Quinta-feira, 26 de Outubro de 2017

Por terras de Portugal - Caminhada Fisgas de Ermelo - I Parte

 

 

POR TERRAS DE BASTO

 

CAMINHADA (PR 3 MB) PELO TRILHO DAS FISGAS DE ERMELO
(EX-LIBRIS DA SERRA DO ALVÃO)

 

I PARTE

00.-2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (196)

Desde que este trilho foi oficialmente aberto pelo Instituto de Conservação da Natureza e pela Câmara Municipal de Mondim de Basto, estávamos ansioso por o fazer.

 

Contudo, a oportunidade não surgiu mais cedo do que esperávamos. Às vezes torna-se difícil conciliar as vidas daqueles com quem habitualmente caminhamos. E o momento custava a surgir. Até que, em véspera do dia das Eleições Autárquicas 2017, decidimos efetuar este percurso. Era a primeira vez que efetuávamos um percurso sem ninguém a acompanhar-nos. Sozinho.

 

Foi, assim, uma caminhada solitária, no mais profundo silêncio da serra do Alvão, no meio de uma natureza quase virgem. Sem vivalma. De gentes e de, praticamente, outras criaturas. Nem as acostumadas cabras montesas destas bandas nos apareceram. Apenas vimos o seu rasto pelos dejetos deixados no leitor de paisagem «Fisgas de Ermelo».

 

Sob um sol intenso, a partir do meio dia, apenas um ou outro “saltarico” que, aqui e ali, corria à nossa frente ou um ou outro casal de mariposas e duas ou três irrequietas levandiscas nos foram pontualmente acompanhando.

 

Uma caminhada a convidar à reflexão e meditação.

 

E feita de uma forma muito pausada, até porque, durante a primeira parte do percurso, e até Varzigueto, o trilho tem uma subida bem acentuada. O seu desnível acumulado é de 650 metros.

 

Como é habitual, costumamos, para as caminhadas que efetuamos, ir devidamente informados sobre os diferentes troços do percurso a efetuar.

 

Para além prospeto referente ao PR3 MB, não dispensámos a leitura de mais duas publicações do blogue «Viajar entre Viagens»:

* As Fisgas de Ermelo, o ex-líbris da Serra do Alvão|Portugal.
DICAS do Trilho das Fisgas de Ermelo (Serra do Alvão)|Portugal.

 

Para um conhecimento mais detalhado, e em profundidade, da localização da área das Fisgas de Ermelo, clima, hidrografia, vegetação, caracterização geológica, valores naturais e ambientais, fauna, flora e rio Olo) e Proposta de gestão da Visitação do PR 3 MB, é de ler atentamente a Dissertação de Mestrado em Gestão de Recursos Naturais – Proposta de Valorização das Fisgas de Ermelo -, de Hugo Luís de Almeida Mourão, apresentada, em 2017, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).

 

Para não nos repetirmos, devemos ter em conta as “Dicas Gerais” constantes do blogue «Viajar entre Viagens» - DICAS do Trilho das Fisgas de Ermelo (Serra do Alvão)|Portugal.

 

Fomos, assim, percorrer este trilho, nas palavras dos autores do blogue acima citado, à descoberta da alma do Alvão.

 

 

1.- De Ermelo até ao Leitor de Paisagem LOMBO DO BULHÃO, passando pela ribeira de Fervença

 

Começámos este trilho cerca das 9 horas e 30 minutos da manhã, de um dia de outono que prometia muito sol, depois de termos estacionado a nossa viatura num pequeno largo, adjacente ao café da aldeia.

 

Estacionado o carro, e mochila às costas, com o respetivo bastão e máquina fotográfica a tiracolo, de imediato nos dirigimos para a Igreja Paroquial de Ermelo,

2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (1)

lugar onde, oficialmente, começa o PR 3 MB Fisgas de Ermelo.

2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (5)

 Desde o café até ao desvio à esquerda 

02.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (19)

que, descendo, pelas Catrinas, nos leva à ribeira de Fervença, fomos acompanhado por uma simpática habitante da aldeia a quem lhe íamos fazendo perguntas relacionadas com o trilho. Ela, por seu lado orgulhosa, diz a terra ser muito frequentada por forasteiros para fazerem este percurso. Referiu, inclusive, que sua filha já o tinha feito com um grupo de amigos, de fora.

