Terça-feira, 12 de Maio de 2015

Por terras e aldeias de Portugal - Maciço da Gralheira IV - 3

 

 

MACIÇO DA GRALHEIRA

 

IV PARTE

(Percurso Pedestre de Pequena Rota nº 14 [PR 14 - Aldeia Mágica], em Arouca)

 

3ª Parte

(Drave e regresso a Regoufe)

 

Drave é uma aldeia pertencente à freguesia de Covelo de Paivô, concelho de Arouca, perdida numa cova, entre a serra da Freita e a serra de S. Macário.

 

Situa-se na confluência de três ribeiras: Palhais, Ribeirinho e Ribeiro da Bouça, e aí forma a Ribeira de Drave que vai desaguar no rio Paivô.

 

Para chegar a Drave pode-se tomar dois caminhos: fazer o PR 14, a partir de Regoufe, ou então, partindo do Santuário de S. Macário, para sul, em direção à Coelheira e, um pouco adiante, tomamos o estradão à direita, acessível em parte por carro, até avistarmos a aldeia, onde se destaca a capela.

 

Rodeada de altos montes, Drave é um lugar mítico, de magia especial. É a Aldeia Mágica! A visão que se tem dela, ao longe, é surpreendente. É uma experiência inesquecível!

 

O solar dos Martins e a capelinha dedicada a Nossa Senhora da Saúde, cuja festa, em sua honra, todos os anos no dia 15 de agosto, se celebrava, destacam-se de todo o casario abandonado e em ruínas.

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Trata-se de uma aldeia típica, em que as casas são feitas de pedra denominada «lousinha» e a sua cobertura é de xisto. Estamos no reino do xisto!

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Drave está isolada das aldeias vizinhas, com fracos acessos, praticamente impraticáveis no inverno.

 

Quando para ela olhamos de longe, evoca-nos o frio, a rudeza e a simplicidade. E da passagem espartana dos dias, próximos da natureza.

 

Em 1971, a aldeia de Drave alegrava-se com o último nascimento.

 

Em 1993, quando já só lá morava um casal, chegou uma linha telefónica e energia solar.

 

Há quinze anos, partiu dali o seu último habitante, Joaquim Martins, viúvo e cansado do isolamento.

 

Drave foi o berço de todos os Martins, dos grandes da aldeia, desde 1700. O padre João Nepomuceno de almeida Martins, em 1946, tomou a iniciativa de, aqui, reunir mais de 500 parentes num primeiro conclave familiar. Com direito a missa na sua singela e alba capelinha.

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Quem vem de Regoufe para Drave a panorâmica que se nos oferece é, tal como descreve Afonso Reis Cabral, na sua obra «O Meu Irmão» (prémio LeYa 2014), a de montanhas de “pele lisa e ondulada”.

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Falar hoje de Drave é também falar da sua «segunda vida».

 

Apesar de estar desabitada há 15 anos, continua a despertar a curiosidade e a seduzir as pessoas pela sua magia, pelo seu passado, pelo encanto das suas paisagens. E, por isso mesmo, passou a ser mais um ponto de atração turística situado no Geoparque de Arouca.

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Para sabermos sumariamente um pouco da sua história e do esforço de ressuscitação desta aldeia, desabitada desde 2000, sem acessos diretos a veículos, sem eletricidade, água canalizada e rede de telemóveis, vale a pena ver o DVD (também disponível em blue-ray) com o título «Uma Montanha do Tamanho do Homem», documentário realizado pelo jovem realizador portuense João Nuno Brochado.

 

Com efeito, para além da história desta pequena aldeia abandonada de habitantes, onde reina a ruina e medra o sabugueiro,

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num fim de mundo, que continua a atrair milhares de visitantes todos os anos, fazendo o PR 14 - Aldeia Mágica (Regoufe-Drave), no concelho de Arouca, o documentário relata-nos a sua transformação num centro escutista destinado a Caminheiros, levada a cabo pela Base Nacional da IV (BNIV), que é uma das bases mais emblemáticas do escutismo português, já com repercussões internacionais e pela qual passam 4 mil Caminheiros por ano.

 

Em 2003, Drave viu chegar os escuteiros da IV Seção, rapazes e raparigas, entre os 18 e 22 anos - os Caminheiros - que fizeram negócio com uma das famílias e começaram a reconstruir um terço da aldeia. Hoje são deles 8 casas, 8 terrenos, a eira, o moinho e o espigueiro.

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Foi no verão de 2003 que o realizador Nuno Brochado conheceu Drave e ajudou a fazer a futura cozinha da Base Nacional da IV do Corpo Nacional de Escutas, carregando às costas as lajes de xisto, num vaivém muito parecido com o que iria filmar dez anos depois, a convite do dirigente Paulo Natividade. Desde então, todos os fins-de-semana há escuteiros em Drave.

 

O trabalho é contínuo - de renovação de telhados, interiores, fachadas, pontes, trabalho de carpintaria. Ou seja, o trabalho de recuperação dos escutistas do BNIV vai no sentido de manter as traças originais das casas, adaptadas ao dia-a-dia dos escuteiros, onde se encontram beliches estreitos, mesas e bancos corridos, tudo de madeira, aliás como as portas das casas, de madeira grossa, e com cravelhos no lugar de chaves.

