Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018

Versejando com imagem - As pessoas sensíveis, Sophia de Mello Breyner Andresen

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

AS PESSOAS SENSÍVEIS

 

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As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa

Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'


publicado por andanhos às 10:32
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Domingo, 11 de Novembro de 2018

Versejando com imagem - Elegia do Amor, Teixeira de Pascoaes

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

ELEGIA DO AMOR

 

Elegia do Amor, Teixeira de Pascoaes

Lembras-te, meu amor,

Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu, triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti...
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos...
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória...
Assim o que partiu
Em frágil caravela,
E andou por todo o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu.

Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
À tarde, dos rochedos...
E eu ficava a sonhar,
Qual névoa adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos.
Olhavas para mim...
Meu corpo rude e bruto
Vibrava, como a onda
A alar-se em nevoeiro.
Olhavas, descuidada
E triste... Ainda hoje escuto
A música ideal
Do teu olhar primeiro!
Ouço bem tua voz,
Vejo melhor teu rosto
No silêncio sem fim,
Na escuridão completa!
Ouço-te em minha dor.
Ouço-te em meu desgosto
E na minha esperança
Eterna de poeta!
O sol morria, ao longe;
E a sombra da tristeza
Velava, com amor,
Nossas doridas frontes.
Hora em que a flor medita
E a pedra chora e reza,
E desmaiam de mágoa
As cristalinas fontes.
Hora santa e perfeita,
Em que íamos, sozinhos,
Felizes, através
Da aldeia muda e calma,

Mãos dadas, a sonhar,
Ao longo dos caminhos...
Tudo, em volta de nós,
Tinha um aspecto de alma.
Tudo era sentimento,
Amor e piedade.
A folha que tombava
Era alma que subia...
E, sob os nossos pés,
A terra era saudade,
A pedra comoção
E o pó melancolia.
Falavas duma estrela
E deste bosque em flor;
Dos ceguinhos sem pão,
Dos pobres sem um manto.
Em cada tua palavra,
Havia etérea dor;
Por isso, a tua voz
Me impressionava tanto!
E punha-me a cismar
Que eras tão boa e pura,
Que, muito em breve — sim!
Te chamaria o céu!
E soluçava, ao ver-te
Alguma sombra escura,
Na fronte, que o luar
Cobria, como um véu.
A tua palidez
Que medo me causava!
Teu corpo era tão fino
E leve (oh meu desgosto!)
Que eu tremia, ao sentir
O vento que passava!
Caía-me, na alma,
A neve do teu rosto.

Como eu ficava mudo
E triste, sobre a terra!
E uma vez, quando a noite
amortalhava a aldeia,
Tu gritaste, de susto,
Olhando para a serra:
— Que incêndio! — E eu, a rir,
Disse-te — É a lua cheia!...
E sorriste também
Do teu engano. A lua
Ergueu a branca fronte,
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei sem querer,
Seus raios virginais.
E a lua, para nós,
Os braços estendeu.
Uniu-nos num abraço,
Espiritual, profundo,
E levou-nos assim,
Com ela, até ao céu
Mas, ai, tu não voltaste
E eu regressei ao mundo.

Teixeira de Pascoaes, in 'Prosa e Poesia'

 


publicado por andanhos às 12:45
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Terça-feira, 30 de Outubro de 2018

Ao Acaso... Caminhar, a pensar na Vida, na Inteligência e Emoções Humanas

 

 

AO ACASO…

 

CAMINHAR, A PENSAR NA VIDA, NA INTELIGÊNCIA E EMOÇÕES HUMANAS

(PELO PEQUENO PERCURSO PEDESTRE DA QUINTA PEDAGÓGICA DO REBENTÃO)

2018.- Quinta do Rebentão (66)

 Frequentemente fazemos este pequeno percurso pedestre pela quinta Pedagógica do Rebentão, em Vila nova de Veiga, freguesia de São Pedro de Agostém, concelho de Chaves, onde, no mesmo espaço, estão instaladas as Piscinas Municipais, a céu aberto, e o Parque de Campismo.

 

Trata-se de um percurso pedestre que é, simultaneamente, circuito de manutenção.

 

Aqui, há poucos meses, pegámos na nossa Fuji e, enquanto fazíamos o pequeno trilho, Ao Acaso…, maia em jeito de um caminhar/reflexão sobre a Vida e a Natureza, «batíamos» umas quantas fotos.

 

Foi o caminhar num dia de primavera que chegou tardia e em que as flores dos prunus se apresentavam com toda a sua exuberância

01.- 2018.- Quinta do Rebentão (27)

bem assim as pequenas e albas flores das cerejeiras bravas,

02.- 2018.- Quinta do Rebentão (45)

dispostas nas margens do trilho, a par de uma imensa variedade de plantas nativas, como este medronheiro,

03.- 2018.- Quinta do Rebentão (88)

e outras espécies exóticas.

 

Apreciador que somos da obra do nosso cientista português António Damásio, levávamos, debaixo do braço, a sua última publicação, que dá pelo nome de «A estranha ordem das coisas – A Vida, os Sentimentos e as culturas humanas».

 

Iniciámos este nosso percurso/reflexão na Receção do Parque de Campismo, subindo a rampa que nos leva até ao Restaurante da Quinta do Rebentão, tendo, do nosso lado esquerdo, a rede e sebe, de várias colorações, que separam o Parque de Campismo das restantes infraestruturas da Quinta, e, do nosso lado direito, as Piscinas Municipais.

04.- 2018.- Quinta do Rebentão (12)

Um velho carvalho, ao cimo da rampa, ainda calvo, sem ramos verdes e folhas, dava-nos as boas-vindas,

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enquanto nos aproximávamos do edifício do Restaurante, onde, já lá vão alguns anos, ali comíamos um bom bacalhau, na companhia de bons amigos.

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Fizemos a curva à direita e continuámos a subir, dando de frente com a velha árvore, guardiã da casa antiga da Quinta, e o seu portal.

07.- 2018.- Quinta do Rebentão (18)

Infletindo agora para a esquerda, continuámos a subir.