 

Pela nossa parte, temos a confessar que estávamos a contar com uma aldeia com o seu casario mais vernacular e castiço, com as suas casas típicas de xisto e os telhados de lousa ou ardósia. Ermelo, na nossa modesta opinião, está já muito descaracterizado, apesar de existir explorações de xisto nas proximidades de Ermelo, e com a facilidade de transporte deste material para as construções. Na verdade, a aldeia possui um grande número de construções novas, com a ausência daquele material, que chocam com a arquitetura das construções mais antigas.

03.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (11)

O desenvolvimento de Ermelo tem a ver também com a sua localização estratégica como ponto de passagem do Caminho da peregrinação a Santiago de Compostela.

 

A partir daquele desvio à esquerda, iniciámos uma curta descida,

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(Troço I)

2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (37)

(Troço II)

 e até à bonita ponte em madeira sobre a ribeira de Fervença, afluente do rio Olo.

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Diz-nos a «Proposta de valorização das Fisgas de Ermelo» quea ribeira de Fervença rompe sobretudo bancadas de quartzito maciço e circula num vale fluvial segundo uma direção WNW-ESSE. A montante da aldeia de Ermelo a ribeira de Fervença vai confluir com o rio Olo. Ao longo do percurso quando se atravessa a ponte de madeira sobre a ribeira de Fervença, é possível observar o transporte dos sedimentos ao longo do curso da água e a sua deposição nas margens. A energia necessária para transportar os blocos graníticos da cabeceira da ribeira teria de ser bastante grande”.

 

Aqui observamos um leito de uma ribeira praticamente seco, repleto de matéria pétrea reboliça, consentâneo com um curso de água de montanha.

 

A partir daqui, iniciámos a nossa longa subida até às proximidades da segunda aldeia do nosso percurso – Varzigueto.

 

Num primeiro momento, embora em curtos metros, tivemos que trepar praticamente num solo não só com uma significativa pendente, mas também irregular e estrito, pelo meio de rochas quartzíticas. Tivemos de nos apoiar, para nossa segurança, em cordas presas a estacas de madeira firmemente afixadas naquele solo íngreme.

2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (62)

(Início)

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(Fim)

Pouco depois de ultrapassada aquela difícil zona quartzítica, aparece-nos este típico armazém.

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E continuámos a subir. Agora por um caminho tipo corta fogo.

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Aqui e ali parávamos para recuperar o folego. E, olhando para trás, comtemplávamos a paisagem que se nos oferecia aos nossos olhos, com a aldeia de Ermelo, ao cimo, a espreitar-nos.

09.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (84)

Quanto mais subíamos, mais vezes também parávamos. E, a paisagem que nos rodeava, encantava-nos,

10.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (96)

seja qual fosse o lado para que olhássemos.

10a.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (76)

Quase a chegar ao Leitor de Paisagem «Lombo de Bulhão», à nossa esquerda, a silhueta do Monte Farinha.

11.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (104)

Fazendo zoom com a máquina, ei-lo, parecendo perto de nós.

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Até que, a determinada altura, numa curva apertada, virada para a serra e sobranceira às escarpas, onde se começa, ao longe, a vislumbrar e ouvir um pequeno sussurro de queda de água, chegámos ao primeiro Leitor de Paisagem «Lomba do Bulhão»!

13.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (120) 


2.- Do leitor de paisagem «Lomba do Bulhão» até ao leitor de paisagem «Alto da Cabeça Grande»

 

Aqui fizemos uma paragem um pouco mais demorada para apreciarmos todo o entorno que nos rodeava, com toda a biodiversidade que a serra aqui, neste local, nos apresenta. Mas nosso olhar focou-se mais em frente, do lado direito do Leitor de paisagem.

