo o rio Douro e a cidade da Régua)

34.- NOC1162

(Perspetiva V – tendo à frente o rio Douro e, na margem direita, a linha de Caminho de Ferro do Douro)

35.- Paço de Monsul (5)

(Perspetiva VI – vista da margem direita, de quem desce Cederma, vindo de Fontelas)

 

E.- Casa das Jacas

 

É a casa de Pedro Lumiares e de Simona, onde acontece o evento que dá pelo nome de Baile das Jacas.

 

O cenário passa-se, nada mais nada menos do que na atual Casa e Quinta da Pacheca. Começamos por vê-la à noite, com o seu logradouro servindo de estacionamento para carros da época 90 do século passado.

35a.- 2019.- Anos Angélica (Quinta da Pacheca) (21)

De dia, é assim.

36.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (83)

(Perspetiva I)

37.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (85)

(Perspetiva II)

38.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (107)

(Um pormenor de uma janela da casa)

39.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (103)

(Uma outra dependência)

Foi nesta casa, como dependência principal que a maior parte dos diálogos («filosóficos» e existenciais) entre Lumiares e Ema se deram.

 

Por uma questão de curiosidade – passe embora a propaganda – mostra-se perspetivas da atual receção.

40.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (109)

Do restaurante,

41.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (118)

um pormenor das escadas de acesso ao restaurante,

42.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (111)

o hall de acesso ao restaurante e à e zona de alojamento,

43.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (114)

com mais um pormenor, no fim do seu corredor.

44.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (119)

Existem hoje, como zona de alojamento, no vinhedo contíguo à casa, as célebres pipas.

44a.- 2019.- Anos Angélica (Quinta da Pacheca) (3)

E, como se trata de uma quinta, onde se produz vinho, do fino e do consumo, não pode, naturalmente, faltar o armazém com os seu tonéis.

45.- 2018.- Douro (Isaura+Lurdes) (82)

Numa época em que o turismo impera por toda a região do Alto Douro Vinhateiro, este mesmo armazém é palco de eventos, essencialmente de natureza gastronómica.

45a.- 2019.- Anos Angélica (Quinta da Pacheca) (17)

 

F.- Vesúvio

 

Apresentemos agora um dos lugares mais emblemáticos do Douro, da ficção agostiniana e do filme.

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Por ser o palco, lugar da maior parte dos encontros amorosos de Ema, primeiro, com Fernando Osório, dono do Vesúvio

47.- DSCF3683

e tetraneto da Senhora,

47a. Antónia_Adelaide_Ferreira_1

(Fonte:- https://de.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nia_Ferreira)

depois de Fortunato, sobrinho de Caires, o mordomo, o verdadeiro gestor da Casa,

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a quem Ema não lhe era indiferente, tornando-se-lhe objeto de cobiça sensual e erótica por todas as dependências da Casa por onde passava e estava.

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Em prolongada projeção, desde o lado da Senhora da Ribeira, do outro lado do rio,

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a silhueta da Casa, com a sua capela,

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Impõem-se imponentemente na paisagem,

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qual vulcão, fértil de uvas e despertador dos mais profundos sentimentos e prazeres.

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Mas o Vesúvio, com o seu rio de águas profundas,

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ao mesmo tempo que representa a natureza e os sentimentos humanos no seu estado mais puro, foi, por sua vez, o palco final de um ser humano à procura de si mesmo, e que nunca se encontrou.

 

Foi o seu ocaso.

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III

 

 

A busca do absoluto no filme Vale Abraão, de Manoel de Oliveira

 

Diz-nos a Mestre Célia Maria Sousa Lopes na sua dissertação «O Bovarismo ou a busca do absoluto no filme Vale Abraão de Manoel de Oliveira», em dezembro de 2010:

“A busca do absoluto em Vale Abraão não é senão o ‘estado de alma em balouço’ com que a própria Ema se define. Se o bovarismo se caracteriza pelo desejo de se querer ser outra coisa que não se é e se as Emmas Bovary, nas adaptações em análise, sonhavam com amor e beleza, meios de aceder a uma plenitude, esta Ema tem, desde logo, esse acesso vedado. Primeiro, marcada pelo defeito físico que vai corromper a sua beleza e vai condicionar todo o seu comportamento; depois, o desejo de amor confundido com a multiplicação de amantes. Esse desejo de se identificar com um outro, característica universal, é inerente à condição humana. O bovarismo não é senão o mal da civilização, a fragmentação do ser humano, a sua permanente insatisfação em busca da felicidade infinita, que o faz balançar constantemente entre o que é e o que quer ser, entre realidade e sonho. Impossibilitada de atingir o absoluto, pela beleza e pelo amor, Ema é uma mulher repleta de contradições, numa sociedade conservadora e decadente, admiradora do ‘desordenado e atrevido’. No seu ‘estado de alma em balouço’ está sempre pronta para voar mais alto, como indicam os planos da mosca e da estátua de Canova, dois objetos com asas que são explícitos do seu desejo de voar. Para Ema, ‘o desejo de se querer ser outra coisa’ será o desejo de querer ser o outro sexo, recusando a submissão à sociedade patriarcal, assumindo o comportamento de uma mulher mais liberal, por vezes de mulher-fatal e gradualmente adotando um comportamento masculinizado, o que a aproxima de um ser andrógino.(…) Ema é marcada desde a infância por uma deformidade, uma mutilação, que a faz balançar, primeiro fisicamente, transformando-se depois em desequilíbrio e fragmentação mais de pendor psicológico, confrontada numa divisão entre ser e parecer. Quando ela define a rosa ao vento, que é e deixa de ser, para ser mais qualquer coisa, a rosa não consegue ser esse terceiro elemento, essa mais qualquer coisa e, tal como a rosa, Ema também não consegue, por isso só lhe resta a morte, constituindo esta definição da rosa a síntese do filme:

 

Tão breve imagem da flor na sua haste, tocada pelo vento, e prestes a deixar cair as suas folhas. Porquê a rosa? Se em contacto com o vento ela deixa de ser rosa. Mas no balouçar já é, e logo deixa de o ser

 

