Quarta-feira, 30 de Abril de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho Inglês - Duas palavras, apenas

  

CAMINHO INGLÊS DE SANTIAGO

 

THE SLOW ENGLISH WAY (*)

 

5 a 10. Abril. 2014

  

 

O Caminho Inglês é, de todos os Caminhos de Santiago, o menos conhecido. Consequentemente, o menos frequentado.

 

Representa, no cômputo das estatísticas, apenas 2% do total dos peregrinos que chegam a Santiago de Compostela. Daqui resulta, porventura, o seu encanto em termos de alternativa ideal para aqueles que procuram uma experiência autêntica, longe das filas de peregrinos e caminheiros para chegar a um albergue para pernoitar, que outros, por via desta massificação, não apresentam.

 

Se quisermos falar das origens deste Caminho, teremos de ir até aos inícios do século XI. É, desta altura, conhecida a primeira documentação sobre a chegada de muitos peregrinos às costas da Galiza, vindos da Escandinávia, Escócia, Irlanda, Inglaterra e França.

 

Durante séculos, os peregrinos da Europa Atlântica encontravam nas rotas marítimas o melhor caminho, porventura o mais seguro, para chegar a Santiago de Compostela, a bordo de barcos fretados com mercadorias, especialmente para as peregrinações dos anos jubilares, quando o 25 de Julho coincidia com um domingo.

 

Os portos de Ferrol e A Coruña eram os portos de chegada para se iniciar a peregrinação a Santiago de Compostela, embora outros, como Viveiro, Neda, Ribadeo e Noia, também cumprissem a mesma função.

 

Historicamente, contudo, o Caminho Inglês tem dois ramais para chegar a Santiago de Compostela: um que parte de Ferrol; outro, de A Coruña. Encontram-se nas proximidades do Hospital de Bruma.

 

É apenas o que parte de Ferrol aquele que é mais seguido. Tal facto prende-se com a circunstância deste percurso ser superior a 100 Km, distância mínima que a Igreja Compostelana exige para se obter a «Compostelana» a pé. O Caminho que parte de A Coruña tem apenas uns escassos 72 Km. Há, contudo, muitas vozes que reclamam que, atendendo à importância histórica deste traçado que se inicia n’A Coruña, os peregrinos que fazem esta variante deveriam também obter a «Compostelana».

 

O Caminho Inglês permite-nos conhecer, em poucos dias, o melhor da Galiza urbana e rural, costeira e interior, ao arrancar do mar - parte essencial da vida do povo galego - para, depois, penetrar na Galiza rural, mais profundamente genuína.

 

Possui, também, um singular atrativo histórico, simbólico e monumental, assim como um enorme potencial eno-gastronómico, que se deve saborear com calma, lentamente, com tranquilidade.

 

É daqui que nasce o termo «slow way». A aplicação deste movimento «slow» ao mais autêntico e desconhecido de todos os Caminhos foi enfatizado pelo autor da «Ilha do Tesouro»

 

 

- Robert Louis Stevenson - grande viajante,

 

 

ao afirmar que “o caminhante afastar-se-á, despreocupadamente, do Caminho não só para ir à procura de examinar algo mais formoso ou embalado na promessa de uma vista mais ampla, de modo que até um roseiral silvestre possa «deformar», de forma permanente, o Caminho”.

 

Na verdade, o relativamente curto trajeto - uma semana é suficiente para o completar com calma - permite saborear o Caminho com mais tranquilidade e profundidade, a quem o queira ver como algo mais que um percurso de obstáculos a ultrapassar para chegar à meta de Santiago de Compostela - a praça do Obradoiro.

 

A solidão, apenas interrompida por um ou outro encontro ocasional com outros peregrinos - mais provável no Verão e na Semana Santa, como viemos a confirmar, é um dos atributos diferenciais desta rota que permite aprofundar a viagem interior que todo o peregrino/caminhante experimenta, pelo simples facto de ter a perspetiva, que lhe é proporcionada, ver a vida ao ritmo que marcam os nossos passos.

 

Tudo convida, como pude, com o meu companheiro Tino, constatar, a um caminho bem disfrutado, mas sempre «cozinhado» a fogo lento, bem apaladado, mastigado, quer seja quando estamos perante o ambiente urbano, quer marítimo, quer terrestre.

 

Em conclusão, este Caminho confronta-nos com o significado da própria «peregrinação» aos nos «encorajar» a não segui-lo à risca e ir ao encontro mais profundo do território que atravessamos ou cruzamos para o melhor conhecermos, para nele «emergirmos». Não poucas vezes é grande a tentação de nos «perdermos», de nos deixar levar, desviando-nos uns poucos metros ou alguns quilómetros para podermos entender e aproveitar melhor a experiência única que é caminhar.

 

 

 

 

(*) Texto adaptado do guia «El pousado Camino Inglés», bilingue, espanhol e inglês, coordenado por Aser Álvarez, Edição da Deputacion Provincial de A Coruña e as Associações Hoteleiras de Ferrol, A Coruña e Santiago de Compostela e Hospeco, Tórculo, Artes Graficas, SA, 2012.


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Segunda-feira, 28 de Abril de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho Francês - Posfácio

 

 

CAMINHO FRANCÊS

 

POSFÁCIO

 

 

O que ficou dito, nestes últimos seis posts, foi o relato da experiência de um Caminho de Santiago - o Francês - realizado já no longínquo mês de Dezembro de 2008.

 

A voz, melhor dizendo, a palavra foi a do meu querido amigo Emídio Almeida, funcionando com uma espécie de alter ego, aqui e ali modificada com mais uma vírgula e/ou mais ou menos um parágrafo. Coisas de pouca monta...

 

Não se pretendeu - ou se pretende -, com estes relatos, fazer romance, apurando figuras de estilo, desenvolvendo tramas sentimentais, filosofando, ou sequer, (se quis) fazer traçados psicológicos.

 

Nem, tão pouco, fazer memória (s), em estilo de «diário».

 

Nestes relatos não couberam quaisquer daqueles intentos.

 

Apenas a simples, nua, objetiva e despretensiosa descrição dos percursos de um Caminho que, uns, o fizeram por questões religiosas e de fé; outros, por uma profunda e genuína curiosidade humana e cultural.

 

Nele todos se encontrando e partilhando a mesma humanidade.

 

Humanidade vivida no desabrochar de profundos e sentidos afetos.

 

Que, por muito efémeros que tenham sido, valeram, valem por toda uma vida.

 

Essas relações e afetos partilhados não pertencem aqui ser partilhados.

 

E, tal como a amigo Emídio Almeida dizia na reportagem da 4ª etapa (Palas de Rei-Arzúa), a propósito das conversas tidas com o jovem e adolescente (na altura) Adrian, “falar do passado, da família e dos nossos sonhos, não é aqui o lugar”. Tudo, mesmo os sonhos, ficam só entre nós. Entre aqueles que, de uma forma profunda e sentida, viveram a própria «experiência» do caminhar.

 

E, por isso, fazem parte do rico «espólio» da vida de cada um. Da sua vivência interior.

 

Vivência interior que, independentemente da idade, nos faz, fez crescer como seres humanos.

 

Essa «vida» que o Caminho, este Caminho, nos deu, no dizer do recém-falecido Gabriel García Márquez, ninguém roubará. É nossa. Só nossa. De mais ninguém.

 

A grandeza dos Caminhos de Santiago reside exatamente aqui: na prodigiosa capacidade de gerar «novas vidas», de construir estórias, de fazer História, de criar novos Homens, ou seja, de produzir Cultura e mais Humanidade.

 

Bem hajam, assim, todos as minhas (meus) companheiras (os) de jornada: Rui, Tó Quim, Ana Isabel, Emídio, Mónica, Vicky, Alba, Maria José, Adrian e Verónica. E muito obrigado pelos momentos e pela partilha de vida que me proporcionastes.

 

Até sempre!

 

 

António de Souza e Silva

 

 

 

 


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Domingo, 27 de Abril de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - 6ª e última etapa - Monte do Gozo-Santiago de Compostela

 

 

CAMINHO FRANCÊS

 

6ª e última etapa:- Monte do Gozo-Santiago de Compostela

 

22. Dezembro. 2008

 

 

 

 

 

O grande dia

 

Acordamos todos como se fossemos uma mola gigante. Contámos sonhos, gargalhámos numa indisciplina total. Era mais tarde do que o costume, mas parece-me que todos já estavam previamente acordados antes do toque do meu telemóvel. Contrariamente aos dias anteriores, neste não havia preguiça. Corri para os balneários a cantar e, todos rapidamente, seguiram-me em galhofa interminável.

 

Tinha chegado o grande dia.

 

Com a indisciplina destas ocasiões, rapidamente colocámos as coisas dentro das mochilas, sem nos preocuparmos de sairmos fora da camarata por causa do «fru-fru» barulhento do plástico. Eu próprio fui lesto no meu atavio.

 

Lá fora, os cristais do gelo formavam uma camada escorregadia. Verónica, Alba e Vicky tinham os pés em muito mau estado. Era impossível caminharem naquela manhã de outra maneira que não fosse de havaianas nos pés. Os pés estavam muito inchados e as unhas do dedo grande de Verónica queriam teimosamente saltar fora.

 O grupo decidiu não se separar até à Catedral de Santiago de Compostela.

 

O assalto final

 

Tínhamos combinado no dia anterior sair mais tarde que o habitual. Como estávamos a cerca de 4,5 km do nosso Apóstolo, e a missa do peregrino era às 12 horas, decidimos sair perto das 9:30 horas. Teríamos tempo suficiente para o pequeno-almoço, para a caminhada, para colocar o último carimbo na Credencial do Peregrino, para levantar as «Compostelas», plastificá-las, e, ainda, dar uma volta pelas lojas à cata de «recuerdos» bem assim dar uma lenta visita à parte velha da cidade, apreciando a sua arte e a sua história.

 

Em alegre cavaqueira, dirigimo-nos à cafetaria do Albergue para o repasto.

 

 

A Verónica, em prova de agradecimento, ofereceu-nos o pequeno-almoço, composto por pão torrado, café com leite, doces, geleias, iogurtes e um sem número de iguarias para um saudável alvorecer. Embora não quiséssemos que ela o fizesse, devido à sua insistência e decisão inabalável, acabámos todos por aceitar. Explicou que era a única maneira de nos agradecer todo o acompanhamento e apoio que lhe tínhamos dado pelo Caminho. Não fora o nosso apoio, disse, não conseguiria chegar a Santiago de Compostela. Foi um gesto muito bonito.

 

Verónica, naquele dia, parecia-me a pessoa mais feliz do grupo. Tinha cumprido uma missão – a sua missão!

 

Naquela esplêndida manhã, com o sol já alto a brilhar num amarelo muito vivo e brilhante, embora ainda sem aquecimento central ligado, o tempo não contava. Era como se os relógios tivessem os ponteiros numa indolência perturbadora, verdadeiramente pasmados.

 

E vamos lá iniciar a última caminhada

 

Cá fora o dia estava particularmente frio e os pés da Verónica era disso uma prova: estavam a ficar arroxeados. À saída da cafetaria,

 

 

tomámos logo a estrada de San Marcos, que começa logo com uma razoável pendente. Junto de uma casa-museu, no seu logradouro, esta sugestiva escultura.

 

 

Devido à sombra das árvores nesta época do ano, todo o gelo acumulado fica vitrificado e muito escorregadio. Tivemos que ir alternando entre os pés no asfalto, os pés nas ervas das bermas; ora duma lado da estrada ora do outro, num misto de habilidade e sobrevivência.

 

Cruzámos sucessivas pontes: quer sobre a autopista AG-9; quer sobre a via do caminho-de-ferro, quer ainda a autovia da circunvalação A partir daqui, a caminhada foi um verdadeiro doce.

 

António adiantou-se e parou, perto do Monumento ao Peregrino,

 

 

à entrada da cidade de Santiago de Compostela, para nos tirar uma foto: ao Adrian,

 

 

a mim

 

 

e à Mónica e Verónica.

 

 

Fui para a frente ter com o Adrian e, tal como nos outros dias, não me largou, brincando comigo e contando algumas maroteiras.

 

Quer eu quer Adrian seguimos em ritmo lento, embora ganhando avanço sobre todos os outros.

 

Os pés da Verónica estavam a dar-lhe muitos problemas

 

A muito custo, Verónica ia pondo um pé à frente do outro e seguia na cauda do grupo, embora sempre à distância dos nossos olhos.

 

À entrada da parte moderna da cidade, perguntei-lhe se precisava de ajuda. Disse que não precisava, porquanto, logo que chegasse perto da Catedral, entraria numa farmácia para cuidar dos seus pés.

 

Decidi então, com o Adrian, atravessar o espaço monumental da cidade com o passo estugado.

 

Era segunda-feira. A cidade fervilhava de pessoas em grande afã nas compras de Natal que era dali a três dias.

 

Rapidamente passámos Concheiros, a rua de San Pedro, a praça de Cervantes, a Acibecheria e praça da Imaculada,

 

 

a praça das Praterías, onda a Catedral mantém a sua fachada romântica,

 

 

tendo ao lado a torre do Relógio,

 

 

e, finalmente, a praça do Obradoiro

 

 

- o ponto 0 de todos os marcos jacobeus - em frente à Catedral de Santiago. Missão cumprida!

 

Aguardámos a chegada dos restantes amigos. Verónica entrou triunfante na praça. Os restantes elementos estavam atrasados porque pararam para beber um refresco ou tomar um café. Aguardámos ainda mais um pedaço de tempo e fomos aproveitando para tirar umas fotografias, aos mais diversos motivos e dos mais diferentes ângulos, tentando apanhar pormenores, quiçá, ainda não apanhados por outros.

 

Esgotada a paciência, e como os outros teimavam em demorar, eu, a Verónica e o Adrian seguimos lentamente para dentro da Catedral e fomo-nos sentar num banco corrido da entrada. Coloquei o meu telemóvel no perfil «silêncio» e reparei que a Verónica estava efetivamente muito mal tratada. Ajudei-a com uma massagem, utilizando o gel que tinha comprado, há poucos momentos, numa farmácia.

 

Verónica decidiu ficar então sentada. Pedi-lhe para que deitasse os olhos às nossas mochilas, enquanto eu e o Adrian fomos dar uma volta pelo interior da igreja, explicando ao nosso jovem adolescente todos os pormenores e analisando todos os recantos. Estava maravilhado com tudo o que via. Não se cansava de fazer perguntas. Pela minha parte, tentava dar-lhe uma simples e elucidativa explicação.

 

Adrian descobrindo a Catedral

 

Percorremos a basílica, que tem uma planta em cruz latina, de três naves e o transepto. Vimos o trifório.

 

 

Seguimos pelo interior da nave central

 

 

até à capela-mor,

 

 

observando os seus belos pormenores barrocos,

 

 

pela charola e vimos as cinco capelas radiais. Fomos até ao Pórtico da Glória,

 

 

onde lhe mostrei, entre outras figuras, o Cristo Pantocrator e o Apóstolo,

 

 

bem assim o Mestre Mateo.

 

 

Voltámos novamente ao interior da igreja. Subimos ao altar-mor, passando por detrás do Apóstolo, para o abraço fraterno.

 

 

De seguida, descemos à urna do Apóstolo

 

 

e ajoelhamo-nos numa oração particularmente sentida. Perguntou-me o que deveria fazer. Aconselhei-o a uma oração muito forte e sincera, comprometendo-se em ter uma atitude de grande amor e entrega para com os familiares, pais, avós e irmão, e de se aplicar, com esforço, para obter aproveitamento na escola.

 

De seguida, viemos para o exterior, onde lhe mostrei as praças do Obradoiro, das Pratarias, da Quintana e da Acibecheria.

 

Voltámos para junto da Verónica. Só nesta altura é que reparei que tinha várias chamadas telefónicas do António e da Mónica. Liguei-lhes de imediato e, num instante, encontrámo-nos todos dentro da Catedral.

 

Porque a hora estava adiantada, decidimos rapidamente ir colocar o último carimbo na «Credencial do Peregrino» e, finalmente, obter a tão desejada «Compostela». Devido ao estado de grande fragilidade, a Verónica ficou na Catedral. Levei-lhe a Credencial para ser carimbada. Os serviços da «Oficina do Peregrino» não aceitaram a situação. Tivemos de a ir chamar. Ficou, contudo, no rés-do-cão até que uma funcionária descesse para comprovar que, efetivamente, a «personagem» Verónica, tinha cumprido a «missão» e que, por isso mesmo, era uma justa vencedora, com direito à sua «Compostela».

 

A missa do Peregrino

 

Já nos restava pouco tempo para a missa do Peregrino. Por isso, abandonámos a «Oficina do Peregrino» e voltámos à Catedral. Éramos os únicos peregrinos presentes. Por isso, fomos saudados pelo celebrante como os peregrinos vindos de Espanha, de Valência e Caldas; da Venezuela e de Portugal, de Chaves, Porto e Lisboa.

 

Foi para mim um momento de particular emoção. Desfilaram pela minha mente o meu pai, a minha mãe, o meu tio, avós, sogros, mulher e amigos. Desajeitadamente, chorei lágrimas de profunda saudade. Esperei que dalgum vitral descesse, numa nuvem, alguém para me trazer notícias frescas daquelas pessoas de quem tenho tanto amor e que me deixaram tanta solidão.

