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Versejando com imagem, Mia Couto, «O outro pé da sereia»

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

«O OUTRO PÉ DA SEREIA»

 

 

Lendo o romance de Mia Couto - «O outro pé da sereia» -, a certa altura, demo-nos conta com estas duas passagens:

 

"A viagem acontece quando acordamos fora do corpo,

longe do último lugar onde podemos ter casa"

 

***

 

"Os que morrem

não se retiram:

eles viajam.

Na água que vai fluindo

eles são a água que dorme".

am14

 

 

Palavras soltas - A Casa Grande de Gogim

 

 

PALAVRAS SOLTAS

 

A CASA GRANDE DE GOGIM (ARMAMAR)

01.- 2018.- Armamar (Gojim) (11)

Nas nossas deambulações frequentes pelas terras do Douro, certo dia, passando pelo centro de Armamar, onde impera a sua igreja matriz, de raiz românica,

03.- 2018.- Armamar (Gojim) (19)

fomos ter a Gogim, um pouco mais à frente, considerada aldeia preservada, onde impera o seu velho e caraterístico casario.

04.- 2018.- Armamar (Gojim) (15)

Armamar é célebre pela sua produção de maçã de montanha.

 

Contudo, situada no coração do Douro, no Cima Corgo, é também terra de vinho,

05.- 2018.- Armamar (Gojim) (18)

onde não falta o vinhedo.

06.- 2018.- Armamar (Gojim) (17)

O que nos levou a Gogim foi uma visita à sua Casa Grande.

 

A Casa Grande de Gogim, ou Solar, foi residência dos Condes de Vila Flor e Alpedrinha.

 

Residência nobre, é o único solar existente no Município de Armamar.

 

Na página oficial do Município de Armamar, no que concerne ao seu património arquitetónico, ali pode ler-se:
A fachada do solar tem dois pisos: existem frestas gradeadas no piso inferior e o piso nobre é composto pelo mesmo número de janelas emolduradas e debruadas de granito. No cunhal apresenta brasão, peça da heráldica dos proprietários. Em ligação com a fachada vê-se um muro alto que faz a ligação com a capela particular, de invocação a S. Domingos e onde estão sepultados os Condes de Samodães (1756-1866),

06a.- 2018.- Armamar (Gojim) (9)

muro esse só interrompido no portal mas que impede por completo que se veja o interior da propriedade.

07.- 2018.- Armamar (Gojim) (8)

Passando o portal deparamo-nos com um amplo pátio onde se pode apreciar a escada de acesso ao piso superior e um pequeno tanque situado sob uma janela de balcão”.

 

Não pudemos ultrapassar o portal principal da casa por se encontrar fechado. Ainda uma senhora do local nos informou qual o senhor que, tendo a chave, nos poderia facilitar a entrada. Porque chovia abundantemente, deixámos a visualização do amplo pátio para outra ocasião.

 

Fica, contudo, aqui a sua imagem, retirada do sitio da internet «Turismo Porto e Norte de Portugal». 

08.- Solar dos Condes de Vila Flor e Alpedrinha

Na mesma página oficial do Município de Armamar diz-se que aquele imóvel sofreu em 1713 obras de reconstrução para receber a boda de D. Miguel Teixeira de Carvalho (1669-1756) com D. Maria Engrácia de Albuquerque.

 

Este acontecimento marcou a memória dos habitantes de Gogim e de todas as gentes do Concelho pela dimensão da festa com grande número de convidados, e pela abundância das sedas e dos damascos e o luxo dos coches que ali se viram.

 

Saindo do meio da povoação, por esta rua,

09.- 2018.- Armamar (Gojim) (10)

fomos reconhecer a envolvente da Casa, chegando à estrada.

10.- 2018.- Armamar (Gojim) (12)

Pela vinha que lhe está anexa,

11.- 2018.- Armamar (Gojim) (14)

demo-nos conta do estado de degradação avançada em que a Casa se encontra.

12.- 2018.- Armamar (Gojim) (13)

É pena!