 

Por entre o arvoredo que ladeia o trilho, uma panorâmica das Piscinas Municipais.

08.- 2018.- Quinta do Rebentão (31)

Agora, nossa senda começa a ser mais suave e, poucos metros mais à frente, começa a descer um pouco.

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Do nosso lado esquerdo, observamos as casas pré-fabricadas (vulgo, bungalows) do Parque de Campismo.

10.- 2018.- Quinta do Rebentão (34)

O terreno agora é plano.

11.- 2018.- Quinta do Rebentão (38)

À nossa direita umas escadas, com corrimão, que nos leva até ao primeiro «miramontes».

12.- 2018.- Quinta do Rebentão (40)

Não resistimos em subir e, debaixo da sua cobertura, à sombra, sentado no banco, olhando em frente, observávamos a povoação de Vila Nova de Veiga, tende a Este a sua alva igreja e cemitério, onde já jazem os restos mortais dos nossos entes queridos mais próximos. Estamos, por via deles, indelevelmente ligado a este pedaço de terra que, de coração, a adotámos como nossa, embora as nossas raízes mais fundas venham das ancestrais seivas das vinhas do nosso querido Douro.

 

Olhando para Norte, um pequeno cocuruto no termo da aldeia, mesmo nas proximidades do Km 5 da EN 2, dois edifícios, um sobreposto no outro, lembra-nos a vida que por eles repartimos e vivemos, fazendo parte da nossa história pessoal e familiar.

 

Não foram sentimentos de nostalgia aqueles que, naquele instante, nos ocorreram. Tão somente um simples encolher de ombros, num constatar que … é a vida!

 

Pegámos no livro que trazíamos, de António Damásio, e começámos a ler, desde a página donde, na véspera, tínhamos ficado.

 

Foi, seguramente, meia hora de leitura interessante, de um autor com um pensamento inovador. Gratificante, por isso..

 

A certa altura, voltámos atrás na leitura para, relendo uma passagem, fazermos uma pequena pausa para refletir, pensar.

 

Reproduzamos, para os nossos leitores, parte do parágrafo em questão:

 

Não tenho quaisquer dúvidas de que a capacidade intelectual, a sociabilidade e a linguagem desempenharam papéis fundamentais no processo [da humanização], mas julgo que terá sido preciso algo mais para dar início à saga das culturas humanas. Esse «algo mais» foi um motivo poderoso. Estou a referir-me especificadamente aos sentimentos, desde a dor e o sofrimento ao bem-estar e ao prazer”.

 

No final deste capítulo, António Damásio, conclui:

 

A ideia, na essência, é que a atividade cultural teve início nos sentimentos e deles continua a depender. Se quisermos compreender os conflitos e as contradições da condição humana, precisamos de reconhecer a interação, tanto favorável como desfavorável, entre sentimentos e raciocínio”.

 

Ruminando sobre estas palavras, descemos as escadas do «miramontes» para voltarmos ao nosso trilho.

13.- 2018.- Quinta do Rebentão (42)

E começámos a descer para a linha d’água que passa na Quinta.

14.- 2018.- Quinta do Rebentão (46)

Gostamos da vegetação que ladeia o percurso, embora constatemos que, no conjunto, há pinheiro a mais!

 

No fundo da descida, por entre a ramagem de uma cerejeira florida, aparecem-nos os casebres dos suínos monteses e dos póneis.

15.- 2018.- Quinta do Rebentão (48)

Junto à linha d’água, um outro abrigo, a requerer mais uma pequena paragem para mais uma leitura.

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No capítulo, logo imediatamente a seguir, da obra de Damásio, um excerto do texto reteve mais a nossa curiosidade e atenção quando afirma:

 

Na sua necessidade de lidar com o coração humano em conflito, no seu desejo de reconciliar as contradições apresentadas pelo sofrimento, pelo medo e pela fúria, e na busca do bem-estar, os seres humanos optaram pela maravilha e pelo deslumbramento e descobriram a música, a dança e a pintura, e a literatura. Prosseguiram criando as por vezes belas epopeias que dão pelo nome de «crença religiosa», dúvida filosófica e sistemas de governação. Do berço à cova, eis algumas das formas com as quais a mente cultural abordou o drama da condição humana”.

 

Levantámo-nos do banco, onde nos tínhamos sentado e, ultrapassando a linha d’água, qual filigrana fina e prateada no meio das ervas, por um pequeno pontão de madeira, prosseguimos o nosso caminho, ruminando, uma vez mais, agora sobre o parágrafo que acabáramos de ler há instantes,

17.- 2018.- Quinta do Rebentão (53)

enquanto passávamos por estes três troços do trilho.

18.- 2018.- Quinta do Rebentão (54)

(Troço I)

19.- 2018.- Quinta do Rebentão (56)

(Troço II)

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(Troço III)

A certa altura, desviámo-nos à esquerda, para irmos ter com esta pequena represa de água.

21.- 2018.- Quinta do Rebentão (61)

E fizemos mais uma pausa para leitura, olhando as águas mansas deste pequenino lago.

22.- 2018.- Quinta do Rebentão (64)

Dois parágrafos do livro, que vínhamos lendo, ficaram-nos na mente.

 

Aqui os reproduzimos para, conjuntamente com os nossos(as) leitores(as), refletirmos:

 

As nossas vidas atuais e os seus objetivos e práticas culturais podem ser ligados cautelosamente às vidas de outrora, antes de haver sentimentos e subjetividade, antes de haver palavras e decisões. A ligação entre os dois conjuntos de fenómenos percorre um labirinto complexo onde é fácil dar uma volta errada e perdermo-nos. Aqui e além, podemos encontrar o que resta de um fio orientador – o fio de Ariadne, claro – mas a orientação é difícil. A tarefa da biologia, da psicologia e da filosofia é fazer com que esse fio se torne contínuo (…)”

Note-se que as extraordinárias capacidades de vigilância e de espionagem dos Governos modernos, dos colossos dos media e das empresas que espiam por encomenda, são apenas os mais recentes utilizadores desta invenção original da natureza [a homeostasia]. Não podemos culpar a natureza por desenvolver sistemas de vigilância homeostaticamente úteis, pelo contrário, mas podemos por em causa e julgar os Governos e as empresas que reinventaram a fórmula da vigilância unicamente para fortalecer o seu poder e o seu valor monetário. Questionar e julgar são direitos legítimos das culturas”.

