Sábado, 11 de Novembro de 2017

Por terras da Ibéria - Ribadelago, aldeia mártir

 

 

POR TERRAS DA IBÉRIA – RIBADELAGO

 

- A ALDEIA MÁRTIR –

01.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (348)

Na década de 50 e princípios da década de 60 do século passado, na Península Ibérica, nos “reinos” dos ditadores Franco e Salazar, houve uma corrida aos caudais dos mais importantes rios, que corriam a norte da Península, num autêntico porfiar em se empresar água para ela extrair energia elétrica.

 

O território que hoje constitui o Parque Natural do Lago da Sanábria e Arredores foi um desses lugares privilegiados para levar a cabo empreendimentos elétricos.

 

A barragem (embalse) de Vega de Tera fazia parte de um sistema maior de lagos artificiais e canais, denominado “Salto de Moncabril”, nos anos 50 do século passado, durante a ditadura franquista.

 

Caso as coisas não tivessem dado para torto, em vez da magnífica natureza que, apesar de tudo, ainda contemplamos, hoje teríamos um enorme “oceano de água”, repartido por diferentes mares (albufeiras/embalses), produzindo milhões de quilovátios de energia para levar a cabo, principalmente nas grandes cidades, o tão prometido Progresso, que outra coisa não era (e porventura não continua a ser?) o imenso lucro de uns tantos, poucos, senhores disto tudo, à custa de uns tantos, muitos, donos de praticamente nada!

 

Mas vamos à história, sucinta embora, que hoje nos trouxe aqui.

 

A cerca de 8 quilómetros acima de Ribadelago, na província de Zamora (Espanha), no alto da garganta/desfiladeiro (canhão/«cañón») do rio Tera, em 1953, o regime franquista, pela empresa Moncabril, começou a contruir uma presa ou paredão, denominada Vega de Tera, com 33 metros de altura e 200 de longitude. Era um pequeno empreendimento destinado a empresar água (albufeira/embalse) para a produção de energia elétrica.

 

Em 1956, Franco inaugura este empreendimento.

 

Começava a correr o ano de 1959. Chuvoso e frio.

 

A chuva e a água da neve acumulada nas montanhas do Maciço de Peña Trevinca acabaram por encher totalmente a albufeira da barragem de Vega de Tera.


No dia 9 de janeiro de 1959, pela uma hora da manhã (outros dizem meia noite), quando a grande maioria da gente da aldeia de Ribadelago estava a dormir, 8 milhões de metros cúbicos de água, irrompendo da albufeira de Vega de Tera, por via da derrocada de mais de metade do seu paredão, 

02.- Perspetiva I

(Perspetiva I)

02a.- Perspetiva II

(Perspetiva II)

 em 15 minutos (outros dizem 12; e outros ainda, 20), a água, naquela fatídica noite de 9 de janeiro de 1959, trazendo à sua frente, e na sua fúria, enormes blocos de pedras e possantes árvores, vencendo um desnível de 630 metros, chega a Ribadelago, atingindo a altura de 9 metros.

 

Salvou-se quem estava ou pôde chegar ao cimo do povo.

 

A catástrofe de Ribadelago foi a 2ª maior de Espanha em número de vítimas, por via da rotura do paredão da albufeira.

 

Mais de metade da aldeia (75%) ficou destruída. Animais domésticos morreram. E 144 almas foram levadas pelos escombros e rochas, indo ter ao Lago de Sanábria, transformado num autêntico cemitério lacustre.

 

Naquela fatídica noite de 9 de janeiro, de chuva intensa e com uma temperatura de 18 graus negativos, a morte desceu da montanha, coisa jamais acontecida em tempos pretéritos!

 

Dos 144 corpos mortos, apenas 28 apareceram. 116 cadáveres ficaram desaparecidos, porventura sepultados no Lago de Sanábria que, naquela altura, subiu mais de 3 metros.

 

Quando, em 26 de outubro passado, com o nosso amigo Pablo Serrano, levámos a cabo um “passeio fotográfico” «Ao redor do Lago de Sanábria», depois de, no Lago, presenciarmos o nascer do sol,

03.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (161)

não quisemos deixar em branco a nossa passagem pelo lugar deste território assolado pela rotura da barragem do paredão de Vega de Tera, na noite de 9 de janeiro de 1959.

 

E notámos uma circunstância, para nós, estranha. O nome, único, de «Ribadelago» simplesmente já não existe.

