Sábado, 16 de Setembro de 2017

Por terras de Portugal - A pesca em Espinho - Xávega, a Arte Grande

 

 

POR TERRAS DE PORTUGAL


A PESCA EM ESPINHO – XÁVEGA, A ARTE GRANDE


UMA VISITA AO MUSEU MUNICIPAL DE ESPINHO
- FORUM DE ARTE E CULTURA DE ESPINHO -

 

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No já longínquo ano de 2013, a 27 de fevereiro, depois de vários anos fazendo longas temporadas em Espinho, onde nos ligam laços com amigos antigos, e sem nunca termos assistido, para os lados do bairro dos pescadores, a nenhuma cena de pesca, decidimos, finalmente, fazer uma visita ao Museu Municipal de Espinho|Forum de Arte e Cultura de Espinho,

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sediado nas antigas instalações da Fábrica de Conservas Brandão, Gomes & Cª.

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No recinto ou logradouro do Museu, estas espécies museológicas – os barcos «Vicking», numa

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e noutra perspetiva

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e o «Mar Salomão», também numa

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e noutra perspetiva.

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Entrámos.

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No blog oficial do Museu, podemo-nos inteirar que, na conceção museográfica esteve presente a preocupação de se patentearem três exposições permanentes: a) a Fábrica de Conservas; b) a Arte Xávega e c) o Bairro Piscatório/Operário. Constatámos também que a funcionalidade do Museu Municipal passa também por uma Galeria de Exposições Temporárias; pelo Centro de Documentação e Investigação em História local e por um Serviço Educativo aberto às escolas e restante população.


Recordamo-nos que tínhamos, naquela altura, um interessante livro de cabeceira, de Miguel Unamuno - «Por Terras de Portugal e Espanha» -, o atribulado Reitor da Universidade de Salamanca, persona non grata da ditadura franquista, um grande homem de letras e da cultura Ibérica, e grande amigo de Portugal, a cujo nome (como também ao do Cervantes), o nosso poeta maior, de nome de batismo Adolfo Rocha, foi buscar um dos elementos da sua identidade literária – Miguel -, passando-se a chamar Miguel Torga.


Das três exposições permanentes, no fundo, apenas prestámos mais atenção à da «Arte Xávega».


Estávamos influenciado pela leitura que havíamos feito do referido livro de Unamuno quando, em agosto de 1908, estando em Espinho nos relata, sob a designação do capítulo «A Pesca em Espinho», a Arte Grande ou a Arte Xávega em Espinho.


Deste escrito já lá vai mais de 100 anos. E, em 100 anos muito muda. A pesca em Espinho, nessa altura, era um verdadeiro e quase exclusivo modo de vida daquelas gentes, que, com a sua atividade, deram origem à cidade que é hoje. Transformou-se, depois com os anos, numa verdadeira atração turística.


Hoje, e conforme se pode ler no opúsculo «A Arte da Xávega em Espinho», da Fundação Navegar, Centro Multimeios de Espinho, 2003, 2ª edição, de 2007, da pena do então Presidente da Câmara, José Mota, “A Arte da Xávega deixou de ser uma atração turística para quem vinha assistir à chegada dos barcos, para constituir um sofrimento permanente para quem dela retira os magríssimos proventos com que preenche uma vida de provações e de sacrifícios, sujeitando-se sempre aos humores de um mar cada vez menos prenhe do pescado que é o sustento de quem ainda persiste, teimosamente, em acreditar que é possível. Que a esperança não morra!...


A esperança se não morreu, pelo menos está gravemente enferma e, face aos tempos modernos, às tradições e cultura de um povo outra coisa não lhe resta senão, uma vez por outra, “para inglês ver”, proceder-se a uma ou outra “pobre” encenação da atividade ou, então, procurar conhecê-la através da musealização de alguns dos seus elementos ou cenários, que, obviamente, não nos trazem a “vida” que aquela atividade representava para aquela comunidade piscatória.


Xávega é um termo que deriva da palavra árabe «Xabaka», que define não só o aparelho de arrasto demensal mas também todas as questões ligadas às “sociabilidades” deste grupo especial, constituído nas denominadas «Companhas».


Diz-nos Liliana Ribeiro, do Politécnico do Porto/Escola de Educação do Porto, naquele mesmo opúsculo da Fundação Navegar, em 2003, que “Atualmente a principal causa de angústia da classe piscatória é sem dúvida a falta de trabalho. Pelo contacto que foi permitido estabelecer com os arrais das duas companhas ainda em atividade na praia de Espinho – Companha Nelson e Sérgio e Companha Vamos Andando -, facilmente se chegou à conclusão de que os homens do mar continuam a viver no extremo da pobreza. Pode mesmo afirmar-se que as condições materiais de há cem anos atrás não sofreram alterações significativas, na medida em que o pescador só recebe o salário quando a embarcação sai para o mar; está dependente quer das condições climatéricas, como também da existência e quantidade de pescado; é quase sempre o único rendimento de uma família que podemos considerar numerosa em face do salário que aufere; para subsistir das ajudas dos patrões e de trabalhos esporádicos”.


