Terça-feira, 24 de Julho de 2012

Pelos Caminhos de Santiago - Na Galiza (Via da Prata 3.2.3)

 

3.2.- Igreja

 

3.2.1.- Porta de comunicação do Mosteiro para a Igreja; a planta; as naves

 

A comunicação do Mosteiro com a Igreja faz-se por uma porta aberta no Claustro Regular ou dos Medalhões.

 

 

 Esta porta foi aberta no triénio do Abade Antonio Fernández (1569-1572)

 

Trata-se de uma porta com arco de meia volta, coroado por um relevo em forma de frontão que representa o Pai Eterno e as figuras simbólicas da Fortaleza e da Justiça. É tipicamente em estilo renascentista, muito próprio desta época.

 

A Igreja do Mosteiro de Oseira remonta à época medieval. É uma jóia de grande valor arquitectónico, um exemplar-chave para o estudo da arquitectura de Cister em Espanha.

 

 

(Porta de entrada principal interior)

 

Segundo os entendidos, nomeadamente o professor Valle Pérez, a data de início da obra deve andar pelo ano 1185. A análise da construção evidencia uma substancial e clara unidade nos motivos ornamentais, tipo de capitéis, organização dos suportes, etc. A conclusão da capela-mor deveria ter lugar em 1195-1200.

 

A data provável da consagração da Igreja é o ano 1239.

 

A arquitectura deste templo é uma síntese entre o forâneo e o local, muito próprio da arquitectura da Ordem de Cister.

 

A planta da Igreja é uma cruz latina, com três naves e sete tramos, no braço longitudinal, e um cruzeiro com dois tramos.

 

A cabeceira possui uma capela-mor, semi-circular, precedida de dois tramos rectos, em torno da qual se desenvolve uma girola ou deambulatório, com sete compartimentos. Na girola abrem-se cinco capelas.

 

 

O hemiciclo absidal está aberto em abóbada, composta por oito nervos de secção prismática.

 

 

O cruzeiro destaca-se tanto em planta como em alçado. É formado por uma só nave, de braços de curta dimensão, e é coberto por uma abóbada de canhão apontado, igual às naves. Sobre o cruzeiro está a airosa cúpula.

 

Exteriormente é um sensível corpo octogonal, liso e simples, sem mais decoração. No seu interior deparamos com um polígono de base com 16 lados, conseguido mediante quatro grandes trompas, hoje decoradas com relevos barrocos de talha de madeira.

 

A cúpula é formada por dezasseis nervos radiais de perfil rectangular.

 

 

A Virgem do Leite preside à capela-mor, numa base de granito.

 

 

Esta imagem tem um valor excepcional pela raridade deste tipo de obras ao apresentar Maria sentada, sustendo o Menino sentado no seu regaço com a mão esquerda, enquanto, com a mão direita, oferece o peito.

 

É em pedra policromada, datada do século XIII.

 

Nos pés do templo dispõe-se o Coro Alto sobre uma interessante abóbada, que remonta a cerca de 1550.

 

 

3.2.2.- Retábulos e decoração barroca

 

Depois da reconstrução do Mosteiro o impacto do barroco nesta Igreja foi reduzido sensivelmente. Nomeadamente, desapareceu um baldaquino e vários retábulos, assim como parte da decoração pictórica, o coro e o órgão.

 

Ficaram, contudo, alguns retábulos que evidenciam a importância deste monumento artístico.

 

A nervura da cúpula medieval do cruzeiro da Igreja está decorada profusamente. Nas trompas ou esquinas há quatro relevos com santos de corpo inteiro, da Ordem, situados numa complexa moldura barroca sob águia bicéfala: S. Roberto de Molesmes; S. Alberico; Santo Estêvão Harding e S. Bernardo.

 

 

Têm a seus pés cartazes que os identificam.

 

 

3.2.3.- Os retábulos do Cruzeiro

 

Vistosos e conservados in situ são os quatro retábulos que estão adossados às colunas e formam arcos de triunfo à entrada da girola.

