Quarta-feira, 20 de Maio de 2015

Por terras e aldeias de Portugal - Rumo à aldeia da Pena

 

 

RUMO À ALDEIA DA PENA

 

O Município de São Pedro do Sul, com o seu Complexo Termal, considera-se a capital do termalismo em Portugal.

 

Esta cidade beirã, que se situa em pleno vale de Lafões, é emoldurada pelos maciços das serras da Arada, Gralheira e S. Macário.

 

No sítio da Câmara Municipal de S. Pedro do Sul, a certa altura, afirma-se: “nas cercanias a vida corre ao sabor da calmaria do tempo e num espaço que chega para que todos vivam em harmonia com a natureza e é cesta que se extrai o xisto para construir as casas típicas, das típicas aldeias da Pena, do Fujaco, de Covas do Monte ou Covas do Rio. Aldeias abençoadas pelas centenárias capelas de São Macário de Cima e a eremita de São Macário de Baixo. Todo este maciço montanhoso do «Monte Magaia» vive envolto em tradições, rituais, mitos, lendas, crenças de cabras que matam lobos, de serpentes que comem homens e de Santos que transportam brasas nas mãos, cujas memórias não se apagam no correr dos nossos tempos”.

 

Por hoje apenas vamos mostrar aos nossos(as) leitores(as) o que vimos quando, saindo do Mosteiro de São Cristóvão de Lafões, percorremos o CM 1123 até à aldeia da Pena.

 

Numa das suas inúmeras curvas, num piso em adiantado estado de degradação, eis que nos aparece este bonito quadro da serra.

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (208)

Parámos para o contemplar.

 

Numa outra curva, mais larga, com lugares em terra batida para estacionar as viaturas, mais um quadro da serra, em primeiro plano, e as terras de Lafões em redor.

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (219)

Um pouco mais acima, à nossa esquerda, aparece-nos a serra da Arada, com a sua célebre «garra» toda ela em tons primaveris, vendo-se ainda parte da estrada que leva ao Portal do Inferno.

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (226)

Ultrapassado o cruzamento da estrada do Portal do Inferno, a serra continua vestindo-se de cores, qual rua de vila ou cidade minhota em domingo de Ascensão.

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (239)

Até que, ultrapassado o parque eólico, e já nas proximidades do cruzamento que nos levará, em íngreme e sinuosa descida, à aldeia da Pena, este espetáculo!

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (242)

Percorrendo, com cuidado, a sinuosa e íngreme estrada, onde só aqui e ali se cruzam dois carros, continuámos a ver ao fundo a aldeia e a mãe-natureza a oferecer-nos estes lindos «bouquets» de flores de carqueja e urze.

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (244)

E a nossa descida cautelosa, e ziguezagueante, continua. Os tufos de flores do monte em constante oferta; as fragas protetoras e possantes dizendo o porquê da sua serventia; a pequena veiga, imprescindível para o sustento das suas já poucas gentes; a aldeia, cada vez mais se aproximando; a estrada do Portal do Inferno, por cima da aldeia, quase tocando as nuvens.

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (257)

Por fim, estamos chegando à Pena,

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (258)

com o seu casario típico, encostado ao monte,

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (267)

numa convivência pacífica e harmoniosa com as suas fragas protetoras.

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (276)

Manuel Nunes, quando escreve sobre a aldeia da Pena no sítio da internet - http://naturlink.sapo.pt/Lazer/Turismo-na-Natureza/content/Serra-de-S-Macario-viagem-ao-Jardim-da-Pena?bl=1 -, diz: “A aldeia da Pena é uma daquelas aldeias ditas “Históricas” que as entidades responsáveis souberam preservar e projetar nos roteiros turísticos de Verão. Por isso, quando a canícula se vai, a maioria dos turistas vai com ela deixando a aldeia entregue às suas lides de sempre, que é como quem diz mergulhada numa paz profunda e sonolenta, quebrada apenas pelo ocasional caminhar arrastado de algum dos seus oito habitantes [Hoje, parece, já serem menos]. Uma mão cheia de casas em xisto com telhados negros cor de fuligem, aninhadas no regaço apertado da cova do monte e envoltas por leiras de lameiros, hortas e bosques de carvalhos (Quercus pyrenaica e Quercus faginea) e castanheiros (Castanea sativa), eis a imagem que pode descrever, à primeira vista, a aldeia da Pena. Contudo, há mais. Há as gentes, que hoje são poucas, mas que há trinta anos eram “umas cinquenta”, conta o Sr. Agostinho, o ancião da aldeia. Da população do passado, que era a riqueza e a razão de ser da aldeia, hoje pouco resta para além das histórias, das amarguras, das alegrias e das memórias dignas de figurarem num compêndio de sabedoria popular. Hoje, já quase não se ouvem vozes nem risos. O cacarejar ocasional de uma galinha, o mugido próximo de uma vaca, talvez. Mas as vozes, só se forem as dos turistas no Verão, porque os aldeões, esses, velhos como as casas que habitam, esquecidos como o vale fundo e escondido que os abrigou da serpente, que a lenda conta tê-los martirizado, há muito que deixaram de se fazer ouvir”.

