Domingo, 27 de Outubro de 2013

Gallaecia - Por terras da Gallaecia:-- Reflexões à volta da arte urbana de Bragança

 

REFLEXÕES SUSCITADAS À VOLTA DA ARTE URBANA EM BRAGANÇA

 

 

"onde estiver um transmontano está qualquer coisa de específico, de irredutível.

E porquê? porque, mesmo transplantado, ele ressuma a seiva de onde brotou.

Corre lhe nas veias a força que recebeu dos penhascos, hemoglobina que nunca se descora."

 

Miguel Torga

 

 

(Nadir Afonso - As cidades e os seres)

 

No passado mês de Setembro estive três dias em Bragança. Já há muito tempo que era meu propósito dar um salto ao Museu Abade Baçal - pois lá nunca tinha ido - e, na volta, aproveitar e dar uma vista de olhos à exposição de Graça Morais - «Uma Antologia - Da Terra ao Mar, pintura e desenho (1990-2013)», no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais.

 

Fiquei deveras impressionado com a cidade. Alargou-se. Cresceu. E, embora para lá dos confins, nota-se que tem uma certa vitalidade e dinamismo. Fundamentalmente em quatro áreas fundamentais para uma cidade que se quer posicionar na vanguarda das cidades médias modernas, acolhedoras e com atratividade:

 

  • No cuidar do seu Centro Histórico, tratando das suas infraestruturas, fachadas e recuperação do seu património histórico, pondo-o ao serviço das funções mais nobres de uma cidade como seja a área da cultura;
  • No alargamento do perímetro urbano, saber incentivar os proprietários e investidores para a necessidade de uma cuidada arquitetura dos edifícios a construir, contribuindo não só para a boa qualidade da habitação como para a criação de uma cidade bela, agradável à vista, apelando a nela viver;
  • No criar e ampliar os espaços verdes da cidade, transformando o espaço público verde, urbano, num verdadeiro jardim, dotado de infraestruturas capazes de os transformarem em espaços de convívio e lazer comunitários, verdadeiras praças públicas, «agoras», incentivadoras da realização e partilha de atividades próprias de cada bairro, contribuindo para a construção de uma nova identidade da cidade;
  • Os centros, histórico e residenciais, e zonas verdes, devem ser palco da presença viva da história, dos costumes e tradições do território onde a cidade se insere. Uma cidade é viva quando sabe honrar o seu passado nas figuras dos seus antepassados, quer sejam pessoas ilustres, quer gente anónima que, ao longo das gerações, moldaram, deram vida, e mantiveram de pé, com o seu trabalho, as atividades necessárias para uma localidade ou cidade perdurar e persistir. É com essa história e tradições que as cidades e as comunidades encontram a sua própria identidade e, por isso mesmo, ali vão encontrar as forças e o lenitivo para a construção do futuro. Porque, sem essa memória, não se (re) constrói cidade, não se constroem comunidades. Sem essa memória, que deve estar ativa, e sempre renovada, as cidades não evidenciam personalidade própria.

 

Foi, por isso, com algum agrado, pese embora o mau tempo que esteve, que me dei conta das diferentes atividades que em Bragança estavam a ser levadas a cabo, nos respetivos equipamentos que se construíram e reconstruiram ou remodelaram para o efeito.

 

O seu centro histórico, mesmo a sua cidadela, não se encontra em agonia. Vê-se que «mexe». Mas o que mais me encantou não foi apenas o seu centro histórico bem arranjado e o dinamismo das suas instituições. Foi a nova cidade que, ao longo destes últimos anos, tem vindo a ser construída.

 

É certo que nem tudo é um mar de rosas. Contudo, aquilo que vi, agradou-me.

 

Em especial o tratamento do espaço público. Nele se pode certificar que houve suficiente sensibilidade de com ele se tecer cidade e fazer história, pondo nele a História a falar.

