Terça-feira, 20 de Dezembro de 2016

Reino Maravilhoso - Alto Tâmega e Barroso - Meixide/Crónica à volta do nosso mundo rural

 

 

REINO MARAVILHOSO - ALTO TÂMEGA E BARROSO

 

MEIXIDE

 

PEQUENA CRÓNICA À VOLTA DO NOSSO MUNDO RURAL


Nem sempre nossa vida se propicia para sairmos no fim-de-semana até às terras do Barroso com o proprietário do blogue CHAVES e autor da rubrica «O Barroso aqui tão perto».

 

No passado dia 10 (sexta-feira), acompanhamo-lo para darmos mais uma volta pelas aldeias do seu itinerário pré-estabelecido.

 

Pretende fazer a reportagem de todas as aldeias do Barroso, começando pelo concelho de Montalegre. E, lentamente, nos vamos apercebendo dos aspetos que nosso companheiro mais pretende captar.

 

Se, porventura, algumas histórias de vida podem vir à baila, o que, essencialmente, julgamos, está na sua intenção é o dar-nos a conhecer os aspetos particulares e específicos de cada uma das aldeias que compõem o Barroso, em especial o da já sua velha e arruinada arquitetura tradicional e popular.

 

Conhecer a alma barrosã, em toda a sua pureza, para além de cada vez mais se tornar mais difícil, por falta de gente para a assimilar, exige, por outro lado, muito mais tempo de paragem, verdadeiro convívio, ou seja, mais disponibilidade e uma planificação mais apurada. Que não se compadece com aparecimentos inesperados, aqui e ali, sem que alguém saiba ou dê conta da nossa presença.

 

Mas, em função do ritmo e da vida apressada que a sociedade de hoje em dia nos impõe, cada um faz o que pode, com o seu melhor saber. E muitos fazem certos trabalhos, porque não dizê-lo, com verdadeiro amor e carinho por estas gentes e estas terras.

 

Por isso, nosso desiderato, nesta espécie de crónica, não é competir com o nosso companheiro de muitas jornadas, fazendo reportagem das aldeias por onde passamos: umas vezes, pretendemos, tão somente, enfatizar uma ou outra imagem que mais nos ficou na retina; outras, pretendemos refletir um pouco sobre aquilo que vimos.

 

Neste post, pretendemos, embora ao de leve, refletir um pouco sobre os nossos territórios do interior, que estão na periferia das periferias. O ensejo foi-nos proporcionado por uma boa meia hora que estivemos parados no Largo do Cruzeiro da aldeia de Meixide. Ou seja, Meixide apenas aqui serve de mote, de uma espécie de sobressalto, para as nossas reflexões e interrogações.

 

Não seriam ainda 11 horas da manhã, de um dia de outono, que, lentamente, se foi apresentando soalheiro, quando entrámos no dito Largo do Cruzeiro, completamente deserto.

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Inopinadamente, aparece-nos, de um dos lados do Largo, estas duas senhoras: uma, com a burra, dando-lhe de beber no tanque público da aldeia; outra, derreada pelos anos, possivelmente nada fáceis da vida, arrastando-se com uma bengala na mão, enquanto, na outra, trazia um saco plástico,

02.- NOC8579.jpg

dirigindo-se, de imediato, depois de uma breve troca de conversa com a sua vizinha, para o banco de pedra encostado ao forno do povo - forno este que, pelos vistos, há muito tempo se encontra inativo -, enquanto o sol a ia embalando em ligeira sonolência.

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Do outro lado do Largo, uma outra senhora, vinda talvez do campo, esperava, acompanhada do seu fiel amigo,

04.- NOC8625.jpg

enquanto ia respondendo a uma ou outra pergunta que lhe íamos fazendo.

 

De um momento para o outro, entrando na aldeia, «claxonando» com grande alarido, dá entrada na povoação o vendedor ambulante de víveres.

 

Junta-se às personagens, já apresentadas, mais estas duas,

05.- NOC8670.jpg

que aproveitam para por em dia o relatório do que se passava na aldeia. Pouca coisa, no final de contas, pois, nada mais se viu se não estas cinco criaturas que, compras aviadas, depressa regressam aos seus «cortiços».

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De um momento para o outro, de uma das esquinas de uma rua, aparece o pastor.

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Depois de se ter dirigido a dois currais, lá leva as «suas crias» para o pasto.

08.- NOC8622.jpg

Uma aldeia vazia de gente. Em que predomina o preto das «maiores» viúvas. Sem o sorriso ou traquinice de uma criança. Apenas o espanto e o aconchego da mãe cabrita para com a sua cria ternurenta!

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Enquanto nosso companheiro se entretinha na tarefa de completar a sua reportagem sobre o casario da aldeia, dirigimo-nos a uma das «portas» da aldeia.

09a.- NOC8675.jpg

Um canto aprazível de velhas árvores autóctones, brilhando o sol por entre a sua, já pouca, folhagem.