Naquele contexto social, ‘ancorada’ no Vale Abraão – enigmático e repleto de secretismos e de cumplicidades - incompreendida e inadaptada, Ema vai assumir uma postura teatral, vai dissimular. À medida que se vai movimentando nos lugares das casas labirínticas e algo sinistras e se vai aproximando do universo masculino, Ema vai ganhando maior determinação. A distância e a desconfiança com que é olhada e com que olha os que a rodeiam são o resultado de uma beleza que atrai mas marginaliza, é perturbadora e é uma ameaça. O seu comportamento de «Bovarinha» e de figura andrógina contribuem para acentuar a sua marginalização e isolamento. Embora se verifique uma maior hostilidade no seu relacionamento com as mulheres, é com alguns elementos do universo feminino que Ema procura a identificação, nomeadamente com a Senhora do Vesúvio, com a Ritinha e com a própria mãe, mas serão modelos inalcançáveis. Os homens são demasiado fugazes, desaparecem rapidamente; as mulheres permanecem, até as ausentes, pelos retratos. E, de facto, no final são as mulheres que saem vitoriosas, que atingem o absoluto, cada uma à sua maneira: Maria Semblano pela dissimulação constante, pelo jogo social, o que a leva a dizer ‘ninguém imita melhor do que eu uma bela vida’; Ritinha, pela servidão, pela entrega total ao outro, para servir o outro e Ema pela morte. Na conceção conservadora da mulher – tanto da escritora como do cineasta – Ema só poderia ter este caminho: não quer ser nem boa filha, nem boa dona de casa, nem boa esposa, nem boa mãe, então só pode ser uma ‘vadia’ e ter um fim trágico. Para o Lumiares de Agustina Bessa-Luís: ‘Ema era uma pessoa comum em busca de situações incomuns, o que podia produzir uma bela tragédia’. A escritora reforça ainda a pouca importância de Ema, o seu vazio: ‘Condenada pela sua insignificância. Não era só pobretona, aleijada, mal vestida mas era sobretudo marcada pela insuficiência do desejo’.

 

Ritinha surge, assim, como uma figura chave no filme, pois ela é o absoluto. Ela é a mulher perfeita que sabe tudo como um deus, ‘o conhecimento entra-lhe pelos olhos’. Todas são personagens insatisfeitas e, por isso, em movimento (movimento hegeliano), com exceção de Ritinha, que é deus e sabe tudo, é o estado perfeito, é capaz de negar-se, optando pela virgindade por uma questão quase metafísica e não moral. Ela não precisa de ninguém, transcende isso tudo, não precisa do encontro com o homem, com a outra metade, para se realizar. A importância de Ritinha explica o facto de Manoel de Oliveira a ter poupado à morte, sobrevive à sua patroa, o que não se verifica na história de Agustina.  Em oposição à personagem Ritinha, temos Narciso, o jovem Semblano, apaixonado por si próprio, tal como sugere o seu nome. Caires, também uma personagem em movimento na passagem de homem pobre para homem rico, na tentativa vã de conquistar Ema, representa o lado negativo destas personagens, pois ajoelha-se perante ela. Caires transforma-se no oposto de tudo isto. (…)

 

 A procura do belo, do novo, como meio de acesso ao absoluto. Pela beleza da obra que cria, o artista aproxima-se de Deus, atinge uma transcendência. No entanto, Oliveira ironiza com a escrita de Maria Semblano. Quando esta está em confidências com Carlos e lhe revela que ‘escrever é dar expressão à vida e à sociedade em que vivemos’, o racord utilizado para passar para a cena seguinte - as confidências de Ema a Lumiares - é um plano aproximado do livro Le poète assassiné, de Appollinaire, o que deixa transparecer uma crítica à promissora escritora. A falta de identidade fixa contribui para uma identidade andrógina. A ambiguidade e a intromissão entre os géneros, observáveis desde a génese com Flaubert, são acentuadas pela reescrita de Agustina Bessa-Luís e pela transposição de Manoel de Oliveira. O cineasta sublinha a temática da androginia em diálogos explícitos sobre o assunto e nas caraterísticas e atitudes das personagens. Há também um conjunto de elementos ambivalentes, que remetem para uma dualidade e até uma triplicidade e que reforçam as marcas andróginas deste contexto.

 

Sendo os andróginos identificados como filhos da Lua, Ema é um ser lunar por excelência, cambaleando, ao ritmo dos “Clair de Lune”. E este balouçar é a marca da sua imperfeição, da sua insatisfação e dualidade: é e não é; quer e não quer, hesita entre o ser e o parecer (…) O seu final deixa transparecer que a libertação dos costumes não é saída e que, naquele contexto social, os sentimentos se identificam mais com mecanismos de poder e influências sociais. O amor era um tráfico e quando Ema é tratada como mercadoria pelo mordomo Caires que, após enriquecer no estrangeiro, a quer comprar, Ema descobre que não vai conseguir escapar aos códigos sociais vigentes, que a única saída para se libertar daquele contexto opressor é a morte. Na sua crise de identidade, Ema procura os mesmos gestos de Ritinha, quando lava o chão no Vesúvio, pretendendo talvez atingir o mesmo estado da sua criada – o absoluto – mas é um absoluto que implica entrega total ao outro, que implica a anulação, a submissão e Ema era uma personagem demasiado venerada, demasiado central para se submeter a essa anulação. A constante recusa de aproximação à Bovary, poderia eventualmente ter permitido a Ema uma outra saída para a sua condição, como sugere Jean Baptiste Renault:

À sa façon, le film reflète ainsi le questionnement d‟Ema, cherche comme elle à établir une filiation critique : Val Abraham exprimerait cette lutte entre la répétition d‟un drame – la fatalité d‟une condition, le drame d‟Ema qui peut toujours se rejouer – et la possibilité d‟une issue, le rêve d‟une émancipation – réécrire sa vie.

Ema conhecia o drama da Bovary, não se identificava com ele, mas fatalmente terminou como ela. No entanto, há uma diferença considerável nos dois finais. Ema Paiva não comete suicídio num gesto desesperado e tresloucado. Há nela uma tranquilidade perturbadora, de tão encantadora, no travelling final qua

Memórias de um andarilho - Pequena caminhada entre Carva-Asnela-Carva (Concelho de Murça)

 

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

PEQUENA CAMINHADA ENTRE CARVA-ASNELA-CARVA

 

(INDO AO ENCONTRO DE LUGARES DE MEMÓRIA, AFETOS E… TRISTEZA!)

 

 

01.- 2019.- Carva-Asnela-Carva (134)

Este ano foi, para nós, parco em saídas e caminhadas pela Natureza. Apenas pequenas passeatas, de pouca monta, e uma repetição do Caminho de Santiago – o Epílogo. Circunstâncias, que não vêm aqui ao caso, impediram-nos de fazermos aquilo que mais gostamos: caminhar, apreciar a Natureza e captar todos os momentos do caminhar com a nossa objetiva.

 

Com Florens, o nosso inseparável companheiro nestas lides, aconteceu o mesmo. Possivelmente pelas mesmas circunstâncias, pelo seu horário laboral, bem assim outras contrariedades em que a vida, às vezes, nos prega e sacode.