 

Vou, muito sucintamente, apresentar alguns exemplos consubstanciados naquilo a que lhe chamaria «arte pública urbana»:

 

1.- ROTUNDA DO LAVRADOR

 

Numa das extremidades da Avenida das Forças Armadas surge-nos uma rotunda. Nela se pode ver um conjunto de elementos escultóricos, realizados, ou inaugurados em 2001, obra da autoria de Rui Anahory, e cuja finalidade é homenagear o lavrador transmontano.

 

(Perspetiva geral)

 

(Pormenor nº 1)

 

(Pormenor nº 2)

 

2.- ROTUNDA EM HOMENAGEM À POPULAÇÃO RURAL DO CONCELHO

 

Sobre meio arco, numa rotunda, na Avenida de Zamora, pode-se observar um conjunto escultórico, da autoria de Barata Feyo, inaugurado em 2005. Há quem lhe chame também a Rotunda do Sabor, dedicada aos agricultores do concelho.

 

(Perspetiva geral)

 

(Pormenor nº 1) 

 

(Pormenor nº 2) 

 

 

3.- ROTUNDA DO CÃO DE GADO E PASTOR TRANSMONTANO

 

Trata-se de um conjunto escultórico inaugurado em 2008, numa rotunda, da autoria de Manuel Barroco, sito na Avenida Abade de Baçal, e destina-se a homenagear a raça de cão de gado transmontano e o pastor.

 

(Perspetiva geral nº 1)

 

(Perspetiva geral nº 2) 

 

(Pormenor nº 1) 

 

(Pormenor nº 2) 

 

(Pormenor nº 3)
 

 

4.- ROTUNDA DO CAÇADOR

 

Conjunto escultórico, também numa rotunda, inaugurado em 10 de Junho de 2011, por Edson Luís de Oliveira, Presidente do Município de Bragança do Pará, Brasil. O autor do projeto é Hélder de Carvalho.

  

(Perspetiva geral)

 

(Pormenor nº 1)
 
 
(Pormenor nº 2)
 
 
(Pormenor nº 3)
 

 

5.- ROTUNDA DAS CANTARIAS

 

Elemento escultórico, sito numa rotunda, inaugurado em 2000. É da autoria de António Nobre. Está situado na Avenida das Cantarias.

 

 

 

6.- HOMENAGEM AO COMÉRCIO TRADICIONAL

 

Elemento escultórico da autoria de Teixeira de Sousa. Foi inaugurado em 2004. Está situado na Praça de Camões.

 

 

 

7.- HOMENAGEM À INDÚSTRIA DA SEDA

 

Escultura da autoria de José Rodrigues, inaugurada em 2004. Está situada no Largo Lucien Guerch.


 

 

 

8.- HOMENAGEM AO AZEITE

 

Trata-se de um engenho, pertencente a uma antiga azenha. Não pude precisar a sua correta localização.

 

 

 

9.- ROTUNDA DOS CARETOS (OU DOS MASCARADOS)

 

Conjunto escultórico sito na Praça que faz confluência com a Avenida da Cidade de Leon e a das Forças Armadas. Foi inaugurado em 2009. A autoria do projeto é de Manuel Barroso.

 

(Perspetiva parcial)

 

(Pormenor nº 1)
 
 
(Pormenor nº 2)
 

 

10.- HOMENAGEM AO 25 DE ABRIL

 

Elemento escultórico sito numa rotunda da Avenida das Forças Armadas. Foi inaugurado em 2005. O seu autor é José Rodrigues.

 

 

(Perspetiva nº 1)

 

 

(Perspetiva nº 2)

 

 

11.- BUSTO DE HUMBERTO DELGADO

 

Situado no final da Avenida Humberto Delgado, foi inaugurado em 2004. É da autoria de Hélder Rodrigues.

 

 

 

12.- HOMENAGEM A PAULO QUINTELA

 

Elemento escultórico inaugurado em 2005 por ocasião do centenário do nascimento do Professor Paulo Quintela. É da autoria de Hélder de Carvalho e está instalado na Escola Básica 2,3 - Paulo Quintela.

