Sábado, 21 de Abril de 2012

Pelos Caminhos de Santiago - Na Galiza (Via da Prata 3.1.3)

 

F.- Aproximação ao desenvolvimento urbano da cidade de Ourense

     (da Idade Média aos nossos dias)

 

1.- A Cidade Medieval – Da obscuridade altomedieval ao renascer da cidade

 

Na idade média, Ourense converteu-se numa importante encruzilhada de caminhos do sul da Galiza e na confluência de entradas de Castela para o interior e para Portugal.

 

Por Ourense passavam dois importantes Caminhos de Santiago: um, de Castela, entrava na província pelas Portillas de Padornelo e da Canda; o outro, vinha de Portugal, por Bande e Celanova.

 

Já tivemos oportunidade de referir que foi o bispo Diego Velasco (1100-1132) que, aproveitando-se das rixas entre as filhas de Afonso VI, Teresa e Urraca, obteve, em 1122, de D. Teresa de Portugal, a jurisdição sobre a cidade, para ele e seus sucessores. Com ele, efectivamente, Ourense recupera e consolida-se.

 

O século XII é a época do esplendor, que se reflecte na construção da Catedral e no Paço Episcopal, convertidos em verdadeiras fortalezas; o alargamento da cidade para norte; a porta norte da Catedral marcará o sentido do caminho principal que daria até à Ponte, principal via de comunicação com o resto da Galiza; outras ruas paralelas nascem, como a Lepanto; Tiendas e Paz, a oeste da Catedral; e as de este, que vão dar à Praça do Ferro, saindo depois pela rua de Santo Domingo (antiga Corredoira e Bairro Novo), em direcção também aos lados da ponte.

 

(Rua de São Domingos)

 

Contudo, a Baixa Idade Média - séculos XIII e XIV -, representará para a cidade de Ourense um período de lutas contínuas e de instabilidade política e social que degenerou, em algumas ocasiões, no assalto e derrube de numerosos edifícios e fortalezas. As principais causas de instabilidade foram: o conflito entre o poder do concelho da cidade, apoiado pela realeza, e o bispo, sobre a jurisdição da mesma, atingindo este conflito grande virulência no já referido incêndio do convento de São Francisco; as lutas fratricidas entre Pedro I e Henrique II para a sucessão à coroa; a invasão da Galiza pelo duque de Lancaster, pretendente à coroa de Castela, e aliado de D. João I de Portugal.

 

2.- Ourense nos séculos XV e XVI – O senhorio episcopal da cidade

 

Durante o século XV o estado de instabilidade continua, se não que até se agudiza mais. São as tensões entre bispo e o Concelho, a que se acrescenta os afrontamentos entre membros de uma certa nobreza e os vizinhos, e destes com o bispo. Destaca-se, neste período, o especial papel e protagonismo da família nobre dos Cadórniga.

 

Em 1467 estala a Revolta Irmandiña, que também afecta a cidade ao serem destruídas algumas torres do Paço Episcopal, juntamente com o castelo Ramiro.

 

Por último, a cidade também foi cenário das lutas senhoriais dos CastroCondes de Lemos – e dos PimenteisCondes de Benavente, senhores de Allariz. Em 1471, o conde de Benavente, na sua pretensão de se tornar senhor da cidade,  enfrenta-se com os de Lemos, que vêm em defesa da cidade, e ataca a fachada norte da Catedral, destruindo a capela de São João e o Paço do Bispo.

 

Por via desta instabilidade, e também da fome, produto de más colheitas e escassez de víveres, de 3. 000 habitantes, que a cidade tinha em meados do século XV, passa para 1. 800, nos seus finais.

 

No século XVI Ourense experimenta um período de florescimento do comércio, especialmente do trafego do vinho e artesanato, também como consequência da paz imposta pelos Reis Católicos.