 

Mas Florens, mais que nós, é um inveterado amante da Natureza. Por ele, vivia, tal qualmente, em pleno monte ou floresta, usando simplesmente uma simples e cómoda cabana. Aí, julgamos, é que se sente feliz, quiçá, realizado

 

No mês passado, juntamente com o seu amigo Achim, convidou-nos para visitarmos uma aldeia, lugar cheio de memórias familiares e rica em afetos – Carva, aldeia do concelho de Murça.

 

E desafiou-nos para, percorrendo menos de 4 Km, irmos visitar uma outra aldeia, pertencente à mesma freguesia de Vilares – Asnela, uma localidade prestes a ficar sem gente.

 

Iniciámos o caminho e nele nos cruzámos com um pequeno rebanho de ovelhas. Aqui fica uma delas.

2019.- Carva-Asnela-Carva (1)

Apreciámos as macieiras de montanha, carregadas de fruto

2019.- Carva-Asnela-Carva (6)

e, saindo da aldeia, embrenhámo-nos pelo campo dentro.

 

Ora aqui nos aparece um pequeno castanheiro isolado;

2019.- Carva-Asnela-Carva (7)

Ao, mais na linha do horizonte, em verdadeiro esplendor, as árvores exibindo as suas cores outonais.

2019.- Carva-Asnela-Carva (9)

Fizemos uma pequena pausa num souto da família cujas pragas não o deixam medrar.

2019.- Carva-Asnela-Carva (13)

Vingam, contudo, nesta época do ano, os cogumelos, de todas as espécies, como este boleto.

2019.- Carva-Asnela-Carva (17)

e este, já velho, – o cantarelos (Cantharellus cibarius) ou frade ou gasalho (Macrolepiota procera)?

2019.- Carva-Asnela-Carva (18)

Saindo do jovem souto, e voltando ao caminho, ao longe, vislumbrámos o carvalhal (Quercus rubra), a joia da coroa de Florens.

2019.- Carva-Asnela-Carva (22)

Desviámo-nos do caminho para, mais in loco, o conhecer

2019.- Carva-Asnela-Carva (27)

e percorrer,

2019.- Carva-Asnela-Carva (30)

apreciando-o melhor.

2019.- Carva-Asnela-Carva (33)

No seu chão, no seu manto de folhas, a linda – mas traiçoeira – Amanita muscaris.

2019.- Carva-Asnela-Carva (44)

Achim, aqui e ali, vai olhando para trás à procura de mais espécies de cogumelos, enquanto Florens se faz para a fotografia.

2019.- Carva-Asnela-Carva (50)

E, saindo do pequeno bosque de carvalhos, prosseguimos caminho.

2019.- Carva-Asnela-Carva (61)

Lentamente fomos deixando para trás o carvalhal, junto a um riacho, aconchegado pelo pequeno monte que o protege.

2019.- Carva-Asnela-Carva (63)

Começámos agora a subir para Asnela e, por entre giestas, inesperadamente, aparece-nos uma vaca solitária em remansoso sossego e descanso,

2019.- Carva-Asnela-Carva (68)

vendo bem a cena, reparámos que estava acompanhada de mais duas companheiras.

 

Para nós e para Achim, a pequena subida, que começávamos a enfrentar, já requeria outros vagares, enquanto Florens, conversando sobre o tema da sua eleição – as nossas árvores autóctones – vai observando, folgadamente, o nosso esforçado ritmo.

2019.- Carva-Asnela-Carva (70)

Quase no cimo da subida, uma olhadela para trás mostra-nos o vale de Carva e o colorido das árvores em época outonal.

2019.- Carva-Asnela-Carva (76)

Entretanto, Florens, à frente, vai marcando o ritmo, que sabe ter de ser lento, face à companhia de dois septuagenários!

2019.- Carva-Asnela-Carva (77)

Florens, a determinada altura, refere-nos que, há uns anos, poucos, ficou encantado com o carvalhal (Quercus pirenaica) que confina com o caminho que percorríamos, agora um estradão, que há bem pouco o fizeram, por via dos incêndios.

2019.- Carva-Asnela-Carva (79)

Entrámos dentro do carvalhal murado. Impossível penetrar, porque verdadeiramente a monte! Florens ficou desanimado com o que via – o terreno dos seus sonhos, onde gostaria de ali ter uma cabana para habitar, transformado num verdadeiro matagal!

 

Apenas se aproveitou um pequeno lameiro, onde se reconhecia as patadas do javali e todo pejado com flores de crocus (açafrão selvagem).

2019.- Carva-Asnela-Carva (85)

Repare-se nesta singela flor.

2019.- Carva-Asnela-Carva (85a)

Ao fundo do lameiro, dois castanheiros: um, viçoso; outro, desfalecido, quase moribundo pela maldita doença.

2019.- Carva-Asnela-Carva (86)

Chamou-nos a atenção  esta bétula, que não resistimos em lhe captar a sua silhueta.

2019.- Carva-Asnela-Carva (89)

Num último, derradeiro esforço da subida, eis que se nos desponta os telhados do casario de Asnela – que Achim persistia em lhe chamar, na sua pronuncia arrascanhada, em que se denotava a sua língua mãe – o alemão – Asneira.

2019.- Carva-Asnela-Carva (91)

Ultrapassado este castanheiro à beira do caminho,

2019.- Carva-Asnela-Carva (93)

com os ouriços e as suas castanhas bem pequenas,

2019.- Carva-Asnela-Carva (95)

e desfeita a curva, entrávamos na aldeia de Asnela.

2019.- Carva-Asnela-Carva (99)

Dizia, a 4 de dezembro de 2012, o autor do blogue «O Rouxinol de Pomares», quando dá início ao seu post sobre Asnela, aldeia da União de freguesias de Carva e Vilares, do concelho de Murça:

Muitos procuram roteiros turísticos que vêem nas revistas da especialidade, procuram aldeias ou vilas que foram "produzidas" para turista ver, eu também gosto de as ver, geralmente são agradáveis à vista, mas a minha preferência vai para o real, para o Portugal profundo, onde o turista ainda não chegou e para onde o poder politico tarda em olhar. A minha preferência vai para as ruas que me ‘contam’ a estória do esforço humano, e onde os sulcos dos rodados dos carros de bois atestam que em tempos a atividade humana foi intensa...”.

2019.- Carva-Asnela-Carva (99a)

Mais à frente, o autor afirma que “há muito os seus naturais foram procurando melhores condições de vida noutras paragens...mas à chegada à aldeia os cães deram o alerta, e poucos segundos depois estavam perto...perceberam que sou um amigo...”.

 

Mas, connosco, não aconteceu o mesmo!...