 

 

 

13.- BUSTO DO PROFESSOR GONÇALVES RODRIGUES

 

Elemento escultórico em homenagem ao Professor Gonçalves Rodrigues. É da autoria de António Nobre. Foi inaugurado em 2001. Está situado na rotunda em frente ao Instituto Superior de Línguas e Administração.

 

 

 

 

14.- HOMENAGEM AO CÓNEGO ADELINO PAES

 

Elemento escultórico situado no Centro Social e Paroquial de Santo Condestável, junto à igreja com o mesmo nome, em homenagem ao Cónego Adelino Paes. Foi inaugurado em 2004. O projeto é da autoria de António Nobre.

 

 

 

 

15.- HOMENAGEM AO BOMBEIRO

 

Desconheço a sua localização, data de inauguração e seu autor.

 

 

 

 

16.- ESCULTURA AO URBANISMO E PLANEAMENTO

 

Elemento escultórico situado em frente do edifício da Câmara Municipal de Bragança, na Avenida Afonso V. Foi inaugurado em 1999. É da autoria de António Nobre.

 

 

 

17.- HOMENAGEM AO CARTEIRO

 

Conjunto escultórico da autoria de Hélder Carvalho, inaugurado em 25 de Abril de 2002. Fica em frente ao edifício dos CTT, no Largo dos Correios.

 

(Perspetiva geral)

 

 

(Pormenor)

  

 

18.- ELEMENTO ESCULTÓRICO NO PARQUE DO EIXO ATLÂNTICO

 

Elemento escultórico inaugurado em 2007. É da autoria de Eurico Pires. Está situado no Parque do Eixo Atlântico.

 

 

 

19.- IMAGENS REFLETIDAS

 

Elementos escultóricos sitos nos Jardim António José de Almeida. É da autoria de José Pedro Croft. Foi inaugurado em 2003.

 

 

 

 

 

19.- HOMENAGEM AO PILOTO AVIADOR POÇAS

 

Elemento escultório inaugurado em 2011. É da autoria de Hélder de Carvalho.

  

 

 

 

20.- HOMENAGEM AO CABO DE ARTILHARIA DA MARINHA - ANÍBAL JARDINO

 

Conjunto escultórico situado no Parque do Eixo Atlântico. Foi inaugurado em 2004. É da autoria de António Nobre.

 

(Perspetiva geral)

 

 

(Pormenor)

 

 

21.- ESCULTURA NA CICLOVIA DO (RIO) FERVENÇA

 

O conjunto escultórico, sito na ciclovia do Fervença, é acompanhado com os seguintes dizeres de C. G. Jacobi (1804-1851): “O fim último da ciência é a honra do espírito humano”.

 

Foi inaugurado a 24 de Junho de 2011 pelo Diretor do Instituto Gulbenkian de Ciência, António Coutinho.

 

 

 

22.- PAINEIS DE AZULEJOS

    

 1.- Painel alusivo ao 25 de Abril (Arq. Manuel Ferreira - 2000)

                     

 Está situado na Avenida Abade de Baçal.

 

 

 

2.- Painéis alusivos ao tema - Homem-Terra-Animal (António Nobre - 2004)

                    

 Estão situados na Sala de Atos do Município, Teatro Municipal.

 

(Painel nº 1)

 

 

(Painel nº 2)

 

3.- Painel alusivo ao mundo vegetal e animal (Graça Morais - 2002)

                     

Está situado na Sala de Atos do Município, Teatro Municipal.

 

 

Com certeza que outros mais elementos de arte se encontrarão espalhados pela cidade de Bragança. Não foi minha pretensão ser exaustivo ou sequer completo. Resulta de uma amostra proveniente das minhas deambulações pela cidade.

 

Essa tarefa deve ser cumprida pelo respetivo Município, pondo ao dispor dos seus munícipes e visitantes ou turistas de um opúsculo referente aos elementos de arte urbana na cidade e, porventura também, no concelho.