 

Trata-se de um imóvel que, apesar de pertencer a ditas pessoas de «sangue azul», sendo propriedade dos herdeiros do último conde: D. Francisco Maria Martinho de Almeida Manuel de Vilhena, é, na verdade, «pertença» de toda uma comunidade que não só a construiu, como a manteve, servindo os seus legítimos donos durante muitos anos. A autarquia de Armamar (apesar de sabermos dos inúmeros entraves que a aquisição de um imóvel destes tem, quando estão em causa certos «pergaminhos» e, possivelmente, muitos herdeiros), bem podia tomar mão deste património, pondo-o ao serviço do Município de Armamar para as inúmeras funções que, nos termos da lei, lhe são atribuídas.

 

Voltámos para trás, rumo a Peso da Régua, deixando os vinhedos

13.- 2018.- Armamar (Gojim) (16)

das terras de Armamar.

14.- 2018.- Armamar (Gojim) (20)

Ao Acaso... A Casa do Penedo

 

 

AO ACASO...

A CASADO PENEDO


- Moreira do Rei – Fafe –
(domingo.9.dezembro.2918)

01.- 2018.- Casa do Penedo (Fafe-Moreira de Rei) (1)

Ontem, um dia solarengo, num outono em declínio, à entrada do inverno, fomos dar uma volta.

 

Como sempre, o nosso território eleito é o do Reino Maravilhoso.

 

Neste Reino há duas áreas que nos seduzem particularmente – o Douro, onde nascemos; o Alto Tâmega e Barroso, onde, há mais de 50 anos, vivemos.

 

Só que, desta vez, ao chegarmos ao limite do Barroso de Baixo, mais propriamente, na chamada Carreira da Lebre, onde aproveitámos para, num dos seus restaurantes, comermos um cozido à barrosã que, no nosso estomago já estafado, demorou horas a ser digerido, decidimos remar até às Terras de Basto, mais exatamente, Cabeceiras de Basto.

 

Ao chegarmos ao centro de Cabeceiras, nas proximidades do Convento de S. Miguel de Refojos, fizemos uma pequena pausa para, do outro lado do Mundo, via WhatsApp, darmo-nos conta das novas habilidades da nossa pequena netinha.

 

Depois de aqui chegados, Ao Acaso… decidimos dirigirmo-nos para a serra de Fafe.

 

Já há alguns anos que nossa curiosidade nos pedia que fossemos ver a célebre Casa do Penedo. Mas, infelizmente, a oportunidade nunca surgiu. Desta vez, tinha de ser de vez. E assim foi!...

2018.- Casa do Penedo (Fafe-Moreira de Rei) (13)

Afinal de contas, o que tem a Casa do Penedo para merecer, de propósito, uma deslocação?

02.- 2018.- Casa do Penedo (Fafe-Moreira de Rei) (40)

 

Contemos, sumariamente, um pouco da sua história.

 

Segundo Ana Cristina Pereira, num seu artigo no jornal o «Público», de 5 de outubro de 2009, esta bizarra Casa, entre quatro grandes rochas, foi construída, em 1974, por um engenheiro de Guimarães, já falecido.

 

A sua originalidade levou a que, a partir de certa altura, fosse devassa de muitos forasteiros e outras gentes menos bem intencionadas, e, com o correr do tempo, transformar-se numa atração turística, mas agora devidamente vedada, ao ponto de, para nos aproximarmos, para a ver mais de perto por fora, termos de pagar um euro.

 

Hoje é considerada uma obra de arte.

03.- 2018.- Casa do Penedo (Fafe-Moreira de Rei) (31)

Situada no limite de Fafe, ladeada pela Estrada Nacional 311, em Moreira do Rei, na fronteira com Celorico de Basto, a sua fama ultrapassou fronteiras.

 

Diz Ana Cristina que parece saída da série animada «The Flintstones», imaginário da Idade da Pedra, criada pela dupla Hanna-Barbera.

04.- 2018.- Casa do Penedo (Fafe-Moreira de Rei) (24)

Para Vítor, o filho herdeiro do engenheiro construtor, puxando das suas memórias, seu pai, como já se disse, de Guimarães, costumava vir para aqui, para a serra de Fafe, caçar perdizes. Na primavera de 1972, acompanhou o pai para estes lugares, onde costumava apanhar grilos. A certa altura, deu-se conta que o velho engenheiro, não tirava os olhos daqueles quatro penedos. E ali, na Lameirinha, acabou por construir uma casa de fim-de-semana, tendo como pano de fundo, por um lado, a serra do Marão, a Senhora da Graça (Mondim de Basto); por outro, os montes do Sameiro (Braga) e da Penha (Guimarães).