 

No final da missa consegui estar refeito do choque emocional.

 

Saímos para a praça do Obradoiro e, após uma rápida reunião, decidiu-se ir dar uma volta pela parte velha da cidade. Cada um foi à sua vida. Ficámo-nos de encontrar, no restaurante Casa Manolo, na praça Cervantes, cerca das 12 horas.

 

Todos cumprimos escrupulosamente o combinado.

 

Naquele restaurante fizemos a nossa festa: fotos, troca de endereços, anedotas, gargalhadas, enfim, alegria.

 

O que estava em causa nem sequer era verdadeiramente o almoço. Tão-somente o estarmos ali, depois de uma «missão» cumprida, para alguns de sofrimento, no maior espírito de amizade.

 

Brindámos. Tirámos fotos. Entre muitas, ficam aqui quatro: Susana, (o anjo da guarda, tal como António a apelidou), abraçada à filha Alba,

 

 

sob o olhar embevecido do marido e pai (Vicky);

 

 

Maria José comigo

 

 

e, finalmente, a Mónica, com a máquina fotográfica, a certificar-se de que a sua reportagem estava completa.

 

 

O quarteirão ao fundo da sala era todo por nossa conta. Havia pouca gente no restaurante. Estávamos próximos do Natal. Só alguns estudantes, esquecidos, conversavam alegremente, duas mesas mais além. O almoço foi agradável. Contudo, a comida estava requentada, pois talvez fosse da véspera, não abonando muito o prestígio do Don Manolo. A minha fatídica decisão foi para umas pernas de «galo» estufado, de alguns dias antes, sem estar, literariamente, a exagerar. Os pobres e secos membros jaziam, laconicamente, no prato, envoltos num espesso molho de cebola e tomate - sem vontade de serem comidos - acompanhados por umas batatas fritas aos palitos e um arroz pré-cozinhado sem brilho nem gosto. Afinal a nossa «missão» de sofrimento só iria terminar após termos ingerido o almoço. A acompanhar, o António aconselhou-nos um muito agradável vinho tinto da região das Rias Bajas que selou soberbamente o desenxabido repasto.

 

Chegou o momento da despedida

 

Chegou o momento porque todos não queríamos passar – a despedida.

 

O tempo escasseava para aqueles que tinham de partir naquele dia.

 

Nós, os portugueses, tínhamos talvez a tarefa mais difícil. Particularmente eu que vinha para o centro sul de Portugal. Esperavam-me perto de 540 km entre Santiago de Compostela e Lisboa.

 

No entanto, a Mónica tinha levado o carro para Santiago de Compostela, o que facilitou imenso o regresso. O tormento de sair de Compostela às 15 horas e chegar no dia seguinte às 6 horas da madrugada não se punha desta vez.

 

Foram abraços, beijos e fotos. E um adeus sentido entre todos, com a promessa de um dia voltarmo-nos a encontrar.

 

À saída, nós os portugueses, dirigimo-nos até à zona velha da cidade, junto à Faculdade de História e Geografia, de modo a que nosso amigo António matasse saudades da sua antiga «Casa». Seguimos depois até à praça da Galiza, local onde a Mónica tinha o carro estacionado. Aqui foi o local escolhido para a separação do nosso amigão.

 

 – Venga unha forte aperta, António!, disse.

 

Foi um momento de grande emoção, com cada um de nós a digerir, à sua maneira, o adeus.

 

É verdadeiramente incrível como durante tão poucos dias se estabelecem laços tão fortes entre pessoas desconhecidas.

Tudo isto é, foi mágico!

 

  

 

Texto - Emídio Almeida (adaptado)

Fotografia - António de Souza e Silva

 

 

 

Deixamos agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo filme/diaporama desta 4ª etapa de Palas de Rei a Arzúa para visionamento dos (as) nossos (as) leitores (as).

 

[Nota:- Para ouvir o Filme/diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog].

 


publicado por andanhos às 23:19
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Sábado, 26 de Abril de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - 5ª etapa - Arzúa-Monte do Gozo

   

CAMINHO FRANCÊS DE SANTIAGO

 

5ª etapa:- Arzúa-Monte do Gozo

 

21. Dezembro. 2008 

 

 

O último obstáculo para cumprir a peregrinação

é o Monte do Gozo, de cuja vertente ocidental se pode ver,

pela primeira vez, a cidade do Apóstolo. Seu nome,

testemunhado já no guia do Liber Sancti Iacobi («Mons Gaudium),

explica-se pela alegria sentida pelos peregrinos ao verem,

pela primeira vez, as torres da Catedral de Santiago de Compostela.

Nenhum outro descreveu, como Domenico Laffi,

a emoção indiscritível que devia invadir os peregrinos neste lugar:

 

Coronamos la cima de una colina llamada Monte del Gozo,

desde donde contemplamos el tan anhelado Santiago,

a media legua de distancia. Cuando lo vimos, caímos de rodillas

y empezamos a llorar de alegría y a cantar el

«Te Deum», pero no pudimos recitar más de dos o

tres versos, pues la gran cantidad de lágrimas vertidas por

nuestros ojos no nos dejaban articular palabra. La emoción

que estremecía nuestros corazones y los continuos sollozos

nos obligaban a interrumpir el canto, hasta que, por fin,

desahogados por el llanto, que poco a poco iba cediendo,

volvimos a entonar el comenzad «Te Deum» y de este

modo, cantando, hicimos el descenso hasta el burgo”.

 

(Tradução do El Camino de Santiago - Guía prática del peregrino,

de José María Anguita Jaén, Editorail Everest, Coruña, 2004)

 

Será que tive uma insónia?

 

Acordei muito cedo e bastante cansado.

 

Pelas janelas entravam raios fortes da lua que iluminavam alguns beliches e deixavam rastos de sombras pelas paredes. Ali fiquei algum tempo a passear os meus olhos pelo silêncio. Não liguei aos suspiros fortes, ao remexer dos corpos nas camas, ao inexorável tempo a passar lento e ensonado. Fiquei a ouvir-me por dentro e sentir o quanto eu estava feliz por estar ali. O Caminho é mágico e estava a deixar marcas fortes. A camarata do albergue é uma sala ampla com tetos muito baixos. Ao fundo existem umas grandes portas que dão para uma varanda onde se encontrava um grupo de cadeiras, aguçando o apetite para as ocupar em fins de tarde de Inverno, saboreando os últimos raios de sol ou a contemplar um dia de Verão, a descansar, e com a brisa a refrescar o corpo cansado e afogueado. A toda a volta das paredes existem camas individuais e, ao centro, um conjunto de beliches de dois andares em duas fileiras no sentido do comprimento. Tudo estava calmo e bem arrumado. Só que à entrada temos que descer para um traiçoeiro degrau mal iluminado, deficientemente assinalado, e com um desnível muito alto, onde quase todos os peregrinos foram caindo, mesmo sabendo do grande perigo que ali está. Durante a noite foram várias pessoas - inclusive eu por duas vezes – que, não contanto com o fatídico degrau, caíram, indo embater no beliche em frente. O que valia era o beliche em frente que nos amparava milagrosamente de uma queda certa. E assim fiquei sem dar pelo tempo a passar. Quando o meu telemóvel despertou – era ele sempre o galo da capoeira – as pessoas começaram a agitar-se vagarosamente das camas para fora. Nesse compasso de tempo, deu para ir fazer a minha higiene e vestir-me mais rápido do que é habitual.

 

O dia prometia ser difícil

 

O dia anterior tinha sido particularmente cansativo devido à ajuda que demos a trazer a carga da Verónica e, muito especialmente, devido ao ritmo da nossa passada ter baixado para um frequência que não era a nossa. Quando se abdica do seu próprio ritmo, para se condicionar ao ritmo dos outros, é o desastre total, em termos de esforço; por isso, decidimos que, naquele dia, eu, a Mónica e o António tomaríamos o nosso ritmo, enquanto os no os amigos espanhóis tomariam o deles. É evidente que pararíamos durante o trajeto sempre que alguma ajuda fosse necessária. Decidido isso entre nós os três, pusemos os pés ao Caminho rapidamente.

 

À saída do albergue, virámos para o jardim central, onde estava um café aberto, e tomámos um rápido pequeno- almoço, sempre composto de café e torradas. Logo após saímos e entrámos nas ruas velhas que seguem o Caminho de Santiago. Entretanto, não se viam os nossos amigos espanhóis. 

 

A viagem dentro de mim era ainda noite cerrada. À frente, e a bom ritmo, seguiam a Mónica e o António, conversando alegremente. O silêncio era total. Só as  palavras deles, da conversa que entabulavam, é que se perdiam no bosque. Após o rio Barrosas, passámos a povoação do mesmo nome, seguimos por Laberco, onde observámos um nascer do sol maravilhoso,

 

 

com os raios a rasgarem o horizonte em caprichosos tons de laranja, como se subissem num vórtex até ao infinito.

 

 

Ficámos a gozar este deslumbramento fantástico durante muito tempo. Os laranjas passaram a amarelos e, por fim, rebentou tudo em luz com a chegada do sol, vendo-se, nitidamente, os «rastos» do trajeto do tráfego aéreo.

 

 

Saímos do sonho e voltámos a entrar no Caminho. Seguiu-se a passagem de Raido, com o rio do mesmo nome. Aí decidi, imprimindo um passo mais estugado, deixar para trás os meus amigos. Foi o meu momento. Era nesta altura que tinha de fazer a minha grande viagem introspetiva. Iam-se sucedendo aldeias, trilhos lamacentos, vacarias, caminhos cravados de bosta e cheiro no ar, galinhas a fugirem à minha frente, regatos de água... e eu sempre virado sobre mim mesmo! Uma ou outra vez ou outra parava, aguardando pelos meus amigões e, quando chegavam ao pé de mim, voltava a seguir a minha marcha.

 

Neste troço, as aldeias são muito sui generis - colocadas em fila indiana, ligadas por ruelas estreitas, onde só passam pessoas ou juntas de bois. Aqui e ali vê-se um carro ou alguma pessoa a «fugir» furtivamente do frio que ainda fazia naquela manhã. Compreendia-se, porque era domingo, dia de descanso e da família. Das chaminés saia um fumo caprichoso que subia na vertical até se dissolver no azul.

 

As aldeias sucediam como contas de um rosário

 

Entre bosques frondosos de eucaliptos e carvalhos e zonas fortemente rurais

 

 

de aldeias pequeniníssimas,

 

 

foram-se sucedendo Fondevila, Cortobe, Pereiriña, que desce até ao rio Ladrón. Fiz mais um compasso de espera pela Mónica e pelo António. Após nos reagruparmos, continuei a minha marcha por Tabernavella, Calzada, Ferreiros, Calle até ao rio Langüello, onde fiquei a espera dos meus dois companheiros de novo. O tempo começou a aquecer e a unha do dedo grande do meu pé direito começou a magoar-me. Tive de parar.

 

 

Sentia-me cansado, mas particularmente feliz. Num banco, feito à minha medida, sentei-me, descalcei-me e pus os pés ao léu. Novamente a Mónica e o António usaram os seus dotes natos e trataram-me do pé, fazendo um trabalho de mestre. Lá nos metemos a Caminho, agora todos juntos. Seguiu-se Boavista e Alto até Salceda, onde se encontra o monumento ao peregrino morto durante a peregrinação a Santiago.

 

O dia das homenagens

 

Fizemos em conjunto uma oração interior em homenagem a sua pessoa e ao descanso da sua alma. Estávamos num bosque de eucaliptos. Voltámos ao Caminho. Seguiram-se as aldeias de Xen, Ras, Brea, (a 23 Km de Santiago de Compostela), Rabiña, Empalme e Santa Irene. Aqui abrandámos um pouco. O lugar, pela Santa, tem a ver com Portugal e a sua Santa Irene. Não resistimos a fotografar a sua fonte

 

 

e a singela capela,

 

 

numa espécie de homenagem a uma outra portuguesa que nos acompanhava,

 

 

com um sorriso nos lábios, sempre.

 

 

 E, finalmente, entrámos em A Rua (a 19 Km de Santiago de Compostela). Aqui alguns algum património já em ruína. Restam apenas os «pergaminhos», esculpidos neste escudo.

 

 

A fome estava a apertar imenso. Decidimos mimar-nos com um excelente almoço no restaurante Acivro pertencente a um empreendimento turístico de habitação. Foi o corolário do esforço deste dia. Comemos crepes de marisco, vitela estufada, um vinho excecional, que nos deu alento suplementar, e rematámos com um doce excelente, seguido de um «café solo».

 

Enquanto estávamos no lauto almoço, vimos passar, um a um, os holandeses e os nossos amigos espanhóis. Ficámos à conversa durante um bocado e, lentamente, saímos para uma foto de circunstância, tirada pelo dono do restaurante.

 

 

A distância entre nós e os dois grupos da frente era enorme.

 

Novamente metemo-nos a Caminho e esperávamo-nos o pedaço mais áspero da jornada até ao Monte do Gozo. Começámos em bom ritmo. Passámos Burgo e, no bosque, à chegada de Arca do Pino, reagrupámo-nos com os nossos amigos espanhóis. Manifestavam muito cansaço. Susana, a mulher do Vicky estava à espera, junto do complexo polidesportivo, para almoçarem, todos em conjunto, uma «comidinha» trazida por ela. E nós continuámos a nossa marcha, passando por San Antón e Amenal, atravessando o regato com o mesmo nome, Alvite e Cimadevila.

 

O rabo é o mais difícil de esfolar

 

Parei a descansar um pouco à sombra duma azenha antiga, junto a um regato. Mal sabia eu que me aguardava uma extensa e difícil subida até ao extremo da pista do aeroporto de Lavacolla. E assim foi, trilho acima por uma vereda quase sem vegetação, de solo coberto de pequenos «calhauzinhos» rolantes, com terra empobrecida pelos eucaliptos outrora plantados, e de muito forte pendente e de longuíssima extensão, que parecia nunca acabar!

 

Por várias vezes parei para refazer o ânimo. Lá à frente seguiam, em passo de juventude, a Mónica e o António.

 

E eu, gemendo e arfando, encosta acima, ia fazendo paragens de permeio. Por várias vezes os meus bons amigos voltaram atrás para me tentarem ajudar. Recusei. No cimo do planalto, ficámos no topo da pista de Lavacolla. Era o sítio ideal para pararmos e refazermos as nossas energias. E tirarmos fotos juntos deste belo marco jacobeu.

 

 

Logo a seguir, a descida leva-nos a San Paio, (com a sua igreja),

 

 

Mourentán e Lavacolla, onde parámos para tomar uma deliciosa “bejeca”.

 

Passado um pedaço, vimos passar o Vicky, sozinho. Saímos de imediato. Adiantei-me. Chamei-o para vir connosco.

 

Passámos o rio Lavacolla, onde, reza a história, os peregrinos se banhavam totalmente para chegarem limpos junto da imagem do Apóstolo. Mas só conseguimos apanhar o Vicky junto à N-634. A partir dali, acompanhou-nos até final. Mais atrás, os restantes seguiam em passo mais brando – a Maria José, o Adrian, a Alba e a Verónica.

 

O troço final, até ao Monte do Gozo, é particularmente desgastante: subidas e descidas e um final longo com uma estrada sem fim. Após Vilamaior, segue-se uma subida curta, mas muito inclinada, e depois as retas, por entre um caminho florestal que passa junto aos estúdios da Televisão da Galiza, onde eu pensava que era o albergue.

 

Contudo, o albergue está a mais 4 Km à nossa frente! Eu e o Vicky estávamos desesperados... mas não claudicámos. Continuámos a nossa marcha até que, ao entrarmos em San Marcos, vimos, lá ao fundo, o Monte do Gozo!

 

No topo, a modesta capela de São Marcos,

 

 

com o seu singelo campanário.

 

 

E mal reparava no monumento comemorativo da peregrinação o Papa João Paulo II a Santiago,

 

 

razão pela qual foi construído o enorme pavilhão-albergue onde iriamos pernoitar.

 

Entretanto,

 

 

o sol começa a pôr-se.

 

Por fim o Monte do Gozo

 

Do grupo, eu e o Vicky fomos os primeiros a chegar, logo seguidos, de imediato, da Mónica e do António. Um pouco mais distantes, a Maria José, a Alba e a Verónica – verdadeiras heroínas. Estávamos todos muito cansados e alagados em suor. Após as formalidades na receção, ofereceram-nos uma camarata só para o grupo. Era como se tivéssemos a missão cumprida. Demos asas à nossa grande alegria. Fomos para a casa de banho e, à brincadeira com o Adrian, ofereci-lhe espuma da barba e uma «gilette» nova para ele se escanhoar. Era a primeira vez que iria «fazer a barba»! Envergonhado, foi a brincadeira geral a que ele se prestou, alinhando alegremente.

     

Depois de nos vestirmos, seguimos para o restaurante daquele grande complexo para uma jantarada conjunta, entre muita galhofa e alegria, partilhada por todos.

 

Foi um fim de tarde magnífico, após um dia com uma estirada muito longa e particularmente difícil. A lembrança de todas aqueles «memoriais» daqueles peregrinos que, neste Caminho, deixaram as suas vidas, estava muito fixa no meu pensamento. No firmamento desciam longos raios azuis: estavam lá todos aqueles que já se foram e, com lágrimas nos olhos, despedi-me do dia.