 

Na aldeia fizemos uma pausa para entrarmos na Adega Típica da Pena, conversarmos um pouco com o jovem casal, seus proprietários, saber da sua história de vida, enfim, constatando e confirmando o que por aí corre nas redes sociais e nos nossos media.

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (277)

Depois deambulámos um pouco pelo seu pequeno aglomerado e suas redondezas,

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (284)

apreciando as suas singelas construções.

 

A determinada altura, aparece-nos este espetáculo!

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (302)

Da pena do mesmo Manuel Nunes, e da mesma fonte, fomos encontrar estas palavras que não resistimos em reproduzir, pois representam um verdadeiro elogio desta mãe-natureza: “Se há alturas em que «uma imagem vale mil palavras», então esta é, sem dúvida, uma delas. O carreiro que parte da aldeia da Pena, não se demora muito pelos campos e vinhas do vale. Rapidamente, chega ao promontório entre as fragas, onde uma fenda natural nas rochas se abre para, subitamente, revelar um estreito e abrupto vale que corre encaixado ao longo do Ribeiro de Pena. E se as profundezas verdes e luxuriantes do vale constituem uma visão soberba e arrebatadora, as sonoridades que ecoam livres pelo bosque não o são menos: chilreios, flauteios, gorjeios, assobios, trineios, tudo serve para as inúmeras espécies de passeriformes que habitam a mata demarcarem territórios, intimidarem rivais ou atraírem eventuais parceiros. Por entre a cacofonia generalizada, porém, alguns intérpretes destacam-se dos demais. Distingui-los a “ouvido nu” não é fácil e requer algum treino, mas qualquer veterano de anteriores andanças ao ar livre, depressa associa o seu a seu dono: o gorjeio sonoro e admirável da carriça (Troglodytes troglodytes), o assobio aflautado do papa-figos (Oriolus oriolus), o doce trinado do pintassilgo (Carduelis carduelis) ou o chamamento áspero e característico da felosa-comum (Phylloscopus collybita). Entretanto, o carreiro que parecia morrer junto aos rochedos, continua o seu percurso descendente mas agora sob a forma de uma imensa escadaria em ziguezague talhada na rocha. Mais do que a descida quase vertical ou o gorgolejo furioso e ruidoso do ribeiro lançando-se em cascata por entre a penedia, o que impressiona é sobretudo a frondosa mancha florestal que povoa este recanto húmido e abrigado. São às dezenas as espécies vegetais que aqui se podem observar. Desde logo saltam à vista os magníficos fetos (Asplenium onopteris, Asplenium billotii e Athyrium filixfemina) que crescem nos troncos das árvores, nas paredes rochosas ou no solo e que acompanham toda a descida. Depois, há os líquenes que pendem das árvores como cachos e que recobrem as superfícies rochosas com tons laranja e amarelo de grande beleza, sendo de destacar as espécies, Dimelaena oreina, Xanthoria parietina, Evernia sp. e Cladonia sp.. Por fim, temos os arbustos e as árvores. De todos os feitios, de todos os tamanhos, adornam e ensombram uma boa parte do percurso pelo “Jardim da Pena”. E se muitas espécies são discretas, ocupando os lugares mais recônditos do vale, como o azereiro (Prunus lusitanica), o abrunheiro-bravo (Prunus spinosa), o amieiro-negro (Frangula alnus) e o pilriteiro (Crataegus monogyna), algumas são enormes e corpulentas, como os carvalhos, os castanheiros ou os sobreiros (Quercus suber) quase desproporcionais a tão exíguo espaço; e outras ainda são estreitas, esguias e tão altas que dir-se-ia poderem quebrar com uma simples brisa, como acontece com o salgueiro (Salix alba), a tramazeira (Sorbus aucuparia), a bétula (Betula pubescens) ou a cerejeira-brava (Prunus avium). Todas juntas, contudo, formam uma cobertura verde de tal forma densa que os raios solares raramente tocam o solo, o que acaba por propiciar o habitat ideal às espécies faunísticas associadas a ambientes húmidos e sombrios, como os anfíbios. De resto, é bastante comum aos caminheiros vislumbrarem os saltos aflitos de uma rã-ibérica (Rana ibérica) procurando a segurança da água, ou encontrar larvas de tritão (Triturus boscai e Triturus marmoratus) nos pequenos açudes que se formaram ao longo do curso do ribeiro que seguimos durante 3 deliciosos quilómetros, sempre acompanhados pelo bosque que nunca nos deixa sair da sua sombra acolhedora. Mesmo quando uma velha azenha que ameaça ruir irrompe por entre o arvoredo, o bosque mantém o seu apertado abraço como que aconchegando a si o velho edifício e lembrando os tempos em que este carreiro era a única via de ligação entre as aldeias da Pena e de Covas do Rio. Hoje, porque íngreme e extenuante, já ninguém o percorre. Talvez por isso, a mata continue a existir, longe da cobiça que no passado devastou a floresta primitiva da serra”. Quem sabe, se um dia o não faremos também?...

