Domingo, 21 de Fevereiro de 2016

Reino Maravilhoso - Ruínas de uma antiga adega à espera que lhe deitem a mão

 

 

REINO MARAVILHOSO - ALTO TÂMEGA E BARROSO


RUÍNAS DE UMA ANTIGA ADEGA EM BÓBEDA À ESPERA QUE LHE DEITEM A MÃO
(Concelho de Chaves)

 

Em maio de 2002, no âmbito de um doutoramento em Geografia (Programa «Análise Territorial e Organização do Espaço»), pela Universidade de Santiago de Compostela, elaborámos um trabalho subordinado ao tema «Chaves - O dilema do desenvolvimento concelhio».

 

Na problemática ao tema e no seu enquadramento teórico, a certa altura, afirmávamos que “as regiões mais desfavorecidas [como a nossa] não possuem as pré-condições necessárias – uma densidade institucional que, articulada numa coesão interna e numa relação com o exterior, construa um processo de desenvolvimento baseado em quatro fatores chave - inovação; aprendizagem; redes e governância - o que as remete para um círculo vicioso de pobreza e desfasamento”.

 

Mais à frente, rematávamos ser “nossa convicção que nunca como na atualidade a competitividade territorial, e a do país em que vivemos, esteve tão ancorada na capacidade de intervenção das instituições de base territorial, públicas e privadas. A mobilização de todo o potencial de parcerias locais em ordem a obter sinergias que revertam na criação de fatores de competitividade é hoje um dos domínios privilegiados de convergência do interesse local com o interesse nacional”. E concluíamos com as palavras de Cerqueira Lopes quando desafiava: «Assim haja capacidade, por parte dos investigadores comprometidos com o desenvolvimento e por parte dos policy makers, para perspetivar estrategicamente os rumos específicos a trilhar pelo desenvolvimento regional/local»”.

 

Desenvolvimento que jamais poderá esquecer, numa criteriosa análise territorial, todos os seus recursos, quer materiais, quer de natureza imaterial, como sejam, nomeadamente, a memória daquilo que somos e fomos, as bases em que assentaram, no passado, o desenvolvimento de uma região ou de um território local em concreto.

 

Na análise territorial que fazíamos, ao abordarmos o setor agropecuário e florestal, a final, dizíamos: “Este sector tem vindo a perder importância como fonte de rendimento e local de crescimento de emprego, com reflexos negativos no consumo, prejudicando, por esta via, o consequente subsector comercial, não fomentando o aparecimento de serviços, ou seja, o sector agrícola já não faz crescer a economia da cidade.

Esta retração da atividade agrícola tem fomentado a saída de pessoas para o exterior, o que, de forma evidente, prejudica o aparecimento de novas estratégias de desenvolvimento do sector, já que são os mais novos que saem e, por outro lado, a cidade não possui alternativa em termos de oferta de emprego para absorver esta população.

Quanto mais o sector se retrai mais difícil é a instalação de empresas e particulares que prestem serviços de qualidade aos rurais.

Nestes termos, a agricultura no concelho não deixa de evidenciar sintomas de atraso.

Isto revela-se quando se consideram os rendimentos, o enquadramento tecnológico, a organização dos circuitos de escoamento dos produtos, e mesmo o grau de instrução da população agrícola.”.

 

A nossa região está assente, fundamentalmente, em termos do setor agropecuário e florestal, no minifúndio. Neste pressuposto, prosseguíamos:

“(...) Como resolver o problema do minifúndio? É nossa opinião que, derivando dessas mesmas explorações parte considerável da produção agrícola concelhia, temos de encarar com realismo a sua existência (que não mostra tendência para se atenuar), em vez de insistirmos em modelos de valorização e modernização que impliquem necessariamente o alargamento, mais ou menos considerável, das suas áreas.”.