 

(Ao fundo, lado direito, da alameda do Concellho, o Hospital de S. Roque)

 

A cidade começa a recompor-se e, como diz Ferro Couselo «sopram ventos de prosperidade e desperta-se uma nova febre construtiva». Começam a levantar-se novas casas e edifícios religiosos, e o concelho, ao tomar consciência das suas obrigações para com os cidadãos, preocupa-se também por dotá-los com edifícios auxiliares e de serviços, hoje praticamente todos desaparecidos.

 

(Edifício dos Correios, ocupando o lugar do antigo Hospital de S. Roque)

 

Em termos construtivos passa-se do gótico flamejante ao estilo renascentista e, nesta síntese equilibrada e harmoniosa do estilo gótico e renascimento, aparecem o zimbório da Catedral, a Capela de Santo Cristo, a dos Santos Cosme e Damião, o antigo Hospital de São Roque, a capela dos Remédios, as Torres do relógio da Catedral, o convento de São Francisco, a abóbada e os arcos do Pórtico do Paraíso da Catedral.

 

(Estado actual da Capela da Senhora dos Remédios)
(Capela da Senhora dos Remédios - estado  após o incêndio)

 

De uma época de contracção económica passa-se a outra de investimento. Ampliam-se algumas praças e pavimentam-se várias ruas.  Mas a remodelação profunda da cidade não se verifica.

 

A via principal da cidade é a que desemboca na porta norte da Catedral, caminho que se dirige para o Campo de São Lázaro e para o rio Minho, comunicando  com a cidade com Santiago de Compostela e Monforte de Lemos.

 

(Mosteiro de São Francisco - actualmente em obras)
(Mosteiro de São Francisco)

 

No século XVI chegam ventos de prosperidade. Por via da invasão do duque de Lancaster e a consequente destruição por ela provocada, começa-se a levantar a cidade, perdendo aquele ar mais medieval que tinha.

 

Nesta altura, os nomes das ruas e das praças nascem ligados a actividades económicas, artesanais e gremiais.

 

Infelizmente, muitas das construções desta época desapareceram, quer por serem construídas com materiais de terceira ordem, como palha, barro ou madeira, quer porque foram substituídas – sem respeitarem a tradição -, como ocorreu com a Casa chamada das “Encinas”.

 

A maior parte destas casas localizavam-se nos arredores da Catedral.

 

A Casa dos Armada ou de María Andrea situa-se na Praça do Eirociño dos Caballeiros – hoje Cid. Apresenta um estilo pobre, não sendo reflexo da vida refinada e ostentativa dos seus senhores: as fachadas são singelas, sem ornamentação. O mesmo se passa com a Casa dos Sotelo e dos Deza.

 

(Casa dos Armada ou de María Andrea - Praça do Eirociño dos Caballeros)

 

O Paço de Oca-Valladares, situado na rua Nova – hoje Lemos Carbajal -, é uma das criações mais afortunadas do Renascimento civil ourensano. O canteiro construtor – Antonio Díaz – acabou a obra, em 1584, pela qual cobrou “setenta ducados, catro fanegas de pan de centeo e dous toucinhos” (Henrique Bande Rodríguez e Luís Fernández Rodríguez,  in ob. cit., pág. 58). A fachada apresenta quatro varandas balconadas, assentes sob mísulas, sendo, a da porta principal, rodeada por cinco brasões.

 

(Paço de Oca-Valladares - Sede do Liceo Orensano)

 

O edifício possui um pátio interior, de acordo com as regras renascentistas.

 

(Paço Oca-Valladares - Pátio Interior, rés-do-chão)
(Paço Oca-Valladares - Pátio interior, piso superior)

 

Da Casa dos Cadórniga conserva-se a entrada principal, com um arco conopial, que corresponde ao estilo isabelino do século XV, e um arco de meio ponto de grossas dobras.

 

 

3.- Ourense no século XVII – A conflitualidade social da Baixa Idade Média

 

 

No século XVII a cidade de Ourense experimenta uma profunda transformação com a chegada das Ordens Religiosas – os Jesuítas e os Dominicanos -, os quais, com os seus conventos, deram à cidade uma maior monumentalidade e a fisionomia que manteve até ao século XIX.