 

Saímos do nosso abrigo de leitura e subimos em direção ao trilho.

23.- 2018.- Quinta do Rebentão (71)

À nossa esquerda próxima, as casas pré-fabricadas do Parque de Campismo, ao longe, encobertas pelo pequeno pinhal, um rincão cheio de memórias.

24.- 2018.- Quinta do Rebentão (77)

Prosseguimos a nossa pequena caminhada, passando por esta escolinha,

25.- 2018.- Quinta do Rebentão (78)

e por uma enorme gaiola, cujos aves fizeram greve ao cativeiro, indo à procura da sua Liberdade!

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Estas pequenas cabras, que nada têm a ver com as que pelo nosso «reino» se criam, pacatamente, deixam-nos passar, indiferentes ao nosso caminhar; apenas uma para de procurar erva para olhar, de surpresa, um viandante tão solitário.

27.- 2018.- Quinta do Rebentão (95)

Descemos até ao refúgio dos faisões e outras aves de capoeira. Não demorámos aqui muito, não. Apenas ficou uma olhadela para trás e seguimos caminho.

28.- 2018.- Quinta do Rebentão (106)

Caminho esse já muito perto do términus da nossa caminhada.

29.- 2018.- Quinta do Rebentão (109)

 Continuámos a caminhar, asfalto fora, até às proximidades deste lugar,

30.- 2018.- Quinta do Rebentão (111)

onde se encontrava a nossa viatura, muito próximo do nosso refúgio mata-saudades.

 

Foi apenas uma pequena, simples caminhada. Para arejar ideias…

 

Obviamente que este não é o lugar para fazermos a síntese não só do livro que andámos a ler como também da obra e pensamento de António Damásio! Positivamente não é agora, e aqui, fazer a síntese e sistematização do seu pensamento…

 

Apenas pegámos, para reflexão, em alguns excertos que mais despertaram a nossa curiosidade para partilharmos com quem nos lê. Tão só…

 

Às vezes faz falta fazer uma pausa das viciantes redes sociais, muitas vezes tão cheias de frases feitas e banalidades, dando-nos a ideia que nelas reside toda a sabedoria, e fazermos uma leitura mais aprofundadas de certos temas.

 

Informação, formação e cultura não se aprendem em leituras apressadas de textos e frases que passam a velocidades estonteantes nas milhares de «postagens» das redes sociais. Apenas criam em nós uma ilusão do saber. E, quando vamos dar conta, e bem espremer o que retemos, outra coisa não fica senão a fugaz sensação da fragilidade e pouca consistência desses conhecimentos mal digeridos.

 

Um enorme vazio – diríamos até, inquietação – nos apoquenta.

 

E necessitamos de algo mais consistente. Que só a reflexão autêntica e a dialógica nos pode não só satisfazer como acalmar, nesta inquietude que é a Vida.

 

Gostamos de caminhar – muitas vezes sozinho – pela Natureza. Ela, para nós, não é a imensa mole, a turba que nos persegue todos os dias nas ditas sociedades modernas em que vivemos. Ela nos propicia os momentos de silêncio, de que tanto carecemos, para melhor refletirmos sobre as grandes questões da vida que, não só hoje, mas sempre, apoquentam o Homem, ser vivo portador de Razão e Emoção.


publicado por andanhos às 10:23
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Sábado, 13 de Outubro de 2018

Versejando com imagem - Carta, Mia Couto

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

CARTA

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Tenho demasiado sono para alimentar crenças.

Das casas vou preferindo os cantos interiores,

obsessivas sombras em que vou julgando.

Se me acerco  das janelas é apenas para ver o longe,

as ténues linhas do azul inatingível.

As portas, fechadas ou abertas, pouco valem.

Desfaleceram com o desencanto do caminho.

Vou ficando pela distracção de desejos mansos,

sem guardar réstia de glória nem consolo.

Assim, dou feriado à minha existência.

 

Sofro a fadiga das viagens que nunca ousei.

Mas não me dedico nenhum desalento.

Porque mantenho dos índios o preceito

de envolver com panos os cascos dos cavalos guerreiros.

Assim protejo a gravidez da terra.

Fica a esperança:

outros farão vencer as nossas pequenas razões.

Saberemos então do seu tamanho, da sua pressa de ser cedo.

 

De tanto pensarmos fomos ficando sós.

De amarmos venceremos o cerco dessa solidão.

Que este cansaço sirva, ao menos,

para não culparmos nada nem ninguém.

 

(Mia Couto)


publicado por andanhos às 10:47
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Sexta-feira, 12 de Outubro de 2018

Versejando com imagem - Pequeninura do morto e do vivo, Mia Couto

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

PEQUENINURA DO MORTO E DO VIVO

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O morto

abre a terra: encontra um ventre

 

O vivo

abre a terra: descobre um seio.

 

(Mia Couto)


publicado por andanhos às 10:43
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Quinta-feira, 11 de Outubro de 2018

Ao Acaso...O espírito barrosão de antanho, por Miguel Torga

 

 

AO ACASO…

 

O ESPÍRITO BARROSÃO DE ANTANHO, POR MIGUEL TORGA

 

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 Foi, há pouco mais de dois meses, que, ao acaso, numa das nossas incursões pelas aldeias do Barroso, fomos ter a Carvalhelhos, no concelho de Boticas.