14.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (131)

(Perspetiva I)

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(Perspetiva II)

15a.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (132)

 (Perspetiva III)

A partir da «Lomba do Bulhão», o nosso percurso modifica-se totalmente. Deixámos o caminho que, apesar de vir sempre a subir, mas relativamente cómodo, é substituído por um trilho/vereda, com uma ascendente, ainda mais acentuada, mais parecido com um caminho de cabras – apesar de não termos visto nenhuma -, obrigando-nos a caminhar ainda mais pausadamente.

 

O percurso, conforme vamos subindo, por aquela vereda pedregosa e íngreme, decorre em pleno descampado, sem praticamente nenhuma árvore, e, tão só, e essencialmente, um chão coberto de urze e carqueja, com o sol a pique,

16.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (139)

indo ao encontro do vale do rio Olo e das suas escarpas.

 

Quase no final desta “sofrida” subida encontrámos um verdadeiro abrigo/esconderijo.

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Por debaixo de uma aba de uma fraga quartzítica, com sombra, parámos mais demoradamente. Para descansar, hidratarmo-nos e comermos frutos secos.

18.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (154)

A paisagem que tínhamos visto na «Lomba do Bulhão» agora estava mesmo de frente de nós, desafiando-nos à sua descoberta e compreensão.

 

E, ali, sentado, pegámos no nosso telemóvel, onde guardávamos bibliografia, Quadros e Mapas e, principalmente, a «Proposta», acima referida, de Hugo Mourão, para, com a ajuda do seu texto em pdf, tentarmos procurar compreendê-la e decifrá-la.

 

Analisámos um quadro sobre as eras, períodos e épocas (geológicas) do nosso Planeta.

 

Informámo-nos que, este lugar, em termos de caracterização geológica, está integrado no Maciço Ibérico (Maciço Antigo ou Maciço Hespérico), um fragmento do soco varisco que apresenta idades que vão do Precâmbrico ao Paleozoico Superior.

 

E saber que “Há cerca de 550 milhões de anos, no Câmbrico, a Península Ibérica ocupava a margem Norte da Extensa placa Gondwanica. Neste período, ocorreu a abertura de um fosso marinho continental (Rifte continental) gerado por estiramento da crusta que contribuíram para o seu adelgaçamento e para a ocorrência de movimentos subsidentes. Este processo permitiu a deposição de uma extensa e espessa sequência de sedimentos turbidíticos pelo abatimento de grandes blocos da crusta dando origem à formação de bacias profundas de sedimentação (…)”.

 

Que “No final do Câmbrico, o regime extensional que permitiu a deposição de uma coluna de sedimentos, passou a um regime transgressivo dando lugar a uma sedimentação marinha de baixa energia e profundidade no Ordovícico Inferior onde se depositou o Quartzito Armoricano (…)”

 

Que “No Ordovícico Superior, a expansão do oceano primitivo deu origem à alteração da sedimentação, passando de baixa profundidade para maior profundidade, prosseguindo até ao Devónico (…). Na transição para o Silúrico na região, verifica-se uma lacuna, onde faltam terrenos do topo do Ordovícico. Esta transição faz- se de forma gradual de xistos ardosíferos para xistos negros carbonosos. A instabilidade da litosfera oceânica evolui para uma situação de subducção onde a placa Armórica individualiza-se, deslocando-se no sentido das placas Laurentia e Báltica dando origem à deformação dos materiais até então depositados. No fecho do Oceano primitivo e formação da Pangeia, a deformação acentuou-se e formaram-se magmas que ascenderam com facilidade através dos núcleos dos anticlinais gerados no processo colisional (…).

 

Que, quanto à geologia do lugar onde estávamos, as rochas presentes – que pisávamos e à nossa frente – “pertencem sobretudo ao autóctone da Zona Centro-Ibérica. As formações estendem-se desde o Câmbrico até ao Devónico. Na zona envolvente às Fisgas de Ermelo predominam rochas metamórficas de origem sedimenta, enquanto a Oeste predominam rochas essencialmente graníticas”, ou seja, mais para montante.

 

Deixemos o texto que nos fala dos terrenos autóctones, desde a formação de desejosa (Câmbrico Superior) até à formação do quartzito armoricano (Ordovícico inferior), entre outras formações que integram a serra do Alvão, para nos centrarmos, primacialmente, no rio Olo e na sua orientação.