 

A partir deste século XVII, o governo da cidade está em mãos de gente possidente e de funcionários públicos de carreira. O pleito de jurisdição da cidade entre o Bispo e o Concello acaba em 1628, mediante um acordo pelo qual se dava ao bispo a Abadia das Águas Santas e ao Cabido o anexo de San Xoan de Vide, bem como a nomeação de secretários e corregedores da cidade.

 

Em suma, os verdadeiros impulsionadores do desenvolvimento urbanístico de Ourense na Idade Moderna foram o Bispado, o Cabido da Catedral, que dispunham de rendas territoriais e jurisdicionais; o Concelho, reafirmando definitivamente a sua luta secular frente ao Bispado, obrigado a facilitar uma série de serviços à população; a nobreza, titulada ou não, possuidora de fortuna mais ou menos importante; os burgueses, os artesãos e os comerciantes.

 

Nos começos deste século, nas Praças do Trigo e do Ferro, erguem-se as Casas-Paço, de Boán e Temes.

 

(Praça do Ferro - Fonte, original, trazida do Mosteiro de Oseira)
(Praça do Ferro - Paço de Boán, em frente)

 

 

4.- Ourense no século XVIII – A calma depois da tormenta

 

No século XVIII continua o crescimento da cidade e a sua renovação.

 

Ergue-se a Igreja de Santa Maria Maior, que pertencia à jurisdição do Cabido. Com a perda de poder do peso político do Cabido, o controlo do culto, nesta igreja, passou para os jesuítas, dominicanos e franciscanos, que fomentavam a piedade mediante confrarias e irmandades nas paróquias, ao ponto de para se constituir confrarias e irmandades, como as do Rosário, da Virgem e do Carmo, o clero tinha que pedir permissão ao convento que se encontrasse mais perto da sua paróquia.

 

Ourense do século XVIII é conhecida através do Cadastro do Marquês de la Ensenada, de 1752, no qual figura uma relação detalhada de casas, famílias e das “riquezas” (fortunas) comuns e particulares. Assim, o referido Cadastro, censa: 854 vizinhos, na cidade; 11, em Cabeza de Vaca; 18, em diversos casarios e casas dispersas. É de destacar a escassez de povoação campesina nos arredores, o que nos indica que a mesma, na sua maior parte, se teria integrado dentro do núcleo da cidade. O número de casas, que parece excessivo, era: 676; 56 térreas, com edifícios em ruínas e mais 16 térreas, desabitadas. A estes números juntam-se mais 396 pessoas ligadas ao sector eclesiástico, incluindo seus familiares e criados. A média por agregado familiar andava por 3,5 elementos, o que, para a época, era baixa, só explicável pelo estado de pobreza em que tinha caído a Galiza, face à guerra de separação com Portugal e as frequentes levas para as Flandres, Itália e Portugal. Eis, pois, um quadro, que nos dá a real dimensão da cidade da altura!

 

O bispo Muñoz de la Cueva, cronista da cidade, empreende reformas no Paço Episcopal. É agora que se configura o estado actual do Paço do Bispo – faz-se a escadaria principal e o jardim e deixa-se uma rua ampla em frente à Casa Consistorial, hoje rua do Bispo Carrascosa.

 

Nos finais do século, o bispo Quevedo e Quintana reforma o antigo Colégio das Mercedes, sito na Pia da Casca – Hoje Praça de las Mercedes -, que tinha sido erguido no século anterior por Frei Baltazar de los Reys.

 

(Colégio das Mercedes - Praça das Mercedes)

 

 

5.- Ourense no século XIX – Da prostração demográfica e económica a caminho do progresso

 

Dois factores importantes e antagónicos marcaram a história de Ourense do século XIX – as pestes e as transformações da fisionomia urbana.

 

Em 1830 sabemos que as colheitas foram abundantes mas escasseou muito o dinheiro e subiu muito o preço do milho, das batatas e do centeio.