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A ideia ou princípio é modificar o menos possível a arquitetura dos edifícios para que os jovens, que estão a caminhar para adultos, sintam também o frio que se passava, a rudeza, a simplicidade, diz-nos Paulo Natividade.

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(Pormenor de uma fechadura de uma casa) 

A par destas atividades, a vivência espiritual, própria destes grupos, não está posta de lado: acreditam que, assim, a mesma até é mais favorecida pelo contacto estrito com a natureza.

 

No referido documentário podemos ver o acompanhamento do trabalho dos escuteiros, ouvir a voz do ator e encenador António Durães que nos leva até às montanhas escondidas, através de um inebriante voo de pássaro, só possível com câmaras instaladas em «drones».

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Diz-nos o realizador João Nuno Brochado que estas montanhas são especiais, são muito diferentes das do resto do país. E delira com o Vale do Paivô,

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à volta de Drave e com o Portal do Inferno, do outro lado da aldeia: “parece um manto que caiu e ficou cheio de rugas”, diz.

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Mas nós não ouvimos o balido das cabras. E o crepitar das águas nas ribeiras era muito frouxo, apesar de estarmos em abril, mês de águas de mil: os ribeiros estavam «esganados», cheios de sede de água.

 

Também, apesar de ser domingo, fim-de-semana, portanto, não vimos nenhum «escuta» ali a trabalhar. Mas vimos muitos jovens caminhantes, não se importando com o sol, em horas dele a pino, fazendo o percurso alegre e «com uma perna às costas».

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Drave, com as suas montanhas à volta e os seus muros de pedra de xisto solta, é difícil de adjetivar.

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Ao chegarmos a Drave, feito um pequeno reconhecimento da aldeia, entrámos numa das casas dos escuteiros. Descansámos um bocadinho, desidratámo-nos e comemos.

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E agora, sim, fomos dar uma volta a fundo à aldeia, ou ao que dela resta. Ao lado da pequena capelinha, o solar dos Martins numa

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e noutra perspetiva.

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Do alto da aldeia, esta perspetiva sobre a sua ponte e o caminho que nos levará de volta.

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Descendo da aldeia em direção ao rio, envolto em arvoredo, num lugar fresco que apelava a tomar uma banhoca. Florens, que já o ano passado aqui tinha estado, teve pena, tal como naquela altura, não saborear um bom banho numa das suas quedas de água e pequena lagoa de águas límpidas, tal como veio ao mundo. Mas hoje os «mirones» eram muitos! Talvez para uma outra altura, uma outra oportunidade.

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Já começava a fazer-se tarde. Eram horas de sair deste local cujo panorama excelente nos transmite uma paz de alma e espírito incríveis! E uma pergunta bem séria nos ficou calada bem no fundo de nós mesmos: que futuro para esta aldeia?...

 

Havia, pois, que regressar a Regoufe. Iniciámos por uma subida e por este trecho de caminho.

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No regresso, agora ao cair do sol na linha do horizonte, eis uelas esplêndidas montanhas, todas tão floridas, que, sucessivamente, se nos apresentavam em quadros saídos do mais excelente pintor, e que nos extasiaram.

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 (Quadro nº 1)

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  (Quadro nº 2)

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  (Quadro nº 3

Fizemos, logo após aquela prolongada subida desde Drave, uma pausa no Mato de Belide.

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E, uma vez mais, contemplámos a «garra».

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E descemos para Regoufe, observando, mais uma vez, o manto florido de cor amarela dos montes

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e um ou outro sobreiro que, aqui e ali, aparecia solitário.

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Chegados a Regoufe não nos saia da cabeça a entrevista dada a uma jornalista por uma habitante da aldeia - Fátima, de seu nome - com 52 anos, a mais nova do lugar, que, de educadora de infância noutras paragens, se transformou, aqui, em pastora de cabras, queixando-se dos lobos e do Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (ICNF); dos jovens que daqui partem e não voltam; da vintena de pessoas (velhas) que aqui habitam e resistem; das crianças que não nascem; de um futuro incerto por estas paragens, adivinhando para Regoufe um destino ou sina idêntica a Drave.

 

Pese embora osa ares puros que aqui se respiram, da belíssima várzea,

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compartimentada, como é uso por terras de montanha deste nosso Portugal, com pequenos muros de pedra solta a dividirem as leiras.

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E desabafa Fátima para a jornalista: “Há quem tenha várias leiras, mas estão umas longe das outras, uma canseira”.

 

Infelizmente não há quem dê volta a isto! As diferentes reformas agrárias, de um país com enormes áreas incultas, não passaram de simples miragem!

 

Ultrapassada a pequena igrejinha de Regoufe,

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dirigimo-nos para a nossa viatura e seguimos em direção a Arouca, onde pernoitámos.

 

Estávamos cansados, apesar de andarmos a pé pouco mais de oito quilómetros, mas cheios de alegria por mais uma partilha de vida em contacto com a mãe-natureza.

 

Mas muito cheios de dúvidas quanto ao futuro do nosso Portugal rural mais profundo!...

 

Deixamos aqui a Introdução do filme «Uma Montanha do Tamanho do Homem» para aguçar um pouco o apetite dos nossos(as) leitores(as).

 

 


publicado por andanhos às 18:42
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