 

Ficou registada como abrigo de montanha.

 

Não pudemos entrar dentro. Mas, diz-nos a já referida Ana Cristina, que possui uma estreita escada de madeira, que nos conduz ao primeiro andar, onde estão situados os quartos. Cada quarto tem uma forma – triangular, retangular -, conforme os penedos o permitiam. Daí que as camas tivessem de ser feitas sob medida, em função do espaço disponível. No rés-do-chão, fica a cozinha e as partes comuns da casa.

 

Ali não há telefone (a não ser, agora, o telemóvel), jornais ou televisão. Não há, tão pouco, eletricidade ou água canalizada.

 

Ao fundo do terreno da Casa, há uma pequena piscina, que mais parece um tanque, apoiada num rochedo.

04a.- 2018.- Casa do Penedo (Fafe-Moreira de Rei) (35)

Veja-se mais de perto.

04b.- 2018.- Casa do Penedo (Fafe-Moreira de Rei) (36)

O herdeiro, engenheiro filho, desde que lhe nasceu o seu primeiro filho, há 11 anos, não dorme ou habita a Casa. Segundo ele, o sossego e a paz, aqui, acabaram, pela excessiva curiosidade que a Casa desperta.

 

Foi em tempos objeto de grande devassa e pilhagem, que obrigou o seu proprietário a vedá-la convenientemente e a reforçar as respetivas portas e janelas,

05.- 2018.- Casa do Penedo (Fafe-Moreira de Rei) (22)

com material feito em ferro.

05a.- 2018.- Casa do Penedo (Fafe-Moreira de Rei) (39)

Nas suas redondezas, em 2006, nasceu um bem visível parque eólico.

06.- 2018.- Casa do Penedo (Fafe-Moreira de Rei) (44)

A uns metros da Casa, considerada “uma das casas mais loucas do mundo”, fica o salto da Lameirinha, que foi, durante anos, uma das grandes atrações do Rali de Portugal.

07.- 2018.- Casa do Penedo (Fafe-Moreira de Rei) (43)

Na nossa modesta opinião, esta atração bem podia ter uma outra função turística mais digna, como uma infraestrutura de montanha. Todavia a conversa sobre este tema não foi o que nos levou lá: apenas a pura curiosidade.

 

A sua (possível?) função futura é questão de «outros quintos»!...

2018.- Casa do Penedo (Fafe-Moreira de Rei) (48)

Deixámos ao nosso leitor uma pequena vista aérea, em 4K Ultra HD, da Casa e da sua envolvente, de Hélder Afonso.

Palavras soltas... Braga - Miradouro do Sagrado Coração de Jesus

 

POR TERRAS DE PORTUGAL

 

BRAGA – O MIRADOURO DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

01.- 2018.- Braga I (Samsung) (132)

Tudo que englobe a antiga Gallaecia, a romana, nos fascina.

 

Naturalmente que mais as terras do nosso Reino Maravilhoso.

 

Mas não podemos de deixar de olhar para o lado e apreciar as terras verdes do nosso Minho. E, naturalmente à cabeça, vem a sua mais antiga, milenar e emblemática cidade – Braga.

 

Não visitamos e frequentamos a cidade tanto quanto gostaríamos. Mas sempre que lá vamos – e ali temos familiares e bons amigos – não resistimos a vaguear pelas suas praças, avenidas, ruas e ruelas, apreciando o seu rico património, em que o estilo barroco aqui impera.

 

Nas nossas últimas incursões temos ido munido de um interessante livro - «Segredos de Braga – Braga Top Secret» -, com texto e coordenação de Eduardo Pires de Oliveira e fotografia de Libório Manuel Silva, 1ª edição de 2014, da Editora Centro Atlântico.

 

Desta vez andámos por um escondido miradouro – o do Sagrado Coração de Jesus.

 

Diz-nos, a certa altura, Eduardo Pires de Oliveira:
“No edifício da Faculdade de Filosofia vale a pena aceder às varandas dos últimos andares de onde se observa uma bela panorâmica sobre a zona do Campo Novo”.

 

Não subimos às varandas da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica.