 

Na sua singela capelinha, na fachada principal, demos com uma placa de granito, tendo encrustada uma chapa de metal. Nela, uma introdução do Diário VIII, de Miguel Torga, com uma entrada, com data de 25 de junho de 1956 que rezava assim:

 

Carvalhelhos, 25 de Junho de 1956

 

Olho a serra. E diante desta natureza sem disfarces, aberta para todos os horizontes, sinto como que uma centrifugação do espírito. Ando, e parece que voo; tento localizar-me, e perco-me na indeterminação. Uma espécie de nomadismo de alma descentra-me e liberta-me das amarras mesquinhas da vida compartimentada. E compreendo de repente a força universal que impregna os gestos e as palavras destes barrosões, puros na impureza, que lavam as mãos no sangue dum semelhante e há mil anos que descobriram o cepticismo moderno. Homens para quem o absoluto é relativo clarificado, e que por isso entregam desta maneira a filha ao namorado que lha pede em casamento:

 

Pastora é,

Gado guardou;

Se sebe saltou;

Se nalguma se picou,

Tal como está

Assim vo-la dou…

 

(Miguel torga, in Diário VIII)

 

Dentro da rudeza destas gentes de antanho, quanta sinceridade e nobreza!

 

Hoje, dignidade, autenticidade, sinceridade, pureza e mais outros atributos de alma que agora não nos ocorrem, mas tão lídimos do que era ser barrosão e português, onde estão?...

 

Sinal dos tempos, dirão uns.

 

E que tempos tão espúrios os que por que passamos!!!


publicado por andanhos às 10:38
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Quarta-feira, 10 de Outubro de 2018

Versejando com imagem - Identidade, Mia Couto

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

IDENTIDADE

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Preciso ser outro

para ser eu mesmo

 

Sou grão de rocha

Sou o vento que a desgasta

 

Sou pólen sem insecto

 

Sou areia sustentando

o sexo das árvores

 

Existo onde me desconheço

aguardando pelo meu passado

ansiando a esperança do futuro

 

No mundo que combato

morro

no mundo por que luto

nasço.

 

 

Mia Couto

 


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Terça-feira, 9 de Outubro de 2018

Memória de um andarilho por terras da Ibéria - Caminhada ao Pico Vizcodillo e Lago de Truchillas

 

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO POR TERRAS DA IBÉRIA

 

PARQUE NATURAL DO LAGO DE SANÁBRIA E ARREDORES

 

CAMINHADA AO PICO VIZCODILLO E LAGO DE TRUCHILLAS

(30.agosto.2018)

01.-

 Desde a nossa subida até ao pico mais alto da SanábriaPeña Trvinca, entre as províncias de Zamora (Castela e Leão) e Ourense (Galiza) -, através do Porto de Sanábria, tínhamos vindo a ser desafiado pelo amigo Pablo Serrano para irmos até Vizcodillo, o 2º ponto mais alto do Parque Natural do Lago Sanábria e Arredores, depois de Peña Trevinca.

 

A não ser uma incursão de pouco mais de oito dias, com Florens, na primavera, no Parque Nacional da Peneda-Gerês, este ano, pela nossa parte, e por razões imponderáveis, de natureza familiar, foi parco em saídas para efetuar caminhadas pela nossa linda Ibéria.

 

Depois de uma hibernação de quase quatro meses, e um pouco mais descomprimido, definitivamente aceitámos o desafio de Pablo. E fomos, então, no dia 30 de agosto passado até ao Pico de Vizcodillo, passando pelo Lago de Truchillas, ali pertinho.

 

Vizcodillo encontra-se em plena serra da Cabrera, com uma orientação este-oeste, separando a vertente zamorana de Sanábria da leonesa de Baña. Os seus picos mais significativos são o Picón, Faeda e, naturalmente, Vizcodillo, com 2122 metros de altitude, ou seja, com apenas menos cinco metros que o de Peña Trevinca. Todos eles pertencentes ao Maciço Galaico-Leonês.

 

Normalmente, distingue-se a Cabrera Baixa, que corresponde ao traçado ocidental da serra, e que vai desde Peña Vidulante até ao cerro ou colina posterior – o Alto do Peñon ou Alto de Escudero -, sendo a sua elevação maior o Picón, com 2019 metros de altitude.

 

A serra Cabrera Alta ou Serra Negra é onde se situa Vizcodillo, o pico com maior altura desta serra.

 

Embora nos tenhamos levantado cedo, quase de madrugada, o certo é que, de Chaves, passando por Verín, onde fomos ao encontro do amigo Pablo, já passavam das 10 horas e 40 minutos (hora espanhola) quando demos início à nossa caminhada.

 

Estacionámos a viatura num pequeno aparcamento, nas proximidades do Alto do Peñon ou Alto de Escudero, numa altitude de 1841 metros, depois de andarmos por uma estrada de montanha sinuosa e com um piso em fraco estado.

 

O lugar onde estacionámos serve de divisória natural entre as vertentes serranas zamorana e leonesa.

 

Mal nos preparávamos para dar início à nossa caminhada, aparece-nos este simpático motoqueiro, vindo, por terras da montanha leonesa, de Benavente.

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Logo de início, esperava-nos uma pequena subida, na abrupta vertente leonesa sanabresa, até chegarmos ao Alto dos Alamicos.

 

Contudo, nosso intento, mais que efetuar uma caminhada, era fazer um calmo e vagaroso passeio.

 

Daí, aqui e ali, Pablo parava para não só nos indicar as diferentes espécies autóctones, que proliferam por estas bandas, como para apanhar – e comer – pequeninos mirtilos («arandanos») silvestres.

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Ao nosso redor, do lado esquerdo, eis a mole de Teleno.

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O solo, por onde passávamos, num simples e estreito carreiro, de pé posto, coberto de pequenos e rastejantes arbustos típicos destas paragens, era composto por estes blocos de pedra, de rochas soltas.

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Andando um pouco mais, ao longe, já visionávamos a grande mole de Vizcodillo, com dois picos. O da direira é o Vizcodillo.

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Trata-se, como já afirmámos, da segunda montanha mais alta da Sanábria, com perfis suaves, arredondados, aliás, como quase todas as montanhas da zona,

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apresentando as maiores escarpas na vertente leonesa.

 

Pelo caminho, em passo pausado, tínhamos tempo para observar a vegetação autóctone, rasteira, resistente à inclemência do clina, como esta «sabina».

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A certa altura, inopinadamente, Pablo dá conta de uma «rabeca». Ele consegue ainda captá-la com a sua objetiva. Nós não fomos a tempo.