 

A Carta Geológica, de Hugo Mourão (adaptada), ajuda-nos a compreender, na área do Parque Natural da Serra do Alvão, a constituição das suas rochas, em particular a desta área.

18a.- Carta Geolópgica do PNA

Mas o que também nos aguçou a curiosidade era o rio Olo.

 

Pegámos no texto de Carla Mota e Rui Pinto, constante do blogue «Viajar entre Viagens», subordinado ao tema «As Fisgas de Ermelo – o ex-libris da serra do Alvão», postado em 16 de junho de 2015, e começámos a ler:

Na Serra do Alvão distinguem-se duas áreas com morfologia e paisagem distintas consoante a sua litologia. Uma área granítica de planalto, onde se localizam as povoações de Alvadia e Lamas de Ôlo e uma outra, fortemente recortada pela acção da tectónica, predominantemente xistosa, onde se desenvolvem vertentes declivosas em direcção aos vales encaixados dos principais cursos de água: o rio Ôlo, o rio Cabril e o rio Poio. O contacto destas duas unidades litológicas é feito por uma barreira quartzítica que marca a transição da paisagem, e na qual se localiza o mais emblemático acidente geomorfológico regional: as quedas de água das Fisgas de Ermelo.

O rio Ôlo constitui um dos cursos de água mais importantes do Alvão, senão mesmo o mais relevante. Com um percurso de 42 km, nasce na Cabeça de Tamões a 1 263 m de altitude e corre pelos granitos até alcançar a povoação de Lamas de Ôlo.

18b.- Fisgas de Ermelo - Rede Hidrográgica na área do PNA

Quando o rio Ôlo chega aos xistos, no vale de Cerdeira, vai serpenteando e adapta-se às fragilidades da estrutura, correndo num vale encaixado até às proximidades da aldeia de Varzigueto. Aqui o curso de água encontra-se a uma cota que ronda os 700 m de altitude. A jusante, o rio atravessa uma bancada quartzítica, responsável pela crista mais imponente do Parque Natural do Alvão e que dá origem à imagem de marca deste parque – as Fisgas de Ermelo.

O curso de água aproveita as falhas e fracturas que existem no local para efectuar o seu trajecto num percurso de 2 500 m, deparando-se com um desnível de 400 m de altura. Trata-se de um caso de adaptação da rede hidrográfica à tectónica e particularmente à fracturação. Este local, designado por Fisgas de Ermelo, deve o seu nome à proximidade da aldeia de Ermelo, bem como ao facto do rio atravessar os quartzitos, criando várias quedas de água e assim, “esfisgar” nos mesmos.

18c.- Rio Olo - Perfil Longitudunal e Litografia

O rio Ôlo quando atravessa as bancadas de quartzito fá-lo transversalmente às formações, criando uma série de quedas de água consecutivas que se vão quebrando em cavidades onde a água se acumula e que as populações locais designam por “piócas”. Durante o percurso em que o rio Ôlo atravessa os quartzitos, o curso de água cria uma série de “marmitas de gigante”, que chegam a atingir entre dois metros e dois metros e meio de profundidade e cerca de 70 a 80 cm de largura. Na área das Fisgas, as vertentes apresentam-se bastante escarpadas e com uma coloração amarelada, proveniente do desenvolvimento dos líquenes Dimelaena oreina, que se fixam nestas paredes rochosas e marcam a paisagem. A “fraga amarela”, do lado norte, é um bom exemplo.

Na base deste trajecto do rio pelos quartzitos, o curso de água volta a entrar nos xistos, perdendo-se de vista e criando aquilo a que os populares chamam «cauda de arganaz». Aqui o rio atravessa um vale extremamente encaixado com vertentes rochosas com declive quase vertical, ideais para a prática de canyonning, já que este troço é praticamente impossível de ser percorrido a pé sem o auxílio de cordas. Aqui, o rio passa dos 480 m para os 390 m de altitude. A jusante deste vale, o rio inflecte de direcção e acompanha uma falha que se estende de Cavernelhe a Ermelo. Neste percurso voltam a aparecer três grandes “piócas” que resultam da acção erosiva do rio nos quartzitos. Estas apresentam cerca de 10-12 m de largura e 12-15 m de comprimento, com uma profundidade de cerca de 4-5 m em alguns locais.
A jusante da aldeia de Ermelo, na Volta da Lousa, o rio corre sobre os xistos, mas antes de confluir com o rio Tâmega, o curso de água volta a atravessar uma área granítica, correndo num vale de falha encaixado”.

