Quarta-feira, 6 de Maio de 2015

Por terras e aldeias de Portugal - Maciço da Gralheira I

 

MACIÇO DA GRALHEIRA

 

I PARTE

(De Castro Daire a Alvarenga)

 

 

«Porque tem de tudo: cerros que atingem e passam os 1100 metros;

pontos de onde a vista abrange grande parte do Norte e, a bem dizer,

o Centro do País em toda a sua largura;

o extenso planalto de Albergaria,

revestido de amarelo na época da floração da carqueja e do tojo mourisco,

manchas extensas do roxo da urze, a maior queda de água do País,

grande diversidade e várias curiosidades geológicas,

ribeiros e rios que tanto se precipitam tumultuosamente do alto da serra,

cavando na pedra formas e espaços de singular beleza,

como deslizam mansamente por entre arvoredo frondoso,

formando poças e poços onde o prazer de mergulhar

na água límpida e macia é incomparável,

vales profundos de vertentes íngremes

– alguns, verdadeiros desfiladeiros – escarpas e locais

que convidam à aventura, aldeias isoladas,

de velhas casas de pedra ainda cobertas de lajes,

encostas transformadas ao longo de gerações

em extensas escadarias de leiras muito verdes,

matas frondosas, recantos inesperados,

paisagens surpreendentes,

fontes onde a água muito fria parece dessedentar melhor,

sei lá que mais!»

 

Mário de Araújo Ribeiro,

O Maciço da Gralheira - Da Freita a S. Macário: Um enigma com algumas crónicas

 

MontanhasMagicas-logox200.png

 

Quando, em fevereiro de 2008, saiu a 2ª edição da obra Passeios e Percurso Irrepetíveis - Portugal, 30 itinerários a pé, de Manuel Nunes e Jorge Nunes, logo aí ficámos com «ganas» de realizar a maior parte deles. Circunstâncias várias, umas relacionadas com a saúde; outras com o compromisso de levar a cabo os principais Caminhos de Santiago na Galiza, a par de obrigações académicas pendentes com colegas, após a nossa saída da Universidade, impediram-nos de os realizar.

 

Na área da Peneda-Gerês, no Douro Internacional e nas Serras do Alvão e Marão já tínhamos efetuado alguns. Novidade e gosto era percorrer a pé algumas áreas daquilo que é designado pelo Maciço da Gralheira.

 

Partes daquele maciço já as tínhamos percorrido de carro. Mas nosso gosto, mesmo, era fazer alguns deles a pé.

 

E a oportunidade apareceu. Florens, nosso sobrinho, e companheiro de alguns Caminhos de Santiago, arranjou maneira de encontrar, no serviço onde trabalha, um pequeno furo, em meados de abril passado e, mochila às costas, propusemo-nos realizar dois, para nós, dos mais emblemáticos percursos na área do concelho de Arouca: o PR 14 - Aldeia Mágica (de Regoufe a Drave) e o PR 7 - Nas escarpas da Misarela.

 

Acompanhou-nos o nosso amigo Achim, alemão, que já havia feito, particularmente connosco, o percurso na Serra do Alvão - Lamas do rio Olo.

 

Depressa nos demos conta, quer nós quer o amigo Achim, que estávamos um pouco «enferrujados». Na verdade, a idade já vai pesando, bem assim as mazelas que cada um carrega e que se vão entranhando, debilitando a frescura física. Contudo, podemos dizer que, em certo sentido, cumprimos com o objetivo que nos propúnhamos realizar. Se não realizámos os percursos mais depressa, como desejaríamos, fizemo-lo como as nossas forças e condições físicas o exigiam.

 

Eram, pois, 7 horas da manhã, do dia 19 de abril passado, um domingo, portanto, quando fomos buscar a sua casa o Achim e abalámos, via A24, de Vila Real até Castro Daire.

 

Da A24 não se fala. A não ser a quantia exorbitante que se paga neste país pobreta, com costela de rico, para se ir, comodamente, para qualquer lado. O troço de estrada entre Castro Daire e Alvarenga, nosso primeiro ponto de contacto com as terras do Maciço da Gralheira, esse já é outra coisa - a Nacional 225, numa extensão de, aproximadamente, 37,5 Km.