 

Enquanto esperávamos, estava a dar futebol na televisão. Os espanhóis são particularmente «fanáticos» por esta modalidade, sem distinção de classes, géneros e idades. O que, aliás, diga-se de passagem, também se passa connosco, varrendo, transversalmente toda a sociedade.

 

Enquanto estavam todos distraídos a ver o jogo de futebol, mandámos vir umas cervejas para animar a festa. O Adrian, que estava perto de mim, bebeu um trago do meu copo. Depois outro e outro, sempre com o olho na mãe, por causa da censura. Estava radiante. Nascia ali um homenzinho!

Após o jantar, voltámos ao albergue, cavaqueando entre todos.

 

Já era tarde e estava exausto.

 

Após uma breve leitura do meu livro de cabeceira, apaguei a luz, virei a cara para o lado e, antes de adormecer, lembrei-me outra vez de todos aqueles peregrinos que faleceram pelo Caminho...

 

 

Texto - Emídio Almeida (adaptado)

Fotografia - António de Souza e Silva

 

Deixamos agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo filme/diaporama desta 5ª etapa de Arzúa a Monte do Gozo para visionamento dos (as) nossos (as) leitores (as).

 

[Nota:- Para ouvir o Filme/diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog].

 

 


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Quarta-feira, 23 de Abril de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - 4ª etapa - Palas de Rei-Arzúa

 

CAMINHO FRANCÊS DE SANTIAGO

 

4ª etapa:- Palas de Rei-Arzúa, com passagem por Melide

 

20. Dezembro. 2008

 

 

Apesar de não ser indicada no Liber Sancti Iacobi,

Melide foi uma importante estação no Caminho de Santiago,

como demonstram tanto as suas duas igrejas românicas,

como os seus monumentos.

O seu topónimo vem do nome Melitus ou Melito,

nome do seu primeiro possuidor na época visigótica

ou altomedieval, o que denota certa modéstia nas suas origens.

Sem dúvida que as peregrinações e a sua posição privilegiada

no Caminho, conferiram a Melide a sua posterior importância:

 efetivamente, nela se reincorporaram ao Caminho Francês

 tanto os peregrinos que tinham evitado o Cebreiro, d

desviando-se até Lugo, por exemplo, Kuning von Vach,

no século XV,como os numerosíssimos que,

em Leão, tomaram a decisão de visitar São Salvador,

em Oviedo.

 

(Tradução livre do El Camino de Santiago - Guía prática del peregrino,

de José María Anguita Jaén, Editorail Everest, Coruña, 2004)

 

 

 

Às 6:30 horas, ao toque do despertador, acordei com menos vivacidade do que me é habitual. Levantei-me com todas as calmas; fui à casa de banho; vesti-me lentamente; arrumei a mochila com o maior ripanço; bebi um iogurte que tinha ficado de véspera e desci para o andar inferior, com todas as calmas. Parecia que estava anestesiado. E ali fiquei um bom bocado à espera dos meus companheiros de jornada - Mónica e António.

 

Os nossos amigos espanhóis foram descendo e, passado um pedaço, eu, a Mónica e o António abandonámos o albergue. Pouco passava das 7:00 horas. Cá fora estava escuro como breu.

 

A lanterna pregou-me a partida

 

Como nos dias anteriores estava muito frio e havia gelo sobre o piso, era preciso andar com todas as cautelas.

 

Saímos pelo Campo dos Romeiros. A minha lanterna de testa não estava a funcionar bem. O mais provável era que as pilhas estivessem já quase esgotadas. A luz que emitia era tão fraca que decidi guardá-la na mochila.

 

A Mónica e o António iam à minha frente, cavaqueando e rindo. Eu tive que acelerar um pouco mais para não perder a ligação e conseguir ver onde punha os pés, guiado pelas luzes deles.

 

 

Saímos da estrada, logo após passarmos o rio Róxan, seguimos por Alto e, logo após a aldeia de San Xulian do Camiño, o primeiro trilho estava coberto de água, obrigando-me a andar em constante equilíbrio sobre uma vereda de pedras. Ainda não havia luz natural suficiente. Era ainda demasiado cedo e, como estávamos dentro dum bosque,

 

 

a luminosidade era ainda menor.

 

Começámos então a ouvir vozes à nossa frente. Eram os nossos amigos espanhóis que circulavam num ritmo mais lento. Rapidamente os alcançámos.

 

À nossa passagem, o Adrian – filho da Maria José – decidiu acompanhar-me.

 

 

Nos dias anteriores foi muito tímido e pouco comunicativo. Talvez estivesse a estudar o comportamento de cada um de nós. A partir daquela altura, nunca mais me largou até à chegada a Santiago de Compostela. É um jovem muito interessante e, durante todo o tempo, foi falando do seu passado, da sua família e dos seus sonhos. Sonhos esses que ficaram só entre nós.

 

O Caminho seguia um interessante trilho florestal de árvores de folha caduca pertencentes ao vale do rio Pambre. Estava muito frio e fazia muita humidade. Com o meu amigo Adrian, entrámos num bom ritmo e galgámos os primeiros quilómetros com facilidade. As nossas conversas foram-se sucedendo aso mesmo ritmo que iam passando as aldeias e, com isso, ganhámos uma empatia que penso não se ter partido.

 

O troço entre Palas de Rei e Arzúa é conhecido pela água dos ribeiros e dos quebra-pernas. Durante o nosso trajeto, atravessámos oito veios de água – rio Pambre, rio Porto, rio Seco, rio Furelos, rio Lázaro, rio Barreros, rio Boente e rio Iso. E estávamos conscientes de que seria um troço muito complicado, em termos de subidas e descidas, pelos montes da Galiza.

 

 No meio da conversa foram sucedendo-se os povoados de Aldea de Riba, Gailoa de Riba, San Xulain e Pontecampaña.

 

Entretanto, eu e a Mónica fomos para a frente do grupo e, no cruzamento de Graña, com várias setas alternativas, enganámo-nos: seguimos a seta errada que estava desenhada, por malvadez, no chão, apontada para o lado esquerdo, em tamanho gigante. Custou-nos perdermos cerca de meia hora, entre o ir e vir, até irmos dar ao cruzamento.

 

Quando chegámos, todo o grupo nos esperava, junto da Casa de Turismo Rural de los Somoza.

 

 

Perto da casa, este bonito «cabazo»

 

 

e o «lettering» da Casa Rural.

 

 

Adrian estava à nossa espera sentado num tronco cortado de uma árvore, em bela pose fotográfica.

 

 

 

Dei uma ajuda à Verónica

 

Pusemo-nos novamente em marcha.

 

Reparei que a Verónica seguia em grande sofrimento.

 

 

As botas que calçava eram inapropriadas para uma caminhada daquelas. Eram-lhe apertadas e, tanto a sola como o revestimento, eram de materiais muito rijos. Se não fosse a sua grande perseverança, decerto teria desistido. Contudo, a sua força interna inabalável e um compromisso superior deu-lhe alento para continuar até ao limite.

 

Embora Verónica se opusesse, logo a seguir a Casanova, peguei-lhe na mochila e coloquei-a nos meus braços, virada para a minha frente. Emprestei-lhe os meus bastões e, assim, caminhámos, lado a lado, conversando.

 

Com o ritmo mais lento do que o desejado, passámos Porto do Bois, Campanilla e seguimos por um bosque de eucaliptos até alcançar Coto.

 

O peso adicional e a dificuldade em respirar – a mochila tapava-me frequentemente a boca – não me permitiu continuar para além do rio Seco, depois de atravessarmos uma ponte medieval, de um só arco,

 

 

a seguir a Leboreiro (Campus leoparius) – terra rica pela abundância de lebres.

 

António, na sua tarefa de repórter do grupo, não perdeu a oportunidade de tirar uma foto à igreja românica de Santa Maria, do século XIII,

 

 

e a este precioso pormenor do tímpano da fachada principal,

 

 

onde está esculpida a bela figura da Virgem com o menino.

 

Mas a solidariedade entre todos é um dos traços mais nobres e mais bonitos das caminhadas. Desde logo, o António e a Mónica decidiram passar um bastão por dentro das alças da mochila e carregaram-na até próximo de Melide. A Verónica, para não perder a ligação, arrastava-se junto de nós.

 

Após passarmos o Polígono Industrial da Gándara e a aldeia de Piñer, descemos bosques cerrados, passando por Disicabo, que nos levou à ponte medieval de quatro arcos, por onde passa o rio Furelos,

 

 

afluente do rio Ulla, e à aldeia do mesmo nome.

 

Aí parámos a descansar e a aliviar as roupas. O suor escorria pelo corpo. Aqui, ainda tivemos oportunidade de observar um bocadinho a «desmancha» de, «com sua licença», o porco,

 

 

feita também à boa moda transmontana. Os costumes são idênticos. Razão pela qual o António tanto gosta de, a estas terras do Norte de Portugal e Galiza, lhes chamar «Gallaecia», a que veio da cultura castreja e dos romanos.

 

Pusemo-nos novamente em marcha, por entre casas baixas e ruas estreitas. Dois quilómetros à frente apareceram-nos as primeiras casas da vila de Melide e o marco jacobeu, a indicar-nos que ainda nos faltam 51 Km para chegarmos a Santiago de Compostela.

 

 

Melide tem 4 800 habitantes. Fervilhava de transeuntes. Era sábado e, no jardim da praça principal, decorria uma demonstração dos bombeiros municipais, com um pequeno simulacro de incêndio. As crianças assistiam entusiasmadas a toda aquela ebulição. Estava um belo dia de primavera.

 

Melide está na vertente ocidental da serra de Careán. É ponto de confluência dos Caminhos Primitivo e Francês. E o centro geográfico da Galiza. 

 

Ainda faltam cerca de 15 km

 

À exceção do António e da Mónica, que se apresentavam com uma energia fantástica, todos os outros, eu inclusive, sentámo-nos nos bancos do jardim, de costas para o acontecimento, a fim de refazermos as forças para a restante caminhada que nos esperava: estávamos a 15,05 km do albergue de Arzúa.

 

Com um cansaço e uma preguiça imensa, pusemo-nos em marcha pelas ruas movimentadas àquela hora do dia.

 

Íamos seguindo as setas indicadoras do trajeto, por entre ruelas e becos, até que o António e a Mónica decidiram ir visitar a bela igreja de San Pedro,

 

 

que apresenta, na sua fachada, esta imagem de S. Francisco.

 

 

No seu interior estes dois bonitos retábulos: um, de um altar lateral;

 

 

o outro, do altar-mor.

 

 

O que resta das instalações do antigo mosteiro de S. Francisco está hoje ocupado pelo Museu das Terras de Melide. Na praça do Convento, onde se localiza a igreja de S. Pedro e o Museu, está a Casa do Concello.

 

 

Passámos pelo albergue de Melide, onde um «memorial» nos dá conta que, aqui, um peregrino acabou a sua «caminhada terrestre».

 

 

A Verónica parecia um pouco mais aliviada, embora com dificuldades. A Alba também apresentava dificuldades.

 

O pai (Vicky) teve que lhe dar uma ajuda, carregando a mochila também por algumas vezes.

 

Descemos Melide em direção a um bosque muito cerrado, passando por Santa Marta, Carballal, Raido.

 

Passámos o rio Parabispo; o rio Lázaro; o rio Barreros e o regato Valverde.

 

 

Daqui,

 

 

seguimos para Peroja e Boente, descendo em direção ao rio com o mesmo nome. Eram aldeias e lugarejos vazios de pessoas, que nos sucediam a bom ritmo.

 

 

 Ao fundo duma descida íngreme, num bosque de eucaliptos, parámos junto a uma fonte de água corrente. Estávamos todos exaustos da jornada. Aproveitámos para descalçar as botas e lavar os pés e a cara. Refrescámo-nos um pouco. E por ali ficámos uns bons minutos a ganhar alento.

 

O Adrian continuava a ser o meu companheiro de viagem. A partir desta fase, começaram a suceder-se ininterruptamente subidas e descidas. Para acompanharmos a Verónica e a Alba, abrandámos o ritmo. Esta passada mais lenta foi fatal! Foi-nos destruindo as energias e inutilizando as pernas. Parece que nunca mais chegávamos ao destino.  

 

Ficamos já aqui?

 

Os «sobe e desce» iam desesperando o grupo que, lentamente, galgava quilómetros.

 

Passámos com dificuldade as sinuosidades de Castañeda, Pomarino, Pedrido, o regato Liberal e dirigimo-nos a Ribadiso da Baixo.

 

Ribadiso da Baixo é um local paradisíaco, com a ponte sobre o rio Iso a correr bucolicamente junto ao albergue,

 

 

que outrora fora o hospital de San Antón de Ponte de Ribadiso (séc. XV) servindo de apoio a peregrinos.

 

 

O grupo começou a questionar-se se não seria melhor pernoitarmos ali. Parámos para tomar uma decisão.

 

Estávamos a 5,8 km de Arzúa. Parar ali faria que a etapa do dia a seguir, até Monte do Gozo, fosse de 43,3 km. Seria uma verdadeira loucura! Então, após um pequeno descanso, optámos pela decisão mais acertada - continuarmos.

 

Aguardava-nos o troço final – o rabo é sempre o mais difícil de esfolar – com fortes subidas.

 

Após Lena de Arriba, demos de caras com uma reta sem fim, à entrada da parte nova vila de Arzúa.

 

Estava muito cansado e apetecia-me desistir. Enquanto os outros avançavam penosamente, fiquei parado ali na meia encosta, com o suor a escorrer-me por todos os poros e a respiração ofegante. Para ganhar alento virei os meus olhos ao céu em busca de um incentivo. Passados breves instantes, dentre pequenos rolos de nuvens dispersos no horizonte, surgiu uma autoestrada de raios violetas. Eram os sinais que eu precisava para vencer, com ganas, a minha temporária derrota. Bebi um gole de água, cerrei os dentes e pus-me novamente a Caminho. Acelerei o passo e, passado pouco tempo, estava novamente ao lado dos últimos do meu grupo.

 

A meio da reta, junto à bomba da gasolina Repsol, estava a esposa do Vicky, e mãe da Alba, Susana, a perguntar-nos se o marido e a filha ainda vinham muito longe. Dissemos-lhe que não.

 

Ao chegarmos à primeira cervejaria de Arzúa, parámos para beber e reagrupar os restantes elementos.

 

Voltámos a meter pés ao Caminho à procura, numa estrada sem fim, de um albergue, escondido algures.

 

Por fim o albergue

 

Eu e o Adrian fomos acelerando o passo até ao limite, no desejo de rapidamente nos despirmos, tomarmos banho e pormos fim a jornada do dia. Estávamos, positivamente, rebentados.

 

Na parte velha, ao fundo da rua, eis, enfim, o albergue!

 

 

Começava a anoitecer. Eram perto das 18:30 horas. Foi a etapa mais sofrida de todo o trajeto.

 

Para aquilo que esperava, não estava assim tanta gente no albergue. Decerto alguns estariam bem mais atrasados. Provavelmente chegariam mais tarde.

 

Arzúa recebe todos os peregrinos que percorrem os Caminhos Francês, Primitivo e do Norte.

 

A vila tem 2 400 habitantes. Possui uma parte antiga interessante. O albergue fica num edifício muito antigo, mas com uma construção restaurada.

 

Após o banho, foi a hora de tratar os pés e as pernas dos nossos amigos espanhóis. Estavam uma lástima, em especial os da Verónica e os da Alba. Os pensos de Compeed faziam uma amálgama com a pele dos pés. Tivemos de nos socorrer dos nossos amigos holandeses, que eram enfermeiros que, imediatamente, se propuseram fazer o trabalho de recuperação. Foram excelentes. Após um breve descanso, decidimos ir todos jantar ao restaurante.

 

Perto do centro, encontra-se uma pensão já fechada, embora se visse gente lá dentro. Batemos e explicámos que pretendíamos jantar. Depois de um pequeno diálogo, e alguma hesitação, propuseram-se fazer-nos o jantar. Comemos muitíssimo bem, direi mesmo, aquele foi o local onde comi melhor em todo o Caminho. A vitela estufada estava tenra e saborosíssima. Todo o acompanhamento foi a primor. O preço... Bem, o preço, embora não escandalizasse, podia ter sido mais generoso!

 

Como já era tarde e fazia um ventinho de rachar, decidimos ir para o albergue descansar.

 

O albergue tinha a luz do teto com uma intensidade muito reduzida, o que convidava imediatamente a descansar. E assim fomos, lentamente, um a um, todos adormecendo. Em breve começou a sinfonia do ressonar, onde quase todos roncavam a compasso, numa orquestração de perfeito desassossego, embora pense que eu também tenha ensaiado com o grupo algumas notas da peça musical daquela noite.

 

Se contribui, não me recordo, acreditem!

 

 

 

Texto - Emídio Almeida (adaptado)

Fotografia - António de Souza e Silva

 

Deixamos agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo filme/diaporama desta 4ª etapa de Palas de Rei a Arzúa para visionamento dos (as) nossos (as) leitores (as).

 

[Nota:- Para ouvir o Filme/diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog].