 

 

Esta obra foi feita quando Frei Plácido Morriondo (1753-1756) foi Abade do Mosteiro.

 

Artisticamente, trata-se de uma obra de uma depurada técnica, dentro de um barroco avançado, que denota um mestre hábil e conhecedor da obra de Simón Rodríguez e de outros altos expoentes do barroco compostelano.

 

(Retábulo de S. Bento)
(Retábulo de S. Bernardo)
(Retábulo de S. Famiano)
(Pormenor do Retábulo de Santiago)
(Pormenor do acabamento de um Retábulo)
(Pormenores dos Retábulos)

 

As capelas da girola ou deambulatório modificaram-se no século XVIII com o barroco, nomeadamente com o acrescento de retábulos.

 

(Retábulo pétreo da Capela Central e Retábulo de Santa Vitória)
(Retábulos de Santa Catalina e S. Miguel)

 

A barroquização do espaço interior do templo chegou à sua máxima expressão com a campanha decorativa que acabou por pintar praticamente todos os muros da Igreja. A temática é logicamente religiosa, completando-se com elementos meramente decorativos, como flores, formas geométricas, etc. Praticamente toda a Igreja foi coberta com motivos tomados do Santoral e das fontes iconográficas cistercienses.

 

 

 

3.2.4.- Sacristia

 

 

A porta da sacristia é do século XVIII. Previve nela um classicismo ecléctico, utilizando a ordem jónica, muito rara na arquitectura galega.

 

 

As pilastras são estriadas. Entablamento decorado com três mísulas e dois florões de rica talha.

 

O frontão triangular, com denticulado interior, decora seu tímpano com um enfeite com as armas de Cister pintadas entre dois triângulos ressaltados.

 

Nas esquinas leva acrótera rematada em bola, solução que, provavelmente, também tinha o vértice.

 

A sacristia antiga, do primeiro terço do século XVI, cobre-se com abóbada bastante rebaixada e os seus nervos ou nervuras partem de mísulas situadas a meia altura.

 

 

Num dos extremos da sacristia conserva-se um armário de artísticas portas com trabalhos geométricos e policromadas. Provavelmente deveria ter sido relicário.

 

(Armário)
(Armário - Pormenor)

 

Nesta sacristia há uma porta(da) classicista com colunas estriadas que rematam em capitéis e que levam na sua frente uma cabeça grande de anjo, com entablamento com frontão triangular e, em cujo tímpano, se abre uma venera. Rematam o ângulo e os extremos uma máscara e dois candelabros.

 

É obra do século XVI, já avançado.

 

3.2.5.- Exterior do templo e capela de Santo André

 

(Capela de Santo André e Porta da Morte)

 

Pela Porta dos Mortos saímos para o exterior para, daqui, comtemplar o exterior da Igreja, o cemitério e a capela de Santo André.

 

A cabeceira só conserva a sua forma inicial num dos extremos.

 

(centePerspectiva da Igreja do lado nascente, com Capela de Santo André no extremo direito)
(Abside românica)

 

As outras capelas (da girola) conservam parte da edificação medieval. A capela central não mantém nada da construção precedente.

 

São de interesse as coberturas da girola, uma parte com telha comum e outra com lousas de pedra. A capela-mor traduz-se exteriormente de forma airosa.

 

Contrafortes prismáticos marcam os tramos rectos do presbitério; a parte semi-circular divide-se em sete tramos por meio de seis colunas.

 

O cruzeiro destaca-se com o maciço corpo octogonal central. No braço norte abre-se a porta do cemitério monacal ou da morte, com sete contrafortes.

 

(Perspectiva da Igreja do lado norte)

 

A construção da capela de Santo André data por volta de 1210-1215, estando acabada em 1239, porquanto foi nesta data que foi consagrada juntamente com a Igreja abacial.

 

Seu exterior é de uma enorme simplicidade.