 

E interrogávamo-nos:

“Qual o futuro para este sector do Concelho face a uma nova política europeia (e mesmo mundial) baseada num modelo de redução dos custos unitários por forma a se poder competir nos mercados mundiais? A produção em regime extensivo por forma a obter menos custos de exploração? A criação de serviços agrícolas à atividade agrícola, flexíveis, segundo um modelo de especialização no qual se concebe o agricultor – gestor, um administrador de compras e vendas?

Pensamos que este modelo não se ajusta à nossa realidade. O minifúndio do Concelho, ao se apresentar no mercado fundiário muito distorcido em relação ao modelo que a União Europeia pretende seguir, por apego grande à terra, resultante de valores culturais ancestrais e de uma certa hierarquia social reinante, levando a que o valor do solo não represente o efetivo valor da sua capacidade produtiva, ele tem em si mesmo, no contexto do Concelho, tendo em conta a sua envolvente, um valor que vai para além do fundiário. Há que o aproveitar para outras atividades, diferentes das tradicionais, mas que podem igualmente, com base nessa matriz, possuir outras tantas virtualidades ou potencialidades de rendimento.

E mesmo o sector fundiário em si mesmo pode ter saídas. Para além do aumento geral da qualidade de vida da população em geral que se tem vindo a verificar, urge capacitar cultural e tecnicamente o homem e mulher que vive no rural. Da sua melhor capacitação e abertura encontrará com os demais formas cooperativas e/ou associativas de fazerem valer render o seu tão acarinhado “torrão”. Os produtos e recursos que nos caracterizaram ao longo da nossa história milenar como flavienses eles ainda aí estão.”.


Apesar das nossas esperanças, catorze anos se passaram e, em Chaves, e no seu concelho, praticamente nada se modificou. Pelo contrário, tudo piorou! Debalde diagnósticos e planos das mais diferentes espécies e proveniências...

 

E não podemos lançar culpas a seja quem for. Há uma máxima que, há perto de três décadas que vimos enfatizando, quer em reuniões, quer em simpósios, quer em colóquios, quer em congressos sobre a problemática da animação e do desenvolvimento: «ninguém desenvolve ninguém a não ser nós próprios!».

 

Nós, flavienses, obviamente uns mais responsáveis que outros - mas todos, em geral -, não fomos, não somos capaz de virar a página do profundo atraso a que nos remeteram!

 

Porque o que nos penaliza, e a nós nos entristece, não é só o não termos a capacidade de dar a volta a tudo isto, é o estarmos, pacificamente, confortados com esta nossa sorte, enquanto terrenos agrícolas, pastagens, florestas e património agrícola imobiliário fica ao abandono, entregue à sorte da natureza selvagem e à ruina, não cuidando de lhes dar, eficazmente, uma nova valia, uma outra utilidade!

 

E mete-nos pena o que vamos encontrando por este nosso concelho fora.

 

Vamos apresentar ao leitor(a) um comezinho exemplo, entre muitos. Falamos deste por nos estar muito perto da nossa área de residência.

 

Durante décadas, uma parte significativa da área agrícola da zona sul do nosso concelho, tinha aptidões e foi utilizada para o granjeio da vinha. A vinha é uma cultura exigente. Requer o uso de uma mão-de-obra muito intensiva. O processo migratório das nossas populações levou ao abandono de grande parte da nossa mão-de-obra agrícola para outras paragens à procura de melhor qualidade de vida. Necessário se tornava reconverter essas áreas para outras culturas que propiciassem mais rentabilidade, pois a vinha, nos moldes em que estava a ser explorada, não dava.

 

Para estes terrenos, a solução foi o pomar. Este que agora se mostra, veio substituir a cultura da vinha, fazendo desaparecer a videira.

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É, porventura, o maior pomar do concelho de Chaves.

 

Contudo, no seu terreno, ficou uma estrutura que serviu de suporte à produção de vinho.

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A propriedade onde esta estrutura se insere pertenceu a uma família de «pergaminhos» e que, noutros tempos, era muito influente no nosso meio local. As voltas da vida ditaram que fossem parar às mãos de um emigrante natural da nossa Montanha que, na diáspora, mourejou quanto baste para arrecadar um cobres e comprar esta propriedade que, com a sua esposa e familiares, dela cuidam tirando proventos para o sustento familiar.

