Domingo, 16 de Outubro de 2016

Reino Maravilhoso - Do medo da insignificância à vivência de coisas simples

 

 

REINO MARAVILHOSO

 

DO MEDO DA INSIGNIFICANCIA À VIVÊNCIA DE COISAS SIMPLES

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Integra-se na horda dos novos emigrantes.

 

De formação técnica superior. Requisitado pelas empresas mais conceituadas de Consultadoria e Energia, Portugal apresenta-se demasiado pequeno para as suas ambições pessoais e profissionais.

 

Habituado desde tenra adolescência a viajar pelo Mundo, tornou-se curioso e insaciável no contacto com outras gentes e outras culturas.

 

Possui uma rede de amigos, quase se diria, por todos os quatro cantos do Planeta. Continua fiel aos que lhe vêm desde a infância e dos bancos das diversas escolas por que passou.

 

Vê os amigos, quase todos, a casarem-se, saindo da sua terra natal e, tal facto, deixa-o pensativo, porventura saudoso. De vez em quando, apelando à realidade, pronuncia - é a vida.

 

Rodeado de mulheres, que o adoram, e o acham um «querido», com mais de trinta anos, não se apegou a nenhuma delas. O amor crepuscular, lunar, que, em noites de lua nova cálidas, lhe apareceu pelas terras de Vera Cruz, enquanto desempenhava uma comissão de serviço, pô-lo a refletir seriamente quanto à sua condição de solteiro.

 

Virado que hoje está a Sul, e com um MBA numa das escolas que ocupa o nº 1 do «ranking» das escolas europeias do género, o seu horizonte de vida não é o Sul, nem o Norte - são todos os pontos cardeais, onde, o homo globalis que é, na impressiva expressão de Carlo Strenger, deixa-se, com algumas tensões interiores, e numa instabilidade permanente da sua autoestima e do sentimento de ter uma vida com significado, transformar-se em mercadoria. Não é simplesmente proprietário de um portefólio, tornou-se no próprio portefólio, deixando-se comercializar pelo sistema mundo.

 

Quem o vê sente-o muito seguro de si, um verdadeiro cosmopolita, desempoeirado. Todavia, quem o conhece, sabe que vive em permanente inquietação existencial.

 

Acredita, não sem algumas hesitações, e quiçá dúvidas, que é o capitalismo que melhor capta a essência daquilo que significa uma vida humana plena de sentido, pese embora o colapso dos mercados financeiros tenha mostrado aos mais recalcitrantes que um determinado período histórico - a Era do Bezerro de Ouro - chegou ao fim.

 

Português de gema, e Transmontano até à medula, a sabedoria milenar que tem entranhada dos seus antanhos, qual ADN, ou voz interior, que irrompe do seu ser, duvida do tipo de sociedade que está contribuindo para a sua consolidação. Porque a história e o humanismo, que, por educação, lhe está impregnada, «fala-lhe» que não seja seguro que uma governação que tudo transforma em bens transacionáveis - que não apenas a economia, em flagrante ruína - e que se abateu sobre as vidas e os meios de subsistência de muitos milhares de pessoas, tendo sido uma experiência humana terrível, levou-o a pensar que o dogma em que tanto se acredita - o apenas aferir e medir as pessoas em termos económicos - torna-se insensato e não leva a sociedade do homo globalis a bom porto.

 

E interroga-se constantemente se o seu dogma neoliberal não prejudica fortemente a ideia central de uma sociedade aberta que prospera mediante o pensamento, crítico e empenhado, e que nos foi legado pelo persistente Iluminismo Europeu. Ou seja, embora ele não o diga declaradamente, estamos convictos que, intimamente, pensa que o drama do desenvolvimento humano está na mercadoria em que o Homem se transformou, fazendo dela o cerne da vida humana.

 

O nome do nosso personagem é Pedro Liberal.