 

Era de manhã cedo ainda. Havia alguma neblina levantando. Mas os quadros de paisagem que tínhamos pela frente ofereciam-nos, aqui e ali, uma oportunidade para «esticar» os pés e fazer alguns «cliques» com a máquina fotográfica para registar o momento. Aqui deixamos cinco quadros de paisagem:

01.- 2015 - Alvarenga-Senhora da Mó-Regoufe-Drave

(Quadro nº 1)

02.- 2015 - Alvarenga-Senhora da Mó-Regoufe-Drave

(Quadro nº 2)

03.- 2015 - Alvarenga-Senhora da Mó-Regoufe-Drave

(Quadro nº 3)

04.- 2015 - Alvarenga-Senhora da Mó-Regoufe-Drave

(Quadro nº 4)

05.- 2015 - Alvarenga-Senhora da Mó-Regoufe-Drave

(Quadro nº 5)

Mas localizemos e identifiquemos, no mapa do Centro do país, o Maciço da Gralheira.

06.- Maciço da Gralheira.jpg

Neste mapa, a cores, estão identificadas as serras que João Domingues de Almeida designa como Serras Beira-Durienses, podendo observar-se individualizadas, ainda segundo este autor, as sete serras mais significativas, numeradas por ordem decrescente das altitudes dos seus pontos mais altos:

1) Serra de Montemuro [cor azul turquesa]

1.1) Serra de Montemuro, incluindo as serras das Meadas, de Fonte da Mesa ou do Poio (1 122 m), e de Santa Helena (1102 m);

1.2) Serra da Nave/Leomil, incluindo as serras da Senhora da Piedade (902 m) e de Castelo (768 m). Considera-se a porção da cordilheira de Montemuro situada a Este dos rios Covo, ribeira da Mourisca e rio Varosa, e a Oeste dos rios Paiva e Távora, estando maioritariamente localizada nos concelhos de Moimenta da Beira, Tarouca e Vila Nova de Paiva.

1.3) Serra da Lapa, incluindo as serras de Aguiar da Beira (800 m) e de S. Lourenço ou de Arco (929 m). Consideras-e a porção da cordilheira de Montemuro situada a Este do rio Paiva, estando maioritariamente localizada nos concelhos de Sernancelhe e Aguiar da Beira. A Serra de S. Lourenço (ou de Arco), considera-se a porção da Cordilheira de Montemuro situada mais a SW e que se encontra separada da área principal da cordilheira pela Estrada Nacional 323.

2) Serra da Freita/Arada/Arestal/S. Macário [cor verde]

2.1) Serra da Freita [sensu stricto]

2.2) Serra de Arada/Chãs

2.3) Serra de S. Macário

2.4) Serra do Arestal. Considera-se a porção da cordilheira da Arada/Freita (ou Maciço da Gralheira) situada mais a SW e que se encontra separada da área principal da cordilheira pela Estrada Nacional 550.

3) Serra do Caramulo (ou de Alcoba ou de Besteiros) [cor salmão]

4) Serra de Penedono/Sernancelhe/Trancoso/Meda [cor amarela], incluindo as serras Laboreira (1000 m), do Sirigo (Penedono, 989 m), do Pereiro, do Pisco (989 m), de Moreira e da Meda. A Serra da Meda ou de Casteição considera-se a porção da cordilheira de Penedono situada a E da Ribeira da Teja e a N e a NW de uma ribeira que coincide aproximadamente com o limite S e SE do concelho da Meda, situado na zona de Vale de Fojo e até Gracião, a SE da povoação de Casteição (859 m).

5) Serra de Chavães (entre a Serra de Montemuro e o Rio Távora) [cor azul/violeta]

6) Serra da Senhora do Viso [cor azul turquesa]

7) Serra da Senhora do Monte (ou Senhora do Vencimento) [cor verde escura].

Do conjunto de serras acima identificadas, as que, para o caso, nos interessam são as que estão identificadas a cor verde - Serra da Freita/Arada/Arestal/S. Macário - designadas com o nome genérico de Maciço da Gralheira.