 

Procuremos saber os pontos nevrálgicos do curso do rio Olo, usando o Mapa de Hugo Mourão, sito na sua obra citada, e atentemos no seu texto de suporte:

19.- Percurso-Orientação do rio Olo

 O rio Olo durante o seu percurso vai-se deparando com obstáculos, procurando pontos de fraqueza das rochas, quer seja pela diferente friabilidade das rochas ou das diferentes direções de fraturação. Em Varzigueto, sobre formações quartzíticas, o rio circula de E para W segundo a direção N 70°W (ponto A do mapa supra). A seguir à ponte que liga Varzigueto à estrada para o Bilhó (estrada municipal 1206) o rio sofre uma inflexão para SW (ponto B do mapa supra). Mais a frente, e durante cerca de 250m, o rio retoma uma direção muito próxima daquela que trazia antes da ponte de Varzigueto (ponto C do mapa supra). No ponto D (do mapa supra) o rio sofre uma inflexão de praticamente 90° para S, seguindo uma falha que se estende ao longo de aproximadamente 800m com a direção de fraturação N20°E. No ponto E o rio abandona a direção N20°E e segue para NW segundo a direção de fraturação N70°W ao longo de cerca de 300m. A partir do ponto F o rio inicia um conjunto de quedas em que o curso de água se sujeita as direções de fraturação dominantes (N10-20°E, N40-50°E e N60-70°W) no maciço quartzítico. Devido à força erosiva da corrente do rio, vão sendo cavados os patamares formando assim as quedas de água das Fisgas de Ermelo. No ponto G devido à friabilidade das finas camadas de xisto que se encontram intercaladas com os quartzitos e pelo diaclasamento, o rio praticamente fica escondido, “enfisgando-se” na rocha segundo a direção N40°-50°E, dando origem ao nome “Fisgas de Ermelo”. No ponto H, conhecido como piocas de baixo, o rio descreve uma curva para S, penetrando as bancadas de xisto ricas em ferro que oferecem menor resistência à erosão fluvial. Ao intercetar uma bancada mais quartzítica o rio Olo cava as marmitas de gigante que são depressões cilíndricas, circulares ou elípticas com dimensões variáveis que têm a sua origem no efeito abrasivo de sedimentos grosseiros, transportados pela corrente e que adquirem movimento rotativo sobre as depressões do substrato. Este material detrítico por sua vez vai adquirindo uma forma arredondada em consequência do efeito abrasivo que ele próprio vai sofrendo. Para que possa ocorrer estas formas, a corrente da linha de água terá de possuir uma elevada energia cinética, constituindo-se assim uma série de piocas. A seguir às piocas de baixo, o rio Olo corre praticamente segundo a direção N60°W até à confluência com a ribeira de Fervença (ponto I) [Negrito nosso].

 

Passou bem de meia hora que estivemos neste semi-refúgio, descansando, comendo, lendo e meditando sobre a nossa imensa pequenez no contexto de um planeta tão “velho” e de uma natureza, sujeita tantos milhões de anos a tão variadas “convulsões”!

 

Mas urgia prosseguir caminho, indo ao encontro daquilo que, neste trilho, mais nos fascina – as célebres “Fisgas”.

 

Saímos do nosso “esconderijo”

20.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (152)

e, percorridas poucas dezenas de metros, estávamos já em plena estrada florestal.

21.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (165)

Aqui, no alto, olhando para um lado

22.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (161)

e para outro, sempre a mesma natureza, solitária e agreste!

23.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (164)

O sussurro, débil, das águas a escorrerem pelas fragas, começava a fazer-se sentir mais de perto. Lentamente, e à nossa esquerda, íamo-nos aproximando das tão proclamadas Fisgas de Ermelo.