 

Tudo isto me serviu de contraponto e reflexão. Porque, quando olho para a cidade, banhada pelo Tâmega, em que me é dado viver, em certo sentido, e de certa forma, um sentimento de tristeza - e, porque não dizê-lo, também de culpa - me invade.

 

Temos uma cidade linda. E, como venho já repetindo amiúdas vezes, cheia de História e rica de Património. Que infelizmente ainda não o soubemos devidamente valorizar.

 

Dá-me a sensação que continuamos apenas a viver com as velhas glórias do passado, ainda por cima pouco conhecidas pelas gerações mais novas. E pouco, ou muito pouco, temos feito para tornar esta rica cidade muito mais linda. E com vida. Que não apenas aquela que os jovens vivenciam até altas horas da noite, muitas vezes de forma alienante, em bares ou discotecas.

 

Falta-nos muito mais espaço público que, ao longo destes anos, não o soubemos adquirir e embelezar. Gastaram-se rios de dinheiro em parque(s) industrial (ais) à custa do erário público para quê? Muito possivelmente, não para concitar o aparecimento de indústrias, outrossim, para, uma vez mais, tal como aconteceu com uma das maiores reservas agrícolas nacionais, como a nossa Veiga, promover-se a especulação imobiliária, à custa dos nossos impostos.

 

Pese embora termos, durante doze anos, como um dos responsáveis cimeiros na vereação camarária, um arquiteto paisagista!...

 

Esperemos que nesta nova fase de exercício do poder, e com outras responsabilidades, não se esqueça do que aprendeu nos bancos da Universidade. E que seja capaz de propiciar o aparecimento de verdadeiros espaços verdes noutros locais que não só os que estão adjacentes ao Tâmega, que devem ser embelezados. E, com a ativa participação dos flavienses, que sejam capazes de contar as nossas histórias ou de nos relembrar a nossa História. História e histórias de muitos flavienses, ilustres e desconhecidos. Todos aqueles que ao longo do tempo fizeram o que nós somos. Contando, e porque não, e principalmente, com a nossa diáspora. Filhas e filhos que saíram deste berço mas que nunca enjeitaram o terrunho.

 

Espaços que sejam utilizados para convívio e partilha. Fazendo deles palcos de outras histórias. Para que possam contar História. Para que não surjam jamais histórias tristes como aquelas que estão ligadas ao novo Jardim das Freiras e ao novo Jardim Público.

 

Necessitamos de um novo «caldo». De recordar e reviver histórias que andam nesta e naquela boca. Em muitas bocas. Mas que precisam de ser apropriadas por todos os flavienses. Integrando, e atualizando, o seu reportório. Porque, uma vez saídas da memória, ajudar-nos-ão a cimentar mais forte o nosso sentido de pertença a este lugar, a esta cidade, aprofundando, assim, a nossa própria identidade.

 

Sem este exercício, que os espaços públicos propiciam, lentamente vamos perdendo a consciência da terra que fomos e somos. Da cidade que queremos ser.

 

Sem aprofundamento do que nós somos, pela revisitação ao passado, jamais saberemos construir um futuro que a todos nos orgulhe!

 

Seria injusto se não reconhecesse que, ao longo destes anos todos, não se fizeram coisas. Contudo, sem uma estratégia definida. Sem uma ideia ou desígnio explicito mobilizador. Que nos apele e convoque para a construção de um outro futuro.

 

Muitas vezes fico com a sensação que os flavienses, tal como aconteceu com a nobreza do passado, pararam, ficaram-se na contemplação dos seus feitos e das suas velhas glórias, proferindo discursos inflamados sobre a sua gesta, esquecendo-se dos trabalhos da construção do dia-a-dia.

 

E, quando, acordarmos, vamo-nos dar conta que, afinal, somos «reis» ...contudo, sem coroa!...

 

(Nadir Afonso - A cidade longuinqua)

 


publicado por andanhos às 22:10
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