Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2016

Por terras de Portugal - Casas Senhoriais e Turismo de Habitação (Celorico de Basto)

 

POR TERRAS DE PORTUGAL

 

REFLEXÃO SOBRE CASAS SENHORIAIS PARA TURISMO DE HABITAÇÃO


Aproveitámos, num dos fins-de-semana de janeiro passado, por razões ligadas a um evento gastronómico nas Terras de Basto, mais propriamente na área do concelho de Celorico de Basto, para melhor conhecermos este concelho tão pouco por nós frequentado.

 

Normalmente, em qualquer deslocação que fazemos para fora, quando, como hoje se diz, «saímos da nossa zona de conforto», procuramos planear a saída para aproveitar ao máximo o conhecimento das nossas terras de Portugal. Trata-se de um velho hábito de professor habituado a planear as suas aulas. E, ainda, tanto mais quanto os seus centros de interesse e estudo se prendem (iam) com a área do turismo e do seu desenvolvimento.

 

Deambulando pelos diferentes sítios da internet, uma das primeiras impressões que retirámos quanto ao concelho de Celorico de Basto foi a sua riqueza patrimonial no que concerne à arquitetura, em especial as «Casas Antigas» e/ou Solares.

 

Aliás, quer as Terras de Basto, quer o Minho, em especial Ponte do Lima, são áreas ricas neste tipo de património e no seu consequente aproveitamento para Turismo em Espaço Rural (TER).

 

De entre as várias publicações encontradas, pegámos em duas dissertações de Mestrado: uma, de Sara Miriam Paúl da Silva, com o título «Ponte de Lima - Património Histórico e Turismo: As Casas Senhorias («Casas Antigas») como espaço de Turismo de Habitação», de 2012; outra, de Daniel da Mota Carvalho, com o título «Casas Senhoriais de Celorico de Basto - O entendimento para a estratégia de reabilitação de uma casa nobre», de 2013.

 

Ambos os autores, no enquadramento teórico, fazem um pouco da história da evolução da casa nobre portuguesa. Daniel da Mota Carvalho, porquanto a sua dissertação de mestrado é na área da arquitetura e na proposta de reabilitação de uma casa antiga para Turismo de Habitação, no seu enquadramento teórico acrescenta um capítulo relacionado com as questões ligadas à teoria do restauro, partindo do Renascimento, indo até à Convenção Nacional francesa, falando, depois, do restauro estilístico e romântico, e as teorias do restauro italiano para, a final, falar sobre a Carta de Atenas (1931); o Congresso de Veneza (1964); o ICOMOS; a Carta Europeia do Património Arquitetónico e a Declaração de Amesterdão (1975), numa linha em que o autor defende que a “ conservação seguir-se-ia a recomposição só depois a remoção de acrescentos ou desmontagem de partes não originais finalmente a contemplação e, num significativo último lugar a inovação.".

 

Porque não é nossa intenção, neste post, enveredarmos pelas questões relacionadas com a problemática do restauro, vamos apenas privilegiar um pouco a história da «Casas Antigas» e o seu aproveitamento para Turismo de Habitação.

 

Demos a palavra a Sara Miriam Paúl da Silva: “As Casas Antigas são caracterizadas pela sua arquitetura erudita, remontando, algumas aos séculos XVII e XVIII. Guardam nelas relíquias de família e grandes obras de arte. Estas casas são grandes e seculares, ostentando, algumas delas, uma pedra de armas, símbolo de linhagens. Passou a designar, na linguagem de hoje, a casa antiga, secular, grande, apalaçada, com qualidade estética, em zona rural ou em pequena povoação possuída durante várias gerações por uma família nobre, na grande maioria dos casos ostentando pedra de armas no exterior. As Quintas e Herdades são caracterizadas pelo acolhimento que decorre num ambiente mais rural, inserido num contexto agrícola. A arquitetura é clássica e tem um toque de rusticidade. Acrescem, ainda, as Casas Senhoriais e Solares. A casa senhorial portuguesa tem diversas definições, segundo o que é relatado no “Roteiro Casas Senhoriais Portuguesas”. Pode ser um palácio que foi a residência de Reis, ou um Paço que também seria uma habitação de Reis, Infantes ou Bispos, ou passaria a chamar-se assim, caso um Rei tivesse lá passado uma noite. A palavra solar deriva da palavra latina solum que significa chão e significa uma casa onde teve origem uma família nobre. Para que uma casa seja considerada solar, não é necessário que tenha torre, castelo ou casa forte, mas se as tiver, mais nobre é considerado o solar. No caso dos solares e casas apalaçadas as capelas são muito frequentes. Poderá também ser um solar, caso nessa casa tenha origem uma família ou uma quinta, caso existam terras que estejam cercadas por muros. Quando na origem da casa existia uma torre, esta é apelidada com este mesmo nome ou pode ainda ser chamada de casal, no caso de existirem terras limitadas por marcos e quando esta teve origem num emprazamento de bens. A casa senhorial portuguesa pode ainda ser chamada como tal, comparativamente a outras construções também notáveis existentes num determinado local, mas apenas se aí viveu ou vive uma família de origem nobre. Há ainda as casas do mosteiro, que no período de extinção das ordens monásticas (com o liberalismo ou a república) foram vendidas em hasta pública e se tornaram residência de uma determinada família [...] (...) Muitas Casas Antigas, plenas de espessura histórica (muitas ligadas à nobreza fundacional de Portugal) sobreviveram, desempenhando ao longo do tempo muitas funções. Começando por ser, muitas vezes casa de defesa e tornando-se mais tarde, vários séculos depois em casas senhoriais que se transformaram em casas para Turismo de Habitação.”.

