Sábado, 21 de Julho de 2012

Pelos Caminhos de Santiago - Na Galiza (Via da Prata 3.2.1)

 

O segundo tema deste “Destaque(s)”, tal como dizia na Introdução desta secção, é o Convento e Igreja de Santa María La Real de Oseira.

 
 

Osera era tierra de verdes fragas, floresta silvestre, orda selvaje de xestas y tojos;

lugar de osos, de viejos robles regados por las fescas aguas del Ursaria;

aislada del mundo y vecina del paraiso;

una remansada oración de la naturaleza a su Señor”.

 

David Ferrer Garrido,

Apresentação do livro “El Monasterio de Oseira”,

Caixa Ourense, 1996

 

 
 
 

Como dizia no relato da 3ª etapa (Ourense-Cea) [Pelos Caminhos de Santiago – Na Galiza (Via da Prata 2.3)], quando, em 2007, fiz este Caminho, fiquei com imensa pena por não o ter ido visitar, pois, na etapa nº 4 (Cea-Laxe), optámos pelo percurso mais curto, evitando, assim, aquele desvio.

 

Mas fiquei com aquele “bicho” por lá não ter ido.

 

Volvidos 5 anos, acabei por ir lá.

 

A primeira vez foi uma visita turística, realizada em 21 de Janeiro do corrente ano, acompanhado da minha Ni e da Bina. Ficámos com uma panorâmica geral das dependências do Mosteiro e da Igreja. A segunda foi apenas com a Ni, nos dias 29 de Fevereiro a 1 de Março do corrente ano. Optámos por permanecer dois dias na Hospedaria do Mosteiro, por forma a conhecer melhor a vida conventual e dos seus residentes.

 

Se bem que já conhecesse um pouco o modo de vida destes solitários residentes, uma coisa é ter uma visão, diria, exterior, outra é vivê-la – quase vivê-la – in situ.

 

Vejamos o dia-a-dia destes eremitas, no horário das actividades diárias, bem visível numa mesa de apoio no quarto onde nos acomodámos:

  • 04:30 h - Vigilias (Oração Angelus)
  • 07:15 h - Laudes-Eucaristia (Pequeno almoço 10 minutos depois da eucaristia)
  • 10:30 h - Oficio da Tercia
  • 13:00 h - Oficio de Sexta (Examen-angelus)
  • 13:45 h – Comida
  • 15:00 h – Oficio de Nona
  • 18:30 h – Oficio de Vesperas (Oração)
  • 19:45 h – Cena
  • 20:30 h – Oficio de Completas (Salve-angelus)
  • 21:00 h – Descanso (Grande silêncio)

 

Como se pode depreender, uma vida toda dedicada à oração. E à qual, nós os dois, também, durante aqueles dois dias, diligentemente, e por que não dizê-lo, por uma questão de boa educação e cortesia, participámos.

 

Cumprimos tudo à risca, excepto levantarmo-nos para Vigilias, às 04:30 h!...

 

Estou em crer que, positivamente, não fui talhado para aquela vida.

 

Gosto do afastamento, do silêncio, do meu encontro e do envolvimento com a natureza, mas feita de uma forma, diria, “mais selvagem”.

 

 
 
 
 

Tivemos como companheiros, por razões bem diferentes das nossas, cujo recato e discrição a minha curiosidade não foi mais a fundo, as seguintes pessoas:

  • Padre Nuno – Oliveira de Azeméis;
  • Padre Pepe – Tui (a viver numa Casa pertença das Irmãzinhas que têm a Casa de Santa Marta, Chaves);
  • Padre Sito Xavier – Pároco de uma paróquia de Vigo;
  •  Quico – Leigo de Xinzo de Limia;
  •  Carlos – Leigo de Ourense.

Uma palavra de apreço e gratidão para o Irmão hospedeiro Alfonso (natural de Valência): um encanto de pessoa.

 

Das conversas havidas entre este Irmão e o Padre Nuno constatei a sua obstinação pelo purismo inicial da vida da Ordem. Mesmo a nível da arquitectura. Para ele o românico está mais de acordo com aquele espírito. Daí o seu desdém pelo barroco, personificado na figura do órgão da Igreja.