 

Viemos, a pé, do centro da cidade, atravessámos a Praça Mouzinho de Albuquerque (Campo Novo),

02.- 2018.- Braga I (Samsung) (118)

(Perspetiva I)

03.- 2018.- Braga I (Samsung) (122)

(Perspetiva II)


observando a estátua/monumento de D. Pedro V,

04.- 2018.- Braga I (Samsung) (119)

dirigimo-nos à rua Guadalupe; subimos um lanço de escadaria e fomos dar de caras com o portão, fechado, da capela de Guadalupe.

05.- 2018.- Braga I (Samsung) (123)

Percorremos a rua Camões e entrámos em território da Universidade Católica.

 

Nosso intuito não era receber ou sequer dar qualquer palesta a muitas e muitos pios estudantes e ou outros ímpios, que frequentam ou que também por lá passaram…

 

Fomos de imediato, para um miradouro excecional.

06.- 2018.- Braga I (Samsung) (136)

Diz-nos Eduardo Pires de Oliveira, na sua obra citada, que “está colocado no ponto mais alto de Braga – foi ali, a seus pés, que foi implantado o reservatório de água que vem do rio Cávado destinada ao abastecimento da metade Norte da cidade – como, ainda por cima, tem uma torre bastante alta onde foi colocada uma imagem do Sagrado coração de Jesus em cujo topo existe [existia] uma lâmpada que server de aviso aos aviões”.

07.- 2018.- Braga I (Samsung) (189)

Está situado no polo da rua de Camões, no denominado Monte da Barquinha.

 

E continua aquele autor: “A vista que se tem é de 360º. Dali se pode perceber, melhor que qualquer outro local, como é que a cidade tem crescido, podendo mesmo servir para se fazer o planeamento das várias zonas da cidade”.

 

Na panorâmica que daqui se tem, o que nos chama mais a atenção são, ao longe, os 3 (três) dos seis miradouros da cidade de Braga:
Miradouro do Bom Jesus do Monte
Miradouro do Monte Sameiro
Miradouro da capela de Nossa Senhora de Guadalupe,

08.- 2018.- Braga I (Samsung) (182)

para além do miradouro do Monte Picoto e da Torre de Santiago.

09.- 2018.- Braga I (Samsung) (150)

(Panorâmica)

Do miradouro, a nossos pés, as instalações da Universidade Católica-Pólo de Braga.

10.- 2018.- Braga I (Samsung) (142)

Mas estamos de acordo com o autor dos «Segredos de Braga» quando afirma que Braga, ao contrário de Lisboa, descura os seus miradouros. A exceção, diz, é feita ao do Bom Jesus do Monte que aqui deixamos uma imagem.

11.- 2016 - Braga - Bom Jesus do Monte (356)

O nosso amigo Varico mostrou-nos, numa dependência do Santuário do Bom Jesus do Monte, o telescópio original daquele miradouro. Aqui fica uma imagem do mesmo.

12.- 2018.- Braga - bom Jesus do Monte - telescópio

E, hoje, por aqui ficamos até ao próximo «segredo» de Braga, neste nosso vaguear pelas suas artérias e recantos, acompanhado da obra de Eduardo Pires de Oliveira.

Versejando com imagem - D'après D. Francisco de Quevedo, Manuel António pina

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

D’APRÈS D. FRANCISCO DE QUEVEDO

 

B 830

(Copie d'après La Barque de Dante de Delacroix - Edouard_Manet)

 

Também eu ceei com os doze naquela ceia
em que eles comeram e beberam o décimo terceiro.
A ceia fui eu, e o servo; e o que saiu a meio;
E o que inclinou a cabeça no Meu peito.


E traí e fui traído,
e duvidei, e impacientei-me, e descartei-me;
e pus com Ele a mão no prato e posei para o retrato
(embora nada daquilo fizesse sentido).


Não subi aos céus (nem era caso para isso),
mas desci aos infernos (e pela porta de serviço):
comprei e não paguei, faltei a encontros,
cobicei os carros dos outros e as mulheres dos outros.


Agora, como num filme descolorido,
chegou o terceiro dia e nada aconteceu,
e tenho medo de não ter sido comigo,
de não ter sido comido nem ter sido Eu.