 

Mas, seu nome é um equívoco, uma contradição. De dureza (pedra), tem pouco, porquanto, no trato, no seu dia-a-dia, derrete-se como manteiga - e apenas exibe uma carapaça -; de liberal, interiormente, vive na esfera da incerteza e da constante intranquilidade quanto ao rumo que o Mundo, o seu mundo, leva.

 

É nas visitas que, trimestralmente faz à família, levando 10 horas a atravessar o Atlântico - e que cumpre religiosamente -; nas conversas soltas e descontraídas, entre familiares e amigos; no constante viajar pelo seu terrunho natal e ibérico que vem, ao de cima, o seu verdadeiro caráter de português saudoso e de transmontano à procura da sua cova ou cabana para passar os seus dias, no Reino Maravilhoso, de que nos fala Miguel Torga.

 

No fundo, esta nova vaga de novos emigrantes, na sua essência, são iguais.

 

Desta vez, a pretexto de mostrar um novo investimento/empreendimento de uma empresa, a laborar em energias, ditas limpas, mas objeto de críticas quanto ao impacto ambiental - embora bem informado e bem sabedor dos prós e dos contras - pegou no seu velho e foi dar uma volta pelo país que mais gosta e admira, deixando escapar o seu gosto e vontade em viver por estas paragens, de amplas e abertas paisagens, genuinamente ibéricas, portuguesas.

 

Foi, assim, nesta aventura viageira, passando pelo Vale da Vilariça - com a Quinta da Terrincha em plena expansão no setor do Turismo - que,

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Pedro Liberal, bem conhecedor do terreno, por andar nestas bandas, como técnico, em obras de reforço de centrais elétricas e construção de barragens, leva, por uma estrada de montanha, de bom piso,

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seu velho a ver as «proezas» da empresa gerida por um senhor que se sabe mexer nos meandros do mundo das energias.

 

Numa curva acentuada da estrada, faz uma paragem. E, o que se vê é a primeira aproximação ao Empreendimento Hidroelétrico do Sabor com as suas pontes e uma das albufeiras, a de jusante

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O entorno é tipicamente de Terra Quente.

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Do lugar onde estavam, e numa olhada para a linha do horizonte, vislumbra-se o rio Sabor, abraçando as águas do seu Douro.

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De repente, vem à lembrança do seu velhote a imagem que reteve daquele local quando, em 2012, percorreu a pé, as «travessas» da extinta Linha do Sabor, desde o Pocinho até Duas Igrejas (Miranda),

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ficando-lhe, na retina, a grandiosidade da Quinta do Vale Meão, obra primacial de uma grande Senhora, proprietária do Douro, D. Antónia Adelaide Ferreira - a Ferreirinha.

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Pedro Liberal chamava a atenção do seu velhote para a espetacular panorâmica que, daquele lugar, se desprende para o Vale da Vilariça.

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Continuando a viagem, sempre subindo, a outra albufeira, a montante, do Sabor, a segunda maior do país, a seguir a Alqueva, apresenta-se-lhes em toda a sua amplidão.

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(Perspetiva I)

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(Perspetiva II)

Enquanto desciam para o paredão da barragem e a central do aproveitamento hidroelétrico, Pedro Liberal ia dando pormenores gerais e técnicos ao seu velhote sobre a construção desta barragem: a sua história inicial; as obras; os custos; os enredos; as indemnizações; as contrapartidas às populações e, por via do impacto ambiental, as preocupações com o ambiente; o enquadramento do empreendimento na paisagem; a sensibilidade de encarar as obras a construir como de verdadeiras obras de arte se tratassem, ao ponto de se encomendar o projeto da central ao arquiteto portuense, com reputação a nível internacional, Siza Vieira, não estivessem inseridas numa paisagem, considerada pela UNESCO, com Património da Humanidade!

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Devidamente explicada e contemplada a Obra, seguiu-se viagem, passando-se pelo Douro Superior do Alto Douro Vinhateiro, nomeadamente pelas vilas de Torre de Moncorvo e Vila Nova de Foz Coa, em direção a S. João da Pesqueira.