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Segunda-feira, 21 de Abril de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - 3ª etapa - Portomarín-Palas de Rei

  

CAMINHO FRANCÊS DE SANTIAGO

 

3ª etapa:- Portomarín-Palas de Rei

 

19. Dezembro. 2008

 

 

 

Palas de Rei deve o seu nome ao Palácio do Rei Visigodo Witiza,

                que teria reinado entre os anos 702 e 710.

                Foi aqui que este rei visigodo matou Favila,

 Duque da Galiza e pai de Pelayo.

Contudo, a história de Palas de Rei começa muito antes.

Existem numerosas evidências de antigos assentamentos,

cujos restos perduraram até aos nossos dias,

mostrando-nos peças de enorme valor,

como o «torques» de prata de San Xusto.

Os romanos atravessaram este território

com uma das suas mais importantes vias,

que unia Lugo a Iria Flavia, deixando uma amostra

da sua afamada arquitetura na Ponte Ferreira.

                                Mas, foi graças ao Caminho de Santiago, na Idade Média, já referido no Liber Sancti Iacobi,

 que Palas de Rei alcançou a prosperidade e adveio o seu nome, pela via francesa. 

Dessa época é o magnífico Mosteiro de S. Salvador,

de Vilar de Donas, na rota jacobeia do Caminho.

 

(Tradução adaptada do Facebook:- Galicia pueblo a pueblo- 2014)

 

 

 

Prontos para um novo dia

 

Nesta noite dormi duma forma um pouco sobressaltada. Ao primeiro toque do despertador, ergui-me de imediato: eram 6:30 horas. Toda a gente dormia profundamente e alguns ainda ressonavam forte. Como para mim o sono é um bem sagrado, peguei nos meus artigos de higiene, na toalha e, pé ante pé, desci as escadas para o andar inferior, onde ficam os balneários.

 

Quando voltei à camarata, chamei o António e a Mónica. E começou a breve agitação que acabou lentamente por acordar todo o grupo que se encontrava naquela sala: nós os três e os recém-chegados espanhóis que tínhamos contactado no dia anterior. Para não fazer muito barulho, trouxe o resto da minha roupa para fora da camarata, onde acabei por me vestir. Quando voltei lá dentro, para buscar o restante material e guardá-lo na mochila, já toda a gente estava de pé nos preparativos para arrancar.

 

Pelas janelas verifiquei que o dia ainda não tinha nascido: só se viam os raios azulados da lua. Apurei melhor a vista e reparei que não haviam nuvens no céu, nem sequer vento a vergar as árvores. No entanto, prometia muito frio porque, o pouco que via das ervas, estava atapetado de branco.

 

Avisei os restantes companheiros do estado do tempo e de alguns cuidados a ter com o frio.

Vesti-me a rigor, em função da experiência dos dias anteriores.

 

Quando o António e a Mónica acabaram de se trajar a rigor, despedimo-nos dos outros:

 

- Bueno Camino!

 

E saímos.

 

Ganhamos novos amigos

 

Na praça principal, em frente ao Ayuntamíento, nas arcadas que envolvem os edifícios do topo sul da praça, estava o único café aberto. Entrámos para tomarmos o pequeno-almoço. Passado poucos minutos, entraram os nossos recentes amigos para fazerem o mesmo. Durante o tempo de espera, batemos umas fotos e trocámos endereços eletrónicos.

 

 

Iniciava-se, ali mesmo, uma salutar amizade entre todos. E, como se dará conta mais adiante, perduraria até ao fim do Caminho.

Ficámo-nos a conhecer melhor:

 

De Portugal

  • António de Souza e Silva, residente em Chaves;
  • Mónica Botelho, residente em Matosinhos/Porto;
  • Emídio Almeida, residente em Lisboa.

De Espanha

  • Juan Ruibal (Vicky), residente em Caldas de Reis;
  • Alba Ruibal (Alba), residente em Caldas de Reis;
  • Maria José Tronchoni (Maria José), residente em Valência;
  • Adrian Tronchoni (Adrian), residente em Valência.

Da Venezuela

  • Verónica Avilés, residente em Madrid.

 

Após tomarmos o pequeno-almoço, os dois grupos despediram-se e partiram separados.

 

De novo pés ao Caminho

 

O nosso grupo foi o primeiro a pôr-se em marcha. Tínhamos consciência que esta etapa representava algumas dificuldades, dado que cerca de 20 Km eram a subir.

 

Descemos a estrada que nos levava às pontes que servem de passagem sobre a albufeira da barragem. Pessoalmente, optei pela rodoviária, enquanto a Mónica e o António seguiram pela pedonal. À saída das pontes, entrámos num bosque de eucaliptos, onde começa a primeira subida do dia, com forte pendente, até apanharmos a estrada LU-633, que nos vem perseguindo já desde O Cebreiro. As subidas são o meu calvário e aí a minha velocidade baixa de forma gritante. O António e a Mónica, sempre generosos, quando chegavam ao cimo, esperavam por mim, dando-me alento. Em boa verdade, reconheço que o peso dos meus 57 anos fazem-se sentir efetivamente nas subidas.

 

Fomos conversando e descobrindo-nos uns aos outros cada vez mais. Falámos abertamente da vida, das vitórias e das derrotas que cada um carrega no seu fardo. Todos demonstrámos a maior atenção e compreensão pelos problemas de cada um.

 

Durante largo tempo tivemos que circular pela berma desta estrada enquanto outras vezes o Caminho seguia um trilho paralelo durante muitos quilómetros. E, assim, fomos atravessando as povoações de Cerâmica, Cortapezas e Toxibo, todas com fortes subidas.

 

A LU-633 não nos larga

 

A partir de Gonzar, e logo a seguir ao regato de Balacedo, circulámos alternadamente entre estradas de aldeia e a LU-633, passando por Castromaior (a 81 Km de Santiago de Compostela) até Hospital da Cruz, onde outrora existia um hospital para peregrinos. Embora estando muito frio, estávamos a suar e parámos para bebermos uma boa cerveja para arrefecer o corpo e consolar a alma. Como a fome apertava, decidimos comer uns «bocadillos». Rematámos com nova cerveja, seguida de um café.

 

 

Mais reconfortados, voltamos ao Caminho.

 

Cada um tentou adaptar-se ao ritmo próprio de modo a tornar menos penosa a caminhada. Sinto-me, por vezes, confortável quando caminho sozinho com os meus pensamentos e as minhas energias.

 

Abandonámos então a LU-633 e entrámos na C-535. Aqui a estrada era toda nossa.

 

 

Passámos por aldeias sem fim, ao longo de todo o trajeto, que não trouxeram nada de novo ao que já conhecíamos de outras paragens em terras galegas. Seguimos por Ventas de Narón,

 

 

Prebisa e, ao quilómetro 13, subimos a desflorestada serra de Ligonde.

 

 

Seguimos por Lameiro, com destaque para o cruzeiro de Ligonde, com uma bela cruz medieval, Eirexe, onde se encontra o mosteiro de Vilar de Donas, do século XIII, (a 71 Km de Santiago de Compostela) pertencente à Ordem de Santiago, que é a mais importante igreja das vinte que se encontram no município de Palas de Rei, depois Portos, Lestedo,

 

 

com um pormenor da sua «rectoral»,

 

 

e Vilaxuán.

 

Água por favor

 

 

 

O dia estava particularmente bonito, com um azul forte, e a temperatura estava amena, desprendendo-se do sol brilhante. Despi o anorak e retirei o gorro, que troquei por chapéu de abas largas. A sede começou a apertar e, incrivelmente, ninguém já levava qualquer gota nos cantis: era urgente arranjar água para beber.

 

À entrada de Valos, há uma pequena fonte por onde passámos mas sem termos o impulso de encher os cantis, de tão absortos que íamos nos nossos pensamentos ou na conversa. Fiquei, no entanto, com o meu subconsciente a exigir-me água. Cem metros mais à frente, perguntei a uma senhora velha, que se cruzou comigo, onde haveria água para beber e encher o cantil. Aconselhou- e a prosseguir Caminho porque haveria de encontrar uma nascente com água de muito boa qualidade cerca e quinhentos metros mais à frente. Depois de muito andar, deparei-me com um lavadouro de roupa, com água suja de lavagens, impossível de beber.

 

Paramos os três a descansar à sombra duma árvore velha como os tempos.

 

O exemplo do Bom Peregrino

 

Ao longe aproximava-se um jovem com mochila às costas. Trazia o mínimo para sobrevivência numa caminhada: uma velha mochila já rota lateralmente, botas inapropriadas, tendo cordéis de sisal como atacadores; não trazia qualquer proteção para a chuva ou agasalho para temperaturas baixas; na mão só um pequeno recipiente para transportar água; e um grande sorriso nos lábios.

 

Ao cruzar-se connosco, perguntámos-lhes quem era. Ficámos espantados! Era equatoriano, viva em Espanha, e vinha de Finisterra a Caminho de Lourdes, com passagem por Santiago de Compostela. Todo ele irradiava felicidade e muita fé. Dissemos-lhe que n’O Cebreiro iria provavelmente apanhar muito mau tempo, com neve e temperaturas baixas. Sorriu dizendo que com fé não há obstáculos. E partiu feliz. Acenámos e desejamos-lhe:

- Bueno Camino!

 

Voltámos à nossa marcha. Seguiram-se os povoados de Mamurria, Brea,

 

 

Rosário (a 67,5 Km de Santiago de Compodstela) e, por fim, descemos para Palas de Rei, cujo nome advém do palácio que aqui possuía um rei godo de nome Witiza. Mónica chegando aos subúrbios da vila,

 

 

passando por um grande complexo desportivo - Os Chacotes,

 

 

que também serve de albergue no verão. Parámos para nos certificarmos se era ali que iríamos ficar, quando um carro, que seguia na estrada, se aproximou de nós e, simpaticamente, o seu condutor disse-nos que o albergue era mais à frente, no centro da vila.

 

Por fim, Palas de Rei

 

Palas de Rei, a 66 Km de Santiago de Compostela, é uma vila com cerca de 800 habitantes que esteve desde sempre ligada ao Caminho de Santiago,

 

 

constando da décima terceira parte jornada do Codex Calixtinus.

 

Sempre a descer, passámos junto à bela igreja de San Tirso,

 

 

reparámos para a sua fachada principal,

 

 

atravessámos a estrada que passa ao lado do albergue, que se encontra numa esquina dum quarteirão. Como não está muito bem sinalizado, passámos à porta sem darmos por isso. Andámos às voltas e tivemos de pedir ajuda a um habitante para sabermos como chegar até lá. Entretanto, bem no centro, o edifício do Ayuntamiento, bem perto do albergue.

 

 

O albergue

 

 

é uma habitação limpa e arejada com a camarata no primeiro andar. No entanto, os balneários são mistos, sem qualquer privacidade entre homens e mulheres. Por isso, tivemos que nos dividir em dois turnos para evitar a promiscuidade: primeiro, tomei eu e o António; depois a Mónica. A água da caldeira começou com uma temperatura agradavelmente quente mas, após uns banhos, virou para tépida.

 

Como a fome apertava, após o banho e a mudança de toilette, saímos em busca do almoço ajantarado. Fizemos um repasto divinal. Passámos o resto da tarde os três sentados à mesa a comer, a beber e a conversar. Enquanto aguardávamos a refeição, fomos bebendo umas cervejolas frescas e comendo amendoins torrados. Depois veio a refeição propriamente dita que foi degustada lentamente.

 

Antes de voltarmos ao albergue, decidimos ir a um minimercado comprar fruta e iogurtes para aconchegar o estômago ao deitar. Demos então uma volta à zona central mas,

 

 

como o tempo começou rapidamente a arrefecer, voltámos ao albergue para descansar. À porta da entrada estavam os nossos amigos holandeses, deitados sobre as mochilas e sobre as pedras da calçada. Perguntámos se subiriam connosco. Responderam que iriam seguir em frente para ficarem no próximo albergue - San Xiao do Camiño. Despedimo-nos deles e subimos.

 

Novamente juntos

 

À entrada na camarata, deparámo-nos com os nossos cinco amigos espanhóis que tinham acabado de chegar. Tinham tido um esforço muito grande e muitas dificuldades. Em todos eles, os pés apresentavam grandes bolhas nas solas, arrancamento de pele nos calcanhares e dores nas pernas. Era a altura do António, a Mónica e eu tratarmos aqueles amigos.

 

Seguimos os cânones prescritos para situações daquela natureza, isto é, massajei-lhes os pés e as pernas a todos eles, enquanto o António e a Mónica tratavam-lhes os pés pelo método tradicional da linha e da desinfeção. Quem estava a sofrer mais era a Verónica e a Alba, que tinham os pés numa lástima.

 

Após o banho e o tratamento, saíram para a refeição, enquanto nós os três ficámos a camarata a conversar e a ler.

 

Desci ao rés-do-chão ao encontro dos sinais para complemento do meu dia. Sem nuvens no céu é tão difícil descobrir!.. Após algum tempo de espera, surgiu um conjunto de raios vermelhos.

 

Acabara de ser presenteado.

 

A noite aconteceu cedo. Rapidamente tudo ficou escuro lá fora. O frio apareceu novamente.

 

De volta à camarata, os nossos amigos mantiveram uma alegre conversa durante longo tempo, contando as histórias de vida de cada um e os acontecimentos do dia.

 

O António voltou a brindar-nos com o velho Vinho Fino do Douro ao deitar. Todos adoraram o sabor. Até o Adrian, um adolescente, bebeu um pouquito, ficando a lamber os lábios.

 

Como sempre, às 22:00 horas, apagámos a luz para o descanso. Só eu e o António ficámos acordados, a devorar o livro que levávamos de suporte.

 

Mal sabia o que me iria esperar aquela noite!

 

O efeito de Doppler no ressonar do António

 

 Foi a primeira vez que dormi ao lado do beliche do António. Ressonou durante toda a santa noite e, de tal modo, que tive várias vezes de o acordar, batendo-lhe com o bastão de modo a que ele se virasse na cama e acabasse com aquele roncar enfadonho. Na camarata todos iam dando pelo ruído ensurdecedor daquelas narinas a apitar forte como se fosse um comboio a vapor a passar a grande velocidade num túnel. Creio que cheguei mesmo a ouvir alguns silvos junto a uma passagem de nível sem guarda. E foi assim durante toda a noite... Quando recomeçava a pegar no sono, devido ao efeito de Doppler, lá se ouvia, ao longe, duma forma indistinta, o som do comboio a ganhar velocidade e, ao fim de pouco tempo, com as narinas a botar vapor, passava por mim que até o meu beliche parecia estremecer ao compasso de cada silvo. Era como se fosse desesperadamente em busca do tempo perdido.

 

 

 

 

Texto - Emídio Almeida (adaptado)

Fotografia - António de Souza e Silva

 

 

Deixamos agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo filme/diaporama desta 3ª etapa de Portomarín até Palas de Rei para visionamento dos (as) nossos (as) leitores (as).

 

[Nota:- Para ouvir o Filme/diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog].

 

 

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Domingo, 20 de Abril de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - 2ª etapa - Samos-Portomarín

  

CAMINHO FRANCÊS DE SANTIAGO

 

2ª etapa:-  Samos-Portomarín

 

18. Dezembro. 2008

 

(Velho postal de Portomarín, em 1962, com duas mulheres a lavar no rio Minho ao pé do antigo arco medieval da «Ponte Miña»)

 

 

O «EMBALSE» DE BELESAR E PORTOMARÍN

 

Abandonar por obligación el hogar en el que has vivido siempre

y en el que lo hicieron generaciones de antepasados,

donde descansan tus seres queridos, no es fácil de encajar. Te

resistes, intentas luchar por evitar un incierto y dramático destino.

 Pero el futuro del viejo pueblo de Portomarín, hito en la provincia de Lugo

 en el camino de peregrinación a Compostela,  estaba escrito.

La vieja villa jacobea arrullada por el Miño iba a ser engullida por sus aguas

debido a la construcción del embalse de Belesar.

 Casas, huertas, campos de labranza, viñas y siglos de historia,

como en una pesadilla, quedarían sumergidos bajo el agua,

debido a una presa que produciría energía hidroeléctrica.

Esto sucedía en 1963. El 10 de septiembre de ese año

 moría el histórico Portomarín y renacía, en el monte de O Cristo,

el que sería el nuevo Portomarín,

cuyo diseño urbano se debe al arquitecto Pons Sorolla.

La nueva villa, presidida por la iglesia románica de San Juan,

que se trasladó piedra a piedra a su actual emplazamiento desde el pueblo inundado,

 acaba de cumplir cuarenta años. Los mismos años del embalse de Belesar,

perteneciente a Unión Fenosa, una obra de ingeniería

puntera en Europa en su día, con una cola de 54 kilómetros

y que anegó más de 1.820 hectáreas de terrenos,

repartidos entre los municipios de Chantada, Guntín, Paradela, Paramo,

Portomarín, Saviñao y Taboada.

El general Francisco Franco, jefe del Estado entonces, acompañado del presidente de

Fenosa, Pedro Barrié de la Maza, y del gobernador civil de Lugo,

Eduardo del Río Iglesias, junto con otras autoridades,

 presidió la inauguración del pantano y también de la nueva villa de Portomarín.

Las crónicas aseguran que el Caudillo era todo un especialista en inaugurar embalses.