Manuel António Pina
In « Poesia, Saudade da Prosa – uma antologia pessoal»

Versejando com imagem - As pessoas sensíveis, Sophia de Mello Breyner Andresen

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

AS PESSOAS SENSÍVEIS

 

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As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa

Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'

Versejando com imagem - Elegia do Amor, Teixeira de Pascoaes

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

ELEGIA DO AMOR

 

Elegia do Amor, Teixeira de Pascoaes

Lembras-te, meu amor,

Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu, triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti...
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos...
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória...
Assim o que partiu
Em frágil caravela,
E andou por todo o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu.

Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
À tarde, dos rochedos...
E eu ficava a sonhar,
Qual névoa adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos.
Olhavas para mim...
Meu corpo rude e bruto
Vibrava, como a onda
A alar-se em nevoeiro.
Olhavas, descuidada
E triste... Ainda hoje escuto
A música ideal
Do teu olhar primeiro!
Ouço bem tua voz,
Vejo melhor teu rosto
No silêncio sem fim,
Na escuridão completa!
Ouço-te em minha dor.
Ouço-te em meu desgosto
E na minha esperança
Eterna de poeta!
O sol morria, ao longe;
E a sombra da tristeza
Velava, com amor,
Nossas doridas frontes.
Hora em que a flor medita
E a pedra chora e reza,
E desmaiam de mágoa
As cristalinas fontes.
Hora santa e perfeita,
Em que íamos, sozinhos,
Felizes, através
Da aldeia muda e calma,

Mãos dadas, a sonhar,
Ao longo dos caminhos...
Tudo, em volta de nós,
Tinha um aspecto de alma.
Tudo era sentimento,
Amor e piedade.
A folha que tombava
Era alma que subia...
E, sob os nossos pés,
A terra era saudade,
A pedra comoção
E o pó melancolia.
Falavas duma estrela
E deste bosque em flor;
Dos ceguinhos sem pão,
Dos pobres sem um manto.
Em cada tua palavra,
Havia etérea dor;
Por isso, a tua voz
Me impressionava tanto!
E punha-me a cismar
Que eras tão boa e pura,
Que, muito em breve — sim!
Te chamaria o céu!
E soluçava, ao ver-te
Alguma sombra escura,
Na fronte, que o luar
Cobria, como um véu.
A tua palidez
Que medo me causava!
Teu corpo era tão fino
E leve (oh meu desgosto!)
Que eu tremia, ao sentir
O vento que passava!
Caía-me, na alma,
A neve do teu rosto.

Como eu ficava mudo
E triste, sobre a terra!
E uma vez, quando a noite
amortalhava a aldeia,
Tu gritaste, de susto,
Olhando para a serra:
— Que incêndio! — E eu, a rir,
Disse-te — É a lua cheia!...
E sorriste também
Do teu engano. A lua
Ergueu a branca fronte,
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei sem querer,
Seus raios virginais.
E a lua, para nós,
Os braços estendeu.
Uniu-nos num abraço,
Espiritual, profundo,
E levou-nos assim,
Com ela, até ao céu
Mas, ai, tu não voltaste
E eu regressei ao mundo.

Teixeira de Pascoaes, in 'Prosa e Poesia'

 

Ao Acaso... Caminhar, a pensar na Vida, na Inteligência e Emoções Humanas

 

 

AO ACASO…

 

CAMINHAR, A PENSAR NA VIDA, NA INTELIGÊNCIA E EMOÇÕES HUMANAS

(PELO PEQUENO PERCURSO PEDESTRE DA QUINTA PEDAGÓGICA DO REBENTÃO)

2018.- Quinta do Rebentão (66)

 Frequentemente fazemos este pequeno percurso pedestre pela quinta Pedagógica do Rebentão, em Vila nova de Veiga, freguesia de São Pedro de Agostém, concelho de Chaves, onde, no mesmo espaço, estão instaladas as Piscinas Municipais, a céu aberto, e o Parque de Campismo.

 

Trata-se de um percurso pedestre que é, simultaneamente, circuito de manutenção.

 

Aqui, há poucos meses, pegámos na nossa Fuji e, enquanto fazíamos o pequeno trilho, Ao Acaso…, maia em jeito de um caminhar/reflexão sobre a Vida e a Natureza, «batíamos» umas quantas fotos.