 

Referindo-se existir uma maior concentração de Casas Antigas no Norte (particularmente entre o Douro e Minho), a autora escreve: “Os dados provam que existe uma maior concentração de casas de turismo de habitação na região Entre Douro e Minho. Talvez a explicação para este caso seja de natureza histórica dado ter sido uma zona senhorial, de forte densidade da nobreza portuguesa que esteve associada ao processo histórico de formação de Portugal. A este acrescenta-se uma grande rede de comunidades monásticas no Entre-Douro-e-Minho, que justifica a designação de «Norte Senhorial»”.

 

E, noutro local, diz: “A arquitetura setecentista do Norte do País é uma das mais originais contribuições portuguesas para o barroco europeu. (...) O Norte “salta” do gótico para o barroco, o que contrasta com o sul. O Renascimento tem uma arquitetura que se revela clara e estável, no barroco é mais dinâmica e inquietante, espírito dramático, e as fachadas (muito importantes no Norte) exploram o conjunto casa-natureza. Desenvolve-se na horizontal, e as casas possuem dois andares – o de cima é o andar nobre e as janelas neste piso são mais ricas. No piso inferior existem os celeiros e as adegas.”.

 

Os elementos que melhor definem a casa nobre setecentista, segundo Carlos Azevedo, na opinião desta autora são:


- A concentração do esforço arquitetónico e decorativo na fachada, principalmente na entrada nobre, e a tendência de acentuar a linha superior dos frontispícios pelo emprego de frontões ou ornatos;


- O desenvolvimento horizontal das fachadas, muitas vezes articuladas por pilastras, pouco salientes, que a dividem em três ou mais secções, com a existência, por vezes, de barras horizontais;


- A valorização da escadaria no exterior e no interior.

 

Depois a autora, falando do uso deste tipo de património para fins turísticos, afirma que o Turismo de Habitação, com a nova lei, criada em 2008, ficou enquadrado, do ponto de vista legal, no chamado Turismo no Espaço Rural, que engloba o Turismo de Habitação e o Turismo no Espaço Rural, consideradas diferentes práticas turísticas.

 

Sobre o papel da TURIHAB (Associação do Turismo de Habitação), afirma a autora que vimos citando que, esta entidade “criou uma imagem de marca, os Solares de Portugal, (negrito nosso) que classifica os diferentes tipos de casas existentes no país em três categorias «de acordo com a realidade de alojamentos existentes». Os solares de Portugal encontram-se divididos assim em três classes:


- «Casas Antigas» - caracterizadas por uma arquitetura erudita com incidência entre os séculos XVII e XVIII, podendo no entanto ser incluídas casas com valor patrimonial autêntico, marcando épocas e movimentos da história. Estas casas encontram-se recheadas de mobiliário da época e muitas delas guardam preciosas relíquias de família. Pode-se ficar alojado na própria casa ou em pequenos apartamentos usufruindo sempre do mesmo ambiente;


- “Quintas e Herdades” – caracterizadas pela existência de uma propriedade agrícola, onde o acolhimento apresenta uma componente marcadamente rural e cuja casa principal poderá enquadrar-se na arquitetura clássica erudita ou rústica;


- “Casas Rústicas” – caracterizam-se mais pelo valor etnográfico que o arquitetónico, utilizando materiais da sua região, de arquitetura simples e usualmente de pequenas dimensões, confortável e prático. Localizam-se em ambiente rural, oferecem momentos de calma e de sossego próprios da vida no campo.”.

 

E, mais à frente, adianta: “O turismo feito em espaço rural, é uma forma de preservação e valorização dos recursos ambientais e patrimoniais, conserva o meio ambiente e propicia o desenvolvimento cultural. Um património natural e cultural intacto e bem aproveitado é uma forma de promoção (...)”. Para, depois, rematar: “A gastronomia, a produção agrícola, as acessibilidades, a cultura e a tradição entre outros fatores são meios que permitem (facilitam, incentivam mesmo) a atracão por uma determinada região, promovendo, assim, o afluxo de turistas que vão em busca de algo diferente, que não têm nas suas vidas do dia-a-dia, procurando, tantas vezes, uma calma que não conseguem ter nas suas rotinas diárias.”.

 

Contudo, nem tudo quanto às Casas Antigas ou Senhoriais portuguesas, é um «mar de rosas», infelizmente!

 

Estamos com Sara Miriam quando afirma que “cada uma das casas mereceria uma monografia mais desenvolvida e uma pesquisa que as identificasse cabalmente”. Bem assim na postura de alguns dos seus proprietários, com o dever de facultarem o acesso à Casa, sua informação e potencialidades, tanto mais que, alguns deles, foram beneficiários de fundos para o seu restauro e utilização turística.