10.- NOC8678

E aqui, neste solarengo canto,

11.- NOC8681

congeminávamos quanto ao futuro destas terras, outrora possivelmente ainda mais pobres, mas pululando de gente, de vida.

 

Vida pobre e, muitas vezes, triste, que os levou à aventura de outras paragens, à procura de melhor vida, enquanto os mais velhos e os menos aventureiros por aqui ficavam.

 

Houve um período em que as saudades da terra e o amor ao terrunho os levou a comprar terras e aqui fazerem o seu «ninho», mais confortável e mais condizente com os novos usos e costumes das terras que os acolheram e que lhes deram mais dignidade de vida.

 

Hoje tudo é diferente!

 

As gerações mais novas perderam as raízes, embaladas nos hábitos de uma sociedade construída quase exclusivamente sobre o modo de vida urbana das médias e grandes cidades.

 

E o nosso mundo rural entrou em crise. Crise que, bem podemos dizer, profunda, porventura irreversível e irreparável, perdendo-se a própria identidade na «neblina dos tempos» que passam!

 

Entretanto, todos os nossos decisores políticos, com obrigações de atenderem às projeções da demografia e aos dados da sociologia, se esqueceram de implementar novas e criativas políticas de desenvolvimento para estes territórios em grave queda. Ou porque não lhes davam votos ou, por incúria, e tal como a avestruz, meteram, (e metemos todos), a cabeça debaixo da areia, enquanto, pura e simplesmente, deixávamos passar o tempo.

 

Pouco ou nada fizemos, a não ser de cuidar e implementar, ao improviso, políticas sociais de emergência para o remanescente das gentes que aqui, a todo o custo, teimavam em ficar!

 

E, durante estas últimas dezenas de anos, lenta e inexoravelmente, tudo se foi deteriorando, não se cuidando de implementar políticas pró-ativas para a dinamização destes territórios, hoje tão deprimidos e, muito provavelmente, irremediavelmente, perdidos!

 

O pano de situação do desenvolvimento do território português pode-se resumir simplesmente nisto: temos uma área urbana e urbanizável, em função dos Planos Diretores Municipais que temos em vigor, para mais de 40 milhões de pessoas, quando é sabido que, todos os anos, para além de uma população demasiado envelhecida, que nos vai «deixando», temos, por outro lado, cada vez menos gente a nascer e cada vez mais novos emigrantes que, mercê do esforço que o país faz para os educar, daqui saem para desenvolverem outros países! E cada vez ficamos mais pobres!

 

Áreas urbanas e urbanizáveis, umas, à franca especulação imobiliária; outras, acarretando com cada vez mais encargos, quer na implementação de novas infra estruturas, quer na sua manutenção.

 

Entretanto, os nossos núcleos urbanos tradicionais ficam ao abandono. Deteriorados, por um lado, por falta de gente para deles cuidar; por outro, sem qualquer esperança, porque somos incapazes de ter uma política outra de desenvolvimento que os leve à sua conservação, reabilitação e revitalização.

 

Os aglomerados típicos em «cacho», concentrados, estão em ruínas, em vias de extinção. Em puro contrassenso com a nossa típica arquitetura tradicional e popular, deparamos com o crescimento dos nossos aglomerados em «serpente», ao longo das estradas e das vias de acesso às localidades, ao arrepio da nossa tradição comunitária, com casas isoladas, fechadas praticamente em toda a época do ano, porque nem estes novos «ninhos», feitos com tanto trabalho e carinho de outrora, são incentivo à permanente fixação dos seus proprietários!

 

Foi sentados num muro de pedra, sob a proteção de um velho castanheiro, e com o bafo dum bonito sol outonal, que interiormente divagávamos sobre esta triste e dura realidade. Enquanto isso, nosso companheiro de jornada, lá ia registando algumas histórias, poucas, que foi ouvindo, e contruindo o seu arquivo de imagens de um acervo arquitetónico tradicional e popular que lhe dá pena ver tão mal maltratado!

 

E nós, à saída deste recanto aprazível, dávamo-nos connosco a interrogar: que futuro para estes territórios, quando estes poucos, mas bravos resistentes, nos deixarem. Que vamos fazer da matriz básica, do «berço» donde Portugal nasceu? Temos algumas respostas? Cuidamos de as encontrar?

 

É necessário, é urgente que saiamos desta posição, tão nossa característica, de deixarmos as coisas e as decisões para a última, sempre com o pensamento do «depois logo se vê», da pura improvisação, não compaginável com os tempos que correm, e começarmos, seriamente, a pensar o futuro de um Portugal uno, de norte a sul, do litoral ao interior, com uma visão verdadeiramente solidária. Caso contrário, daqui por algumas gerações - poucas - a assim continuarmos, vilas e cidades tão importantes na nossa História, e que construíram, deixarão de constar do Mapa de Portugal.

 

Para se saber da sua existência, só procurando em velhos arquivos da... História!


publicado por andanhos às 18:29
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