Sexta-feira, 8 de Maio de 2015

Por terras e aldeias de Portugal - Maciço da Gralheira III

 

 

MACIÇO DA GRALHEIRA

 

III PARTE

(Monte de Nossa Senhora da Mó)

 

“Também no reino de Deus há ricos e pobres.

Os que vivem nas sedes do poder e os que vegetam nas sucursais.

Lá em baixo, no convento, a segurança, a opulência, o convívio;

aqui, nesta pequena ermida, a incerteza, a miséria, a solidão.

Mas são os divinos desafortunados que eu admiro.

Negam na própria desgraça a graça sobrenatural,

e proclamam de cada píncaro a extensão maravilhosa do sobrenatural.”

 

 

Miguel Torga escreveu no seu diário

(“Diário X”, 23 de Agosto de 1965),

aquando da visita ao Monte de Nossa Senhora da Mó

 

 

Distando do centro da vila de Arouca cerca de 8 Km, o monte da Senhora da Mó eleva-se à altitude de 711 metros.

01.- 2014 - Anos Lau (Serra da Freita e Arouca) (2

 Foi erigida neste local uma capela de beleza singela e contornos pouco convencionais no contexto da região, a qual se presume ser do séc. XVI, dedicada a Nossa Senhora da Mó.

02.- 2015 - Alvarenga-Senhora da Mó-Regoufe-Drave

 Em Arouca, Nossa Senhora da Mó é considerada a advogada dos campos, das colheitas e dos animais e protetora contra as secas e as trovoadas.

 

A festa em sua honra realiza-se anualmente nos dias 7 e 8 de Setembro, reunindo neste local milhares de visitantes e devotos, em ambiente de oração e confraternização.

 

Diz-se também que a Senhora «tem mais seis irmãs», por igual número serem as ermidas de invocação mariana que se avistam da sua capela, localizadas nos montes em redor: Senhora do Monte; Senhora da Laje; Senhora das Amoras; Senhora do Castelo; Senhora Guia e Santa Maria do Monte.

 

Outrora, durante a romaria, decorria uma feira junto da ermida, situada no alto da serra da Mó, acendiam-se fogueiras de pinhas, que ardiam a noite inteira, e fazia-se, segundo parece, uma procissão desde Arouca até ao santuário. Hoje, em vez das fogueiras da noite do dia 7, o povo reúne-se na chamada «Casa da Ceia», ao lado da capela,

03.- 2014 - Anos Lau (Serra da Freita e Arouca) (2

 para tomar parte na já tradicional «bacalhoada arouquense» a lembrar, talvez, os piqueniques de tempos idos. No dia 8 é celebrada missa pelas onze horas, seguida de procissão, a cumprir o ritual de dar a volta ao antigo cruzeiro. A imagem primitiva da Senhora da Mó, em pedra de Ançã,

04.- 2324978_7aEbp.jpg

com o Menino ao colo – supostamente do século XIV – encontra-se num nicho aberto na parede da capela. Posteriormente, foram-lhe acrescentados o pequenino arcão e a mó, em madeira, que se veem a seus pés - em alusão à «lenda do cristão e do mouro» - à semelhança dos atributos que apresenta a imagem atual, que se encontra no altar-mor e que sai na procissão. No templo veneram-se ainda as imagens de Nossa Senhora das Neves e de Santa Bárbara.

05.- SIPAImage.jpg

A lenda de Nossa Senhora da Mó conta que no ano de 1027 um cristão de Arouca, feito prisioneiro dos Mouros, foi amarrado com uma corda dentro de um arcão do milho, com a pedra de uma mó colocada por cima e um mouro sentado nela, assim se mantendo à espera da morte. Pediu então à Virgem que lhe valesse, acontecendo que a arca com o cristão, a mó e o mouro apareceram, por milagre, junto da capela. Ao ouvir o sino, espanta-se o mouro por se encontrar num lugar religioso e desconhecido, e pede ao cristão que não lhe faça mal e aquele assim faz. A lenda encontra-se retratada num grande quadro em madeira (ex-voto) pintado em 1827,que se encontra na capela. É o que diz o livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VII - Edição Círculo de Leitores, citado pelo portal Auto caravanista, e pelo blog Sarrabal.

 

Do Sistema de Proteção para o Património Arquitetónico consta: “Planta longitudinal composta por nave única e capela-mor, volumetricamente distintos, com cobertura homogénea em telhado de 2 águas aos quais se une, a O., adossada do lado direito à frontaria, torre sineira quadrangular coberta com coruchéu bulboso. Fachada principal com portal axial, retangular, com moldura em granito; parede espessa com remate irregular, subindo acima da parede lateral e ocultando a cumeeira do telhado, apenas se vendo, no vértice, cruz latina simples. Torre sineira de registo único implantando-se sobre afloramento rochoso afeiçoado; dois vãos de arco redondo dos lados O. e S. (fachadas principal e lateral direita) e beiral de xisto. Fachada lateral esquerda, a N., com duas portas travessas, uma na nave e a outra na capela-mor, retangulares com moldura em granito. Fachada lateral direita, a S., implanta-se sobre afloramento rochoso, tendo a remate irregular ocultando o remate do telhado; duas frestas retangulares diferentes, ambas no corpo da capela-mor; três gárgulas não alinhadas colocadas acima da linha média. Fachada posterior com parede subida acima da linha da empena, tendo os lados horizontais e o troço médio em ângulo coroado por cruz latina simples. INTERIOR com pavimento de mosaico industrial, escada talhada no afloramento rochoso no ângulo SO. Para acesso à torre sineira, nicho de arco redondo aberto na parede do lado da Epístola albergando imagem de Nossa Senhora da Mó em pedra policroma; na mesma parede, ex-voto em madeira pintada com legenda e data. Arco triunfal redondo com impostas e chanfro na curva, púlpito na capela-mor, do lado da Epístola, com bacia de pedra moldurada e balaustrada de madeira. Retábulo-mor de madeira pintada com três arcos conopiais nos nichos e duas portas de arco redondo aos lados para acesso a arrumos situados do lado posterior. Coberturas internas de madeira de secção poligonal”.