 

Na década de quarenta subiram muito as contribuições, a tal ponto que as pessoas não as podiam suportar.

 

No ano de 1850 colheu-se pouco milho e batatas e o pulgão comeu toda a verdura.

 

Em 1852 continuaram as crises. Choveu tanto que não nasceu quase nenhum milho, nem batatas, que apodreceram na terra.

 

Em 1854 o “oidium tucheri” atacou os vinhedos, destruindo todas as vinhas de Ourense.

 

Apareceu neste século também a cólera. Por via da peste, as pessoas acudiam a São Roque, tendo-se-lhe feito uma enorme procissão.

 

Contudo, apesar de estarmos num século de prostração demográfica e económica, nos seus finais, começa uma época de prosperidade, que tem essencialmente a ver com o alastramento da cidade, ditado, na sua grande parte, pelas seguintes infra-estruturas:

 

  • a construção da estrada de Villacastín a Vigo (1860-63);
  • a chegada do caminho de ferro em 1881;
  • a revolução das ideias e a própria posição da cidade que conecta pólos de crescimento existentes. Depois,
  • a cidade abandona a zona sul e estende-se para o norte, paralela ao Minho, através da construção de uma via-estrada (do Progreso), que vai do Posío até à Ponte, marcando o limite da cidade para oeste, ainda que com muitos espaços vazios;
  • abre-se uma rua – a do Paseo – que se estendia desde a rua do Instituto – hoje Lemos Carbajal -, até ao Campo de São Lázaro, lugar onde se fazia a feira mensal;
  • transversalmente, abre-se a rua de Alba, que desce de Santo Domingo para a rua do Progreso.
  • Do outro lado do rio – concelho de Canedo – nasce um centro comercial com tavernas, pousadas e armazéns.
  • Em 1876 abre-se passagem para as carruagens na estrada de Ponferrada, sendo um dos principais promotores o Marquês de Trives.
  • Em 1881 inaugura-se a estação de caminhos de ferro Ourense – Vigo, onde, até finais do século XX, estavam os armazéns Tabarés, facto que se festejou em Ourense durante vários dias.
  • A cidade alastra-se para Polvorín e A Carballeira.
  • Constrói-se o cemitério de São Francisco, devido à proibição de enterrar os mortos dentro das igrejas.

 

É também, e infelizmente, neste século que se procede à rectificação e desaparecimento da toponímia originária. Justificava-se tal facto por razões como “malsonância” ou não estarem de acordo com os gostos da época, mas, sobretudo, por estarem em galego. A primeira destas bárbaras desaparições, fundamentalmente de personalidades galegas, ocorreu em 1850, quando são substituídos por conquistadores e colonizadores espanhóis.

 

 

5.1.- Arquitectura modernista de Ourense

 

Na segunda metade do século XIX, fruto do crescimento urbano e também de uma burguesia, embora minoritária, que aqui se instala, erguem-se numerosos e belos edifícios, de estilo ecléctico, modernista e neogótico, que são verdadeiras jóias e obras de arte, de acordo com o gosto estético daquela época.

 

Por modernismo entende-se o movimento artístico que se desenvolveu em toda a Europa nos finais do século XIX e começos do século XX, definido como o estilo complexo e inovador, próprio da nova burguesia. Também se denominou de “Arte Nova” (Art Nouveau).

 

Em Espanha, talvez o mais original dos seus expoentes foi Antoni Gaudí.

 

Foi sobretudo um estilo decorativo e, como tal, utilizado também, com grande êxito, nos metais, na joelharia, nos vidros e ilustrações de livros.

Na arquitectura destaca-se o emprego dos seguintes materiais: ferro, vidro e madeira.

 

Este estilo ornamental utiliza linhas curvas, decoração vegetal ou formas fantásticas. Com estes elementos criavam-se fachadas ornamentais, monumentais, providas de varandas de ferro; galerias de madeira; vidros de cores; relevos; colunas e mísulas.