2019.- Carva-Asnela-Carva (100)

Positivamente, a única coisa que nos pareceu manter-se viva é natureza. E uma ou outra casa  - não mais de três ou quatro –

2019.- Carva-Asnela-Carva (100a)

(Perspetiva I)

2019.- Carva-Asnela-Carva (100b)

(Perspetiva II)

que, muito possivelmente, postas à venda, foram sendo, ou recuperadas por um impenitente saudosista da terra ou pelos novos ermitas do século XXI.

2019.- Carva-Asnela-Carva (100c)

(Casa I)

2019.- Carva-Asnela-Carva (100d)

(Casa II)

Tudo o resto, é puro abandono. E tudo à venda,

2019.- Carva-Asnela-Carva (100e)

estas autênticas ruínas…

2019.- Carva-Asnela-Carva (101)

(Ruina I)

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(Ruina II)

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(Ruina III)

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Ruina IV)

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(Ruina V)

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(Ruina VI)

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(Ruina VII)

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(Ruina VIII)

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(Ruina IX)

que Achim

2019.- Carva-Asnela-Carva (102)

e Flrorens vão observando e fotografando.

2019.- Carva-Asnela-Carva (115)

Olhando para estas ruínas, há quem teime em vender a preços bem exagerados! Cuidamos nós…

 

Veja-se, nomeadamente, o sítio da web do Idealista. A especulação também chega a estas bandas. Não se pensa em estratégia de desenvolvimento para estes territórios nas periferias da periferia! Nem proprietários, associando-se, nem autarcas, nem o os sucessivos governos. Territórios de baixa intensidade demográfica não dão votos!... Infelizmente.

 

Antes, na verdade, era a agricultura de subsistência que prevalecia.

2019.- Carva-Asnela-Carva (116)

Hoje, e no dia em que no passado mês por lá passámos, apenas vislumbrámos  uma equipa de três operários, recuperando e arranjando uma casa e um habitante e a sua esposa, que teima aqui em fazer vida e viver.

 

Estes dois habitantes pensamos serem os mesmos que, em 23 de novembro de 2017, foram entrevistados pelo jornal Voz de Trás-os-Montes.

 

Vejamos o que o senhor Herculano Rainho diz àquele jornal:

Nestes últimos 30 anos, o despovoamento tem sido cada vez maior. Quando vim para aqui, ainda haviam nove crianças na escola e hoje não há nenhuma”.

 

Diz o senhor Herculano que “escolheu Asnela para passar os dias enquanto reformado, depois de ter estado em Lisboa muitos anos a trabalhar. (…) No entanto, conta-nos que ‘esta realidade não se passa apenas em Asnela, mas também por toda a região transmontana’, pelo que acredita que ‘só vive bem nas aldeias quem tem boas reformas ou uma vida feita, pois para os jovens não há razões para ficar’.

 

Herculano Rainho conseguiu ser um empresário de sucesso, recorrendo aos recursos da aldeia. Teve a seu cargo 40 vacas de leite que lhe permitiram exportar, durante vários anos, leite para a vizinha Espanha. Contudo, com a crise financeira que abalou Portugal e com o agravamento do custo de vida, Herculano foi obrigado a desistir.

 

‘Desisti há sete ou oito anos de exportar leite porque caímos no zero. Não havia maneira de sobreviver com o preço que pagavam pela carne e pelo leite. Por isso, reformei-me e por aqui vivo, ainda que continue a ter gado’, conta-nos.

 

Já Maria Lurdes refere que não se sente isolada nem aborrecida pela falta de mais vizinhos, pois o carro permite com que vá a ‘todo lado’.

 

‘Quando temos bons carros, vamos onde queremos. Vou muitas vezes a Vila Real e ao Porto e quando necessitamos de ir às compras, vamos sem nenhuma dificuldade’.

 

Maria Lurdes, com os seus filhos em Lisboa, revela que não passa muito tempo sozinha porque vai, muitas vezes, para junto deles passar o Natal ou mesmo até o inverno, de forma a fugir do frio. Por vezes, passa também o Natal na Alemanha, onde estão emigrados os filhos (…)”.

 

Mas, para sermos mais precisos, quanto a habitantes, atentemo-nos no que, no dia 27 de novembro do mesmo ano de 2017 - ano de eleições autárquicas -, já se vê, Olímpia Mairos, jornalista da Rádio Renascença, no «País das Freguesias», nos diz:

A aldeia rural de Asnela, situada no coração de Trás-os-Montes, pertence à União de Freguesias de Carva e Vilares, concelho de Murça. Quase toda construída em granito, oferece a quem a visita uma beleza rural estrondosa.

2019.- Carva-Asnela-Carva (117)

Mas a emigração e a imigração encarregaram-se da sua desertificação. Há 50 anos, a aldeia tinha 250 pessoas. Atualmente, são seis os habitantes. O mais novo tem 70 anos e o mais velho 88 anos.

 

Maria de Lurdes tem 72 anos e gosta ‘muito’ da aldeia. ‘Nasci cá, vivi cá… e agora, morrer… não sei onde vou morrer’, diz com um sorriso bem disposto.

 

‘Já fui três vezes à Alemanha e já fui a Lisboa, umas quatro ou cinco vezes’, conta. ‘Já lá estive três meses a viver com o meu marido. O meu marido adoeceu e estivemos lá até que ele melhorou e, depois, viemos embora’.

 

Em Asnela encontramos apenas três ou quatro casas habitadas, com construção recente, no enquadramento das já existentes mas em ruínas.

 

Quantos são? - perguntámos. ‘Quantos somos? Não tem conta! [risos, muitos risos…] Nem tem conta’, repete, ‘quantos somos! No mês de Agosto há aí muita gente. Agora foram governar a vida deles. Mas, depois, no mês de Agosto voltam’.

 

Na pequena aldeia não há padaria, café ou supermercado. Quando precisa de alguma coisa, Maria de Lurdes abastece-se no ‘merceeiro’, que todas as quintas-feiras se desloca a esta povoação ou vai a Murça e traz o que lhe faz falta”. Prática comum a muitas centenas de aldeias por este nosso Trás-os-Montes profundo.

 

O autor de «Fotografias com História», resume-nos o que em Asnela, bem assim por muitas centenas de aldeias deste Portugal profundo e esquecido se passa:

“(…) vive, assim, uma dura realidade causada por diversos fatores, sobretudo pela falta de oportunidade para os mais jovens, levando-os a emigrar desde muito cedo. O envelhecimento, a desertificação e o isolamento são problemas com os quais estas aldeias têm lidado nos últimos anos. De acordo com os Censos Sénior 2017, realizados pela Guarda Nacional Republicana (GNR), quase 5 mil idosos vivem sozinhos na região transmontana e mais de 100 estão completamente isolados”.