 En el caso de Portomarín, no hubo protestas, sólo silencio, 

rabia contenida y resignación.

Ante el negocio de los voltios,

a quién le importaba que una aldea perdida del

interior de Lugo y unas cuantas familias fuesen desplazadas de sus hogares.

Para los abuelos del lugar, este aniversario no es una fecha para celebrar.

 Cuando las aguas del embalse bajan de nivel en verano,

y asoman a la superficie los restos del viejo poblado,

a los lugareños que allí habitaron, cuando las miran,

todavía se les pone un nudo en la garganta.

 Los recuerdos, en este caso tristes, todavía lastiman

y la cicatriz que llevan en el alma se irá con ellos, sin curar.

Pero la vida sigue y la muerte del viejo pueblo ya no tiene remedio.

 Al actual Portomarín, sólo cuarenta años de vida,

 no le queda más remedio que mirar adelante y encarar el futuro con ilusión.

Vivir en el lamento y el recuerdo triste no sirve de nada.

El Portomarín del monte de O Cristo

tiene que cumplir, con orgullo, mil años,

como lo hizo el viejo burgo, cuna de Santa Ilduara.

 

Ángel Árnaiz. Correo gallego (2002).

(http://www.galeon.com/paira/portomarin3.htm)

 

 

A vingança é terrível

 

Às 6:00 horas da manhã acordei sem que fosse necessário o despertador do meu relógio tocar. E decidi chatear os meus amigos – a vingança é terrível - e serve-se fria. Estava um friozinho de enregelar as entranhas. Levantei-me e, lentamente, fui buscar a máquina fotográfica, pé ante pé, muito devagarinho, sem fazer barulho; liguei o flash e, enquanto dormiam, fui junto da cara de cada um tirar fotos. Foi o alvoroço total; jogaram-me coisas em cima, impropérios, pragas, etc.. Faziam por tentar dormir um pouco mais, mas era impossível, devido à algazarra. Com pouca vontade, toda a gente se levantou, entre risos e gargalhadas. O ambiente estava ótimo entre todos.

 

Como disse, estava um frio de rachar. Mal deu para escovar os dentes e lavar a cara rapidamente para tirar as remelas dos olhos. A temperatura da água cortava os dedos e partia os dentes. Vestimo-nos rapidamente; tirámos umas fotos dos magníficos murais e tetos; deixámos o donativo e pusemo-nos a Caminho. Esperava-nos uma etapa com subidas suaves e descidas fortes durante todo o percurso.

 

Cá fora o nosso fotógrafo privativo, o António, continuava na azáfama em tirar umas fotos de tudo o que nos cercava e acrescentar outras para o álbum do Caminho,

 

 

mas a imponência do Mosteiro de Samos,

 

 

sob qualquer ângulo que o vejamos, obrigou a uma paragem mais demorada para apreciar a sua arquitetura; a sua implantação no vale circundado pelas serras envolventes; os campos que o debruam, cobertos de geada, o rio Oribio, que corria lento e, naquele dia, estava alegre, com o vapor de água a desprender-se-lhe, subindo no ar à medida que o dia ia aquecendo um pouco.

 

Um pequeno-almoço supipa

 

O gelo e a humidade nos passeios obrigavam-nos a ter, em cada passo, muitos cuidados. Circulámos a toda a volta do mosteiro e, uns metros mais à frente, na curva imediata, parámos para tomar um lauto e belo pequeno-almoço, que foi rematado com um «chupito de hierbas» para a viagem. O céu estava sem nuvens; os primeiros raios de luz do dia iam apagando lentamente, uma a uma, todas as estrelas do firmamento e só a lua, sempre teimosa, lutava por permanecer no firmamento. E assim se manteve por muito tempo... O dia começou a clarear, mostrando o azul cristalino do céu e, à medida que o dia ia avançando, da terra levantava-se uma poalha de humidade

 

 

que deixava tudo branco como se as árvores planassem em cima de nuvens vindas da terra. As ervas dos pastos estavam cobertas por um tecido branco de cristais. O rio soltava, cada vez mais, o vapor da sua respiração e, sobre a sua água, desprendia-se uma almofada branca e uniforme de nevoeiro matinal, cada vez com um ritmo constante e mais acelerado.

 

Ainda assim os trilhos estavam intransitáveis. Continuamos pela estrada LU-633 passando ao largo de Foxos, Teiguín, Bao, Ayán e Frollais.

 

 

O inesperado sempre acontece

 

Perto de Vilasante, o Rui recebeu uma chamada telefónica sobre o estado preocupante do pai, que, do hospital de Chaves, tinha sido transportado para o hospital de S. João, no Porto. Sem hesitar, decidiu imediatamente abandonar o Caminho e partiu com o Tó Quim em busca dum táxi.

 

Pai e filho decidiram partir sozinhos. Foi com muita mágoa que os vimos partir. Perdíamos os dois pilares do nosso grupo. Com o passo apressado, de quem está muito apreensivo e a sofrer bastante por um ente muito querido, rapidamente desapareceram no horizonte à nossa frente, tal o ritmo que empregaram na passada. Felizmente que a situação não era tão grave quanto se adivinhava e, neste momento, o senhor encontra-se perfeitamente recuperado.

 

Ficámos perplexos sem saber o que fazer perante o insólito da situação. Assim eu e o António parámos para decidir o rumo a tomar quanto ao Caminho que tínhamos encetado, visto restarmos só nós os dois.

 

Pu-lo à vontade, se quisesse acompanhá-los que o fizesse, no entanto, eu iria continuar, visto que havia combinado encontrar-me em Portomarín com a Mónica que vinha expressamente do Porto para iniciar o Caminho a partir dali. Face à minha decisão, e visto que o abandono do António não iria trazer mais-valia para os dois amigos que partiam, decidiu, em definitivo, partir comigo.

 

Ganhei um amigo.

 

Em boa hora o fizemos porque entre nós começou a crescer e a consolidar-se uma boa e franca amizade que perdura.

 

Continuámos então até Vilasante, Carballal, Vigo e descemos até à cidade de Sarria.

 

Sarria tem muito encanto, na sua aparente pequenez e fragilidade. Tem cerca de 13 300 habitantes. Mas fascina imenso. O seu nome adveio da tribo dos seurros e ficou definitivamente ligada ao Caminho pela morte do último rei da Galiza, D. Afonso IX, que aqui faleceu em 1230, durante uma peregrinação a Santiago de Compostela.

 

 

Entrámos nesta localidade já a meio da manhã, o que nos permitiu apreciar as ruas delicadamente tratadas e limpas. Passámos sobre a ponte do rio Sarria e subimos a longa escadaria na zona velha, no cimo da qual paramos para fazermos um breve descanso, beber um café

 

 

e recompormo-nos do que tinha acontecido. Conversámos cerca de meia hora, ainda mal refeitos do abandono dos nossos dois companheiros de hoje, pois, em dois dias tínhamos «perdido» três elementos do grupo inicial. Mas, resolutos, voltamos ao Caminho. Atravessámos a Rua Maior, passámos pela Casa do Concello, pelo hospital de San Antón, pela romântica torre do castelo de Sarria

 

 

e pela igreja del Salvador,

 

 

do século XIV.

 

Sarria é, curiosamente, a maior cidade galega atravessada pelo Caminho Francês de Santiago na Galiza e foi escola de trovadores.

 

Sai-se da cidade pelo bairro de San Lázaro e, nos arrabaldes da cidade, logo a seguir ao Mosteiro de la Magdalena,

 

 

descemos a muito inclinada rua da Corga do Asno e atravessámos o rio Pequeño. De seguida, atravessámos a linha do comboio.

 

A vista para o Paraíso

 

Depois da ponte da Aspera,

 

 

entrámos num dos troços mais belos do dia,

 

 

com trilhos em terra batida, muros de pedra, riachos de água cristalina e exuberante vegetação. O bosque que nos envolve forma uma verdadeira montanha russa de subidas e descidas e está repleto de faias, carvalhos, pinheiros e toda a espécie de arbustos em saudável comunhão.

 

 

O sol estava intenso, embora sem queimar e, o azul do céu, tornava o ambiente místico. Passámos por Vivei, Barbadelo-Mostoiro e, ao chegarmos a Rente,

 

 

à cota de 626 m, deparámos com uma magnífica vista

 

 

sobre as montanhas nevadas no horizonte da serra do Courel.

 

 

A partir deste troço, as pequenas aldeias que aqui se encontram, dedicam exclusivamente à criação de animais. Não é preciso ser muito perspicaz para perceber, pois basta o cheiro intenso que por estas bandas paira no ar.

 

Seguimos, por muito tempo, ao lado um do outro, caminhando de cabeça no chão e pensamentos no ar. A súbita ausência do Rui e do Tó Quim estava a deixar-nos uma marca de solidão. Sentimos um misto de cansaço, perplexidade e de antecipada derrota.

 

Após passarmos Mercado da Serra e Baxán, logo a seguir ao rego de Marzán,

 

 

o Caminho cruza-se com a C-535, um pouco antes de Domiz e Leiman. Aí decidimos parar por aquele dia.

 

Ficamos alguns minutos imóveis.

 

O dia estava magnífico mas para nós tinha perdido brilho.

 

Passados uns bons minutos, afortunadamente, surgiu um táxi que seguia na direção de Portomarín. Mandámo-lo parar e entrámos nele. Durante o trajeto quase não trocamos palavras entre nós. Tinham ficado 14,4 km por fazer. Só Deus sabe se um dia lá iremos voltar.

 

O que nos faltava percorrer eram um conjunto de típicas pequenas aldeias galegas que se sucedem como as contas dum rosário, monotonamente iguais entre si: Peruscallo, Cortiñas, Lavandeira, Casal, Brea (onde se encontra o marco 100 km), Morgade e Ferreiros (local onde se ferravam os cavalos e se arranjavam os calçados dos peregrinos). Depois vem Cruceiro, Rozas, Mirallos, Pena, Couto, Moimentos, Cotarelo, Mercadoiro, Moutras, Parrocha, Vilacha (onde se encontra o Mosteiro de Santa Maria de Loyo e local de nascimento, em 1170, da Ordem de Santiago, composta por doze cavaleiros que juraram proteger os peregrinos dos ataques muçulmanos).

 

Portomarín ao longe

 

Ao fim de 10 minutos a estrada começa a descer, com forte pendente, avistando-se então a grande bacia correspondente à albufeira ou Embalse de Belesar. Belesar é um belo espelho de água resultado da barragem que aprisiona o rio Miño naquele trecho, embora, no momento da nossa passagem, apresentasse um caudal muito baixo, o que permitia ver as sapatas da ponte nova a uma cota muito baixa.

 

Por fim, surge Portomarín, a um salto duma margem para a outra. Portomarín é uma vila com cerca de 530 habitantes que, logo no impacto inicial, fascina. O espelho de água da barragem reflete a sua imagem como se fossem duas vilas agarradas pela base e abraçadas entre si.

 

O albergue e a própria vila de Portomarín são magníficos. Abrimos a porta e, sobre a mesa de entrada, jazia um papel dizendo para subirmos ao piso superior e instalarmos o nosso material que a alberguista voltaria em breve.

 

Após um belo e agradável banho, fomos em busca do merecido almoço. Percorremos as ruas antigas e ficámos deslumbrados com a disposição e com a arquitetura da praça central onde se encontra o Ayuntamiento,

 

 

os vários edifícios estaduais, a Igreja de San Juan,

 

 

com este belíssimo pormenor da sua fachada principal, imitando o Pórtico da Glória da Catedral de Santiago de Compostela,

 

 

uma outras das fachadas da igreja,

 

 

e as arcadas muito bonitas. Não nos cansámos de tirar fotos de vários ângulos. Éramos uns verdadeiros turistas.

 

O que mais impressiona é que esta povoação, de 2 000 habitantes da província de Lugo, devido à albufeira da barragem de Belesar, nos anos 60, foi totalmente engolida. Foi, positivamente, deslocada de um lugar para outro, a uma cota mais alta, ao abrigo das águas. E, com ela, vieram, todas as pedras do arco medieval da Ponte Miña;

 

 

a igreja de San Nicolás (erigida no século XII pelos monges da ordem de São João de Jerusalém); as fachadas do templo de San Pedro e os dois palácios importantes para, no novo local, ali serem implantados/reconstruídos.

 

 

Já passava das 15:30 horas. Era já muito tarde e fomos almoçar num dos poucos restaurantes ali abertos. Àquela hora o restaurante era só para nós. Como tínhamos todo o tempo do mundo, começámos com muita cerveja, a que se seguiria o sempre e eterno caldo galego, rematando com o célebre polvo, servido muito salgado e picante.

 

Olha a Mónica!…

 

A conversa entre mim e o António estava bem animada, ora falando de coisas sérias, ora de banalidades de circunstância, geralmente apropriadas, outras nem tanto. No entanto, a ausência do Rui e do Tó Quim e a saúde do pai continuava a marcar quase todo o ritmo do discurso.

 

Enquanto aguardávamos a comida, brindámos aos nossos grandes amigos Rui e Tó Quim e à saúde do seu pai e avô.

 

De repente, pela janela que dava para a rua, vejo passar uma mulher, jovem e bonita, com uma mochila às costas: era a Mónica. Como teria ela dado connosco ali?

 

Entrou esfusiante e dirigiu-se, de imediato, à nossa mesa. Rapidamente fiz a apresentação da Mónica ao António. O grupo, a partir daquele momento, ficou mais rico, beneficiando com a presença duma mulher, que trás sempre uma mais-valia e uma outra dinâmica. Almoçámos bem e bebemos umas boas cervejolas para aconchegar o ânimo e espevitar o espírito. Conversámos muito, entre sessão de fotos para o album do Caminho.

 

 

Perguntei a Mónica como conseguiu dar connosco ali. A resposta era óbvia: perguntando a uma habitante de Portomarín se tinha visto alguns peregrinos, ao que ela, por fortuna, lhe indicou que dois estavam a almoçar naquele restaurante. Após o almoço, deambulámos ao acaso pela povoação, tirando umas fotos, ora com a Mónica, enquadrada nos edifícios, património histórico da cidade e da Espanha,

 

 

ora às varandas do seu lindo aglomerado.

 

 

O espelho de água da barragem, ao fim da tarde, é convidativo não só para tirar fotos mas também para a contemplação.

 

 

De caminho para o albergue, parámos várias vezes junto à zona monumental da vila para apreciarmos a sua beleza e imponência.

 

Sobre o miradouro sobranceiro à bacia da barragem parei para admirar a paisagem. Era um fim de tarde apetecível com as nuvens a despedirem-se de nós. No horizonte uma miríade de raios amarelos lambia-me o rosto. Estava recompensado...

 

A tarde, de finais de Dezembro, avançava e começou a fazer frio. Decidimos ir para o albergue.

 

Deitamo-nos sobre os beliches. Conversámos, de cama para cama, num diálogo entrecortado entre risos e leituras. O António teve de fazer o primeiro tratamento à sola dos seus pés que apresentavam bolhas grandes em toda a largura da planta.

 

E conversámos, conversámos, conversámos...

 

Para o final da tarde começaram a chegar mais peregrinos: o já conhecido casal de holandeses, um velho francês, um homem de meia-idade (espanhol?) e cinco peregrinos espanhóis, que ficaram na nossa camarata e nos passaram a acompanhar a partir daí: Verónica, Maria José e o filho Adrian, Vicky e a filha Alba. Como os pés destes últimos apresentavam alguns sinais de mau trato – tinham começado naquele dia a peregrinação - eu, o António e a Mónica usámos os nossos «dotes médicos» para «suavizarmos» os pés deles, através de massagens nas pernas e nos pés, com gel frio e tratámos as bolhas pelo método clássico da agulha: linha e desinfeção. Acho que a coisa, se não resultou, pelo menos melhorou um poucochinho.

 

Empatia entre todos

 

A empatia entre todos nós desenvolveu-se imenso e até a alberguista, duma simpatia extrema, pediu-me para controlar os peregrinos que entrassem no albergue, indicando-lhes que, em breve, estaria ali para regularizar as credenciais e o pagamento da estadia. Aceitei de bom grado e, como paga disso, ofereceu-me um livrinho sobre os Caminhos de Santiago: «Los Camiños de Santiago en la Província de Lugo por etapas», de Juan Carlos Fernández Pulpeiro, da Asociación de Amigos del Camino de Santiago de la Provincia de Lugo – 1ª edição, 2008.

 

A confiança entre os vários peregrinos da camarata foi crescendo e, à hora do jantar, juntámo-nos todos no mesmo restaurante - «O Mirador», que também funciona como albergue privado. Aí continuámos a estabelecer laços mais fortes entre todos. O local onde o restaurante se encontra instalado é soberbo. Está elevado e tem vidraças a toda a extensão, o que permite uma visão impar sobre o espelho de água da albufeira da barragem de Belesar.

 

O jantar demorou bastante porque comemos calmamente, bebemos bem e conversámos muito. De regresso ao albergue, atravessámos pachorrentamente as ruas da vila à luz de candeeiros mortiço, bem embrulhados nos anorak's porque o frio estava a fazer-se sentir.

 

Às 22:00 horas apagaram-se as luzes. Eu e o António ficamos a ler até que o sono nos apoquentou.