 

Entre 1879 e 1900 levantaram-se edifícios civis, casas particulares, casas-sede de Casas de Caridade e de Religiosos. Os artífices destas obras de arte foram sobretudo os arquitectos José Antonio Queralt, Antonio Crespo López, Antonio Seara y Pujol, Daniel Vásquez Gulías, Emílio Meruéndano e Juan de Arriba. Deste grupo, os mais prolíficos e de maior capacidade criativa e artística foram Daniel Vázquez Gulías e José Antonio Queralt.

 

As principais obras, desta nova arte, situam-se na rua de Santo Domingo, da Alba, do Paseo, de Manuel Pereira – hoje Avenida de Pontevedra -, na Praça do Trigo, na rua Paz Nóvoa – hoje Cardenal Quevedo -, na rua do Instituto – hoje Lamas Carbajal -, na Praceta do Correxidor e da Mercedes, na Estrada de Ponferrada, na esquina de ErvedeloProgreso, na Hernán Cortés, destacando-se:

  • o edifício Junquera,
  • o Paço Episcopal,
  • o antigo Banco Simeón, ambos na rua do Progreso;
  • a Casa de Fermín García e
  • a actual Casa Consistorial, na Praça Maior.

 

(Edifício Junquera, virada para a Praça Bispo Cesário, do arquitecto Vásquez Gulías)
(Edifício Junquera - Interior, pormenor)
(Paço Episcopal - Fachada virada para Praça  Bispo Cesário, desenho do arq. Antonio Queralt)
(Fonte - Praça Bispo Cesário, mais outra trazida do Mosteiro de Oseira)
(Paço Episcopal - Fachada virada para a rua do Progreso)
(Antiga Casa Consistorial - Na Praça Maior)
(Antigo Banco Simeón - hoje Casa de Cultura Provincial)
(Rua do Paseo - onde se localizam numerosos edifícios modernistas)
(Teatro Losada - actualmente loja da Zara)
(Antigo Grande Hotel Minho, do arquitecto Vásquez Gulías)
(Antigo Grande Hotel Minho - outra perspectiva)
(Antigo Banco de Espanha - topo frontal)
(Antigo Banco de Espanha - em remodelação[restauro])
(Antigo Banco de Espanha - interior, antigos balcões)
(Antigo Banco de Espanha - Interior, pormenor de um dos tectos)
(Casa Taboada - Praça São Rosendo, do arquitecto Vásquez Gulías)
(Paço Provincial de Ourense)
(Mercado [Praza de Abastos nº 1])
(Café Victoria - Av. Pontevedra, em direcção à Praça Maior)
(Coreto da música - na Alameda do Concelho)

 

Em relação a este período e inícios do século XX, gostaria de realçar três realizações importantes para a cidade de Ourense:

 

a).- A Ponte Nova ou de Ferro

 

Dizem Henrique Bande Rodríguez e Luís Fernández Rodríguez, in ob. cit., página 75, que, das mais de cem pontes inventariadas na província, algumas são exemplares únicos, como é o caso da Ponte Nova ou de Ferro, do concelho de Ourense, sob o rio Minho [Note-se que, até 1943, esta ponte pertencia ao concelho de Canedo].

 

(Ponte Nova)

 

Esta ponte nasce para prolongar a estrada que ia desde o Campo de São Lázaro até à estação de Canedo – linha de caminho de ferro Ourense-Vigo -.

 

(Ponte Nova - perspectiva da estrada de Santiago)

 

Ainda segundo aqueles autores, a inauguração desta importante infra-estrutura ferroviária, foi, no Ourense da época – 20 de Junho de 1918 -, uma festa de paz e fraternidade, num mundo ensanguentado pela Primeira Guerra Mundial.

 

(Ponte Nova - vista nocturna)

 

O projecto foi obra do engenheiro de caminhos de ferro, D. Martín Díaz de la Banda, que dirigiu as obras até 1916, data esta a partir da qual depois se responsabilizou D. Manuel Fernández García. A ponte é um belo estilo modernista. De traço airoso, singelo e com unidade estética.