 

Demos uma volta à pequena aldeia, com um grande largo, onde, num dos seus lados se encontra a singela capela.

2019.- Carva-Asnela-Carva (119)

Sentámo-nos no parapeito de um dos muros que a limitam, a comermos umas bolachas, a rilhar meia dúzia de castanhas, que fomos encontrando pelo caminho e a hidratarmo-nos e, quando lhe tirámos uma foto, a fazerem momices.

2019.- Carva-Asnela-Carva (119a)

Saímos da capelinha, pela rua de baixo do povo, fomos ao

2019.- Carva-Asnela-Carva (120)

encontro da fonte de mergulho da aldeia,

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Enquanto, numa cortinha ao lado, dois burrinho aguardavam um «carinho» nosso.

2019.- Carva-Asnela-Carva (126)

O tanque do povo aqui lá como «relíquia» e testemunho de um passado que já não volto: por serem outros tempos e por falta de gentes.

2019.- Carva-Asnela-Carva (127)

Enquanto, descendo a rua da capela nos dirigíamos para o caminho de volta,

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despedíamo-nos deste velhinho castanheiro da aldeia, à falta de pessoas para o fazer.

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Numa curva do caminho de volta, o que julgamos ser o senhor Herculano, no seu tratar, devagarinho, lá vai levando as suas três vaquinhas, que à ida nos surpreenderam, entre giestas, para a sua coorte.

2019.- Carva-Asnela-Carva (173)

No regresso, o pé foi mais ligeiro, deixando apenas aqui, e mais uma vez, uma perspetiva do bonito recanto do tão estimado carvalhal do nosso companheiro Florens.

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À chegada a Carva, este pequeno recanto com um singelo castanheiro e um campinho de nabiças. Duas coisas que bem nos apetecia comer.

2019.- Carva-Asnela-Carva (187)

Não comemos as nabiças, mas, em casa da prima do Florens, tínhamos sobre a mesa um lauto lanche, onde, nesta época, as castanhas não faltaram.

 

Os transmontanos são assim…

Memórias de um andarilho - Caminhada pelas Termas de Ourense - Capital Termal da Galiza

 

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADA PELAS TERMAS DE OURENSE – CAPITAL TERMAL DA GALIZA

 

 

Já lá vão mais de 9 anos! Foi em 24 de abril. E os adolescentes que, em 2012 me acompanharam nesta caminhada de cerca de 5 Km – Edu e Tonho – hoje já são dois homens feitos!

 

Descrevamos sumariamente a pequena caminhada, atendendo mais ao encanto e beleza do que encontrámos por aqueles escassos cinco quilómetros, paralelos ao rio Minho.

 

Partimos das proximidades da Ponte Milenuium,

02.-  2012 - Ourense 02 197

seguindo a rota cujo mapa, que se mostra, nos indica.

03.- ruta-termal-en-ourense

Saindo debaixo do trilho da ponte, subimos até à rotunda. A perspetiva da Ponte Milenium, com o casario da cidade de Ourense, é deveras bonita.

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Na rotunda, com um interessante arranjo escultórico em ferro,

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Deparámos com esta bonita escultura – «Príamo e Tisbe – Amor da Juventude».

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Voltando ao trilho, iniciámos aqui verdadeiramente o trilho das Termas de Ourense, mesmo junto a esta obra de Acisclo Manzano - «Os Maios».

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E, logo de imediato, aparece-nos as primeiras Termas e Pozas da Chavasqueira.

07.- 2012 - Ourense 02 269

Aqui, em frente do rio Minho, mais uma obra de arte, em bronze fundido, também de Acisclo Manzano - «A Vénus do Minho», recebendo em seu regaço um casal.

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Prosseguindo sempre em caminho plano,

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não largando as margens do rio Minho, onde os corvos marinhos também tomam sol em cima de penedos,

10.- 2012 - Ourense 02 287

chegámos à Fonte do Tinteiro.

11.- 2012 - Ourense 02 288

(Perspetiva I)

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(Perspetiva II)

O rio Minho neste lugar encanta-nos com a sua água e a sua vegetação ripícola.

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Como se vê, o trilho está bem tratado, convidando os jovens a agradáveis passeios de bicicleta.

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Quase sem darmos conta, apreciando a paisagem do nosso entorno, falando da beleza desta paisagem, estávamos nas Termas ou Pozas do Moiño da Vega.

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Estas foram as que mais nos encantaram.

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Vale a pena fazer aqui uma ligeira paragem e apreciarmos bem o lugar.

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Estas termas fazem justiça ao seu lindo moinho que, por isso, lhe dá o nome.

18.- 2012 - Ourense 02 316

(Perspetiva I)

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(Perspetiva II)

Prosseguindo a nossa pequena caminhada, logo logo passávamos nas Termas de Outariz, no complexo termal,

20.- 2012 - Ourense 02 324

E seguindo caminho

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 até às Pozas de Outariz que tem nas suas proximidades a designada «passarela» de Outariz, que outra coisa não é senão uma ponte pedonal, facilitando a passagem para a outra margem do Minho.

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Aqui fizemos, nas Pozas de Outariz, uma longa pausa e fomos até uma das «pozas»,

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Tomando um banho e experimentar as suas águas «calientes».

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No relvado contíguo, descansámos um pouco e tomámos sol.

25.- 2012 - Ourense 02 343

Restabelecidos das forças pelo banho, junto à «passarela», fomos apreciar o rio Minho.

26.- 2012 - Ourense 02 349

Mas as termas ou «pozas» de Ourense não acabam aqui. Percorridos meia dúzia de metros, por debaixo da «passarela», temos as Termas do Canedo.

27.- 2012 - Ourense 02 354

(Perspetiva I)

28.- 2012 - Ourense 02 353

(Perspetiva II)

Despedindo-nos da «passarela» de Outariz,

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fomos até à para até à paragem do comboio turístico que, daqui, vão até ao centro da cidade de Ourense, mais propriamente até à sua Praça Maior.

 

Como se vê, o trilho é espetacular

30.- 2012 - Ourense 02 368

e, enquanto refastelados nos macios assentos do comboio turístico, dávamos mais uma olhadela para as «Pozas» ou Termas do Moiño da Vega,

31.- 2012 - Ourense 02 373

apreciávamos os parques-merendeiros bem tratados e asseados.

32.- 2012 - Ourense 02 378

Sem darmos por ela, encontrávamo-nos no cruzamento das Termas com as «Pozas» da Chavasqueira.

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O pessoal continuava na relva, tomando banhos de sol primaveril,

34.- 2012 - Ourense 02 386

Enquanto outros, na «poza», tomavam banho.

35.- 2012 - Ourense 02 388

Desta vez,  «A Vénus do Minho» estava esperando que alguém se fosse encostar no seu regaço.