 

Foi o caminhar num dia de primavera que chegou tardia e em que as flores dos prunus se apresentavam com toda a sua exuberância

01.- 2018.- Quinta do Rebentão (27)

bem assim as pequenas e albas flores das cerejeiras bravas,

02.- 2018.- Quinta do Rebentão (45)

dispostas nas margens do trilho, a par de uma imensa variedade de plantas nativas, como este medronheiro,

03.- 2018.- Quinta do Rebentão (88)

e outras espécies exóticas.

 

Apreciador que somos da obra do nosso cientista português António Damásio, levávamos, debaixo do braço, a sua última publicação, que dá pelo nome de «A estranha ordem das coisas – A Vida, os Sentimentos e as culturas humanas».

 

Iniciámos este nosso percurso/reflexão na Receção do Parque de Campismo, subindo a rampa que nos leva até ao Restaurante da Quinta do Rebentão, tendo, do nosso lado esquerdo, a rede e sebe, de várias colorações, que separam o Parque de Campismo das restantes infraestruturas da Quinta, e, do nosso lado direito, as Piscinas Municipais.

04.- 2018.- Quinta do Rebentão (12)

Um velho carvalho, ao cimo da rampa, ainda calvo, sem ramos verdes e folhas, dava-nos as boas-vindas,

05.- 2018.- Quinta do Rebentão (13)

enquanto nos aproximávamos do edifício do Restaurante, onde, já lá vão alguns anos, ali comíamos um bom bacalhau, na companhia de bons amigos.

06.- 2018.- Quinta do Rebentão (23)

Fizemos a curva à direita e continuámos a subir, dando de frente com a velha árvore, guardiã da casa antiga da Quinta, e o seu portal.

07.- 2018.- Quinta do Rebentão (18)

Infletindo agora para a esquerda, continuámos a subir.

 

Por entre o arvoredo que ladeia o trilho, uma panorâmica das Piscinas Municipais.

08.- 2018.- Quinta do Rebentão (31)

Agora, nossa senda começa a ser mais suave e, poucos metros mais à frente, começa a descer um pouco.

09.- 2018.- Quinta do Rebentão (33)

Do nosso lado esquerdo, observamos as casas pré-fabricadas (vulgo, bungalows) do Parque de Campismo.

10.- 2018.- Quinta do Rebentão (34)

O terreno agora é plano.

11.- 2018.- Quinta do Rebentão (38)

À nossa direita umas escadas, com corrimão, que nos leva até ao primeiro «miramontes».

12.- 2018.- Quinta do Rebentão (40)

Não resistimos em subir e, debaixo da sua cobertura, à sombra, sentado no banco, olhando em frente, observávamos a povoação de Vila Nova de Veiga, tende a Este a sua alva igreja e cemitério, onde já jazem os restos mortais dos nossos entes queridos mais próximos. Estamos, por via deles, indelevelmente ligado a este pedaço de terra que, de coração, a adotámos como nossa, embora as nossas raízes mais fundas venham das ancestrais seivas das vinhas do nosso querido Douro.

 

Olhando para Norte, um pequeno cocuruto no termo da aldeia, mesmo nas proximidades do Km 5 da EN 2, dois edifícios, um sobreposto no outro, lembra-nos a vida que por eles repartimos e vivemos, fazendo parte da nossa história pessoal e familiar.

 

Não foram sentimentos de nostalgia aqueles que, naquele instante, nos ocorreram. Tão somente um simples encolher de ombros, num constatar que … é a vida!

 

Pegámos no livro que trazíamos, de António Damásio, e começámos a ler, desde a página donde, na véspera, tínhamos ficado.

 

Foi, seguramente, meia hora de leitura interessante, de um autor com um pensamento inovador. Gratificante, por isso..

 

A certa altura, voltámos atrás na leitura para, relendo uma passagem, fazermos uma pequena pausa para refletir, pensar.

 

Reproduzamos, para os nossos leitores, parte do parágrafo em questão:

 

Não tenho quaisquer dúvidas de que a capacidade intelectual, a sociabilidade e a linguagem desempenharam papéis fundamentais no processo [da humanização], mas julgo que terá sido preciso algo mais para dar início à saga das culturas humanas. Esse «algo mais» foi um motivo poderoso. Estou a referir-me especificadamente aos sentimentos, desde a dor e o sofrimento ao bem-estar e ao prazer”.