 

A autora, nas Conclusões da sua dissertação, afirma: “O que é certo, é que para os turistas, uma das maiores razões para se instalarem nestas casas é a de reviverem o passado, que remontam sempre ao antigo, ao passado, tendo sempre um certo toque de conforto e modernidade. De alguma forma é uma maneira de fugir à rotina, uma forma de sair da maneira de viver habitual. É, ainda, uma forma de conviver com culturas diferentes, não só típicas da região mas também próprias de outros turistas que frequentam a mesma casa no mesmo momento.


Este convívio é mesmo geracional, porque as pessoas que frequentam estas casas e que praticam este género de turismo, têm as mais variadas idades, dos mais jovens que se deslocam em grupo para se divertirem, usufruírem das diversas atividades oferecidas, da praia, piscina, entre outras, aos mais velhos que vão para descansar, aproveitar a calma e a tranquilidade que a natureza e o ar do campo oferecem. Este tipo de turismo oferece calma, a amabilidade das pessoas em receberem em suas casas e a troca de culturas. Quem pratica este tipo de turismo tem experiências diferentes, visto que há a interação com outros turistas, de diferentes nacionalidades, culturas e até estratos sociais. As pessoas que praticam este tipo de turismo são normalmente de um nível social superior e têm estudos. Maioritariamente são portugueses mas também estrangeiros que ficam por mais tempo. Se nos focamos nas Casas Antigas a verdade é que elas não são ilhas, integram-se e procuram integrar-se na envolvente (...)”.

 

Como dissemos, num dos fins-de-semana de janeiro passado, aproveitámos para visitar algumas das muitas Casas Antigas de Celorico de Basto. O seu Plano Diretor Municipal, Processo de Revisão, Volume III - Carta do Património Arquitetónico do Concelho de Celorico de Basto (novembro de 2013), identifica 85 Casas e 42 Solares. Na obra citada de Daniel da mota Carvalho os números não andam muito longe, embora não apresente a classificação entre Casas e Solares.

 

Apresentámos, num dos últimos posts, a Caca de Gandarela e o seu jardim em topiaria.

 

Vamos agora mostrar ao leitor (a) mais 5 Casas que visitámos (tudo só por fora!...)

 

• A Casa do Campo, em Molares,

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destacando-se a sua capela

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e os seus jardins em topiaria.

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Está a ser utilizada para Turismo de Habitação.

 

• A Casa da Boavista, freguesia de Veade,

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vista em panorâmica, e depois em «zoom»,

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pois não foi possível obter o acesso mais perto.

 

Segundo a informação de um taxista de Celorico, vai abrir, para fins turísticos, na próxima primavera ou verão.

 

• Ainda na freguesia de Veade, a Casa do Outeiro,

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com um jardim de topiaria em pleno abandono, destacando-se uma ou outra flor de camélia,

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e a precisar de um melhor arranjo e outro uso, também compatível com a sua «nobreza».

 

Quando nos dirigíamos para o Castelo de Arnoia, na freguesia de Arnoia, demos com duas Casas à espera também de restauro, ou melhoramentos, dando-lhes uma valência também compatível com a sua «nobreza»:

 

• A Casa de Toiande (?), em Bouça,

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Com a sua impressiva pedra de armas na fachada principal,

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em parcial abandono, começando a ser palco de pasto das heras.

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• A Casa de Telhô,

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com uma bonita escadaria e a pedra de armas ao lado da fachada principal.

13.- AZS_10001 (14).jpg

Aguardamos mais uma ida a Celorico de Basto para elencarmos mais património arquitetónico, principalmente desta natureza, que, no fundo, faz parte da História e da nossa memória coletiva.

 

Deixamos, para finalizar, aqui a inquietação/interrogação da nossa autora, no início ou Introdução do seu trabalho: “Por isso nos interrogamos acerca do significado deste modelo turístico na manutenção deste património, na sua perpetuação e sustentabilidade. E que tipo de sensações e ofertas são criadas junto do turista, no espaço doméstico e para fora dele nos prolongamentos com o ambiente rural.”.

Inquietação/interrogação que nos sugerem outras tantas:


• Será que este património (as «Casas Antigas») é um fator de atração turística, face ao abandono de muitas que vemos?

 

• Será que as iniciativas turísticas desta natureza contribuem para o desenvolvimento económico dos espaços rurais ou urbanos em que se situam?

 

• Será que o desenvolvimento desta atividade turística traz proventos, quer ao diretos proprietários, quer às comunidades em que se inserem?

 

• Será que o modelo de desenvolvimento que seguimos em Portugal é integral e harmónico, respeitador de todo o território nacional e atendendo às suas respetivas especificidades?

 

• Porque será que o interior está cada vez mais desertificado, sem pessoas e com um património natural e patrimonial ao abandono e em ruínas?

 

Neste campo, o do desenvolvimento territorial, não se trata de fatalidades.

 

Trata-se, sim, de opções!


publicado por andanhos às 20:23
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