36.- 2012 - Ourense 02 387

Passámos ao lado das Termas,

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ultrapassámos a escultura «Os Maios» e fomos ao encontro da Ponte Milenium, passando, uma vez mais por debaixo dela.

38.- 2012 - Ourense 02 396

(Perspetiva I)

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(Perspetiva II)

No rio Minho exibiam-se aos passantes duas lindas gaivotas brancas.

40.- 2012 - Ourense 02 400

E, neste percurso, não podia deixar de se exibir a célebre Ponte Vella, a românica.

41.- 2012 - Ourense 02 402

(Perspetiva I)

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(Perspetiva II)

Ao passarmos pelo Parque da Ribeira do Canedo,

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vislumbrámos, em primeiro plano, a Ponte Nova.

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E, passando ao lado do Parque Minho,

45.- 245.- 012 - Ourense 02 426

não nos ficou desapercebida a escultura do «Homem em pé»,

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um pombal, no meio do seu relvado, visto ao longe,

47.- 2012 - Ourense 02 431

e, fazendo um pouco de zoom à objetiva, aproximando-o de nós.

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Num pequeno lago, minúscula,

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a escultura, em bronze fundido, da «Sereia aleitando um filho».

50.- 2012 - Ourense 02 436

Do Parque Minho, mais uma perspetiva da Ponte Nova.

51.- 2012 - Ourense 02 443

Em pouco tempo chegávamos ao nosso destino – a Praça Maior, de Ourense, onde impera a sua Casa do Concello ou, como nós em Portugal dizemos, edifício da Câmara Municipal.

52.- 2012 - Ourense 02 590

O périplo das Termas de Ourense não ficaria completo se não fossemos as célebres Burgas (Fontes Romanas),

53.- 2012 - Ourense 02 544

onde aqui é bem visível a passagem dos romanos, nestas duas «aras».

54.- 2012 - Ourense 02 545

E o nosso passeio termal acabou aqui.

 

Deixamos agora aos(às) nossos(as) leitores(as) uma perspetiva ou vista das pontes da cidade de Ourense.

55.- 2012 - Ourense 02 668

 

Memórias de um andarilho - «Ruta del albariño de interior»

 

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

«RUTA DEL ALBARIÑO DE INTERIOR»

 

01.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (101)

Já há muito tempo que o amigo Pablo nos convidou para darmos uma passeata pela vinha situada na localidade onde mora.

 

A ocasião propiciou-se na passada sexta-feira.

 

O dia, a partir do meio da manhã, apresentava-se solarengo. Por isso, madruguei um pouco, em relação à hora aprazada para aparecer em sua casa para a dita passeata pela vinha.

 

E aproveitámos o tempo para dar uma saltadela até Sotochao, na Galiza, pertinho de Segirei, concelho de Chaves, bem assim da célebre «rota do contrabando» e da cascata de Cidadelhe.

 

Foi a primeira vez que fomos a Sotochao, apesar de, por várias vezes, andarmos por estas bandas a pé e de carro.

 

Trata-se de uma aldeia pequena. A sua fama vem-lhe pela quantidade de soutos que tem, pelos seus castanheiros anciãos e, naturalmente, pela produção de castanha. Castanha essa que já foi mais a riqueza desta pequena localidade. Hoje, segundo nos dizem, já pouco cuidam dos castanheiros e a castanha que há – pois apanhá-la custo já caro – é mais alimento dos animais, principalmente dos javalis, que dos humanos.

 

Um habitante com quem nos cruzámos e nos pusemos à conversa, queixa-se disso mesmo: hoje cuidam pouco dos soutos. E particularmente de um castanheiro, que nos indicou, afiançando-nos ser milenar, mas cujo seu rendeiro, pouco cuida em no tratar!

 

Alguns, também velhos, são autênticos fantasmas dentro do espaço da aldeia-souto.

 

Vejamos dois deles, que mais nos despertaram a atenção:

02.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (2)

Atentamo-nos, mais em pormenor,  ao que está em primeiro plano;

03.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (1)

e, depois, o que está em segundo plano.

04.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (3)

Observe-se este colosso defunto.

05.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (22)

Subimos para mais próximo do verdadeiro souto.

 

Enquanto fotografávamos este ancião,

06.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (11)

apanhámos do chão duas ou três castanhas, por ali espalhadas, já fora dos ouriços, e fomos rilhando-as. Saborosas, de verdade!

 

Chegado a casa de Pablo Serrano, aceitámos o café que Délia, sua esposa, nos ofereceu.

 

E, aperaltados para a dita caminhada pela vinha, com um bonito sol a raiar, daqueles a que estamos habituados como sendo do «verão de S. Martinho» , atravessámos a estrada, que vai para Vilardevós, e embrenhámo-nos por entre monte e soutos, ao encontro da célebre vinha.

 

Délia acompanhou-nos. E, logo no início do percurso, dá com um «boleto».

07.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (63)

Pega nele da terra e diz-nos que, por aquelas bandas, lhe dão o nome de «boleto de cabra». Prosseguimos caminho, não questionando a razão de tal nome…

 

Na berma do caminho por onde passávamos, aqui e ali, «crocus» ou flor de açafrão selvagem.

08.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (62a)

A páginas tantas, postado num souto, encostado à sachola, esta figura típica da terra – o tio Cassiano.

09.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (55)

Pelo que soubemos, apesar da sua inexistente «instrução primária», Cassiano é um verdadeiro livro aberto sobre todas as coisas da localidade e de tudo quanto nela se passa. Figura típica e fina. Se se tivesse iniciado na leitura e na escrita, iria longe este tio Cassiano!...

 

Para além de ser imbatível nas novidades da pequena aldeia, é um verdadeiro campeão, nesta época, na apanha dos «boletos». Tio Cassiano faz uma boa maquia com esta apanha. Quase se diria que não é ele que os encontra, são os «boletos» que vêm até esta figura simpática e afável.

10.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (57)

Deixámos o tio Cassiano nas suas lides e prosseguimos caminho rumo a tal dita cuja vinha.

 

Estávamos nós convencido de que a passeada que estávamos fazendo era ao longo da vinha do nosso amigo Pablo. Depressa, por ele, fomos devidamente informado que não!

 

Manifestamente, adiantou-nos Pablo, trata-se de uma vinha com mais de 200 hectares, implantada em terrenos que eram montes vicinais – por cá, chamar-lhe-íamos «baldios» - e que na sua conceção, construção e manutenção, usa a mais sofisticada tecnologia e engenharia.

 

É uma área a perder de vista,

11.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (117)

de uma só casta – o alvarinho.