 

(Ponte Nova - pormenor)

 

Constitui um dos monumentos ourensanos modernos de maior significado e ergueu-se como símbolo do progresso, da expansão, iniciada nos finais do século XIX, a partir da construção do edifício Siméon.

 

Essencialmente encarna uma arte funcional.

 

E tal foi o impacto, na altura, que esta ponte teve, que, Ourense, a cidade das Burgas, também se passou a chamar a cidade das Pontes. Para além do impacto, esta obra, veio dar aos ourensanos mais carácter e orgulho, um selo inconfundível. Uma espécie de contraponto entre a cidade antiga (das Burgas) e a cidade moderna (da Ponte Nova). Loárona, Risco, Cuevillas e Luís Trabazo diziam: «A Ponte Nova é obra modernista, de pedra e ferro, obra preciosa e elegante, com amplos pilares de bela curvatura modernista e o seu arco central estendido como uma “ballesta” sobre as águas “cantariñas” do rio Minho».

 

E, os autores que vimos seguindo, rematam: «na ponte tudo é harmonia, proporção, ordem e medida, destacando-se os trabalhos de cantaria, os relevos, os escudos heráldicos e a beleza harmónica dos elementos ornamentais e decorativos».

 

b). - O Instituto do Posío

 

Os centros culturais docentes de Ourense do século XIX foram o Seminário Conciliar e o Centro Provincial de Instrução.

 

Em 1840 iniciam-se trâmites para a criação de um Instituto de 2º grau de Ensino em Ourense por parte da Comissão Provincial de Instrução Pública.

 

 

Este estabelecimento de ensino contou com um grande número de alunos.

 

Depois de várias vicissitudes entre a Junta Provincial de Instrução e o Seminário Conciliar, no ano de 1860-1861, a Deputação acabou por adquirir, à beira do Campo ou Horto do Posío, um terreno para a construção do edifício, capaz de albergar o Instituto, a Escola Normal e “outras dependências do centro”.

 

Entre 1879 e 1898, incorporam-se ao Instituto os Colégios privados da província, como sejam, os Escolapios, Pauis dos Milagres, Colégio de São Luís Gonzaga e Colégio de Nossa Senhora do Carmo de Trives.

 

Só no curso de 1896-1897 é que o Centro Provincial de Instrução começa o seu funcionamento normal, constituindo um dos melhores edifícios que havia em Espanha dedicado ao ensino.

 

(Edifício IES Otero Pedrayo ou Instituto do Posío)

 

Por Ordem Real de 1900, o Centro Provincial de Instrução de Ourense converte-se em Instituto Geral Técnico, começando uma nova etapa para o seu centro docente, incorporando, assim, a Escola de Mestria Industrial, os estudos da suprimida Escola de Mestres da província, os de Arquitectura, Belas Artes, Comércio e ensino nocturno para os trabalhadores.

 

Foi graças ao bom trabalho que esta instituição desenvolveu que se acabaram as “quezílias” e as “arremetidas” da Igreja (Seminário) contra o ensino público.

 

Hoje o Instituto do Posio tem o nome do grande galego ourensano Ramón Otero Pedrayo – IES Otero Pedrayo.

 

Segundo me diz o meu bom amigo Luís, ourensano de gema, no Instituto do Posio esteve instalado o Museu Arqueológico e a Biblioteca Pública, a qual, na noite de 7 para 8 de Dezembro de 1927, teve um incêndio que a destruiu. Era considerada a terceira biblioteca galega. A actual biblioteca do Instituto guarda parte dos volumes que compunham a biblioteca do Mosteiro de Oseira e que se salvaram do dito incêndio de 1927.