 

 

  Texto - Emídio Almeida (adaptado) 

Fotografia - António de Souza e Silva  

 

 

Deixamos agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo filme/diaporama desta 2ª etapa de Samos até Portomar´n para visionamento dos (as) nossos (as) leitores (as).

 

[Nota:- Para ouvir o Filme/diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog].

 

 


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Quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho Francês - 1ª etapa - O Cebreiro-Samos

 

 

CAMINHO FRANCÊS DE SANTIAGO

 

1ª etapa:- O Cebreiro - Samos

 

17. Dezembro. 2008

 

 

 

 

O ANXO E A CAMPÁ

 

 En vivencia parlante e transcendente,

da elevada misión que cumpre oufana,

baixo un anxo de pedra, está pendente,

no cruzamento dos claustros, a campá.

 

 Día tras noite, da leal amiga

as badaladas graves e sonoras,

con ledicia e dozura de cantiga,

marcan e miden o correr das horas.

 

 Servidora da Regra, voz do Abade,

sempre atenta ao mandado, sempre alerta,

en tributo á claustral Comunidade,

labouras, clases e oracións concerta.

 

 

O anxo de pedra, orante silencioso

en inmóbil actitude estatuaria,

é o monástico emblema  relixioso

da paz, da soidade e da pregaria.

 

 Cando pasan os monxes ao seu lado

lles rinden con fervor unha sorrisa,

que ven neles o símbolo prezado

da máis amada monacal divisa.

 

 Do anxo as mans xuntas dinlles: Ora!

Da campá o tanguido di: Labora!

 

Ramón Cabanillas

 

 

 

 

O dia prometia ser muito difícil

 

Tal como tínhamos combinado de véspera, às 6:30 horas da manhã, o meu telemóvel tocou o alarme. Eu já estava semiacordado e desliguei-o de imediato. Como é hábito em mim, pus-me de pé imediatamente e fui para os lavabos. De regresso à camarata, na ante câmara, perscrutei o exterior, ainda negro e sem luz, pelas vidraças das janelas. O nevoeiro era intenso, o vento assobiava forte, a humidade era tanta que parecia chover uma chuva de bagas grossas ou, eventualmente, seriam pedaços de neve e gelo a voar. Tudo o que se podia distinguir, no meio daquela escuridão, era qualquer coisa branca que se esborrachava contra as vidraças. Devia estar muitíssimo frio. No interior, os vidros estavam permanentemente embaciados, tal a diferença de temperatura.

 

Voltei à camarata e tencionava não fazer barulho para não acordar os restantes elementos que dormiam no dormitório mas, quando abri a porta, já todo o mundo estava de pé em preparativos para o início da jornada.

 

Aconselhei a rapaziada do nosso grupo que se vestisse da maneira mais eficaz para suportar o clima do exterior - gorro de lã grossa, luvas quentes e impermeáveis, botas impermeáveis, com dois pares de meias quentes e grossas, cachecol, blusão impermeável, para suportar temperaturas negativas, poncho, para proteger os corpos e as mochilas da chuva, e roupa interior quente.

 

Com o que nos restava do dia anterior, tomámos um rápido pequeno-almoço. Eu, por mim, limitei-me a comer duas maçãs. Abri a porta para tomar o pulso ao tempo. Estava efetivamente húmido e muito frio. E era provável mesmo que as temperaturas estivessem bem abaixo de zero, embora não houvesse registo para confirmar.

 

Discutimos a possibilidade de arrancarmos mais tarde, de modo a que pudéssemos ver a aldeia à luz do dia em todo o seu esplendor. Mas a distância que nos separava de Samos era tamanha, e o tempo estava tão mau, que decidimos, de imediato, por os pés a Caminho. Foi com muita mágoa, e bastante relutância, que parti sem visitar a aldeia.

 

Despedimo-nos dos nossos companheiros peregrinos e saímos.

 

Cá fora a neve estava transformada em gelo pelo vento e, a única luz que havia, vinha das nossas lanternas, a debitar uma magra luminosidade. À saída da porta existia uma longa escada de dois vãos, feita de madeira atapetada por gelo escorregadio. Em equilíbrio instável, fomos descendo com mil cuidados, degrau a degrau, lentamente, com os bastões bem vincados no solo.

 

A partir da base da escada, tivemos de percorrer um curto, mas difícil trilho, com a neve acima dos nossos joelhos, até alcançarmos a estrada LU-633.

Metemo-nos ao Caminho num silêncio sepulcral apenas perturbado pelo barulho das nossas botas sobre o asfalto e sobre a neve; pelo barulho dos joelhos a roçarem-se entre si por dentro das calças e pelo vento a assobiar, torturando-nos os narizes. Percorremos, assim, vários quilómetros cabisbaixos. Os meus óculos estavam completamente encharcados e as bagas de água e gelo impediam-me que visse o que se passava à minha frente. Por várias vezes tirei-os para os limpar, de tal maneira que se me acabaram os lenços de papel. Por fim, tomei a decisão de os tirar definitivamente e fazer o resto da caminhada até Triacastela sem os pôr.

 

Por outro lado, os «apetrechos» de fotografar e filmar, começaram a ressentirem-se do frio e da humidade, ou seja, não funcionavam.

 

 

Parecíamos fantasmas caminhando em silêncio, vigiados por vultos gigantes: do lado norte, os montes Chao do Teso e do Fedo; do lado sul, o monte do Bieiro.

 

As coisas começaram a complicar-se

 

Nenhum ser vivo aparecia no horizonte. Quando começou o dia a clarear, começámos a maravilhar-nos com a paisagem. À nossa direita, de uma forma ainda bastante difusa, afundava-se, encosta abaixo, toda a serra dos Ancares e, do lado esquerdo, surgiam os enevoados vales da serra do Courel, tendo ao fundo algumas casas perdidas no espaço branco, com os telhados em ardósia cinzenta, como se fossem flores esquecidas à espera duma mão estendida para apanhá-las.

 

O vento tinha parado e tudo à nossa volta era silêncio e branco. Ninguém passava. A manhã estava gélida e tudo estava envolto numa névoa espessa e humidade que entranhava por todos os poros. Nas zonas mais altas do vale, que debrua a estrada, viam-se as coroas das árvores pertencentes a um bosque frondoso, escarpa acima. Sucediam-se subidas e descidas que nos acompanharam durante a primeira parte do percurso até Liñares - antigo local de plantação do linho - e Alto de San Roque, onde parámos, junto ao monumento em bronze, para uma foto de circunstância.

 

 

À nossa esquerda, o vulto do monte Lebrafo, com os seus 1480 m, intimidava-nos.

 

À chegada ao Hospital da Condesa  - fundado no século IX pela condessa D. Egilo - começou uma forte chuva miudinha, que entrava até aos ossos, e que nos acompanhou até San Juan de Padornelo. E, na íngreme subida até Alto do Poio, foram quinhentos metros de grande dureza. Foi aí que escolhemos o momento de parar para tomar o pequeno-almoço no único bar aberto em tantos quilómetros.

 

D. Maria dos Remédios

 

Até que chegámos ao ponto mais alto - o Alto do Poio - à cota de 1337 m. Aí, no cimo, saímos da estrada, rodámos ligeiramente à esquerda, por um aparente trilho circundado de neve que tinha mais de um metro de altura, e entrámos, um a um, num café/bar. D. Maria dos Remédios, a sua proprietária, quando nos viu, recebeu-nos de lágrimas nos olhos e de braços abertos.

 

Aguardava-nos uma lareira de fogo intenso, ali colocada à nossa espera. Despimo-nos sem cerimónia e secámo-nos. Foi mais de meia hora a destilar vapor de água que se desprendia das nossas roupas – ponchos, anorak's, luvas, mochilas e botas. À medida que falávamos entre nós, o vapor saia aos golfões das nossas bocas.

 

Como a tempestade se tinha instalado nas montanhas fazia tantas semanas, a solidão era tal que a nossa chegada foi como se um raio de luz entrasse na casa daquela senhora. O desejo de D. Maria dos Remédios de ver alguém e conversar era tanto que, num momento de sã e pura franqueza, acabou por nos contar toda a sua história de vida. De cada vez que ia à cozinha buscar uma torradas, ou um café quente ou um leite com chocolate a ferver, trazia sempre consigo um Santiago ou uma Nossa Senhora de Fátima. E, neste vai e vem, havia sempre  mais um pedaço da sua vida para contar.

 

D. Maria dos Remédios enviuvara há muito tempo e, naquele momento, vivia unicamente com um filho que trabalhava como carpinteiro em Samos. Uma doçura de pessoa...

 

À partida tirámos fotos com ela, como sinal da enorme gratidão pelo acolhimento que nos prestou. Despedimo-nos, beijando-a, e - quem sabe! - com a promessa de um dia ali voltarmos.

 

 

- Peregrino (a), se alguma vez passares no Alto do Poio, num dia de chuva, de nevoeiro ou de neve intensa, entra no bar da D. Maria dos Remédios e diz-lhe que aqueles que ali estiveram na tempestade de Dezembro de 2008 lhe mandam beijos, com muita ternura, e um abraço, com muita saudade.

 

A partir dali, o Caminho apresenta um perfil sinuoso, de altos e baixos, numa verdadeira montanha russa. Ao longo da estrada, e nos vales profundos, mal distinguíamos as várias aldeias esquecidas no nevoeiro, com os telhados de xisto reluzente. Passamos perto de Fonfría do Camiño e começámos a avistar, saindo do meio do nevoeiro, alguém com uma mochila às costas e um bastão a marcar o ritmo. À medida que se foi aproximando, deparámos com um velho peregrino que seguia no sentido inverso ao nosso, em direção a’O Cebreiro. Andava com a lentidão dos solitários, mochila singela às costas e bastão. Nada mais! Quando se cruzou connosco, reparamos que seguia completamente encharcado, sem qualquer impermeável vestido. Aparentava ser do centro da Europa, pela cor da pele e pela maneira arrastada com que nos brindou:

 

- Buenuu Caminuu!

 

Sorrimos. E, admirados por aquele ser único, saído da imensidade daquela bruma, do nada, completamente só, e ainda por cima também a sorrir, retorquimos:

 

- Bueno Camino!

 

E lá continuou a marcha sem parar. Andei uns quantos passos para a frente e voltei-me para trás. Vi-o a ser engolido pelo novelo de algodão do nevoeiro e, com o mesmo ritmo, seguiu em frente até desaparecer por completo. A partir de Fonfría do Camiño, com a serra do Rañadoiro à direita, durante cerca de sete quilómetros, a estrada começa a descer com uma pendente superior a 7%, passando ao largo de Biduedo, Villar, Filloval e Pasantes. O monte Airibio, com 1442 m, controla os vales que ficavam à nossa esquerda. Subiam nuvens de nevoeiro como se viessem dum poço profundo, tal era a imensidão de branco resultante da respiração dos regatos Paniscos, Muin Vello e Ribeira. As árvores vergavam-se com o peso da neve. A descida tornou-se cada vez mais íngreme e, durante quilómetros, só o barulho das botas dos cinco se fazia sentir naquela imensidão do espaço! Pouco depois de Ramil, passámos pelos nossos companheiros holandeses. Estavam parados porque, um deles, estava a deitar sangue pelo nariz. Oferecemos os nossos préstimos, mas disseram não necessitar. E continuámos. O ritmo era bom, embora a descida fosse muito acentuada e o asfalto começava a fazer-se sentir nas pernas e nos pés. A Ana Isabel começou a acusar esse esforço e, à chegada a Triacastela, estava exausta.

 

O abandono da Ana

 

A vila de Triacastela, onde vivem cerca de 1000 habitantes, é assim chamada, por alusão a três castelos que figuram na torre da sua igreja, dos quais não há qualquer vestígio. Foi fundada no século IX pelo conde Gáton del Bierzo. Atualmente, dedica-se à indústria do cimento, o que lhe confere um aspeto acinzentado e pouco atrativo.

 

Sentámo-nos num bar para beber uma cerveja e descansar um pouco. Ali mesmo a Ana Isabel decidiu abandonar o Caminho e o grupo, para mágoa de todos nós. Seguiu de táxi com o pai até ao Mosteiro de Samos, onde a vieram mais tarde buscar.

 

Eu, o Rui e o Tóquim almoçámos num pequeno restaurante um razoável repasto «Menu do Peregrino». Descansámos um bom bocado. Conversámos, bebemos e, por fim, lentamente, metemo-nos à estrada com o ritmo das pernas totalmente adulterado. O arranque foi difícil, ainda mais porque todos os trilhos do Caminho de Santiago continuavam cortados, tanto os que seguiam por Furela como os que iam até Samos.

 

A partir de Triacastela, o tempo começou a melhorar ligeiramente. Já não chovia, embora o céu apresentasse um tom cinzento acobreado e muito frio e húmido, devido ao forte degelo que se tinha iniciado. O percurso seguiu pela estrada LU-634, através dum trecho magnífico, ladeado por vertentes xistosas no longo vale de Samos, que se prolongava ao lado da estrada. Escorria água por todos as vertentes e fendas, que rolava sobre penedos e árvores, rasgando arbustos, e indo, por fim, desaguar à estrada, caindo, com um barulho ensurdecedor, no rio Sarria, que é alimentado pelos regatos Santana, Abreival e Nande. Durante nove quilómetros, fomos circulando o vale, passando por San Cristobal do Real, Lusio, Renche, Lastres, Freituxe, San Martin do Real e, por fim, Samos.

 

À descida pela estrada, e subitamente após uma curva apertada e coberta de árvores de grosso porte, sem que esperássemos, demos com o belo Mosteiro de Samos, que confere a Samos uma panorâmica magnífica. Valeu bem o itinerário escolhido, ligando o trecho Triacastela a Samos, o que correspondeu a termos feito mais cinco quilómetros do que se fossemos por Furela.

 

O Mosteiro Beneditino de Samos

 

 

é dos mais antigos de Espanha. Funciona como símbolo cultural da Galiza e faz parte intrínseca da história do cristianismo deste país. Apresenta uma arquitetura impressionante, com volumetria equilibrada, onde se esconde o maior claustro de Espanha. É da época sueva, do século VI, e foi fundado por San Martiño de Dumio, em dedicação a São Julião e Santa Basilisa, mártires de Antioquia.

 

Tudo o que o envolvia estava branco de neve, sobre campos cobertos de verde. Estávamos no final da tarde e a temperatura começava a descer. Antes de entrarmos na porta do mosteiro parei a olhar o céu em busca dos meus sinais. Havia um tapete de nuvens uniforme sobre mim e, dentre umas delas, raios verdes saudaram-me. Fiquei reconfortado.

 

Entrámos no frigorífico

 

Lentamente fomos abrindo a grossa porta de entrada do albergue. Lá dentro estavam o António e a Ana Isabel que, quando nos viram, vieram até nós a dar-nos um forte abraço por aquele pedaço de tarde carregada de ausência. Já eram as saudades... Estávamos encharcados de suor e de água. O albergue é uma velhíssima casamata medieval, ricamente pintada com elementos alusivos à peregrinação, e composto por beliches duplos encostados ao longo das paredes.

 

 

Preenchemos as formalidades legais para ali ter acolhida.

 

 (Tó Quim preenchendo o livro de entrada)

 

 (A minha pose atestando o ato)

 

Ao fundo, estavam os balneários, limpíssimos. A água era pouco menos que tépida. Não havia qualquer tipo de aquecimento naquelas salas enormes. Fazia um frio de rachar. A temperatura dentro do albergue era menor ou igual à da rua. Dentro estava uma humidade a rondar os 100%. Apercebemo-nos logo que iria ser uma noite difícil de suportar.

 

Despimo-nos, colocamos as roupas a secar nos varões das armações das camas, e fomos para o balneário. Embora viesse muito quente da caminhada comecei logo a sentir muito frio. Caí na patetice de ir fazer a barba com a água gelada, que corria dos canos do lavatório. Arrefeci por completo.

 

Após um rapidíssimo banho de duche, a bater o queixo de frio, sequei-me, vesti-me e, de seguida, enrolei-me numa grossa pilha de mantas de lã já puídas pelo tempo e pelo uso. Foram tantas quanto era possível aguentar para fazer um rápido aquecimento. E deitei-me sobre o beliche a descansar um pouco, ainda a tiritar de frio.

 

Entretanto, Ana Isabel, depois de ter ido com o pai comer qualquer coisa a um bar/café, nas proximidades do Mosteiro, despede-se, triste, de todos nós.

 

 

Logo que a filha se foi embora, António decidiu visitar o interior da igreja,

 

 

apreciar as suas bonitas pinturas referentes à Paixão

 

 

e Ressurreição de Cristo

 

 

e o grande claustro do Mosteiro, mais conhecido por Claustro do Padre Feijóo, que, aqui, tomou hábito beneditino, em 1690. Quando regressou contou-nos maravilhas, espelhadas em algumas fotos que tirou das pinturas dos muros do claustro superior, que foram decorados, a partir de 1957, com cenas da vida de São Bento. São obras do corunhês Xosé Luís Rodríguez, realizadas de 1957 a 1960,

 

 

na lateral este do grande claustro, ligadas ao estilo novecentista e postcubismo, com técnica de emulsão de terra e gema de ovo, aplicados com espátula; do pintor madrileno Enrique Navarro

 

 

(ligado também ao cinema;

 

 

daí a inspiração de algumas das suas figuras),

 

 

nas laterais sul e oeste do grande claustro, realizadas entre 1963 e 1965;

 

 

da monfortina Celia Cortês,

 

 

na esquina lateral sul do grande claustro, realizada em 1963 e do catalão Juan Parés, realizadas no claustro das Nereidas

 

 

e no Signo. Para quem queira melhor aprofundar a arte neste mosteiro beneditino, aconselha-se a leitura da obra «Arte Benedictino en los Caminos de Santiago», a partir da página 285, e que poderão consultar no seguinte sítio da internet: http://iacobus.org/documentos/opus2.pdf.