12.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (125)

Com a sua graça habitual, Pablo diz-nos que estamos fazendo a «ruta del albariño de interior».

13.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (92)

E assim, acabámos por intitular este post – RUTA DEL ALBARIÑO DE INTERIOR.

 

Na verdade, ficámos deveras admirado com o que víamos… Uma vinha – na localidade de Bustelo, Vilardevós – usando da melhor e sofisticada tecnologia no que concerne ao tratamento e controlo do solo, humidade e casta de uva alvarinho. Toda ela com sistema de rega, a partir de dois enormes reservatórios de água,

2019.- Vinha de Bustelo (Vilardevós-Ourense)-GOPRO (11)

proveniente da captação, por furos.

14.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (85)

Na imensidão da casta de alvarinho, 6 hectares são da casta autóctone, – «Mencía» –, tinta, comumente associada aos vinhos tintos de Bierzo, do noroeste peninsular, e que não pertence ao mesmo proprietário dos 200 hectares de alvarinho, dizem-nos Délia e Pablo.

15.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (99)

E Pablo acrescentava que, muito provavelmente, este ano, a produção da uva alvarinho deveria ter alcançado os 3 milhões de quilos.

 

Mas, se os mais de 200 hectares de vinha nos impressionava e nossa vista não podia alcançar por inteiro, mais impressionado ficámos com a quantidade de frades ou rocas

16.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (84)

que íamos encontrando ao longo do nosso percurso: quer pelos largos caminhos que atravessavam a vinha,

17.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (107)

(Panorama I)

18.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (116)

(Panorama II)

quer pelos caminhos que a ladeavam.

19.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (144)

Pablo, orgulhoso pelo passeio que nos estava proporcionando, quis posar para a objetiva com uma roca ou frade - entre outros nomes que esta «Lepiotaceae» tem.

20.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (154)

A não ser a roca que Pablo pegou para posar, não apanhámos nenhum. Deixámo-los na natureza, grandes e pequenos.

21.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (120)

Este ano, por todo o lado, foi uma «epidemia» de rocas ou frades. Mas aqui eram demais!

 

Quando dois terços do nosso trilho estava percorrido, somos apanhados por uma «tormenta» de chuva. Ficámos num «pito»! Mas sempre andando.

 

A certa altura, perante o inesperado desta surpresa – quando nada o previa, Pablo, em tom de desabafo, queixava-se, dizendo: «es o cambio climático!».

 

Já muito perto da casa de Délia e Pablo, na borda do caminho por onde passávamos, ao lado de carvalhos (quercus pirenaica) e souto, eis que nos aparece a bonita – mas traiçoeira - «Amanita muscaris»

22.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (191)

Foram as espécies mais bonitas que, neste outono, conseguimos fotografar!

23.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (213)

(Conjunto I)

24.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (216)

(Conjunto II)

25.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (217)

(Conjunto III)

26.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) (210)

(Conjunto IV)

Tendo parado de chover, 20 minutos antes de chegarmos a casa, estávamos enxutos.

 

A chuva fez-nos encurtar o nosso passeio em cerca de 3 Km. Não percorremos, portanto, todo o perímetro da célebre vinha do «alvarinho de interior».

 

Pelo nosso Wikiloc, percorremos 7,32 Km.

27.- 26.- 2019.- Castaños de Soutochao+viña del albariño interior (Bustelo) - Wikiloc

P.S. - Acabámos de ler, em La Voz de Galicia,  o seguinte «lead»: «Martín Códax se apunta a los orange wine e saca su primer albariño sin D.O.». Será que este vinho e as 926 garrafas que vão ser postas à venda na web,

A08N9032

a 63€ cada, serão desta vinha de Bustelo-Vilardevós?

 

Palpita-nos que seja.

Palavras soltas... Como viver uma vida plenamente vivida no mundo em que vivemos?

 

 

PALAVRAS SOLTAS…

 

COMO VIVER UMA VIDA PLENAMENTE VIVIDA NO MUNDO EM QUE VIVEMOS?

 

 

 

 

Hoje, na tradição católica, é Dia de Fiéis Defuntos.

 

Já há alguns meses, tio nona, nos enviou um pequeno texto, com algumas reflexões, para inserirmos na rubrica deste blogue «Palavras Soltas…»

 

Mas não as publicamos!...

 

Desde 16 de março passado, este blogue não registou qualquer atividade.

 

Os nossos(as) leitores(as) mais próximos(as) sabem, ou deduzem, a razão de tal circunstância se ter passado e até do facto  daquela nossa “entrada” no «Versejando com Imagem», no «O outro pé da sereia».

 

Foram alguns «outonos» que por nós passaram e nos deixaram física e mentalmente mais debilitado, verdadeiros vendavais que, por muito seguidos, nos deixaram muito aturdido.

 

E se nos perguntarem porque hoje estamos aqui, em boa verdade, não lhes saberei bem responder.

 

Talvez dois poemas, que não resisto em aqui  vos reproduzir: um, escrito por um nosso bom amigo, por ocasião do passamento de uma nossa colega que, a ele, particularmente, lhe era muito querida; o outro, “ditado” pela pessoa a quem mais devemos na vida, e que nos foi – e continuará a ser – muito querida e amada.

 

Eis o primeiro:

 

 

 

Um Brunheiro de dor

 

 

Arde o Brunheiro!

Arde sem fumo,

sem fogo que é fogo.

Arde nas suas entranhas

um ardor que é dor

que queima sem brasas.

A borboleta-colibri do teu jardim

bate as asas.

Não foge do fogo,

que não há.

Mas sente... ou pressente

que o Brunheiro está triste,

que a saudade é saudade sem fim,

que a morte existe.

E enquanto o Brunheiro arde

cai a noite, que é tarde,

e a colibri, mariposa,

não larga aquela flor.

Bate as asas,

em movimentos de dor,

em redor, sempre em redor

da flor...que é rosa.

 

 

 

Gastão Bianchi

Chaves, 05 Maio 2019

 

Rosas e mariposa

O segundo:

 

Não choreis!

 

Podeis chorar porque parti

ou podeis sorrir porque vivi.

 

Podeis fechar os olhos e rezar para que volte,

ou podeis abri-los e ver tudo quanto vos disse e deixei;

 

Vosso coração pode estar vazio porque já não me podereis ver

ou  podeis estar cheios de amor por tudo quanto comigo partilhastes.

 

Podeis chorar, fechar a vossa mente, sentir o vazio e virar as costas a tudo,

ou podeis fazer o que eu mais gostava de fazer:

- Sorrir, abrir os olhos, amar e seguir na vida que nos foi dada por Deus viver.

 

***

 

Agora, as reflexões de tio nona, apaixonado leitor da obra de Carlo Strenger, «O medo da insignificância – Como dar sentido às nossas vidas no Século XXI».