 

O destino desta capela foi, segundo Valle Pérez, servir de lugar de enterro das famílias nobres, como os Vilariño e outras linhagens.

 

A jacente de D. Arias encontra-se dentro da capela. Apresenta hábitos monacais, empunhando um livro na mão esquerda e o báculo de espiral na mão direita. A cabeça está coberta com a mitra. Repousa sobre vários livros.

 

 

Trata-se de uma obra gótica dos primeiros anos do século XV.

 

3.3.- Obras artísticas

 

São muitas as obras desaparecidas após a desamortização. Entre as que foram conservadas, vamos referir e mostrar as seguintes:

3.3.1.- Ourivesaria

 

(Relicário neogótico de S. Raimundo de Fitero)
(Relicário do Beato Rafael Arnáiz)
(Custódia com os escudos de Oseira e Cister, séc. XVIII)
(Cálice de estilo rococó, séc. XVIII)
(Báculo neoclássico, séc. XIX, procedente do Mosteiro de Monfero)
(Báculo de 1977 usado para a benção do Abade D. Plácido Gonzáles Cacheiro)

 

3.3.2.- Imagens e quadros

 

(Cristo de marfim, século XVII)
(Cristo flagelado em madeira, séc. XVII)
(Uma das peças do baldaquino - S. Bernardo diante de Nossa Senhora)

 

 

3.3.3.- Farmácia

 

(Frente de um móvel-armário da Farmácia do Mosteiro)
(Um dos vasos da Farmácia do Mosteiro - Real Fábrica de Sargadelos, séc. XIX)

 

 

3.3.4.- Paramentos

(Capa pluvial com o escudo de Oseira, séc. XVIII)
(Mitra com os escudos de Oseira e da Ordem de Cister, séc. XIX)

 

3.4.- Padaria, moinho e forno

 

À volta do mosteiro, do lado nascente-sul, ao lado do Dormitório dos Anciãos, encontra-se uma série de edificações destinadas a diversas indústrias necessárias para manter a vida do mesmo.

 

 

São construções sem nenhumas pretensões artísticas e cuja única finalidade é a de serem úteis e práticas.

 

São enclaves de arquitectura rural no meio de solenes e cultos edifícios: a padaria e o moinho de água, que chega até à roda, canalizada, atravessando o subsolo do Claustro dos Pináculos, que se mantém de pé ainda, embora em desuso, desde vários épocas.

 

(Moinho)

 

O forno foi desmontado vai para vinte anos.

 

 

 

 

 

4.- Notas Finais

 

Mostra-se de seguida a ala do Mosteiro, contígua ao Claustro do Pináculos, onde tínhamos a nossa cela (quarto). Ao fundo do corredor, a porta de entrada para a Biblioteca.

 

 

 

O actual abade do Mosteiro de Oseira é D. Juan Javier Martín Hernández, de 43 anos.

 

 

É o sétimo monge a dirigir a Abadia após o começo do seu restauro em 1891.

 

A 5 de Março de 2012 foi eleito abade do Mosteiro de la Trapa. Para mais desenvolvimento desta notícia veja-se o seguinte link.

 

No passado dia 4 do corrente mês fui com os meus sobrinhos netos Tó e Edu, uma vez mais, ao Mosteiro de Oseira, entusiasmá-los para a importância do conhecimento da história, da arte, da natureza e da tradição em ordem a melhor prepararmos o nosso futuro.

 

Foi reconfortante sentir o entusiasmo destes pequenos jovens pelo que lhes mostrámos e ensinámos. Não nos deixam tão pessimistas quanto à incerteza do futuro no que concerne à manutenção e preservação do património natural e cultural que nós, mais velhos, ao longo de décadas e séculos, pouco cuidado dele tivemos!

 

Depois não resisti de passar por Cea e comprar o seu famoso pão. Comprámo-lo mesmo à boca do forno. Que delícia!

 

E eis-nos no fim desta reportagem sobre o Mosteiro de Santa María La Real de Oseira...


publicado por andanhos às 12:21
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