 

Citemos o que João Domingues Almeida, na sua obra acima referida no Quadro, nos diz a propósito deste maciço:

Esta cadeia montanhosa localiza-se entre os rios Paiva e Vouga, e entre as serras de Montemuro, a norte, e do Caramulo, a Sul, estando totalmente implantada no Maciço Antigo ou Hespérico (FERREIRA, 1978; ROCHETTE CORDEIRO, 1988: 91). É uma das cordilheiras geologicamente mais complexas da área em estudo. Constituída por rochas graníticas em cerca de 50 % da sua área, também possui xistos do Complexo Xisto Grauváquico ante-Ordovícico, assim como xistos e grauvaques do Ordovícico e Carbónico de fácies continental, assim como alguns afloramentos quartzíticos. Possui abundantes xistos luzentes, que surgem sobretudo nas zonas de contacto entre as formações graníticas e os xistos do Complexo Xisto-Grauváquico ante-Ordovícico, podendo ter-se formado através de metamorfismo de contacto.

Na Serra da Freita, as rochas intrusivas ou graníticas em sentido lato são datadas do Pré-Câmbrico, podendo dividir-se em diversos tipos, de acordo com MOURA (2001): 1) Rochas pós-hercínicas e hercínicas tardias: filões de quartzo, aplitos e pegmatitos associados (disseminados), pórfiros granitóides [filões intruídos no Maciço de Arouca, nos xistos do Complexo das Beiras e nos granitos da Serra da Freita], doleritos [filões que cortam o Maciço de Arouca, posteriores aos granitos tarditectónicos] e lamprófiros [rochas filonianas básicas, intrusivas no Maciço de Arouca, assinaladas em Tebilhão, no complexo xistoso] (MOURA, 2001: 37); 2) Rochas hercínicas tarditectónicas: quartzodiorito biotítico [Maciço de Arouca ou plutão de Arouca, maciçamente intruído no Complexo Xistoso das Beiras, formando um maciço bastante homogéneo mineralogicamente, de natureza quartzo-diorítica mas com tendência para os granodioritos (ASSUNÇÃO, 1970, cit. por MOURA, 2001: 37)]; granitos alcalinos, moscovíticos de grão médio e diques de pórfiros [Maciço de Regoufe, com pequena representação na Serra da Freita]. 3) Rochas hercínicas sintectónicas: microgranitos alcalinos com pegmatitos e quartzo associados (localizadas sobretudo na charneira do anticlinal dos xistos do Complexo das Beiras). Estas rochas são granitos moscovíticos, alcalinos, sódicos, localizando-se sobretudo na charneira do anticlinal dos xistos do Complexo das Beiras (MOURA, 2001: 38); 4) Rochas hercínicas: granitos sintectónicos de duas micas, com tendências alcalinas [um dos afloramentos mais interessantes deste tipo de granito é o da Castanheira, um pequeno afloramento granítico no meio dos xistos, que apresenta curiosos nódulos biotíticos, em forma de disco convexo, popularmente designados por “ovos estrelados” ou “pedras paridas”, sendo designados por “pedras parideiras” os granitos nos quais se encontram incluídos os nódulos ovóides] (MOURA, l.c.); 5) Rochas ante-hercínicas: rochas básicas anfibolizadas, que se mostram em filões pequenos, essencialmente constituídos por horneblenda e plagioclase com quartzo, epídoto, esfena e óxidos. Estes filões de rochas básicas localizam-se sobretudo na bordadura ou nos enclaves da faixa granítica ocidental da Serra da Freita, tendo provavelmente derivado da metamorfização de rochas básicas intruídas durante um período de actividade básica da fase geossinclinal pré-ordovícica (MOURA, 2001: 39). No Complexo Xistoso das Beiras inclui-se uma série de metassedimentos, desde os xistos aos grauvaques e quartzitos, sem sequência determinada nem homogeneidade de sedimentação devido a repetição ocasional de fácies (MOURA, 2001: 36).