 

Enquanto nos vinha à lembrança este texto, parámos uns momentos junto deste espigueiro

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (305)

e, subindo um pouco mais, junto a um outro, encostado a uma tosca e singela casa, não nos cansámos de contemplar aquela fenda que nos apresentava um outro mundo,

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (308)

bem mais calmo e bem diferente daquele que todos os dias habitamos e vivemos nas nossas «sofisticadas» e modernas cidades.

 

Mas havia que regressar a esse mundo. Saindo das redondezas da aldeia e do seu regato, atravessámos o casario protegido pelos montes e fragas que o rodeiam.

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (317)

Na despedida, fomos até ao pequeno cemitério e à sua singela capelinha.

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (364)

E, mais uma vez, nos lembrávamos das palavras de Manuel Nunes quando, a propósito deste pequeno sino, refere que já só raramente ecoa pelo vale.

 

Antes de encetarmos o caminho de volta, procurámos saber da origem do nome da aldeia. E, mais uma vez, Manuel Nunes, sucintamente, nos transcreve a lenda da Pena, neste termos: “(...)diz então a lenda que «em tempos idos existia uma aldeia no coração da Serra de S. Macário, no lugar a que chamam Cova da Serpe. O local, para além de albergar a aldeia, era também residência de uma enorme e malévola serpente-dragão. O animal, daninho como era, descia pela noite ao povoado e provocava verdadeiras razias em gentes e animais, deixando estéreis os campos por onde se arrastava». E é aqui que as histórias se separam. A lenda da Pena continua da seguinte forma: «a população, amedrontada e farta de perder assim o seu parco sustento resolveu abandonar a aldeia e mudar-se para um outro local. O sítio escolhido foi um vale vizinho, do outro lado da serra (onde hoje se encontra a aldeia), profundo e quase inacessível protegido por gigantescas fragas. Finalmente livres do assombro da serpente os habitantes respiraram de alívio. No entanto, nunca lograram esquecer totalmente a sua antiga aldeia, e por isso se lamentavam pelo seu abandono: que pena... que pena que foi - diziam! A verdade é que o desgosto e a pena foram de tal ordem que o nome acabou mesmo por ficar, e hoje não há nesta região quem não conheça a sorte das gentes da Pena»”.

2015 - S. Pdro do Sul (Termas+Manhouce+Pena) (375)

Despedimo-nos da Pena, das suas fragas e da estrada do Portal do Inferno, com a promessa que, hoje (28.abril.2015) apenas foi o começo de mais jornadas que, por estas paragens, teremos intenção de cumprir, a pé!...


publicado por andanhos às 17:59
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