 

Refere a revista Fugas, do Público, na sua edição, aquando de uma entrevista a Sobrinho Simões, uma referência mundial na área de investigação das doenças cancerígenas, nascido no Porto, mas com profundas raízes, advindas dos seus ascendentes que eram naturais de Arouca, que, aquela que outrora era uma aldeia virou vila, distante do Porto e do mar. E que o professor-investigador orgulha-se das suas serras a perder de vista, de aldeias de pouca gente, que aprendeu a tirar da terra o que precisa para viver, de um geoparque que tem pedras parideiras que saltam das rochas e uma cascata numa frecha que nunca se fecha. Orgulha-se do que tem de genuíno. E isso agrada-lhe. “Há um universo local de uma intensidade extraordinária”, refere. “A banda tocava no coreto”, lembra naquela entrevista.

 

No primeiro dia das férias da escola, diz ainda, apanhava no Porto, onde vivia e estudava, a camioneta que o iria levar a casa dos avós em Arouca. Cinco horas de viagem com condutores à antiga, que paravam sempre que fosse necessário. Ou para matar a sede com um copo de vinho americano, ou para as urgências das bexigas dos passageiros no café mais próximo. Na aldeia dos avós paternos, o tempo passava devagar e o pequeno Simões sentia-se imortal. Ia com os amigos nadar para os rios Paiva e Paivó. A estratégia era sempre a mesma, encontrar um taxista que também gostasse de mergulhar no rio para juntar o útil ao agradável e conseguir um preço mais barato. “Não íamos para o rio Arda, era perigoso.” À noite, depois do jantar, juntavam-se no clube local com mesas de bilhar e cartas para a jogatina. “Jogávamos muitas cartas, principalmente sueca e king”, recorda. Quando havia, assistiam às sessões de cinema ao ar livre com os bancos de pau que levavam de casa. Ainda hoje chora no cinema, sobretudo com coisas boas, muito mais com as chegadas do que com as partidas. “O barco parte e não me acontece nada, mas quando regressa, é uma choradeira.” Nunca perdeu o fascínio por essa magia que o cinema tem de fazer acreditar em qualquer coisa. “Gosto que me aldrabem.” Que o aldrabem com classe, que o façam acreditar no impossível. Palavras estas de um célebre investigador, mas que também bem poderíamos ouvir de um bom e anónimo campónio de qualquer das terras portuguesas!

 

Apreciando as construções ali existentes, bem assim os candeeiros que, naquela imensidão pouco alumiam,

07.- 2014 - Anos Lau (Serra da Freita e Arouca) (2

servindo mais como peças de decoração, nossa vista virou-se para o vale de Arouca, a nossos pés, e, mais perto de nós, a vila, destacando-se, no seu casario, duas emblemáticas construções:

09.- 2014 - Anos Lau (Serra da Freita e Arouca) (2

 uma, em segundo plano, representando o poder divino, dos «céus» - O Mosteiro de Arouca -; outra, em primeiro plano, o poder terreno local - a Câmara Municipal.

10.- 2014 - Anos Lau (Serra da Freita e Arouca) (2

Deitando nossos olhos ao largo, para nordeste, vemos a serra de Montemuro

08.- 2014 - Anos Lau (Serra da Freita e Arouca) (2

 e o cume de S. Macário com o seu parque eólico;

11.- 2014 - Anos Lau (Serra da Freita e Arouca) (2

 para leste, a serra da Arada.

06.- 2014 - Anos Lau (Serra da Freita e Arouca) (2

 Depois de observarmos meia dúzia de «motoqueiros»

13.- 2015 - Alvarenga-Senhora da Mó-Regoufe-Drave

subindo e descendo pelos montes ajardinados de carqueja,

14.- 2015 - Alvarenga-Senhora da Mó-Regoufe-Drave

 despedimo-nos do Santuário,

15.- 2015 - Alvarenga-Senhora da Mó-Regoufe-Drave

deitando uma última vista de olhos para Arouca, a nossos pés, sob o olhar atento da santa cruz,

16.- 2015 - Alvarenga-Senhora da Mó-Regoufe-Drave

bem assim do arvoredo,

17.- 2014 - Anos Lau (Serra da Freita e Arouca) (2

que, em dias de sol abrasador, nos afaga com a sua sombra.

 

E, deleitados com a contemplação destes horizontes, fomos tomar uma aligeirada refeição para, logo bem no início da tarde, darmos início ao nosso percurso pedestre PR 14 - Aldeia Mágica (Regoufe-Drave).


publicado por andanhos às 19:10
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 8 seguidores

.rádio

ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

.Novembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10

13
14
15
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


.posts recentes

. Ao Acaso... Lago de Sanáb...

. Por terras de Portugal - ...

. Por terras da Ibéria - Ri...

. Versejando com imagem - L...

. Palavras soltas... em Dia...

. Por terras de Portugal - ...

. Por terras de Portugal - ...

. Versejando com imagem - E...

. Por terras da Ibéria - Tr...

. Por terras da Ibéria:- Ca...

.arquivos

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Julho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Agosto 2011

. Novembro 2010

. Outubro 2010

.tags

. todas as tags

.A espreitar

online

.links

.StatCounter


View My Stats
blog-logo