 

Depois de 1959, existem duas aldeias ou localidades com o mesmo nome – Ribadelago. Simplesmente, uma, chama-se Ribadelago Viejo; a outra, Ribadelago de Franco, tal como a placa que vos mostramos.

04.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (380)

Só há bem pouco é que se passou a chamar Ribadelago Nuevo.

 

Quisemos saber da razão da existência destas duas localidades apenas distantes uma da outra um escasso quilómetro a separá-las, após a catástrofe de 1959.

 

Pablo, o nosso companheiro de jornada, explicou-nos. Franco, o ditador, em vez de mandar reconstruir Ribadelago, abandonou simplesmente esta aldeia naquela ancestral localidade, após aquele fatídico dia 9 de janeiro de 1959. E mandou contruir, a sudeste, num lugar sombrio, já bem mais nas proximidades do Lago de Sanábria, uma outra aldeia.

 

Quando, para nos dirigirmos às proximidades dos três “cañones” por onde passam os três rios – Segundera, que desagua no Cárdena e Cárdena, que desagua no Tera, vindo de Peña Trevinca, na antiga Ribadelago – ao percorrermos as ruas desta nova aldeia, achamo-la estranha.

05.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (384)

A explicação veio rápida e bastante crítica da boca de Pablo: o ditador pegou no modelo de repovoamento do Plano de Badajoz, com materiais que nada têm a ver com os materiais em uso na zona

06.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (226)

e uma arquitetura de todo estranha à arquitetura local,

07.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (210)

aqui mandou construir a “sua” aldeia, bem ao gosto e maneira andaluza. Com habitações, dado o rigor do clima, pouca aconchegadoras, frias. Sem “cómodos” próprios e necessários para uma aldeia rural da montanha sanabresa. E com edifícios públicos que nada tinham a ver com aqueles a que estavam habituados a frequentar.

 

Esta é a fachada principal, com campanário, que se fez deslocar para aqui - início da povoação -,

08.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (204)

da antiga igreja de Ribadelago arrasada,

09.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (207)

 (Pormenor)

Em Ribadelago Viejo permaneceu o campanário,

2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (278)

exclusivamente utilizado para os fins que numa placa estão inscritos.

2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (273)

Entretanto, em Ribadelago Nuevo, construir-se uma nova igreja,

10.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (369)

de todo diferente da arquitetura tradicional das igrejas sanabresas,

11.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (371)

embora de lindo efeito visual.

12.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (379)

Percorrendo Ribadelago Nuevo (antiga de Franco), Pablo encontra-se com um sobrevivente da catástrofe de Ribadelago, seu amigo – Avelino, de seu nome, que era um adolescente de 15 anos, na altura.

13.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (378)

Salvo erro, salvou-se por, naquela hora, se encontrar no bar/taverna da aldeia, que ficava no cimo da aldeia. Seu pai também se salvou, porque não se encontrava na aldeia: estava em Zamora, tratando da sua abalada saúde. Infelizmente, sua irmã, na altura com 24 anos, encontrando-se a dormir em casa, foi levada pela enorme “riada”. E contou a Pablo toda a sua história como sobrevivente daquele dia. E não só a daquele fatídico dia.

14.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (373)

Também toda a sua história de vida, percorrida pelos quatro cantos da Ibéria. E não só. De como pretendem criar um museu relacionado com este fatídico acontecimento. De como tem dado, por todo o lado, inclusive por terras do Norte de Portugal, testemunho daquele trágico acontecimento e da vida daquele tempo. E, como com alguns sobreviventes e outros descendentes dos infelizes desaparecidos, sonham em contruir ou reconstruir casa no lugar onde nasceram – o agora Ribadelago Viejo.

 

Saídos de Ribadelago de Nuevo, fomos ao encontro de Ribadelago Viejo, depois de termos feito um desvio para, mais in loco, apreciarmos os três “cañones” por onde correm os três rios – Tera,

15.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (309)

Cárdena e Segundera.

16.-2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (322)

O desenvolvimento deste lugar e deste território faz-se, agora, à custa do Turismo de Natureza. Deste lugar, junto a esta pequena ponte de madeira,

17.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (302)

partem 3 trilhos de montanha (“senderos”):

* Trilho 1 - «El Lago y los Monjes»;
* Trilho 3 - «Cañon del Tera»;
* Trilho 4 - «Los cañones del Cárdena y Segundera».