 

Entretanto, quando já estávamos aquecidos minimamente, fomos secar todo o material, desde a roupa aos telemóveis, das máquinas fotográficas às botas. O Rui emprestou-me o secador de cabelo de viagem que, providencialmente, traz sempre consigo. Tinha sido um dia de humidade muito intensa.

Tentámos estabelecer ligação telefónica com a família, mas a localização do mosteiro é num «buraco» e não havia quase rede. Só o Rui conseguiu falar para casa e teve uma notícia pouco agradável – o pai tinha ido ao hospital. Aparentemente não era grave.

 

As vésperas

 

Cerca das 19:30 horas, o simpático e divertido frade hospitaleiro, António, veio convidar-nos para assistirmos às vésperas. Subimos com ele ao primeiro andar do mosteiro e deambulámos nos longos corredores que circundam todo o edifício. A luz era escassa e íamos em passo estugado mas, mesmo assim, permitia-nos ver os lindos frescos pintados na parede. O frio aumentava tanto que nos tolhia os movimentos das pernas e o vapor de água saia pela boca no esforço de cada passada.

 

A capela onde se realizou o serviço religioso era ampla e estava revestida a madeiras antigas. Ao cimo, um pequeno altar para a celebração da missa e, lateralmente, um conjunto de banquetas viradas para o centro, onde os restantes frades seguiam e participavam no serviço religioso. Cá atrás, e virados para o altar, ficavam os bancos onde os fiéis participavam na celebração. Junto à porta de saída, o organista «adocicava» musicalmente o serviço e dava as deixas para a entrada das várias fases do mesmo. Ao todo estariam na capela uns quinze frades, cinco acólitos e cinco fiéis.

 

Após a missa ter acabado, e atendendo ao muito frio que se fazia sentir, um dos acólitos desceu connosco para o rés-do-chão e levou-nos, através do claustro pequeno, até à carpintaria, onde um fogo forte alimentava o aquecimento de todo o mosteiro. Foi uma dádiva! A temperatura era tão elevada que o vapor saía aos novelos das nossas roupas. Mantivemo-nos ali o tempo necessário até que a roupa secou e, finalmente, aquecemo-nos. Agradecendo o gesto, saímos.

 

Logo em frente à porta do mosteiro, há um restaurante. E foi aí que decidimos ir jantar. Optámos pela famosa gastronomia galega: caldo galego (para aquecer as entranhas) e carne de vitela estufada (rija que nem chavelhos). Não tinha qualquer brilho culinário, mas deu para matar a fome. Eu e o António repetimos a sopa bem quente, mas não comemos a vitela, não se podia trincar, de tão rija que estava. O Rui e o Tóquim, esses, mandaram-se a ela, devorando-a. É que aqueles corpinhos não vão lá só com sopinhas.

 

A noite louca da insónia

 

De volta ao albergue, foi uma noite de loucura. Parecia que estávamos eletrizados ou com pilhas reforçadas. Estávamos sós. A camarata estava por nossa conta. Antes de nos deitarmos bebemos o Vinho Fino do Douro, que vinha religiosamente guardado e escondido no cantil do António. Bebemos e repetimos e, talvez por isso, o sono não pegava.

 

Cada um embrulhado no seu saco-cama, e com três mantas por cima, foi brincadeira pegada, com galhofa, risos, anedotas, piadas e tropelias até as 2:40 horas da manhã. De tão cansados, quer do dia, quer da galhofa, adormecemos vencidos pelo cansaço.

 

 

Texto - Emídio Almeida (adaptado)

Fotografia - António de Souza e Silva

 

 

Deixamos agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo filme/diaporama desta 1ª etapa d’ O Cebreiro até Samos para visionamento dos (as) nossos (as) leitores (as).

 

[Nota:- Para ouvir o Filme/diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog].

 


publicado por andanhos às 08:07
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Terça-feira, 15 de Abril de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho Francês - Viagem de Chaves a O Cebreiro

 

 

De Chaves ao Cebreiro com passagem em Piedrafita do Cebreiro (*)

 

16. Dezembro. 2008

 

De Chaves a Verín

 

(...) De acordo com o combinado, lá partimos para cidade espanhola de Verín. Estava um frio de rachar, típico da região, com os campos cobertos dum manto branco que brilhava ao luar. As estradas estavam envidraçadas e as placas de gelo estalavam, partindo-se sob as nossas botas.

 

Rapidamente atravessamos os 25 quilómetros que separam as duas cidades, através dos pequenos povoados de Vila Verde da Raia, Feces de Abaixo, Tamaguelos e, por fim, Verín.

 

Quando descemos dos carros despedimo-nos das motoristas, que partiram de regresso.

 

Era o momento ideal para reagruparmos a equipa e saudarmo-nos um a um – a Ana Isabel, o António, o Tó Quim, o Rui e eu (Emídio). A equipa estava apresentada. O moral era muito alto.

 

Aguardamos cerca de 20 minutos pela chegada do autocarro na estação rodoviária. É um velho, sujo e degradado edifício, com papéis e latas abandonadas por quanto é canto. Aparentemente, as paredes nunca tinham visto pintura. E os urinóis e os recantos tresandavam a cheiro de urina. Ainda entrei no bar de apoio, mas saí de imediato. A falta de higiene e o cheiro eram mesmo desagradáveis.

 

Neve até Benavente

 

Às 9:15 horas o autocarro arrancou, mas sem termos a certeza de conseguirmos chegar a Benavente, que era o destino da primeira parte da viagem.

 

Rapidamente saímos de Verín e entrámos na A-52, a Autovia das Rias Baixas, que atravessa todo o conjunto de montanhas pertencentes a Puebla de Sanabria, a norte, com a Serra Segundera e a da Cabrera Baja, onde se avista ao longe a Peña Trevinca, com 2124 m e a sul, a Serra da Gamoneda e a da Culebra, avistando-se a Peña Mira, com 1243 m. À medida que íamos avançando para o interior da montanha tudo estava coberto de neve, vendo-se nos pontos mais altos dezenas de torres eólicas. Era como se tivéssemos entrado no cenário surreal dum filme. O sol ao brilhar no horizonte amplificava o nosso campo de visão pela sua pureza. Foi o momento de dispararmos fotos perante tanta imensidão.

 

 

Este cenário prolongou-se por 165 quilómetros. No autocarro seguíamos só nós cinco e uma idosa, que se manteve permanentemente calada. Para além do motor da camioneta, só o Rui e o António gastaram todo o tempo a falar com o motorista. Ficaram a saber toda a sua vida desde pequenino até aos tempos atuais.

 

O rádio do autocarro, em altos berros, tocava um chorrilho de músicas andaluzas, monotonamente desinteressantes, das quais não sou particularmente aficionado.

 

Após as montanhas, seguiu-se um longo e monótono planalto com uma paisagem agradável, mas monocórdica. Do lado sul, a perder de vista, campos de arbustos bravios rasteiros, e do lado norte, uma extensa fila de montanhas com os cumes brancos de neve, paralela à estrada, mas a muitos quilómetros de distância. Não se avistava nenhuma povoação.

 

Por fim, Benavente.

 

É uma cidade sem nada de relevante, embora apresente uma zona nova pequena e bem desenhada. Porque tínhamos bastante tempo de espera, percorremos lentamente as suas ruas vendo lojas e montras. Por três vezes a Ana Isabel e o António entraram em oculistas para comprar dois pares de óculos de sol para a neve. Com óculos de sol, a Ana Isabel fica ainda mais bonita.

 

Após um almoço frugal, de hamburger com batata frita e ovo estrelado, de muito má qualidade, voltamos à estação de camionagem. O autocarro que fazia escala em Benavente chegou atrasado mais de meia hora, permitindo que o Rui e o António inventassem a mentira de que não teríamos transporte devido à neve na estrada e, em consequência disso, teríamos de regressar a Portugal. Entre nós os três instalou-se uma tristeza, que foi de curta duração, pois logo vimos chegar o autocarro que nos iria transportar até Piedrafita do Cebreiro.

 

Em direção às neves eternas

 

O autocarro vinha quase cheio e ficou completo com as nossas entradas. Logo que nos sentamos nos únicos lugares vagos, partiu imediatamente, dirigindo-se à A-6, que é a Autovia do Noroeste. À nossa frente estendia-se um extenso planalto, à cota aproximada de 750 m, durante muitas dezenas de quilómetros. As montanhas, ao fundo, anunciavam muita neve, com os seus picos e dorsos totalmente cobertos de branco. Após uma breve paragem em Bañeza, para reabastecimento e rendição do motorista, voltámos a A-6. Em Astorga, quando passamos pelo Palácio Episcopal, de Antoni Gaudí,

 

 

parece que entramos num livro de Walt Disney, pela geometria das pedras, a forma alta e pontiaguda dos pináculos dos torreões, o declive forte dos telhados e a subtileza do desenho, que fazem da obra deste mestre arquiteto um verdadeiro conto de fadas.

 

A partir desta cidade a neve nunca mais nos deixou, chegando a atingir alturas consideráveis e obrigando os veículos limpa-neve a um trabalho frenético de limpeza. Logo à saída de Astorga, a autovia empina fortemente pelos Montes de León, tendo à esquerda a Serra do Teleno, com 2188 m. A estrada atinge rapidamente o declive forte entre as cotas de 850 m a 1230 m para depois voltar a descer para os 520 m em Ponferrada. Dos arredores desta cidade avistava-se o imponente pico da Guiana, com 1848 m, que mais parece um seu guarda.

 

A seguir a Vilafranca del Bierzo as coisas complicaram-se fortemente. Os depósitos de neve na estrada adensavam-se mais e tomaram proporções que exigiram cuidados redobrados, obrigando numa altura a que o autocarro tivesse que sair da autovia e fazer um desvio de passagem por um posto de abastecimento de combustíveis. Aí a neve batia forte na parte inferior do veículo, limitando fortemente a aderência. Os passageiros apresentavam um certo nervosismo. Ao longe, viam-se as Cordilheiras Cantábricas, como se fossem um imenso e intransponível muro branco à nossa frente.

 

A partir de determinada altura, o sol escondeu-se, e fomos engolidos num espesso manto de nevoeiro que nos condicionava a visão e a velocidade. Fez-se precocemente noite, acinzentada e escura, que nos acompanhou durante muitos quilómetros.

 

Começou então a grande subida. Lentamente fomos passando da cota dos 480 m à de 750 m e, num ápice, o nevoeiro dissipou-se por completo. Continuamos a subir de tal modo que começamos a ter a sensação que estávamos a planar na imensidão do nada, cercados pelos picos do Courel,a sul, e dos Ancares, a norte, carregados de branco e suspensos em vales profundos. À passagem sobre o último viaduto, a visão era impressionante. A sensação era como se estivéssemos a balouçar a uma altura de 124 m, com todo aquele azul profundo do céu, o sol irradiando brilhos cristalinos nas pepitas de gelo, naquela altura imensa e com a estrada esticando-se preguiçosa e lentamente em equilíbrio instável, como uma linha preta finíssima flutuando sobre as nuvens. Estávamos rodeados de picos impressionantes - a Señora de la Peña Redonda, com 1302 m, o Pajaro, com 1598 m, o Puerto El Buey, com 1061 m, do lado do Courel, e o Gistreo, com 2006 m, o Catoute, com 2117 m, o Miravalles, com 1970 m e a Peña Rubia, 2214 m, do lado dos Ancares.

 

Tínhamos passado o quilómetro 175 e, após uma curva, surgiu-nos à direita, vindo do nada, uma via secundária com um declive superior a 10% para, logo de seguida, entrarmos em Piedrafita do Cebreiro, à cota de 1109 m.

 

Estávamos por nossa conta e risco

 

Perante o espanto total dos restantes ocupantes, só nós os cinco saímos do autocarro. Relutante, o motorista veio retirar o nosso material da caixa de carga e voltou a correr para dentro do autocarro e, com medo do frio, pôs-se rapidamente em marcha. Quando voltámos a olhar à nossa volta, só vimos o fumo cinzento do escape a fugir a grande velocidade.

 

Estávamos felizes porque tínhamos chegado. No entanto, ficamos apreensivos, porque as ruas estavam vazias e a neve encontrava-se apinhada em ambos os lados dos passeios. O frio era de cortar à faca e a temperatura devia rondar os - 2º C, com uma brisa nada agradável que tolhia os músculos da cara.

 

A meio de uma pequena ruela encontrava-se aberto um micromercado, onde entramos para comprar fruta e água. Mais à frente, estava a funcionar um café/bar. Lá dentro encontravam-se uma meia dúzia de pessoas que fumavam furiosamente para aquecer as entranhas. Ganhamos ânimo bebendo uma saborosa cerveja e aproveitamos o local para nos ataviarmos decentemente de modo a enfrentarmos a grande escalada do fim do dia.

Perguntámos como estaria o estado do tempo e das estradas até a’O Cebreiro. As notícias não eram nada agradáveis. N’O Cebreiro havia muita neve, fazia muito frio e a única hipótese seria seguir pela estrada LU-633 até ao cimo da montanha.

 

Caminho a pé até a’O Cebreiro pela estrada LU-633

 

Pusemos pés ao caminho. A partir de agora, estávamos por nossa conta e risco.

 

Bem agasalhados e albardados, entrámos na estrada, onde a neve se acumulava nas bermas a grande altura. Logo de início, parecíamos crianças a brincar, fazendo bolas de neve que jogávamos no corpo uns dos outros.

 

Depois daquela breve pausa para o recreio, fizemo-nos definitivamente à estrada asfaltada com uma forte pendente que, em alguns casos, era superior a 9 % . E, sofregamente, galgamos alguns quilómetros. À medida que íamos subindo a neve acumulada era de maiores proporções e poucos automóveis se cruzaram connosco durante todo o percurso.

 

 

Os que por nós passavam eram, na maior parte, com tração integral (4x4).

 

O Rui e o Tó Quim – os mais bem preparados fisicamente – foram para a frente a marcar o ritmo; de seguida, vinha eu e, um pouco mais atrás, a Ana Isabel e o António,

 

 

que foram perdendo ligação connosco. A povoação de Piedrafita do Cebreiro, à medida que íamos subindo, ficava cada vez mais a nossos pés, transformando as casas em minúsculos pontos cravados no vale com as luzes a começarem a acender-se. Parecia um presépio!...

 

Ao fim da primeira hora, atingimos a meia encosta, eram perto das 17:40 horas (hora espanhola), altura em que o sol se começou a pôr no horizonte.

 

 

Era um grande disco laranja e acinzentado, muito ténue, que lentamente se foi embrulhando na bruma. Foi um momento muito curto mas de um espetáculo inesquecível ao ver o reflexo suave da luz no fim da tarde a lamber as copas das árvores, a atravessar os vales de os Ancares

 

 

a algumas centenas de metros abaixo. Tudo à nossa volta estava num branco leitoso. Paramos a contemplar... Ali não havia uma brisa sequer. E a vista perdia-se no horizonte para o lado norte e noroeste. Do lado sul, a única visão era a montanha coberta de neve.

 

Duma nuvem singular, flutuando sobre o lado norte, desciam distintos raios alaranjados que penteavam o meu cabelo e me estavam a cumprimentar no final da tarde. Tinha percebido a mensagem. Bastou-me um sorriso e um aceno...

 

Mas, no Inverno, todos os fins de tarde nas montanhas são breves e, rapidamente, se faz um escuro de breu.

 

Ainda com os últimos lampejos de luz natural,

 

 

atacamos novamente a subida com mais energia. Teríamos de ser rápidos, porque as lanternas de testa estavam guardadas nas mochilas e, à medida que íamos subindo, fomos envolvidos por um forte nevoeiro que transportava uma chuva miudinha associada que nos molhava a «alma» e nos enregelava o ímpeto.

 

A Ana Isabel e o António seguiam já a muita distância de nós. Decidimos rapidamente que o Rui ficaria à espera deles junto ao marco altimétrico d’O Cebreiro – altitude 1300m -

 

 

e eu seguiria com o Tó Quim para o albergue.

 

 (Cruzeiro d'O Cebreiro)

 

A escuridão era intensa e, à medida que avançávamos, a chuva tornava-se mais intensa e a visão praticamente nula. Ao longe, distinguiam-se os «pirilampos» azulados dos veículos limpa-neve. À chegada ao cimo da montanha, a estrada estava cortada e não conseguíamos ver como conseguiríamos entrar para a aldeia ou onde ficava sequer o albergue. Eu e o Tó Quim procurámos estar mais juntos um do outro, de modo a não perdermos a ligação entre nós. Apurámos o olhar tanto quanto possível e fomos avançando até que, ao longe, do lado esquerdo, vimos uma luz muito fraca que parecia sair de janelas dispostas em fila.