Neste momento não sabemos qual o futuro da arte da pesca em Espinho, ou da Xávega, e que se pratica(va) também em muitas praias da nossa extensa costa. Com certeza o seu futuro não deve ser muito promissor. Porventura estará já moribunda, quiçá “fossilizada” nas quatro paredes do Museu…


Ao procurarmos, pela pena de Unamuno, e com as imagens, quer por nós tiradas no Museu de Espinho, quer as que encontrámos na internet, nos seus diferentes sítios, darmos a conhecer a “Arte da Xávega” (apenas a arte, deixando de lado a organização das Companhas), outra coisa não pretendemos senão trazer ao de cima, a partir de uma atividade, uma parte da alma de uma comunidade, de um povo, e que constitui uma das matrizes da pátria de hoje somos.


Ao entrarmos no Museu, nossos olhos viraram-se, uma vez mais, para estas típicas embarcações, em exposição:

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E, de dentro para fora, esta perspetiva:

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Não nos escapou a fotografia desta linda vareira, a “Rosa «Ceguinha»”,

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bem assim estes dois lindos modelos, em trajes típicos

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(Modelo I)

 

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(Modelo II)


Mas demos a palavra ao Mestre Unamuno: à forma como ele nos descreve a arte xávega e às suas considerações/reflexões.


Nesta zona costeira portuguesa, o pescador vive junto do lavrador. Este semeia o linho e faz as cordas das redes com que aquele pesca,

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(Fonte desconhecida)

 

fornecendo-lhe a madeira para as suas embarcações.

00a2.- httpolhares.sapo.ptconstrucao-de-um-arte-xavega-vicking-foto3002596.html

(Fonte desconhecida)

 

Aqui, nas areias desta praia de Espinho, de proas voltadas para o mar, descansam as barcas dos pescadores.

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(Fonte - http://altasensibilidade.blogs.sapo.pt/espinho-xavega-123489)

 

Recordam-me os barcos em que os Gregos chegaram a Tróia, os navios homéricos. São como exemplares sobreviventes de uma espécie já extinta noutras regiões.
Com efeito, possuem algo de primitivo estas embarcações sem quilha, de fundo chato como o das lanchas, com a proa erguida semelhante à das gôndolas, rematada por uma cruz. (…)

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(Fonte - http://altasensibilidade.blogs.sapo.pt/espinho-xavega-123489)

 


Logo põem os barcos em movimento. Enchem-nos com as redes e, fazendo-os resvalar sobre rodas, empurram-nos na praia abaixo até às espumosas ondas.

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(Fonte - Olhares/Marco)

 

Encostam os dorsos tisnados aos flancos das embarcações.

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Na areia, fica presa a ponta de uma das duas cordas da rede.

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Em cada barco, tomam lugar cerca de trinta tripulantes, meia dúzia para estender as redes e para as demais operações, e dez ou doze para cada um dos enormes remos. Cada barco tem dois remos, com duas barabatanas, com um grande alargamento central, que serve de estropo.

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E assim vão vogando até ao alto mar, para lhe arrancar o sustento, de costas bronzeadas brilhando ao sol, agarrados ao remo, como os galeotas, meia dúzia de homens voltados para outra meia dúzia, em cada um dos dois remos.
Afastam-se um a dois quilómetros – no Inverno, mais, pois no Verão a sardinha aproxima-se da costa – e, antes de lançarem as redes, todos rezam piedosamente. Noutros tempos, os tripulantes das diversas embarcações batiam-se pelo sítio onde iam lançar as redes e, no regresso, alguns vinham escalavrados da refrega.
Regressam três horas depois de terem saído, trazendo a ponta da outra corda. E é um espetáculo emocionante, por vezes solene, ver os barcos de proa levantada, esperando de pescoço erguido as ondas favoráveis e logo investir para a praia, entre cascatas de espuma e a gritaria dos que os esperam.

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De seguida, puxam as duas cordas da rede para as recolher. Puxam-nas da praia, com juntas de bois.

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Puxar as redes com juntas de bois é característico da pesca em Espinho, assemelhando-se esta tarefa a uma tarefa agrícola e dando asas à imaginação para a cotejar com a faina dos campos nesta região em que, como digo, o mar parece que se ruraliza. (…)

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(Fonte desconhecida)

Durante cerca de duas horas, dez juntas de boizinhos ruivos,

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 [Veja-se uma reconstituição, no Museu Municipal de Espinho]

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[Assim como um pormenor dessa reconstituição, no mesmo Museu]

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de larga e aberta cornadura, puxam, pois, cada uma das duas cordas de cada rede, puxando oito juntas ao mesmo tempo e duas para se revezarem. Podemos vê-los caminhando pausadamente pela fina areia,

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que se lhes afunda debaixo dos cascos fendidos, mansos e sofridos, aguilhoados pelas mulheres descalças,

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com o xaile apertado por cima da barriga e o chapeuzinho de lavradora, uma rodilha.