 

Embora a sinalização aqui seja muito fraco, simplesmente composta por uns frágeis paus de madeira e muitas «mariolas» feitas pelos diferentes caminheiros, tendo em conta que estamos num dos parques mais emblemáticos de Espanha, com alguma atenção e cuidado, estando bem atentos a pequenos sinais de trilho, lá nos fomos desenrascando e não nos perdermos.

 

E não descurámos de contemplar a composição rochosa, composta maioritariamente por quartzitos, e a florística de seu solo, bem assim, uma vez mais, a imensa mole do Teleno, que não nos largava, sempre a nossa esquerda, tendo como pano de fundo o vale do rio Truchas.

09.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (23)

Chegou a altura, depois da passagem por esta passadeira verde e lilás,

10.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (26)

e por uma zona mais rochosa,

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agora mais acompanhados por um tapete mais predominantemente lilás,

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de fazer uma paragem. E observarmos os frutos desta «sabina».

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O lugar convidava-nos a uma pausa. De contemplação e de relaxamento. Numa atmosfera saudável, de ar puro, de um agradável cheiro, por entre tanta cor de lilás!

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Olhando para trás, e do nosso lado esquerdo, muito perto da linha do horizonte, a albufeira («embalse») de Valparaíso e, escondida pelo conjunto montanhoso, a de Peña Mira.

15.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (32)

A paisagem que nos rodeava era um regalo para as nossas vistas!

16.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (34)

Começávamos, a partir daqui, a nossa verdadeira subida – se bem que, tendo ultrapassado apenas uma baixada, o trilho era todo a subir – com um piso mais rochoso, levando-nos ao cimo de Vizcodillo,

17.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (36)

ao longo de um entorno a constantemente nos convidar à sua contemplação!

18.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (39)

Sozinhos, sem um único murmúrio, estávamos, positivamente, entre o céu e a terra, respirando e usufruindo de paz e tranquilidade!

19.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (42)

Olhámos uma vez mais para trás. Agora sim, à nossa esquerda, sob plena serra Segundera e Cabrera, o Lago de Sanábria!...

20.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (46)

Estávamos já muito perto de atingir o Pico de Vizcodillo, ali à nossa frente. Vislumbrámo-lo com o «zoom» da nossa objetiva.

21.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (49)

Agora, para lá chegarmos, havia que trepar pelos enormes calhaus que o constituem, com muito cuidado, para não nos magoarmos ou provocarmos qualquer entorse.

 

Eis o nosso companheiro de jornada subindo pela montanha de calhaus, que constituem o Pico, com «ganas» de atingir, como ele dizia – a «cumbre».

22.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (51)

E, assim, chegávamos ao vértice geodésico de Vizcodillo!

23.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (52)

No cimo do Pico, e em jeito de brincadeira, amigo Pablo, apontava para esta pequena cova irregular e rugosa na rocha à nossa frente. E dizia-nos:

- a cama de Luciano!

24.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (54)

Era tempo agora de tirar as fotografias da praxe no cimo do Pico, no marco geodésico.

25.-2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (55)

Ao nosso redor tínhamos o Teleno, as serras Segundera e Cabrera, com a omnipotente e sempre presente Trevinca e seus satélites. Um espetáculo maravilhoso!

26.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (61)

(Perspetiva I – Com o Lago Sanábria, ao longe)

27.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (63)

(Perspetiva II – Com as albufeiras de Valparaíso e Peña Mira, ao longe)

Desde o nosso lugar de partida – o Alto de Peñón –, e até ao Pico de Vizcodillo, tivemos de ultrapassar, sensivelmente, mais de 300 metros de altitude.

 

Era tempo de descer.

 

E descemos ainda com mais cautelas do que quando subimos. As «rodillas», na nossa idade, acusam o desgaste dos anos!

28.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (59)

Depois da cautelosa descida, perdidos por entre o «brejo» anão, olhávamos para trás, observando o objetivo a que hoje nos tínhamos proposto – ter estado lá!

29.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (64)

E, porque tão perto, não podíamos perder de vista o Lago de Truchillas.

 

Para lá chegar, inexplicavelmente, perdemo-nos do trilho, caminhando com dificuldade por cima do duro «brejo», que parecia um imenso colchão duro, picando-nos os pés, e agora sob um sol que, a pique, queimava.

 

O mesmo solo, com as mesmas rochas,

30.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (68)

e a mesma vegetação.

31.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (67)

(Pormenor I)

32.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (82)

(Pormenor II)

Felizmente, em pouco tempo, encarreirámos com o trilho e, em breves minutos, de complicada caminhada para nós, pois, em vez de botas de montanha, calcávamos umas simples e frágeis sapatilhas, chegávamos à vista do Lago de Truchillas. Ei-lo a nossos pés!

33.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (75)

Estávamos, positivamente, cansado. Precisávamos de uma pequena pausa – para descansar; contemplar este maravilhoso espetáculo; hidratarmo-nos e comermos qualquer coisa.

 

Sentámo-nos, pois, quer nós,

34.-

quer o amigo Pablo.

35.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (79)

Pablo apresentava-se mais fresco e, passados uns minutos, subindo a um pedregulho, deu ordens de partida.

36.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (84)

O caminho continuava estreito, indefinido e pedregoso, aqui e ali.

37.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (85)

mas de encher as vistas com as suas paisagens.

38.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (87)

Depressa Pablo se apercebe que, por falta de treino, estávamos em dificuldade para, subindo, rodear o Pico Vizcodillo.

 

Por isso, com algumas pausas, rodeámos apenas o Barranco Malicioso. E não fomos, como seria nosso gosto, até à Lagoa com o mesmo nome. Por nós, porque estávamos cansados, pelo calor e pela subida em solo irregular; pelo Pablo, talvez por solidariedade para connosco e, quem sabe, face ao nome que a lagoa tem, por superstição. Quem sabe?!!!

 

Rodeado o Vizcodillo, acordámos em fazer uma pausa mais demorada para descansarmos um pouco. E sentámo-nos por uns minutos.

 

Depois daquela subida, e desta paragem, como por artes mágicas, para nós, o trilho tornou-se leve e, sem darmos por isso, nossos pés pareciam uma pena, voando. Vá lá entender o comportamento do corpo humano. Ou da nossa cabeça!...