 

Subimos a escada que rodeava o edifício e, no cimo, reparámos que havia pessoas lá dentro. Batemos à janela e, quando nos viram, fizeram sinal para entrarmos. Tínhamos chegado ao tão desejado albergue!

 

Lá dentro estavam um casal de holandeses, que se mantiveram a caminhar connosco até Santiago, embora independentemente, um austríaco e um francês, que caminhavam em sentido contrário, rumo a Roncesvalles.

 

Cerca de quinze minutos depois chegaram os nossos companheiros de jornada – o Rui, a Ana Isabel e António.

 

Vínhamos cansados e suados. E nada como um bom banho quente - tão desejado. Entretanto a fome apertava tanto que fazia com que o jantar não nos saísse da cabeça.

 

Em busca de alimentos na aldeia vazia e coberta de neve

 

Após fazermos a nossa higiene, e instalarmos o material, eu, o Rui e o António, os três «velhos» do grupo, partimos em direção ao centro da povoação, em busca de alimentos. Segundo indicação dos holandeses, haveríamos de lá encontrar um bar com bebidas e comida. Não havia luz, só as nossas lanternas de testa alumiavam os trilhos. A neve acumulava-se de tal forma que o Bófia teve de pegar numa pá, ali à mão, e desimpedir o caminho à entrada da porta do albergue. Tínhamos, como referenciais, ténues luzes dependuradas em candeeiros, a grande distância umas das outras, que pareciam engolidas na penumbra. Seguimos na sua direção. O vento soprava forte e, à medida que se pisava a neve, esta transformava-se em gelo, tornando-se dura, escorregadia e quebradiça. Se púnhamos os pés ou os bastões alguns centímetros fora do trilho era queda pela certa. Acho que todos recebemos esse batismo...

 

Deambulamos erraticamente pela aldeia, para a frente e para trás, e não encontramos vivalma. Dos 73 habitantes registados, nem sequer se via ou se ouvia vivalma.

 

O Cebreiro é uma aldeia que fica na via romana de acesso à Galiza, colocada entre as serras de Ancares e do Courel. A etimologia do seu nome vem do árabe «Munt Febrayr», que posteriormente caiu para «Mons Februari» (Codex Calixtinus), «Zebruaril» e «Zeberrium».

 

 Esta aldeia, que pertence ao maciço galaico-leonês, estava completamente envolta em neblina e, todo este seu aspeto, nos transportava até à época medieval, com a sua velha tradição hospitaleira, dos monges de Aurillac da Ordem de Cluny, que aqui se instalaram, a coberto do rei D. Afonso VI. No Inverno, quando o clima era adverso – como neste dia – os monges faziam soar fortemente um chocalho e erguiam tochas, de modo a orientar os peregrinos encosta acima.

 

Para além de local de acolhimento no cimo da montanha, a esta povoação anda associado o milagre do cálice sagrado, ocorrido no século XIII. Em 1486, os Reis Católicos ofereceram um relicário, onde estão guardados o cálice e o prato do milagre, que se encontra da igreja de Santa Maria A Real.

 

(Exterior da Igreja de Santa Maria A Real d'O Cebreiro - Pré-românica do século IX )
(Interior da Igreja onde se conserva o relicário)
(O cálice e a patena)
(A Virgem românica, do século XII, vista de frente)
(Pormenor da cabeça da Virgem e do Menino)
 

 

Estes dois artefactos fazem parte do Catálogo de Arte Românica Europeia.

 

O Cebreiro, e tudo quanto a ele se refere, serviu de inspiração a Richard Wagner para escrever a ópera Parsival.

 

O cenário em que estávamos parecia irreal e, depois de muito procurar, demos com a Casa Carolo, que é um ex-líbris d’O Cebreiro. Lá dentro estavam os donos e dois forasteiros a beber umas cervejas. Como a lareira estava acesa e o ambiente era quente, aproveitámos para beber umas cervejolas e compramos uns «bocadillos», com recheio misto, e uns refrescos para os jovens. Aproveitámos para tirar umas fotos de circunstância e num assomo de génio, para enquadramento da foto, o António recuou, recuou, recuou até que pisou o pastor alemão, pertença do dono da casa. Foi, de imediato, ferrado, ficando com uma marca na perna. Nada de grave. Só susto. E muito riso da nossa parte...

 

Por entre tropeções e escorregadelas, voltamos ao albergue. A camada de gelo que se estava a formar comprometia imenso a progressão e o tempo piorara ainda mais com o vento a soprar mais forte, fazendo baixar a temperatura. Numa curva, quase à entrada do albergue, escorreguei no gelo envidraçado e cai sobre a neve, ficando quase submergido.

 

Fomos recebidos em apoteose pela Ana Isabel e pelo Tó Quim. Comemos e bebemos tudo o que havia, inclusive o que nos foi oferecido pelos outros peregrinos, resultante das suas sobras do jantar. Por fim, brindamos com um Vinho Fino do Douro que o António trazia num cantil. Foi um lenitivo para o sono.

 

De volta à camarata, deitei-me sobre o meu beliche, procurando a posição mais confortável.

 

Adormeci a pensar no que tinha lido sobre o misticismo d’O Cebreiro.

 

(*) Reproduzimos do texto do amigo Emídio Almeida, com uma ou outra alteração, de pouca monta, o essencial do seu relato do Caminho. Tudo quanto se refere às suas considerações iniciais; a preparação para o Caminho; a vinda de Lisboa para o Porto; a sua estada no Porto; a viagem de autocarro do Porto para Chaves; a sua chegada a Chaves e a sua estadia, em Chaves, em casa do amigo Rui, pode ser lida no sítio da internet já citado no post anterior/Prólogo do Caminho, neste bolg.

 

 

 

 

 

Texto - Emídio Almeida (adaptado)

Fotografia - António de Souza e Silva

 

Deixamos agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo filme/diaporama desta viagem de Chaves a Pedrafita do Cebreiro, de autocarro, e a pé, de Pedrafita do Cebreiro até a'O Cebreiro.

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog].

 


publicado por andanhos às 18:57
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Segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho Francês - Prólogo

  

 

CAMINHO FRANCÊS DE SANTIAGO

 

16 a 22 de Dezembro de 2008

 

 

 

PRÓLOGO

 

No preciso momento em que dou início ao relato/reportagem do Caminho Francês de Santiago na Galiza, acabo de efetuar o último Caminho, dos sete oficiais, a Santiago - O Caminho Inglês.

 

Os sete Caminhos efetuados foram: Caminho (Sanabrês) da Via de la Plata; Caminho do Norte; Caminho (Central) Português; Epílogo - Santiago-Muxia-Fisterra; Caminho Primitivo e Caminho Inglês.

 

Em Junho de 2007, com o amigo Fábio e seu filho Mitok, fiz o Caminho Sanabrês da Via de la Plata; em Dezembro do mesmo ano, com os mesmos companheiros, fiz o Caminho do Norte; em Junho de 2008, com o meu sobrinho Florens, fiz o Caminho Português; em Setembro de 2008, com o amigo Fábio e os seus dois filhos, fiz o Epílogo - Santiago - Muxia (interrompido em Muxia por uma enorme «borrasca»; em Março de 2013, com o amigo Fábio e os seus dois filhos, completámos o Epílogo de Muxia a Fisterra; em Dezembro de 2012, com o amigo Fábio, fiz o Caminho Primitivo nas Astúrias - de Oviedo a Pola de Allende; em Abril de 2013, com o meu sobrinho Florens, fiz o Caminho Primitivo de Pola de Allende a Santiago de Compostela (Caminho Primitvo na Galiza) e, de 5 a 10 de Abril passado, também com meu sobrinho Florens, fiz o Caminho Inglês. Ou seja, três Caminhos - Sanabrês da Via de la Plata; do Norte e Epílogo (Santiago-Muxia-Fisterra) - fi-los com o amigo Fábio e com um ou os dois dos seus filhos; os outros três - Português; Primitivo e Inglês - fi-los com o meu sobrinho Florens.

 

Para além das vivências especificas de cada Caminho e, em cada um deles, cada etapa, plasmadas por cada troço e por quem nele nos cruzamos, quer sejam os habitantes de cada lugar por que passamos, quer os (as) companheiros (as)/peregrinos (as) com quem nos cruzamos, o que mais dita em profundidade a experiência é o grupo ou pessoa (s) com quem nos comprometemos a efetuar o Caminho. Essa é a dinâmica básica. Tudo o que vem é acrescento e enriquecimento do nosso caminhar, no nosso percurso de andarilho (s).

 

É por esta razão que aqui, e nesta altura, deixo uma saudação e um agradecimento muito especial quer ao Fábio, quer a seus dois filhos, pelo companheirismo e amizade. E pela felicidade em ter, com eles, calcorreado quilómetros de veredas dos Caminhos a pé. Com eles, cresci como ser humano, caminhando ao lado deles, no partilhar dos mesmos troços e com o relato da experiência das nossas vidas, aprendendo a sentir e a viver, profundamente, o verdadeiro sentido da amizade. Em todos os sentidos... Por isso, bem hajam!

 

Com o meu sobrinho Florens, cimentei os laços não só da amizade mas também aqueles que nos ligam pelo sangue - os da família - tão importantes e fundamentais na sociedade tão individualista em que, hoje em dia, vivemos. Para o meu sobrinho Florens aqui fica também um forte abraço - e porque não dizê-lo - pleno de um franco amor familiar.

 

 

Já o Caminho Francês foi todo ele diferente!

 

Por muito fátua ou passageira que a experiência tenha sido, representou para mim um novo nascer, consubstanciando-se no florescer de uma grande, pura, significativa e sentida amizade.

 

Mas vamos aos factos essenciais que transformaram este Caminho numa experiência diferente e única.

 

Em Junho de 2008, enquanto com seu filho Mitok, Fábio fazia o Caminho (Central) Português, creio que no albergue de Briallos/Porta, conheceu um grupo de portugueses (essencialmente «alfacinhas») que também, nessa altura, faziam o mesmo Caminho. Entre um dos elementos do grupo alfacinha, nasce uma amizade entre Fábio e seu filho Mitok que os leva a programarem a realização do Caminho Francês para o mês de Dezembro desse mesmo ano.

 

Meu desejo era também efetuar o mesmo Caminho. E ficou acordado que nas férias do Natal de Mitok - naquela altura ainda estudante do ensino secundário - realizaríamos o Caminho.

 

Fábio disse-me na altura que iria também connosco um amigo lisboeta que tinha conhecido no Caminho Português em Junho desse ano.

 

Minha filha também se quis incorporar no grupo, apesar das advertências que lhe fiz quanto às agruras do Caminho, face à época do ano, e a fraca preparação física que tinha efetuado, fazendo-lhe ainda sentir que andar meia dúzia de quilómetros era uma coisa e andar mais de uma centena deles, em dias seguidos, era outra. Já para não falar na mochila que teria de andar com ela às costas, com apenas o essencial de um caminheiro, e de não se ter adaptado às botas que levaria para o Caminho.

 

Debalde os meus conselhos! Mas, se por um lado, estava preocupado; por outro, fiquei até feliz por minha filha me querer acompanhar. Contudo, quando partiu de Chaves, teve a preocupação de alertar um amigo para, caso lhe sucedesse alguma coisa, a fosse buscar onde estivesse, levando o seu carro.

 

Assim, no dia 16 de Dezembro de 2008, partiu de Chaves, vias Verin, Benavente, Ponferrada e até Pedrafita d’O Cebreiro, o seguinte grupo: Bófia; seu filho Mitok; o amigo de Lisboa - Emídio, de seu nome -; a minha filha, Ana Isabel, e eu.

 

Do percurso de Chaves até Pedrafita d’O Cebreiro, de autocarro, e de Pedrafita d’O Cebreiro até a O Cebreiro, a pé, relataremos no próximo post.

 

É necessário, contudo, antecipar certos acontecimentos para que o enquadramento do relato, etapa a etapa, fique mais claro.

 

De Chaves até a O Cebreiro foi tudo muito bem e alegre, como mais à frente se dará conta. Uma maravilha!

 

O pior veio a seguir. A primeira etapa, de quase 30 Km, foi duríssima, porque sob intenso frio e neve, ao ponto de não podermos seguir o Caminho por se encontrarem os respetivos marcos jacobeus completamente soterrados na neve. O mais cauteloso era seguirmos sobre o piso duro do asfalto da estrada. Tudo era branco à nossa roda, monotonamente branco...

 

Ana Isabel, ao chegar poucos quilómetros depois de Triacastela, não resistiu. Tive de vir uns escassos cinco quilómetros com ela, de taxi, até Samos. Doíam-lhe muito as costas, provavelmente por excesso de peso da mochila, face ao seu peso corporal, e começou a ficar com falta de ar. As botas pesavam-lhe toneladas, dizia...

 

Chegados ao albergue do Mosteiro de Samos, tomou um banho, vestiu roupa lavada e enxuta, telefonou para o amigo a vir buscar e descansou um pouco.

 

Entretanto os restantes caminheiros chegaram. Ana Isabel estava triste por partir. E triste se despediu de nós todos.

 

Não era hora para recriminações. A etapa foi mesmo dura e Ana Isabel, com esta experiência, enriqueceu-se, estou certo.

 

Vi-a partir com muita tristeza mas, por outro lado, fiquei menos preocupado. Anda-se, caminha-se para, na medida do possível, termos saúde e nos sentirmos bem; o contrário, tal como as enormes e imensamente sofridas peregrinações que se fazem a pé, mesmo que o único objetivo seja a fé, é pura estupidez. Com certeza, o Deus desses crentes não lhes deve exigir tamanho sacrifício e tanta provação!... Respeito, obviamente; mas não aprovo!

 

E, assim, o nosso grupo, logo na primeira etapa, ficou desfalcado de um elemento.

 

Apesar da minha preocupação com o estado da Ana Isabel e da sua chegada a casa, a noite no restaurante e no albergue, com os quatro - os únicos ocupantes daquelas instalações no Mosteiro -, foi uma despegada gargalhada - de tanta galhofa e tolices ditas! Tarde conseguimos pregar olho para uma outra etapa do dia a seguir.

 

 

E, mal começámos a 2ª etapa, o imprevisível: um telefonema de Chaves, dando conta do estado de saúde, inesperado e grave, do pai do Bófia e avô do Mitok, arranca-nos estes dois amigos do seio do nosso grupo. Apressadamente dirigem-se para a localidade mais próxima a fim de apanharem um autocarro que os levasse até Chaves.

 

E, desta feita, do grupo inicial de 5 pessoas, apenas restaram duas: eu e o companheiro/peregrino Emídio Almeida.

 

Os dois ainda questionámos a possibilidade de acompanharmos, em ato de solidariedade, os amigos que nos deixavam, efetuando noutra altura o Caminho. Mas, prestes, Fábio fez-nos saber que deveríamos prosseguir sem ele e o filho pois o Caminho era para ser feito.

 

Eles partiram preocupados; nós prosseguimos tristes.

 

E é, a partir destas circunstâncias, que quer eu quer Emídio nos encontrámos sós no Caminho.

 

Costuma-se dizer que é na adversidade que mais e melhor se conhecem as pessoas. Pois connosco esse conhecimento não só se efetuou como, a partir desse dia, nasceu uma larga e profunda amizade.

 

Mais peripécias sucederam pelo Caminho até Santiago. Foram, contudo, as destas duas etapas que determinaram o sentido e a vivência de todo o Caminho. Rico em emoções, afetos, amizades e partilha que jamais esquecerei.

 

Realizado o Caminho, fiz uma extensa reportagem vídeo/diaporama, de cada uma das etapas, que entreguei a todos os protagonistas que comigo percorreram este Caminho. Dediquei cada etapa a uma ou duas pessoas que comigo se cruzaram e viveram o Caminho.

 

No final da reportagem de cada etapa/post, exibir-se-á o respetivo diaporama, resultante da divisão em seis partes, tantas quantas as etapas, do filme/vídeo naquela altura produzido.

 

Por seu lado, Emídio, com data de 22 de Dezembro de 2008 - fim do Caminho -, escreve o “Livro II - Memórias dos Meus Caminhos a Santiago via Compostela (Caminho Francês na Galiza)”.

 

Será o texto desse Livro II, com pouquíssimas e ligeiras alterações, que iremos utilizar, nos posts que a seguir apresentaremos, para relatarmos a nossa experiência, numa espécie de alter ego, e que os leitores poderão ter acesso, via internet, no seguinte sítio:

http://www.caminhodesantiago.com.br/members/livros/memo_cam_santiago_emidio.pdf.

 

Estou certo que o amigo Emídio não se importará que utilize, emprestadas, as palavras do seu texto para dar conta aos nossos (as) leitores (as) desta inolvidável experiência, tão rica e profunda, repitpo, em afetos humanos.

 

Daqui, pois, vai um abraço fraterno e um muito obrigado a um grande amigo, tão rico em humanidade que o Caminho Francês me deu - o Emílio Almeida.

 

Abraço e obrigado extensível a todos quantos, de uma forma pessoal e viva, comigo lidaram, conviveram e se relacionaram pela primeira vez, ao longo do Caminho, e de uma forma muito especial - Mónica; Maria José e seu filho Adrian; Vicky e sua filha Alba e Verónica.

 


publicado por andanhos às 20:19
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