 

Um apreço ainda muito especial para este Irmão quando nos mostrou a actual Biblioteca do Convento e nos explicou a forma como foram feitas as obras de recuperação do Refeitório Monumental que, mais à frente, mostrarei.

 

Fomos servidos frugalmente, com comida e acomodações de acordo com as normas do serviço que uma instituição deste cariz deve prestar.

 

Foi simplesmente uma experiência enriquecedora e interessante de viver.

 

 
 
 

1.- Localização e um pouco de história

 

 

O Mosteiro de Oseira está situado numa zona montanhosa, num vale anemo, a 28 quilómetros a norte da capital da província de Ourense, no município de Cea, vila afamada pelo seu pão, como já referimos.

 

De acordo com o opúsculo “Santa María La Real de Oseira – Guia del Monasterio”, de Miguel Ángel González e Frei Damián Yáñez, as primeiras notícias documentais assinalam já vida monástica em Oseira em 1137. E conhecem-se os nomes dos 4 pioneiros iniciais da fundação – os monges García, Diego, Juan e Pedro – que se crê não foram cistercienses num primeiro momento e que, num período incerto de anos, viveram segundo o ideal monástico da regra beneditina.

 

O lugar escolhido, na margem direita do rio Ursaria – Oseira – topónimo derivado de ursus, oso em latim, será o nome que tomará o mosteiro e adoptará a heráldica como escudo parlante.

 

Em 1141 Oseira foi integrada na Ordem de Cister, sob a dependência de Claraval, constituindo-se uma comunidade numerosa, cheia de vitalidade espiritual. Como se evidencia pela presença de São Famiano, peregrino alemão (cuja estátua está acima da Escadaria de Honra), que, em 1142, aqui se fez monge.

 
 
 
 
Oseira conheceu grandes momentos de esplendor e épocas também de decadência.

 

Entre seus abades mais proeminentes, cabe destacar:

  • D. Lorenzo (1205-1223), que subiu à sede de Claraval, único espanhol a alcançar tal honra;
  • D. Fernando Pérez (1223-1232), antigo deão de Santiago e Conselheiro-Mor do Reino;
  • D. Fernando Yáñez, eleito para dar vida à grande abadia portuguesa de Alcobaça, em 1195;
  • D. Suero de Oca (1485-1512), arcebispo de Tarso.

No século XV Oseira sentiu a crise geral da Igreja, e mais particularmente com a chegada dos Abades comendatários.

 

Em 1552 Oseira sofreu um grande e grave incêndio. Por tal facto, e por outras estratégias de poder também, naquela época, pensou-se aqui acabar com a vida monástica, deslocando todos os seus residentes para a Casa de Valladolid.

Valeu o Oseira a argumentação pertinaz do seu abade Frei Marcos del Barrio para que tal intento não fosse prosseguido.

 

A própria arquitectura do mosteiro está aí como barómetro para deixar bem claro o que foi a vida regular e generosa vivida secularmente nesta Casa, a
quem lhe chamam o “Escorial Galego”.

 

Todo este sereno e intenso viver o século XIX o deitou por terra com a exclausura, em 1820, e depois, em 1835, com a desamortização.

 

Depois de um século de abandono, que levou Oseira a um estado de ruína lamentável, com o bispo D. Florencio Cerviño González, em 1929, mais concretamente a 15 de Outubro, os monges regressaram aquele lugar com a tarefa de consolidarem primeiro aquelas ruínas e depois o seu modesto restauro.

 

Foi mais concretamente a partir de 1966, sob a direcção dos próprios monges, que se logrou o milagre da efectiva reconstrução do Mosteiro, motivo pelo qual, em 1990, recebeu o Prémio Europa Nossa e, em 1997, o prémio Otero Pedrayo, concedido pelas quatro deputações galegas (Corunha, Pontevedra, Lugo e Ourense).

 
 
 
 
 

publicado por andanhos às 01:35
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