 

É de referir o restauro do seu “Paraninfo”, iniciado em 2006 e inaugurado em 2008. É uma autêntica jóia civil, de estilo neoclássico, em transição para o modernismo, e um dos poucos existentes em Espanha. Na sua inauguração, o então Presidente da Junta, Emílio Pérez Touriño, recordou que, naquele edifício, nasceu a “Geração Nós”. E foi o centro de ilustração e da intelectualidade galega com professores como Julián Besteiro, Ramón Otero Pedrayo, Jesús Soria, Vicente Risco, Carlos Casares e José Angel Valente, entre outros. O “Paraninfo” foi, infelizmente, também palco dos juízos sumaríssimos, dos conselhos de guerra, durante a guerra civil e os primeiros anos do pós-guerra. Tem capacidade para 160 pessoas sentadas. Para além de “salão de actos” é também hoje um lugar de actividades culturais e educativas, não só para os seus estudantes mas também para a população em geral, sendo, desta feita, um autêntico centro cultural da província. Todas as quintas-feiras, excepto nos meses de julho e agosto, organizam-se os concertos "Sin Batuta", de música de câmara.

 

(Paraninfo restaurado)


 c).- O Jardim Botânico

 

O Posío primitivamente era um campo que, no século XVIII, se ampliou mediante a compra de terrenos. Ali se levantou uma ermida dedicada à Virgem, sob a designação Nossa Senhora do Posío e que, segundo testemunhos, já existia em 1438.

 

Aquele campo, nos começos do século XIX, estava num estado calamitoso e a ermida em ruína, ao ponto de, tais as tropelias ali cometidas, o concelho perguntava ao Abade da Trinidade, ali vizinho, o que tinha sido feito da venda da madeira e o que aconteceu aos retábulos da ermida. Segundo documentos, a tal ermida já não existia em 1844. A imagem de pedra, que presidia à ermida, passou para a igreja da Trinidade e, em 1926, foi colocada num nicho à entrada dos jardins das Burgas.

 

O Posío, até que se converteu em Jardim Botânico no século XIX, foi um terreno arborizado, já fora dos limites da cidade. E esta transformação só foi possível graças à ajuda da cadeira (disciplina) de Física, Química e História Natural do Instituto do 2º Grau de Ensino de Ourense, no curso de 1846-1847.

 

A 18 de Março de 1855 acordou-se formar uma nova alameda no Campo do Posío para ali se estabelecer um Jardim Botânico que ajudasse os alunos do Centro Provincial de Instrução.

 

(Jardim do Posío - avenida)

 

O Jardim Botânico estava constituído por cinco pentágonos irregulares, oito semicirculares e quatro triângulos, com os correspondentes passeios intermédios, restando um outro triângulo para depósito de estercos e vários usos. No centro um templete de três corpos com base octogonal.

 

(Jardim do Posío - fonte)

 

Nas entradas dos passeios há um arco de ferro e dezanove de madeira revestidos por plantas trepadeiras.

 

O Jardim Botânico, hoje um verdadeiro parque urbano, é tratado com muito “mimo”.

 

 

6.- Ourense do século XX aos nossos dias – À procura de um lugar num mundo global

 

Em 1943, o concelho de Canedo, um bairro populoso e comercial, integra-se na cidade de Ourense.

 

A partir da década de 60 e 70 do século passado, mercê, essencialmente, do contributo da emigração do centro da Europa, assiste-se a um “boom” construtivo na cidade.

 

O alargamento urbanístico de Ourense verifica-se ao longo dos vales dos três rios que banham a cidade – Miño, Barbaña  e Loña -, bem assim nas faldas de Montealegre e ao redor da Estação de Empalme, da nova linha de caminho de ferro Ourense-Zamora, inaugurada em 1957.

 

Começam, assim, a nascer os seguintes bairros:

 

  • à volta da nova estação e da linha de caminho de ferro Ourense-Zamora – o bairro das Lagoas;
  • a oeste da cidade, ultrapassando o rio Barbaña e as vias de circunvalação – o bairro do Couto;
  • a sul da cidade, prolongando-se até Mariñamansa – os bairros da Cuña, Santo Cristo, Palácio dos Desportos, etc., invadindo, inclusive, concelhos vizinhos, como o de San Ciprián das Viñas, onde está situado o Polígono Industrial e o Parque Tecnológico da Galiza;
  • a este da cidade, subindo até Montealegre – pelo bairro de São Francisco, ultrapassando a linha de caminho de ferro.