 

Entretanto, pelo caminho, amigo Pablo não se cansava de «caçar» ângulos de paisagem para captar com a sua objetiva.

39.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (88)

Realizado o pequeno desvio de Vizcodillo para irmos ao Lago de Truchillas, voltámos ao nosso trilho inicial, de volta.

40.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (89)

Umas boas centenas de metros andados, olhando para trás, dizíamos adeus a Vizcodillo.

41.2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (90)

Depois de uma pequena descida, começou a nossa última subida até ao cimo do Alto de Peñón.

42.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (91)

À nossa frente, a imensa mole do Maciço Galaico-Leonês de Trevinca. Digno de se ver!

43.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (93)

Chegámos ao aparcamento onde estava a nossa viatura. Mudámo-nos e preparámo-nos para descer até San Martín de Castañeda, onde, ao fim da tardinha, iríamos assistir ao II Encontro Internacional de Mascarada Ibérica.

 

Mas antes, a meio do percurso, parámos aqui.

44.- 2018.- Vizcodillo e Lago de Truchillas (95)

Aqui nos hidratámos e comemos o resto da nossa merenda, enquanto, ao longe, vislumbrávamos, de dois, à direita, o Pico de Vizcodillo onde, poucas horas antes, no seu cume, tínhamos estado.

 

Deixámos aos nossos(as) leitores(as) o mapa do nosso trilho, com a nossa ida até ao Pico de Vizcodillo, ponteado a azul, e a nossa ida até às proximidades do Lago de Truchillas, e vinda, a vermelho.

45.- Mapa caminhada Pico Vizcodillo

Segundo a nossa app da SHealth, percorremos a distância de 10 Km 410 metros, em 3 horas e 54 minutos,

46.- IMG-20180831-WA0003

com a velocidade e a elevação constante do gráfico que abaixo se exibe, o qual mostra um erro, em termos de altitude, em cerca de 10 metros, por não estar devidamente aferido o GPS.

47.- IMG-20180831-WA0005


publicado por andanhos às 19:33
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Domingo, 23 de Setembro de 2018

Memórias de um andarilho - Parque Nacional da Peneda-Gerês:- Trilho de Germil

 

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

PELO PARQUE NACIONAL DA PENEDA-GERÊS (PNPG)

 

TRILHO DE GERMIL

 

16.abril.2018

(De tarde)

 

01.- 2018.- Trilho de Germil (8)

Subo ao alto da serra, olho em redor,

e até me parece impossível que nas pupilas tão pequenas do homem

possam caber tantas grandezas.

Mas cabem.

E mais: é nelas que tais grandezas adquirem sentido.

O movimento que têm nas minhas, agora, as chãs, as lombas,

os píncaros e os abismos onde a inércia da morte parece habitar!

Dessa imagem dinâmica à palavra que a significa, vai um palmo.

E a palavra reveladora pode ser o introito de um verso.

E o verso a eterna e ritmada pulsação audível

dum imenso e oculto coração de granito.

 

Gerês, 2 de Agosto de 1965

Diário X, Miguel Torga

 

 

Foi o último trilho, feito esta primavera, com o Florens, em altitudes amenas, que não ultrapassaram os 650 metros, no Parque Nacional da Peneda-Gerês, na serra Amarela.

 

Tratou-se (e trata-se) de um percurso circular de Pequena Rota, que se inicia na aldeia de Germil, do concelho de Ponte da Barca, circundando as encostas da serrania, perto da aldeia, por onde passa o rio Germil, que crava um pequeno vale, e feito por entre caminhos empedrados, que guardam gravadas as marcas do tempo e dos tempos em que o homem tirava da terra (e da serra) praticamente todo o seu sustento.

 

Trata-se, portanto,  de um percurso de natureza ambiental, paisagístico e cultural, decorrendo no flanco norte da serra Amarela, em que o vale do rio Germil, os bonitos bosques de carvalho e soutos, enfim, a típica paisagem rural, associada à agricultura de subsistência e à criação de gado, tendo, defronte, mais ao longe, o vale do Lima e as encostas das serras do Gerês e do Soajo, viradas a sul, fazem (fizeram) o cenário desta nossa caminhada.

 

Entre os Km 0,3 e 2,5, este trilho coincide, no seu percurso, com o de Grande Rota (GR 34) – Trilho Interpretativo da Serra Amarela.

 

Este trilho encontra-se bem sinalizado e a sua dificuldade em percorrê-lo é relativamente fácil.

 

Recomenda-se cuidados durante o verão pois, nos primeiros 5,5 Km, face à escassa cobertura vegetal, a exposição solar é significativa.

 

Germil é uma típica aldeia de montanha, em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês, incrustada na serra Amarela, conservando o ambiente rural e a vivência comunitária de outros tempos.

 

Isto é o que os folhetos informativos e os locais nos dizem. Observando melhor, in loco, deteta-se uma aldeia envelhecida, de pessoas e bens, pese embora o grande esforço que se está fazendo para reconverter esta aldeia e este território para a função turística, em especial para o turismo de natureza.

 

Segundo o sítio do Portugal Profundo - «Germil - uma ideia de natureza» está “concentrada em dois aglomerados de casas típicas de granito, com portas e janelas de um castanho avermelhado”, possuindo ruas estreitas, na sua maior parte cobertas de vinhas, com calçada em pedra, e água que jorra por todos os cantos.

 

Incita-nos, pois, a percorrê-la a pé!

 

Foi o que nós fizemos. E constatámos. Mas somente na parte específica do percurso do nosso trilho.

 

Refere ainda o sítio acima citado que Germil é marcada por um vale, com socalcos de vinha, demostrando o domínio hábil do homem naquele lugar e ladeado por vegetação autóctone, onde se distinguem carvalhos e castanheiros.

 

Foi, positivamente, o que constatámos.

 

Comecemos, então, a reportagem sumária deste nosso trilho.

 

Á entrada dos limites da aldeia, somos recebidos por esta linda placa sinalizadora, em granito.