24.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (166)

Ao alto, do lado esquerdo da enorme cascata, com um total de cerca de 320 metros de queda de água, ou desnível, “penetrando as rochas metamórficas, quartezíticas, com cerca de 485 milhões de anos”, a Fraga Amarela – assim chamada pelos líquenes da espécie Dimelaena oreina, fixados na rocha, dando-lhe a coloração amarela.

2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (171)

Refere Hugo Mourão, na obra que vimos citando, que neste local escarpado localizam-se os últimos ninhos de águia-real, quando nidificam na região. São escarpas praticamente inacessíveis e que nos podem contar uma história geológica desde o Ordovícico inferior até ao Ordovícico médio.

25.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (172)

No fundo, o profundo e estreito desfiladeiro, cuja paisagem é digna de ser apreciada, quanto à riqueza e variedade da sua flora e fauna.

26.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (169)

Saindo do trilho, e virando à esquerda, em poucos metros, por terreno cascalhento, estávamos no Leitor de paisagem «Alto da Cabeça Grande».

27.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (173)

 


3.- Do leitor de paisagem «Alto da Cabeça Grande» até ao Leitor de paisagem «Cancela do Miradouro»

 

Enfim, as Fisgas de Ermelo à nossa frente, vistas de um local onde nunca tínhamos ido!

 

Eis a vista do início do desfiladeiro das Fisgas

28.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (218)

em que é bem visível as múltiplas fraturas da rocha e a água a “esfigar-se” por entre ela.

 

Vejamos agora a perspetiva da cascata principal

29.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (201)

bem assim das sucessivas pias ou “piocas” que, a água em queda, faz na própria rocha.

30.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (209)

E que linda esta perspetiva da “pioca” principal das Fisgas,

31.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (174)

agora vista mais em pormenor!

31a.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (179)

Mais uma perspetiva quase total das Fisgas de Ermelo.

32.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (182)

E, quase a bater no fundo do desfiladeiro, a perspetiva das Fisgas de Ermelo que se veem do Leitor de paisagem «Fisgas de Ermelo», que mais à frente daremos conta.

34.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (193)

O rio Olo, neste local, corre paralelamente à fracturação, ficando “encravado” nas rochas. A razão do nome «Fisgas de Ermelo», segundo Hugo Mourão, na obra que vimos citando, tem a ver com a “friabilidade das finas camadas mais pelíticas no meio das bancadas quartzíticas que vão sendo erodidas mais facilmente pela força erosiva do rio e provoca o “esfisgamento” nas rochas (…) O sistema de falhas e a fracturação neste local permite que o rio se encaixe segundo a direção N40ᵒ-50ᵒE como referido no ponto G” (do mapa que acima exibimos).

 

Saímos deste Leitor de paisagem «Alto da Cabeça Grande» verdadeiramente encantado com esta nova (para nós) perspetiva que as Fisgas de Ermelo nos oferecem. Não nos cansávamos de tirar fotografias… Mas havia que prosseguir a nossa caminhada, agora que já passava bem da uma hora da tarde.

 

Na prossecução do nosso trilho, seguimos por uma escarpa declivosa com postes e cordas protetoras, por meio de um pinhal. No cimo da escarpa, voltámos a encontrar um caminho florestal. Do nosso lado direito, pequenos charcos e um fio de água corria por entre penedos arredondados pela erosão do tempo. Era o rio Olo quase completamente exaurido do seu precioso líquido!

 

Uns metros mais à frente um poste a quem lhe arrancaram as respetivas placas indicativas. Caso raro num percurso bem sinalizado e bem conservado. Nossa intuição dizia-nos que, se virássemos para a esquerda, iríamos ter às piscinas naturais que o rio Olo escavou nas rochas, chamadas Piocas de Cima. E estávamos certo!

 

Aqui se mostra parte de uma destas piscinas, precisamente no exato local onde o rio Olo se “esfiga” e se precipita no desfiladeiro.

35.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (222)

Decidimos parar aqui mais uns minutos, apesar do sol estar abrasador.

 

Sacámos a mochila das costas. Tirámos da mochila o tripé. E começámos, pisando o solo irregular e traiçoeiro com muito cuidado, a tirar algumas fotografias. Entre elas, a da mesma “pioca” da imagem anterior, vista de uma outra perspetiva.