 

(Estação de Empalme - Canedo[edifício parecido a um paço galego])
(Máquina em exposição em frente à estação de Empalme)

 

Todos estes bairros dotaram-se dos mais diversos serviços públicos, desde estabelecimentos de ensino, serviços de saúde, paróquia, etc.

 

(Rio e Bairro Barbaña)

 

Face a esta circunstância, se bem que já na década de 60 e 70 os POM’s (Planos de Ordenamento Municipal) se faziam sentir como uma necessidade premente, hoje em dia, é um instrumento de gestão urbana fundamental da cidade. Daí tanta polémica à sua volta.

 

Para além do alargamento da cidade com novos bairros, novas vias de comunicação surgem:

 

  • a estrada de Ponferrada e
  • a autovia das Rias Baixas, envolvendo a cidade e marcando novos limites e novos horizontes ao seu desenvolvimento.

 

Este inusitado crescimento urbano veio exigir o estender de novas pontes, todas, à excepção da do Milenio, no século XX:

 

  • a já falada Ponte Nova ou Ponte de Ferro (1918), para ligação à estação de caminho de ferro de Canedo (Ourense-Vigo), aliviando o excesso de circulação na Ponte Vella (romana);
  • o Viaduto de Caminho de Ferro, de elegantes e airosas linhas;
  • a Ponte do Ribeiriño;
  • a Ponte de Velle, que une a circunvalação da cidade;
  • a da presa de Velle e, já neste século,
  • a Ponte Milenio.

 

(No primeiro plano, lado direito, Viaduto de Caminho de Ferro; ao fundo, estação de Empalme)
(Vista aérea das pontes de Ourense no núcleo urbano)
(Ponte Milenio vista da Ponte Velha ou Maior)
(Ponte Milenio - aproximação)
(Ponte Milenio - efeito de luzes)

 

Na entrada para o século XXI as preocupações da cidade de Ourense, e dos seus responsáveis, tem, essencialmente, a ver com as seguintes questões:

 

  • Dotá-la com um POM (Plano de Ordenamento Municipal) eficaz por forma a bem gerir uma cidade que, de 120 mil habitante, quer chegar aos 150 mil;
  • Voltar a cidade a um convívio mais profundo e harmonioso com as zonas ribeirinhas do rio Miño, que nela passa, e dos outros dois, que ali desaguam, dotando-as com áreas verdes e equipamentos para usufruto da população, qualificando e vitalizando espaços que estavam degradados;
  • Melhoramento das zonas termais;
  • Preservação e (re)qualificação da sua malha urbana tradicional, cuidando da preservação da memória histórica, de que alguns edifícios são representativos, e emblemáticos, no centro histórico;
  • Consolidação da Cidade da Cultura no conjunto de São Francisco;
  • Candidatura (eventual) da cidade de Ourense a Capital Europeia da Cultura em 2020;
  • Articulação de todos os transportes da cidade (perspectiva intermodal), preparando a cidade para receber o comboio de alta velocidade (AVE);
  • Criação (e consolidação) de um verdadeiro pulmão verde para a cidade (Botânico de Montealegre);
  • Consolidação, em termos globais, da bacia do agro-alimentar e da moda.
(São Francisco - recuperação do antigo Mosteiro, a integrar p complexo para a cidade da cultura)
(São Francisco área moderna da cidade da cultura)

 

Para além daqueles que temos vindo a referir nesta rubrica, mostram-se alguns edifícios representativos de Ourense, emblemáticos, do seu centro histórico, e que, de alguma forma, são a sua memória, fundamentalmente os de feição modernista.

 

No próximo post iremos abordar as zonas ribeirinhas de Ourense, em especial as suas zonas termais.

 


publicado por andanhos às 22:55
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