 

No final deste capítulo, António Damásio, conclui:

 

A ideia, na essência, é que a atividade cultural teve início nos sentimentos e deles continua a depender. Se quisermos compreender os conflitos e as contradições da condição humana, precisamos de reconhecer a interação, tanto favorável como desfavorável, entre sentimentos e raciocínio”.

 

Ruminando sobre estas palavras, descemos as escadas do «miramontes» para voltarmos ao nosso trilho.

13.- 2018.- Quinta do Rebentão (42)

E começámos a descer para a linha d’água que passa na Quinta.

14.- 2018.- Quinta do Rebentão (46)

Gostamos da vegetação que ladeia o percurso, embora constatemos que, no conjunto, há pinheiro a mais!

 

No fundo da descida, por entre a ramagem de uma cerejeira florida, aparecem-nos os casebres dos suínos monteses e dos póneis.

15.- 2018.- Quinta do Rebentão (48)

Junto à linha d’água, um outro abrigo, a requerer mais uma pequena paragem para mais uma leitura.

16.- 2018.- Quinta do Rebentão (52)

No capítulo, logo imediatamente a seguir, da obra de Damásio, um excerto do texto reteve mais a nossa curiosidade e atenção quando afirma:

 

Na sua necessidade de lidar com o coração humano em conflito, no seu desejo de reconciliar as contradições apresentadas pelo sofrimento, pelo medo e pela fúria, e na busca do bem-estar, os seres humanos optaram pela maravilha e pelo deslumbramento e descobriram a música, a dança e a pintura, e a literatura. Prosseguiram criando as por vezes belas epopeias que dão pelo nome de «crença religiosa», dúvida filosófica e sistemas de governação. Do berço à cova, eis algumas das formas com as quais a mente cultural abordou o drama da condição humana”.

 

Levantámo-nos do banco, onde nos tínhamos sentado e, ultrapassando a linha d’água, qual filigrana fina e prateada no meio das ervas, por um pequeno pontão de madeira, prosseguimos o nosso caminho, ruminando, uma vez mais, agora sobre o parágrafo que acabáramos de ler há instantes,

17.- 2018.- Quinta do Rebentão (53)

enquanto passávamos por estes três troços do trilho.

18.- 2018.- Quinta do Rebentão (54)

(Troço I)

19.- 2018.- Quinta do Rebentão (56)

(Troço II)

20.- 2018.- Quinta do Rebentão (58)

(Troço III)

A certa altura, desviámo-nos à esquerda, para irmos ter com esta pequena represa de água.

21.- 2018.- Quinta do Rebentão (61)

E fizemos mais uma pausa para leitura, olhando as águas mansas deste pequenino lago.

22.- 2018.- Quinta do Rebentão (64)

Dois parágrafos do livro, que vínhamos lendo, ficaram-nos na mente.

 

Aqui os reproduzimos para, conjuntamente com os nossos(as) leitores(as), refletirmos:

 

As nossas vidas atuais e os seus objetivos e práticas culturais podem ser ligados cautelosamente às vidas de outrora, antes de haver sentimentos e subjetividade, antes de haver palavras e decisões. A ligação entre os dois conjuntos de fenómenos percorre um labirinto complexo onde é fácil dar uma volta errada e perdermo-nos. Aqui e além, podemos encontrar o que resta de um fio orientador – o fio de Ariadne, claro – mas a orientação é difícil. A tarefa da biologia, da psicologia e da filosofia é fazer com que esse fio se torne contínuo (…)”

Note-se que as extraordinárias capacidades de vigilância e de espionagem dos Governos modernos, dos colossos dos media e das empresas que espiam por encomenda, são apenas os mais recentes utilizadores desta invenção original da natureza [a homeostasia]. Não podemos culpar a natureza por desenvolver sistemas de vigilância homeostaticamente úteis, pelo contrário, mas podemos por em causa e julgar os Governos e as empresas que reinventaram a fórmula da vigilância unicamente para fortalecer o seu poder e o seu valor monetário. Questionar e julgar são direitos legítimos das culturas”.

 

Saímos do nosso abrigo de leitura e subimos em direção ao trilho.

23.- 2018.- Quinta do Rebentão (71)

À nossa esquerda próxima, as casas pré-fabricadas do Parque de Campismo, ao longe, encobertas pelo pequeno pinhal, um rincão cheio de memórias.