Percorrendo as ruas desta martirizada aldeia, vê-se o que resta da antiga Ribadelago

18.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (260)

(Cenário I)

19.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (256)

(Cenário II)

20.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (266)

(Cenário III)

21.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (279)

(Cenário IV)

e uma vontade teimosa, de alguns, que lutam em fazê-la ressuscitar.

22.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (276)

Impressionou-nos sobremaneira, por entre o casario,

23.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (261)

o seu antigo campanário.

24.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (272)

Tanto deveriam ter tocado, naquela fatídica noite de janeiro, para arrancar dos seus leitos as pessoas que neles dormiam para não serem arrastadas por aquela enorme e gigantesca “riada” (cheia)!…

 

Do meio milhar de pessoas que a aldeia possuía (uns dizem 516; outros, 540; outros ainda, 549) restaram pouco mais de 350.

 

Fomos descendo pelas ruas das aldeias de Ribadelago Viejo.

 

Queríamos ver, mais de perto, a junção ou foz do rio Cárdena no Tera.

25.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (360)

Na aproximação ao rio Tera em Ribadelago Viejo, eis que nos aparece - a Estátua Comemorativa do 50º Aniversário da Catástrofe de Ribadelago.

26.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (335)

Olhámos para o conjunto, observando cada elemento, um por um.

 

Aqui, a placa da efeméride;

27.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (338)

 No pedestal da Estátua, a Lista de todos os mortos e desaparecidos

28.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (341)

e, finalmente, a Estátua.

29.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (340)

Chamou-nos a atenção esta Estátua: uma mãe com seu filho ao colo.

 

Uma habitante de Ribadelago - Carmen Puente -, comentando connosco os elementos desta Estátua, informou-nos que a mesma representa a sua avó e, quem está a seu colo, é ela.

 

O sol que, por detrás dela raiava, não tratava, este símbolo de tragédia, como uma simples mulher ou mãe ou avó, com seu filho ou neta ao colo, fazendo-nos espelhar na sua alma o luto do infortúnio por que passava.

30.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (352)

Aqui, a esta hora, perfilava-se-nos como se fora a aparição de uma santa!

31.- 2017.- Ao redor do Lago de Sanábria (344)

E interrogávamo-nos sobre, efetivamente, qual a razão da escolha de tal símbolo para se comemorar o 50º aniversário desta tragédia.

 

Haveria algum significado particular?

 

Não “vasculhámos” saber das “razões” oficiais.

 

Uma mulher e uma criança ao colo é aqui, para nós, sinal de esperança, de renovação, no meio de tanta tristeza que lhe subjaz. É continuidade da vida e persistência em viver neste rincão, com olhos postos na lonjura do tempo passado e daquele que há de vir.

 

Viemos para casa. Querendo conhecer mais e melhor a história deste trágico acontecimento, fomos lendo artigos e visionando documentários.

 

Deixamos aqui aos nossos leitores os seguintes sítios da internet para, entre muitos outros, querendo, se inteirarem, mais a fundo, sobre este tema:
* Catástrofe de Ribadelago;
* Embalse de Vega de Tera;
* Regresso a Sanábria (do blogue «Por fragas e pragas…»).

 

E deixamos, para visualização, estes três documentários, na sua grande maioria, feitos com testemunhos de sobreviventes e com fotos tiradas à época da tragédia.

 

Numa das fotos da 1ª parte do 1º documentário aparece-nos uma mulher (mãe/avó) com o filho (neta criança) ao colo.

 

Se bem repararmos para a Estátua comemorativa do 50º aniversário da Catástrofe de Ribadelago, damo-nos conta que é a cópia quase fiel da foto da mãe/avó, com o filha/neta ao colo, daquela época!!!

 

E não podíamos estar mais de acordo com a escolha: ao símbolo das cruzes (de morte), espalhadas pela arrasada Ribadelago, uma mãe/avó com a filha/neta ao colo, símbolo de vida e de esperança renovada…

 

ROTURA DE LA PRESA DE VEGA DE TERA EM RIBADELAGO – 1ª PARTE

 

ROTURA DE LA PRESA DE VEGA DE TERA EM RIBADELAGO – 2ª PARTE

 

VEGA DE TERA (PRESA ROTA)

 

LA CATASTROFE DE RIBADELAGO

 

 


publicado por andanhos às 21:53
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