 

Neste percurso, seu velhote, achando-o deveras curioso pelo País Vinhateiro, resolve fazer-lhe uma surpresa - levá-lo até ao vale mais fundo do Douro - O Vesúvio.

 

A estrada parecia levá-los até ao fim do mundo! Só escarpas, curvas e contracurvas. E uma amendoeira, encaixada no xisto, saudando-os.

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Até que, numa curva, com quase 360º, pararam.

 

Enquanto aqui estiveram parados, não resistiram, cada um deles, a admirar e fotografar o vinhedo da enorme quinta que se lhes apresentava aos seus olhos.

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Ao fundo, via-se o rebelde Douro, amansado. Na margem esquerda, a Senhora da Ribeira;

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na margem direita, o Apeadeiro do Vesúvio, em hora de passagem do comboio.

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Desceram,

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e, de costas voltadas para o Apeadeiro, eis, a seus pés, o célebre covão, a enorme cratera que é a Quinta do Vesúvio,

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com a Vinha do Pombal, no alto.

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Passaram, a pé, por debaixo de um viaduto da Linha de Caminho-de-ferro do Douro e, de imediato, estavam já no logradouro do Palacete do Vesúvio.

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Entrados no seu  recinto,

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foram dar uma vista de olhos aos exterior da Casa.

 

Deram-lhe uma mirada por todos os ângulos ou alçados, exceto o posterior, quase colado à enorme barreira,

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(Perspetiva I)

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(Perspetiva II)

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(Perspetiva III)

não descurando a capela, dependência sempre presente nestas casas.

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Estava-se em plena época das vindimas.

 

Enquanto Pedro Liberal, que se tornou um exímio apreciador de vinhos, nos lagares da quinta, pertença agora da família inglesa Symington, dava dois dedos de conversa com o enólogo, ocupado no controlo da fermentação dos vinhos, seu velhote dirigiu-se para a casa dos empregados, em final de dia da azáfama da vindima.

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Com o por do sol a aproximar-se sobre o vetusto e célebre Palacete do Vesúvio,

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Pedro Liberal ouvia, encostado à parede, nas proximidades desta bouganvillea,

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da boca do seu velhote, um pouco da história do Douro, da Casa que observavam em frente, da sua primeira proprietária - a Senhora - como Agustina Bessa-Luís lhe chama no romance Vale Abraão que o realizador cinematográfico, seu amigo, Manoel de Oliveira, lhe pediu que escrevesse com o fim de o passar para a tela, com a designação homónima.

 

Pedro Liberal, jovem insaciável pelas coisas da História, em especial da(s) história(s) do nosso Reino Maravilhoso, mostrou-se deveras interessado na história da grande figura do Douro, do século XIX - D. Antónia Adelaide Ferreira, a Ferreirinha.

 

Seu velhote recomendou-lhe uma série televisiva que, há poucos anos, a RTP 1 lançou com a designação A Ferreirinha; o filme Vale Abraão, de Manoel de Oliveira; não se esquecendo de ler a história da Bovarinha portuguesa, de Agustina Bessa-Luís, para além de outras publicações.

 

Caindo o sol sobre o rio D’Ouro,

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eram horas de regressar a norte, às terras do romançoso rio Tâmega, afluente da margem direita do Douro, a veia cava transmontana, na feliz expressão do nosso escritor maior, Torga.

 

Do alto da grande cova do Vesúvio, Pedro Liberal não deixou de captar estas duas derradeiras paisagens,

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(Paisagem I)

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(Paisagem II)


de um Douro que, cada vez mais, o «prende» e fascina!

 

Afinal de contas, o medo constante da insignificância que, na grande metrópole paulista, todos os dias o assalta, aqui, em terras do Reino Maravilhoso, no contacto com este «humus» e no conhecimento da sua história, sua vida parece-lhe diferente, toda ela plena de verdadeiro e autêntico sentido, no contacto com as coisas simples.

 

 

nona


publicado por andanhos às 11:35
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