36.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (233)

Olhando um pouco mais para cima, não resistimos a tirar uma foto a esta bonita cascata.

37.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (227)

A presença dos líquenes da espécie Dimelaena oreina, fixados na rocha, dando-lhe a coloração amarela, e da extrema fracturação da rocha, é uma constante.

 

Ao deixarmos as Piocas de Cima, quisemos ficar com um registo geral do local, antes de prosseguirmos pelo nosso trilho.

38.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (239)

A certa altura deixámos o caminho florestal e penetrámos por uma vereda dominada por matagal em que a urze, a giesta, a carqueja, os sargaços e os tojos são a vegetação dominante. Da margem direita do rio Olo, que agora o seguíamos a pouca distância das suas margens, e na da margem esquerda por onde caminhávamos, a vegetação dominante era o pinheiro bravo.

39.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (241)

Foram poucos os carvalhos galaico portugueses ou carvalhos negrais (Quercus pyrenaica), os carvalhos robles (Quercus róbur) e os sobreiros (Quercus suber) que vimos. Um ou outro vidoeiro (Betula alba) aparecia-nos junto à margem do rio.

 

Ao longo deste nosso bonito percurso, nas proximidades da aldeia de Varzigueto, deixamos aqui mais um registo do leito do rio Olo.

40.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (244)

A certa altura, passámos junto de um moinho, seguindo, por alguns metros, a sua levada.

41.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (253)

Adivinha-se que, na primavera, a paisagem deste troço, dada a vegetação rasteira que o compõe, deve parecer um verdadeiro quadro saído das mãos de Monet, dada a predominância das cores lilases, rosas e amarelas.

 

Mesmo à chegada a Varzigueto, eis a desolação do rio Olo e das suas margens!

42.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (258)

Passámos pela aldeia de Varzigueto e não encontrámos vivalma. Talvez a hora do dia – pois já passava bem da uma da tarde - e a canícula convidavam todo o ser vivo a uma sesta repousante.

 

Nesta ponte sobre o rio Olo, sensivelmente a meio do percurso, deixámos a margem esquerda do rio e passámos para a margem direita.

43.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (284)

Na subida, à saída de Varzigueto, o calor, debaixo do pinheiral, ainda apertava mais connosco.

 

O que nos entretinha era, do alto a que tínhamos subido, a paisagem peculiar do leito do rio.

44.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (293)

Subindo mais um pouquinho, víamos, lá ao fundo, o velho e arruinado moinho por onde tínhamos passado e o entorno da aldeia de Varzigueto, com a sua mancha de área agrícola (lameiros e campos agrícolas).

45.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (299)

Por entre dois pinheiros, aparece-nos as Piocas de Cima e, à sua frente, o enorme covão por onde o rio Olo se precipita.

46.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (302)

O calor começava a tornar-se sufocante. Decidimos, por tal facto, fazer uma pausa para descansar e comer do farnel que levávamos.

 

Foi aqui, à sombra destes pinheiros e estirado nesta fraga, com uma vista geral para o percurso que até aquele momento tínhamos feito, que parámos.

47.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (305)

Não demos bem pelo tempo a passar. O silêncio era profundo. Praticamente nenhum som, nem da aldeia, nem do pinhal. Tudo convidava a uma soneca. E cremos, que devíamos ter passado pelas brasas, depois de termos mudado a roupa, pois, a que trazíamos, estava toda encharcada de suor. Estávamos mais descansado, pois sabíamos que agora, o caminho que restava -sensivelmente metade -, era, praticamente, todo a descer. Não fora o calor que se fazia, o percurso não passava de uma passeata.

 

Levantámo-nos de cima da fraga e encetámos o nosso caminho de regresso a Ermelo. Mas antes tínhamos mais um Leitor de paisagem à nossa espera - «Cancela do Miradouro».

48.- 2017.- (PR3MB) - Fisgas de Ermelo (321)

Sobre este Leitor de paisagem deixamos a nossa prosa para o próximo post.


publicado por andanhos às 10:10
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