Sábado, 10 de Março de 2012

Pelos Caminhos de Santiago - Na Galiza (Via da Prata 2.6)

 

Chegado aqui, agora não podia desistir. Apenas faltam pouco mais de 16 Km. Tinha de ir buscar forças no mais recôndito de mim mesmo.

 

Embora com o joelho e as bolhas a doerem-me, ao levantar-me, como sempre de madrugada, estava decidido a empreender o Caminho até ao fim.

 

Apesar das minhas dores, o Caminho foi deveras aprazível, talvez por saber que era a última etapa. Mas não só. Entre bosque, eucaliptal (com um agradável cheiro a eucalipto), casas rodeadas de ramadas (latadas) de videiras e vistas amplas, o Caminho, apesar das minhas condições físicas e receios, até se fez sem sofrimento assinalável.

 

Depois de passarmos por Ardarís, entrámos no concelho de Boqueixón, por Lestedo. Mais moradias, e respectivas latadas de videiras.

 

 

E chegámos a Rubial. A partir daqui começámos a ver o Pico Sacro, monte lendário para a Comunidade Galega, relacionado com a Translatio do Apóstolo, ou seja, a condução do corpo do Apóstolo para Santiago de Compostela. Conforme na primeira parte da reportagem deste Caminho já referi, era aqui que se apascentavam dois toiros bravos e que os discípulos, Teodósio e Atanásio, com a ajuda divina, os amansaram para aqueles poderem cumprir a sua missão.

 

 

Em Rubial existe uma inscrição a atestar a passagem daqueles dois toiros bravos por aquelas bandas. 

 

 

Pelas proximidades de Rubial, encontramos troços de aprazíveis percursos no Caminho de hoje.

 

(Passadiço ligando a casa aos terrenos dec cultivo)
(Montes de Rubial)

 

A seguir a Rubial, por entre grupos de jovens que, calmamente faziam o seu Caminho, devidamente acompanhados, passámos por Deseiro de Arriba, pertencente à maior paróquia de Boqueixón, Sergude.

 

A partir de A Gándara, o Pico Sacro fica-nos por trás.

 

Ao Km 7,6 da etapa, passámos por A Susana, a seguir Cañoteira de Marrozos e, depois de cruzarmos a linha de caminho de ferro, entrámos em Vixoi, já pertencente ao concelho de Santiago.

 

No Rego das Covas de Santa Luzia, e sua respectiva ermida, atravessámos a quota mais baixa do Caminho de hoje.

 

 

Depois do Km 11,9 da etapa, entrámos em O Piñeiro, no Caminho Real de O Piñeiro

 

(Caminho Real O Piñeiro)
(Ponte do Caminho Real O Piñeiro)

 

para, depois, entrarmos em Angrois, e a respectiva subida do Caminho Real de Angrois, donde se tem uma bela vista já de Santiago de Compostela.

 

 

Pouco depois já nos encontramos a descer a calçada de Sar

 

 

e, mais um bocadinho adiante, já se tem uma visão mais clara da torres da Catedral.

 

 

Aqui fez-se uma pausa. E respirei de alívio: já estou quase lá, vou conseguir! As dores, quase por milagre, até pareciam ter desaparecido.

 

Embrenhamo-nos pelas ruas da Ponte de Sar, Rua de Sar e Rua Castron Douro, 

 

(Rua do Sar)
(Ponte romana sobre o Sar)

 

dando tempo ainda para observar e tirar duas fotos à Colegiada de Santa Maria A Real do Sar e ao Convento das Madres Mercedarias Descalças  e,

 

(Colegiada de Santa Maria a Real do Sar)
(Convento das Madres Mercedarias Descalças)

 

quase sem contarmos, já estávamos na Porta ou Arco de Mazarelos (única porta medieval existente na cidade). 

 

 

Com alguma saudade passei pela Praza da Universidade, lembrando-me dos tempos passados naquela Facultade de Xeografía e Historia,

 

 

como estudante de um doutoramento em Geografia. Saudades de alguns colegas e professores. Gente boa. Que, recorrentemente, me vêm à lembrança… Há pessoas, tempos e terras que nos marcam. Para sempre…

 

Passando a Rua da Caldeireiría e a Rua Diego Xelmírez, entramos na fervilhante Praza das Praterías,

 

 

para, logo de seguida, nos apostarmos, com um sentido de dever cumprido, em frente da impressionante fachada barroca da Catedral de Santiago de Compostela, a meio da Praza do Obradoiro

 

 

Aquela cidade de pedra escurecida pelo passar do tempo e pela humidade, tantas vezes por mim frequentada, hoje parecia-me outra, apresentava-se-me como que transfigurada.