02.- 2018.- Trilho de Germil (170)

E, nela mal entrámos, os sempre omnipresentes espigueiros.

03.- 2018.- Trilho de Germil (14)

E, como não podia deixar de ser, a capela da aldeia.

04.- 2018.- Trilho de Germil (17)

Iniciámos o nosso trilho nas proximidades do forno do povo e do cruzeiro da terra.

05.- 2018.- Trilho de Germil (23)

De imediato, com a pequena mochila às costas e as respetivas máquinas fotográficas, demos início ao Trilho de Germil, passando por mais um espigueiro, com uma porta na fachada de entrada principal trabalhada primorosamente,

06.- 2018.- Trilho de Germil (27)

aliás, como muitos outros que por aqui se encontram.

07.- DSCF7643

Logo no início, o trilho está repleto de placas sinalizadoras e com uma fonte farta de água.

08.- 2018.- Trilho de Germil (28)

Começámos a atravessar a parte alta da aldeia - ou Germil de Cima.

 

E deparámo-nos com as eternas latadas de vinha, sempre presentes por estas bandas.

09.- 2018.- Trilho de Germil (34)

Mas, desta feita, pouco nos serviram para nos proteger do sol que, a esta hora, ia a pique. A primavera, este ano, veio tardia!

 

A meio da encosta, à saída da povoação, por um antigo caminho pedrado, que nos levava, ao cume da serra Amarela, encontrámos os sapadores florestais a limpar as bordas do caminho.

10.- 2018.- Trilho de Germil (40)

Ao cimo da povoação, e antes de entrarmos em plena serra, saindo do nosso trilho, fizemos um desvio de cerca de meio quilómetro. E descemos,

11.- 2018.- Trilho de Germil (41)

para nos dirigirmos ao Miradouro do Fragão.

 

Eis uma das vistas do lugar.

12.- 2018.- Trilho de Germil (89)

Descendo mais duzentos metros, de pronto, estávamos na Cascata Portavênse.

13.- 2018.- Trilho de Germil (83)

Não se trata de uma cascata vistosa e imponente como as que já tínhamos visto e observado em outros trilhos palmilhados nesta altura pelos trilhos percorridos no Parque Nacional da Peneda-Gerês!

 

Mas algum condão estas paragens têm para, sob a proteção da calmia do lugar e das águas do rio Germil, passando, gemendo, por enormes penedos,

14.- 2018.- Trilho de Germil (82)

aqui, na pontelha, se exercitar das mais variadas técnicas de relaxe ou… de «exorcismos» psíquico.

15.- 2018.- Trilho de Germil (53)

Voltámos ao nosso trilho, e agradecendo à Associação Péd’Rios por se ter de lembrar de incluir no percurso este miradouro e esta cascata e tratar do seu acesso.

16.- 2018.- Trilho de Germil (88)

Agora, sim, começámos a embrenharmo-nos em plena serra Amarela,

17.- 2018.- Trilho de Germil (91)

continuando por um velho caminho empedrado, ladeado de muro, tendo a serra como pano de fundo – a Calçada da Carvalha.

18.- 2018.- Trilho de Germil (94)

Aqui e ali, nos cocurutos, aparecem-nos velhas e carcomidas árvores. Uma delas, à nossa passagem, afigurou-se-nos um peregrino da Idade Média, passando, com seu cajado, por estas paragens, em direção ao túmulo de Santiago de Compostela…

19.-2018.- Trilho de Germil (96)

Continuando o nosso percurso, passámos pelo Prado Relva.

20.- 2018.- Trilho de Germil (100)

Em pouco tempo, estávamos noutra pontelha - a do Ribeiro de Chão da Ponte.

21.- 2018.- Trilho de Germil (104)

A partir daqui, continuando pelo mesmo empedrado espetacular – a Calçada de Germil -,

22.- 2018.- Trilho de Germil (109)

sentindo-nos em pleno céu,

23.- 2018.- Trilho de Germil (112)

presenciámos um dos melhores panoramas da serra Amarela e da aldeia de Germil.

 

Florens parou para, durante uns minutos, contemplar.

24.- 2018.- Trilho de Germil (124)

Nós, por entre dois velhos carvalhos, captávamos a aldeia de Germil.

25.- 2018.- Trilho de Germil (116)

E parámos, por uns breves minutos, a observar, admirando, os patamares verdes da aldeia.

26.- 2018.- Trilho de Germil (117)

Num outro cocuruto, uma formação rochosa assemelhando à cabeça de uma serpente.

27.- 2018.- Trilho de Germil (119)

E, a páginas tantas, eis uma espetacular curva do caminho.

28.- 2018.- Trilho de Germil (122)

Ultrapassada a Costa do Eido,

29.- 2018.- Trilho de Germil (128)

estávamos no ponto mais alto do nosso percurso.

 

Daqui as panorâmicas são vastas.

 

O Fojo do Lobo de Germil, uma antiga construção para apanhar lobos, impunha-se-nos com toda a sua imponência.

30.- 2018.- Trilho de Germil (156)

Ao lado, a queda de água da ribeira da Caçorelha (?), onde, perto da estrada, se pode, em dias de verão, passar uma boa tarde, tomando banho, nas suas águas.

31.- 2018.- Trilho de Germil (168)

E o rio Lima, com o seu vale e casario, rodeado pelas serras do Parque Nacional.

32.- 2018.- Trilho de Germil (161)

Há agora que descer até à estrada, que nos levou a Germil, atravessando-a. Destaca-se, na descida, este apiário bem perto da fonte de «alimentação» das incansáveis obreiras abelhas.

33.- 2018.- Trilho de Germil (165)

Ultrapassada e estrada, e já na margem direita do rio Germil, ainda pensámos ir até à cova do Fojo do Lobo de Germil. Desistimos, pois começava a fazer-se tarde. O essencial estava visto!

 

E continuámos por um lindo e espetacular caminho que tão bem as gentes do lugar o souberem conservar para nosso puro deleite. Porventura, ao longo dos anos, o seu difícil acesso, facilitaram a conservação destas ancestrais infraestruturas. Mas nota-se também aqui o carinho das suas gentes por tudo aquilo que é seu!