 

No último dia do ano transato, dirigi-me a casa do senhor Fernando Pires para, pela segunda vez, ir visitar a «adega».

03.- AZS_8500.jpg

O senhor Fernando, seu proprietário, amavelmente, acompanhou-nos.

 

Eis a entrada para o primeiro corpo da adega, provavelmente o lugar da carregação do vinho, acondicionado nos diferentes tonéis.

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Aberta a porta, e assomando à adega propriamente dita, veja-se este estado de desolação! Mas, ao mesmo tempo, a beleza do que seria este espaço, noutros tempos.

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Hoje está sem telhado, ruído pelos sucessivos temporais e pelas enormes árvores que à volta a «guardavam».

 

Ao fundo, as paredes do terceiro corpo da adega, onde se situa ainda a dorna em granito que distribuía o vinho, vindos dos lagares, pela bem trabalhada canalização em granito, para os diferentes tonéis.

 

Dos tonéis apenas restam alguns aros e ruínas de um ou dois.

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Bem assim as escadas carcomidas de acesso à canalização de distribuição.

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Enquanto conversavamos com o senhor Fernando Pires, vimos no seu rosto, por um lado, pena; por outro, resignação. Pena, porque não gostaria de ter este património que comprou neste estado deplorável; resignação, porque para reconstruir este património para outra valia, conservando a sua matriz, leva muito investimento e a produção da maçã não lhe dá dinheiro suficiente que lhe permita esta recuperação e um retorno minimamente razoável sem que fique «empenhado».

 

Saímos deste lugar de desolação, mas simultaneamente fascinante, e dirigimo-nos à zona dos lagares, na parte mais alta da adega.

 

É o que o(s) leitores(as) podem ver!

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Palavras para quê?...

 

Despedimo-nos do senhor Fernando, sua esposa e família desejando-lhe um Bom Ano Novo.

 

E vimos a «recocar» para connosco: será que a gente do concelho ligada ao património e ao desenvolvimento não têm conhecimento disto?

 

Já, porventura, foram ver esta bela peça do nosso património imobiliário concelhio agrícola?

 

Não lhe reconhecem real valia e, mais do que isso, potencial?

 

O Município de Chaves tem um Plano de Desenvolvimento Estratégico. Porventura esta reconstrução não entra como valia nas suas «contas»?

 

Já que a sensibilidade dos decisores políticos flavienses não dá para tanto, pergunta-se: afinal de contas, o que fazem as entidades do Conselho Estratégico, (os «crânios», ditos não políticos (partidários) da região, e que dão «conselhos») constante do Modelo de Gestão e Organização da «Estratégia Integrada de Desenvolvimento Territorial do Alto Tâmega»? Conhecem esta estrutura? Não «descobrem» fundos, em diálogo com o seu proprietário, capaz de o ajudar a recuperar este imóvel e encontrar-lhe outra valia, posta ao serviço do desenvolvimento, quer pessoal, do seu proprietário, quer da comunidade? Não «entra» em nenhum eixo, objetivo ou medida estratégica daquele documento de estratégia integrada de desenvolvimento?

 

Nomeadamente, não há nenhum fundo do PRODER ou do Leader que lhe deite mão, como a ADRAT, entre outros, fez em Boticas, na Granja, a um edifício que passou por várias «mãos», que também pertence a um particular, cujo nome não vem aqui ao caso, e que, segundo o que a placa colocada na obra reza, que ainda ontem vimos, se destina a um pomposo «Núcleo Museológico Cisterciense»?

 

Aqui deixamos aos(as) leitores(as), no «reino» das maças no concelho,

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esta bonita arquitetura de um passado agrícola próspero, em ruínas, prestes a se transformar em pó e cinza. E que agora é apenas frequentado, e é «pasto»,

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nesta época do ano, simplesmente de ovelhas!...

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publicado por andanhos às 12:21
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