 

***

 

Para quem o homem é o único animal que sabe que o tempo é limitado,  a tese central sobre a qual se debruça a psicologia existencial parte da seguinte interrogação: será que eu vivo uma vida que vale a pena ser vivida?

 

A consciência da finitude está no centro da existência humana. E é uma das características dominantes da nossa vida.

 

O terror instintivo da morte, contra o qual todos temos de nos defender, requer a defesa de uma visão do mundo. E visões de mundo vamos encontrar ao longo da existência da humanidade, pelas mais diversas formas.

 

***

 

Lucrécio, em  De Rerum Natura, defende exaustivamente que o medo da morte é irracional.

 

Num argumento célebre, que se destacou ao longo da História da Filosofia, Lucrécio afirma: “a morte não me acontece a mim, porque, quando eu estiver morto, nada me pode acontecer, já que não existo. Portanto, o medo da morte é irracional”.

 

Tal postura é também defendida por Epicuro e seus discípulos.

 

***

 

A estrutura básica do nosso eu é, entre outros fatores, determinada pela cultura em que nascemos. Contudo, no mundo em que vivemos, porque temos acesso a diferentes paradigmas culturais, podemos até chegar ao ponto de escolhermos a cultura que será a central nas nossas vidas.

 

Mas, tal facto, não significa que a nossa cultura desapareça ou que deixe de ter um papel.

 

Ora, é considerando a tensão entre a facticidade do nosso nascimento e o desejo que vamos desenvolvendo de transformar as nossas vidas numa criação nossa, de integrar paradigmas que encontramos, e com os quais sentimos alguma afinidade, que podemos viver a nossa vida plenamente.

 

Contudo, o que vemos à nossa volta?

 

***

 

Cada visão do mundo e cada sistema cultural afirmam que se revestem de importância única em relação aos demais!...

 

Por isso, no nosso entendimento, defender uma visão de mundo, ou mesmo argumentar a seu favor, torna-se uma tarefa de algum modo complicada, nos tempos que correm.

 

Na verdade, não deveriam todas as visões de mundo ser iguais?

 

Quando se atacam os sistemas de crenças, as pessoas, inevitavelmente, entrincheiram-se ainda mais nas suas visões do mundo.

 

É por isso que nenhum sistema de crenças está imune aos perigos inerentes à propensão humana para a defesa violenta da «sua» visão, tal como mostra a História, desde a Inquisição aos gulags.

 

***

 

E aqui surge a questão do politicamente correto. Que inculca em todos nós o dogma de que as crenças têm de ser respeitadas, apenas porque alguém as sustenta. E por em causa ou criticar crenças não é só indelicado como um verdadeiro «pecado».

 

A tolerância relativista revelou-se uma faca de dois gumes. Foram-se criando realidades políticas e estruturas sociais que iriam enfraquecer a própria tolerância, que deu lugar a todas as formas de crença.

 

A questão, todavia, mais premente era: podem todas as visões de mundo realmente conviver dentro da mesma política? Será realmente possível que os seres humanos respeitem as respetivas visões de mundo, independentemente das diferenças? Se existem perspetivas diferentes sobre a realidade, como podemos ultrapassar o relativismo que tem tido um papel tão importante no pensamento sobre as preocupações existenciais últimas?

 

***

 

A universidade moderna é uma das maiores criações da humanidade. A sua estrutura foi concebida no início do século XIX na Alemanha. O seu princípio orientador era o de que uma educação para a liberdade da mente deveria fazer mais do que transmitir conhecimentos, embora o conhecimento fosse uma condição sine qua non.

 

Os estudantes deveriam ter a experiência da forma como o conhecimento era gerado.

 

Foi por esta razão que a universidade teve necessidade da investigação e do ensino e os professores não deveriam estar envolvidos apenas na transmissão do pensamento, mas também deveriam estar envolvidos ativamente na procura da verdade e os estudantes tinham, naturalmente, que participar dessa experiência.

 

Somos, obviamente, racionalista!

 

***

 

Contudo, somos também capaz de nos maravilharmos perante a diversidade de ficções criadas coletivamente para dar sentido à vida humana em vez de vociferar contra aqueles de que gostamos menos.

 

Claro está que os antiteístas e os crentes religiosos continuarão a desdenhar das visões de mundo de uns dos outros. Mas não vemos nisso qualquer problema, desde que esse desdém não se transforme numa questão de vida ou de morte.

 

Por tal circunstância, gostamos da expressão de C. Strenger quando fala de desdém civilizado. Um desdém amigável que pode constituir-se como um modelo para todas as ideologias – religiosas e seculares – substituindo o seu sentimento de superioridade moral pelo riso; e pode fazer-nos ver a História humana como algo que é mais comparável a um concurso para o melhor trabalho de ficção do que com um choque mortal de civilização.

 

***

 

O objetivo do desdém civilizado não é respeitar as crenças dos outros, embora os antiteístas possam respeitar os líderes religiosos como o Papa Francisco ou Dalai Lama, enquanto seres humanos, e os crentes religiosos possam respeitar alguns antiteístas pelas suas qualidades humanas. É encontrar uma maneira de coexistir, cooperar e conseguir o respeito mútuo, enquanto seres humanos que somos.

 

Temos de nos exercitar para ampliar a nossa imaginação moral para compreendermos que podemos cooperar com visões de mundo muito diferentes das nossas, porque temos uma Causa Comum.

 

Devemos ser capazes de desdenhar alegremente dos estilos de vida, das crenças e das religiões dos outros e inversamente e, ainda assim, tentar salvar a possibilidade de a Humanidade continuar a sua História.

 

***

 

Ao se falar de desdém civilizado, não estamos apenas a defender uma maior autenticidade ou afirmar que os antiteístas têm tanto direito aos seus sentimentos como as pessoas religiosas. A ênfase não é menor no “civilizado” do que no “desdém”. A história do conflito religioso e também do conflito entre as visões de mundo, em geral, mostra que é preciso uma enorme disciplina mental para sentir desdém e, ainda assim, continuar a ser civilizado. O processo de nos tornarmos civilizados, como mostrou Norbert Elias, diz respeito à capacidade de interiorizar os processos e de manter o espaço público limpo de aspetos procedimentais e físicos que esta esfera não pode conter, sob pena de deterioração.

 

Sentir raiva, mágoa e desdém sem violência.  E continuar a comunicar com aquelas visões de mundo que não respeitamos e que não respeitam as nossas, é a base para o tipo de cidadania mundial que se tornou uma necessidade vital num mundo globalmente interligado.

 

 

E vivermos uma vida mais plenamente vivida no mundo em que vivemos…

 

 

nona

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