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(Fonte desconhecida)

O xaile, uma faixa que colocam por cima da barriga, abaixo da cintura, é típico das mulheres de Aveiro; serve-lhes de apoio nos seus esforços. E a rodilha, uma espécie de almofadinha circular, justifica-se perlo hábito de transportar cargas à cabeça.
E lá vão os bois, lavrando o mar – é assim que se diz: lavrar o mar

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jungidos com os curiosos jugos do norte e centro de Portugal. Não puxam com a fronte, como em Castela, mas com o pescoço e com a cruz das espáduas, sobre as quais se inclina o jugo, uma peça quadrangular, de madeira de sobreiro, cheia de desenhos e de entalhes decorativos,

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em cujo centro se destacam frequentemente as armas de Portugal, pesando sobre os animais.

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(Fonte desconhecida)

Esses jugos são das coisas mais curiosas que por aqui se podem ver. Os motivos ornamentais, quase sempre de traçado geométrico, variam (…).
E, entretanto, os boizinhos ruivos, cabisbaixos ao peso dos seus ornamentados jugos, suportando as armas de Portugal, seguem praia acima, pisando a areia e puxando as cordas da rede.

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Quando esta aparece à vista e os flutuadores afloram à tona da água, começa um vozear rítmico e vão-se juntando homens e mulheres. O vozear, semelhante ao que fazem quando lançam os barcos ao mar, tem algo de rítmico, com efeito. Ao ouvi-lo, e sobretudo ao ouvir o canto com que acompanham os remos, cheguei a suspeitar se o fado, esse melancólico e lamuriento cantar português, que parece um pedido de esmola ao Todo-Poderoso, não terá nascido ao compasso do golpe dos remos nas ondas do saudoso mar.
Por fim, a rede é arrastada para cima da areia, amontoam-se à sua volta; e ao abri-la, a massa prateada lança chispas ao sol, palpitante mais de agonia do que de vida.

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(Fonte desconhecida)

É um espetáculo trágico aquele montão de vidas a expirar, agitando-se ao sol. Junto às ondas donde saíram, ao ruido do eterno fado do mar. Trazem sustento de vida para homens; e uma vez mais esse oceano, onde talvez tenha começado a vida e em cujo seio ela palpita poderosa, nos
aparece como um vasto cemitério. E na sua maioria não serão estas areias, agora leito de morte, restos de carapaças de seres outrora vivos?
Não será a própria areia um vasto cemitério? Não é o mar?
E, como todo o homem que lê, queira ou não, tem dentro de si um pedante, recordava as teorias de Quintón sobre o berço da vida e de como do mar saímos. Será que ao mar voltaremos? (…)
Feita a selecção do peixe, logo se procede ao leilão ali mesmo, na praia;

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 (Fonte desconhecida)


e no momento do leilão, aparece o homem fatídico de uniforme, o odiado funcionário do Estado, o implacável representante do fisco. Quanto não custa ser uma nação e uma nação pobre!
Numa conversa que tive com um pescador, as duas palavras que mais lhe saíram da boca foram contribuições e fome. Por toda a parte os persegue o fisco, a forma mais concreta que para eles o Estado assume.
Parte da pescaria vai para a fábrica de conservas: ali mesmo podemos ver limparem a cabeça e as tripas às sardinhas; os sangrentos despojos ficam na areia destinados às gaivotas; parte segue para a venda a retalho e a outra parte ainda maior vai em carroças celtas para servir de adubo aos campos. Os caranguejos têm idêntico destino. E os mesmos boizinhos ruivos, de larga e aberta cornadura, que puxaram a rede levam agora para os campos o adubo arrancado ao mar, em carroças de tipo muito antigo, carroças celtas, de rodas maciças, fazendo uma só peça como o eixo, com duas aberturas para lhe aliviar o peso.

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Assim a morte volta a dar vida e assim devolve o mar à terra algo do muito, muitíssimo, que dela os rios levam para o seu seio. E assim podemos ver campos, junto a um milheiral ou junto a um campo de linho donde saem as redes, montes de caranguejos ou de espadilhas, apodrecendo ao sol para enriquecer a terra. (…)
Que tristeza se apodera de nós, quando, depois de percorrermos na memória a esplêndida história das glórias marítimas de Portugal, pátria dos maiores navegadores, contemplamos estes pobres e mansos boizinhos ruivos puxando praia acima as cordas das redes, baixando as testas poderosas sob o peso dos ornamentados jugos, em cujo centro brilha o brasão de Portugal, outrora resplandecente de glória!

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Espinho, Agosto de 1908

Miguel de Unamuno

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publicado por andanhos às 15:20
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