24.- 2018.- Quinta do Rebentão (77)

Prosseguimos a nossa pequena caminhada, passando por esta escolinha,

25.- 2018.- Quinta do Rebentão (78)

e por uma enorme gaiola, cujos aves fizeram greve ao cativeiro, indo à procura da sua Liberdade!

26.- 2018.- Quinta do Rebentão (92)

Estas pequenas cabras, que nada têm a ver com as que pelo nosso «reino» se criam, pacatamente, deixam-nos passar, indiferentes ao nosso caminhar; apenas uma para de procurar erva para olhar, de surpresa, um viandante tão solitário.

27.- 2018.- Quinta do Rebentão (95)

Descemos até ao refúgio dos faisões e outras aves de capoeira. Não demorámos aqui muito, não. Apenas ficou uma olhadela para trás e seguimos caminho.

28.- 2018.- Quinta do Rebentão (106)

Caminho esse já muito perto do términus da nossa caminhada.

29.- 2018.- Quinta do Rebentão (109)

 Continuámos a caminhar, asfalto fora, até às proximidades deste lugar,

30.- 2018.- Quinta do Rebentão (111)

onde se encontrava a nossa viatura, muito próximo do nosso refúgio mata-saudades.

 

Foi apenas uma pequena, simples caminhada. Para arejar ideias…

 

Obviamente que este não é o lugar para fazermos a síntese não só do livro que andámos a ler como também da obra e pensamento de António Damásio! Positivamente não é agora, e aqui, fazer a síntese e sistematização do seu pensamento…

 

Apenas pegámos, para reflexão, em alguns excertos que mais despertaram a nossa curiosidade para partilharmos com quem nos lê. Tão só…

 

Às vezes faz falta fazer uma pausa das viciantes redes sociais, muitas vezes tão cheias de frases feitas e banalidades, dando-nos a ideia que nelas reside toda a sabedoria, e fazermos uma leitura mais aprofundadas de certos temas.

 

Informação, formação e cultura não se aprendem em leituras apressadas de textos e frases que passam a velocidades estonteantes nas milhares de «postagens» das redes sociais. Apenas criam em nós uma ilusão do saber. E, quando vamos dar conta, e bem espremer o que retemos, outra coisa não fica senão a fugaz sensação da fragilidade e pouca consistência desses conhecimentos mal digeridos.

 

Um enorme vazio – diríamos até, inquietação – nos apoquenta.

 

E necessitamos de algo mais consistente. Que só a reflexão autêntica e a dialógica nos pode não só satisfazer como acalmar, nesta inquietude que é a Vida.

 

Gostamos de caminhar – muitas vezes sozinho – pela Natureza. Ela, para nós, não é a imensa mole, a turba que nos persegue todos os dias nas ditas sociedades modernas em que vivemos. Ela nos propicia os momentos de silêncio, de que tanto carecemos, para melhor refletirmos sobre as grandes questões da vida que, não só hoje, mas sempre, apoquentam o Homem, ser vivo portador de Razão e Emoção.

Versejando com imagem - Carta, Mia Couto

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

CARTA

thinkin

Tenho demasiado sono para alimentar crenças.

Das casas vou preferindo os cantos interiores,

obsessivas sombras em que vou julgando.

Se me acerco  das janelas é apenas para ver o longe,

as ténues linhas do azul inatingível.

As portas, fechadas ou abertas, pouco valem.

Desfaleceram com o desencanto do caminho.

Vou ficando pela distracção de desejos mansos,

sem guardar réstia de glória nem consolo.

Assim, dou feriado à minha existência.

 

Sofro a fadiga das viagens que nunca ousei.

Mas não me dedico nenhum desalento.

Porque mantenho dos índios o preceito

de envolver com panos os cascos dos cavalos guerreiros.

Assim protejo a gravidez da terra.

Fica a esperança:

outros farão vencer as nossas pequenas razões.

Saberemos então do seu tamanho, da sua pressa de ser cedo.

 

De tanto pensarmos fomos ficando sós.

De amarmos venceremos o cerco dessa solidão.

Que este cansaço sirva, ao menos,

para não culparmos nada nem ninguém.

 

(Mia Couto)

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