O Complexo Xistoso das Beiras ou Complexo Xisto-Grauváquico ante-Ordovíco das Beiras, cuja idade tem sido amplamente discutida [de difícil cronologia, talvez do Câmbrico ou Infra-Câmbrico (TEIXEIRA, 1955, cit. por ROCHETTE CORDEIRO, 1988: 91)], possui vasta representação regional, dispondo-se na Serra da Freita em anticlinal de charneira orientada NW-SE, destruída pela erosão e intruída por duas faixas graníticas que se vão perdendo naquele sentido (MOURA, l.c.). Este complexo sofreu metamorfismo regional intermédio entre os tipos de baixa pressão e o barroviano, denunciado por uma intensidade crescente no sentido NW (MOURA, l.c.). Na Serra da Freita, o complexo xistoso é constituído por diversas rochas de diferentes graus de xistosidade: quartzitos, grauvaques castanhos, xistos pelíticos e gresopelíticos de cor diversa, grés metamorfizados e, muito localmente conglomerados. Os xistos metamórficos apresentam, por vezes em quantidade, bons cristais de estaurolite, que se distinguem bem pela sua forma característica em cruz de Santo André e grega (MOURA, l.c.).

Na superfície culminante da Serra da Freita/Arada, maioritariamente acima dos 1000 m, existem diversas formas crio-nivais em concha –nichos de nivação–, por vezes já em fase de desmantelamento (ROCHETTE CORDEIRO, 1986: 162). Observa-se também a existência de vales em berço, muito visíveis e de extraordinária beleza paisagística. Os nichos de nivação apresentam orientações variadas, mas com predominância dos quadrantes de Sul e ter-se-ão formado através de uma acumulação imóvel de neve nos períodos mais frios (ROCHETTE CORDEIRO, l.c.). Durante a idade glaciar do Würm recente, a cumeada da Serra da Freita terá estado numa situação próxima do limite das neves perpétuas, que andaria então pela cota dos 1200 m (ROCHETTE CORDEIRO, l.c.). Esta superfície culminante, actualmente com valores altimétricos entre os 1000 e os 1100 metros, terá sido uma região periglaciar durante o Pleniglaciário Würmiano, ocorrendo então uma situação de manutenção de neve e formação de gelo, com alternância sazonal na acção gelo-degelo (ROCHETTE CORDEIRO, l.c.).

Um fenómeno geológico particularmente curioso que ocorre na Serra da Freita é constituído pelas popularmente designadas «pedras parideiras». AMORIM GIRÃO (1984: 617) descreve-as da seguinte forma: “Na Costa da Castanheira a mesma rocha apresenta, em pontos isolados, mas em grande quantidade, aglomerações lenticulares de mica escura com o carácter de verdadeiros micaxistos, reluzindo ao sol, como um mosaico de efeito surpreendente. Estas aglomerações, por vezes com a forma característica e dimensões aproximadas de ovos estrelados, separam-se com facilidade da rocha envolvente, devido à sua constante desagregação pelos agentes atmosféricos. É o fenómeno das «pedras que parem pedras» da linguagem popular”. Este autor (AMORIM GIRÃO, 1984: 616-617), aborda a geologia da Serra da Freita, referindo a zona de contacto entre os xistos do Pré-Câmbrico e o maciço granítico, na qual se encontram “micaxistos luzentes, acompanhados de cristais de estaurolito em grande profusão”, assim como “possantes assentadas de quartzito, provavelmente silúrico”. Também atribui a esta transição entre a zona granítica e a zona xistosa, “em virtude do diferente grau de dureza das duas rochas”, originando “descidas de nível muito acentuadas” e produzindo-se quedas de água, a existência da imponente Frecha da Mizarela (AMORIM GIRÃO, l.c.)”.

 

E, para finalizar esta lição de geografia física, deixamos aqui um quadro sobre a História da Terra,

 

07.- História da Terra.jpg

 antes de chegarmos a Alvarenga, onde, aqui, depois de registarmos o contorno da rural da sede de freguesia,

08.- 2015 - Alvarenga-Senhora da Mó-Regoufe-Drave

darmos uma vista de olhos à sua igreja matriz

09.- 2015 - Alvarenga-Senhora da Mó-Regoufe-Drave

e tirarmos uma foto ao espigueiro ou canastro que está nas suas proximidades,

10.- 2015 - Alvarenga-Senhora da Mó-Regoufe-Drave

fizemos uma paragem num dos seus cafés para reforçar o pequeno-almoço, mesmo em frente ao seu antigo pelourinho.

11.- 2015 - Alvarenga-Senhora da Mó-Regoufe-Drave

O seguinte passo do nosso périplo por terras do Maciço da Gralheira será objeto do próximo post.

Logo-geopark-negativo.jpg

 


publicado por andanhos às 16:03
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