 

Recebida “A Compostelana”, 

 

 

há que entrar dentro da Catedral.

 

Contemplada a beleza da preciosa obra quase de filigrana, que é o Pórtico da Glória, do Maestro Mateo

 

 

há que dar uma volta pela Catedral, pelas naves laterais, enquanto decorre a Missa do Peregrino. 

 

(Retábulo do Altar-Mor da Catedral)

 

Chegados aqui, uma pergunta, pertinente, impõe-se que seja feita: o que me faz correr tantos quilómetros a pé?

 

Cumprimento de alguma promessa? Fé? Devoção pelo Santo?

 

Embora tenha nascido no seio de uma família profundamente religiosa; apesar de ter recebido uma educação católica, tendo, inclusive, frequentado um seminário, mais por opção e/ou questões económicas do que, verdadeiramente, por autêntica vocação, o que é certo é que não fui bafejado pelo dom da fé.

 

Sinceramente, muitas vezes, até tenho inveja dos que, autenticamente, têm fé e vivem em conformidade com ela. A vida para essas pessoas, julgo, deve parecer-lhes muito mais leve.

 

Mas… cada um é como é.

 

Pegar numa mochila às costas e num cajado nas mãos, para além da sensação de desprendimento, é como se me sentisse totalmente livre. Livre, para percorrer caminhos e veredas, ao encontro da natureza e de mim próprio. Num constante ultrapassar desafios. Num tentar entender o ser humano.

 

Sou absolutamente telúrico e algo agnóstico.

 

E, se é assim, porquê os Caminhos de Santiago?

 

Também pode ser entendido por estar na moda, mas, julgo, não ser esse o meu caso. O culto ao Santo iniciou-se numa época – a Idade Média – num período profundamente instável e que, historicamente, o identificamos com o nome de “A Reconquista”. A partir daqui, toda a história da Península Ibérica e, porventura, de toda a Europa, sofreu uma profunda transformação.

 

Como época, tão instável e violenta, gerou, simultaneamente, um movimento não só de grande fé como também de eclosão cultural, tão patente na arte românica e gótica, disseminada por todo o território das peregrinações.

 

A partir daqui, sobrevêm-me um conjunto de interrogações: como é que aqueles que estiveram na origem do ressurgimento de uma nova civilização – a Igreja, com todas as suas Ordens e Mosteiros – depois se transformaram em parasitas e exploradores da sociedade? E como é possível que, com as “desamortizações”, em plena época liberal, se tenha, por sua vez, atentado tanto contra o património? Até onde chega a “gula” humana?

 

Estas, e outras questões, são o ensejo para iniciar o Caminho. Questões que fazem parte das minhas congeminações solitárias, enquanto percorro etapas e, no intervalo, quer da contemplação de um bonito trecho da natureza ou de uma obra de arte, que entretanto surja, ou ainda entre “dois dedos de conversa” com um “paisano” mais desinibido no se relacionar.

 

E também a circunstância de conhecer o “outro”, nosso irmão aqui tão perto, um alter ego, nascido da mesma ninhada de que se fizeram os portugueses do norte – os nossos vizinhos galegos.

 

E como somos tão parecidos!

 

É todo este fascínio – pela natureza, pela arte, pela história, pelo irmão galego, tudo sentido tão perto e presencial – que me leva a aceitar desafios e correr riscos.

 

Na Galiza, é como se estivesse em minha casa. Os galegos, com quem tenha muitas amizades e alguns bons amigos, são meus irmãos. De verdade.

 

Feita a visita ao interior da Catedral, meu objectivo estava cumprido.

 

Agora sim, meu joelho e bolhas despertaram-me para uma dolorosa realidade: o tratar das mazelas e descansar.

 

Na Praza Cervantes está um restaurante, farto e económico, muito frequentado por estudantes – Casa Manolo. Foi para lá que nos dirigimos.

 

 

Depois de comer, só queria ver percorrido o espaço que dali me levava à estação dos caminhos de ferro de Santiago. Descer as escadas daquela estação então é que foi um verdadeiro suplicio.

 

Tomámos o comboio em direcção à estação de Laza, localidade donde partimos, mas que, por sinal, fica bem mais distante do centro da vila.

 

Já lá se encontrava à nossa espera o amigo de Fabios, Tó, uma personalidade simpática e muito querida. Que nos levou até à nossas casas. E despedindo-nos com a promessa que, em Dezembro, faríamos o Caminho do Norte.

 


publicado por andanhos às 22:21
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