34.- 2018.- Trilho de Germil (182)

Entrámos na cota mais baixa do nosso percurso, caminhando ao lado das águas do rio Germil.

35.- 2018.- Trilho de Germil (188)

Agora começávamos a subir para Germil. A senda é espetacular.

36.- 2018.- Trilho de Germil (211)

Cada passada dada, uma surpresa. E a presença constante do carvalho!

37.- 2018.- Trilho de Germil (218)

A certa altura, mais uma paragem. Estávamos na confluência do ribeiro da Broca com o rio Germil.

38.- 2018.- Trilho de Germil (238)

Por estas paragens deteta-se a presença de velhos moinhos.

39.-2018.- Trilho de Germil (244)

Infelizmente, em ruínas, já sem serventia…

40.- 2018.- Trilho de Germil (255)

Na pontelha, entre o ribeiro da Broca e o rio Germil, captámos o remoinhar da água.

41.- 2018.- Trilho de Germil (271)

Olhando para o alto, para a copa dos carvalhos, o céu apresentava-se de um azul brilhante, à mistura com as nuvens.

42.- 2018.- Trilho de Germil (266)

E continuámos, subindo, por este lindo trilho,

43.- 2018.- Trilho de Germil (274)

ladeado pelo bosque de carvalhos,

44.- 2018.- Trilho de Germil (287)

denotando-se, em alguns, pela passagem do tempo, a decrepitude a chegar.

45.- 2018.- Trilho de Germil (289)

Sempre subindo, chegávamos a Germil de Baixo. O calor apertava e o reservatório de água tinha-se esgotado. Mesmo aqui, fizemos uma paragem para descansar um pouco e hidratar-nos.

46.- 2018.- Trilho de Germil (296)

Na aproximação à aldeia, deparámos com os espigueiros da Eira de Germil de Baixo.

47.- 2018.- Trilho de Germil (302)

Deixamos aqui alguns cenários do casario e das estritas ruas empedradas de Germil, cobertas de vinha de latada, enquanto nos dirigíamos para a Eira de Germil de Baixo.

48.- 2018.- Trilho de Germil (303)

(Cenário I)

49.- 2018.- Trilho de Germil (305)

(Cenário II)

50.- 2018.- Trilho de Germil (308)

(Cenário III)

51.- 2018.- Trilho de Germil (309)

(Cenário IV)

52.- 2018.- Trilho de Germil (314)

(Cenário V

Deparámos com uma placa informativa moderna, num empedrado a precisar de restauro.

54.- 2018.- Trilho de Germil (315)

Entrámos na eira.

55.- 2018.- Trilho de Germil (323)

E começámos a tirar fotos aos seus espigueiros.

56.- 2018.- Trilho de Germil (329)

Enquanto procedíamos a este levantamento, ora a um conjunto,

57.- 2018.- Trilho de Germil (318)

ora a um ou outro individual, fomos metendo conversa com estas duas senhoras.

58.- 2018.- Trilho de Germil (316)

Nota-se que a vida aqui continua com a sua rotina de sempre, ancestral, num território, tal como muitos outros deste Parque e deste nosso interior, onde falta juventude e a cor preta, na vestimenta das senhoras, é praticamente dominante.

 

Pese embora a moderna sinalética da Eira, a mesma está praticamente em ruína. Mas em reconstrução. Para turista ver, pois a sua tradicional serventia foi-se com as suas gentes…

 

Saímos deste emblemático lugar do nosso mundo rural, atravessando o seu casario até ao lugar onde deixámos a viatura.

59.- 2018.- Trilho de Germil (332)

(Cenário I)

60.- 2018.- Trilho de Germil (333)

(Cenário II)

61.- 2018.- Trilho de Germil (335a)

(Cenário III)

62.- 2018.- Trilho de Germil (342)

(Cenário IV)

Dados mais dois dedos de conversa a duas mulheres de preto, que estavam à sombra protetora do velho espigueiro, no Largo do Cruzeiro, ouvindo sempre a mesma conversa – de uma dia a dia de constante trabalho, isolados, abandonados a si próprios, com saudades da gente que partiu: uns, que nunca mais voltam; outros, labutando lá fora, e que só vêm poucos dias no ano para matar saudades, enquanto os seus forem vivos.

63.- 2018.- Trilho de Germil (347)

 Dirigimo-nos para a nossa viatura, rumo estrada de Terras de Bouro.

 

Foi, sem dúvida, um dos trilhos mais bonitos que, nesta primavera, percorremos na área do Parque Nacional da Peneda-Gerês, em plena serra Amarela.

 

A entrada do Diário de Miguel Torga, para o início deste post, não poderia ser a mais adequada, face ao que acima vertemos.

 

Neste trilho, circular, andámos, de acordo com o nosso aplicativo móvel Health Samsung, 8 Km e 350metros, em 2h e 50 minutos,

64.- IMG-20180416-WA0003

com a velocidade e a elevação que o gráfico abaixo nos mostra.

65.- IMG-20180416-WA0005

 

Aconselha-se a leitura dos seguintes sítios da internet, quanto a este Trilho de Germil:

 

Esperamos, na próxima primavera, percorrer mais novas sendas neste nosso Parque Nacional da Peneda-Gerês.

 

Ou, quem sabe!, não será o Parque Natural de Montesinho que falará mais alto?

 

Veremos…

 


publicado por andanhos às 16:05
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Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018

Vesejando com imagem - Amor, de Hilda Hilst

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

AMOR

depositphotos_94940656-stock-photo-stone-wall-with-ivy

Que este amor não me cegue nem me siga.

E de mim mesma nunca se aperceba.

Que me exclua de estar sendo perseguida

E do tormento

De só por ele me saber estar sendo.

Que o olhar não se perca nas tulipas

Pois formas tão perfeitas de beleza

Vêm do fulgor das trevas.

E o meu Senhor habita o rutilante escuro

De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente

E farta de fadigas.

E de fragilidades tantas

Eu me faça pequena.

E diminuta e tenra

Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

 

(Hilda Hilst)


publicado por andanhos às 12:29
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